TROVOADAS DE VERÃO

CAPÍTULO I

 

                Atlântico Norte, 14 de Agosto de 2008. A noite estava escura, mergulhada na completa ausência de luar. Um cargueiro navegava pelo extenso oceano acompanhado pelo ruído do cortar da ondulação e o som ténue dos motores. Era um navio comprido, carregado com dezenas de contentores de várias cores. Deixara o porto de Lisboa e navegava para o Canadá com escala prevista no porto de Ponta Delgada na ilha de São Miguel nos Açores.

                Xavier olhava o vazio negro em redor, debruçado no parapeito a bombordo, com a mente a perder-se em memórias. Trinta e seis anos e o sentimento de não ter construído nada na vida para além da sobrevivência diária. Indivíduo esforçado e trabalhador, deixara as suas origens no Alentejo, perto de Évora, para se empregar numa fábrica em Palmela. Vivia sozinho na Quinta do Anjo, a poucos quilómetros do emprego que fora o seu ganha-pão durante vários anos até a falência o atirar para o desemprego. Consciente das dificuldades de arranjar um novo emprego quando se tem mais de trinta e cinco anos e uma vida sem laços que o prendessem, acabou por optar pela emigração.

                Afectivamente, Xavier não ia além das relações ocasionais. Não era homem de querer partilhar a vida com ninguém, pois os elos sentimentais vislumbravam-se na sua mente mais como um peso que como um benefício.

No seu íntimo sempre tivera um espírito aventureiro, daí que emigrar não era mais que uma aventura de quem nada tinha a perder. Ouvira falar em boas oportunidades para os portugueses no Canadá, mas faltava-lhe o dinheiro para a viagem e para um novo começo de vida numa terra estranha.

Numa das suas últimas tentativas de arranjar emprego em Portugal, foi até Lisboa e procurou trabalho no porto da capital. Após algumas recusas, avistou um cargueiro ancorado junto à doca.

A manhã ia a meio, mas o Sol estava já bastante agressivo. O calor e o desalento de quem não conseguia o objectivo deixavam Xavier agastado. Começava a acreditar que ter saído de casa bem cedo para apanhar o comboio em Coina e vir a Lisboa fora um desperdício.

Uma longa prancha ligava o navio à doca. E junto a ela, um homem forte e alto escrevia num bloco preso numa placa rija, enquanto ia gritando ordens para alguns marinheiros. Não saberia dizer que idade tinha, contudo parecia-lhe mais velho que ele.

― Bom dia! ― disse Xavier, aproximando-se.

― Bom dia! ― retribuiu o outro num tom neutro sem grande simpatia, mas sem ser antipático.

― Estou à procura de emprego. ― explicou Xavier. ― Posso falar com a pessoa que contrata? Pode ser que…

― Estás a falar com ele, rapaz. ― cortou o homem, olhando para Xavier e avaliando-o, pois parecia-lhe suficientemente encorpado para o trabalho duro do navio. ― Estou a precisar de mais um par de braços, mas vamos navegar para longe.

― Vão para onde?

― Canadá. Montreal, mais precisamente.

Xavier sorriu perante a oportunidade e respondeu:

― Isso para mim não é problema. Estou a pensar emigrar para o Canadá.

― Mas isto não é um barco de viagem. ― retorquiu o outro. ― É para trabalhar.

― Eu trabalharei.

O homem sorriu-lhe com alguma ironia e disse:

― Espero que sim, senão atiro-te borda fora. Estás contratado!

Foi desta forma que Xavier encontrou um emprego e um meio de transporte para o Canadá. Entrou ao serviço ao fim dessa tarde, levando consigo um longo saco estilo militar com o máximo de coisas que lá coubessem, tudo o que fosse imprescindível a esta nova empreitada da sua vida. O resto ficaria para trás.

Assim, naquele instante, após tanto trabalho, Xavier aproveitava a pausa a repousar olhando o mar. O futuro era uma incógnita, mas ele não o receava, apenas estava ansioso por algo novo, algo que o estimulasse como nada o estimulara nos últimos anos. Parecia quase uma irresponsabilidade, deixar tudo pelo desconhecido, só pela aventura.

Xavier tinha uma aparência robusta, nada de exageradamente forte, mas notavam-se os músculos dos braços e o tronco imponente. Contudo, nunca tivera um trabalho que requeresse tanto esforço físico como aquele, daí que sentisse todos os membros doridos.

A sua concentração no horizonte vazio foi interrompida por uma voz que o chamou. Xavier rodou a cabeça e viu o comandante do navio aproximar-se e colocar-se a seu lado.

― Dia duro, rapaz?

― Não, capitão. ― Ninguém sabia o nome do comandante do navio e todos o tratavam por capitão. ― Apenas um dia de trabalho.

― Devias ir descansar… Amanhã será mais um dia duro, quando chegarmos a Ponta Delgada. Já alguma vez estiveste nos Açores?

― Não. Nunca saí do continente.

― É muito bonito. Eu só não estive nas ilhas do Corvo e Flores. ― contou o comandante, olhando também ele para o negrume envolvente. ― Mas as que visitei apaixonaram-me. Um dia que tenhas essa oportunidade, visita-as.

― Talvez um dia… Agora, estou mais preocupado em chegar ao Canadá.

― Desejo-te sorte, rapaz.

― Capitão! ― chamou uma voz perto dos enormes contentores.

O homem afastou-se de Xavier e foi ver o que se passava.

Por momentos, o seu olhar ficou sobre os homens a conversar até regressar à escuridão do mar nocturno, altura em que um bocejo atraiçoou a sua resistência ao sono. Decidiu recolher ao dormitório.

A camarata onde os marinheiros descansavam era composta por diversos beliches encostados às paredes e presos por abraçadeiras que os impediriam de baloiçar em caso de o mar se apresentar demasiado agressivo.

Muitos camaradas de Xavier dormiam tranquilamente nos seus colchões, enquanto ele apenas se deitara no seu para esperar o sono. Deu por si em memórias, lembranças dos tempos de miúdo nas planícies alentejanas, correndo com os amigos do seu universo infantil, jogando à bola... Enfim, coisas normais da infância. As recordações nem vinham nada a propósito, mas soube-lhe bem recordar essa fase em que os problemas se resumem a nada. De tal forma divagou nas lembranças que acabou por adormecer sem se dar conta.

Se sonhou, a sua mente não registou. Xavier acordou sobressaltado com o som violento de uma explosão a bordo. Logo de imediato, uma sirene alertou a tripulação que já abandonava os colchões para se inteirar do sucedido. Aparentemente não se passava nada que fosse visível do exterior.

No entanto, o problema era bastante grave. Não comprometia a integridade do navio, mas impedia-o de avançar. Xavier não conhecia as causas, apenas sabia que algo fizera explodir uma caldeira que por sua vez danificou o motor, deixando o cargueiro paralisado no alto mar.

O sector dos motores ainda estava com muito fumo quando Xavier desceu ate lá para ver o que se passava. O fogo que a explosão ateara já estava extinto, mas quase tudo em redor se queimara ou chamuscara. Xavier ouviu a voz do comandante:

— Qual é a gravidade?

Os olhares de todos voltaram-se para um homem que Xavier ainda não conhecia, o chefe de máquinas do cargueiro.

— Para já, estamos à deriva. — respondeu o outro. — Vou tentar reparar, mas não sei se tenho tudo o que preciso a bordo.

— Tenta, pelo menos, colocar-nos em marcha para chegarmos a Ponta Delgada. — pediu o comandante. — Lá, conseguiremos reparar o que não conseguirmos aqui.

— Certo, capitão.

O chefe das máquinas, excelente mecânico para quem já servia no navio há bastante tempo, concentrou-se na reparação do motor, ajudado por alguns tripulantes da sua equipa responsável pela mecânica.

Para Xavier, a situação tornara-se complicada, pois estava retido no mar alto sem previsão de sair dali.