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IVAN PEDRO

CAPÍTULO IX

Os sentimentos são coisas difíceis de explicar. Sentimos o que sentimos, ficamos afectados, mas não encontramos palavras para expressar essas emoções. Foi mais ou menos isto que aconteceu comigo, relativamente, ao que sentia por Susana. Com o passar dos dias, tentei habituar-me, minimamente, à ideia de que Camila jamais voltaria para mim. E isso levou a que tornasse a ver Susana com aquela paixão, ternura e carinho com que a via, antes do dia do casamento da minha irmã.

No entanto, houve algumas coisas na minha vida que se alteraram, naqueles últimos dias. Desvinculara-me do Benfica e assinara contrato por um clube semi-desconhecido no meio da parvónia, como Camila dizia, e que fora a causa da nossa separação. Quase sem me aperceber, a minha vida entrava num caminho parecido com o que vivera ano e meio antes, quando informei Camila da minha decisão.

Assim, passados esses meses todos, a situação tinha tendência a repetir-se, alterando-se apenas a pessoa com quem mantinha uma relação mais íntima. Claro que havia diferenças. Camila e eu fazíamos vida de casados, contrariamente, ao que acontecia com Susana, com quem me encontrava esporadicamente aos fins-de-semana.

Susana era uma mulher lindíssima, apaixonante, muito sensual e sexual, carinhosa e preocupada comigo. Não a amava como amara Camila, mas sentia algo especial por ela. E mesmo que ela, por vezes, parecesse fria, acreditava que também sentia algo especial por mim.

Talvez eu estivesse numa fase em que não sabia o que queria. Porém, sabia bem o que não queria. Não queria voltar a perder alguém que gostava de mim. Não queria cometer mais erros que me trouxessem arrependimentos. E, primordialmente, não queria voltar a partir sozinho. Não sei se afectado pelo casamento da minha irmã ou pelos relacionamentos felizes das pessoas que me envolviam, comecei a sentir necessidade de partilhar a vida com alguém. Recuperar a vida de casal que tivera com Camila, mesmo que não fosse com ela.

Dificilmente, Susana abandonaria tudo para me acompanhar naquele regresso a Paúle. Não sabia muito da vida dela, mas aquilo que conhecia, o trabalho no Benfica e a vida estabilizada em Lisboa, deixavam antever a recusa que me daria, quando a convidasse a acompanhar-me. Se não optasse por terminar a nossa relação, ela poderia sugerir a sua continuidade à distância com encontros casuais, conforme a disponibilidade de cada um. Ambas as soluções não me agradavam.

Restava-me até final da semana, altura em que a reencontraria, para pensar numa forma de a convencer. E teria de ficar tudo decidido nesse fim-de-semana, exactamente antes do fim-de-semana natalício, pois eu partiria na Terça-Feira seguinte.

A meio da semana, dei comigo a passear pelo Centro Comercial Vasco da Gama, à procura de uma ourivesaria. Entrei numa loja repleta de jóias e com aquilo que eu procurava. Pensara bastante no que ia fazer e estava decidido a ir até ao fim. Pedi ao empregado que me mostrasse alguns exemplares de alianças. Encontrei uma muito singela e bonita com uma pedrinha brilhante no topo. Era aquela que ofereceria a Susana, quando a pedisse em casamento.

Planeara tudo ao pormenor para que nada falhasse. Combinara com ela, na véspera, jantarmos em minha casa, Sexta-Feira. Tinha idealizado um jantar romântico, um clima propício e um pedido apaixonado. Só que, por muito que planeemos, isso não é sinónimo que as coisas corram como queremos. E algo, horas antes do jantar, se revelou, colocando tudo em risco.

Na tarde de Sexta-Feira, aproveitei para começar a arrumar as minhas coisas. Não iria, certamente, deixar tudo pronto para a viagem, mas grande parte ficaria. Arrumei a roupa, sapatos, alguns pertences que seguiriam comigo, etc... Contudo, a meio da arrumação, encontrei um caixote com revistas antigas que ali estavam guardadas, ainda do tempo em que Camila vivia comigo. Com o intuito de as deitar para o lixo, mais tarde, atirei o caixote para o chão. Só que ele bateu mal no soalho e virou-se, espalhando vários exemplares de “imprensa cor-de-rosa” pelo chão.

Irritado pelo desleixo, comecei a recolhê-las para o caixote.

De repente, parei ao ver a capa de uma delas, uma das mais antigas. Tinha uma foto de Ambrósio e o título “As férias de Ambrósio em Cuba”. A minha vontade foi rasgar a sua cara sorridente, mas a curiosidade fez-me folhear as páginas e ver como ele gastava o dinheiro que ganhava à custa dos verdadeiros protagonistas do futebol, os jogadores.

Senti um choque tremendo que quase me derrubou, ao ver a primeira foto da reportagem. Numa praia em Cuba, Ambrósio aparecia de calções e camisa abraçado a uma mulher morena de biquíni. Reconheci-a imediatamente e a cólera inundou-me. A legenda dizia “Ambrósio e a sua mulher, Susana, num momento descontraído à beira-mar”.

Senti-me traído, atraiçoado pela mulher que iria pedir em casamento, daí a algumas horas. Equacionei a hipótese de estar a exagerar. Talvez ela já não fosse casada com ele. Aliás, ela própria me contara que se divorciara. Porém, até que ponto estaria ela a mentir?

Coloquei dezenas de questões a mim mesmo, procurando respostas e pondo em causa tudo o que conhecia dela. Dei comigo a tentar justificar injustificáveis. Calculei que ela se tivesse apaixonado por mim e não tivesse tido coragem de me contar a verdade. E assim, tinha razão de ser as suas tentativas de esconder factos relativos a si.

Fosse como fosse, tinha de confrontar Susana com estes factos.

Susana chegou pouco antes da hora de jantar. Irradiava sensualidade, apesar do seu olhar distante e semblante sombrio. Cumprimentámo-nos com um beijo frio nos lábios. Percebi que algo a fazia levantar todas as defesas contra mim. Não era possível que ela soubesse o que eu tinha descoberto. Porém, algo a retraia.

Retirou o longo casaco quente e entregou-mo, logo que entrámos na sala. Vestia calças de ganga azul e camisola laranja.

Fui pendurar o casaco atrás da porta de entrada. No regresso, passei pelo quarto e trouxe a revista que descobrira, aberta na página fatídica.

Ao entrar na sala, Susana já se sentara no sofá e aguardava o meu regresso. Mal tínhamos trocado uma palavra, parei junto dela e atirei a revista para o seu colo.

─ Que significa isto? ─ perguntei num tom altivo.

Susana pegou na revista e olhou para a fotografia. Seguidamente, encarou-me o rosto irritado e disse friamente:

─ Está cá tudo escrito.

─ Eu sei. ─ confirmei. ─ Mas, queria ouvi-lo da tua boca.

Susana levantou-se do sofá, atirando a revista para o lado, e caminhou até ao móvel onde ficara a sua mala.

─ Eu fui casada com o Ambrósio. ─ relatou, abrindo a mala. ─ Aliás, o processo de divorcio de que te falei, é exactamente com ele. ─ Retirou umas folhas de papel da mala. ─ Não posso dizer que lamento que tenhas descoberto desta forma. Sempre me poupa o trabalho de te contar, coisa que vinha com ideias de fazer.

─ Tretas! ─ exclamei. ─ Só me estás a dizer isso porque eu descobri.

Susana aproximou-se de mim e entregou-me as folhas. Eu estiquei os papéis e comecei a lê-los. Tinha nas mãos o contrato que Ambrósio me propusera.

─ Que vem a ser isto, Susana? ─ inquiri, incrédulo.

A postura de Susana mantinha-se fria, gélida mesmo, altiva e indiferente ao que eu pudesse pensar ou sentir.

─ O Ambrósio colocou como condição ao divórcio, tu assinares contrato com ele, para não me deixar na miséria. ─ explicou. ─ Somos casados em separação de bens. E basicamente, eu não possuo nada. Se assinar o divórcio, agora, ficarei com pouco mais que a roupa que tenho no corpo.

O meu rosto denunciava toda a confusão que me ia na mente. Imaginara um pedido de desculpa, uma declaração de amor... Que era aquilo? Quem era aquela mulher?

Susana dava passadas calmas pela sala e ia relatando:

─ Quando tu recusaste assinar contrato com o Ambrósio, ainda na Suíça, ele soube que eu te acompanhara na viagem. O processo de divórcio estava a iniciar-se e eu sabia qual seria o resultado para mim. O Ambrósio veio ter comigo e sugeriu-me que te seduzisse. Eu recusei. ─ Parou novamente na minha frente. ─ Quando nos reencontrámos, engracei contigo. És uma boa companhia, mas nada mais. Contudo, o Ambrósio soube da nossa aproximação e telefonou-me. Ofereceu-me um divórcio com muitos milhares de euros, a casa da Ericeira, o carro, a mota e mais algumas coisas. Eu só teria de te convencer a assinar esse papel.

Abanei a cabeça, desejando que tudo não passasse de um pesadelo.

─ E aqueles momentos, entre nós? Não significaram nada?

A resposta veio num encolher de ombros.

─ Foi sexo! ─ afirmou. ─ Tentei usar a arma mais velha do mundo, já que não conseguira convencer-te com conselhos de “amiga”.

─ E para que me trazes isto agora? ─ perguntei, apontando-lhe os papeis.

─ Para que os assines! ─ exclamou. ─ Não andei este tempo todo, a levar contigo, a ter de ir para a cama contigo, para sair da história de mãos a abanar! Já sei que rescindiste com o Benfica. Mas, o Ambrósio continua interessado em ti.

─ E eu que pensei que me amasses. ─ lamentei.

─ Amar-te? ─ soltou uma gargalhada para o ar. ─ És bom na cama e pouco mais! Diz antes que sou uma boa actriz.

─ Uma puta! O que tu és é puta! ─ retorqui irado.

Susana fulminou-me com o olhar e dirigiu-se a mim, agarrando-me pela camisola.

─ Assina essa merda, Ivan Pedro! ─ ordenou. ─ Eu não estou para ficar na miséria. Isso não te faz a mínima diferença. Esse contrato até pode ser vantajoso para ti.

A resposta à sua ordem foi rasgar todas as folhas na sua cara e forçá-la a largar-me, atirando-a para o sofá. Susana caiu desamparada.

Levei as mãos à cabeça, passando-as pelo cabelo. Tinha vontade de lhe bater, de a espancar com toda a raiva de quem se sentia atraiçoado. Susana enganara-me completamente. Nesse instante, veio à minha memória a aliança que lhe comprara. Não havia dúvidas que ela fora uma óptima actriz, pois eu fora bem ludibriado pelos seus falsos sentimentos.

─ Merecias um Óscar! ─ disse-lhe. ─ Confesso que não desconfiei de nada. ─ Susana sentara-se no sofá e ficara de cabiz baixo, com a cabeça apoiada nas mãos, a olhar para os bocados de papel dispersos pelo chão. ─ Só que também tu te enganaste, ao pensar que isso me levaria a assinar aquela porcaria. Sabes o que conseguiste? Sabes? ─ Ela não respondeu, mantendo a postura. ─ Conseguiste que me apaixonasse por ti. E talvez seja isso que me faz sentir tão ferido.

Levantando a cabeça, Susana olhou para mim.

─ Podes não acreditar. ─ continuei. ─ Acredita no que quiseres. ─ Sentei-me no chão, encostado ao armário. ─ Devia correr contigo daqui. Mas, confesso que já não tenho forças para nada. A minha vida tem sido uma merda. E eu estou a começar a ficar farto dela.

Nos minutos seguintes, permanecemos imóveis, cada um no seu canto, a olhar para o vazio. Ela estava consciente do que se avizinhava, pois jamais eu faria o que ela queria.

─ Sei que a última coisa que te importa é o que me possa acontecer. ─ disse ela, quebrando o silêncio que se instalara na sala. ─ Mas, mesmo assim, vou contar-te as consequências. Ele não me vai dar nada do que te enunciei antes, nem o que quer que seja, e ainda fará com que eu perca o emprego. Consequentemente, se não arranjar outro emprego, terei de deixar a casa que arrendei no Parque das Nações.

─ Se esperas que tenha pena de ti, não percas tempo. ─ avisei num tom ríspido.

Susana levantou-se do sofá e soluçou. Sem olhar para ela, percebi que deixara escapar uma lágrima.

─ Poupa-me as lágrimas de crocodilo! ─ pedi no mesmo tom.

Ela não disse nada, caminhando pela sala, pegando na mala e dirigindo-se à porta. Ao passar por mim, agarrei-lhe uma perna e travei-lhe o trajecto.

─ Espera! ─ ordenei.

Susana travou e desviou o rosto, enquanto eu me levantava e ficava à sua frente.

─ Olha para mim!

Ela recusou-se, ficando a olhar para a parede oposta.

─ Olha para mim! ─ repeti.

Com os olhos inundados em lágrimas, ela virou a cabeça e encarou o meu rosto. Tentei ser forte para que os seus belos olhos verdes molhados não me comovessem. Esforcei-me por manter o tom de voz ríspido.

─ Dá-me a tua morada! ─ ordenei com frieza.

Ela franziu o rosto e questionou:

─ Para quê?

Não respondi, esperando que ela fizesse o que eu mandara. Susana assim fez, retirando da mala um papel, uma caneta e escreveu o endereço postal. A seguir, estendeu-me o pedaço de papel.

─ Não sei que pensas fazer com ele. ─ disse ela, tentando reter o choro. ─ E também pouco me importa.

─ Susana! ─ chamei, evitando olhá-la directamente nos olhos para não ser afectado pela sua fragilidade. ─ Tenho uma proposta para ti.

O semblante dela revelou-se exasperado com a situação.

─ Poupa-me, Ivan! ─ pediu. ─ Não quero saber de propostas tuas ou de quem quer que seja.

─ Ouve o que tenho para te dizer. ─ insisti, não perdendo por um momento a voz dura e pouco simpática. ─ Não quero que sejas prejudicada por minha causa. Nem mesmo, não tendo eu nada com esse o assunto. Se quiseres fazer, ou não, o que te vou dizer, é contigo. A proposta é muito simples. Vou iniciar uma nova etapa na minha vida e vou regressar ao meu antigo clube. Preciso de ter alguém comigo, uma assistente, secretária, uma merda qualquer que lhe queiras chamar. Estou disposto a dar-te o lugar e a pagar-te um ordenado.

─ E para que funções me queres? ─ interrogou com ironia. ─ Certamente para “trabalhar” na tua cama.

─ Também! ─ confirmei com frieza. ─ Mas, não só. Quero que te encarregues do meu dia-a-dia. Oficialmente, no local para onde vou, serás a minha namorada. Deveremos parecer sempre muito felizes para que ninguém desconfie. Se contares o que se passa dentro de portas, ponho-te na rua!

─ Se queres uma empregada doméstica, contrata uma.

─ É o que estou a fazer. ─ confirmei com desprezo. Falava como se nada que ela dissesse me pudesse agredir. ─ Como te disse, és livre de recusar. Na próxima Terça, passarei por esta morada, antes de partir para Paúle. Se aceitares a minha proposta, deves estar pronta com a bagagem, à minha espera quando eu chegar. Lá, ficarás a viver comigo na minha casa. ─ Fiz uma pausa. ─ Agora desaparece daqui!

Saí da sua frente e Susana foi buscar o seu casaco e vestiu-o.

─ E vê se assinas a merda do divórcio. ─ avisei, antes de ela sair.

Sozinho em casa, refugiei-me no meu quarto e caí desalentado para cima da cama. Fechei os olhos e evitei pensar naqueles momentos, mas era impossível. Desse lá por onde desse, as minhas relações com as mulheres tinham sempre um triste final. Destino ou o que lhe queiram chamar, só sei que a minha vida circulava numa linha à qual eu não conseguia fugir.

Voltei a levantar-me, permanecendo sentado, e vislumbrei a pequena caixa quadrada de veludo escuro, arrumada sobre o camiseiro do quarto. A minha primeira vontade foi atirá-la pela janela, deitá-la para o lixo... Destruir aquele símbolo da minha estupidez, ao acreditar que Susana me amava.

 

As competições nacionais iriam estar paradas no fim-de-semana do Natal e do Ano Novo. Sendo assim, na melhor das hipóteses, eu só voltaria a jogar daí a quase três semanas. No entanto, a proximidade do Natal e o facto de ter a minha família toda em Paúle, fizeram-me agendar a viagem para aquela semana, de forma a estar com eles nas quadras festivas.

Assim, na Terça-Feira a meio da manhã, parti de Alcochete com o automóvel carregado de malas e caixas, deixando somente livre o banco a meu lado. Confesso que a dúvida de saber se Susana me acompanharia, ou não, me causava um certo nervoso miudinho.

Deixara a casa em Alcochete arrumada e trancada, desconhecendo quando lá voltaria. A mobília ficara toda muito bem protegida com lençóis. E tudo o que não pudera levar na viagem, lá ficou acomodada até ao meu retorno.

Não querendo ser repetitivo, permitam-me que diga que parti perante mais uma manhã cinzenta, vendo a chuva miudinha cair sobre o pára-brisas. A intensidade da chuva aumentou ligeiramente na travessia da ponte, mas voltou a diminuir quando entrei no Parque das Nações, chegando mesmo a desaparecer.

Percorri o Parque das Nações de uma ponta à outra, rumo à zona sul, onde se situava a morada que Susana me dera. Entrei na rua e circulei vagarosamente, olhando para os números nas portas, procurando o dela. Não sei quem teve a ideia de colocar aquele tipo de numeração, já que é tudo composto por algarismos, pontos, letras...

Finalmente descobri o seu prédio e parei o carro ao lado de outro ali estacionado. Saí do Mégane e tentei vislumbrar a presença dela. Olhei em toda a volta, mas não a vi. Susana, aparentemente, recusara a minha proposta.

Contudo, antes que eu regressasse ao carro, a porta do edifício abriu-se e Susana saiu do seu interior. Elegante como costume, caminhou até mim sobre uns belos sapatos de salto alto, envergando um dos seus taillers que usava sempre que ia trabalhar. Parou à minha beira e disse:

─ Parece que não me resta alternativa, senão ir contigo.

Não esquecera a raiva que lhe sentia pelo que me fizera. Porém, também não esquecera que gostava dela e que me sentia muito atraído por si.

─ Falei com o Ambrósio no Sábado e contei-lhe o que se passou. ─ relatou. ─ Confirmei-lhe o insucesso da minha missão. ─ Susana evitava encarar-me, tal como vinha fazendo desde o momento de todas as verdades. ─ Pedi-lhe para assinar o divórcio, apesar de todas as consequências.

─ E contaste-lhe a minha proposta? ─ inquiri.

─ Não, Ivan! Se o tivesse feito, ele ter-me-ia tentado usar para continuar a perseguir-te.

─ Vejo que aprendeste alguma coisa.

Susana encarou-me irradiando ódio e ripostou:

─ Deves pensar que eu tinha muito gozo naquilo que estava a fazer?! Que me sentia bem, estando a enganar-te para que ele não acabasse com a minha vida. Achas?

─ Não vamos falar mais nisso. ─ atalhei, altivo. ─ Já chega desse assunto.

Ela tornou a desviar o olhar para as pessoas que passavam e prosseguiu:

─ Ontem, quando cheguei ao emprego, tal como eu previra, comunicaram-me o meu despedimento. Acertaram as contas comigo e mandaram-me embora. E o Ambrósio revelou-me a sua autoria por este facto, quando ambos assinámos a papelada.

─ Tens bagagem? ─ perguntei.

Susana apontou para o hall de entrada e disse:

─ Está tudo ali.

─ Então, vai buscá-la! ─ sugeri com dureza, demonstrando que não faria nada para a ajudar.

Susana desapareceu, momentaneamente, atrás da porta do prédio, reaparecendo com três malas e alguns sacos. Abri-lhe o porta-bagagem e indiquei-lhe o local onde deveria acondicionar tudo. Já quase não havia espaço para nós, dentro do carro.

Entrei para o meu lugar, aguardando que Susana fizesse o mesmo. Com a chuva novamente a cair sobre nós, coloquei a primeira velocidade e avancei pelo alcatrão.

Quanto mais avançávamos para norte, maior era o temporal. As previsões anteciparam aquela frente chuvosa para aquela manhã, tarde e até noite. Não havia clima melhor para anunciar a chegada do Inverno, o qual escolhera tradicionalmente aquele dia para substituir o Outono.

Quem não se ralava nada com o tempo ou a viagem era Susana. Desde que partíramos, retirara um rádio pequeno da mala, colocou uns auriculares nos ouvidos e assim ficou, ignorando-me completamente. Não lhe interessava conversar comigo, preferindo dividir a atenção entre a música e a paisagem.

O trânsito era muito, acentuado pelo elevado números de camiões, a circular na auto-estrada, e pelo mau tempo que nos fazia a todos circular mais devagar... ou quase todos. Havia sempre aqueles inconscientes que furavam pelo trânsito, saltando de faixa para faixa, conduzindo a velocidades loucas. Só após a passagem pela zona de acesso à A23 é que o afluxo de veículos diminuiu.

A alienação de Susana fizera-me ignorá-la completamente, esquecendo praticamente que ela ia ali comigo. Conduzia com os olhos na estrada, a atenção no trajecto e a mente em vários pensamentos. Interrogava-me, a mim próprio, se teria sido o mais correcto, tê-la trazido comigo. Basicamente, contratara-a para ser uma acompanhante, quase uma prostituta de luxo com aquilo que lhe pagava. É certo que lhe iria atirar um monte de tarefas para cima, mas mesmo assim... E Susana era uma mulher muito independente, ar executivo, óptima relações públicas... Sabia que não ia ser fácil para ela. Tudo podia ter sido muito mais simples, se a realidade fosse a que eu imaginara, quando pensara em pedi-la em casamento.

Gostava muito dela! Penso que eram os sentimentos que nutria por ela que me levavam a fazer aquilo. Esforçava-me por a agredir verbalmente, fazê-la sentir odiada pelo que me fizera. Cada frase que lhe dirigia era carregada de ira e cólera, misturada com indiferença e desprezo. Mas, no fundo, lá bem no fundo do meu coração, eu queria-a junto de mim.

Uma coisa perdera definitivamente, a confiança nela. Qualquer atitude sua merecia a minha suspeita. Vigia-la-ia sempre que possível, não fossem os interesses de Ambrósio pairar novamente sobre a minha vida.

A hora de almoço já ficara para trás, no instante em que parei na portagem de Coimbra, pagando o tributo à concessionária da via. Abandonava a auto-estrada e iniciava nova travessia pelo temível IP3.

Susana desligara-se completamente do mundo à sua volta, chegando a retirar um livro da mala, dedicando-se à leitura para passar o tempo. Mantivera o radiozinho ligado e os auriculares postos. Era-lhe indiferente o caminho que eu fazia, se demorava muito ou pouco, nada lhe interessava.

A minha mente abstraiu-se de pensamentos estranhos ao evoluir da condução. Aquela via era perigosa e traiçoeira, exigindo uma concentração total do condutor.

Chuva, chuva, chuva e... mais chuva. Abatera-se um temporal forte sobre a via. A velocidade a que seguia era extremamente lenta, resultado do avolumar de perigos. Felizmente, cheguei sem percalços até cerca de dois terços do percurso, altura em que desviei o meu trajecto. A fome apertara e com tanta chuva no caminho, optei sair após a placa da Aguieira, seguindo rumo à Barragem, onde havia um restaurante muito bom, não muito longe dali.

O edifício do restaurante não tinha mais de um piso. Era comprido e deveria ter lugar para largas dezenas de clientes. Existia um pequeno parque, logo ao lado, no qual estacionei o carro.

Susana fechou o livro e retirou os auriculares.

─ Já chegámos? ─ perguntou.

─ Não! Decidi parar aqui para almoçarmos. ─ respondi.

A chuva não era tão intensa, mas caia bem. Aconselhei Susana a correr, quando saísse do carro, tal como eu iria fazer, para evitar molhar-se muito.

Abri a porta do carro, saí, fechei-a e corri para a entrada do restaurante. Susana tentou fazer o mesmo. Porém, o chão dali não é como os passeios calcetados da cidade, pois a maior parte é terra batida ou pedras soltas. E os saltos de Susana fizeram-na tropeçar e cair.

Sem pensar, corri em seu auxílio, ajudando-a a levantar-se e trazendo-a para a protecção do alpendre na entrada. Não se ferira, mas torcera um pé, o que a fazia coxear ligeiramente.

O local era acolhedor. O ambiente era rústico e de bom gosto com paredes decoradas a madeira com motivos regionais. Pendurado numa delas, um grande quadro pintado mostrava a Barragem da Aguieira. O salão povoava-se de mesas e cadeiras de madeira num tom escuro envernizado, as quais estavam praticamente vazias, devido ao adiantado da hora.

Escolhemos uma mesa e aguardámos que o empregado nos interpelasse.

─ Como é que está o pé? ─ perguntei.

─ Melhor...

Ao que eu chegara, pensei para mim. Tivera tantos casos, desde relações de ocasião, onde uma noite de sexo era princípio e fim, até relações mais duradouras como a que mantivera com Camila. Ai, a Camila! Como ela continuava tão presente no meu coração. Chegara ao ponto de “comprar” a minha companheira, pagar-lhe para viver comigo. Se Camila tivesse voltado para mim, certamente, teria corrido com Susana. Porém, naquele instante, Susana era o que tinha de mais parecido com uma namorada, uma companheira. Odiava-a tanto quanto gostava dela, mesmo que esse gostar não passasse da atracção física e desejo. Contudo, percebia no seu olhar que ela não gostava de mim e que só ali estava por manifesta necessidade, sendo eu a melhor solução para os seus problemas, pelo menos, por enquanto.

─ Agora que julgo já não teres nada a esconder-me, não queres falar-me um pouco de ti? ─ sugeri, durante a refeição.

Susana mastigava um pedaço de comida, o qual engoliu, bebendo posteriormente um golo de vinho. Sem olhar para mim, disse:

─ Não.

─ Posso saber porquê? ─ insisti.

─ Não me apetece conversar.

─ Vais deixar de falar comigo?

Parando de comer, Susana direccionou-me um olhar duro e respondeu:

─ Pediste para que parecesse uma namorada feliz, quando chegássemos. É o que farei no cumprimento do meu trabalho. Mas, que eu saiba, ainda não chegámos. E quando estivermos sós, não tenciono representar.

─ Estás a inverter os papeis! ─ exclamei, respondendo à sua dureza. ─ Deveria ser eu a indignar-me. Não tu.

─ Foi por tua culpa que fiquei sem nada. ─ retorquiu. ─ Foste tu com a tua recusa que me levou a ter de assinar um divórcio altamente lesivo para mim.

Abanei a cabeça, não querendo acreditar na maneira como ela via as coisas.

─ Só espero que honres a tua proposta.

─ Se quiseres, até te faço um contrato de trabalho. ─ disse com ironia.

─ Não é preciso. ─ recusou com brusquidão. ─ E aviso-te que assim que puder, quando arranjar algo melhor, te deixarei para sempre.

─ Como queiras. ─ disse com distanciamento.

Continuámos a comer, em silêncio, mais alguns minutos. Contudo, voltei a insistir:

─ Tens família?

─ Não quero falar sobre isso.

A agressividade da sua voz era bem patente a cada palavra que dizia. Optei por não a maçar mais com perguntas, saboreando a refeição e apreciando o interior do local. Fora Augusto quem me levara a conhecer aquele restaurante, certo dia em que fôramos almoçar juntos. Costumava falar-me muito daquele local, principalmente da barragem, onde passava tardes à pesca com alguns amigos na adolescência.

Lá fora, a chuva continuava a cair e a luminosidade parecia diminuir com o avançar da tarde. Não queria fazer nenhuma parte da viagem à noite, mas isso seria quase impossível. Pelo menos, esforçar-me-ia por chegar ao final do percurso que me restava do IP3, antes de anoitecer.

Por entre as gotas que se despenhavam no solo, surgiu um clarão brilhante, ao qual se seguiu um estrondoso trovão. O clima tinha tendência a piorar. Seguiram-se outros clarões e o som do trovejar aumentava, significando a sua aproximação.

─ Parece que vem aí um temporal dos fortes. ─ disse o empregado, trazendo a conta que lhe pedira.

─ Infelizmente, parece que sim. ─ concordei. ─ É péssimo para quem ainda tem uma viagem pela frente.

─ Vai para longe?

─ Para Paúle.

O homem franziu o rosto e alertou:

─ Ainda é um bocado longe. Não é muito, mas com este tempo...

Anui com a cabeça, reparando no semblante entediado de Susana.

O pequeno diálogo foi interrompido pelo toque do meu telemóvel. Retirei o aparelho do bolso e atendi uma chamada do meu pai, preocupado pelo facto de eu ainda não ter chegado, pois sabia que eu faria a viagem naquele dia. Descansei-o, informando onde estava.

─ Como é que está aí o tempo? ─ indaguei.

Um novo relâmpago ecoou no exterior.

─ Está a chover. ─ disse o meu pai. ─ Mas, parece que aí está pior. Estou a ouvir a trovoada...

Antes de desligar, avisei o meu pai que iria esperar algum tempo para ver se o temporal abrandava.

Devemos ter estado ali cerca de meia hora, desde que pagara a conta. Esperava uma melhoria do clima, mas tive que me dar por satisfeito com o afastamento da trovoada.

Simpaticamente, um empregado do restaurante acompanhou-nos até ao carro com um guarda-chuva. Susana agradecera-lhe a gentileza, não deixando de reclamar pelo solo enlameado que lhe arruinou os sapatos. O indivíduo deixou-nos, quando ambos já beneficiávamos da protecção do interior do carro, regressando ao edifício.

Com o motor a trabalhar, liguei os faróis do automóvel e voltei a colocar as escovas do limpa-pára-brisas a limpar a água que tapava a visão. Receava o resto do percurso. As nuvens dispersaram-se um pouco com o findar dos trovões, mas ainda chovia muito e o entardecer já dava lugar à noite. Fiz-me à estrada e esforcei-me ao máximo na concentração no percurso, pois mil olhos seriam poucos para tudo o que tinha pela frente. E não poderia contar com os olhos de Susana que voltara a colocar os auriculares e a olhar para o vazio.

Senti um enorme alívio, minutos mais tarde, no momento em que virei na saída do IP3. A noite já se instalara por completo, deixando tudo escuro e igualmente húmido. Essa escuridão e as gotas no vidro do carro aumentavam o contraste da luminosidade dos faróis dos carros que se cruzavam comigo. O resto do trajecto, mesmo com aquela chuva, foi bastante mais pacífico, uma vez que o trânsito era muito menor. Circulava a uma velocidade muito moderada e defensiva, o que me levou a chegar a Paúle à hora do jantar.

Estacionei o Megane em frente à minha casa na aldeia. Não se via ninguém, apenas as luzes nas janelas fechadas. A chuva continuava sem indícios de parar.

─ Como é que vamos descarregar a bagagem com esta chuva? ─ interroguei-me em voz alta.

Percebendo que eu falara, Susana retirou um dos auriculares e perguntou:

─ O quê?

─ Como é que vamos descarregar a bagagem com esta chuva? ─ repeti.

─ Não sei. ─ respondeu com indiferença.

─ Até me admirava se soubesses. ─ retorqui.

─ Que queres dizer com isso?

─ Nada, nada!

Sem adiantar mais assunto, peguei no telemóvel e liguei para o meu pai, avisando-o da minha chegada. Enquanto marcava o número, olhei para a cara de Susana que vislumbrava o exterior com um semblante de quem se interroga “Onde vim eu parar?” Compreendia-a bem. Eu próprio me sentira assim, quando cheguei a Paúle pela primeira vez.

O meu pai insistira comigo, várias vezes, para que fosse jantar a casa da minha irmã. Recusei em todas com a desculpa de que estava cansado. Não me estava a apetecer ir para lá com Susana. Queria entrar em casa, se possível descarregar o carro e deitar-me na minha cama. Estava estafado.

Saímos do carro, demos uma corrida por entre a chuva e subimos as escadas. Introduzi a chave na fechadura e abri a porta. Acendendo a luz, disse:

─ Susana! Esta é a minha casa.

O aspecto do interior era arrumado, tal como sempre estava, pronto a receber-me a qualquer altura. Contudo, o rosto dela não melhorou. Abanou a cabeça, não querendo acreditar no que via.

Nesse instante, a chuva parou. Sem pensar em mais nada, aproveitei para voltar a descer e começar a carregar a bagagem para casa. O céu mantinha-se muito adensado de nuvens, o que levava a crer que o intervalo não duraria muito tempo. Claro que todo o conteúdo que trazia no carro foi transportado por mim, pois Susana ignorara propositadamente o meu esforço, limitando-se a conhecer a casa e a torcer o nariz a quase tudo.

Arrasado era pouco para descrever o meu estado, assim que pousei no chão a última mala. Sentei-me estoirado, junto à porta da sala, atenuando o esforço. Susana sentara-se no sofá e olhava para mim, desfrutando do facto de me ver naquele estado sem fazer nada para me ajudar.

─ Se quiseres comer alguma coisa, há comida na cozinha. ─ disse-lhe. ─ A minha irmã deixou cá algumas coisas para quando eu chegasse. ─ Voltei a levantar-me do chão. ─ Eu estou cansado. Vou para a cama! Amanhã arrumo as minhas coisas.

Sem esperar qualquer resposta dela, dirigi-me ao meu quarto. Retirei-me da roupa húmida e transpirada e despenhei-me no interior de um par de lençóis lavados. Não sei o que Susana fez ou deixou de fazer, a seguir. Adormeci instantaneamente.

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