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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XXIII

Com o desfecho da relação com Camila, a minha postura perante todas as pessoas alterou-se. Infelizmente, não foi para melhor. O orgulho e arrogância deram lugar à antipatia e desprezo. Saíra novamente magoado de uma relação com uma mulher. Dizia a mim mesmo que estava farto delas ou, como disse num desabafo a Augusto, “as mulheres são como um campo de golfe, só interessam se pudermos usar os buracos”. Foi das coisas mais estúpidas que já disse, mas ilustrava bem os meus sentimentos.

Naquele momento, eu era a futura estrela do Benfica, era assim que me via. E olhava tudo e todos de cima para baixo. Estava farto de Paúle e ansiava por partir definitivamente para Lisboa.

Após uma noite mal dormida, uma manhã a dormir e um almoço inexistente, desloquei-me ao Estádio de Paúle para conversar com Alfredo Carrapiço na sede do clube.

Não voltara a falar com ele desde o jogo contra a União de Coimbra. Não esperava que me recebesse muito bem, após o sucedido. Contudo, esse facto não me ralava minimamente, pois, em breve, Paúle e as suas gentes seriam passado.

Bati à porta do pequeno gabinete que Alfredo Carrapiço tinha na sede do clube. Ouvi a sua voz perguntar:

─ Quem é?

Abri a porta e espreitei, dizendo:

─ Sou eu.

Ao ver-me, Carrapiço não alterou a sua expressão. Permanecia um homem abatido sem o bom humor que o caracterizava quando o conheci. O seu rosto estava mais enrugado e o seu aspecto revelava um envelhecimento rápido nos últimos meses. Tudo consequência da prisão do filho.

─ Entra! ─ exclamou, olhando-me com curiosidade.

─ Como vai isso? ─ cumprimentei. ─ Podemos conversar?

─ Senta-te. ─ respondeu, apontando-me a cadeira.

A própria forma de falar era diferente, parecendo nem ter força para falar alto e gesticular no seu peculiar comportamento abrutalhado.

─ Como é estão as coisas? ─ perguntei.

Alfredo Carrapiço encolheu os ombros, não encontrando nada para dizer.

─ Como é que está o Miguel?

─ Preso. ─ respondeu.

─ Já está prevista a data do julgamento? ─ inquiri sem que estivesse realmente interessado em saber.

Alfredo Carrapiço abanou a cabeça negativamente. Seguidamente, apoiou os cotovelos na mesa e quis saber:

─ Que vieste cá fazer, Ivan? Não acredito que o motivo da tua vinda seja preocupação pela minha pessoa. Aliás, se te preocupasses com isso, terias feito o que eu mandara, no Domingo.

─ Já lhe disse que tenho pouca capacidade para alinhar em mediocridades.

─ Então, talvez nunca devesses ter vindo para Paúle. ─ retorquiu. ─ Agora, não esperes que te felicite ou agradeça o que fizeste.

─ Não espero, descanse.

─ Então que queres? ─ interrogou, aborrecido.

─ Vim dizer-lhe que assinei contrato com o Benfica para a próxima época. ─ informei com naturalidade. ─ Por isso, lamento que não possa continuar a ser útil ao Paúle.

─ Será que lamentas, Ivan? ─ questionou. ─ Tu queres lá saber do Paúle. Nós servimos para te manter activo.

─ O senhor não esperava que eu ficasse para sempre em Paúle, pois não? ─ redargui com pouca paciência para aquela conversa. ─ Aliás, se as coisas tivessem corrido bem este ano, eu já não estaria aqui.

Carrapiço abanou a cabeça e disse:

─ E mesmo assim, mesmo sabendo que não ficarias cá no próximo ano, decidiste-te a fazer aquilo que fizeste no Domingo?

─ Ainda me irá agradecer...

─ Agradecer? ─ barafustou Carrapiço. ─ Agradecer o quê? Tu deste o primeiro passo para a nossa ruína! Este ano teria sido uma desgraça se tivéssemos avançado para a UEFA. Se calhar és da opinião que devíamos ter jogado a Taça UEFA, iludidos no sonho que poderíamos jogar de igual para igual com os outros. Bem se viu a desgraça que foi a Super Taça contra o Porto.

─ A minha opinião não interessa. ─ ripostei. ─ Só quis informá-lo disso. E não pense que não me preocupo com o clube. Para sua informação, falei com o presidente do Benfica para que vos emprestasse algum jogador.

─ De que me serve isso? Este clube vai precisar de dinheiro, e muito, para enfrentar o que aí vem!

─ Também lhe arranjei o patrocinador.

─ E quanto vai ele injectar no clube?

─ Não sei.

─ Então que me trazes tu? Basicamente, ofereces muito, mas não significa nada.

Por alguns instantes, gerou-se um silêncio entre nós.

─ Lamento que veja as coisas dessa maneira. ─ acabei por dizer. Levantei-me da cadeira e dirigi-me à porta. ─ Já cumpri a minha missão de lhe comunicar a minha saída, por isso, vou andando. Fique bem, senhor Alfredo Carrapiço.

A notícia da minha futura saída do G. D. Paúle foi recebida com tristeza pelos meus colegas de equipa. Alguns já deveriam saber, quando o comuniquei num dos treinos dessa semana, pois Augusto e Aquiles estavam ao corrente da situação. Também o doutor Gervásio se manifestou pesaroso, tal como a sua assistente Livia. A rapariga tinha lá a sua maneira de ser, mas nunca me pareceu ser má pessoa. Já Freitas e Barnabé demonstraram uma postura semelhante à de Alfredo Carrapiço, sendo que o segundo devia estar bastante feliz com a notícia.

Por mim, a época teria terminado naquele jogo com a União de Coimbra. Ajudara o Paúle a concretizar um sonho e estivera presente no segundo momento consecutivo de glória do clube. A partir daí, já só pensava no regresso ao Benfica. Talvez por isso, não tivesse a mínima vontade de treinar ou ser incluído na ficha do último jogo do campeonato. Só que nunca o referi a ninguém, uma vez que demonstraria uma enorme falta de profissionalismo.

O nosso último desafio, relativo à trigésima quarta jornada e última do Campeonato Nacional da 3ª Divisão série C, iria opor-nos ao Cesarense, a única equipa acima de nós na classificação. Não seria mais que cumprir calendário, pois eram duas equipas consagradas, o Cesarense campeão da série e o Paúle segundo classificado, ambos promovidos ao escalão superior.

O jogo ocorreria numa terra que nunca ouvira falar antes, uma vila de nome Cesar. E foi para lá que no Domingo, a seguir ao almoço, um autocarro fretado pelo Paúle levou os jogadores, técnicos e dirigentes.

Não me recordo exactamente a duração da viagem ou os quilómetros percorridos até lá. Quando entrei no autocarro, sentei-me no meu lugar e coloquei os auriculares do meu rádio nos ouvidos.

Apesar da brilhante campanha do Cesarense, o clube revelava não ter instalações ao nível das que se orgulhava o G. D. Paúle. Não que fossem más, mas ficavam muito a dever ao ideal. O autocarro deixou-nos perto da porta principal, parando numa estrada apertada. Tivemos de ir a pé ao longo do interior do complexo desportivo, atravessando todo o comprimento do relvado para alcançar um pequeno edifício atrás de uma das bancadas, o qual estava identificado como sendo o balneário.

Não sei explicar bem porquê, lembro-me que quando cheguei à vila senti um aperto no coração, uma espécie de angústia. Segui com os meus colegas pelo trajecto, notando-lhes a alegria no olhar pelo objectivo alcançado e pela descompressão daquele jogo que já não decidiria nada.

No entanto, mesmo estando tudo decidido, os bilhetes haviam esgotado e existiam já muitos espectadores durante o período de aquecimento. Felizmente, o calor não era tão intenso como no jogo da semana anterior. E mesmo o Sol, ora aparecia ora se deixava encobrir pelas nuvens.

Freitas não fizera alterações em relação à equipa que defrontara a União de Coimbra. Por isso, os mesmos onze entraram no relvado para vingar a derrota da primeira volta. Coube-nos a nós o pontapé-de-saida, no preciso momento em que o Sol se deixou encobrir definitivamente pelo aglomerado de nuvens cinza claro.

Nada fazia adivinhar o que iria acontecer. O jogo começou com um toque de Emanuel para Castanha, o qual passou a bola para mim. Controlando o esférico, fintei um adversário e corri junto à linha lateral. Quando me deparei com o segundo adversário, este deslizou pela relva, na minha direcção, mostrando-me as solas das botas. Acertou-me violentamente nas pernas, ceifando-me com as suas pernas a envolverem as minhas numa espécie de tesoura, de forma a que caísse com a sua rasteira. Senti que o pé da minha perna, onde tivera a grave lesão que quase terminara com a minha carreira, ficara preso na relva. O meu corpo fez uma rotação no ar, obrigando os pitons a soltarem-se da relva com consequências catastróficas para o joelho. No milésimo de segundo seguinte, percebi que o osso da perna se fracturara com a torção. Caí desamparado no chão, gritando desesperado com as dores mais horríveis que já tivera.

O doutor Gervásio e Livia correram para mim, percebendo a gravidade da lesão. Alguns dos meus colegas quiseram retribuir a soco a atitude do outro jogador, obrigando à intervenção do árbitro, do técnico do Cesarense e de Freitas, separando ambos os lados. A equipa reuniu-se à minha volta e viram o médico fazer sinal a Freitas para que eu fosse substituído.

Os bombeiros de serviço no estádio, depois de serem chamados pelo árbitro, ajudaram o doutor Gervásio e Livia a colocarem-me na maca e transportaram-me para o balneário.

Eu não consegui olhar, mas, diz quem viu que o aspecto da minha lesão era chocante. Não me lembro quem entrou para o meu lugar. Só que, a partir daquele momento, o espectáculo estava estragado. Os meus companheiros não tinham cabeça para mais nada, senão para a preocupação pelo meu estado. O Paúle acabou por perder o jogo.

No balneário, o doutor Gervásio encarregou-se da primeira fase do meu tratamento, deixando Livia encarregue do auxílio que fosse necessário aos jogadores, durante o jogo. Deu-me uma injecção e uns comprimidos para aliviar as dores. Contudo, nada evitou as dores do momento arrepiante em que recolocou o osso no lugar.

Ligeiramente mais calmo, perguntei:

─ É muito grave?

─ Não penses nisso, agora. ─ disse-me com enorme apreensão.

─ Diga-me a verdade! ─ pedi.

─ Ainda não sei bem. ─ respondeu. ─ Vou pedir que sejas transportado para Coimbra e irei contigo. Vamos fazer-te alguns exames a essa perna para ver a extensão da fractura. ─ Fez uma pausa, procurando as melhores palavras. ─ Não te vou enganar. Penso que terás de ser operado.

Não me pronunciei. Estava completamente destroçado.

Ainda antes do fim da primeira parte do jogo e do regresso dos meus colegas ao balneário, fui transferido para uma ambulância. Tive de ser transportado em maca, ao longo do terreno de jogo, entre o relvado e a bancada, pois a ambulância não podia chegar ao edifício do balneário. Alguns dos meus colegas, vendo-nos passar ali perto, perguntavam ao doutor Gervásio como eu estava. Ele encolhia os ombros e não respondia. Apesar de estarmos a passar em frente aos adeptos que assistiam ao jogo das bancadas, ninguém demonstrou ralar-se comigo.

O doutor Gervásio solicitou aos indivíduos da ambulância que nos transportassem para o Hospital da Universidade de Coimbra, local onde o médico tinha alguns conhecimentos e maior confiança para me prestar um auxílio melhor. Só que eles não se mostraram muito receptivos à ideia, uma vez que tinham ordens para me levar para o hospital mais perto.

─ Se o problema é o custo, eu pago a despesa da deslocação! ─ ouvi o doutor dizer, irritado com a questão. ─ Eu quero que ele seja levado, imediatamente, para Coimbra!

Perante a firmeza do doutor Gervásio, eles acabaram por seguir em direcção a Coimbra. Nem por um instante, ele me deixou sozinho, sempre preocupado com as minhas dores e examinando a minha perna.

 

Quando o jogo terminou, em Cesar, a equipa de Paúle regressou à aldeia com a preocupação estampada no rosto. Joselino sugerira a Alfredo Carrapiço que o autocarro os levasse a Coimbra para me verem. Porém, o presidente do Paúle não estava na disposição de aumentar a despesa. Compartilhou com todos a preocupação, mas quem quisesse visitar-me em Coimbra teria de o fazer pelos próprios meios.

Assim que soube do sucedido, a minha irmã partiu ao meu encontro, acompanhada por Augusto. Deixou Cibele com a dona Palmira, pois era desnecessário fazê-la vir. Aquiles também viajou para Coimbra, tal como alguns dos meus colegas de equipa.

Logo que cheguei ao Hospital da Universidade de Coimbra, os médicos fizeram-me exames para analisar a lesão, sempre com o doutor Gervásio por perto. Perante as radiografias, decidiram-se por me operar naquela noite.

Adormeci com a anestesia na cama da sala de operações. E só acordei na manhã seguinte, numa cama do hospital, após a operação.

Quando abri os olhos, a sensação dominante era como se tivesse apanhado uma bebedeira. As pálpebras custavam a abrir e o corpo pesava mais que o habitual, efeitos da anestesia. Cada quarto tinha espaço para quatro camas, mas naquele, somente eu ali estava.

Poucos minutos depois de acordar, entrou uma enfermeira simpática que me perguntou:

─ Como se sente, senhor Ivan?

─ Mais ou menos. ─ respondi, ainda recordando os factos passados.

A enfermeira cinquentona de porte forte inteirou-se que não me faltava nada e saiu do quarto, avisando:

─ O senhor doutor já virá falar consigo.

No entanto, antes que algum médico viesse falar comigo, apareceu uma visita surpreendente.

─ Raquel? ─ interroguei, reconhecendo-a ao entrar.

─ Como estás, Ivan? ─ perguntou-me com preocupação. ─ Soube o que aconteceu pelo doutor Gervásio. Vi-o cá esta manhã, achei estranho e perguntei-lhe o que se tinha passado. Lamento muito!

─ Também eu... ─ suspirei. ─ Que fazes aqui? Vieste cá de propósito ver-me?

─ Não foi propositado. ─ retorquiu. ─ Estás no hospital da Universidade, onde eu estudo.

─ Sabes alguma coisa do meu estado? ─ inquiri ansioso.

Raquel abanou a cabeça, negativamente.

Nesse instante, entraram no quarto o doutor Gervásio e outro médico, o qual me foi apresentado como sendo o cirurgião que me operara. O primeiro pediu a Raquel que saísse.

─ Como é que eu estou, doutor? Como está a minha perna? ─ perguntei, apontado para ela, pendurada e engessada.

O cirurgião manteve-se presente, mas não se mostrou interessado em fazer ele o relatório. Acabou por ser o doutor Gervásio a dizer:

─ É mais grave do que inicialmente pensávamos.

─ Como assim?

─ Fizeste uma fractura do perónio e houve uma rotura dos ligamentos do joelho!

─ E...?

Detestava aquela forma que os médicos tinham de falar, explicando os problemas como se estivessem a falar com um colega.

─ Dificilmente voltará a jogar futebol, senhor Ivan Pedro! ─ afirmou secamente o cirurgião.

─ O quê? ─ interroguei incrédulo. ─ Ó doutor Gervásio! Diga-me que isso é mentira!

O doutor Gervásio deitou um olhar condenatório ao colega, pois procurava as melhores palavras para me comunicar a cruel notícia, quando o outro o fez. Seguidamente, olhou para mim, baixou o olhar e disse:

─ Infelizmente é verdade.

Completamente petrificado com a notícia, comecei a sentir as lágrimas subirem-me aos olhos.

─ Isso não pode ser verdade! ─ exclamei. ─ Vocês devem estar errados. Não pode ser assim tão grave.

O doutor Gervásio aproximou-se e sentou-se numa cadeira ao lado da minha cama. Entretanto, uma enfermeira chamou o cirurgião e este abandonou o quarto.

─ Ivan! Pediste-me para te dizer a verdade. ─ lembrou o médico. ─ A fractura do perónio provocaria uma paragem de algumas semanas. O problema é a rotura dos ligamentos, pois foram gravemente atingidos com a torção da perna. Quando retirares o gesso, terás que fazer fisioterapia. Mesmo que voltes a jogar, tal só acontecerá daqui a um ano ou mais, dependendo de teres de ser operado novamente ou não. Não quero criar-te falsas expectativas. Não tenho prazer nenhum em te dizer isto. Mas, tens que te preparar para a eventualidade de a tua carreira ter acabado.

Não fui capaz de dizer nada. Permaneci em silêncio, não acreditando que aquilo estivesse a acontecer. Em menos de uma semana, via os meus dois maiores sonhos desmoronarem-se, o amor de Camila e jogar no Benfica.

─ A tua irmã está lá fora com o Augusto! ─ informou. ─ Posso mandá-los entrar?

─ Não estou com muita vontade de falar com quem quer que seja. ─ redargui num tom amargo.

─ Eles estão cá desde ontem. ─ argumentou o médico. ─ Fala com eles.

─ Tudo bem. ─ acedi. ─ Mas, só a minha irmã.

O doutor Gervásio levantou-se da cadeira e saiu do quarto em direcção à sala de espera. Poucos segundos depois, a minha irmã entrava no quarto.

O quarto do hospital tinha uma decoração fria com as paredes beges e o chão em mármore. Exista uma janela grande, ao fundo, por onde constatei que o Sol reaparecera. As camas eram em ferro lacado de um branco amarelecido pelo tempo. E pela junção das paredes com o tecto corriam umas tubagens que não sabia com que finalidade.

─ Como estás, maninho? ─ perguntou a minha irmã, dando-me um beijo na face e acariciando-me o braço.

─ Sinto-me miserável.

Manuela ajeitou a cadeira onde se sentara o médico.

─ O doutor Gervásio disse que só poderia entrar eu.

─ Fui eu que lhe pedi. ─ expliquei. ─ Não estou com disposição para ver ninguém.

─ É pena. O Augusto também te queria ver.

─ Lamento.

Manuela olhou para o enorme bloco de gesso que se enrolava à volta da minha perna.

─ Já sabes? ─ perguntei.

─ O quê?

─ Não vou poder voltar a jogar futebol!

Apertando a minha mão, tentando transmitir-me alguma força, disse:

─ O doutor Gervásio contou-nos.

─ Está aí mais alguém, para além do teu marido?

─ Está o senhor Carrapiço e o teu treinador... não me recordo do nome.

─ Olha que dois. ─ disse eu, abanando a cabeça.

Manuela levantou-se da cadeira e contornou a cama numa passada calma.

─ O pai e a mãe vêm a caminho. ─ informou. ─ Mal lhes contei o que acontecera, disseram que vinham logo para cá.

─ Não lhes devias ter dito.

─ Ó Ivan! São nossos pais. Que esperavas que fizesse? Tu numa cama de hospital e eu não lhes dizia?

Passei a mão pela cabeça e soprei.

─ A última coisa que preciso é pessoas à minha volta a dizerem que têm muita pena, que gostam muito de mim e blá blá, blá blá...

─ Não querias que viessem?

─ Não me refiro a eles. ─ corrigi. ─ Apesar que sei como o pai sofre com estas coisas. Bem me lembro do seu desespero, quando me lesionei da última vez. Eles fazem-me falta! Sei que preciso deles, assim como preciso de ti!

Sorrindo-me, Manuela aproximou-se e abraçou-me com ternura.

─ Sabes que podes contar sempre comigo.

─ Eu sei, mana. Eu sei. ─ confirmei. ─ Mas, gostava de ter cá outras pessoas.

─ A Susana, não é? ─ questionou a minha irmã, pensando que adivinhava.

─ Por acaso, não pensava nela. ─ retorqui. ─ Pensava na Camila.

─ Na Camila? Mas, vocês estão separados há tanto tempo.

Segurando-lhe a mão, indiquei-lhe a cadeira para que se voltasse a sentar.

─ Vou contar-te um segredo. ─ comecei. ─ Eu e a Camila encontrávamo-nos em Alcochete, sempre que eu ia lá abaixo.

─ Então era essa a razão das tuas... ─ O seu rosto alterou-se, ficando sério e zangado. ─ E a Susana? Como foste capaz de fazer isso à rapariga?

─ Ela sabia. ─ expliquei com naturalidade. ─ A Susana sabia.

─ E não se importava? De facto, sempre notei que vocês não se estavam a dar nada bem, antes de ela partir. Mas, daí a ela saber isso e...

─ Mana! ─ interrompi. ─ Já que estou numa de confissões, vou contar-te a verdade. ─ Reparei no espanto do olhar da minha irmã, receando as novidades que estariam para vir. ─ A vinda de Susana para Paúle foi uma combinação. Antes de partir, descobri que ela era cúmplice do Ambrósio.

─ O empresário que te tramou?

─ Esse mesmo. ─ confirmei. ─ Mas, ela fazia-o porque ele a chantageava. Ela foi casada com ele e estava para se divorciar, quando me conheceu. Ele ia deixá-la na miséria, a menos que ela me convencesse a assinar com ele.

─ Não sei o que te diga. ─ suspirou atónita. ─ Sempre gostei muito dela. Tornámo-nos amigas...

─ Não penses mal dela! ─ pedi. ─ Não cometas o mesmo erro que eu. ─ O meu olhar desviou-se para o vazio e prossegui. ─ Descobri tudo em vésperas de partir para Paúle. Tinha pensado em pedi-la em casamento, só para que ela não me fugisse como acontecera com Camila. Confrontei-a com a situação, discutimos... Não interessa. Acabei por lhe propor o papel de namorada apaixonada, em troca de dinheiro.

─ Estou espantada! ─ exclamou Manuela. ─ Porque fizeste isso? Tu que podes ter qualquer mulher... E tiveste tantas.

─ Medo. ─ justifiquei. ─ Receio de voltar a enfrentar as dificuldades da vida sozinho. Não queria continuar a passar as noites solitário numa casa vazia. E estava farto das relações de uma noite... Sabia bem, confesso. Só que no fim, receava sempre que a merda do preservativo rebentasse, sei lá. Devo estar velho.

Encolhendo os ombros, Manuela abanava a cabeça, não querendo acreditar.

─ Tem graça que, sempre que a vi contigo, tinha a certeza que ela gostava de ti.

─ E estás correcta. ─ afirmei. ─ Ela confessou-me que estava apaixonada por mim, na noite anterior à partida para o Porto.

─ E tu?

─ Desprezei-a. Esperava a decisão de Camila, confiante que ela deixaria o noivo para ficar comigo.

─ E vai deixar?

─ Não.

Senti-me estremecer com o desespero de vários planos desfeitos. Não consegui evitar que uma lágrima me escorresse do rosto.

─ Só faço merda, mana.

─ Não digas isso. ─ ordenou ela, não evitando que começasse a lacrimejar.

─ Curioso que, quando falaste na Susana, senti saudades dela. ─ confidenciei, limpando o rosto. ─ Agora que penso em tudo o que ela aguentou...

Manuela tirou um lenço da mala e limpou a sua face. Respirou fundo e secou as últimas lágrimas. Tornou a guardar o lenço e indagou:

─ Quer dizer que, desde que vieram para Paúle, não existia nenhuma relação amorosa entre vocês?

─ Não, não existia. Só que aconteceu uma coisa que nos aproximou e acabámos por nos envolver sexualmente, apesar de não haver qualquer compromisso. Chegámos a acordar que quem encontrasse primeiro um novo parceiro, o outro seguiria a sua vida.

─ Foi isso que aconteceu, quando reencontraste a Camila?!

─ Não foi bem assim. ─ corrigi. ─ Quando fui a Lisboa falar com o Velez, reencontrei a Camila. Tínhamos criado uma boa relação de amizade na net. Só que tu conheces-me... Perante a oportunidade de... Tu sabes. Ela não recusou e começámos a encontrar-nos. Com o tempo, ela disse que tinha dúvidas em relação ao casamento e eu joguei a minha última cartada, pedi-a em casamento. Ela foi pensar no assunto e andou este tempo todo a pedir mais tempo para pensar. Encontrávamo-nos, íamos para a cama e, quando lhe falava nisso, era sempre a mesma resposta. Só que eu notei-a tão duvidosa da relação com o noivo que acreditei que ela voltaria para mim.

Manuela abanava a cabeça, recriminando-me inconscientemente.

─ Perante isto, Susana era um estorvo. ─ continuei. ─ Só que nunca a quis mandar embora sem a certeza de que Camila voltava. Entretanto, não abdicava de tratar mal Susana, instigado pelo ódio ao que ela me fizera e esquecendo aqueles bons momentos que havíamos vivido. Sem o dizer, acabei por a obrigar a afastar-se. E nem no último momento, quando ela se humilhou perante mim, revelando o que sentia, eu lhe dei hipóteses.

─ Que sentes por ela, Ivan?

─ Por quem? Pela Susana?

─ Sim.

─ Não te sei explicar muito bem. ─ disse eu. ─ Fui apaixonado por ela, mas não houve amor. Ou, pelo menos, não houve o amor que partilhava com Camila. E bastou-me ver a Camila para que toda a paixão por Susana se esfumasse.

─ Não me digas que vais tentar ir atrás da Camila, novamente?

Fiz que não com a cabeça.

─ A Camila não se portou bem comigo. ─ concluí. ─ Não esqueço o amor que sinto por ela, mas o tempo ajudar-me-á a ultrapassá-lo. Sinto-me enganado por ela. E indirectamente, a Camila fez-me perder alguém que me amava verdadeiramente. Pensei muitas vezes que a Susana estava comigo pelo dinheiro. Se nos primeiros tempos ela não tinha outra saída, depois poderia ter arranjado uma solução e abandonar-me. Mas, não. Eu tratava-a mal e ela continuava ali, cuidava das minhas coisas e... de mim. ─ Olhei Manuela nos olhos. ─ Tu não sabes como ela está? Onde está?

─ Não, Ivan! Nunca mais falámos desde que foi para o Porto.

─ Vocês eram tão amigas. Não te deixou nenhum contacto?

─ Não. ─ respondeu firme. ─ Para que queres saber dela?

─ Tens razão. Depois do que lhe fiz, deve odiar-me de morte.

O diálogo foi interrompido por uma pancada leve na porta. Por ela, apareceu o doutor Gervásio.

─ Ivan! Estão aqui os teus pais. ─ informou. ─ Posso mandá-los entrar?

─ Pode. ─ concordei. ─ E peça ao Augusto para vir também.

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