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IVAN PEDRO

CAPÍTULO VIII

Domingo amanhecera solarengo para meu agrado, pois tinha um jogo nessa tarde. Espreitei pela janela e encontrei um exterior molhado pela chuva nocturna. Com a alegria contida de quem vê o Sol despontar na época das chuvas, desejei que ele mantivesse a sua presença, pelo menos, até ao fim do jogo.

Camila não me voltara a dizer nada, desde o último encontro, dias antes. E eu respeitara o seu pedido. Contudo, aquela fase de incertezas provocara já alguns efeitos. Nesse fim-de-semana, quando Susana me telefonou para nos encontrarmos, eu recusei com a desculpa de que precisava de me concentrar no jogo desse Domingo. Susana compreendeu e desejou-me sorte.

De facto, se eu queria fazer um bom jogo e demonstrar que continuava a ser o Ivan Pedro dos grandes momentos, tinha de me concentrar e suspender, momentaneamente, as ideias respeitantes a Camila.

Na tarde daquele Domingo, a equipa B do Benfica recebia o Vialonga. O desafio de futebol seria jogado num dos campos secundários do Estádio da Luz. Conforme me prometera o técnico, eu jogaria de início.

Subi ao relvado em último lugar, acompanhado por Aquiles que me lançava palavras de incentivo. Os restantes mostravam-se mais tímidos, mas revelavam-se bons companheiros e eu sabia que podia contar com eles. E olhando para todos, reparei em algo que não reparara antes: Eu era o mais velho entre deles.

Já no relvado, surpreendi-me com a quantidade de público que aguardava para ver o jogo. Não fariam inveja a nenhuma equipa da Superliga ou Liga de Honra, mas eram muitos para um jogo da 3ª Divisão. Ao vê-los, Aquiles confessou-me o seu nervosismo, pois o seu pai viera assistir ao jogo.

As equipas B não são equipas de competição, são equipas de rodagem. Estas equipas não lutam por vencer títulos das suas divisões ou trepar de escalão. São equipas com o intuito de formar jovens saídos dos juniores e dar-lhes competição e rodagem.

Certamente que era isto que o Vialonga esperava daquela equipa B do Benfica. No entanto, eu fui o pior que lhes podia ter acontecido naquela tarde. Claro que aquela equipa do Benfica ganhava jogos e, salvo erro, estavam a meio da tabela classificativa. Contudo, não eram temidos para além do normal.

Eu tinha a necessidade de provar a mim próprio, e com isso aos outros, que ainda mantinha todas as minhas capacidades. Entrei em campo como se fosse disputar uma final. Os meus colegas iniciaram a partida com um ritmo lento, mas, rapidamente, foram contagiados pela minha ambição. Cada vez que tocava na bola, fintava vários adversários e criava uma jogada de perigo para a baliza do Vialonga. Aos dez minutos, marquei o primeiro golo. Aos vinte e cinco, dera mais dois a marcar. E antes do intervalo, fizera o meu segundo e o Benfica B vencia o Vialonga por quatro a zero.

As pessoas entusiasmaram-se com a minha exibição e gritaram-me elogios no meu caminho de regresso ao balneário. Porém, não era só eu que jogava bem, também a restante equipa estava a fazer um bom jogo, onde sobressaia Aquiles na defesa, revelando enormes capacidades e deixando adivinhar o brilhante defesa central que sairia dali.

A segunda parte foi a cópia da primeira, completo domínio nosso sem que o Vialonga tivesse argumentos para evitar o encaixe de mais três golos, um deles marcado por Aquiles no seguimento de um pontapé-de-canto.

O jogo terminara com uma ovação dos muitos sócios do clube que assistiram ao jogo. Ouvi gritarem o meu nome e incentivarem-me. As pessoas julgavam que eu estava ali por falta de qualidade, por isso, tinham a certeza que, depois daquele jogo, eu regressaria à equipa principal. Nada poderia ser mais errado, mas eles não conheciam a história.

Recebi muitos elogios dos meus colegas e do técnico pela brilhante exibição e pelo espectáculo que tinha dado dentro das quatro linhas. O mister chegou mesmo a pedir-me desculpa pela ideia que fizera de mim e informou-me que, se o treinador da equipa principal não me fosse buscar, ele contaria comigo para os próximos jogos.

Não era muito, aquilo que eu conquistara naquela tarde. Considerava-o uma batalha ganha em toda a guerra que se me opunha.

Bastante tempo mais tarde, quando abandonei os balneários, Aquiles convidou-me a conhecer o seu pai. Este esperava-o num restaurante, ali no Estádio da Luz.

Já ouvira falar no seu pai, o senhor Lúcio Freire Velez, homem mediático que dava cara à oposição à actual direcção do Benfica. Individuo não muito alto, magro, usava um cabelo encaracolado aparado e um bigodinho. Diziam-se muitas coisas sobre ele, umas boas, outras más. Contudo, aquelas que prevaleciam eram que nascera numa família humilde, trabalhara desde pequeno nas obras e construíra a fortuna que tinha à custa de muito suor. Quase me fazia lembrar Alfredo Carrapiço com aquele relógio de ouro enorme e o anel no dedo mindinho.

Quando entrámos no restaurante, Lúcio Velez levantou-se para nos receber. Abraçou o filho e felicitou-o pelo bom jogo que fizera.

Aquiles olhou para mim e apresentou:

─ Pai! Este é o Ivan Pedro.

─ Sei bem quem é. ─ disse o senhor Velez, estendendo-me a mão.

─ Também sei quem o senhor é. ─ retribui, em jeito de graça.

Lúcio Velez riu-se e apontou-nos as cadeiras para que nos sentássemos.

─ Espero que não tenha uma ideia muito má de mim, senhor Ivan Pedro.

─ Pelo contrário. Sempre tive uma boa impressão de si. E tive pena que não tivesse ganho as eleições do clube.

Lúcio Freire Velez candidatara-se à presidência do Benfica nas eleições anteriores. No entanto, perdera a corrida por escassos dez por cento, num dos sufrágios mais concorridos do clube.

─ Diga-me, senhor Ivan Pedro! ─ exclamou Lúcio Velez. ─ Que faz um jogador como você, com a sua categoria, perdido na equipa B?

Tamborilei ligeiramente com os dedos sobre a mesa e respondi:

─ Tem de fazer essa pergunta à actual direcção do Benfica.

Lúcio Velez franziu o rosto e indagou:

─ Algo me diz que a sua presença ali não foi mera opção técnica. Que aconteceu?

Perante os ouvidos atentos de Aquiles e seu pai, relatei toda a história da minha ligação ao Benfica, desde a contratação até àquele dia.

─ Canalhas! ─ barafustou o homem. ─ Como é que podemos ganhar algum titulo com gente desta na presidência? ─ Fez uma pausa, bebendo um golo do copo de vinho à sua frente. ─ Sabe, Ivan Pedro? Eu hei-de o trazer para a equipa principal. Não quero que o seu talento seja descoberto daqui a um ou dois anos no Porto, como já aconteceu com outros.

Soltei um sorriso, sabendo que ele nada podia fazer. Contudo, Aquiles explicou o porquê daquela crença toda:

─ O meu pai vai candidatar-se às eleições do próximo ano.

Olhei para o seu pai.

─ É verdade! ─ confirmou. ─ Anunciarei brevemente a minha candidatura.

─ Espero que ganhe. ─ desejei. ─ Fará, certamente, melhor trabalho que os que lá estão.

─ Estou certo que sim. E espero contar consigo lá.

Encolhi os ombros, consciente da incerteza do futuro.

Lúcio Velez colocou a mão no meu braço e pediu:

─ Aguente-se, Ivan Pedro! Você tem valor. Aguente até eu lá chegar. E você será a nova estrela daquele clube.

Quem me dera que as suas previsões estivessem certas. Só que o futuro não se apresentava risonho. E eu não sabia que opções teria ainda de tomar, antes de ele conseguir chegar à liderança do clube. Se é que algum dia lá chegaria.

De facto, eu estava decidido a ficar, mesmo jogando na equipa B. Desde que pudesse jogar, poderia aguentar-me até ao fim do contrato, o que aconteceria pouco depois das eleições. E se tudo corresse como Lúcio Freire Velez desejava, já negociaria com ele a renovação.

No entanto, um novo factor veio trazer novos desenvolvimentos.

O Benfica, mesmo que jogue “a feijões”, arrasta consigo adeptos e comunicação social. Aconteceu que, naquela tarde, havia jornalistas de alguns importantes jornais. E, no dia seguinte, publicaram com algum destaque a minha exibição e a estranheza por eu não estar no plantel principal. Chegaram mesmo a questionar o técnico e a direcção sobre isso, mas todos se esquivaram a responder.

Se eles perante as câmaras pareciam não se interessar pelo assunto, nos bastidores tomaram as suas medidas. E, infelizmente, não fui o único visado nelas.

No princípio dessa semana, Lúcio Velez convocou a comunicação social, impulsionado pela insatisfação por mais uma derrota da equipa principal do Benfica, para anunciar a sua candidatura à presidência do clube.

A meio da semana, após mais um treino, Aquiles e eu fomos chamados ao gabinete do treinador da equipa B. O nosso rosto revelava bem a completa ignorância daquela convocatória, principalmente, sendo nós os únicos solicitados. Fizemos o percurso juntos e silenciosamente, imbuídos em alguma apreensão.

Encontrámos o treinador no mesmo sítio onde eu o encontrara na última vez que ali estivera. Recebeu-nos com um semblante triste e pediu-nos para que nos sentássemos nas duas cadeiras em frente à sua secretária.

─ Lamento imenso, aquilo que tenho para vos dizer. ─ começou.

─ Então diga logo, mister! ─ pediu Aquiles. ─ Está a deixar-me preocupado.

─ Ontem, fui chamado à direcção para receber ordens... ─ interrompeu-se. ─ Acreditem que isto me deixa numa pilha de nervos. Estes bandidos que dirigem este clube só querem saber deles.

─ Que aconteceu? ─ perguntei num tom, substancialmente, mais calmo que Aquiles.

─ Tu fizeste um jogo formidável! ─ afirmou, olhando para mim. Depois olhou para Aquiles. ─ E tu também. ─ Nova pausa. Direccionou novamente o olhar para o meu rosto. ─ Sinceramente, não percebo esta gente. Ao que parece, eles não querem que tu jogues. Nem aqui, nem em lado nenhum. Não sei o que lhes fizeste, mas odeiam-te!

─ Eu sei, mister!

─ Chamaram-me lá cima e ordenaram-me que não voltasse a convocar-te. Senão... Se eu voltasse a colocar-te em campo...

─ Despediam-no! ─ completei.

O treinador anuiu.

─ Já esperava essa reacção! ─ confidenciei. ─ Depois do alarido da imprensa.

─ Desculpa-me! ─ pediu. ─ Estou de mãos atadas. És um jogador formidável. Tinhas lugar em qualquer equipa do mundo. Não percebo porque te fazem isto.

─ Fazem-no por eu me recusar a servir de meio para lhes encher os bolsos. ─ expliquei.

─ Tenho quase trinta anos de serviço a esta instituição. ─ contou. ─ Dói muito, ver estes canalhas à frente do clube, fazendo passar a imagem de que querem um clube vencedor, quando o andam a destruir, aos poucos, longe dos olhares dos sócios.

─ Como fica a minha situação, mister? ─ indaguei.

─ Da minha parte, podes continuar a treinar-te com os Bês! Mas, aconselho-te a fazeres tudo para saíres. Arriscas-te a que acabem com a tua carreira, se ficares.

─ Já tinha ideia de o fazer, se a situação continuasse.

─ Vocês desculpem interromper! ─ pediu Aquiles. ─ Mas, que tenho eu com tudo isso?

─ A direcção também me ordenou que te afastasse da equipa! ─ informou rispidamente, apesar de não ter tido intenção de o fazer.

─ Porquê? ─ interrogou Aquiles, alterando-se.

─ Parece que é uma represália pela candidatura do teu pai.

─ Filhos da puta! ─ barafustou, elevando o tom de voz. ─ Cabrões! Eu vou lá acima falar com eles.

─ Tem calma! ─ aconselhei, segurando-o pelo braço, quando ele já se dirigia para a porta. ─ Não te precipites, nem faças nada de que te arrependas.

Aquiles deu um pontapé na cadeira, deu um grito de raiva, mas acabou por se acalmar e regressar ao seu lugar.

─ Lamento imenso tudo isto. Mas, não posso fazer mais nada. ─ constatou o treinador, retendo toda a indignação que lhe ia na alma. ─ Só vos desejo que consigam encontrar a melhor solução.

─ Quero é que o Benfica se foda. ─ vociferou Aquiles.

─ Não digas isso! ─ exclamei. ─ Não confundas a instituição com os animais que a dirigem. Aprende a separar as coisas! Eu aprendi, ao longo destes últimos meses.

Aquiles controlou as suas emoções, principalmente, a raiva que lhe percorria o sangue jovem. Abandonou a sala do treinador comigo e afastou-se, recusando mesmo a minha companhia. Temi que o seu estado transtornado o levasse a alguma atitude que o pudesse prejudicar. Felizmente, ele nada fizera, para além de ir para casa pensar no futuro.

A caminho do meu carro, estacionado no parque do estádio, telefonei a Jorge. Contei-lhe o episódio sucedido e disse-lhe:

─ Quero sair daqui! Vamos tratar de rescindir o contrato.

─ Mesmo com a clausula dos dois anos? ─ questionou.

─ Tentaremos evitá-la! Mas, se tiver de ser, será!

 

Nessa noite, Camila telefonou-me para o telemóvel. A sua voz parecia triste e o seu tom saía numa espécie de sussurro.

─ Precisamos conversar acerca do outro dia. ─ disse ela.

─ Também acho.

─ Quando é que nos podemos encontrar?

─ Quando quiseres.

─ Amanhã de manhã, no mesmo sitio, está bem para ti?

Para mim, qualquer hora em qualquer sítio, era bom para estar com Camila.

Não escondo que me custou bastante levantar cedo para ser pontual no encontro. Devo ter chegado dois minutos atrasado. Camila já lá estava, sentada no banco de pedra, a olhar para a fonte no centro da Praça do Império.

O dia, tal como já vinha acontecendo nos últimos, pintara-se de cinzento, repleto de nuvens no céu. Não parecia que fosse chover. Contudo, o frio era muito e o Inverno estava à porta. Antes de me aproximar dela, lembrei-me que estava quase a fazer um ano que Camila tivera o seu acidente, deixando todos destroçados com a notícia da sua morte. Tal como naquela altura, já todo o ambiente apresentava motivos festivos, pois a quadra natalícia aproximava-se quase tão rapidamente quanto a estação gelada.

─ Olá! ─ cumprimentei-a com um sorriso

─ Olá! ─ retribuiu sem sorriso.

Passara os dias a pensar nela e a sonhar com a possibilidade de a voltar ter nos meus braços. Depois daquele beijo, do amor que lhe senti nos lábios, estava certo que ela voltaria para mim. E tal como lhe prometera, estava disposto a pôr um ponto final na minha carreira de futebolista, só para a ter comigo.

─ Peço desculpa de te fazer vir aqui tão cedo! Mas, precisava de te dizer o que tenho para dizer. Isto tem-me consumido nestes últimos dias.

─ Também a mim.

Camila mantinha o olhar nas pedras sob os seus pés.

─ Aquele beijo foi um erro! ─ exclamou friamente. A frase feriu-me como uma espada no coração. Senti todas as minhas fantasias desfazerem-se no nada, adivinhando o que se seguiria. ─ Foi um momento de fraqueza que não desejo repetir. No entanto, não recuso a amizade que me propuseste. Porém, aviso-te que só existirá isso, entre nós! ─ Encarou-me com o seu belo olhar e avisou imperiosamente. ─ Se voltares a insistir em algo mais, não me voltarás a ver. E nem a minha amizade te darei. ─ Levantou-se do banco. ─ Vou casar com o Nick no próximo ano, tal como está planeado. ─ Olhou bem no fundo dos meus olhos. ─ Eu amei-te, Pedro! Mas, já não... ─ Desviou o olhar. ─ ...te amo!

Fiquei a olhá-la sem saber o que dizer, vendo-a perante mim, aguardando uma palavra.

─ Tudo bem. ─ disse eu, por fim. ─ Se é isso que desejas. Não insistirei mais, apesar do que sinto. Será o meu castigo eterno por não ter sabido dar-te valor.

─ Ainda bem que estamos de acordo. ─ congratulou-se com algum distanciamento.

─ Sim, penso que sim.

Como não tínhamos mais nada para conversar, Camila acenou-me timidamente com a mão e afastou-se. Observei-a até ela sair do meu campo de visão, sentindo uma dor profunda, certo de que me despedia dela para sempre.

 

As negociações com o Benfica demoraram até ao final da semana, pois nem o clube abria mão da cláusula de compensação numa futura transferência, nem Jorge admitia que ela existisse. Houve muita discussão e muitos murros na mesa. Eu nunca estive presente, confiando plenamente nas capacidades de Jorge. Ele não conseguiu o ideal, mas o resultado não foi mau: Rescindi com o Benfica, não recebendo mais nada e com o impedimento de assinar por qualquer clube da Superliga, Liga de Honra ou estrangeiro até final da época (o equivalente à duração do meu contrato com eles).

A notícia da minha rescisão não teve muita publicidade. Porém, teve a suficiente para, numa das noites do fim-de-semana seguinte, receber um telefonema de Alfredo Carrapiço.

Sozinho em casa, sem sequer ter a companhia de Susana que fora para fora em trabalho, atendi o telemóvel.

─ Então, rapaz? Soube que deixaste o Benfica. ─ lamentou.

─ Não se preocupe! Estou melhor assim. ─ atenuei. ─ Vale mais não ter clube do que andar a vaguear por um.

─ E já pensaste o que vais fazer no futuro? Já tens clube? ─ perguntou curioso. ─ Há aí muito clube da Superliga que não se importava de te contratar. Tens é que te despachar e conseguir um contrato, antes que as inscrições de Inverno fechem.

─ Eu sei. Só que não posso assinar por nenhum clube da Superliga até final da época.

─ Então assina por um da Liga de Honra. ─ sugeriu. ─ Não podes é ficar sem jogar.

─ Também não posso assinar por nenhum deles. ─ expliquei. ─ Nem estrangeiros.

Fez-se um silêncio. Senti que Alfredo Carrapiço queria perguntar algo, mas mostrava-se receoso. Eu quase adivinhava o que ele queria perguntar. A sua voz confirmou:

─ Podes assinar... pelo... pelo Paúle? ─ As palavras tropeçavam na língua. ─ Desculpa perguntar! Sei que não é nada interessante para ti, voltares para aqui. Mas, olha! Esta terra tem muitas saudades tuas! Tu mereces melhor que nós. Só quero que saibas que a porta do GDP estará sempre aberta para ti.

─ Eu sei, senhor Carrapiço.

Perante o cenário que se me deparara nos últimos dias, nada me prendia a Lisboa. Ficara sem contrato com o clube do meu coração e saíra derrotado da última tentativa de recuperar o amor de Camila. Até os meus pais iriam permanecer em Paúle, pelo menos até ao novo ano. Não havia mesmo nada que me prendesse ali... excepto Susana.

─ Senhor Carrapiço! ─ chamei para o lado de lá da linha.

─ Sim?

─ Terei muito gosto em regressar a Paúle. ─ afirmei. ─ Vou telefonar ao meu empresário e pedir-lhe que lhe telefone para acertar os pormenores.

Alfredo Carrapiço não disse mais nada. Só o ouvi gritar de felicidade, do lado de lá, dizendo:

─ Ele vai voltar! Ele vai voltar!

Informei, posteriormente, o meu empresário acerca da decisão de voltar. Jorge telefonou a Alfredo Carrapiço para acertar clausulas principais do contrato, mesmo não havendo muito a discutir. E como o presidente era mais que isso, era um amigo, confiava nele totalmente. Nem houve necessidade de Jorge se deslocar lá, ficando combinada a assinatura do contrato para quando regressasse a Paúle.

O meu regresso foi uma informação que se espalhou rapidamente pela aldeia. Soube-o pelo meu pai que me telefonou, querendo saber o que se passava, pois as pessoas em Paúle não falavam de outra coisa. Relatei-lhe todos os factos sucedidos e percebi a tristeza na sua voz por eu deixar o clube do nosso coração.

Só voltei mais uma vez ao Estádio da Luz, antes de partir para Paúle. Ficara de lá voltar para me despedir dos meus antigos colegas e ir buscar algumas das minhas coisas, deixadas no meu cacifo do balneário. Presenciei o treino matinal da equipa B e aguardei que eles saíssem do balneário, após os exercícios, para os cumprimentar. Os seus rostos não escondiam a mágoa por me ver partir, principalmente, Aquiles.

Aquiles deixou-se ficar para o fim, esperando que todos se despedissem de mim e se afastassem. Seguidamente, deu-me um abraço forte.

─ Vou ter saudades tuas!

Retribui o abraço.

─ Vais continuar por aqui? ─ perguntei, quando ele me largou.

Aquiles encolheu os ombros e disse:

─ Parece que me vão emprestar ao Real.

─ Ao Real Madrid? ─ interroguei atónito.

─ Não. ─ negou ele, não conseguindo deixar de sorrir, por entre aquele rosto de tristeza. ─ Ao Real Massamá! E tu?

─ Vou voltar ao Paúle. ─ relatei. ─ Vou ficar por lá até ao final da época. Depois, logo se vê.

─ É o teu antigo clube, não é. Os que ganharam a Taça, a época passada.

Assenti com a cabeça. E nesse instante, uma ideia surgiu na minha cabeça:

─ Não queres vir jogar para o Paúle? ─ Aquiles sorriu, pensando que eu estava a brincar. ─ Estou a falar a sério, Aquiles! Posso falar com eles para tentarem o teu empréstimo, junto do Benfica.

A ideia não foi totalmente descartada por Aquiles, ficando com o olhar perdido, pensando na hipótese. Acabou por dizer:

─ Nem sei onde isso fica.

─ Eu também não sabia, quando o Jorge me arranjou contrato com eles. ─ confidenciei. ─ Acredita que é um sitio agradável. E jogar por jogar na 3ª Divisão, sempre vinhas comigo e ajudavas o G. D. Paúle.

─ Não sei, Ivan! Vou falar com o meu pai. Pedir-lhe um conselho.

─ Fazes bem. ─ concordei. ─ Se quiseres, telefona-me!

Não lhe estava a propor nada de especial. Aliás, não era nada tentador. Para quem vivia em Oeiras, como era o caso de Aquiles, seria muito mais vantajoso ir jogar para o Real Massamá, que ficava a escassos quilómetros, do que para o G. D. Paúle no fim-do-mundo, algures na região beirã.

Aquiles trocou ideias com o pai, o qual também ficara muito triste e desiludido com a minha saída do Benfica. Ideias acerca da transferência para Paúle. Por muito desvantajoso que isso pudesse parecer, Aquiles equacionava a hipótese pelo simples facto de eu lá estar. Continuava a considerar-me um exemplo e achava que podia aprender muito comigo. E o seu pai concordou com esta ideia. O seu telefonema apanhou-me de surpresa, comunicando-me que gostaria que alguém do Paúle se deslocasse a Lisboa para conversar com o seu empresário.

Quando falei nisto a Alfredo Carrapiço, dando-lhe a minha opinião sobre o miúdo, este entusiasmou-se muito com a ideia e disponibilizou-se a viajar para a capital, de forma a negociar com o empresário de Aquiles e o Benfica, o empréstimo do jovem jogador.

Desejosos de verem o filho do principal rival do presidente bem longe, os responsáveis do clube não colocaram entraves ao negócio. Um pouco mais difícil foi acertar a verba mensal a pagar a Aquiles. O seu empresário tinha umas ideias um pouco megalómanas acerca do assunto, mas felizmente chegou-se a um acordo. E Aquiles viajaria mesmo para Paúle, para representar o G. D. Paúle.

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