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IVAN PEDRO

CAPÍTULO VII

Mais um dia de Dezembro e mais um dia cinzento, triste e encharcado.

Os jogadores do plantel da equipa B reuniram-se todos no balneário, equipando-se para mais uma sessão de treino. Não sei qual era a vontade deles, mas a minha era nenhuma.

Ao meu lado, equipava-se um jovem jogador, ex-júnior, chamado Aquiles Velez. Fizera dezoito anos seis meses antes e estava em plena primeira época de seniores. Aquiles era um jovem rebelde, agressivo e com muito talento e carisma. Atirava-se incondicionalmente à luta e ao esforço. Antevia-lhe um grande futuro. Tinha uma postura entroncada e era alto, talvez mais de 1,90m, e jogava como defesa central.

Não tinha um grande contacto com os meus colegas. Não fazia grande esforço para os cativar. E a minha fama de desterrado também não os atraia.

No entanto, Aquiles era diferente. Talvez por também ser novo por aquelas bandas, surgiu uma empatia entre nós. Ele conhecia-me pelos meus feitos no futebol, principalmente a minha actuação na meia-final e final da Taça de Portugal, e considerava-me um exemplo a seguir. Procurava-me para o aconselhar e treinava sempre perto de mim.

Sabia que tinha naquele miúdo um bom amigo, apesar de só nos vermos durante os treinos.

Sofremos hora e meia de treino sob uma chuva terrivelmente forte, exercitando-nos às ordens do treinador. Durante a peladinha, a bola mal rolava pelo relvado enlameado. Terminámos o treino encharcados, suados e enlameados. Acho que o duche nunca me soubera tão bem, como daquela vez.

Quando saí do balneário, limpo e bem agasalhado, passei pelo gabinete do treinador da equipa B. Bati à porta e uma voz autorizou a minha entrada. Encontrei-o sentado atrás de uma secretária, ainda com o boné a cobrir a vasta cabeleira grisalha, a ler um jornal.

O seu rosto surpreendeu-se ao ver-me, arregalando os olhos que sobressaiam de uma face coberta por um bigode farfalhudo e uma barba comprida.

─ Podemos conversar, mister? ─ pedi.

─ Claro! Senta-te!

Dei alguns passos até à cadeira do lado de cá da secretária e sentei-me.

─ Que se passa? ─ perguntou.

─ Queria ser convocado e jogar, mister. ─ disse-lhe. ─ Até hoje, fiquei sempre fora das convocatórias.

O homem franziu o sobrolho.

─ Eu gosto que os meus jogadores joguem moralizados, com vontade de ganhar. ─ afirmou. ─ Não me parece que seja o teu caso. Tu foste mandado para cá, por motivos que não conheço, mas que se resumem a situações de indisciplina...

─ Indisciplina, mister? ─ interrompi. ─ Que história é essa? Se não conhece a história, eu conto-lha. Eu não quis ser emprestado ao Alverca. Por isso, mandaram-me para aqui até arranjarem outra solução. Isso é indisciplina, mister?

─ O que me chegou não abona nada a teu favor, Ivan. ─ retorquiu. ─ Mas, não falemos nisso, pois é irrelevante para o resto. Tu estás num plantel que disputa o campeonato da 3ª Divisão. E isso, para um jogador como tu, retira toda a motivação.

Naquele tempo, esquipas como o Benfica, o Porto ou o Braga tinham equipas B que jogavam naquela divisão, curiosamente a mesma do G. D. Paúle, mas em séries diferentes.

Soltei um riso nervoso.

─ Vejo que o mister não me conhece minimamente.

─ Como assim?

─ Sabe onde joguei a época passada, mister?

Ele parou um pouco para pensar e respondeu:

─ Jogaste naquela equipa que venceu a Taça, a época passada, o Pluto.

─ Pluto??? ─ interroguei com uma gargalhada. ─ E éramos treinados pelo rato Mickey, não? A equipa chama-se Paúle.

─ Ou isso. ─ atalhou, tornando o facto irrelevante.

─ E sabe de que divisão eles são, mister? Eu digo-lhe! 3ª Divisão, série C.

─ Mas nessa altura...

─ Nessa altura, mister, eu fui para lá porque não tinha mais nenhum clube para onde ir. E estava habituado a jogar na Superliga ou na II Liga. Campeonatos profissionais, mister! ─ O meu tom era irritado e inconformado. ─ Agora diga-me, mister. Notou falta de motivação em mim, quando lá joguei? Acha que estava desmotivado quando ganhei a Taça, mister? Não me venha dizer o que sinto. Eu só quero jogar, nem que seja nos Distritais.

O homem levantou-se da cadeira e opinou:

─ Não me parece que venhas a jogar grande coisa. Mas, se queres jogar, por mim... Eu vou convocar-te para o próximo jogo com o Vialonga. E vais ver que, no fim, serás tu a não querer voltar a ser convocado.

 

Nessa tarde, combinei uma reunião em minha casa com Jorge. Ele próprio me telefonara ao fim da manhã, lembrando que era importante que conversássemos acerca da proposta que a direcção do clube lhe transmitira.

Jorge chegou a minha casa, em Alcochete, a meio da tarde. O seu aspecto revelava o mau tempo que se fazia sentir no exterior. Trazia o sobretudo inundado e o cabelo desarranjado e molhado.

Jorge retirou o sobretudo e entregou-mo para que eu o pendurasse e o deixasse a secar.

─ Como estás? ─ perguntei, dando-lhe um abraço.

─ Bem. E tu?

─ Como já sabes. ─ respondi, encaminhando-o para a sala. ─ Como está o Eduardo?

Jorge encolheu os ombros.

─ Está como sempre. Tão depressa é um amor, como é um chato. ─ confidenciou. ─ Às vezes, tenho vontade de lhe dar dois pares de estalos, quando fica histérico só porque deixei alguma coisa desarrumada.

─ Deixa lá. Ele tem lá o seu feitio, mas ama-te muito!

─ Eu sei. ─ concordou, sentando-se no sofá.

Eu fiquei sentado na poltrona.

─ Como correu o casamento da tua irmã? ─ inquiriu curioso.

─ Bem. Depois, quando tiver as fotos, hei-de mostrar-vos. ─ O meu semblante alterou-se ligeiramente. ─ Sabias que a Camila estava em Portugal?

Jorge assentiu com a cabeça.

─ Podias ter-me dito.

─ Só soube na Sexta à noite, quando o Eduardo chegou a casa. ─ relatou. ─ Ele foi buscá-la ao aeroporto. E o noivo também veio com ela.

─ Eles foram ao casamento.

─ Eu sei. Mal chegaram a Lisboa, estiveram algum tempo com o Eduardo e seguiram lá para cima.

Desviei o olhar para o chão e disse:

─ Ela odeia-me. Pedi-lhe para conversarmos, quando voltasse a Lisboa. Mas, ela recusou-se.

─ Deixa-a seguir a vida dela! ─ aconselhou Jorge. ─ Não tenho duvidas que a amaste, mas magoaste-a muito. Ela conseguiu refazer a vida dela. Não estragues isso, Ivan.

Levantei-me, olhei para o vazio caminhando pela sala e prossegui:

─ Pensei que a tivesse esquecido, mas... Vê-la novamente despertou tudo cá dentro.

─ E a tua namorada?

Direccionei o olhar para ele.

─ Namorada? A Susana é uma amante, nada mais.

─ Tens uma relação com ela, Ivan. ─ lembrou. ─ Tu tens uma forma estranha de lidar com as mulheres.

─ Pareces o Eduardo a falar. Também vais chamar-me mulherengo?

─ É verdade, Ivan. Disseste-me que estavas apaixonado pela... Como é que ela se chama?

─ Susana.

─ Pela Susana. ─ continuou. ─ Que adoravas estar com ela. Até me disseste que ela te fizera esquecer a Camila.

─ Estava enganado.

Jorge abanou a cabeça.

─ Essas coisas não são assim. Tu não podes dispor dos sentimentos das pessoas dessa maneira.

─ Preciso de um favor. ─ pedi, ignorando os seus sermões. ─ Quero que me avises quando o noivo dela voltar para Nova Iorque.

─ Nem penses. ─ recusou.

─ Vá lá, Jorge. ─ insisti. ─ Tu és meu amigo.

─ Se o Eduardo descobre, mata-me.

─ Por favor, Jorge!

Jorge levantou as mãos para o céu.

─ Está bem. ─ concordou. ─ Logo verei o que posso fazer. Mas, vamos ao que interessa! Não vim aqui para falar na Camila. Precisamos de trocar ideias acerca do Benfica.

Voltei a sentar-me na poltrona.

O olhar do meu empresário tornou-se mais sério e começou a relatar os factos:

─ Eles telefonaram na Sexta-Feira de manhã para combinar uma reunião entre nós e a direcção do Benfica. O tipo não queria adiantar nada, mas tanto pressionei que ele lá acabou por dar à língua. Como te disse anteriormente, eles querem rescindir o contrato sem pagar mais nada e ainda com a clausula de indemnização, caso assines por algum clube da Superliga ou do estrangeiro.

─ E o que achas disso? ─ interroguei, confiante nas suas opiniões.

─ Se rescindires nestas condições, Ivan, ficas preso a eles e sem ganhar um cêntimo. ─ afirmou. ─ Livras-te deles, mas só podes assinar por um clube da Liga de Honra ou menos.

─ Que aconselhas?

─ Penso que o melhor é recusar a proposta. ─ disse convicto. ─ Ou propor a rescisão incondicional do contrato.

─ E eles vão nisso?

─ Não sei.

Cocei nervosamente a cabeça, pensando um pouco, e questionei:

─ Se eles aceitarem, consegues colocar-me em algum clube?

Jorge fez uma pausa. Seguidamente, olhou para mim e respondeu:

─ Já tentei falar com vários clubes para negociar o teu empréstimo até ao final da época. Porém, ninguém se quer meter nisso porque sabem que há um atrito entre ti e os dirigentes do clube.

Tornei a levantar-me da poltrona e a andar um pouco pela sala.

─ Hoje falei com o treinador. ─ contei. ─ Convenci-o a convocar-me e a deixar-me jogar. Não sei a tua opinião, mas pensei em manter-me ali até ao final da época. Jogar na 3ª Divisão não é novidade para mim.

─ Eu também te aconselhava isso.

─ No entanto, se deixar de jogar, tenho de sair. ─ avisei.

─ Ouve! Vamos à reunião ouvir o que eles têm a dizer. Não decidimos nada e logo analisamos a situação.

─ Combinado.

A reunião aconteceu dois dias depois.

Dezembro estava no seu esplendor natural, inundando as ruas de água e envolvendo o céu num manto cinzento. O vento soprava muito forte e o frio arrepiava-nos até à raiz dos cabelos.

Nessa tarde, fui buscar o Jorge e seguimos para o Estádio da Luz no meu carro. Mesmo com toda a chuva que caía, eu mantinha o terrível defeito de conduzir depressa. De tal forma que Jorge só voltou a falar quando entrámos no parque.

─ Antes que me esqueça. ─ disse com a voz ainda tremendo da adrenalina da minha condução. ─ O noivo da Camila regressou esta manhã a Nova Iorque.

─ E a Camila? Onde está ela a viver? ─ inquiri, imobilizando o carro num dos rectângulos vazios do parque.

Jorge abriu a porta do carro e saiu. Eu saí atrás dele e carreguei na chave, trancando o automóvel.

─ Não sei. ─ informou Jorge.

─ Mas, o Eduardo sabe, não sabe? ─ insisti.

─ Possivelmente. ─ disse com distanciamento. ─ Só que nem ele, nem eu te diremos onde ela está.

─ Porquê? ─ questionei, enquanto caminhávamos em direcção ao elevador.

─ Concordei avisar-te quando o Nick partisse. No entanto, não te auxiliarei em mais nada que diga respeito a Camila. ─ avisou Jorge num tom que não admitiria mudanças de opinião.

Parámos junto às portas metálicas. Carreguei no botão e elas abriram-se, pois o elevador estava mesmo ali. Entrámos e tornei a carregar noutro botão, fazendo o elevador subir até ao andar desejado. Saímos no piso dos escritórios da direcção e caminhámos lado a lado ao longo de um corredor. Perto da terceira porta, Jorge deu uma pancada leve na madeira e entrámos.

A sala era a mesma de outras reuniões, tal como as pessoas que nos aguardavam... ou quase todas. Para nosso espanto, ao lado dos dois dirigentes do clube, sentara-se Ambrósio.

─ Que faz ele aqui? ─ perguntou Jorge, visivelmente irritado.

─ Por favor, tenham a gentileza de se sentar. ─ convidou o vice-presidente.

Jorge e eu sentámo-nos nas duas cadeiras reservadas para nós, do lado oposto ao deles.

O director de futebol direccionou-nos o olhar e explicou:

─ O senhor Ambrósio tem vindo a trabalhar com este clube nos últimos tempos. Por isso, pedimos a sua presença para nos auxiliar neste processo.

─ Eu recuso-me a debater qualquer assunto na presença desse senhor. ─ indignou-se Jorge. ─ Este individuo tem vindo a aliciar o meu cliente. Logo, não pode ter qualquer participação neste processo.

─ Senhor Jorge! ─ chamou Ambrósio. ─ Eu não aliciei ninguém. Limitei-me a apresentar uma proposta de trabalho que não foi aceite.

─ E por eu não aceitar, você lixou-me a vida. ─ conclui.

─ Não faça filmes! ─ exclamou o vice-presidente. ─ Já lhe disse...

Ambrósio não o deixou acabar de falar, confirmando:

─ Pois lixei, meu amigo. Você não sabe estar no futebol. Hoje, não basta saber dar pontapés na bola. É preciso estar junto dos bons. Se não os podes vencer...

─ Mas, eu hei-de o vencer. Ou você acha que me vai lixar o resto da vida?

─ Meus senhores! ─ chamou o director. ─ Acalmem-se. Isto não é um mercado de peixeiras, é uma reunião de gente civilizada.

─ Nós não continuaremos a reunião com este senhor presente. ─ insistiu Jorge.

─ Deixa estar. ─ disse a Jorge em tom ligeiro. Seguidamente, olhei para o trio e perguntei qual a proposta que queriam fazer.

O director de futebol puxou de uns papéis e começou a ler:

─ Infelizmente, a ligação entre o Benfica e o senhor Ivan Pedro não tem corrido da forma que ambas as partes esperavam. Houve uma inadaptação da parte do jogador...

─ O quê? ─ interrompi. ─ Você pode ir ler essa merda para os seus amigos, mas não me venha contar isso a mim.

─ Calma, Ivan! ─ aconselhou-me Jorge.

─ Inadaptação? Fui afastado da equipa por não ter assinado com aquele pulha. E agora falam em inadaptação.

─ Tenha atenção à forma como fala! ─ ameaçou o vice-presidente. ─ Lembre-se que está perante a sua entidade patronal.

Jorge aproximou-se do meu ouvido e disse:

─ Ele tem razão. Mantém-te calmo.

O director prosseguiu:

─ Sendo assim, consideramos ser melhor para ambos que se termine a ligação contratual entre o senhor Ivan Pedro e esta instituição.

─ Caros senhores! ─ interrompeu Jorge. ─ Vamos acabar com a lengalenga e passar ao assunto principal. Que propõem vocês?

O vice-presidente rabiscava uma folha de papel, quando impediu o director de falar. Ele próprio, olhando-nos com austeridade, disse:

─ Finalizamos a ligação contratual imediatamente, ficando ambas as partes livres de qualquer compromisso. Contudo, reservamo-nos o direito a receber uma parcela de qualquer negociação do passe do Ivan Pedro, se o mesmo acontecer com alguma equipa da Superliga ou do estrangeiro nos próximos dois anos.

Jorge atirou-lhe uma gargalhada.

─ Isso é surrealista! ─ exclamou. ─ Que fizeram vocês pelo Ivan Pedro para reclamarem uma parcela do novo contrato?

─ Queremos salvaguardar-nos da hipótese de ele assinar por um rival do Benfica. ─ respondeu o vice-presidente.

─ Mas, se o recambiaram para a equipa B é porque ele não tem valor. ─ argumentou Jorge.

─ Senhor Jorge! ─ chamou Ambrósio. ─ Todos aqui estamos conscientes do valor do Ivan. Aliás, se ele quiser, ainda está a tempo de regressar ao plantel principal do clube. Basta que assine o meu contrato.

Jorge olhou para os dirigentes e constatou:

─ Não admira que o clube não ganhe nada há vários anos. Com gente como vocês a dirigi-lo.

─ O nosso trabalho não lhe diz respeito. ─ lembrou o director.

Jorge concordou. De seguida, expôs a nossa parte:

─ Neste momento, o prejuízo é vosso! Vocês estão a pagar uma fortuna todos os meses a um jogador que não joga. Por isso, não são vocês que vão impor as condições.

─ Só que, ao não jogar, o Ivan está a hipotecar a sua carreira.

─ Não esteja tão certo disso. ─ alertou Jorge. ─ Proponho a quebra do contrato sem condições de ambas as partes.

─ Nem pense. ─ recusou imediatamente o vice-presidente.

Jorge levantou-se da cadeira e colocou um ponto final na reunião, dizendo:

─ Então, meus senhores, não temos mais nada a discutir.

Repeti os passos de Jorge e ambos abandonámos a sala.

O resultado da reunião não me deixou totalmente insatisfeito, pois esperava voltar à competição no fim-de-semana seguinte. Iria vestir a camisola do Benfica B, mas não me importava, pois era jogar pelo Benfica, o clube do meu coração.

Em todo o trajecto de regresso, voltei a insistir com Jorge para que me revelasse a morada de Camila. Contudo, fiel a qualquer pacto que tivesse feito, ele recusou-se sempre a dizer-me.

Sozinho em casa, nessa noite, cheguei a pensar na ideia de lhe telefonar, uma vez que o número do telemóvel deveria ser o mesmo. Marquei o número e recebi a mensagem de “número indisponível”. Rapidamente, percebi que aquele número possivelmente se havia perdido no acidente de aviação que ela tivera, cerca de um ano antes. E eu nunca tivera o seu novo número de telemóvel.

Puxei pelos neurónios, tentando engendrar uma forma de a contactar. Tinha um vazio de ideias na mente até ao momento em que reparei no meu computador portátil em cima do móvel da sala.

O seu email ainda estava funcional ou, pelo menos, assim o desejava. Peguei no aparelho e liguei-o, aguardando todo aquele processamento informático. O seu endereço electrónico nunca me saíra da cabeça. Podia estar lá arrumadinho, mas se pensasse nele, rapidamente as letras de juntavam e o formavam no meu cérebro.

Abri o meu outlook e aguardei que um imenso rol de mensagens se descarregasse, inundando-me a caixa de junk mail e outras coisas sem interesse. Cliquei no botão de “nova mensagem” e uma nova janela se abriu.

A princípio, não sabia bem o que escrever, nem tão pouco se o endereço dela ainda estava activo. Tudo poderia ser infrutífero, fosse por isso ou por ela simplesmente apagar a minha mensagem, mal visse o nome do remetente.

Não recordo as palavras, ao certo. Comecei com as perguntas de circunstância, querendo saber como ela estava e a família. Falei um pouco de mim e dos últimos acontecimentos. Por último, mas sem dúvida mais importante, pedi-lhe para que nos encontrássemos e conversarmos. Sugeri um encontro na internet, numa sala de chat do ICQ, pois seria praticamente impossível convencê-la a um encontro físico. Despedi-me com “beijinhos” e assinei. Na mensagem, deixara a sugestão do encontro virtual para a noite seguinte, às 22h00.

Por mais que tentasse evitar, não conseguia deixar de me sentir ansioso com a possibilidade daquele reencontro. Atravessei o dia com a cabeça completamente embrulhada naquela ideia, limitando-me a cumprir as tarefas obrigatórias quase automaticamente, como foi o caso do treino. E à hora marcada, lá estava eu em frente ao pequeno computador.

Não me lembrava há quanto tempo eu não mexia naquele programa. Cliquei duas vezes no ícone e vi abrir-se a consola com todas as funcionalidades, juntamente com a lista de contactos. Só lá havia um nome, pois era a única pessoa com quem falava ali. Camila estava offline.

Aguardei ansioso que ela aparecesse, navegando por diversos sites maioritariamente de informação desportiva, entre outros. Passaram os primeiros dez minutos e nem sinal do bip que anunciaria a sua chegada. Por vezes, clicava novamente no ICQ, esperando vê-la online, mas nada.

No canto inferior direito do ecrã, o relógio marcava 22h20 sem que o status de Camila se alterasse. Comecei a desesperar, conforme se apoderava de mim a consciencialização de que Camila não ligara ao meu email.

Ponderei a hipótese de lhe enviar nova mensagem. Contudo, rapidamente conclui que não serviria de nada. Se não leu a primeira também não leria a segunda.

Não tinha mais nada que fazer, senão continuar ali sozinho a navegar pela internet.

Pouco depois das 22h30, chegou aos meus ouvidos o desejado bip. Cliquei no botão da barra inferior e toda a consola se reabriu no ecrã. O nome de Camila ficara verde e estava finalmente online.

Comecei a teclar uma frase de boas-vindas, mas optei por a deixar falar primeiro. Camila estava presente, contudo, sem dar sinal. Conhecia-a bem. Fora ali “espreitar”, puxada pela curiosidade de saber se eu lá estava, realmente.

“Olá!”, escrevi, clicando posteriormente no send.

A resposta tardou, quase levando-me a pensar que o seu status online não passava de um erro do programa ou de um esquecimento dela própria, abrindo o programa e deixando-o a funcionar sozinho.

“Olá!”, apareceu na linha abaixo da minha.

“Ainda bem que vieste.”

“Recebi o teu email. Que se passa, Pedro?”

“Nada de especial. Queria apenas falar contigo.”

“Não temos nada a dizer um ou outro. Quando é que será que metes isso na tua cabeça?”

Comecei a teclar, mas nova mensagem apareceu:

“Já te disse para me deixares em paz.”

“Eu continuo a gostar muito de ti!”, confessei. Na internet é muito mais fácil expressarmos as nossas emoções, talvez pelo facto de não encararmos a outra pessoa. E o timing de recepção e envio de mensagens também permite mais tempo para pensar e procurar as palavras mais correctas.

“És pior que nódoa na roupa, Pedro!”, começou por dizer, arrasando-me. “Quando é que tu desapareces, de vez, da minha vida? Já me fizeste mal suficiente. Se gostas de mim, deixa-me seguir a minha vida.”

“Essa doeu.”, digitei, não sabendo bem como transmitir o que sentia. Notava-lhe nas palavras a mágoa que lhe infligira e o ódio que me devotava. Já não havia amor. Já não se sentia aquela raiva que tentava esconder o amor. Ela falava como se estivesse desesperada por se livrar de mim.

“Sabes quantas me doeram a mim?”

“Sei. Mas, será que não posso fazer nada para emendar o mal que te fiz?”

A resposta demorou. Calculei que procurasse as melhores palavras ou a mensagem fosse muito comprida, quando surgiu um:

“DESAPARECE!”

O meu coração esfrangalhou-se completamente. Não consegui reagir a tanta agressividade. Acabei por escrever:

“Tudo bem. Vou fazer o que me pedes. Mas, antes, quero que saibas que tenho consciência das decisões erradas que tomei na vida, principalmente em relação a ti. Quero que saibas que foste amada como mais nenhuma foi. Que ainda hoje te amo. E que nunca amarei ninguém como a ti. Penitencio-me todos os dias por ter aberto mão do amor que me deste. Senti-me verdadeiramente amado contigo, feliz e realizado.”

Enviei e continuei:

“Troquei-te por um sonho, quando já tinha alcançado o meu verdadeiro sonho. Tu.”

Os segundos que se seguiram pareceram horas. Não escrevi mais e aguardei uma reacção. Ela apareceu com as seguintes letras:

“Vai-te lixar, Pedro! Estou farta que apareças para me fazeres recordar as coisas mais bonitas da minha vida. Não percebes que eu estou a tentar refazer a minha vida? Eu que já tive de o fazer mais que uma vez.”

“Comigo, não precisas de a refazer. Podemos continuar aquilo que tínhamos. Estou disposto a largar tudo por ti.”

“Dizes-me aquilo que eu sonhei ouvir durante tanto tempo. Só que agora é tarde.”

“Nunca é tarde, quando se ama.”

“Poupa-me essas frases feitas! Eu sei e tu sabes que é tarde. Eu vou casar no ano que vem. Tiveste a tua oportunidade e não aproveitaste. Acabou.”

“Duvido que fosses capaz de me dizer isso, olhos nos olhos.”

“Não vás por aí.”, ripostou rapidamente. “Não penses que me encontrarei contigo só para te dizer isto na cara. Tu conheces-me bem e sabes que te repetiria tudo.”

“Por te conhecer é que digo isto.”

“Por favor, Pedro. Esquece que eu existo.”

“Não consigo.”

“Pensei que já o tivesses feito, neste últimos sete meses.”

“Também eu. Só que rever-te, despertou tudo em mim. Acredita que pensei que não fosses mais que uma bela recordação. Mas tu és mais que isso.”

“Estou cansada, Pedro. Vamos terminar este assunto, de uma vez por todas.”

“Sei que não mereço nada de ti. No entanto, concede-me um último momento de despedida. Um último encontro para nos despedirmos. Prometo-te que nunca mais te procurarei.”

Fiquei à espera da resposta. Demorou uma eternidade ou, pelo menos, assim pareceu.

“Como saberei que cumprirás a tua palavra?”

“Juro-te, Camila. Só quero uma última conversa, olhos nos olhos. Garanto-te que, se a tua vontade se mantiver, me afastarei para sempre.”

“Que esperas tu alcançar com isso?”

“Não espero alcançar mais do que um último olhar teu no meu. Será que tens medo de me ver? Estás tão convicta dos teus desejos. Não terás problemas em me repetir isso tudo, olhando os meus olhos.”

“Estás a iludir-te, Pedro. Mas, tudo bem. Encontrar-te-ei quando quiseres, para esse último momento.”

“Amanhã à tarde?”, sugeri.

“Pode ser. Encontramo-nos na Praça do Império em Belém.”

O local não era o ideal. No entanto, qualquer sitio serviria para estar com ela. Concordei e precisei a hora certa para que não houvesse desencontros.

Camila finalizou com uma despedida fria e distante, passando rapidamente a offline.

Passei uma noite péssima, mal conseguindo dormir o suficiente para que tivesse um aspecto relaxado na manhã seguinte. O assunto Camila percorria o meu cérebro, fazendo-me pensar e repensar a melhor forma para que ela não se afastasse de mim. A ideia de reatar a nossa relação, por muito bom que fosse para mim, não me parecia minimamente possível. A mágoa e ódio continuavam bem presentes no espírito de Camila. E seria difícil apagá-los nos tempos mais próximos.

Após o treino matinal no Benfica, optei por ficar em Lisboa e almoçar num restaurante na zona do Estádio da Luz.

O cinzento dominava o ambiente, num dia envolto num céu repleto de nuvens escuras, prontas a derramar gotas de chuva a qualquer momento. Conduzi o automóvel em direcção à zona ribeirinha de Belém, vendo uma vez por outra, alguns pingos de água embater no pára-brisas.

O estacionamento não costuma ser fácil para aqueles lados. Porém, quis a sorte que eu encontrasse um lugar para o Megane, perto do Mosteiro dos Jerónimos. Ao sair do carro, senti o vento forte que soprava por ali, bem mais insistente que na zona de Benfica.

Caminhei calmamente até aos jardins, descendo as escadinhas de pedra e caminhei até à zona central da praça. Fiquei a olhar para a água que jorrava da fonte para o enorme vaso de água e para os símbolos heráldicos que o decoravam. Não me aproximei muito, evitando que o vento me acertasse com a água.

Camila não perdia uma oportunidade de me castigar, aproveitando o facto de saber que eu seria pontual para me deixar à sua espera algum tempo. Não me importei, pois o importante era que ela viesse.

Vinte minutos mais tarde, o meu olhar descobriu-a a descer as escadas na extremidade oposta da praça. O seu andar era calmo e pouco importado com o atraso. Desviou-se o mais possível da fonte e dirigiu-se ao local onde eu a esperava.

Não podia deixar de reparar na sua beleza. Camila não se preocupara em parecer bonita, optando mesmo por tentar não o ser. O cabelo esvoaçava ao sabor do vento, despenteado e caindo sobre a face. Vestia um blusão quente e calças de ganga que tapavam o cano das botas de salto pontiagudo. Já perto de mim, constatei que quase não se maquilhara.

─ Olá! ─ cumprimentei-a.

─ Olá! ─ retribuiu com distância.

Camila manteve-se impávida na minha frente, guardando uma pequena distância e mostrando que o cumprimento deveria ficar por ali. Não haveria sequer um beijo na face.

─ Aqui estou, Pedro. ─ O seu tom era áspero. ─ Queres que te repita tudo o que te disse ontem?

─ Posso pedir-te um favor?

─ Podes pedir. Não quer dizer que eu o faça.

Olhei-a nos olhos, algo que notava ser evitado por ela. Num tom meigo e simpático, tentando não parecer demasiado carinhoso, sugeri:

─ Podemos conversar sem essa agressividade toda?

Camila olhava para o lado, procurado o nada em nenhures, e respondeu:

─ Não consigo falar contigo de outra maneira. Só me consegues despertar raiva e ódio.

─ Fiz-te assim tanto mal?

Com um olhar colérico, Camila encarou-me, atirando-me um sorriso sarcástico e dizendo:

─ Ainda perguntas? Será que te esqueceste de tudo o que se passou entre nós, neste último ano e meio? ─ A sua voz tremia, enervada. ─ Esqueceste-te que me trocaste por um clube merdoso? Esqueceste-te que me convenceste que ainda me amavas e acabei por te encontrar na cama com uma puta qualquer?

─ Camila, isso...

─ Deixa-me acabar! ─ ordenou, tentando suster uma lágrima. ─ Esqueceste-te que, mais uma vez, quase me convenceste a ficar contigo, quando havia outra à espera de um filho teu?

─ Posso falar? ─ pedi.

Camila baixou o olhar e levou a mão à face, naquele gesto dela tão característico de quem tenta esconder as lágrimas. O seu silêncio serviu de permissão.

─ Já te disse que, o que aconteceu com a Raquel, só se passou naquela noite e porque eu te julgava morta. E a Raquel não estava grávida. Aliás, assim que o soube, tentei ir ao teu encontro para te dizer. Só que tu já tinhas partido para Nova Iorque.

─ Felizmente. ─ retorquiu, limpando a lágrima que fugia dos seus lindos olhos verdes.

─ Talvez. ─ concordei. ─ Realmente, chego à conclusão que nunca poderias ser feliz comigo. ─ O semblante de Camila surpreendeu-se com aquela súbita declaração de derrota. ─ Estou certo que o teu noivo americano te fará mais feliz.

─ Ok! ─ soltou com ironia. ─ O que é isso? É a táctica do coitadinho para ver se eu tenho pena? Pobre Ivan Pedro, o abandonado.

─ Não é isso, Camila. Tu sabes bem que nunca gostei de ser “coitadinho”. Prometi-te que não voltaria a incomodar-te, depois desta tarde, se assim o desejares. Mas...

─ Eu sabia. ─ interrompeu ela.

─ Camila! ─ chamei com doçura. A minha voz ainda fazia efeito nela, principalmente, quando a tratava com ternura. ─ Queria pedir-te perdão por tudo o que te fiz. Tenho consciência de todos os erros que cometi. Vivo com eles todos os dias. Percebi, tarde de mais, que a minha vida eras tu. E sem ti, ela não tem grande interesse.

Camila teve um gesto de quem iria dizer algo, mas eu não o permiti, continuando:

─ Sei que não voltaremos a ficar um com o outro. Tu tens a tua vida bem encaminhada, vais cas... vais casar. Desculpa, mas não é fácil dizê-lo. ─ Ficara impávida a ouvir-me, deixando as lágrimas escorrerem-lhe pela face. ─ Não voltarei a pedir o teu amor, apesar de estar disposto a implorá-lo e a deixar tudo por ele. No entanto, nestes últimos dias, percebi que o meu amor só te traz mágoa e dor. E eu não quero magoar-te mais. ─ Tinha vontade de chorar, ao abrir mão definitivamente dela. ─ Gostaria que pudéssemos ser amigos! Mas, estou disposto a afastar-me para sempre, se o desejares.

Os momentos seguintes foram de silêncio. Aguardei uma resposta dela. Porém, Camila tentou falar, mas a voz embargara-se com o choro. Levou as mãos à face e cobriu-a, tentando recompor-se. Por entre as lágrimas, balbuciou:

─ Não sei, Pedro. Preciso de tempo para pensar.

Camila sentou-se num dos bancos de pedra e retirou um lenço de papel da sua mala. Limpou as lágrimas o melhor possível, esforçando-se por não chorar mais.

Eu sentei-me a seu lado, sem dizer uma sílaba.

Ficámos ambos a olhar para a fonte, mudos, ouvindo o ruído do trânsito e a melodia da natureza que nos envolvia naquele jardim.

─ Como é está a tua carreira? ─ perguntou, quebrando o silêncio e com uma voz bastante mais calma. ─ O Eduardo contou-me que as coisas não te estão a correr muito bem.

─ Nada bem. ─ confirmei. ─ Foi um erro, ter assinado com o Benfica.

Direccionei o olhar para ela, enquanto ela mantinha o dela na paisagem distante.

─ E a tua carreira? ─ indaguei.

Camila baixou a cabeça e relatou:

─ Quando regressei a Nova Iorque, voltei a ocupar o mesmo lugar que tivera, antes do acidente. No entanto, acabei por deixar o emprego para vir para Portugal, tratar da empresa que o Nick vai fundar cá.

─ Que leva um americano a vir viver para Portugal? ─ questionei, considerando absurdo.

─ Ele já tinha vindo a Portugal, várias vezes, e sempre adorou isto. ─ explicou-me Camila.

Subitamente, começámos a sentir alguns pingos de água a cair sobre nós.

─ Parece que vai começar a chover. ─ disse eu.

Antes que conseguisse completar a frase, abateu-se sobre nós um enorme dilúvio. Camila e eu abandonámos o banco de pedra e corremos em direcção ao Centro Cultural de Belém, procurando protecção sob o edifício. Ao pararmos na entrada, por baixo do túnel de acesso ao pátio interior, estávamos ambos encharcados.

─ Olha como tu estás. ─ reparou Camila, apontando para o meu aspecto molhado. A voz denotava preocupação e ternura, esquecendo por instantes a raiva sentia.

─ Tu também estás num rico estado. ─ disse-lhe.

Camila encolheu os ombros, pois nada podia fazer para o evitar.

─ Queres que te leve a casa? ─ ofereci.

─ Não é preciso. Tenho o meu carro ali em baixo.

─ Posso acompanhar-te até lá?

Ela assentiu com a cabeça.

A chuva abrandou um pouco e nós corremos para o terceiro carro estacionado ao fundo da rua. Camila abriu a porta e perguntou:

─ Onde está o teu?

─ Lá em cima, ao pé dos Jerónimos.

─ Entra! Eu levo-te lá.

Entrei para o outro lado.

Circulando cuidadosamente, Camila seguiu pela rua e virou para o lado onde estava o Megane vermelho. Ela reconheceu-o imediatamente e parou ao seu lado. Depois, olhou para mim sem saber o que dizer.

─ Amigos, Camila? ─ interroguei, preparando-me para abrir a porta.

─ Vamos tentar, Pedro. ─ respondeu, confusa. ─ Não sei se conseguiremos ter uma amizade, depois dos sentimentos que partilhámos.

─ Como tu disseste, vamos tentar.

Ficámos a olhar um para o outro. Não tinha a mínima vontade de me afastar dela. E o seu olhar revelava o mesmo.

─ Posso dar-te um beijo?

Camila desviou o rosto para o volante e lembrou:

─ Não devemos, Pedro.

Aproximei-me do rosto dela e segurei carinhosamente o seu queixo, virando o seu rosto para mim. Os seus olhos verdes lutavam para resistir, mas a sua atenção ficara na minha boca que se aproximava.

─ Não... Pedro. ─ sussurrou com o olhar a dizer “beija-me”.

Levei os meus lábios a tocar suavemente os dela, beijando-os com ternura. Um beijo rápido e simples.

No instante em que soltei os seus lábios, estes perseguiram os meus. Camila abraçou-me e beijou-me, sedenta de paixão e saudades de tudo o que partilháramos. Trocámos beijos acalorados dentro do carro envolto pela enorme chuvada que se abatia sobre Lisboa.

─ Sai! ─ ordenou, afastando-me. ─ Sai daqui, Pedro! Por favor.

─ Mas, Camila...

─ Não digas nada, Pedro. ─ pediu. ─ Deixa-me ir. Preciso de ficar sozinha.

Não sabia bem o que dizer e acabei por aceder ao seu pedido. Contudo, Camila segurou a minha mão e finalizou:

─ Estou confusa, Pedro! Preciso de pensar. Preciso de uns tempos para pôr as ideias em ordem. Dá-me uns dias! Não me telefones, nem mandes mensagens. Eu, depois, falo contigo.

Concordei com o seu pedido e despedi-me, dando-lhe um beijo na mão.

Saí do carro e enfrentei os litros de água que me fustigaram no trajecto até entrar no meu carro. Ao fechar a porta, vi o carro de Camila arrancar e desaparecer no meio do trânsito.

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