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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XXII

A meio de Maio era chegado o célebre Domingo do tudo ou quase nada, isto porque a derrota não nos afastava definitivamente da subida. Na manhã ensolarada desse dia, acordei animado e motivado para o que se avizinhava.

Desde que Susana partira que me sentia bastante aliviado, congratulando-me pela forma como tudo se havia resolvido. Felizmente, tivera menos trabalho que aquele que imaginara, a afastar Susana da minha vida.

Paúle estava em festa com cartazes por todo o lado anunciando o jogo das decisões nessa tarde, entre o G. D. Paúle e a União de Coimbra. O povo aguardava com ansiedade o início da partida, desconhecendo que por vontade do presidente Carrapiço, o Paúle não ganharia o jogo. No entanto, o meu plano estava em marcha e mantinha-me confiante de que não deixaria o clube sem mais uma glória para todas aquelas pessoas que sempre me haviam recebido tão bem.

 

Já se ouvia a multidão nas pequenas bancadas do estádio a gritar e a chamar por nós, na altura em que nos equipávamos para subir ao relvado. Assim que chegara ao complexo desportivo, pela densidade de gente que já se avistava, calculei que seria uma enchente.

Eu fora convocado para o jogo, apesar de ter manifestado a intenção de não jogar se a situação de impossibilidade de jogar para ganhar se mantivesse. No entanto, tornava-se difícil de explicar a razão de eu não jogar, sendo do conhecimento comum que eu estava em forma.

Antes de indicar quem seriam os onze titulares e quem se sentaria no banco, Freitas aproximou-se de mim e disse:

─ O senhor presidente mantém as ordens do jogo anterior! Podemos contar contigo?

Barnabé demonstrou a intenção de dizer algo, mas Freitas impediu-o, fazendo-lhe sinal para que não se metesse.

─ Tudo bem! ─ concordei. ─ Pode contar comigo.

Freitas suspirou de alívio. Não porque precisasse de mim para o jogo, mas para não ter de inventar desculpas pela minha não inclusão no onze inicial.

A equipa abandonou os balneários e subiu ao relvado para os primeiros exercícios de aquecimento.

Freitas decidiu-se por colocar de inicio Augusto na baliza. Macário, Joselino, Aquiles, Reis e Sassi na defesa. Ramalho ficaria numa posição de médio defensivo, resguardando a posição de Castanha. Os extremos seriam o jovem esperança Albertino na direita e eu na esquerda. No sector avançado, Emanuel surgia como único ponta-de-lança.

Centenas, se não milhares, de pessoas gritavam pelo Paúle. Calculo que houvesse adeptos da União de Coimbra, mas deveriam ser tão poucos que, inicialmente, optaram por não se denunciar.

O Sol cobria toda extensão do relvado, espalhando o seu calor por todo o lado. Somente uma bancada estava a coberto do Sol, ficando as restantes com os raios solares a bater directamente. Contudo, nem o imenso calor desmobilizou a assistência.

Na zona dos VIP, observei a presença de Alfredo Carrapiço e da engenheira Amândia Calheiros, entre outras figuras convidadas.

Barnabé orientava o aquecimento... ou melhor o treino ligeiro, já que falar em aquecimento debaixo de mais de trinta graus era ridículo. Livia acompanhava de perto, recebendo algumas indicações do doutor Gervásio que nunca perdia oportunidade de elucidar a sua pupila na sua actividade. Freitas mantinha-se aparentemente calmo, sentado no banco de suplentes, resguardando-se na sombra. Olhava para nós e para a equipa da União de Coimbra que fazia os seus exercícios na outra metade do relvado.

As pessoas não se cansavam de nos incentivar, chamando pelo clube e pelos nossos nomes. Perto do final daquele período que antecede o jogo, vi Alfredo Carrapiço levantar-se do seu lugar e abandonar a tribuna.

Se o Grupo Desportivo de Paúle vencesse aquele jogo, garantiria a subida à 2ª Divisão B, Zona Centro. Algo que, como já referi, Alfredo Carrapiço não queria. E foi isso mesmo que ele fez questão de frisar, ao reaparecer no balneário, recebendo-nos e tornando a pedir para que não vencêssemos.

No instante em que o disse, o senhor Carrapiço olhou para mim, tal como muitos dos meus colegas e equipa técnica, esperando uma reacção. Não me manifestei.

Perante o meu silêncio, acentuou:

─ Se perderem, será o ideal!

Notava-se a tristeza estampada no rosto dos jogadores, impedidos de fazerem aquilo que mais gostavam, jogar futebol e ganhar jogos. Era inglório, após uma época brilhante, não terem autorização para lutar pela subida de divisão.

Feita a palestra, Alfredo Carrapiço abandonou o balneário e regressou ao seu lugar na tribuna. Ninguém da equipa técnica deu qualquer instrução para o jogo, limitando-se Freitas a dizer:

─ Se temos de perder, façam-no com dignidade!

Seguimos todos de cabiz baixo, subindo as escadas em direcção ao relvado. Perfilámo-nos em fila indiana e caminhámos pela relva até ao meio campo, ovacionados por uma população eufórica. Sentimos as camisolas pretas arder na pele com os raios solares, enquanto os calções brancos brilhavam.

Como capitão, Joselino aproximou-se do árbitro para se proceder à escolha do pontapé-de-saída e de campo. Moeda atirada ao ar, o capitão da União teve direito a fazer a escolha, optando pela bola.

Joselino regressou para junto da equipa, informando que os jogadores da União de Coimbra iam dar o pontapé-de-saída e nós ficaríamos naquele meio campo. Pedi a todos que se reunissem numa roda e me escutassem.

─ Vamos ganhar o jogo! ─ exclamei.

─ Que estás tu a dizer? ─ interrogou Joselino. ─ Não ouviste o que disse o Carrapiço?

─ Ouvi. ─ confirmei. ─ Ouvi-o dizer que não tinha dinheiro para competir na 2ª Divisão B. Pois eu arranjei o dinheiro.

─ Como assim? ─ questionou Augusto.

─ Arranjei um patrocinador disposto a injectar alguns euros no clube, se subirmos. ─ expliquei.

─ Vê lá o que arranjas. ─ avisou Joselino.

─ Confiem em mim, pessoal! ─ pedi. ─ Vamos ganhar esta merda.

A equipa soltou um grito de incentivo e cada um tomou as suas posições.

A primeira parte não foi muito espectacular. O jogo disputava-se muito a meio-campo, deixando pouca abertura aos ataques para criarem grandes oportunidades de golo. Porém, notava-se que o G.D.P. queria vencer o jogo. E os seus jogadores batiam-se por alcançar os três pontos que nos consagrariam no segundo lugar.

Freitas e Barnabé abanavam a cabeça no banco, constatando que ninguém seguira as directrizes fornecidas por eles. Mas, também não estavam na disposição de se pôr a gritar alto e a bom som para que perdêssemos. Ainda para mais, na cara de um público cada vez mais entusiasmado com a exibição.

Muito perto do fim da primeira parte, Albertino conseguiu fintar o seu marcador directo e fazer um excelente cruzamento para a área. Emanuel cabeceou e a bola embateu na barra da baliza da União, fazendo a assistência soltar um “bruá” e perdendo-se pela linha de fundo. Pouco depois, o árbitro apitou para o intervalo.

Quando regressámos ao balneário, Freitas e Barnabé (principalmente este) fartaram-se de barafustar com a equipa por não estarem a seguir o pretendido.

─ Onde querem chegar com essa atitude? ─ questionou Freitas. ─ Querem provar que poderiam ter ganho? Ou quererão mesmo ganhar à revelia da direcção?

─ Nós podemos ganhar. ─ disse Joselino.

─ Não ouviram o senhor...

─ O Ivan tem um patrocinador para a próxima época. ─ interrompeu Joselino, não deixando Freitas terminar a frase.

O treinador olhou para mim e inquiriu:

─ É verdade?

─ É!

Nesse instante, Alfredo Carrapiço entrou espavorido no balneário e berrou:

─ Que merda é que vocês estão a fazer?

A princípio, ninguém teve coragem de responder.

─ Não terei sido claro naquilo que vos disse? ─ prosseguiu, visivelmente irritado como nunca o vira. ─ Mas que caralho. É simples! Passem a bola uns para os outros, fechem os olhos, metam um auto-golo... O que quiserem. Só não me pontuem hoje.

─ Senhor presidente! ─ chamou Freitas. ─ Parece que há novos desenvolvimentos.

─ Que desenvolvimentos? ─ interrogou, fulminando-o com o olhar.

─ Parece que o Ivan Pedro tem um patrocinador para nós, caso subamos de escalão. ─ explicou o técnico.

Os olhos de Alfredo Carrapiço desviaram-se dos técnicos e centraram-se em mim, aguardando uma explicação mais pormenorizada.

─ Tenho um hotel da Figueira da Foz interessado em financiar-nos. ─ disse eu, não me deixando atemorizar pelo ar bruto de Alfredo Carrapiço. ─ Se formos para a 2ª B, eles entram com o dinheiro.

─ Não me digas que é o meu tio?! ─ indagou Aquiles.

Fiz-lhe sinal que sim, vendo Carrapiço procurar uma reacção aos factos. Mais calmo, tentou enquadrar todos no seu ângulo de visão e disse:

─ A 2ª Divisão B vai ser o nosso fim! As equipas são muito fortes para nós. Seremos massacrados e poderemos cair muito.

─ Quanto maiog é a escalada, maiog é a queda! ─ grunhiu Barnabé.

─ Uma má época pode arrasar-nos de tal maneira que podemos cair abaixo dos Nacionais. ─ continuou Carrapiço.

Confirmando a falta de ambição que reinava na equipa técnica, Freitas assentia com a cabeça a todas as frases do presidente, concordando com a teoria da mediocridade.

─ Fico-te agradecido com o teu esforço. ─ disse-me Alfredo Carrapiço. ─ Mas, o presidente deste clube ainda sou eu. E eu é que sei o que é melhor para o Paúle! ─ Olhou para toda a equipa. ─ Hoje não quero pontos! ─ E deixou-nos sozinhos, incrédulos a olhar uns para os outros.

Freitas pegou no seu bloco e constatou:

─ Bom, penso que não há nada a dizer. Sabem o que têm de fazer.

─ Pois sei. ─ retorqui. ─ Vou fazer tudo para ganhar o jogo! Se os outros o farão ou não, é com cada um. Agora, eu não vou entrar ali e oferecer a vitória sem luta.

─ Senhog Iv...

─ Cale-se! ─ ordenei a Barnabé. ─ Estou farto de o ouvir, “senhog” Barnamerda!

O homem baixo indignou-se perante a gargalhada de alguns dos meus colegas. Freitas olhou para mim, igualmente indignado, mas sem reagir verbalmente. Sem esperar por ninguém, abri a porta do balneário e regressei ao relvado.

Assim, com o desenvolvimento dos acontecimentos, acabei por tomar uma atitude drástica. Não sabia se os meus colegas partilhavam da minha opinião e se estariam, tal como eu, empenhados na vitória. Certo é que todos me seguiram para o relvado. Augusto passou por mim em direcção à baliza e disse-me:

─ Estou contigo!

O mesmo aconteceu com Aquiles.

O contrário é que seria de estranhar, já que eram ambos grandes amigos. Contudo, antes que se iniciasse a segunda parte, Ramalho correu até mim para me dizer:

─ Ivan! Podes contar comigo.

E por fim, ouvi Joselino assobiar-me do centro da defesa, chamando a minha atenção. Olhei para ele e vi-o apontar para o grupo e a levantar o polegar, informando-me que a equipa estava toda comigo.

Por três vezes, quase que os intentos de Alfredo Carrapiço tinham sucesso. Logo no inicio dos segundos quarenta e cinco minutos, Augusto defendeu um remate muito forte do atacante conimbricense. Pouco depois, nova desatenção da defesa e Augusto a brilhar. Os adeptos do Paúle vibravam com a exibição. E os que observavam o jogo por trás da nossa baliza gritavam elogios e palavras de apoio ao guarda-redes.

No último quarto de hora de jogo, o Paúle beneficiou de um pontapé-de-canto. Os nossos centrais subiram até à baliza do adversário e Castanha foi marcar. Tomando pouco balanço, centrou a bola para o coração da área do União. Aquiles saltou e tentou cabecear para a baliza, sendo impedido por um defesa contrário que interceptou o centro com um cabeceamento para fora da grande área. A bola foi parar à zona de Ramalho que a captou e rematou com força e precisão à baliza do União. O guarda-redes deles esticou-se todo e conseguiu evitar que a bola entrasse na baliza, apesar de não a agarrar. Saltitando na relva, a bola veio parar-me aos pés e eu chutei-a para o fundo da baliza.

Foi a explosão de alegria do público.

Corri pelo campo a festejar o golo, sendo seguido pelos companheiros que me queriam felicitar. Houve dois adeptos, levados pela emoção, que invadiram o rectângulo de jogo para me abraçar. Foram rapidamente agarrados por três guardas-republicanos que faziam policiamento ao jogo. Passei em frente à tribuna e olhei para Alfredo Carrapiço, lembrando-o da mediocridade a que se votara.

Desesperados, os jogadores da União de Coimbra lançaram-se numa cruzada suicida sobre a nossa baliza. Só que Augusto estava intransponível. E não fosse o deslumbramento de Albertino, isolado perante o guarda-redes da União, e teríamos marcado o segundo.

O árbitro apitou para o final da partida e foi a festa das largas centenas de paulenses e habitantes de aldeias vizinhas.

Toda a equipa festejou com grande emoção, no momento em que regressámos ao balneário. Não havia garrafas de champanhe, mas isso não esfriou a festa. Enchíamos baldes de água e atirávamos uns aos outros, inundando o local. Nem Freitas, nem Barnabé compareceram ali. Pobre doutor Gervásio, levou um banho monumental ao entrar para festejar connosco. Até Livia se juntou aos “matulões”, parecendo um rapazito encharcado no meio deles.

Na rua ouviam-se os festejos da população. Foguetes lançados ao ar, carros a circular pela estrada, buzinando e acenando. Desde a final da Taça de Portugal que a aldeia não vivia momentos tão efusivos. Pena que algumas pessoas importantes tivessem desaparecido dos festejos, como foi o caso da engenheira Calheiros e do presidente do clube. Se a primeira se apressara a regressar ao seu palacete, já o segundo ninguém sabia do seu paradeiro.

A histórica subida à 2ª Divisão B levou os paulenses a prolongar a festa pela noite dentro. Se houve elementos da equipa que se deixaram arrastar pela loucura da celebração, outros houve que consideraram melhor recolher ao seio familiar e comemorar com a família.

No meu caso, não fiz nem uma coisa nem outra. Mesmo com as múltiplas insistências de Augusto e Teodoro para me juntar à família na festa no café de Paúle (onde a minha irmã não compareceu, pois tinha de cuidar da filha e trabalhar no dia seguinte), optei por me recolher em minha casa, sozinho, ouvindo a festa na rua. Nem o doutor Gervásio e a esposa haviam ficado em casa.

Sentia a vitória daquele jogo como uma missão cumprida para com o clube e com o povo de Paúle. Já nada devia a ambos, se é que achava que lhes devia algo. Talvez a minha teimosia não tivesse sido mais que orgulho e egoísmo de quem quer fazer prevalecer a sua ideia.

O futuro do clube não me dizia respeito e, felizmente para mim, já lá não estaria na próxima época para fazer parte dele. Aguardava ansiosamente um telefonema de Jorge para assinar definitivamente com o Benfica. E, acima de tudo, aguardava a resposta de Camila, a sua decisão final em relação a nós, mas que para mim já era um dado adquirido.

Enquanto repousava no sofá da sala, reparei numa fotografia de Susana que esta deixara numa moldura, em cima do móvel. Como se temesse que fosse um presságio, levantei-me, retirei a foto da armação de metal e rasguei-a, atirando-a com desprezo para o caixote do lixo.

Não voltara a ter notícias de Susana, desde a sua partida. E ainda bem que assim era, pois não queria saber dela para nada, nem tinha vontade que os nossos caminhos se voltassem a cruzar. Contudo, desconfiava que a minha irmã mantinha o contacto com ela, pois haviam criado uma boa amizade, durante o pouco tempo que Susana vivera em Paúle. Tivera a sorte de me livrar dela sem grandes sobressaltos, essa mulher falsa, uma prostituta reles que fazia de tudo para ter dinheiro, capaz de abrir as pernas ao primeiro que lhe acenasse com lucros. Era esta ideia que tinha dela. Como estava longe, Susana, da grandiosidade de mulher que Camila personificava. Camila era linda, inteligente, honesta... Jamais trairia a minha confiança como Susana fizera.

─ Puta de merda! ─ exclamei sozinho, pontapeando o caixote onde depositara os restos da foto.

No dia seguinte, a pedido de Jorge, viajei para Lisboa com o objectivo de nos reunirmos, finalmente, com o senhor Lúcio Velez. Estaria em cima da mesa o contrato com o Benfica, já com todas as cláusulas bem descritas. O acordo demorara mais que o previsto, pois Jorge decidira-se a bater-se com o presidente do Benfica pelos prémios de jogo para a temporada seguinte. E só com tudo preto-no-branco, Jorge me telefonou a agendar a reunião com Lúcio Freire Velez.

Novamente no seu escritório em Algés, evitando o mediatismo do Estádio da Luz, eu, Jorge e o senhor Velez assinámos o contrato que me ligaria ao Benfica por um ano com outro de opção.

─ O seu filho também vai regressar? ─ perguntei-lhe após a assinatura.

─ Depende do técnico. ─ respondeu-me. ─ Eu gostava que ele regressasse.

─ O Paúle vai ficar mais fraco sem nós os dois. ─ constatei. ─ Será que lhe posso pedir um favor?

─ Diga, Ivan!

─ Seria possível que o Benfica emprestasse alguns dispensados ao Paúle? ─ perguntei.

Lúcio Velez encolheu os ombros e olhou para o vazio.

─ Não sei, Ivan. ─ disse por fim. ─ O que lhe posso dizer é que as listas de dispensados serão reveladas em finais de Julho ou principio de Agosto. ─ Olhou-me com toda a honestidade. ─ Mas, sejamos realistas, Ivan! O Paúle tem que ter potencial económico para suportar uma parcela dos seus ordenados.

─ Bem sei. ─ concordei. ─ Pedia-lhe apenas que os ajudasse no que pudesse.

─ Tudo bem, Ivan! Verei o que posso fazer.

Foi com esta promessa que a reunião terminou. Jorge e eu despedimo-nos do presidente do Benfica e abandonámos o seu gabinete, consumando a minha transferência para o Benfica. A felicidade inundava-me pois estava certo que, desta vez, as coisas correriam bem quando voltasse ao clube do meu coração.

─ Sabes? O noivo da Camila chegou este fim-de-semana. ─ informou-me Jorge sem que eu tivesse demonstrado interesse em conhecer a notícia. ─ Já não falta muito para o casamento.

─ Se é que vão casar. ─ retorqui.

─ Que queres dizer com isso? ─ interrogou.

─ Nada, nada. ─ respondi com um sorriso matreiro, confiante que Camila terminaria o noivado e brevemente estaria de volta aos meus braços.

Logo que deixei Jorge no seu escritório, peguei no telemóvel e liguei a Camila. Se Nick já havia voltado, certamente, ela já lhe contara tudo e pusera um ponto final ao absurdo casamento. Ela amava-me! Amava-me tanto quanto eu a ela.

─ Agora não posso falar contigo! ─ disse Camila, ao atender o telemóvel, reconhecendo o meu numero.

─ Podemos ver-nos mais tarde? ─ perguntei apressadamente.

─ Não! ─ respondeu com firmeza, tentando despachar-me.

─ Estou em Lisboa, Camila. ─ insisti. ─ Vai ter comigo a Alcochete.

Camila não respondeu, desligando-me o telemóvel na cara.

Por alguma razão, ela não pudera conversar comigo. Não me preocupei muito em perceber porquê. Certamente, assim que estivesse sozinha, pegaria no aparelho e ligar-me-ia a relatar o sucedido. Decidi ir para casa, em Alcochete e aguardar que ela lá fosse. Estava certo que, mais tarde ou mais cedo, ela chegaria ao nosso ninho de amor.

No entanto, Camila não apareceu nem telefonou. Esperei toda a noite por ela, infrutiferamente. Seria de esperar no mínimo uma justificação. Logo que amanheceu, tentei ligar-lhe novamente. Tentei várias vezes, mas sem sucesso, pois tinha o telemóvel desligado. Acabei por regressar a Paúle, certo que assim que pudesse, Camila me daria notícias. E, de facto, deu-as.

Já em Paúle, nessa noite, sozinho em casa como alegremente me sentia, desde que Susana desaparecera dali, fui até ao meu pequeno computador portátil para ver se Camila me enviara algum email. Ao abrir o Outlook, senti-me um adivinho, vendo o nome dela no remetente de uma nova mensagem. Cliquei sobre ela e comecei a ler:

“Olá Pedro! Lamento que seja esta a forma como te transmitirei a minha decisão, mas penso ser a melhor para nos evitar maiores mágoas. O Nick regressou a Portugal e não encontrei razão para voltar com o meu compromisso atrás. Temos uma relação bonita e ele ama-me muito. Seria irresponsável e incorrecto, abandoná-lo para ir atrás do passado que não penso ter lugar no futuro. Espero que me possas perdoar, pois sei que as minhas dúvidas te alimentaram as esperanças em relação a mim. Mediante tudo o que sucedeu, concordarás que o melhor, ou o obrigatório, seja que nos afastemos completamente. Não há lugar para qualquer tipo de relação entre nós, pois demonstrámos que só sabemos viver de uma forma, quando estamos juntos. E isso é incompatível com o meu casamento. Desejo que sejas muito feliz! Até sempre! Camila.”

Não sei descrever o que senti ao ler aquilo. Fiquei completamente destroçado por dentro. A minha primeira reacção foi gritar um rotundo “NÃO” e atirar com o computador contra a parede, despedaçando-o em vários pedaços.

A minha cabeça edificara uma certeza absoluta no regresso de Camila. Estava crente que ela casaria comigo. Talvez tivesse sido essa cruel diferença para a realidade que me chocara tanto. Não sei o que teria feito, se ela me tivesse comunicado aquilo pessoalmente. Ou se teria, realmente, feito alguma coisa. Notei naquela mensagem que Camila estava firme na sua decisão e não valeria a pena tentar procurá-la para a convencer do contrário. O choque fora de tal forma que me dei completamente por vencido naquela luta pelo amor de Camila.

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