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IVAN PEDRO

CAPÍTULO V

No mínimo, era uma atitude suja, os dirigentes do clube quererem tirar dividendos do meu futuro, quando me andavam a hipotecar a carreira.

Talvez Susana tivesse razão, ao dizer-me que eu deveria ponderar a ideia de assinar contrato com Ambrósio. Só que isso seria dar-me por vencido e renunciar aos meus princípios.

Ao cimo das escadas, encontrei a minha mãe e duas malas de viagem. Dei-lhe um beijo e perguntei:

─ O pai?

─ Já aí vem. Podes ir levando as malas? ─ pediu.

─ Claro.

Peguei na bagagem e voltei a descer a escada. Calculei que o meu pai andasse a passar revista a todos os cantos da casa, confirmando duas e três vezes se ficara tudo desligado. Era um hábito que herdara do meu avô, homem super-hiper-precavido.

Novamente no hall de entrada, pousei as malas no chão e aguardei que ambos descessem.

A relação com Susana decorria bem, apesar de diferente de qualquer outra que tivesse tido anteriormente. Naquelas duas a três semanas, desde que estivéramos na Ericeira, encontrávamo-nos somente aos fins-de-semana. Quando estávamos juntos, o relacionamento era muito próximo. Fazíamos amor em todos os encontros, geralmente em minha casa.

No entanto, fora isso, a relação era distante. Durante a semana, nunca falávamos. Chegara a tentar telefonar-lhe, mas ela repeliu-me zangada, pedindo-me para que não lhe telefonasse nas horas de trabalho. Se lhe ligasse à noite, tinha o telemóvel desligado. Não sabia onde morava (algures no Parque das Nações), pois nunca me convidara a ir lá e fugia sempre ao assunto. Se a encontrasse no Estádio da Luz, cumprimentava-me friamente, sem beijos, e afastava-se rapidamente.

Contudo, eu estava muito apaixonado por ela. Todas estas questões eram esquecidas, quando estávamos juntos. Susana era muito terna e carinhosa. Preocupava-se muito comigo e com as questões que me diziam respeito, principalmente com a minha carreira.

Sempre que me dava conselhos, fazia-o de forma a não me influenciar. Temia pelo meu futuro e, talvez por isso, insistia muitas vezes para que reconsiderasse a proposta de Ambrósio.

Também não sabia nada acerca da sua família, para além do ex-marido, o qual também não conhecia. E Susana também englobara o tema nos assuntos a evitar.

Para além disso, notava que se afastava da convivência com alguém da minha família ou amigos. Por exemplo, tentei convencê-la a acompanhar-me ao casamento da minha irmã. Susana recusou, dizendo que a nossa relação ainda não estava preparada para esse passo. Perguntei-lhe o que significava isso. Ela justificou com a ideia de uma relação muito fresca, recém-criada, onde ainda nos estávamos a conhecer e haveria tempo para ela conhecer todas as pessoas que eram importantes para mim e vice-versa.

Em resultado disso, ali estava eu a ver chover, no instante em que os meus pais desceram.

Já lhes tinha falado nela. Para os meus pais, ela era uma figura abstracta. Só conheciam o que eu lhes contava. Porém, o verem-me feliz para eles era suficiente.

Penso que, desde o meu rompimento com Camila, eles evitariam conhecer as minhas namoradas. Sei que se afeiçoaram muito a ela. E fora um choque tremendo a nossa separação. Camila era a nora que sempre desejaram. Não o faziam propositadamente, mas não se interessavam muito pelos assuntos relacionados com Susana.

Não nos conseguimos furtar à chuvada que caía. Coloquei as malas no porta-bagagem, enquanto os meus pais entravam para o Mégane. A minha mãe sentara-se no banco traseiro, ficando o meu pai com a função de co-piloto.

─ Que tempo terrível! ─ afirmou o meu pai, quando entrei no carro.

─ Pois está. ─ concordei, ligando a ignição. ─ Mas, que remédio temos nós, senão fazer a viagem à mesma.

A minha mãe, apreensiva, aconselhou:

─ Vai com cuidado.

Arranquei de Alvalade e segui o trajecto para a A1.

Ambos confiavam na minha condução. Porém, as estradas em Portugal são um autêntico campo de batalha repleto de condutores inconscientes que se transformam em soldados assassinos daquela que é considerada a nossa guerra civil. E aquela chuva só viria ajudar a que houvesse mais acidentes, mais feridos e mais mortos. Parece exagerado falar assim, mas basta ver o número de acidentes diários e vitimas para ver que não é.

─ O Jorge telefonou-me. ─ contei. ─ Parece que o Benfica quer rescindir o contrato comigo.

─ Infelizmente, isso até é bom. ─ lamentou o meu pai.

─ Só que a rescisão tem condições. ─ continuei.

─ Quais?

─ Querem receber uma percentagem, se eu assinar por algum clube da Superliga ou do estrangeiro, nos próximos dois anos.

─ Isso é incrível! ─ exclamou indignada a minha mãe.

─ E não pagam mais um cêntimo. ─ completei.

─ Esses dirigentes são uns bandidos. ─ reclamou o meu pai. ─ Não dignificam nada aquela grande instituição que dá pelo nome de Sport Lisboa e Benfica.

─ Estão lá é para dignificar os bolsos deles. ─ adicionou a minha mãe. ─ Andam a encher-se.

A chuva abrandou ligeiramente, ao circularmos pela zona de Vila Franca de Xira.

─ E que vais fazer em relação a isso? ─ inquiriu ele.

─ Não sei. Quando voltar, vou reunir-me com o Jorge e logo se vê.

O meu pai não tirava os olhos da estrada, como se estivesse ele próprio a conduzir.

─ Aquele tipo, o Armindo, voltou a telefonar? ─ perguntou.

─ Ambrósio. ─ corrigi. ─ Por vezes, telefona a insistir com a treta do contrato. Quando vejo o número dele no telemóvel, já nem atendo.

A viagem era prolongada, cerca de trezentos quilómetros. A minha mãe adormecera com a monotonia da paisagem. Já o meu pai mantinha-se alerta.

Cerca de uma hora e meia passada, a viagem atravessava a região de Leiria. A chuva não dava tréguas, o que cansava ainda mais.

─ Se quiseres, eu posso substituir-te algum tempo.

─ Não é necessário, pai. Eu estou bem.

Existiam zonas em que, para além da chuva, se sentiam enormes rajadas de vento. E a visibilidade era mais fraca com o entardecer.

À hora a que saímos da auto-estrada, perto de Coimbra, a viagem já demorara tanto tempo quanto o que normalmente me levaria o trajecto todo.

A partir daqui, a velocidade teria de ser ainda mais moderada. Preparava-me para entrar no IP3, uma das estradas mais mortíferas do país. O meu pai nem falava, esforçando a visão para qualquer alerta que eu não discernisse a tempo. O meu objectivo era conseguir sair do IP3, antes de anoitecer. Porém, não consegui. Só abandonei o troço perto das 18h00. E em Dezembro, àquela hora, já é noite cerrada.

Suspirei de alívio nesse instante, pois atravessara-o sem percalços.

Dali até Paúle restavam cerca de vinte quilómetros, tudo em estradas locais e com muito pouco movimento. Mais meia hora e chegámos ao nosso destino.

Curiosamente, em Paúle não chovia. Porém, toda a realidade envolvente mostrava que também ali a chuva se fizera sentir.

Após parar em frente à casa da minha irmã, todos saímos do carro. Manuela e Cibele correram para os braços dos meus pais, inundadas de saudades. Também eles as sentiam, pois já lá iam alguns meses que não viam a filha e a neta.

Augusto direccionou-se primeiro a mim e abraçou-se com força.

Não deixava de ser estranho, regressar a Paúle. Vivera ali cerca de um ano e sentia-me como se tivesse regressado a casa.

Após os beijos e abraços da minha irmã e sobrinha aos meus pais, elas vieram receber-me com enorme ternura, também elas sedentas da minha companhia. E Augusto aproveitou para cumprimentar os futuros sogros.

─ Então? Como estão as coisas, lá em baixo? ─ perguntou Manuela.

O meu pai, segurando o braço dela, deixou-se conduzir para o interior da casa, relatando-lhe a vida citadina. Ambos foram seguidos pela minha mãe e pela minha sobrinha que trocavam brincadeiras.

Augusto ficou para trás.

─ Então? Nunca mais disseste nada. ─ lamentou.

─ Não tenho tido cabeça para nada, Augusto.

─ O Benfica?

Encolhi os ombros num gesto de “que mais haveria de ser?”.

O meu futuro cunhado deu-me uma palmada fraterna nas costas e disse:

─ Vá lá. Não desanimes. Vais ver que as coisas se vão resolver.

─ Deus queira que sim. ─ confessei. ─ Estou farto de não jogar.

Entrámos dentro de casa. Constatei que havia mais visitas e fui cumprimentá-los. A dona Palmira recebeu-me com a simpatia do costume, abraçando-me com saudade.

─ Que saudades, rapaz! Bons olhos te vejam. ─ disse-me.

Seguiram-se Maria de Fátima e o marido Teodoro.

Manuela preparara um jantar que daria para um exército. Havia cabrito assado, puré e arroz, frango de churrasco, etc... Para não falar dos diversos doces para a sobremesa.

O jantar foi animado, mas eu estava tão a leste que não dei atenção a nada. Tinha vários problemas em mente. E, interiormente, preferia estar em Lisboa com Susana.

─ Ó Ivan! Estás na Lua? ─ chamou Augusto.

Os restantes riram-se.

─ Desculpa! Que foi?

─ Perguntei se queres vir com a malta, logo à noite? É a minha despedida de solteiro.

─ Ainda estou para ver o que vão andar vocês a fazer. ─ disse ligeiramente zangada a minha irmã.

─ Deixa-o lá, mana! ─ pedi-lhe. ─ Vai divertir-se com os amigos.

─ Sim, sim. ─ respondeu-me amuada.

─ E então? Vens? ─ insistiu Augusto.

Abanei a cabeça negativamente.

─ Estou cansado da viagem.

─ Mas...

─ Ó Augusto! Ele quer descansar. Até tu devias descansar. ─ aconselhou Manuela. ─ Vais para a borga e amanhã...

─ ...vou lá estar a tempo e horas, amor. ─ interrompeu-a Augusto, abraçando-a e dando-lhe um beijo terno.

Assim que acabou o jantar, Augusto e Teodoro saíram de casa para se encontrarem com o resto do grupo. Ainda convidaram o meu pai para ir, mas também ele recusou. Os restantes ficaram mais um pouco. Só que eu sentia-me muito cansado e preferi ir-me embora.

─ Não queres ficar cá? ─ perguntou Manuela.

─ Não! Vou matar saudades da minha casa.

Guardara bons momentos naquele pequeno apartamento, à entrada da aldeia, onde vivera toda a época anterior. Decidira continuar a pagar a renda para a eventualidade de querer passar lá uns dias. Claro que podia sempre ficar na casa da minha irmã, mas... Não há nada como termos o nosso cantinho.

O serão fora tranquilo e servira para matar saudades de pessoas maravilhosas que me haviam recebido muito bem, ano e meio antes, quando o Paúle se tornara na única hipótese de continuar a minha carreira de futebolista. Já para não falar da falta que sentia da presença da minha irmã e da minha sobrinha. A situação fizera-me aperceber como me afastara demasiado de todos.

Ao princípio, quando regressei a Lisboa e ingressei no Benfica, ligava para ela todas as semanas. Só que a minha vida não corria bem e acabei por me desleixar no relacionamento com os que me eram mais queridos. Constatei que a última vez que falara com Manuela e Augusto, havia sido mais de um mês antes. E a quase totalidade dos amigos e conhecidos de Paúle tinham trocado as últimas palavras comigo no Verão anterior.

O alongar da noite trouxera uma chuva miudinha. Estacionei o carro ao lado do pequeno mercado do senhor Lenin e subi as escadas exteriores para o apartamento.

Meti a chave na fechadura e abri a porta. Entrei dentro de casa e fechei a porta. Acendi a luz e contemplei o interior. Tudo permanecia intacto e limpo, pois a minha irmã responsabilizara-se por cuidar do bom estado da casa. Quando saí de lá, pedi-lhe que a mantivesse sempre pronta a receber-me, se me desse na cabeça e ir para lá uns tempos. Mas, nunca lá voltara, até àquele dia.

 

Não fosse ter colocado o telemóvel a despertar-me cedo e teria dormido toda a manhã. Onde eu vivia, Alcochete, não era um local muito movimentado, mas Paúle era a passividade e a paz de espírito maior que alguma vez conhecera.

Dormi tão tranquilamente que, quando acordei, me senti completamente restabelecido do cansaço que trazia.

Ao sair para a rua, deparei-me com um Sol brilhante. Fiquei feliz, pois temia que chovesse durante o casamento. Desci as escadas e caminhei calmamente até ao carro. Reparei que a loja do Lenin permanecia fechada. Possivelmente, também ele iria à cerimónia.

Já se viam algumas pessoas a andar pela estrada, apesar de pouco passar das oito da manhã. Combinara levar Augusto para a igreja. Contudo, não quis deixar de passar pela casa da minha irmã.

Também ali se atarefavam com os preparativos. A minha mãe organizava os últimos pormenores, enquanto Manuela era o espelho da ansiedade. Cumprimentei ambas com um beijo sem me demorar muito junto delas, não fosse ficar contagiado com tanto nervosismo.

Muito mais calmo, o meu pai acercou-se de mim e cumprimentámo-nos.

─ Tens uns minutos? ─ perguntou.

─ Tenho de ir buscar o Augusto. Mas, tenho tempo.

Augusto passara a noite em casa da mãe, evitando assim ver a noiva antes da cerimónia, coisa que, segundo a tradição, não dá sorte nenhuma. Claro que tudo não passa de superstições. Porém, há que respeitar as crenças de cada um.

─ Que se passa, pai? ─ perguntei, ao chegar ao varandim para onde ele me conduzira.

─ Quero contar-te um facto que acho que tens o direito de saber.

O seu semblante era sério. E calculei que o que me iria relatar também o era.

─ A Manuela e o Augusto convidaram muitas pessoas para o casamento. ─ começou. ─ E não foram só pessoas de Paúle.

─ E...?

─ A Camila também vem! ─ informou-me numa golfada de ar.

Senti o coração estremecer. Misturava a felicidade de a voltar a ver, depois de tanto tempo, com a tristeza da certeza de já nada nos ligar.

─ Vem acompanhada pelo noivo. ─ completou o meu pai.

Olhei-o com seriedade e ternura.

─ A Camila é passado!

O meu pai sorriu levemente.

─ Podes tentar enganar-te a ti próprio. Mas não a mim.

─ A sério, pai! ─ insisti.

─ Conheço-te desde que abriste os olhos pela primeira vez, Ivan Pedro. Achas que me consegues enganar? Os teus olhos não correspondem ao que dizes.

─ Talvez, pai. Mas, podes acreditar que tudo farei para que ela se torne numa longínqua recordação. Evitarei mesmo falar com ela, hoje.

Se a razão me obrigava a esquecê-la, o coração não. Julgara tê-la esquecido com a entrada de Susana na minha vida, mas... Desde que o meu pai me dissera que ela ia lá estar, fiquei com o coração aos pulos de ansiedade.

Quando cheguei ao café da D. Palmira, Augusto já me aguardava à porta. A sua face denunciava uma noite mal dormida. Entrou no carro e colocou o cinto de segurança, não evitando um bocejo.

─ Isso é que foi uma noite! ─ exclamei, arrancando em direcção à igreja de Paúle.

─ Ligeiramente...

─ Espero que não tenhas feito nada que envergonhe a honra da minha irmã. ─ disse num tom brincalhão.

─ Ó Ivan! Achas que seria capaz disso? Foi só uma noite de copos. Alguns dos rapazes ainda foram com umas gajas e... Bom, não interessa. Eu e o Teo regressámos por volta das duas.

─ Não precisas de te justificar, rapaz.

Estacionei o carro na estrada, junto ao terreno da igreja. Augusto saiu apressado e deu uma corrida até ao interior.

O edifício era uma capela pequena, mas onde caberia toda a população de Paúle. Os convidados não eram assim tantos, mas iriam praticamente esgotar o espaço. Em volta dela havia um terreno árido, cercado por um muro de meio metro de altura feito de tijolos.

Segui o trajecto do meu futuro cunhado e entrei na igreja, passando por duas grandes portas de madeira maciça. O interior era bastante tranquilo, onde várias filas de bancos compridos ocupavam o espaço desde a entrada até ao altar, sobrando apenas uma linha a dividir ambos os lados para que se caminhasse até à outra extremidade do salão.

Ao fundo, um altar que se erguia imponente com as imagens de santos, rodeados de grande riqueza, o que causava um enorme contraste com a zona reservada aos devotos.

Como já referi, não me considero uma pessoa religiosa. Acredito em Deus, mas recuso-me a aceitar a filiação em qualquer religião. Se Deus nos deu o dom da decisão, para quê seguir as decisões dos outros? Pode ser polémica, a minha afirmação, mas não pretendo que ninguém me siga, apenas que se sigam a si próprios.

No entanto, aprecio bastante o interior das igrejas por serem óptimos lugares de reflexão. Normalmente, têm um ambiente pacífico que permite a concentração e uma maior fluência de pensamentos.

Augusto regressou por uma porta lateral ao altar. Caminhou até mim, mais calmo e informou-me que tudo estava a correr como previsto, esquecendo-se que eu não fazia a mínima ideia do plano das cerimónias.

Dali passámos para a entrada e aguardámos a chegada dos convidados.

─ Como é que se anda a portar o Paúle? ─ perguntei.

─ Soubeste que desistimos de ir à Europa?

─ Soube. Tu contaste-me.

─ Tens razão. Já nem me lembrava. ─ acenou a umas pessoas que iam a passar. ─ Não passámos da primeira eliminatória da Taça de Portugal, desta época. Mas, vá lá, estamos em oitavo no campeonato.

─ Então, este ano não correm o risco de descer.

─ Em principio não. Mas, ainda faltam muitos jogos.

Nesse instante, chegaram os primeiros convidados, a mãe de Augusto, a irmã e o cunhado. Cumprimentámo-nos e eles seguiram para o interior da igreja.

Seguidamente, vieram mais algumas pessoas que eu não conhecia ou conhecia de vista, as quais cumprimentei por educação.

Alguns minutos passados, surgiu o doutor Gervásio e a sua esposa. Ao ver-me, abraçou-me com saudade, perguntando-me por notícias da minha carreira. Resumi-lhe um pouco da história e fui obrigado a interromper com a chegada de Alfredo Carrapiço.

O presidente Carrapiço continuava a ser a personagem mais castiça daquela terra. Envergava um fato preto, onde o casaco jamais se conseguiria apertar, fazendo sobressair a enorme barriga que forçava os singelos botões brancos de uma camisa rosa. E calçava uns sapatos castanhos cheios de pó.

Alfredo abraçou-me, dizendo:

─ Venham daí esses ossos!

Ou o que sobrasse deles, depois de ter sido esmagado entre os seus braços e a sua barriga.

─ Como estás, meu rapaz? ─ inquiriu.

Após recuperar o fôlego, respondi:

─ Bem, obrigado.

─ Tens de passar lá por casa para beber um copo. ─ convidou. Seguidamente, deu uma palmada forte nas costas de Augusto, que quase o derrubou, e desejou. ─ Felicidades, rapaz! E não te canses muito, logo à noite. Amanhã o Paúle precisa de ti.

Augusto nem respondeu, tossindo duas ou três vezes com a pancada.

─ Vais jogar amanhã? ─ perguntei.

─ Não. O treinador diz que fico no banco. Vai pôr o suplente a jogar. ─ contou, tentando recompor-se.

A seguir a Alfredo Carrapiço, veio o filho Miguel com a namorada. Miguel Carrapiço cumprimentou Augusto com um abraço, mas limitou os cumprimentos à minha pessoa a um aceno. E Carla fez pior, ignorando-me e desejando apenas as felicidades da praxe ao noivo.

─ Estes não te gramam nada. ─ constatou Augusto, sabendo que o facto me era indiferente.

─ Fico feliz por terem ficado juntos. ─ confessei. ─ Assim, só se estraga um lar.

Ambos soltámos uma gargalhada sentida.

Junto à entrada dos terrenos da igreja, parou um automóvel luxuoso com motorista privado. Uma chegada destas só estaria ao alcance da milionária da região, a engenheira Amândia Calheiros.

Ao vê-la, perguntei a Augusto:

─ Sabes se a Raquel vem?

─ Não, não vem. ─ informou-me. ─ Ficou em Coimbra. Sabes que não morre de amores por Paúle. Ainda se soubesse que ias cá estar...

─ E pensas que não sabia? Tinha de ser muito burra para pensar que o irmão da Manuela não vinha ao casamento dela. ─ lembrei-lhe. ─ E ela é loura, mas não é nada burra.

Para além de ser patroa de Manuela, a engenheira tinha também uma enorme admiração por ela. Ao chegar junto de Augusto, desejou-lhe felicidades e remeteu-lhe o aviso de que se não a fizesse feliz, a teria à perna.

O meu cunhado, de sorriso amarelo, descansou-a.

Antes de entrar na igreja, olhou para mim e estendeu-me a mão semi-morta, cumprimentando-me como se tivesse medo de me tocar.

─ Como está senhor Ivan Pedro?

─ Bem, obrigado, senhora engenheira.

─ Soube que as coisas no Benfica não andam a correr muito bem. ─ comentou em jeito trocista.

─ É verdade. ─ confirmei.

─ Se calhar, o senhor não passa mesmo de um... como se diz? Um pé-de-chumbo.

Notei-lhe nas palavras o tom amargo de quem tentava atingir o homem que partira o coração da sua filha. Apesar de ser sua mãe, não lhe reconheci o direito a tomar parte nos assuntos que só diziam respeito a mim e a Raquel. Usando o mesmo tom de voz que ela, respondi:

─ A senhora esquece-se que este “pé-de-chumbo” lhe encheu os cofres do clube.

O seu olhar endureceu e ripostou:

─ Reconheço-lhe o valor como jogador, senhor Ivan Pedro. Da mesma forma que reconheço o facto de não ter nenhum como homem.

Tentei responder às suas palavras, mas Augusto interpôs-se, dizendo:

─ Por favor! Não me parece que seja o local para esse tipo de discussões.

A engenheira fulminou-me com o olhar e afastou-se para o interior da igreja.

Os convidados continuaram a chegar. Mais alguns que eu não conhecia.

O senhor Herculano e a dona Gertrudes também marcaram presença. Eram ambos bastante idosos, mas ele estava muito mais debilitado. Vinham acompanhados pelos filhos Samuel e Deolinda, a viúva de Abílio. Felizmente para todos, o terceiro irmão, o delinquente Xavier, não viera.

Foi, possivelmente, o momento mais comovente. Ao rever-me, Deolinda acenou-me e simultaneamente, às nossas memórias, veio a imagem de Abílio. Dei-lhe um beijo ténue na face e lembrei-lhe aquilo que ela sabia e todos lhe repetiam: Abílio era um grande homem!

Justino e Hélder também os acompanhavam, mas tinham ficado para trás. Eram as grandes vedetas da terra, desde que haviam ido jogar para a Académica. Fizeram uma enorme festa ao ver-me. E acabámos, os quatro, unidos num longo e fraternal abraço.

Desde a morte do irmão, Justino preocupou-se em cuidar da viúva. Contudo, evitava falar nele. A dor do seu desaparecimento era ainda muito forte.

A algazarra dos festejos pela minha presença repetiu-se com a chegada de outros jogadores do Paúle, como o Joselino, o Reis, o Emanuel, o Sassi, o Toni, o Macário, o Rato, o Serafim, o Gustavo e o Castanha.

Outro cumprimento especial foi para Ramalho, também ele jogador do Paúle. Sempre denotara uma grande admiração por mim. E recordo-me do muito tempo que me repetia pedidos de perdão por me ter rasteirado num jogo de treino, quando ele ainda jogava no Vila do Mato. Ramalho vinha acompanhado por outros quatro jogadores, todos eles caras novas para mim. Após o longo abraço saudoso, apresentou-mos um a um.

O mais novo era Albertino, um rapazito de dezassete anos que, conforme Augusto me contara posteriormente, era considerado um prodígio na arte de jogar futebol. Alfredo Carrapiço descobrira-o por acaso num jogo de juniores do Tabuense. Conseguira contratá-lo largando uma boa verba.

Os outros eram Coelho, guarda-redes suplente de Augusto. Preto, avançado que era tão preto como eu. E Sergei que jogava a médio-ala, um ucraniano que trabalhava na construção civil na empresa de Alfredo Carrapiço, estava em Portugal já lá iam cinco anos, falava bem português, mas mantinha o sotaque de leste.

Os dotes de Sergei para o futebol foram descobertos numa brincadeira entre o pessoal das obras. Calhara o actual treinador do Paúle estar com Alfredo Carrapiço, quando todos jogavam à bola num terreno perto de umas casas com construção a cargo da empresa do presidente do G. D. Paúle.

Depois do natural aparato da chegada dos colegas de Augusto, reparei no que me pareceu ser um jovem a entrar no terreno da igreja.

─ Quem é aquele? ─ perguntei a Augusto, olhando para a figura de fato lilás que caminhava com as mãos nos bolsos na nossa direcção.

─ “Aquele”? Queres dizer aquela, não?

Continuei a olhar. Não me parecia uma mulher. Parecia mais um rapazito jovem com o cabelo curto tipo beatle.

Ela parou junto de nós e Augusto estendeu-lhe a mão, cumprimentando:

─ Bom dia, Livia!

─ Bom dia, Augusto! ─ retribuiu.

Pela voz, já parecia uma mulher ou um rapaz em plena entrada na adolescência.

─ Este é o Ivan Pedro. ─ apresentou.

Cumprimentou-me com um aperto de mão vigoroso. Desejou felicidades a Augusto e entrou na igreja.

─ Quem é?

─ É a nossa massagista. ─ explicou Augusto. ─ Sei o que estás a pensar. Não sei se é, se não.

─ Se é o quê?

─ Fufa.

Olhei para o céu e exclamei:

─ Ó Augusto. Quero lá saber se ela é fufa ou não?

─ Tem um ar muito macho. ─ argumentou ele.

Desinteressado nesse pormenor, indaguei:

─ E como veio ela parar a Paúle?

─ Foi o doutor Gervásio. Acho que ela foi aluna dele. E como o homem já está a caminhar para a reforma, sugeriu-a ao Carrapiço para o acompanhar nos jogos e o substituir, quando ele sair. ─ Augusto deu uma risada. ─ O pessoal, quando soube que íamos ter uma massagista, começou logo tudo a dizer que iam passar o tempo no chão com dores. Quando a viram...

Nesse momento, aproximaram-se dois homens. O primeiro tinha o cabelo grisalho e aparentava ter uma idade avançada. O segundo era baixo e não era tão velho.

O mais alto chamava-se Freitas, era o actual treinador do Paúle. Tinha sessenta anos e fora contratado para tentar estar à altura do trabalho de José Luís. Não estava a fazer um trabalho extraordinário, mas a equipa estava a fazer o suficiente para cumprir o objectivo da manutenção.

O acompanhante dava pelo nome de Barnabé e era o seu adjunto. Mal o vi e fiquei apreensivo, pois lá diz o povo que “homem baixo ou é bailarino ou filho da p...”.

Não me pareceu que soubesse dançar. E, enquanto Freitas me cumprimentou com felicitações assim que soube quem eu era, Barnabé disse:

─ Ivan Pedgo? Então você é o celebge Ivan Pedgo! ─ Tive que fazer um esforço para não rir daquela pronúncia. ─ Estamos pgante uma vedeta, Fgeitas.

─ Não sou vedeta nenhuma. ─ respondi.

─ O meu amigo é jogador do Benfica. ─ lembrou Freitas em tom afável.

─ Continuo a ser o mesmo que jogou no Paúle.

Freitas colocou-me a mão no ombro e confessou:

─ Pena que ainda não faça. Fazia-nos cá falta.

E com aquelas palavras, ambos entraram.

Augusto olhou para o relógio e disse:

─ A Manuela deve estar quase a chegar. Vou andando para dentro. Quando chegarem, tu entras e eu já sei que eles vêm aí, combinado?

─ Ok. ─ concordei.

Fiquei a vê-lo entrar na igreja, caminhando por entre as filas de bancos, repletas de convidados, rumo ao altar onde o padre já aguardava.

─ Pedro! ─ disse uma voz conhecida, atrás de mim.

O meu coração estremeceu quando a minha mente a identificou. E nem precisava de identificar a voz para saber a identidade da sua proveniência. Apenas uma pessoa me tratava por Pedro.

Voltei-me para ela, dizendo:

─ Olá Camila!

Não sei se seria perceptível para ela como o meu coração batia. No entanto, eu sentia-o tão forte que dava a sensação que me sairia pela boca.

Camila estava aquilo que nunca deixara de ser: Linda. Vinha com um vestido creme em malha e casaco longo da mesma cor. A bainha do vestido terminava abaixo dos joelhos, perto do topo do cano das botas de couro castanho. O cabelo preto vinha apanhado num carrapito singelo. Os seus olhos mantinham a beleza esverdeada, mas já não me olhavam como outrora.

Logo de imediato, reparei no homem alto que a acompanhava. Devia ter quase dois metros, louro e vestia um fato cinzento-escuro.

─ Pedro! Este é o meu noivo. ─ apresentou-me, olhando depois para ele e dizendo. ─ Nick! Present you Ivan Pedro. Is the brother of my friend Manuela.

─ Ivan Pedro? The soccer player? ─ interrogou-se, apertando-me a mão.

─ Yes. ─ confirmei.

─ O Nick não gosta muito de futebol. ─ contou Camila.

─ O futebol também não deve gostar muito dele. ─ ripostei.

─ Pedro!

─ Desculpa.

Camila conhecia-me demasiado bem para deixar escapar o que eu dizia nas entrelinhas.

─ Quando vão casar? ─ perguntei, desejando que fosse nunca.

─ No ano que vem.

Enquanto falava com ela, constatava que ele não percebia uma palavra do que nós dizíamos. Porém, não parecia muito ralado com isso, já que ele próprio se desinteressava do assunto.

─ Vai ser nos Estados Unidos? ─ interroguei.

Camila abanou a cabeça.

─ Não. Vai ser em Lisboa.

Não conseguia evitar de a contemplar maravilhado. Falava com ela e a minha mente repassava todos os momentos maravilhosos que passáramos juntos. Que estúpido que eu fora, trocar o seu amor pela merda do futebol.

─ O Nick vai montar uma empresa em Portugal. ─ relatou. ─ Por isso, vamos viver em Portugal, depois do casamento.

─ Pensei que já estivessem a viver cá.

─ Não. Chegámos ontem a Lisboa.

─ E quando é que voltam?

Nick interrompeu o diálogo.

─ Camila, my love! Would be better, if we…

─ Yes, Nick. ─ concordou Camila. ─ Desculpa, Pedro! Temos de entrar.

Assenti com a cabeça, afastando-me da sua frente.

─ Diz-me só, quando regressas.

Camila segredou qualquer coisa ao noivo e este entrou primeiro. Seguidamente, olhou para mim e respondeu:

─ O Nick regressa no principio da semana. Eu tenho de ficar em Portugal, a organizar o processo da criação da empresa durante a ausência do Nick. E tenho também de tratar dos preparativos do casamento.

─ Será que podíamos conversar, um dia destes? ─ sugeri.

─ Nem penses, Pedro. ─ recusou, atirando no olhar toda a raiva pelo que lhe fizera. ─ Não te quero ver! E se estou aqui, é por amizade à tua irmã e aos teus pais. Estou a ser educada contigo, Pedro. Não confundas isso. Não esqueci o passado. E acredita que te odeio por ele.

E afastou-se em direcção ao interior, onde o noivo a aguardava.

Fiquei sem reacção.

E nos minutos seguintes, permaneci cabiz baixo a olhar para a porta.

Subitamente senti uma mão bater-me nas costas e uma voz dizer:

─ Que faz a vedeta aqui sozinha?

Voltei-me e abracei saudoso o meu ex-treinador e amigo José Luís.

─ Que se passa? Pareces abatido. ─ reparou José Luís.

─ Impressão sua. ─ contrariei. ─ Então, como vai o Estoril? Como se eu não soubesse que são a equipa sensação da Superliga, em quinto lugar.

─ Tem corrido bem. ─ confirmou José Luís. ─ E tu e o Benfica? Não te tenho visto jogar.

─ Andam a lixar-me. Depois conto-lhe melhor.

Combinámos falar mais tarde e com mais calma. E também ele desapareceu no interior da igreja.

Mais alguns minutos e chegou o carro da minha irmã, envolto em fitas brancas. Parou em frente à igreja e as portas abriram. O meu pai saiu, trazendo Cibele pela mão. Depois a minha mãe ajudou Manuela a sair do carro, ajeitando o longo vestido de noiva.

Conforme combinara, entrei na igreja e fiz sinal a Augusto.

A minha mãe entrou primeiro, trazendo consigo Cibele que segurava a sua mão. Acompanhei-as ao longo do salão até ao altar, onde nos colocámos no lugar predestinado para nós.

No momento em que a minha irmã entrou na igreja, de braço entrelaçado no do meu pai, começou a ecoar por todo o salão a marcha nupcial.

As pessoas levantaram-se dos seus lugares para poderem observar melhor a noiva.

Manuela trazia um vestido comprido bege, pois o branco não ficaria muito bem a uma noiva divorciada, a qual sendo mãe de uma menina também já não seria virgem. Pessoalmente, não ligo muito a estas coisas, mas principalmente nas aldeias, as pessoas tomam muita atenção a estes pormenores. Também não levava véu, limitando-se a um pequeno chapéu condizente com a indumentária.

O facto de estarem a casar pela igreja só era possível porque no primeiro casamento, a minha irmã casara somente pelo registo civil.

O meu pai e a minha irmã caminhavam naquele ritmo tradicional dos casamentos. Olhei para Augusto que permanecia estático a contemplá-la, não conseguindo esconder o nervosismo.

Findo o trajecto, o meu pai entregou a mão da filha a Augusto, deu-lhe um abraço e colocou-se junto à minha mãe. Os noivos viraram-se para o padre e a música silenciou-se.

Enquanto o padre lia alguns textos de cerimónia, onde dava conselhos aos noivos (o que não deixa de ser curioso, uma vez que os padres não podem casar e não casam, mas sentem-se habilitados para dar conselhos sobre casamento), eu perdi-me a olhar para Camila. Os seus lindos olhos verdes observavam atentamente todos os pormenores, talvez servisse de treino para o seu próprio casamento.

Senti um enorme desejo que ela não casasse com ele. Direccionei a atenção para Nick. Pobre desgraçado nunca me fizera mal, mas odiava-o por ocupar o meu lugar no coração de Camila.

─ Sim! ─ ecoou pelo interior da igreja, despertando-me.

Olhei para os noivos e vi Manuela finalizar a colocação da aliança no dedo de Augusto.

─ E tu, Augusto? ─ interrogou o padre com a sua voz fina. ─ Aceitas Manuela para tua legitima esposa, no bem e no mal, na saúde e na doença, até que a morte vos separe?

─ Sim! ─ disse, colocando a aliança no dedo de Manuela.

─ Então, é com poder dado por Deus, nosso Senhor, que vos declaro marido e mulher! Podeis beijar a noiva.

E Augusto e Manuela trocaram um beijo tímido, perante os aplausos dos convidados.

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