Votos do utilizador: 0 / 5

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

IVAN PEDRO

CAPÍTULO IV

Que Dezembro estávamos a ter. A chuva rompera furiosa pelas nuvens, quando entrei em Lisboa. Já adivinhava o cenário, desde que vira o aglomerado cinzento-escuro sobre a capital, ao atravessar a ponte Vasco da Gama.

Estacionei o Mégane no parque em frente ao prédio onde os meus pais viviam. Ficara de os vir buscar para seguirem comigo na viagem para Paúle. Saí do carro, tranquei-o e dei uma corrida até ao alpendre de entrada do edifício. Toquei à campainha e a porta abriu.

Enquanto entrava na escada, o meu telemóvel tocou. Parei no hall de entrada e atendi.

─ Olá Jorge!

─ Olá Ivan. Ainda bem que te apanho. ─ disse o meu empresário. ─ Preciso de falar contigo pessoalmente.

─ Não vai dar, Jorge! Estou de partida para o casamento da minha irmã. ─ informei-o. ─ Não me podes dizer por telefone?

─ O Benfica telefonou-me. ─ relatou. ─ Querem rescindir o contrato. ─ Por estranho que isto pudesse parecer meses antes, a noticia encheu-me de felicidade. ─ Mas impõem algumas condições,

─ Quais?

─ Quando voltares, falamos melhor. Mas posso adiantar-te que não querem pagar-te mais nada e querem uma cláusula de indemnização se assinares contrato com algum clube da Superliga ou do estrangeiro nos próximos dois anos.

Ao desligar o telefone, reparei que sobre a pedra perto das escadas, alguém deixara vários folhetos promocionais de fins-de-semana em vários pontos do país. E isso fez-me regressar às memórias...

 

Passada uma semana, desde aquele encontro com Susana, voltámos a sair juntos. A esse encontro seguiram-se outros encontros com ela. Aliás, quase se tornou um hábito, sairmos às Sextas à noite, fosse para ir ao cinema, beber um copo a algum lado, jantar... qualquer coisa que nos fizesse passar um bocado juntos a conversar. Adorava a sua companhia e acho que o sentimento era recíproco.

No entanto, apesar de apaixonado por ela, optei por nunca lhe confessar o que sentia. Era tão estranho o que ela despertava em mim que quase me fazia esquecer Camila. Porém, eu continuava com a ideia fixa de recusar a ideia de amá-la. O que partilhávamos naqueles momentos era tão bom que eu temia perdê-la, se dissesse algo que não obtivesse correspondência da sua parte.

Ao fim de um mês, mais ou menos no inicio de Novembro, combinávamos sair ao Domingo ou ao Sábado, conforme a disponibilidade dela. Até me sentia satisfeito por nunca ser convocado, podendo assim estar com ela, em vez de estar nos estágios antes dos jogos.

Na última Quinta-Feira de Novembro, Susana telefonou-me a perguntar se eu ia ser convocado nesse fim-de-semana. Ambos sabíamos com quase total certeza que não, mas ela queria a confirmação. Disse-me que tinha uma surpresa preparada para mim.

─ Só amanhã à tarde é que sei. ─ disse-lhe.

Susana pediu para que lhe ligasse nessa altura.

Escusado será dizer que fiquei inundado de ansiedade, relativamente à surpresa que ela me estava a preparar.

No dia seguinte, aguardava impacientemente que ela voltasse a ligar. Na tarde dessa Sexta-Feira, após mais um treino com a equipa B, dirigi-me ao departamento de futebol, como fazia sempre, para saber se tinha sido convocado. Sem surpresa, reparei que o meu nome não constava na lista. Dei um pulo de felicidade.

Peguei no telemóvel e marquei o número de Susana. Informei-a da não convocatória. E Susana pediu-me que esperasse por ela, junto à entrada principal do Estádio da Luz.

Segui a pé até ao local, não sem antes deixar o saco com o equipamento no porta-bagagem do carro, estacionado no lugar do costume.

A tarde estava um tanto cinzenta e já sopravam rajadas frias, o que me fez ficar do lado interior do edifício, perto da porta envidraçada. Enquanto aguardava, o meu telemóvel tocou. Retirei-o do bolso do casaco e atendi.

─ Senhor Ivan Pedro?

─ Sim...

─ Muito boa tarde! Fala Ambrósio. Recorda-se de mim?

Como não me haveria eu de recordar de tal personagem? De facto, passara já algum tempo desde que me telefonara pela última vez, insistindo na proposta dos seus serviços. Cheguei mesmo a pensar que tivesse desistido de mim.

Contudo, Ambrósio era um indivíduo esperto e tinha olho para encontrar fontes de rendimento. E eu, pela minha qualidade como jogador e pelas capacidades técnicas, era um potencial lucro, assim Ambrósio me conseguisse convencer a trabalhar com ele.

─ Que deseja? ─ perguntei com frieza.

─ Tenho uma proposta aliciante para si.

─ Calculo...

─ Não me diga que não está farto de jogar... ou melhor, ver jogar na equipa B do Benfica?! ─ disse em tom sarcástico.

─ Onde quer chegar? ─ perguntei, irritado.

─ Se assinar contrato comigo, posso fazer com que volte ao plantel principal do Benfica. Pense nisso, senhor Ivan Pedro. Bom fim-de-semana!

E desligou.

Afinal, eu tinha razão. Ele era o responsável pela minha situação.

Esperei bastante tempo ali, olhando de vez a vez para a escada por onde calculei que ela desceria. Susana não me dissera onde estava, quando falei com ela, mas equacionei a hipótese de ela estar no seu local de trabalho mais usual, o sector dos corpos directivos do clube.

A minha atenção foi desviada para a rua, onde se ouviu o estrondoso som de uma Honda CBR 900 RR amarela, uma mota de alta cilindrada e muita potência de motor. Reparei que era conduzida por uma mulher.

O som desapareceu por completo, quando a condutora a imobilizou perto do local onde eu estava. Para minha surpresa, a rapariga acenou-me. E eu retribuí o cumprimento, mesmo sem saber quem era.

Ela retirou o capacete e abanou a cabeça, atirando os cabelos para trás. Nem queria acreditar. A dona da mota era nem mais nem menos que Susana.

Saí do edifício e dirigi-me a ela. Dei-lhe dois beijos nas faces e perguntei surpreendido:

─ Que fazes tu de mota?

Susana riu-se e respondeu:

─ Uma maluqueira minha. Nunca te contei? Adoro motas.

─ Que fizeste ao Corsa?

─ Ficou em casa.

Abanei a cabeça incrédulo e maravilhado com a beleza do veículo que fazia um óptimo duo com a beleza de Susana.

─ Era esta a surpresa? ─ questionei.

Susana pegou num capacete que trazia preso na traseira da mota e disse:

─ Não. Toma! Põe isto na cabeça.

─ Queres que vá dar uma volta contigo? ─ interroguei apreensivo. ─ Acho melhor não.

─ Não sejas parvo. ─ ripostou. ─ Sou boa condutora.

Coloquei o capacete na cabeça e sentei-me atrás dela.

─ Onde vamos?

─ Lembras-te da surpresa que te falara? ─ inquiriu, recolocando o seu capacete. ─ Estou a precisar de sair de Lisboa e ir passar um fim-de-semana fora. Alinhas?

Se alinho? Parecia que me tinha saído a Sorte Grande. Parecia um sonho, poder passar um fim-de-semana inteirinho com ela.

─ Claro que alinho. ─ concordei excitado.

─ Então, agarra-te bem!

Coloquei os braços à volta dela e segurei-me com força, aproveitando para me encostar o mais possível ao seu corpo e sentir o doce aroma do seu perfume natural.

Susana ligou a ignição da mota e arrancou.

Habituei-me rapidamente à condução de Susana. Porém, as viagens de mota estavam longe de serem uma preferência minha. Parecia que a qualquer momento podíamos cair. A minha atenção dividia-se entre o movimento na estrada e a evolução do estado do tempo, no qual o aglomerado de nuvens cinzentas fazia antever a possibilidade de chuva. Rezei a todos os santos (e eu nem sou religioso) para que não chovesse durante o trajecto.

Seguimos pela Segunda Circular na direcção Benfica-Aeroporto até ao desvio para o Eixo Norte-Sul. Fizemos os quilómetros até chegarmos ao fim da estrada e pararmos num semáforo no cruzamento onde iríamos virar à esquerda e entrar na Avenida Padre Cruz. Enquanto aguardávamos que o verde caísse, perguntei a Susana para onde íamos. Ela recusou-se a revelar o destino surpresa.

Continuámos por aquela avenida até entrarmos na A8, momento em que Susana decidiu colocar muitos dos “cavalos” do motor na estrada. Senti-me como se fosse a cavalo num foguete espacial.

Viajávamos àquela hora que, em pouco tempo, o dia se transformaria em noite. Assim, vinte minutos mais tarde, já todos os veículos circulavam de faróis acesos. Nesse momento, saímos da A8 em direcção à A21. Eu via o percurso todo sobre o ombro de Susana. Sentia o rabo e as pernas doridas, tal como os braços à volta da cintura dela.

A auto-estrada movimentada deu lugar a uma auto-estrada quase deserta, onde Susana aplicou ainda mais velocidade à viagem. E a tímida claridade de fim de tarde quase desaparecera por completo.

Curva para esquerda, curva para a direita, rectas longas e vertiginosas. A estrada era uma pista e Susana abusava.

Alguns minutos passados, vi placas a sinalizar o centro de Mafra e prosseguimos. Do lado direito era possível avistar o Convento. Foram mais dez minutos até ao fim da auto-estrada e a indicação da chegada à Ericeira.

Continuámos nessa estrada alguns quilómetros, altura em que o asfalto nos encaminhou para o centro da vila. Susana virou no cruzamento antes. Uma descida íngreme e começámos novamente a subir. Passámos o cemitério, sempre a subir, e entrámos num aglomerado de pequenas moradias brancas.

Suspirei de alívio, quando Susana parou a mota em frente a uma delas.

─ Chegámos!

Olhei e reparei na casinha de dois pisos semelhante a todas as outras. Esforcei-me por sair da mota, pois as pernas doíam-me imenso pela falta de hábito àquele tipo de veículo.

Susana movia-se como se nem tivesse feito a viagem. Caminhou até aos portões e abriu-os, de forma a empurrar a mota para o interior do terreno.

A noite instalara-se por completo no céu. Conseguia ouvir dali as ondas do mar, mas não o via, apesar de ser visível dali, durante o dia.

─ Anda! ─ chamou-me Susana, ao abrir a porta de casa.

Coxeei pelo carreiro empedrado e entrei.

A casa tinha um pequeno hall com uma escadaria que subia para o primeiro andar e descia para a cave. Andei pelo corredor, vi a casa de banho à esquerda e virei à direita para a sala.

─ Senta-te aí um bocado e repousa. ─ aconselhou com ar trocista. ─ Vou tomar um banho. Fica à vontade.

Ouvi os seus passos a subir a escada para o andar de cima. Olhei para o fundo do corredor e vi a porta da cozinha. As pernas doíam-me muito e optei por me sentar no sofá e aguardar. Acabei por adormecer.

Não sei quanto tempo estive a dormir. Fui acordado por Susana que apareceu na minha frente com o cabelo preto húmido escorrido sobre os ombros, envergando um pijama de camisola e calças rosa.

─ Vou preparar qualquer coisa para comermos. ─ informou. ─ Se quiseres, podes ir lá acima tomar banho.

─ Não trouxe roupa. ─ lembrei. ─ Só se ficar nu, depois.

Susana sorriu-me. Eu adorava aquele sorriso caloroso.

─ Lá em cima, no quarto do fundo, estão no roupeiro algumas roupas do meu ex-marido. Dá para desenrascar, enquanto as tuas ficam a lavar. ─ sugeriu.

─ Do teu ex-marido? ─ interroguei preocupado. ─ Esta casa é do teu ex-marido?

─ É! ─ confirmou Susana. ─ É dele e minha. Está à venda para que seja feita a separação do dinheiro em partes iguais, tal como fora combinado no divórcio. Mas, não te preocupes. Ele está no estrangeiro. Não vai aparecer por cá. Por isso é que vim. Ele é a última pessoa que quero ver à frente.

Mais descansado, aceitei a sugestão.

No andar de cima existiam dois quartos e uma casa de banho completa. Entrei no quarto do fundo e acendi a luz. As paredes eram brancas e tinham um roupeiro embutido numa delas. Abri as portas e seleccionei as peças de roupa que substituiriam as minhas temporariamente.

Ouvi um toc-toc na porta. Olhei e vi Susana a espreitar-me.

─ Já vi que encontraste tudo. ─ disse.

─ Não era difícil.

Susana entrou no quarto e passou o olhar pelo interior da divisão. Existia apenas uma cama de casal e uma cómoda com gavetas.

─ Este é o quarto de hóspedes. ─ explicou. ─ Coloquei aqui as roupas dele. Raramente cá vem e isso são tudo roupas para dar a quem precise. Ficas aqui esta noite.

─ E tu? ─ interroguei por curiosidade.

─ Naquele. ─ respondeu em jeito de ironia, como se eu fosse atrasado mental. ─ Ou estavas a pensar que íamos dormir juntos?

─ Que disparate. ─ reclamei. ─ Perguntei por perguntar.

Susana saiu do quarto e desceu as escadas para se inteirar da evolução do cozinhado.

Eu peguei na roupa e fui tomar banho.

O jantar fora arroz com uns ovos mexidos e pão. Era o que havia. Os momentos juntos eram sempre muito agradáveis. Conversámos alegremente como dois bons amigos que éramos. Finda a refeição, Susana abandonou a louça na cozinha e disse-me:

─ Vou deitar-me! Estou estafada. Se quiseres ficar aí a ver televisão, fica.

─ Não. Também vou subir.

Escalámos juntos a escada e despedimo-nos no corredor com uma troca de beijos no rosto. Susana entrou no seu quarto e fechou a porta, trancando-a com a chave. Não a censurava por não confiar totalmente em mim.

Entrei no meu quarto, acendi a luz e fechei a porta. Deitei-me na cama e fiquei a olhar para o tecto. Aquele quarto tinha um ar frio, muito impessoal. Estranhei muito o facto de não haver uma única fotografia na casa. Seria normal que elas existissem, numa casa que outrora fora um ninho de amor. Contudo, os divórcios são complicados. E talvez aquela fosse a forma que ela encontrara para atravessar a situação, eliminando lembranças.

Dormi como uma pedra e só acordei perto da hora de almoço da manhã seguinte.

Susana aproveitara para fazer compras, durante a manhã, e preparara um belo almoço. E ainda me deixara as roupas lavadas no tampo da cómoda sem que eu despertasse.

Quando desci já arranjado, encontrei a bela Susana na sala no seu traje “civil” de calças de ganga, camisola de malha vermelha e ténis. Aguardava a minha chegada para almoçarmos.

─ Dormiste bem? ─ perguntou-me.

Dei-lhe um beijo e respondi que sim.

Sentámo-nos à mesa e começámos a servir-nos. Susana fizera um delicioso macarrão para almoçarmos.

─ Que tens? Pareces preocupado.

Mastiguei o esparguete, engoli e bebi um pouco de água.

─ Vinha a pensar no telefonema que recebi ontem. O tal empresário que te falei voltou a chatear-me.

─ Que queria ele?

─ Continua a insistir que tem boas propostas para mim. E quer assinar contrato comigo. ─ relatei. ─ Mas, o que mais me lixou foi ele dizer que tinha responsabilidade no que me estava a acontecer. Não foi surpresa, para mim. Já suspeitava disso.

Susana olhava para mim, apreensiva.

─ Compreendo os teus princípios em relação ao teu empresário. Mas, não seria melhor para ti, assinares com ele?

─ Nunca, Susana! Este tipo é um pulha da pior espécie.

─ Eu não percebo muito disso. Só acho que, seja ele o maior filho da mãe, está a prejudicar-te. ─ lançou-me uma expressão terna. ─ Tu és meu amigo. E eu não gosto que prejudiquem os meus amigos.

─ Não te preocupes. Eu hei-de dar a volta por cima! ─ desejei, apesar de pouco convicto.

Naquela tarde, Susana convidara-me para um passeio pela vila. Não conhecia a Ericeira e ela falara-me em alguns sítios bonitos para ver.

Antes de sairmos, subi ao piso superior para ir buscar o casaco. Perto dos últimos degraus, ouvi o telemóvel de Susana tocar. Continuei o meu trajecto até ao quarto, onde vesti o blusão. Por último, desci novamente as escadas.

Ao chegar ao corredor inferior, ouvi a voz de Susana falando num tom baixo:

─ Eu sei... Sim... Claro que não me esqueci do combinado... Sim. Sabes bem que farei tudo para o conseguir... Sim, até isso.

Apareci na porta da sala. Ao ver-me, notei no olhar de Susana a surpresa de me encontrar ali. Não percebi muito bem, naquele instante, o que realmente sucedera. Susana refez-se rapidamente do choque e continuou ao telefone.

─ Ouve! Na Segunda falamos melhor. Sim... Tudo bem... Eu não me esqueço.

E desligou.

─ Algum problema? ─ perguntei desconfiado.

Susana encolheu os ombros.

─ Chatices de trabalho. ─ respondeu. ─ Nem no fim-de-semana me deixam em paz.

─ Devias desligar o telemóvel.

Susana fez um gesto de indiferença para com o assunto. Calculei que já se habituara aos incómodos do seu trabalho. Felizmente, o telefonema não atrapalhara o nosso dia.

A tarde parecia agradável com Sol e sem frio. Apenas o vento, característica típica da Ericeira, incomodava ligeiramente.

Conhecedora exímia da localidade, Susana levou-me a visitar os miradouros da zona. Fiquei maravilhado com a vista ampla do mar, os penhascos altos que envolviam pequenas áreas de areia. Existiam escadas em madeira que permitiam o acesso até às praias e viam-se alguns surfistas a cavalgar as ondas rebeldes.

A Ericeira foi dos sítios mais bonitos que já vi. E fazia-me sentir uma enorme paz de espírito, sem que conseguisse explicar bem porquê.

Após a visita aos miradouros, levou-me a conhecer a parte mais antiga da vila, as zonas preferencialmente ocupadas pelas famílias de pescadores. Mostrou-me alguns dos muitos moinhos típicos da terra.

No trajecto de regresso à moradia, ao passar pelo centro da vila, Susana parou a mota perto de um clube de vídeo. Olhou para trás e sugeriu:

─ Podíamos alugar um DVD para vermos logo. Que achas?

Concordei com a ideia.

 

O filme já passara a metade, uma daquelas comédias românticas que acabam sempre bem. Como só existia leitor de DVD no quarto de Susana, fomos para lá ver o filme. Ela até fizera pipocas para acompanhar.

Estávamos os dois deitados na cama dela, sobre a colcha e encostados a duas grandes almofadas. Susana colocara o balde com as pipocas entre nós, talvez como medida de segurança. Durante a sessão, fartámo-nos de rir e de comentar as cenas.

O quarto tinha um ambiente de penumbra, pois Susana arranjara tudo para que ficasse no quarto a luminosidade mínima, de forma a não influenciar a visualização do filme. A decoração era mais calorosa que a do quarto em que eu ficara na noite anterior. Continuava a não haver fotos de ninguém, mas notava-se que era mais utilizado. E tinha mais móveis, entre eles uma cómoda com espelho e vários produtos de beleza sobre ela.

Quando o balde ficou vazio, Susana retirou-o do seu lugar, esquecendo-se da razão pela qual o colocara ali. Com o passar dos minutos, fui escorregando até ficar praticamente a tocá-la. Sentia-lhe o perfume com maior intensidade.

Comecei a brincar com os dedos no seu braço. Susana afastou-os, olhando para mim com desconfiança.

─ Desculpa! Estava distraído. ─ justifiquei.

A troca de toques entre nós, para além dos beijos na face ou tocar com a ponta do indicador no ombro, ainda não fazia parte da nossa amizade.

As legendas finais começaram a passar. Como se esperava, tudo acabara bem, no filme. Apoiei-me no braço e, olhando para ela, disse:

─ Vou para a cama.

─ Está bem.

Dei-lhe um beijo na face. Estiquei-me para dar outro beijo na outra face. E quando regressava ao meu lugar, passei muito próximo da boca dela e não resisti.

Beijei-lhe os lábios suavemente. Pensei que ela me ia matar por tamanha invasão de intimidade. Porém, para meu espanto, os seus lábios corresponderam timidamente. Continuei a beijar e libertei o desejo que me percorria o corpo. Os meus lábios esborrachavam-se contra os dela. A sua boca abriu e eu levei a minha língua a saborear a sua. O seu hálito era doce e fresco, mesmo com algum paladar a pipocas.

Susana nem se mexia, deitada na cama. Recebia o meu corpo parcialmente sobre o seu. Deixava que eu a beijasse com toda a fogosidade. Correspondia-me apenas nos movimentos dos lábios e da língua.

Parei um pouco para respirar. Sentia o coração a palpitar de uma maneira que parecia querer sair do peito. Encarei-lhe o olhar. Susana olhava-me num misto de desejo e condenação.

─ Não devíamos fazer isto, pois não? ─ questionei, atrapalhado.

─ Não sei. ─ respondeu com distancia. ─ Mas, ainda não me queixei, pois não?

Não sei o que esperava dela. Tivera o impulso de arriscar aquele beijo. Em fracções de segundos, equacionei vários finais entre a possibilidade de ser expulso de sua casa até à possibilidade de ela corresponder de corpo e alma à minha paixão. Aquele que se deparou diante de mim, escapara a todas as equações: Uma mulher que não revelava o que sentia, parecia não querer e querer ao mesmo tempo.

Eu ardia em desejo. Sentia-me tão quente que era capaz de derreter um iceberg. Tornei a colar os meus lábios nos dela e a invadir-lhe a boca com a língua. Os meus beijos eram correspondidos com a mesma fogosidade, mas o resto do seu corpo parecia alheio.

Sem parar de a beijar, tomei a iniciativa de investigar o interior da camisola de malha. Levei a mão, que não estava a usar para me apoiar, a entrar pela cintura. Acariciei a barriga pacientemente, andando com a ponta dos dedos à volta do umbigo. Tacteei suavemente a sua pele, enquanto subia para os seios. Surpreendi-me por não encontrar mais nenhum tecido ali por baixo.

A minha concentração dividia-se entre os beijos vorazes e as carícias nos seios de Susana. Esmagava-lhe os lábios com os meus e imaginava como seriam os seus seios, ao mesmo tempo que os apalpava. Tentei puxar a camisola para cima, de forma a desnudá-los, mas a posição em que estávamos não o permitia.

Susana interrompeu o beijo. Sentou-se direita na cama, quase que atirando-me para o lado. Levou ambas as mãos à camisola e despiu-a pela cabeça, revelando-me um par de seios redondos, não muito volumosos, com uns mamilos rosados bem erectos. E regressou à posição anterior, esperando que eu retomasse o meu lugar.

Não hesitei e continuei a beijá-la. As nossas línguas abraçavam-se, a nossa saliva fundia-se, trincávamos os lábios um do outro, sentindo pequenos arrepios de dor que se misturavam com o prazer. A temperatura dos nossos corpos aumentava e o desejo fazia com que nos apertássemos um contra o outro. As mãos de Susana começaram revistar o meu corpo. Retirara-me a camisola e arranhava-me com as unhas nas costas.

Beijava-a e apertava-lhe os seios. Quanto mais ela me arranhava, mais eu os apertava. E ela gostava. E eu adorava.

Desapertei-lhe as calças e ela ripostou, fazendo-me o mesmo. Avancei com a minha mão para dentro das calças. Encontrei a renda das suas cuecas. Levantei o tecido com o indicador e descobri o resto do caminho com todos. Os seus pelos púbicos passavam por entre os meus dedos, conforme investia no conteúdo das cuecas.

Não parávamos de trocar beijos. Mas, quando a toquei no ponto mais sensível da sua intimidade, a ferocidade dera lugar à ternura. Rapidamente, senti os dedos húmidos. Susana dobrou as pernas e afastou-as mais, recebendo os meus dedos. A sua respiração era mais ofegante. Acariciei-a em movimentos circulares repetidos, aumentando progressivamente a velocidade.

Ela gemia de prazer, contorcendo o corpo e respirando descompassadamente. Os meus dedos circulavam, circulavam, circulavam, circulavam... Susana fez um “ahhhh” e apertou as pernas, entalando-me a mão entre elas.

Libertei-me com cuidado, pois notei que toda a zona estava bastante sensível. Olhei para o rosto de Susana, o qual tinha uma expressão relaxada e sorridente, mantendo os olhos fechados.

─ Foi bom? ─ perguntei.

Abriu os olhos, mas não respondeu. Empurrou-me contra as almofadas e reiniciou os beijos. Os seus lábios procuravam os meus. A sua língua lambia a minha boca.

Foi a sua vez de introduzir a mão nas minhas calças, procurando o meu membro escondido. Agarrou-o com força e puxou-o para o exterior. Senti-o rijo, muito rijo com a pele tão esticada que parecia rebentar.

Susana não parou de me beijar, mantendo a intensidade anterior. Apoiava-se com o cotovelo direito, tendo a sua mão direita a acariciar um dos peitos. E a esquerda esfregava-me com força, puxando a pele aos limites da extensão e flacidez.

Quando estava quase a atingir o êxtase, Susana parou de me beijar e ficou a olhá-lo, enquanto o esfregava vigorosamente. A tensão da proximidade do orgasmo invadiu o meu corpo. E eu libertei-a num jacto forte esbranquiçado, ao que se seguiram alguns mais fracos.

Um deles acertou-me em cheio no lábio superior. Susana preocupara-se em, chegado o momento, apontar para qualquer lado menos para si.

Ouvi a sua risada, apontando para a minha boca.

Levantei-me enojado da cama e corri para a casa de banho. Lavei a boca como se tivesse a maior porcaria agarrada. Foi um acto reflexo. Nem me lembro ao que sabia.

Susana apareceu perto da porta da divisão, olhando para mim com um semblante gozão.

─ Desculpa. Não foi de propósito. ─ disse, mantendo o tom de gozo.

─ Tudo bem. ─ respondi, secando a cara com a toalha.

Ela aproximou-se de mim.

─ Agora já sabes qual é o sabor de um broche. ─ lembrou com ironia.

─ Não me lixes. ─ vociferei, desejando esquecer aquela última parte.

Ao sairmos da casa de banho, Susana deu-me dois beijos nas faces e despediu-se:

─ Boa noite, Ivan! Vamos dormir.

─ Ficamos assim? ─ perguntei.

Susana abanou a cabeça afirmativamente.

─ Foi bom, mas já acabou.

─ Susa...

Susana tapou ternamente a minha boca com a sua mão.

─ Xiuuu... Vamos dormir!

Entrou no seu quarto e fechou a porta, deixando-me só, no corredor, com destino marcado com a minha cama.

Tive muita dificuldade em adormecer. Repassava todos os pormenores daqueles quentes momentos com ela. O meu corpo sentia a satisfação do que partilháramos, mas o desejo de ter ido até ao fim continuava lá.

Comecei a pensar qual seria o resultado de tudo aquilo. Como seria a nossa relação, a partir dali? Como iria ela encarar-me na manhã seguinte? Fui invadido pelo medo de ter posto fim à nossa amizade. E concluí que aqueles minutos de prazer poderiam ter sacrificado o nosso relacionamento. Tentei engendrar uma forma de não a perder. Pedir desculpa? Combinar esquecer o que acontecera? Fazia qualquer coisa para não a perder.

Da forma como se portara, Susana deixara-me a impressão que não desejara aquilo. Que fora algo que acontecera, que a apanhara desprevenida... Contudo, não fora capaz de resistir e entregou-se. Mas, não deveria passar dali, daquela noite. E na manhã seguinte, deveríamos olhar-nos como fizéramos na manhã do dia anterior, como dois bons amigos.

Bolas! Exclamei em pensamento. Estava completamente confuso e sem saber como proceder. Dei tantas voltas na cama a pensar no assunto que acabei por adormecer.

Acordei com o brilho da manhã a entrar no quarto e o bater suave na porta. Esforcei-me para abrir os olhos.

Susana não esperou um “sim” para entrar e abriu a porta.

Tentei sobressaltadamente encontrar as palavras certas.

─ Bom dia! ─ cumprimentou.

Mais ambientado à claridade, olhei para a porta e vi Susana entrar descalça, envergando uma camisola de alças justa e cuecas. Parou junto à cama, abriu a mão direita em frente aos meus olhos e lembrou:

─ Parece que temos uns assuntos a terminar.

Olhei para a palma da sua mão e vi a embalagem fechada de um preservativo.

Susana colocou-a sobre a almofada, perante o meu olhar apatetado, e começou a despir a camisola de alças. Algumas partes do meu corpo começaram a reagir ao que se avizinhava.

Sem pensar duas vezes, recebi-a no interior dos lençóis.

Regressámos aos beijos ferozes. Quase parecia que só sabíamos partilhar paixão com raiva.

Desta vez, Susana vinha decidida a comandar as operações. Deitada sobre mim, invadia-me a boca com a sua língua quente. Seguidamente, começou a descer pelo meu corpo, lambendo-me a pele à sua passagem. Fechei os olhos quando ela desapareceu por baixo dos lençóis.

A sua boca beijava o meu peito, passando depois para a barriga. E as mãos acariciavam-me as coxas. Os beijos prosseguiram a trajectória descendente, concentrando-se na cintura. Os seus cabelos caiam sobre os meus órgãos genitais. As suas mãos avançaram das coxas para o centro. Uma agarrou-me pelos testículos, cravando-me as unhas e arranhando-me suavemente. A outra apertou o meu membro numa mistura de força e sensibilidade.

A lubrificação aumentara naquela zona, o que tornou mais sensível a minha reacção à respiração dela, ali tão perto. Notei que algo quente se aproximava dele. Senti a ponta da língua de Susana tocar na sua ponta, seguindo-se a sensação de um anel macio a envolvê-lo.

Abri os olhos e discerni o contorno do corpo de Susana no lençol, ajoelhada sobre mim. A sua cabeça movimentava-se para cima e para baixo, enquanto sentia o anel labial da sua boca a acariciar-me o falo rijo.

Virei a cabeça para o lado e reparei que o preservativo já lá não estava.

Susana abocanhava-me com vigor. Retirou o membro da boca, lambeu-o cuidadosamente e voltou a abocanhá-lo, introduzindo-o devagarinho, apertando bem os lábios, fazendo-me sentir a sua pressão a passar. A tesão era tal que quase rebentava. O movimento só parou, quando os lábios tocaram a base. Retirou-o com a mesma calma e pressão anterior.

Arrepiei-me com a borracha fria em contacto com o meu órgão. A língua de Susana dançava entre os “gémeos”, deixando para a sua mão direita a tarefa de desenrolar a borracha. Fazendo um anel com o indicador e o polegar, desenrolou um bocado, de maneira a ficar bem colocado. Voltou a segurá-lo com a mão e o anel feito com os dedos deu lugar ao anel feito com a boca, desenrolando o resto do preservativo com a pressão dos lábios.

Regressou do interior dos lençóis, colocando uma perna de cada lado do meu corpo. Sorria-me languidamente, acariciando-me o peito e procurando encaminhar-me para dentro de si.

Enquanto a beijava, a lambia e as minhas mãos lhe apertavam os seios rijos, o seu corpo descia sobre mim, fazendo avançar a penetração.

Susana deixara a cabeça cair para trás, abrindo a boca para o tecto e gemendo a cada salto que dava. Eu segurava-a pelas ancas e pressionava-a contra mim, tentando que a cada descida a penetração fosse mais profunda.

Cavalgava-me cada vez mais depressa, acariciando-se e arfando.

A intensidade dos movimentos foi aumentado, os meus músculos foram-se contraindo, ansiando a explosão final. Aguentei o mais que pude até já não conseguir evitar o fluxo selvagem a irromper contra a borracha. Susana soltou um grito e caiu sobre mim, arrasada pela intensidade do sexo que partilháramos.

Foi assim que a nossa relação amorosa começou.

Total de Visitas 275178