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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XXIV

Passara quase uma semana, desde que fora internado ali. Nesse tempo, a minha irmã e os meus pais visitaram-me todos os dias. Augusto veio as vezes que pôde, pois tinha o café a ocupar-lhe o tempo. Naquele Sábado, contava que Manuela trouxesse a minha sobrinha, a qual ainda não viera para não faltar às aulas.

Durante este período de internamento, toda a equipa me veio visitar ao hospital, acarinhando-me e dando-me força para acreditasse que era possível recuperar. Só que a minha crença não era muita, ainda para mais, depois do doutor Gervásio me ter mostrado as radiografias e explicar-me as dificuldades da minha recuperação.

No primeiro dia, não recebi Alfredo Carrapiço, nem Freitas. Só que Alfredo Carrapiço voltou a aparecer na tarde seguinte e eu não tive coragem de fazer o mesmo. Fiquei pasmado, ao ver aquele homem forte de gestos bruscos e sem cultura, chorar pelo meu estado e pelos meus sonhos desfeitos. Sabia que poderia contar com ele para tudo e comovi-me ao confessar-me que era como um filho para si.

A meio da semana, Jorge viajou até Coimbra para me visitar. Dissera-me que Lúcio Velez soubera do sucedido, mas Jorge não lhe contara a gravidade da lesão. Trazia igualmente a mensagem do presidente do Benfica para que não me preocupasse, pois o clube encarregar-se-ia do meu tratamento.

Na rua, chovia abundantemente. Sem que tivesse feito esforço para o memorizar, recordei-me que aquele era o dia do casamento de Camila. Congratulei-me por estar a chover e desejei que houvesse uma inundação na festa dela.

Quando o relógio marcou três da tarde, o horário das visitas teve início. A primeira pessoa a aparecer foi a minha irmã. Contrariamente ao que sucedera nas últimas visitas, entrou sozinha. Cumprimentou-me e perguntou-me como estava. Seguidamente, disse-me:

─ Trago uma pessoa para te ver. Posso mandá-la entrar?

─ Quem é?

─ Não te posso dizer.

─ Então não quero. ─ respondi, amuado.

─ Assim, não sabes quem é.

Encolhi os ombros e acabei por aceder a que a visita surpresa entrasse.

Manuela regressou á porta, abriu-a e fez sinal a quem estava do outro lado. Ouvi os passos a aproximarem-se e senti um arrepio na espinha quando a vi.

─ Olá! Posso entrar? ─ perguntou.

─ Su... Susana? ─ gaguejei, não querendo acreditar no que os meus olhos viam. O meu rosto alegrou-se instantaneamente. ─ Claro! Entra!

Susana caminhou com toda a elegância até mim. Notei que estava ligeiramente mais gorda, mas isso não lhe tirava um pontinho de beleza. Debruçou-se sobre o meu rosto e deu-me um beijo na face.

─ Vou deixar-vos sozinhos. ─ disse a minha irmã. ─ Têm muito que conversar.

─ Como estás, Ivan?

─ Incrédulo.

─ Como assim?

─ Eras a última pessoa que esperava que me viesse ver.

O rosto de Susana entristeceu-se.

─ Na querias que tivesse vindo, não é?

─ Não é isso. ─ apressei-me a dizer. ─ Bem pelo contrário. Não imaginas como estou feliz por te ver.

─ Desculpa que te diga, mas custa-me a acreditar. ─ retorquiu com toda a honestidade. ─ Mas, não quis deixar de vir, quando a tua irmã me telefonou a contar o que aconteceu.

─ Ah, a malandra tinha o teu contacto. ─ constatei, lembrando-me do que me dissera anteriormente. Fiquei com uma expressão séria e procurei a mão de Susana para a segurar. ─ Compreendo que não tenhas a melhor das ideias acerca de mim, depois de tudo o que sucedeu entre nós.

─ Passado é passado. ─ ripostou. ─ Não te guardo rancor.

─ Já é tudo passado? ─ questionei.

─ As feridas continuam cá, se é isso que queres saber. ─ disse ela num tom magoado. ─ O ódio por ti consumiu-me demais. Sinto que aos poucos os meus sentimentos estão a estabilizar.

─ Isso quer dizer que já não me odeias?

Susana assentiu com a cabeça.

Apesar de sentir a voz presa com o receio da pergunta seguinte, ganhei coragem e interroguei:

─ E a paixão?

─ Que paixão? ─ questionou ela como se não soubesse de que estava eu a falar.

─ A que declaraste por mim, antes de te ires embora. ─ lembrei.

Baixando o olhar, Susana disse:

─ Prefiro não falar sobre isso.

─ Pois eu gostava de falar sobre isso. ─ insisti. ─ Gostava de poder falar abertamente contigo, sobre isso.

─ Para quê? Para nos voltarmos a atingir? ─ inquiriu, agastada. ─ Não me quero magoar mais contigo.

─ Dá-me a tua mão! ─ pedi.

Susana recusou.

─ Por favor! ─ tornei a pedir. ─ Não me faças implorar. Não dá jeito nenhum, ajoelhar-me no chão com a perna neste estado.

Susana não conseguiu evitar um sorriso, entregando-me a mão direita para que eu a segurasse.

─ Eu preciso de ti! ─ confessei. ─ Lamento que tivesses passado por tanto para que eu percebesse isto.

─ Tu não precisas de mim. ─ ripostou Susana. ─ Só dizes isso porque te sentes fragilizado. ─ Fez uma pausa, olhando-me bem nos olhos. ─ E porque a Camila te deixou.

Larguei a mão dela e olhei para o lado contrário àquele onde ela estava.

─ Estás errada, Susana! Mas, não tenho forma de te convencer do contrário. ─ disse com desilusão. ─ Talvez seja egoísmo da minha parte, mas gostava de te ter junto a mim. Vou ter uma jornada difícil de recuperação.

Susana levantou-se da cadeira.

─ Gostava de te poder ajudar. ─ afirmou. ─ Mas, antes de gostar de ti, gosto de mim. E sei que estar contigo só me tem feito mal. Gosto muito de ti, Ivan. Gosto mesmo muito de ti. Desejo que recuperes completamente, apesar de não estar disposta a acompanhar-te.

E com aquelas palavras, começou a caminhar para a porta.

─ Eu amo-te, Susana! ─ exclamei em desespero. Isso fê-la parar e ficar de costas para mim, imóvel como se fosse feita de pedra. ─ Sei que não acreditas. Eu próprio não acreditava. Só que é o que sinto por ti. Por muito que te custe e a mim. Podes sair por essa porta e nunca mais voltar. Mas, não te deixaria partir sem que o soubesses.

Susana voltou-se para mim. O seu rosto estava lavado em lágrimas e os seus belos olhos verdes encaravam-me numa mistura de mágoa e fragilidade.

─ Pára, Ivan! ─ soluçou. ─ Não quero sofrer mais.

De facto, parei. Não disse mais nada, nem argumentei para além do que já fizera. Podia marcar mais uma cruzinha na lista das relações fracassadas. Permaneci a olhar para ela, sério e vencido, aguardando que ela retomasse a sua passada para fora daquele quarto de hospital.

Contudo, a sua reacção foi deixar cair a mala no chão e encobrir o rosto com ambas as mãos. Soluçou algumas vezes e balbuciou algo que não compreendi até tornar a revelar a face, fazendo deslizar as mãos pela pele, secando as lágrimas. Recompôs-se o melhor que pôde, pegou novamente na mala e regressou à cadeira. Sentada, olhou-me novamente nos olhos.

─ O meu coração quer-te! ─ afirmou com a voz ainda embargada. ─ Mas a minha cabeça, a minha razão, diz-me que devo ir para bem longe de ti. Adorava entregar-me a ti de corpo e alma, mas tenho medo do mal que isso me possa vir a fazer. Não sei o que esperar de ti. Habituaste-me a esperar de ti amanhã, o paradoxo do que disseres hoje.

─ Eu sei.

─ Como posso eu confiar no que dizes, Ivan? ─ questionou-se. ─ Até acredito que estejas a ser sincero, mas... Será que sentirás o mesmo amanhã ou depois? Não quero viver à espera de despertar para a realidade. Compreendes?

─ Compreendo. E não há nada que possa dizer que te convença do contrário. ─ respondi.

─ Estás a dar-te por vencido?

Voltei a segurar na mão dela, puxando-a até à minha boca e beijando-lhe os dedos. Respirei o doce perfume que emanava dela e fechei os olhos, desejando que aquele segundo não tivesse fim. Reabri os olhos e contrapus:

─ Não se trata de dar por vencido, Susana. Tudo o que dizes é correcto. Eu, melhor que ninguém, conheço os meus erros e os meus defeitos. Percebo perfeitamente as tuas dúvidas e também as teria no teu lugar. Só que a vida é um risco. Valerá a pena correr esse risco? Só tu o saberás. Só tu o podes decidir. ─ As minhas palavras eram escutadas com toda a atenção. ─ Ao longo da minha vida, magoei muitas pessoas, tal como fui magoado. Chego à conclusão que o meu destino não é ser feliz com as mulheres para além das relações pontuais. Sei o quanto te magoei. E não sei se te voltarei a magoar. Apenas, tenho a certeza que, se o fizer, será involuntariamente. Também sei que isso não justifica tudo... Bolas, Susana! Que posso eu dizer mais? Sinto que preciso de ti. Estou a pedir-te outra oportunidade.

Susana manteve-se calma, ouvindo-me e permanecendo em silêncio após eu acabar de falar. Soltou a sua mão da minha e colocou-a na barriga.

─ Estou a ficar gorda. ─ disse, aparentemente, sem nexo para a conversa.

─ Já tinha reparado. ─ adicionei em tom de brincadeira para desanuviar o ambiente entre nós. ─ Tens afogado as mágoas nos chocolates?

Susana não respondeu. Penso até que nem ouviu o que eu disse. Pareceu hesitante e à procura do momento para falar.

─ Há uma coisa que quero que saibas, antes de me ir embora. ─ disse ela. ─ É importante, mas não é relevante para a decisão que venha a tomar. Não quero que te sintas obrigado a nada para comigo! Só te vou dizer porque acho que tens direito a saber. ─ Olhava-a expectante. Que coisa era essa que eu tinha de saber? ─ Eu estou grávida, Ivan!

A notícia foi tão surpreendente que eu não fui capaz de reagir.

─ Vais ser pai, Ivan! ─ continuou. ─ Estou com três meses e pouco de gravidez. Mas, não quero que te sintas obrigado a nada comigo, por causa disto.

─ Tu já sabias que estavas grávida, quando partiste para o Porto?

─ Desconfiava.

─ E não me disseste nada. ─ constatei, zangado. ─ Quando pensavas contar-me? Ou será que tinhas ideia de me contar? Se a Manuela não te tivesse ligado, eu nunca saberia...

─ Estás a ver? ─ interrompeu-me. ─ Estás ver como já estás a mudar? Basta um pormenor e voltas novamente toda a raiva para mim.

─ Não é nada disso. Como podes dizer “um pormenor”, referindo-te ao nosso filho?

─ Eu ia contar-te Ivan. Mas, só tinha ideia de o fazer, depois de ele nascer. ─ explicou. ─ Tive medo que me pedisses para fazer um aborto. E eu não estava nessa disposição. Revelaste-te um ser humano tão mau que tive medo do que pudesses fazer contra mim.

As suas palavras magoavam-me e ofendiam-me, principalmente, porque eu era responsável por ela ter aquela ideia de mim.

─ Deves achar-me um monstro para me achares capaz de semelhante coisa.

Susana não se manifestou, argumentando:

─ Que querias que pensasse, quando falavas do que sucedera entre ti e a Camila, quando aquela rapariga supostamente engravidara de ti? Ainda para mais, vendo que te estavas a reaproximar da Camila. Que poderia eu esperar, se te fosse contar isto?

Ela tinha razão. Não sei o que teria feito se ela me tivesse contado aquilo, quando eu sonhava com a reconciliação com Camila.

─ Tens razão. ─ acabei por dizer. ─ Infelizmente, tens razão.

Ficámos a olhar um para o outro sem saber o que dizer mais. Não havia nada a dizer, mas também não tínhamos vontade de nos afastar.

─ É melhor chamar a Manuela. ─ sugeriu Susana. ─ Já estão à espera para te ver há muito tempo.

─ Espera! ─ pedi, agarrando-lhe a mão. ─ Ouve-me só mais um instante! Eu quero assumir essa criança. Vou ter muito prazer em ser pai do teu filho. Mesmo que não exista mais nada entre nós, eu quero estar contigo em todos os momentos dessa gravidez. Depois...

─ Depois, logo se vê. ─ completou Susana.

Não esperava uma reacção tão pronta, nem o que ela poderia significar.

─ Isso quer dizer...

─ É melhor chamar a tua irmã. ─ tornou a insistir.

─ Só com uma condição. ─ contrapus. ─ Quero que fiques aqui comigo!

Susana sorriu.

─ Descansa. Eu fico. ─ concordou, fazendo o movimento de se dirigir à porta. Porém, eu não lhe larguei a mão, puxando-a novamente.

─ Só mais uma coisa. ─ disse eu.

─ O que é?

─ Chega aqui. ─ pedi, puxando-a ainda mais para mim.

Susana debruçou-se sobre mim, adivinhado o que eu pretendia. Larguei-lhe a mão e segurei-lhe a cabeça com carinho, conduzindo-a até mim. Beijei-lhe os lábios com amor e senti a retribuição dos seus.

─ Não imaginas como ansiava por voltar a beijar-te. ─ confessei.

─ Nem tu.

 

 

FIM

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