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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XIX

─ Pedro?

Nem acreditei, quando atendi o telemóvel e ouvi a voz de Camila no outro lado da linha. Apanhara-me sentado no sofá a ver um jogo da Superliga e a descansar do desgaste do jogo do G. D. Paúle, nessa tarde de Domingo.

─ Olá, Camila!

─ Espero não estar a incomodar-te. ─ desculpou-se ela, falando num tom suave e afável. Ouvia em fundo uma melodia harmoniosa. ─ Precisava de te falar.

─ Tu nunca me incomodas! ─ disse, retribuindo o tom de voz.

Camila estava sozinha em casa, acompanhada pela música ambiente que pusera a tocar. Enquanto falava com ela, Susana passou pela porta da sala, espreitando e procurando saber com quem eu falava, sem me perguntar. Não sei se chegou a descobrir, pois virou costas à sala e seguiu para o quarto.

─ Estás a pensar vir a Lisboa, brevemente? ─ indagou Camila.

─ Porquê?

Sem evitar uma ligeira hesitação, respondeu:

─ Gostava de te voltar a ver!

Por minha vontade, partiria de imediato para Lisboa. No entanto, já era tarde.

─ Posso encontrar-te amanhã, ao fim da tarde, em Alcochete. ─ sugeri. ─ Que achas?

─ Parece-me bem.

Não falámos muito mais, pois Camila pareceu-me apressada, logo que combinara o encontro. Desejei-lhe uma boa noite e bons sonhos, irradiando felicidade pelo seu convite.

Continuei sentado no sofá a ver televisão. Não que estivesse a dar alguma coisa que me interessasse. Apenas não tinha vontade de ir para a cama e encontrar Susana acordada. Esperei quase uma hora até me recolher.

Na manhã seguinte, quando me levantei, Susana já andava atarefada na cozinha. Sorriu ao ver-me, esperando um gesto igualmente simpático. Respondi com a notícia:

─ Depois de almoço vou a Lisboa!

─ Algum problema? ─ interrogou, preocupada.

─ Não. ─ neguei friamente. ─ Vou porque tenho de ir.

Susana encolheu os ombros, dizendo:

─ Se não queres dizer o porquê da viagem, tu é que sabes. ─ Retomou os seus afazeres. ─ Quando voltas?

─ Amanhã.

O nosso relacionamento estava tão frio e distante que começava a ser indiferente a Susana, se eu estava em casa ou não.

 

Lá diz o povo “em Abril, águas mil”. E era verdade. Desde o começo do mês que ainda não houvera um dia sem chuva. Sabia bem o que me esperava, conduzindo pela estrada regional em direcção ao IP3.

Não vou relatar a viagem, pois já devem estar tão fartos delas como eu.

A noite instalara-se completamente, no momento em que cheguei a Alcochete. Não chovia como durante a maior parte da viagem, mas, olhando para o céu, dava para perceber o nublado.

Entrei em casa, sentindo aquele sossego da zona, onde os ruídos eram fracos ou nulos. Assim que me sentei no sofá, telefonei a Camila para a informar que já chegara e saber que ela vinha a caminho. De seguida, novo telefonema para uma loja de pizzas, encomendando duas para o jantar.

Permaneci no sofá, perdido em pensamentos até ao momento em que a campainha tocou. Não sei ao certo quanto tempo passou. Levantei-me e caminhei para a porta.

Camila surgiu linda como sempre, movimentando-se com elegância e soltando sensualidade. Junto a mim, beijou-me na boca com naturalidade, como se a nossa relação nunca tivesse terminado.

─ Desculpa, fazer-te vir até cá baixo! ─ pediu, despindo o casaco.

─ O que é que eu não faço para estar contigo? ─ interroguei.

Camila sorriu e mordeu o lábio inferior em jeito de provocação. Abraçou-me e convidou:

─ Vamos fazer amor, Pedro!

Partilhando beijos apaixonados, conduzimo-nos mutuamente pela casa até ao quarto, desapertando botões e fechos, libertando os nossos corpos das roupas. Caímos em cima da cama, acariciando-nos. Observava o seu corpo, excitado e saudoso de apertar os seus seios, lamber os seus mamilos... E ela estava tão insaciável quanto eu.

Ficámos completamente exaustos, assim que toda a nossa excitação rebentou num poderoso orgasmo. Deitado na cama, aconchegando a cabeça de Camila no meu ombro, ali continuámos, tapados pelos cobertores.

─ Vejo que acabaste por aceitar a minha sugestão. ─ disse eu, por fim.

─ Como assim? ─ questionou.

─ A ideia de nos encontrarmos até o “teu” Nick regressar. ─ expliquei.

─ Não foi bem com essa ideia. ─ retorquiu. ─ Precisava de falar contigo.

─ Gostei da conversa! ─ afirmei na brincadeira.

Camila levantou-se ligeiramente, ficando apoiada no cotovelo e olhando-me seriamente.

─ Não brinques, Pedro! Estou com muitas dúvidas. ─ confessou. ─ O nosso último encontro mexeu muito comigo. Tenho pensado muito em ti e...

─ E? ─ interroguei, expectante, transformando o meu semblante para um ar mais sério. ─ Onde queres chegar, Camila?

Baixando o olhar, confidenciou:

─ Já não tenho a certeza de querer casar com o Nick.

Senti uma felicidade imensa a subir pelo corpo. Quase parecia um sonho, estar ali na cama com a mulher da minha vida, após fazermos amor, a ouvi-la dizer que não ia casar...

─ Não estou a dizer que não vou casar! ─ exclamou como se adivinhasse os meus pensamentos. ─ Só estou a dizer que perdi as certezas.

─ Não cases com o Nick! ─ pedi.

─ As coisas não são assim tão fáceis. ─ lembrou.

Segurando a sua mão e encarando-a com toda a seriedade e todo o amor que sentia por si, disse:

─ Casa comigo, Camila! Não cases com ele! Casa comigo.

Não esperava um “sim”. Foi mais uma tentativa desesperada para não a perder, daí a pouco menos de dois meses. Para ser franco, esperava um “não” ou “nem penses”. Só que a resposta foi... o silêncio.

─ Então? Que me dizes? Aceitas? ─ insisti.

─ As coisas não são assim tão fáceis. ─ repetiu. ─ E para te ser sincera, o teu convite não me ajuda em nada nas minhas dúvidas.

─ Sabes como te amo, Camila!

Camila levantou-se da cama, procurando a roupa que se espalhara pelo chão.

─ A questão não é essa. ─ contrapôs. ─ Não posso, agora, ir telefonar ao Nick e dizer: Olha, já não caso contigo. Vou casar com o Ivan Pedro!

─ Não digo que o faças dessa forma, mas...

─ E há a empresa. ─ recordou.

─ Estou a ver qual é o teu problema. ─ constatei, desiludido. ─ Dinheiro!

─ Achas, Pedro? ─ questionou, ofendida. ─ Achas que as minhas decisões se prendem com o dinheiro? Quando falo da empresa é pelo facto de ser vice-presidente, nada mais. Uma rotura com o Nick, obrigar-me-ia a abandonar a empresa, deixando-a à deriva até ele voltar. Além disso, eu também lá investi dinheiro. ─ Abanou a cabeça, descrente na minha compreensão. ─ Vou tomar um banho.

O seu regresso do banho coincidiu com a chegada do rapaz das pizzas. Coloquei-as no balcão da cozinha e retornei ao quarto.

─ Encomendei duas pizzas para o jantar.

─ Desculpa, mas não vou poder ficar para o jantar. ─ avisou.

Aproximei-me dela e indaguei:

─ Ficaste chateada com o que eu disse?

Camila sorriu, acariciando-me o rosto.

─ Não! ─ negou ela, dando-me um beijo ─ Só não quero demorar-me para não regressar a casa muito tarde.

─ Pensei que passasses cá a noite.

─ Perdoa-me se te levei a essa conclusão. ─ pediu ela, oferecendo-me mais um beijo e um abraço carinhoso. ─ Só queria estar contigo para fazermos amor e conversar.

─ Voltamos a ver-nos?

Sorrindo-me com muito carinho, respondeu:

─ Claro! Só não te sei dizer quando.

Trocámos um último beijo, antes de ela sair.

Camila deixara-me a ideia de que a minha proposta de casamento seria levada em consideração, restando apenas saber como terminar o noivado com Nick. O tempo que ela necessitava até voltarmos a estar juntos serviria para resolver isso. Fora esta a certeza com que ficara a pensar, enquanto saboreava a minha pizza, em casa, sozinho.

No entanto, todas estas supostas certezas eram equacionadas por mim, sem que ela me tivesse dito claramente o que planeava em relação ao futuro. A única certeza que me dera foi que nos voltaríamos a encontrar.

Passei uma noite tranquila, mesmo sendo solitária. Dormi repousadamente e acordei muito cedo para percorrer novamente os quilómetros que me separavam de Paúle.

 

Se o Sol estivesse descoberto, não seria difícil perceber que a manhã estava no fim, no instante em que estacionei o carro às portas de Paúle, frente-a-frente com a minha casa. Contudo, a densa aglomeração de nuvens cinzentas dava uma tonalidade triste e incolor à realidade envolvente.

Entrei em casa e não encontrei Susana. Reparei num bilhete sobre a mesa da sala e caminhei até ele, pegando-lhe para ler a mensagem. Por momentos, cheguei a pensar que ela aproveitara a minha viagem para desaparecer da minha vida. Mas, não. O bilhete dizia só que a minha irmã tivera de ir ao Porto e a convidara para a acompanhar. Voltaria no final da tarde.

Sem nada que comer em casa, decidi ir almoçar a Oliveira do Hospital e passar a tarde a passear pela cidade. Regressei ao anoitecer, com tempo suficiente para ir buscar o equipamento a casa e seguir para o estádio do G. D. Paúle, onde cumpriria mais um treino da equipa. Nessa passagem por casa, ainda não havia sinal de Susana.

Quando saí do treino, acompanhado por Augusto, encontrei a minha irmã. Manuela já regressara do Porto. A primeira coisa que me disse foi:

─ Já deixei a tua querida em casa!

Cumprimentei-a com dois beijos na face.

─ Que se passa com vocês? ─ inquiriu com o seu ar autoritário de mana mais velha. ─ Ela anda tão triste.

─ Deve estar com o período. ─ sugeri desinteressado.

Manuela olhou-me preocupada e continuou:

─ Que se passa? Vocês já não se dão bem?

Encolhi os ombros.

─ Julguei que fosse sério! ─ afirmou ela. ─ Aliás, julgámos todos!

Augusto abanou a cabeça em concordância.

Caminhando para o meu carro, disse-lhe:

─ Temos que conversar, eu e ela. Esclarecer alguns assuntos. Penso que a nossa relação se está a esgotar. É melhor seguir, cada um, a sua vida!

─ Ivan! Quando é que tomas juízo? ─ interrogou ela.

─ Eu tenho juízo, Manuela! ─ ripostei. ─ Isso não implica que tenha de suportar uma relação doentia.

Eu usava argumentos que ninguém entendia. Nem eu mesmo os entenderia, se parasse para pensar neles. Dizia qualquer coisa para justificar o que se avizinhava, pois não queria contar a realidade.

Despedi-me de ambos e parti para a curta viagem até casa, onde encontraria Susana para uma conversa a que me obrigara, desde que chegara.

Susana estava sentada no sofá a ler uma revista, quando eu entrei em casa. Larguei o saco com o equipamento desportivo no corredor e sentei-me a seu lado.

─ Olá! ─ cumprimentei.

─ Olá! ─ retribuiu sem tirar os olhos da revista.

─ Precisamos de conversar. ─ disse eu.

Susana folheou a revista, continuou a ler e disse:

─ Fala! Estou a ouvir.

─ Será que podes largar a revista e dar-me atenção? ─ pedi.

Susana depositou a revista no sofá, entre nós, e virou-se para mim. Notei-lhe o olhar magoado, quando aguardou as minhas palavras. E eu nem sabia bem por onde começar.

A sala iluminava-se com o candeeiro de tecto, não deixando faltar luz a nenhum canto. Olhei para a televisão e vi que estava a transmitir a quarta ou quinta novela da tarde.

─ Quero falar-te sobre a minha viagem a Lisboa. ─ comecei. ─ Dizer-te o que fui fazer. ─ Fiz uma pausa, tentando encontrar uma forma simples de o dizer. ─ Fui encontrar-me com a minha ex-namorada, a Camila.

Susana permaneceu estática, encarando-me com esforço para não denunciar as suas emoções.

─ Já da outra vez, quando fui tratar do contrato com o Benfica, nos reencontrámos. ─ continuei. ─ Passámos a noite juntos e começámos a falar em reatar a relação. Ontem, ela disse-me que já não quer casar com o noivo. E estamos a pensar casar!

O seu lábio inferior tremia, ligeiramente, seguro pelos dentes para não se notar muito. A revelação abalara-a. Eu, naquela altura, não percebera bem o porquê, considerando que a sua preocupação se limitava ao facto de ter de procurar uma solução para o seu futuro. Vi uma lágrima a escorrer do seu rosto, a qual ela limpou com a palma da mão.

─ Queres que me vá embora? ─ perguntou com a voz trémula.

─ Para já não. ─ respondi. ─ Quis, apenas, que estivesses a par do assunto para começares a planear a tua vida.

Susana anuiu com a cabeça e levantou-se do sofá. Antes de sair da sala, ainda lhe disse:

─ É natural que volte a ausentar-me para a ir encontrar em Lisboa.

─ Faz como quiseres! ─ exclamou, fechando a porta da casa-de-banho.

Senti um alívio enorme, após a informar dos factos, congratulando-me por não ter havido discussão. Permaneci sentado no sofá e mudei de canal, procurando algum noticiário.

Susana não colocou quaisquer objecções às minhas intenções, até porque aquilo era o resultado previsível do nosso acordo. Contudo, a relação transformou-se mais fria que nunca, tendo Susana passado a dormir no sofá e a dialogar comigo o mínimo indispensável. E não houve mais qualquer contacto íntimo entre nós.

 

Em finais de Abril decorreriam em Lisboa as eleições à presidência do Benfica, disputadas entre a direcção em funções e o senhor Lúcio Velez. Este convidara-me a estar presente na sede de campanha, na noite dos resultados.

Como era uma Sexta-Feira, tive de pedir autorização ao presidente Alfredo Carrapiço e ao treinador Freitas. Liberaram-me com o compromisso de estar de volta no dia seguinte, à tarde, pois o Paúle teria mais um jogo importante no Domingo. Tal como eu, também Aquiles obteve a autorização para se deslocar a Lisboa.

Lúcio Velez fizera uma campanha extraordinária, arrastando consigo multidões de sócios do clube. As sondagens atribuíam-lhe uma derrota à justa com valores entre os 47% e os 49%. Só que as sondagens valem o que valem.

Aquiles e eu partimos de Paúle pela manhã, pois ainda queríamos dar o nosso contributo nos resultados. Chegámos à capital à hora de almoço, seguindo para o Centro Comercial Colombo, onde almoçámos. Só após a refeição é que seguimos, a pé, até ao Estádio da Luz para exercer o nosso direito de voto.

Encontrámos uma longa fila de espera para chegar às urnas de voto. Segundo se dizia, aquele seria o sufrágio mais concorrido de sempre, calculando-se uma adesão de 80% a 90% dos sócios do clube.

Felizmente, o tempo estava agradável com um Sol encantador no céu. Ainda se sentia algum fresco no ar, mas dificilmente a chuva compareceria naquele dia.

─ Achas que o teu pai vai ganhar? ─ perguntei a Aquiles.

─ Espero que sim. ─ respondeu-me, abrindo o jornal desportivo que comprara antes de entrar na fila. ─ Já viste, o treinador do Porto vai deixar o clube. Parece que tem uma boa proposta do estrangeiro.

Espreitei para a folha e li o cabeçalho da notícia.

─ Tem sido um técnico fenomenal. ─ referi. ─ Ganhou praticamente tudo.

─ Diz aqui que se fala no técnico do Estoril para o substituir na próxima época.

─ O José Luís? ─ interroguei, pasmado.

─ Sim. ─ confirmou Aquiles. ─ Este não era o técnico do Paúle, a época passada?

─ Era.

De facto, foi o grande salto na carreira de José Luís. Nada que me surpreendesse, só não esperava que fosse tão rápido. Porém, após a brilhante vitória do Paúle na Taça de Portugal e sua boa época no Estoril, colocando o clube a lutar por um lugar nas competições da UEFA, aumentaram ainda mais a atenção sobre o seu trabalho. Sabia que um dia ele chegaria ali. Tive pena que não fosse para o Benfica, pois tinha certeza que faria um bom trabalho e esperava reencontrá-lo lá.

José Luís foi mesmo para o Porto, na época seguinte, conseguindo ainda ir buscar Justino à Académica. O Porto só não contratou também o Hélder porque o Sporting se antecipou. Eram dois jogadores a atravessar um grande momento.

─ Já estamos perto. ─ avisou Aquiles, olhando para a cerca de duas dezenas de pessoas que se entrepunham entre nós e a secção de voto.

Entrámos no enorme pavilhão, vendo uma linha de várias mesas de voto ao longo do interior. Diversas filas apinhadas de gente dividiam-se por elas, sendo que havia umas quantas mesas para sócios com direito a um voto, a cinco votos e a vinte votos, dependendo da antiguidade.

Não posso dizer que tenha sentido uma decepção ou surpresa pelo facto de ninguém me reconhecer. Já esperava que assim acontecesse. Passara pouco tempo no clube e longe da ribalta. Contudo, esperava pelo menos que um ou dois anónimos me reconhecessem da final da Taça de Portugal.

Chegado à beira da urna, apresentei o meu cartão de sócio. Um homem, de aspecto formal, conferiu a minha quota e entregou-me o boletim de voto com os nomes dos dois candidatos. Caminhei alguns metros até ao biombo onde exerceria o meu direito ao voto secreto e desenhei uma cruz no quadrado de Lúcio Freire Velez. Aquiles repetiu os meus passos, logo a seguir, tendo saído do biombo depois de mim. Coloquei o papel dobrado na urna e aguardei que ele o fizesse. Tal como viéramos, saímos do pavilhão.

─ Que vais fazer, agora? ─ indagou Aquiles.

Encolhi os ombros.

─ Nem sei. Talvez vá até à minha casa, em Alcochete.

─ Eu vou ficar por aqui. ─ informou. ─ Encontramo-nos logo, na sede de candidatura do meu pai?

─ Não sei. Que vou lá fazer?

─ O meu pai vai gostar de te ver lá. ─ disse ele. ─ Assiste connosco ao resultado. Sempre é melhor que ficar sozinho em casa.

─ Tudo bem. Lá estarei.

A caminho de Alcochete, liguei a Camila. Encontrei-a a sair da empresa. Respondeu-me com frases curtas, pois estava a conduzir e com a atenção na estrada.

─ Estou em Lisboa! ─ disse eu. ─ Queres ir ter comigo a Alcochete?

─ Está bem. ─ concordou.

 

Fiquei a olhar para o fumo no ar, expelido pela boca de Camila, enquanto fumava um cigarro. Mal termináramos o nosso momento de paixão, ela retirou o maço de cigarros da mala e puxou um, segurando-o com os lábios. Permanecemos deitados na cama, cada um no seu lado, olhando para nenhures.

─ Há muito tempo que não te via fumar. ─ constatei eu.

─ Esta vida tem-me stressado imenso. ─ disse ela, dando uma baforada no cigarro. ─ Mais esta história do casamento...

─ Já tomaste uma decisão? ─ perguntei, olhando para ela.

Camila abanou a cabeça negativamente.

─ Ainda não tomei nenhuma decisão definitiva. E como não o farei, antes de o Nick voltar, tenho tempo para o fazer.

─ Mas, eu gostava de saber com o que contava. ─ lembrei.

Camila levantou-se da cama, desfilando o corpo nu em frente aos meus olhos. Olhou-me com ternura e apagou o cigarro num cinzeiro velho que eu tinha sobre a cómoda do quarto.

─ Tudo a seu tempo, Pedro. ─ disse ela. ─ Já me chegam as decisões que tenho de tomar na hora. Descansa que, assim que tomar a decisão, te direi.

Com aquelas palavras, pegou na roupa que trouxera vestida e seguiu para a casa de banho, onde foi tomar um duche. Continuei deitado na cama, pensando na instabilidade de toda aquela relação. Camila parecia inclinada para o fim do noivado, mas não se decidia. Restava-me ter paciência e confiar no seu juízo.

Já vestida e completamente arranjada, Camila regressou da casa de banho. Pensei que passasse a noite comigo, mas mais uma vez comunicou-me que não, justificando com os compromissos da manhã seguinte e a necessidade de descansar. Aceitei ambas, mais o beijo que me ofereceu, tocando-me os lábios com os seus, numa despedida meia apressada, deixando-me novamente sozinho.

Momentos depois, também eu fui tomar banho e arranjar-me. Vesti uma roupa informal, mas cuidada, e saí de casa, rumo a Lisboa.

Não tinha muita vontade de comparecer na sede de campanha de Lúcio Velez. O seu staff montara o quartel-general num edifício de esquina entre a Praça Duque de Saldanha e uma rua adjacente. Não acreditava que ele vencesse e a ideia de passar por lá só para “picar o ponto” entediava-me.

Chegado a Lisboa, fui jantar ao Centro Comercial Vasco da Gama. Curiosamente, ao mesmo restaurante onde jantara pela primeira vez com Susana, naquela época em que a cegueira da paixão me fazia suspirar por ela. Quando pensava nesses dias, tinha vontade de me bater por ter sido tão estúpido. Claro que Susana estava diferente, bastante diferente, o que não deixava de me surpreender. Contudo, sentia que aquela época da falsa Susana seria sempre uma marca adjacente à lembrança dela.

O restaurante já se encontrava numa fase de menor clientela, pois também não chegara cedo. Talvez estivessem metade das mesas disponíveis. A hora de maior movimento já passara. Perguntei a um empregado se ainda serviam jantares, àquela hora. Muito simpático, o jovem disse que sim e encaminhou-me para uma mesa.

Sentado na cadeira a olhar para a ementa, tive consciência que me perdera nas horas. Deveria faltar cerca de uma hora para fecharem as urnas de voto, no Benfica. Só depois se procederia à contagem dos boletins.

Feito o pedido, fiquei a contemplar o ambiente envolvente, enquanto aguardava pela refeição. Apesar de sozinho, sentia-me bem ali, envolto numa agradável paz de espírito, acompanhada pela música relaxante que ecoava pelo restaurante. Felizmente, não havia nem rádios nem televisões por perto.

Passada meia hora, estava eu a pagar a conta e a deixar o restaurante. Segui pelo elevador até ao parque de estacionamento, no piso -2, caminhei por entre os carros até chegar ao meu.

Liguei a ignição do Mégane e ouvi a música do rádio, o qual mantinha sempre ligado, sempre que conduzia. Pensei em procurar uma estação com notícias para saber as previsões dos resultados, uma daquelas sondagens feitas à “boca das urnas” que quase sempre davam o resultado final. Porém, concluí que tinha tempo de saber, pois tudo apontava para a vitória da actual direcção do clube.

Parti do Parque das Nações e conduzi calmamente pelas ruas de Lisboa, rumo à zona do Saldanha. Não devo ter demorado mais de vinte minutos, pois não havia trânsito. Foi mais complicado arranjar lugar para estacionar. Tive de deixar o carro a uns bons cento e cinquenta metros do edifício sede de campanha.

Ao aproximar-me, dando passadas em ritmo de passeio, notei a iluminação abundante das janelas do edifício e o barulho do aglomerado de gente. Onde me tinha ido meter, pensei. Entrei no edifício, ficando a ser mais um dos muitos que por ali andavam, largando sorrisos. Dei por mim num salão apinhado de jornalistas que aguardavam uma declaração de Lúcio Velez.

Olhei para o relógio e constatei que as urnas já haviam fechado quinze minutos antes. No fundo do salão, vi Lúcio Velez aparecer na outra ponta, andando por um estrado e parando no meio, virando-se para os jornalistas.

─ Meus amigos! ─ começou a discursar. ─ Apesar dos resultados das sondagens que a comunicação social tem transmitido, quero fazer um apelo à calma, pois ainda demorará algum tempo para termos os resultados finais. No entanto, quero expressar a minha alegria pelas previsões e garantir que, caso se confirmem, os benfiquistas terão em mim um veículo para o regresso aos títulos. Muito Obrigado!

E abandonou o estrado, não dando hipóteses a perguntas.

Fiquei confuso. Era um discurso de vitória. Olhei para o jornalista ao meu lado e perguntei:

─ O que se está a passar? Quem ganhou?

─ As sondagens indicam que o Lúcio Velez venceu com 62% contra 38%. ─ respondeu ele com naturalidade.

Só naquele momento percebi a importância da sua vitória. Ou melhor, só naquele momento é que parei para pensar no que poderia significar. E tudo se resumia a uma única coisa: Na época seguinte, eu estaria de regresso ao Benfica.

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