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IVAN PEDRO

CAPÍTULO III

A bagagem não era muita, a que levaria comigo para Paúle, unicamente a necessária para os poucos dias da minha estadia. Passado o fim-de-semana, estaria de volta.

A chuva parara completamente. Tive o cuidado de fechar tudo muito bem e tranquei a porta da minha casa em Alcochete. Desci as escadas e saí a porta da rua, rumando ao Mégane Coupé vermelho estacionado não muito longe dali.

Abri o porta-bagagem e coloquei lá as coisas, fechando-o em seguida.

O impacto da batida ao fechar fez-me recuar a uma certa tarde, dois meses antes...

 

Numa tarde de meados de Outubro, após mais um treino na equipa B do Benfica, encontrava-me junto ao meu carro, arrumado no parque subterrâneo do Estádio da Luz.

Mesmo tendo passado já mais de dois meses desde que fora desterrado para os treinos da equipa B, ali continuava a treinar e sem jogar. A situação era absurda, principalmente para o próprio clube que suportava um ordenado de cinquenta mil euros de um jogador que, basicamente, não servia para nada nem seria nunca uma mais-valia. E durante esse tempo, por três vezes, recebi telefonemas de Ambrósio aliciando-me com propostas em troca dos seus serviços de representação.

Ao fechar o porta-bagagem do automóvel, tendo guardado lá o equipamento, comecei a ouvir o som de saltos-altos a embater com ruído no chão do parque.

Instigado pela curiosidade, procurei a proveniência da passada.

Não deveria haver mais de dez carros estacionados ali, o que para um parque daquela dimensão não significava praticamente nada.

Ao fundo, reparei numa mulher que caminhava elegantemente em direcção a um automóvel azul-escuro. Pareceu-me reconhecê-la, principalmente pelo cabelo preto comprido e pela postura.

Afastei-me do meu carro e aproximei-me dela. A cerca de vinte metros, quase com a certeza da sua identidade, chamei:

─ Susana?

A mulher olhou para mim.

Parei junto dela e reparei no seu semblante de estranheza.

─ Como está, Susana? ─ cumprimentei. ─ Lembra-se de mim?

─ A sua cara não me é estranha. ─ respondeu, esforçando a mente para se recordar.

─ Acompanhou-me na viagem à Suíça.

─ Sim, lembro-me. ─ respondeu, transformando o semblante de dúvida para uma alegria protocolar provocada pela lembrança. Estendeu-me a mão. ─ Como está, senhor...?

─ Poupe o “senhor”, Susana. ─ pedi-lhe com um sorriso. ─ Ivan! Só Ivan.

Junto dela, regressaram à minha memória as sensações que tivera com a sua companhia. E aqueles olhos verdes continuavam a encantar-me. Para além disso, mantinha a pose profissional, irradiando uma beleza natural e elegante.

Quase que me sentia um pelintra junto dela, não porque estivesse mal vestido, talvez apenas por não ter a sua elegância. Já me poderia sentir satisfeito por não a ter encontrado à saída de um treino, com o equipamento suado e com cheiro desagradável.

─ Então? Tem jogado muito? ─ perguntou por cortesia. Uma pergunta típica de quem não percebia nada de futebol e não estava nada a par do que se passava comigo. E porque haveria de estar, não?

─ As coisas não correram muito bem.

─ Pena... ─ suspirou, dando pouca importância ao assunto.

Por momentos, ficámos a olhar um para o outro. Eu sem saber o que dizer mais e ela à espera de saber se eu já tinha acabado.

─ E com a Susana?

─ Está tudo bem. ─ respondeu, abrindo a porta do carro. ─ Olhe, estou cheia de pressa. Prazer em vê-lo!

Num acto reflexo, segurei-lhe o braço, sentindo inconscientemente o medo que ela desaparecesse. Meio engasgado, perguntei:

─ Podemos voltar a ver-nos? Gostava de conversar um pouco consigo.

Susana voltou-se para mim, encarou-me nos olhos e inquiriu num tom quase arrogante:

─ Para quê?

Não sabia o que responder. Limitei-me a dizer:

─ Nada de especial. Foi bom falar consigo da outra vez. Gostava de repetir!

─ Não tenho muito tempo disponível. ─ ripostou. ─ E actualmente não sou muito boa companhia.

─ Custa-me a acreditar! ─ exclamei.

Já sentada no carro, tornou a olhar-me e questionou:

─ Não acredita que sou uma pessoa ocupada?

─ Nada disso. Ponho em dúvida que não seja boa companhia. ─ argumentei.

Susana esboçou um sorriso, dizendo:

─ Acredite que não sou.

Aproximei-me ligeiramente.

─ Como está o seu casamento? ─ A cara de Susana espantou-se, pois esquecera-se que ela própria falara no assunto. ─ Peço desculpa, por fazer esta pergunta.

─ As desculpas não se pedem. Evitam-se! ─ atalhou rispidamente.

─ Talvez a Susana não se recorde, mas foi a Susana que me contou que o seu casamento não ia bem. ─ lembrei num tom calmo.

As minhas palavras fizeram-na lembrar-se, o que a fez soltar um...

─ Desculpe.

─ Não tem importância. ─ apressei-me a dizer. Baixei-me para ficar ao nivel dela. ─ Sei que parece estranho, mas não estou a tentar... você sabe.

─ Sei, o quê? ─ questionou com o seu sorriso encantador.

Baixei a cabeça, meio envergonhado, e disse:

─ Não estou a tentar seduzi-la.

─ E porque haveria de estar? ─ interrogou.

Olhei-a novamente e encolhi os ombros.

─ Mas, não me respondeu. ─ prossegui. ─ A situação melhorou?

Susana abanou a cabeça negativamente, perdendo um pouco do sorriso.

Quem nos visse ali, acharia no mínimo estranho, ver uma elegante senhora, sentada no banco do condutor de um Opel Corsa com a porta aberta, e um homem quase ajoelhado no chão a olhá-la.

Susana olhou para o ambiente através do vidro frontal do carro e disse:

─ Divorciámo-nos. A situação estava insustentável para ambas as partes. Colidíamos em todas as coisas. E a gota-de-água foi ele querer que eu abdicasse da minha vida profissional para engravidar.

─ Não quer ter filhos?

─ Quero! Mas, não agora. ─ Olhou para o relógio. ─ Peço-lhe imensa desculpa, Ivan. Mas, tenho mesmo que me ir embora.

─ Deixe-me convidá-la para jantar. ─ pedi.

Susana abanou a cabeça, sorrindo. Fechou a porta do carro, abriu o vidro e lembrou:

─ Não disse que não estava a tentar seduzir-me?

─ E não estou. Não me diga que não posso ser seu amigo?

─ E porque é que quer ser meu amigo? ─ quis saber, desconfiada. ─ Não sou assim tão ingénua, Ivan.

─ Pode dar-me uma oportunidade?

Susana esticou o braço até ao porta-luvas do veículo, retirou um cartão e entregou-mo.

─ Estou mesmo cheia de pressa. Tem aí o meu número de telefone. Ligue-me! Verei se consigo arranjar tempo para essa oportunidade.

Arrancou rapidamente em direcção à saída. E eu fiquei a observá-la a afastar-se no automóvel.

Senti o coração a bater forte. Não conquistara nada de extraordinário, mas pelo menos não perdera o contacto com ela. Tinha na mão o seu cartão com o número do telemóvel.

Nos momentos que se seguiram, permaneci imóvel onde ela me deixara. A sua figura não me saia da cabeça. Os olhos verdes carregados de uma mistura de frieza e sensibilidade. Os gestos femininos, o pentear do cabelo negro, cada vez que uma franja lhe caia sobre a testa. A elegância dos taillers que vestia de ambas as vezes que a vira. As formas do seu corpo. Susana era linda.

Nos dias seguintes, pensei em telefonar-lhe, mas sentia-me constrangido a fazê-lo. Podem não acreditar, mas apesar da idade que tinha, parecia um adolescente.

Sentia-me muito atraído por ela. Mas, não queria que ela se apercebesse disso, pois tinha medo que ela me fugisse. E isso destroçar-me-ia.

Apesar de a ter visto somente por duas ocasiões, Susana provocava uma sensação diferente, um arrepio na espinha, um desejo de am... Não! Recusava determinantemente a ideia de partilha de sentimentos com alguém para além de uma atracção física, uma paixão momentânea ou sexo pelo sexo.

Amor?

Sofrera demasiado com Camila. E esse amor deixara uma marca que nem uma eternidade faria apagar. E o que mais doía, o que não deixava a ferida sarar, era saber que a responsabilidade por não a ter a meu lado era toda minha.

E que tinha eu, naquele instante?

Trocara o seu amor por um amor doentio ao futebol. E como é que o futebol me retribuiu? Exilando-me numa equipa B, onde treinava rodeado de ex-juniores a sonhar por uma oportunidade de treino com o plantel principal, sabendo que não tinha como escapar, que jamais jogaria e que talvez (e só talvez) no fim da época, após me libertar daquele contrato, conseguisse reencaminhar a minha carreira.

Acordar todos os dias e ter consciência de que Camila era passado na minha vida nunca deixou de ser doloroso. Contudo, após a quebra do meu sonho, tudo se tornou muito mais difícil.

Não me lembro ao certo quando telefonei a Susana. Porém, recordo-me bem que ela atendera e me despachara a grande velocidade, comprometendo-se a ligar-me. Não acreditei que ela o fizesse.

No entanto, antes que me decidisse se valeria a pena tentar outra vez ou não, o meu telemóvel tocou.

Susana começou por pedir desculpa por não me ter atendido quando lhe telefonara. Estava em plena reunião de trabalho. Insistiu várias vezes que era verdade, mesmo sem que por alguma vez eu o tivesse posto em dúvida.

Por entre alguns atropelamentos de fala, já que nos interrompíamos ou falávamos ao mesmo tempo, lancei a sugestão de um jantar. Susana aceitou. Aliás, já sabia as minhas intenções, por isso, ao telefonar já trazia a resposta.

Ficou combinado para o dia seguinte, Sexta-Feira, sendo o encontro ao fim da tarde, junto à entrada do Centro Comercial Vasco da Gama.

Convencera-me que era apenas mais um encontro com uma mulher. Um jantar, uma conversa, um clima e o mesmo objectivo de sempre: sexo.

Tomei um banho relaxante e perfumei-me evitando exagerar no odor. Vesti-me de forma elegante, não muito formal, mas revelando style.

Saí de casa já noite, apesar de pouco passar das 19h00. Segui pela estrada em Alcochete até alcançar o IC3 e entrar no acesso à ponte Vasco da Gama. Era um trajecto relativamente simples, pois atravessados os quilómetros da ligação entre as duas margens, rapidamente entrava no Parque das Nações, localizado logo ali.

Entrei no parque do Centro Comercial Vasco da Gama e estacionei o carro no primeiro lugar que encontrei, já que a lotação não levaria muito tempo a esgotar ou a ficar muito perto disso. Calhou serem as passadeiras-rolantes o acesso mais perto ao Centro. Sentia o nervoso miudinho que me fazia tremelicar. Enfiava as mãos nos bolsos e comprimia os braços contra o corpo.

A densidade de visitantes no espaço comercial era elevada. Caminhei até à porta principal e aguardei. Eram 19h45.

Parecia quase um porteiro, ali petrificado, a olhar para a rua através das portas de vidro. Ansiava pela sua chegada. Comecei a pensar em toda aquela situação, nela... Estremeci ao chegar à terrível conclusão que não sabia como aquela noite iria terminar.

Habituara-me àquelas saídas à noite, tomar um copo e trocar olhares com a primeira desconhecida que me despertasse o desejo. Fora a forma mais adequada que encontrara para tentar atenuar a lembrança de Camila, mesmo sabendo que não era a mais correcta. Contudo, nos últimos tempos fartara-me daqueles encontros sexuais com estranhas. Mas, eram mais fáceis que aquele encontro.

As mulheres que conhecia na noite já sabiam ao que vinha. Pagava um copo, conversava sobre o que elas queriam ouvir, rapidamente percebia se havia interesse e logo se passava a um motel ou ao próprio interior do carro, se a intensidade da paixão o clamasse.

No entanto, aquele encontro era algo a que me desabituara por completo. Combinar um jantar para conversar e para nos conhecermos.

Tive medo do que poderia resultar daquela noite. Fantasiei as mais diversas possibilidades e conclui que dificilmente adivinharia a correcta. Não tinha o controlo da situação. E isso assustava-me.

Subitamente, Susana apareceu no exterior, caminhando até à porta e empurrando-a para que se abrisse. Vestia calças de ganga e um casaco comprido preto, o que me surpreendeu, pois sempre a vira vestida de fato saia-casaco.

Assim que entrou, o seu olhar encontrou o meu. Sorriu e deu os passos seguintes até chegar a mim. Estendeu-me a mão.

Hesitei.

Pensando bem, mal nos conhecíamos, porque haveria ela de me beijar naquele momento? Sempre me cumprimentara profissionalmente com um aperto de mão.

Contudo, contava que ela não fosse tão profissional naquela noite.

Pensei em dizer-lhe o que ia na minha cabeça, mas acabei a apertar a sua mão fria.

─ Desculpe a demora! ─ pediu.

─ Não faz mal. Acabei de chegar. ─ disse olhando para o relógio que marcava 20h10.

Susana olhou para os pisos superiores e perguntou:

─ Onde vamos jantar?

─ Tem preferência?

─ Gosto de restaurantes típicos! Detesto fast-food.

Sorri nervoso, dizendo:

─ Eu também.

─ Que acha de jantarmos no italiano? ─ sugeriu. ─ Gosta de comida italiana?

Assenti com a cabeça.

─ Vamos então? ─ apontou ela para as escadas, não conseguindo deixar de se portar como guia como fizera quando viajáramos para a Suíça.

Tomei a decisão de não protestar nem reclamar daquela postura. Sabia que ela não o fazia intencionalmente.

Subimos as escadas-rolantes e caminhámos lado a lado até à zona dos restaurantes.

─ Parece que vamos ter de esperar. ─ disse ela, vendo a fila de pessoas que aguardavam mesa para jantar. ─ Não me importo de esperar. E o Ivan?

─ Por mim, tudo bem.

Susana olhou para mim a sorrir. Reparei que era quase da minha altura. Tinha uma simpatia enternecedora, mas dando sempre a entender que existia uma linha que jamais me deixaria ultrapassar.

─ Diga-me, Ivan! Como vão as coisas no Benfica? ─ perguntou, iniciando assunto enquanto aguardávamos.

─ Mal...

─ Porquê? Perdoe-me a ignorância, mas não ando muito a par das notícias de desporto.

─ Se andasse, saberia o mesmo. ─ respondi. ─ Fui dispensado pelo treinador. Como não aceitei as propostas de empréstimo, recambiaram-me para a equipa B. ─ Olhei para a cara de Susana e constatei que não percebera nada do que dissera.

─ Não me diga! ─ exclamou consternada. ─ E agora?

─ Tenho que cumprir o contrato com o Benfica até ao fim. ─ expliquei. ─ Depois, logo se verá.

Olhei para a fila e vi que só dois casais nos separavam da nossa vez.

─ E a Susana? Que tem feito?

─ Trabalhado muito. ─ respondeu.

─ Não me diga que há muitos jogadores para acompanhar a estágios?! ─ disse em tom de graça.

Susana olhou-me com semblante ofendido e ripostou:

─ Ser Relações Públicas não é só levar jogadores emproados a estágios!

─ Peço desculpa, Susana! ─ pedi. ─ Não o disse com intenção de ofender.

O empregado do restaurante apareceu à nossa frente e encaminhou-nos para uma pequena mesa de tampo quadrado.

Susana despiu o longo casaco escuro, revelando uma camisola rosa de malha e sentou-se. Eu sentei-me do lado oposto. O empregado entregou um menu a cada um e afastou-se, dando-nos tempo para fazer a selecção.

Abri o menu e comecei a ler as hipóteses. Não sabia bem o que escolher. Levantei o olhar e dirigi-o para Susana que lia o seu menu compenetrada.

─ Achou-me emproado? ─ perguntei.

─ O quê? ─ interrogou, despertada da concentração da leitura.

─ Achou-me emproado? ─ repeti. ─ Quando me acompanhou à Suíça.

─ Não, nem por isso. ─ disse, retomando a leitura.

─ Como falou em jogadores emproados... ─ insisti.

Susana tornou a olhar para mim.

─ E não o são, a maior parte de vocês?

─ Talvez...

O empregado voltou a aproximar-se e perguntou se já tínhamos escolhido. Susana disse que sim e solicitou um prato com um nome que nem cheguei a compreender, mas que acabava em ini. Se formos a ver bem, acabam todos assim ou quase todos.

Após escrever o pedido, o rapaz olhou para mim.

─ Pode ser uma pizza. ─ disse eu, sem saber bem qual.

─ De? ─ inquiriu o individuo.

─ De... Deixe-me ver... Pode ser esta! ─ apontei para o menu.

O tipo olhou para mim como se eu fosse um labrego ignorante e copiou o nome escrito no menu. Reparei que Susana não conseguira esconder o sorriso pela minha atrapalhação. Assim que escolhemos as bebidas, o rapaz afastou-se.

─ Não costuma vir a restaurantes italianos? ─ perguntou Susana.

─ Não são a minha primeira escolha. ─ respondi.

─ Podia ter dito antes. Não me importava de ir a outro que gostasse mais.

Sorri-lhe pela atenção.

─ Se eu a quero conhecer melhor, também tenho de conhecer os seus gostos gastronómicos.

Susana franziu as sobrancelhas.

─ Não sei para que me quer conhecer melhor, Ivan.

─ Não me interprete mal, Susana. Não estou a tentar seduzi-la. ─ Aquela frase começava a ser usual nos nossos diálogos. ─ Acredite que a vejo como um homem. ─ Se eu fosse o Pinóquio, o meu nariz tinha crescido até Alcochete.

A minha frase fez Susana soltar uma gargalhada, o que inconscientemente a pôs mais à vontade comigo.

─ Vou fazer de conta que acredito.

Durante uns momentos, ficámos em silêncio a olhar para o ambiente à nossa volta.

─ Como estão as coisas com o seu marido? ─ perguntei, quebrando a pausa.

─ Ex-marido. ─ corrigiu. ─ Não voltámos a falar, desde o divórcio.

─ Calculo que tenha estado a ser difícil para si.

─ Fora mais difícil o tempo em que estávamos casados. ─ desabafou. ─ Neste momento, é como se estivesse a começar uma nova vida. ─ Mordeu um grissino. ─ Acho que a fase pior foi quando constatámos que o amor que nos unia já não existia. ─ Sorriu para disfarçar a tristeza das recordações. ─ E o Ivan? Já sofreu de amores por alguém?

Foi a minha vez de sorrir para disfarçar.

─ Se lhe fosse a contar... Ficávamos aqui a noite toda.

─ Então é melhor começar. ─ sugeriu prontamente.

─ Tudo bem. ─ acedi.

Nos minutos que se seguiram, contei-lhe uma versão resumida dos acontecimentos que todos já conhecem. Desde o primeiro encontro com Camila, a relação, a ida para Paúle, a vida na aldeia, os sucessos e os insucessos, Raquel e a sua suposta gravidez, a tentativa de recuperar o amor de Camila, os erros todos que fiz em relação a ambas... Quando terminei, já ambos nos deliciávamos com uma sobremesa de frutas.

─ Partiu dois corações! ─ concluiu ela.

─ E despedacei o meu. ─ completei.

Para finalizar o jantar, bebemos um café.

─ Com a minha história, acabei por ficar sem saber a sua. ─ lembrei.

─ Não há muito para saber. ─ afirmou, encolhendo os ombros. ─ Em relação ao casamento, acho até que já lhe relatei os factos.

Confirmei que sim.

O empregado trouxe a conta. Eu paguei a refeição, apesar das diversas insistências de Susana em pagar. Eu convidara, eu pagava.

─ Da próxima vez, a Susana convida-me e paga, combinado?

Susana encolheu os ombros e disse:

─ Como queira.

Apesar de estarmos em pleno Outono, a noite estava agradável. Não era uma noite quente, mas a temperatura era amena e convidava a um passeio.

Após abandonarmos o restaurante, sugeri a Susana um passeio pelo Parque das Nações. Ela acolhera a ideia com agrado e seguimos pela rua, paralelamente ao Pavilhão Atlântico.

Sentindo a brisa nocturna outonal na face, caminhámos calmamente, lado-a-lado, em direcção ao rio. Susana dava passadas pequenas, andando sempre com as mãos nos bolsos do casaco, as quais só tirava para compor o cabelo que o vento desarranjava.

─ Disse-me que o Benfica o dispensara?! Porquê? ─ perguntou-me curiosa.

Vagueando com o olhar pela realidade que nos envolvia, disse:

─ Segundo a direcção, foi uma opção do treinador.

─ Pelo seu tom, não me parece muito convicto dessa justificação.

─ E não estou. ─ confirmei. ─ Eu fizera um bom estágio e ele dissera-me que estava satisfeito comigo. Ninguém me tira da cabeça que a culpa foi daquele Ambrósio.

─ Ambrósio? ─ interrogou. ─ Quem é esse?

A minha atenção perdera-se nos pontinhos laranja na outra margem do rio.

─ É um famoso empresário de futebol. Representa quase todas as estrelas.

─ E que tem ele com a sua situação? ─ questionou, esforçando-se para perceber.

Olhei para o seu rosto encantador e continuei:

─ Ele fizera-me uma proposta para assinar um contrato de representação com ele, passando assim a ser ele o meu empresário.

As dezenas de bandeiras ao longo do caminho que percorríamos dançavam ao sabor do vento.

─ E porque não aceitou? ─ perguntou.

─ Porque já tenho empresário.

Susana olhou para mim e interrogou:

─ Desculpe a minha ignorância, Ivan. Não percebo muito do assunto, mas... Sendo ele um empresário tão conceituado, como diz, não seria benéfico para a sua carreira trabalhar com ele?

─ Talvez... Só que o Jorge, o meu empresário, esteve comigo nos piores momentos. Foi ele quem conseguiu fazer com que eu chegasse até aqui. Não posso esquecer isso. Seria ingrato, trocá-lo quando a minha carreira estava em alta.

Susana presenteou-me com um sorriso carinhoso e concluiu:

─ Você é bom homem, Ivan.

Parei de andar e fi-la parar também, colocando-me em frente a si. Olhei-a nos olhos e o meu coração pulou de ansiedade.

─ Posso fazer-lhe um pedido, Susana?

O seu rosto permaneceu estático, receando as palavras que poderiam sair da minha boca. O seu silêncio foi o consentimento para que prosseguisse:

─ Não temos muito tempo juntos e a nossa amizade ainda é muito recente... Não estou enganado, pois não? Já somos amigos?

─ Sim. ─ confirmou hesitante. ─ Mas, só e apenas isso. Amigos!

─ Então peço-lhe que nos deixemos de “você isto”, “você aquilo”. Está bem?

Susana temia um pedido mais íntimo, uma súbita declaração de amor ou paixão. Notei claramente isso nos seus olhos. Não era que não tivesse vontade de lhe dizer como me sentia atraído por ela. Porém, tinha a noção que isso, dito naquele momento, só a faria afastar-se de mim.

─ Está bem, Ivan. ─ concordou, soltado novo sorriso que não fora mais que uma libertação dos temores que sentira.

Continuámos a andar e só parámos junto ao gradeamento na margem empedrada que nos separava da água do rio. A Lua cheia insidia no rio e iluminava-o num cinzento muito característico. A água movia-se ao sabor da brisa, fazendo um número incontável de pequenas ondinhas à sua passagem.

─ Quase que dá para ver a minha casa! ─ exclamei, olhando para a outra margem.

─ Onde vives, Ivan?

─ Em Alcochete. E tu?

Susana voltou as costas ao rio e disse:

─ Lá em baixo, perto da marina.

Surpreendi-me. Não me lembrara de pensar onde ela poderia viver, mas dificilmente a enquadraria ali.

─ Onde é que jogavas, antes do Benfica? ─ perguntou, mudando de assunto.

Sabia que já lho dissera, mas compreendia que ela não se lembrasse disso.

─ No Grupo Desportivo de Paúle, um clube da 3ª Divisão.

Para minha surpresa, ela fez uma expressão de recordação e completou:

─ É verdade, tu contaste-me. Vocês venceram a Taça, ou qualquer coisa do género, não foi?

Abanei a cabeça, afirmativamente.

A vitória na Taça de Portugal fora brilhante, mas trouxera alguns dissabores, a seguir.

O Paúle, com aquela esplêndida campanha, ganhara também um lugar na Taça UEFA da época seguinte, uma das competições europeias de clubes. Peço desculpa aos menos entendidos, se alguns dos pormenores relatados forem demasiado técnicos.

Financeiramente, o clube encaixara uma boa verba pela venda dos jogadores (Hélder, Justino e eu) e do técnico José Luís. Porém, se isso daria para contratar outros jogadores e melhorar mais o plantel, o mesmo não se poderia dizer de fazer viagens pela Europa para disputar a competição. Por isso, Alfredo Carrapiço optou por recusar o acesso, abrindo a vaga ao melhor classificado da Superliga, fora do lote dos já qualificados.

Como vencedor da Taça de Portugal, o Paúle ganhou também o direito de disputar a Supertaça, troféu onde se enfrentam esse vencedor e o da Superliga num único jogo. Foi porventura a noite mais humilhante da história do clube. Perante alguns milhares de espectadores no Estádio Afonso Henriques em Guimarães, fora outros milhares na televisão, o Paúle foi batido pelo Futebol Clube do Porto por onze a zero. A justificação de tamanha derrota encontra-se no facto de o Paúle já não ter algumas peças importantes no plantel, ainda mal tinha começado a sua época (enquanto o Porto já ia com a preparação bem avançada, devido aos compromissos internacionais), o treinador não era o mesmo, alguns jogadores mal se conheciam, etc... Fora a deliciosa vingança que os portistas ambicionavam. E a imprensa não perdoou, no dia seguinte, com títulos como “O Massacre dos Aldeões”, “Acordados para a Realidade” ou “Onze Paúl(e)adas do Norte”. Parecia que a nossa vitória na Taça de Portugal fora uma intromissão imperdoável num mundo que não era nosso.

A partir desse dia, a imprensa desportiva nacional esqueceu o G. D. Paúle. E eu próprio me afastei involuntariamente das notícias do clube.

Claro que não relatei esta história a Susana, pois seria irrelevante para ela.

─ Está a ficar tarde. ─ avisou Susana, olhando para o relógio. ─ Vamos voltar para o Centro.

─ Tenho o carro estacionado no parque, lá em baixo. Posso levar-te a casa. ─ ofereci.

Susana abanou a cabeça, dizendo:

─ Não me leves a mal, Ivan. Mas, prefiro que a gente se despeça aqui.

Não a contrariei.

Fizemos o trajecto de volta ao Centro Comercial, praticamente, sem dizer uma palavra. Entrámos e ela acompanhou-me até às passadeiras-rolantes.

Quando nos despedimos, pensei que me iria estender a mão como sempre fizera. Só que, para minha surpresa, a ideia da amizade que tentávamos construir também se enraizara na cabeça dela. Esticou o pescoço na minha direcção e deu-me um beijo na face. Senti-me como uma criança a levar um beijo da namoradinha da escola.

─ Despedimo-nos aqui, ok?

─ Está bem, Susana! ─ concordei. ─ Mas, posso voltar a ver-te?

Susana presenteou-me mais uma vez com o seu magnífico sorriso.

─ Para a semana combinamos qualquer coisa. Vou ter uns dias muito atarefados, mas prometo que te ligo, Ivan!

Dei-lhe mais um beijo na face, simulando que me esquecera que já nos havíamos despedido. Susana ficou a ver-me descer a passadeira-rolante. Quando saí das máquinas de pagamento automático, olhei para cima e ela já lá não estava.

Regressei a casa com um sorriso aparvalhado na cara. Sentia um friozinho no estômago e arrepiava-me a lembrança dela. Tentava debater-me comigo mesmo, mas não conseguia evitar. Estava apaixonado por ela.

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