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IVAN PEDRO

CAPÍTULO II

A intensidade da chuva diminuíra, o que me satisfez, já que teria de partir para uma longa viagem daí a alguns minutos. E antes, ainda teria de passar pela casa dos meus pais para os ir buscar, uma vez que seguiriam viagem comigo para Paúle.

Faltava-me um casaco para guardar na mala. Abri a porta do armário e vi despenhar-se no chão uma camisola vermelha. Constatei que se tratava da minha camisola do Benfica, a primeira que usara num jogo de futebol pelo clube.

Peguei nela, dobrei-a com cuidado e a minha mente caiu novamente em recordações...

 

O estágio em Nyon teve a duração de duas semanas, pelo menos para mim, pois o restante plantel já lá estava quando cheguei.

Encontrei uma equipa bastante profissional e motivada que me recebeu com agrado. Uns mais que outros, talvez por causa da personalidade de cada um. O treinador também me recebeu muito bem.

Fiquei instalado no hotel, sem partilhar o quarto com ninguém, uma vez que o número de jogadores, comigo, perfazia um número impar. E como as duplas já estavam distribuídas, acabei por ficar sozinho.

Os treinos sucederam-se com normalidade. O clima era óptimo, já que não fazia muito calor nem muito frio.

Ao fim de três dias fizemos o primeiro jogo de pré-época.

Como eu chegara mais tarde ao estágio, o treinador optou por não me colocar a jogar. Mesmo estando sentado no banco de suplentes, já sabia que ele não me colocaria a jogar, pois ele próprio me comunicara isso. A minha estreia ocorreu dois dias depois, quando jogámos com mais uma equipa de amadores da Suíça. Entrei a quinze minutos do fim, envergando um sonho com o número dezanove.

Talvez estivesse nervoso pela estreia e ansioso por me mostrar. Acabaram por ser quinze minutos de corrida, pouca bola e alguma aselhice. Não foi a melhor estreia, mas jamais perderia de vista a camisola que envergara, exactamente por ser a primeira no Benfica.

Sei que o treinador não gostou muito do que viu. Contudo, como tinha boas prestações nos treinos, decidiu dar-me nova oportunidade no último jogo realizado na Suíça.

Joguei vinte minutos e o Ivan Pedro que sobressaíra no G. D. Paúle reapareceu.

No dia seguinte, os jornais gastaram muita tinta a falar sobre mim. Mesmo aqueles que já escreviam “bocas” acerca da minha contratação se vergavam ao talento que eu demonstrava.

Na véspera da partida de regresso a Lisboa, fui interpelado no hotel por um indivíduo de fato e gravata escuros, camisa rosada e uma maleta que deveria estar cheia de papelada.

─ Ivan Pedro?

─ Sim.

─ O meu nome é Ambrósio! ─ apresentou-se ele, estendendo-me a mão. ─ Sou empresário de futebol e represento vários jogadores, tanto portugueses como estrangeiros... Alguns até do próprio Benfica.

Já ouvira falar naquela personagem, o agente FIFA de nome Ambrósio. Representava quase todos os internacionais portugueses. E corriam muitas histórias acerca da sua pessoa, boas e más, algumas verdadeiras e outras não.

No entanto, sabendo quem ele era e o facto de me procurar, deixaram-me ainda mais confiante em relação às minhas capacidades, uma vez que ele só se interessava por futuras estrelas, logo futuro dinheiro a entrar nos seus bolsos.

Estendi-lhe a mão, mas não me pronunciei, aguardando que ele revelasse as suas intenções.

─ Já o tenho andado a seguir...

─ Como assim? ─ interroguei.

─ Tenho-o visto jogar. ─ explicou. ─ Fez um jogo muito bom, da última vez.

─ Dizem que sim. ─ concordei, mantendo o distanciamento.

O homem pousou a maleta no chão e perguntou:

─ Será que poderíamos conversar noutro lugar mais calmo?

Encolhi os ombros como se não tivesse grande interesse.

─ Gostaria de discutir consigo uma proposta interessante.

─ Como assim? ─ repeti.

Ambrósio sorriu com algum sarcasmo e disse:

─ O meu amigo tem revelado alguns dotes para o futebol. Só que isso, por si só, não chega para o sucesso. O jogador que ambiciona o estrelato deve fazer-se representar por alguém com experiência. Alguém que conheça o Mundo do futebol.

─ Eu já sou representado por um empresário. ─ atalhei friamente.

─ Eu sei, meu amigo. ─ disse num tom calmo, algo irónico. ─ Mas, penso que gostará da minha proposta para que passe a ser eu o seu representante.

─ Agradeço o seu interesse, mas não quero mudar de representante.

A minha recusa foi acompanhada pela mão estendida em forma de despedida.

Ambrósio correspondeu à despedida, deixando contudo o aviso:

─ Se fosse a si, pensava duas vezes. Pode estar a cometer um erro.

─ Não creio. ─ acentuei com convicção. E afastei-me dele.

Não cometi um erro. Contudo, a minha decisão viria a afectar o meu futuro no clube.

Mesmo não o sabendo naquela altura, a minha contratação tivera razões diferentes àquelas que eu julgara terem sido a justificação de estar a jogar no Benfica.

Ainda antes da final da Taça de Portugal, já se falava no interesse de vários clubes na minha transferência. Da parte do Benfica, o interesse oficial só foi demonstrado quando começou a circular a noticia de que F. C. Porto o Sporting me queriam nas suas fileiras.

Claro que essas notícias foram desmentidas, mas todos sabemos que noventa por cento das supostas mentiras têm um fundo de verdade. E, de facto, o Jorge fora contacto por pessoas que se identificaram como representantes desses clubes.

Perante os factos, a conclusão a que viria a chegar mais tarde foi que o Benfica me contratou, não por desejo do treinador, mas para evitar que eu fosse para um dos seus rivais. Estranho que um clube faça isso, já que então o teria de fazer com todos os jogadores potenciais reforços dos rivais. Vontade não deveria faltar, mas só comigo o conseguiram.

Eu fui uma boa contratação para o clube e o treinador estava satisfeito comigo. No entanto, há coisas no futebol que eu não percebo. E o que se seguiu nos dias seguintes fazem parte do rol.

No dia posterior ao regresso a Lisboa, Jorge e eu tivemos uma reunião com os dirigentes do Benfica, a pedido destes.

Recordo-me que estava um calor brutal nessa tarde. Assim que entrámos nas instalações, recebemos com agrado o fresco do ar condicionado.

Ao longo do trajecto, Jorge relatou-me como correra a contratação de José Luís para o Estoril. Ele ficara muito interessado com o projecto e com as condições propostas. E conhecendo como conhecia o José Luís, sabia que tinha de ser algo bastante atractivo para a sua carreira de treinador.

Diz o povo que há dias em que não se deve sair de casa. Eu não diria o dia, mas pelo menos a tarde.

A sala tinha um ambiente escuro, devido aos cortinados corridos para evitar que o sol quente invadisse o interior. O ar mantinha a frescura da entrada. A decoração do local era elegante com a preocupação de espalhar por vários locais o símbolo da instituição.

Fomos recebidos pelo director do Departamento de Futebol.

Jorge foi o primeiro a entrar, cumprimentando-o com um aperto de mão. Eu segui os seus passos, retribuindo a gentileza do cumprimento.

Ao entrar, deparei com uma mesa rectangular no centro da sala, onde uma segunda pessoa nos aguardava. Tratava-se de um dos vice-presidentes, o mesmo que estivera na assinatura do meu contrato.

Logo aí notei que alguma coisa não estava bem. O indivíduo que distribuía sorrisos por todo lado, tempos antes, mantinha agora um semblante carregado. Tinha um aspecto altivo, fisicamente gordo e com falta de cabelo. Levantou-se com enfadamento e estendeu-me os dedos gordos.

Nem eu nem Jorge sabíamos os motivos da reunião. Por isso, a primeira questão que Jorge colocou, assim que o cumprimentou, foi:

─ Então que nos querem, meus senhores?

O director do departamento convidou-nos a sentar nas duas cadeiras em frente ao outro. E ele próprio se foi sentar na que estava vaga, ao lado do vice.

─ É necessário definirmos algumas questões acerca do Ivan Pedro. ─ disse o vice-presidente.

Franzi o rosto, estranhando o assunto.

─ Que questões? ─ interrogou Jorge, personificando a minha estranheza.

O director começou a mexer nos papéis que tinha sobre a mesa, folheando-os como se tivessem alguma coisa a ver comigo e respondeu:

─ Após o estágio, a equipa técnica completou a avaliação do plantel e tomou algumas decisões que nos transmitiram. Como o nosso treinador concluiu que o actual número de jogadores no plantel é excessivo, optou pela dispensa de alguns elementos.

Começava a perceber o teor do assunto da reunião e não me agradava.

O magricela de óculos, director do departamento, continuou:

─ Sendo assim, o treinador considerou que não haveria lugar, actualmente, para o Ivan Pedro no plantel.

─ O quê? ─ interrompi. ─ Depois da minha actuação durante o estágio?

Jorge segurou-me pelo braço, mantendo uma postura calma e tentando incutir-me alguma.

─ Independentemente daquilo que cada um de nós possa achar, a opinião do treinador é a que conta! ─ afirmou o vice-presidente.

─ Ele próprio me disse que estava satisfeito comigo, quando estávamos na Suíça. ─ argumentei.

A resposta do vice foi um encolher de ombros.

─ Eu sei porque é que estão a fazer isto! ─ exclamei cada vez mais irritado. ─ A minha dispensa é o castigo por não aceitar ser representado por aquele tipo, o Ambrósio.

─ Não diga disparates. ─ ripostou o director. ─ Uma instituição como o Benfica não anda ao serviço de interesses pessoais de ninguém.

─ Aconselho-o a não repetir esses disparates em público. ─ ameaçou o vice. ─ Ou poderá ser acusado de calunias e difamação.

Jorge conhecia a história, eu próprio lha contara à chegada a Lisboa. E talvez inconscientemente se sentisse responsável por aquela situação. Nunca perdendo a calma, puxou-me novamente o braço e perguntou:

─ Já chegámos à conclusão que o vão dispensar. Contudo, contratualmente, ele continua ligado ao Benfica. Que soluções propõe?

O director retirou uma folha de entre o molho e informou:

─ Achamos que o melhor será ceder o Ivan Pedro, a titulo de empréstimo, a outro clube. Temos até já um interessado.

─ Quem? ─ perguntou Jorge, antecipando-se a mim.

─ O Alverca.

Soltei uma gargalhada sarcástica.

─ O Alverca? ─ interrogou Jorge. ─ Uma equipa que desceu à Liga de Honra na época passada. E é do conhecimento de todos como são as relações entre o Ivan e o Alverca. Para eles o Ivan estava acabado para o futebol. E agora querem-no lá outra vez?

─ É o que temos. ─ disse o vice com aspereza. ─ Você é empresário. Se tiver uma proposta melhor, coloque-a sobre a mesa.

─ Tenha ou não, considere essa recusada. ─ disse-lhe, fulminando-o com o olhar. ─ Jamais voltaria a jogar para esses senhores.

O director olhou para mim e alertou:

─ Se não houver outra proposta e não aceitar essa, só lhe restará treinar-se com a equipa B até encontrar outra solução.

Jorge abanou a cabeça e sorriu com ironia, dizendo:

─ Meus senhores, transpondo esta situação para o cenário que este pais viveu antes do 25 de Abril, diria que estão a mandá-lo para o Tarrafal.

─ Essa sua teoria nem merece resposta. ─ ripostou indignado o vice-presidente.

O director do departamento dirigiu as palavras para mim e disse:

─ A partir de amanhã, passa a treinar com os Bês, até ter alguma proposta para o seu futuro.

─ Penso que não temos mais nada a dizer uns aos outros. ─ finalizou Jorge. ─ Passem bem.

E ambos lhes virámos as costas e abandonámos a sala.

Jorge tentou confortar-me, prometendo-me que brevemente teria uma nova proposta para mim, um empréstimo numa equipa da Superliga até final da época.

No entanto, nada me poderia reconfortar por ver o meu sonho de uma vida esfumar-se no nada em poucos minutos. E lembrando-me do que perdera na vida por esse sonho, ainda me fazia sentir pior.

Nos dias que se seguiram, mesmo respeitando as ordens de treinar com a equipa B, tentei falar com o treinador do plantel principal, procurando um porquê para aquela situação. Infelizmente, não só ele se furtou sempre ao contacto comigo, como também não me deixavam chegar até ele.

Jorge não conseguiu arranjar-me nenhuma proposta válida. Muitas equipas já tinham fechado os seus planteis. E as poucas que me chegaram não eram compatíveis com o que desejava para a minha carreira.

Um dos grandes esforços de Jorge foi o meu empréstimo ao Estoril, clube onde mantinha boas relações e onde José Luís veria com bons olhos a minha inclusão. Ele próprio me telefonara, transmitindo-me essa vontade.

Contudo, o Benfica não abdicou de uma vírgula em relação às verbas envolvidas para o meu empréstimo. E o Estoril não pôde concretizar as pretensões do seu treinador.

Foi assim que fiquei na equipa B, durante alguns meses, treinando sempre com profissionalismo, mas sem que por uma vez me fosse dada a hipótese de jogar.

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