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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XVII

A semana aproximava-se do fim, acordando eu a meio da manhã do feriado de Sexta-Feira Santa, sozinho na cama. Apalpei a metade dos lençóis onde Susana dormia e encontrei-os frios, sinal de que se levantara bastante cedo.

Desde que eu voltara de Lisboa que não conseguira voltar a ser o mesmo com ela, evitando-a, afastando-a cordialmente, esfriando uma relação que corria bem. Camila não me saia da cabeça e ansiava por notícias dela. Nunca perdia o telemóvel de vista e todas as noites ficava horas a navegar na internet, deitando um olho ao email e outro ao ICQ.

Susana notara o meu afastamento, mas preferiu não se pronunciar ou interpelar-me acerca do que mudara em mim. Talvez tivesse alguma suspeita, optando por não acelerar um processo que teria como fim o seu afastamento da minha vida.

Levantei-me da cama e espreitei pela janela, encontrando uma manhã iluminada pelo Sol quente de princípio de Primavera. Saí do quarto e constatei que estava sozinho em casa. Fui tomar um banho e aprontar-me para o dia que se iniciava para mim.

Susana entrou em casa quando eu me preparava para sair. Estivera às compras no minimercado de Sebastião Lenin, mesmo por baixo da casa. Carregava vários sacos com compras, os quais largou à entrada, pedindo-me para a ajudar a levá-los para a cozinha.

─ Não me dás um beijo? ─ questionou ela, vendo-me pegar nos sacos e ignorando-a.

Não o fizera intencionalmente, por isso, pedi-lhe desculpa e toquei-lhe os lábios levemente com os meus.

─ Que se passa, Ivan? ─ perguntou, enquanto eu transportava as compras para a cozinha. ─ Tens andado estranho.

─ Está tudo bem. Talvez seja algum cansaço. ─ justifiquei.

Susana caminhou até á cozinha e começou a abrir os sacos para arrumar o conteúdo nos armários. Sem perder a atenção no que fazia, ela inquiriu:

─ Não estarás assim por causa da filha da ricaça?

─ De quem? ─ interroguei eu, sem perceber.

─ A filha da engenheira. ─ explicou, guardando um pacote de arroz no segundo armário. ─ A Raquel Calheiros.

Franzi o rosto, não entendendo onde queria ela chegar.

Susana guardou os ovos e a carne no frigorífico, dizendo:

─ Ivan! Eu sei da história da vossa relação. A Manuela contou-me tudo, quando estiveste fora. Somos amigas e ela quis avisar-me que a Raquel ia voltar a Paúle, na Páscoa.

─ A Manuela é parva! ─ exclamei.

─ Não fales assim da tua irmã! ─ repreendeu-me indignada.

─ E não é só ela. Tu também és! ─ continuei. ─ Que coisa mais estúpida, eu preocupar-me com a Raquel.

─ Não percebo porquê. ─ retorquiu Susana. ─ Foi uma pessoa importante na tua vida.

─ Quem? Ela? ─ interroguei com uma expressão incrédula. ─ Porquê? Só porque a “comi” uma vez?

Susana largou as arrumações para me enfrentar na discussão, encarando-me olhos nos olhos. Colocou as mãos na cintura e barafustou:

─ Como te atreves a falar assim de uma rapariga que quase engravidaste?

─ Não fales do que não sabes, Susana! ─ avisei, começando a ficar farto das suas condenações. ─ Ela nunca esteve grávida! E à custa dessa treta, perdi a hipótese de voltar para a mulher que amava.

Aquela parte, Susana não conhecia porque Manuela também não a conhecia e não lha poderia ter contado. Reparei que o seu rosto se alterou, assolado pela dúvida de quem era a outra pessoa. Podia não lhe conhecer a identidade, mas sabia a quem eu me referia, pois eu falara-lhe, algumas vezes, na minha história com Camila.

─ Eu não tenho nada com isso. ─ atalhou Susana, virando-me as costa.

─ Agora é que disseste uma verdade! ─ exclamei, levantando os braços ao céu. ─ Talvez a única nestes últimos dias.

Susana tornou a olhar para mim, visivelmente magoada. Encarou-me com os olhos a tremer e indagou:

─ Que foi que eu fiz, Ivan?

Encolhi os ombros, revelando um desconhecimento total ao que ela se referia.

─ Porque me tratas tão mal, desde que vieste de Lisboa?

─ Eu não te trato mal. ─ argumentei.

─ Não? ─ insistiu ela. ─ Vejo que não te tens observado. A forma como me falas, a forma como foges de mim, me evitas. Tens vindo a levantar a barreira que pensava termos derrubado. ─ Suspirou, desiludida. ─ Que aconteceu em Lisboa?

─ Não aconteceu nada, Susana! ─ exclamei fatigado. ─ Estou farto dessa pergunta, caraças. ─ Virei-lhe as costas e caminhei para a porta da rua com a intenção de sair.

─ Vais atrás dela? ─ inquiriu.

─ De quem?

─ Da Raquel.

Parei junto à porta e direccionei-lhe um olhar irritado. Peguei nas chaves do carro, deixadas sobre uma mesinha na entrada, e retorqui:

─ Não me lixes o juízo com esse assunto! A Raquel foi apenas mais uma, entre tantas com quem fui para cama.

─ Tal como eu?!

─ Tal como tu! ─ confirmei secamente.

─ Incrível, como consegues magoar tanto as pessoas, Ivan Pedro!

─ Magoar? ─ questionei. ─ Sabes lá o que é ser magoado. Pensas que te estou a magoar? Estou a ser sincero contigo. Se essa tua cabecinha imaginou alguma coisa, entre nós, para além de umas fodas, és tu quem te está a magoar.

─ És uma besta! ─ afirmou, colérica. ─ A minha “cabecinha” não imaginou nada. Julguei ter conhecido um ser humano encantador, tal como te mostraste ser até ao inicio desta semana. Não penses que esqueci os nossos acordos. Sei o que esperas de mim e sei o que esperar de ti. Só peço que, em consideração ao cumprimento de todas as tarefas que me exigiste, me respeites. Não quero ter uma imagem de “encornada”.

Aproximei-me ligeiramente dela. Baixei o tom de voz, acalmando a discussão.

─ Não tenho qualquer vontade de rever a Raquel. ─ disse-lhe. ─ Estamos a discutir um assunto sem fundamento.

Susana baixou o olhar, direccionando-o para o chão. Acabou por dizer:

─ Tens razão, Ivan! Desculpa-me!

Dei-lhe um beijo na testa e afastei-me, saindo para a rua.

Claro que a notícia do regresso de Raquel Calheiros à região (não a Paúle, pois odiava aquele antro de pacóvios) trouxe para a ribalta a recordação do caso que tivera com ela. Estava certo de que o assunto era falado pelas pessoas de Paúle, as quais teriam alguma curiosidade em ver as nossas reacções, quando nos reencontrássemos. No entanto, eu não tinha a mínima vontade de rever Raquel. Esperava mesmo conseguir atravessar a quadra pascal sem sequer lhe pôr a vista em cima.

A filha da engenheira Amândia Calheiros regressara ao palacete da família na noite anterior, trazida pelo motorista da casa que a fora buscar a Coimbra. Não deveria ficar muito para além do dia de Páscoa, regressando na Segunda-Feira seguinte.

No entanto, calhou que no Sábado à tarde, logo a seguir ao almoço, a encontrasse na estrada que ligava Paúle a Midões, já dentro da zona midoense. Isso acontecera porque eu tivera de ir à mercearia do senhor Herculano e da dona Gertrudes comprar batatas, coisa que nunca havia no minimercado de Sebastião.

Na viagem de regresso, vi a lambreta de Raquel parada à porta da farmácia de Midões. Sei que disse não ter intenções de a voltar a ver, mas senti um impulso de a rever, nem que fosse para saber se estava diferente. Estacionei o carro, ligeiramente, mais acima na estrada apertada que descia à parte baixa da povoação, onde se situava a farmácia, saindo do Mégane e aguardando.

Apenas o cabelo estava mais curto, continuando ela em todos os aspectos a ser a Raquel que eu conhecera. Permanecia elegante e atraente, sobressaindo de longe entre qualquer outra mulher daquela terra. Através dos óculos escuros, apercebeu-se da minha presença. Fingiu que não me viu e sentou-se no assento da lambreta.

─ Raquel! ─ chamei.

Ela virou a cabeça para trás e olhou-me com um semblante pouco simpático.

Retirei os meus óculos escuros e aproximei-me dela.

─ Que queres? ─ perguntou com arrogância.

─ Reconheci a tua lambreta. Parei só para te cumprimentar.

─ Escusavas de te ter incomodado. ─ retorquiu com desprezo.

Levantei os braços em sinal de rendição e questionei:

─ Para quê essa atitude, Raquel?

─ Que atitude?

─ Essa arrogância e esse desprezo?

Raquel soltou uma gargalhada irónica e contrapôs:

─ Deveria tratar-te de outra maneira?

─ Pensei que fossemos amigos.

Abanando a cabeça, ela interrogou:

─ Amigos? Deves ter uma memória muito curta, Ivan Pedro. Depois do que me fizeste, ainda achas que somos amigos.

Baixei a cabeça, olhando para as suas calças de ganga. Mantive os braços cruzados e um pé apoiado na pedra, ao lado da mota.

─ Que te fiz eu? Não terá sido o que me fizeste a mim? ─ argumentei. ─ A história da gravidez que afinal não era. Ter ido para a cama contigo foi dos maiores erros da minha vida!

O rosto de Raquel endureceu ainda mais, retirando os óculos-escuros e lançando-me um olhar de completo ódio.

─ És um cabrão! ─ afirmou. ─ Foste tu quem me convidou para a cama. Sabias que gostava de ti e aproveitaste a situação.

─ Tu andaste meses a oferecer-te! ─ redargui. ─ Só faltou meteres-te debaixo de mim. Até quiseste ter um caso temporário até eu voltar para a Camila.

Raquel deu-me uma chapada violenta na cara, respondendo ao que lhe dissera. Recompus-me do impacto, reparando que algumas pessoas nos observavam, sentadas nos bancos de jardim, em frente à farmácia. Olhei para ela, esfregando devagar a face que ela atingira.

─ Se não estivessem aqui estas pessoas, levavas um murro nessa tromba... ─ disse baixinho, disfarçando para os curiosos.

─ És muito mau! ─ exclamou, enraivecida. ─ Também já bates em mulheres? Um canalha completo, sim senhor. ─ E colocou o capacete na cabeça, arrancando na sua motorizada e seguindo pela estrada.

Sem grande pressa, regressei ao carro e fui atrás dela. Não teria muita dificuldade em alcançá-la. Contudo, não queria espectadores. Por isso, perseguindo-a, deixei que chegasse à zona da estrada onde só havia pinheiros em ambas as bermas. Nessa altura, ultrapassei-a e fiz-lhe sinal para que parasse. Como ela não obedeceu, atravessei-lhe o automóvel à frente da motorizada, obrigando-a a travar rapidamente, parando a escassos centímetros do carro.

Abandonei o carro e contornei-o na direcção dela. Raquel retirou o capacete da cabeça, segurando-o sobre as pernas, e disse:

─ Ó grandessíssimo filho da puta! Queres matar-me?

Num acto reflexo, dei-lhe uma estalada na cara que lhe fez saltar o capacete das mãos e quase a derrubou da motorizada. Ficou com o cabelo despenteado em volta da cabeça, tacteando a face avermelhada.

─ Agora que estás mais calma, podemos conversar como gente séria? ─ disse-lhe.

─ Não temos nada a dizer. ─ respondeu, arranjando o cabelo.

─ Desculpa o estalo! ─ pedi. ─ Posso aceitar que me ofendas, mas não à minha mãe.

Raquel desmontou da lambreta e foi apanhar o capacete. Logo que puxou o cabelo louro para trás, notei a marca dos meus dedos na sua face. Acertara-lhe com demasiada força.

─ As minhas desculpas à mamã. ─ ironizou, evitando encarar-me o olhar.

─ Sinceramente, não pensei que reagisses daquela forma, quando te vi. ─ confessei. ─ Se soubesse, não teria parado lá.

Ela limpava a poeira do capacete, parecendo nem me ouvir.

─ Se pensasses um bocadinho, chegarias à conclusão que não serias muito bem recebido. ─ contrapôs. ─ Até mesmo agora, ainda me ofendes a dizer que... ─ Olhou para mim, magoada. ─ Foda-se, Ivan! Insinuaste que eu era uma puta.

─ Tens razão. ─ concordei. ─ Peço desculpa!

Voltou a subir para o assento da lambreta.

─ Pedir desculpa não resolve tudo! ─ afirmou. ─ Em relação ao que aconteceu entre nós? Eu pensei que estava grávida e cometi o erro de o partilhar contigo. Deu para perceber, assim que reviste a Camila, que eu podia morrer aos teus pés que tu nem ligarias. ─ Uma lágrima começou a escorrer-lhe pela face. ─ Tu nunca me amaste! Mas, eu amei-te. Suportei a ressaca de um sonho tornado realidade numa noite, mas que não durou até à manhã seguinte.

─ Eu pensava que a Camila tinha morrido. ─ lembrei.

─ Tenho andado este tempo todo a recuperar do que me fizeste sofrer. ─ prosseguiu. ─ Durante aquele tempo em que julgava estar grávida, não sabia o que fazer à minha vida, pois sabia que tu nunca ficarias comigo. Nem eu te queria, sendo o bebé a única razão de ficares comigo. Por isso recusei a merda do teu pedido de casamento. Ainda para mais, depois de teres sido desprezado pela Camila.

─ Ela não me desprezou. ─ corrigi. ─ Afastou-me porque eu lhe contei que estavas grávida. É por causa disso que digo que essa história me custou o amor de Camila. Ela estava a dar-me uma segunda oportunidade, quando... ─ Encolhi os ombros. ─ A besta fui eu, se não lhe tivesse contado...

─ Tens uma rica forma de ver a vida. ─ ripostou Raquel. ─ Basta ver pelo que me disseste á pouco: “Ter ido para a cama contigo foi dos maiores erros da minha vida”.

─ Não te quis ofender.

─ Não ofendeste. ─ emendou. ─ Magoaste-me! ─ Suspirou desiludida. ─ Nós fizemos amor... Ou melhor, eu fiz amor contigo! Para ti deve ter sido mais uma queca.

Encostei-me ao carro, despenhando o olhar no solo empedrado e empoeirado. Cruzei os braços e fiquei a esfregar a sola do sapato na terra. Voltei a levantar os olhos para ela e encontrei-a a encobrir a cabeça com o capacete.

─ És capaz de ter razão. ─ conclui. ─ Sou um estupor.

─ Se o és ou não, pouco me importa. ─ disse com a voz abafada pelo interior do capacete. ─ Só te peço que te afastes de mim. Evita-me! Eu farei o mesmo contigo.

Ligou novamente a ignição da lambreta e retomou a linha de alcatrão até desaparecer após o cruzamento, desviando para o caminho que passava á porta da Casa de Paúle, o palacete da família Calheiros.

Caminhando lentamente, voltei ao interior do Mégane e conduzi vagarosamente pela estrada até Paúle. Ficara chocado com toda a raiva que Raquel demonstrara para comigo. Estupidamente, pensara que ela encarara o que acontecera entre nós com naturalidade. Fora um erro de cálculo e de avaliação das emoções dela. Respeitaria o seu pedido de não me aproximar dela e evitá-la ao máximo.

Estacionei o carro no sítio do costume. Retirei os sacos com as batatas do porta-bagagem e carreguei-os para casa. Entrei no apartamento, encontrando Susana à minha espera, em pé com as mãos nas ancas e irritada.

─ Demoraste muito tempo! ─ constatou, esperando uma justificação.

Estranhei a postura, pois ela nunca me cobrava demoras ou as escalas que fazia fora de casa.

─ Nem reparei no tempo que demorei. ─ respondi, transportando os muitos quilos para a cozinha.

─ Todo este tempo para ir a Midões comprar batatas? ─ continuou. ─ Devia estar uma grande fila para as comprar.

─ Onde queres chegar? ─ questionei, farto daqueles rodeios.

─ Estiveste com a Raquel, não foi? ─ inquiriu, possessa.

─ O quê?

─ Não mintas! Sei de tudo.

─ Estás parva? ─ soltei, incrédulo. ─ Sabes o quê?

─ Tenho estado ali na varanda, à tua espera. ─ contou Susana. ─ Entretanto, o doutor Gervásio chegou e disse-me que te tinha visto, em Midões, a conversar com a Raquel.

Engraçado que o pobre homem o dissera sem intenção, pois ele próprio me pedira desculpa, dias mais tarde, por tal informação se lhe ter escapado.

─ É verdade. ─ confirmei. ─ Qual é o problema?

─ Qual é o problema? ─ repetiu. ─ Ainda perguntas? Como é que eu fico no meio desta história?

Apontando com o meu indicador para a minha testa, disse:

─ Deves estar maluquinha. Eu não te devo satisfações daquilo que faço.

─ Sei que não. ─ concordou. ─ Mas, a partir do momento em que me “pintas” como tua namorada, exijo que me respeites. Já hoje te disse: A nossa relação pode não passar de um acordo, mas para as pessoas de Paúle, somos quase noivos. Se queres envolver-te novamente com essa galdéria, avisa-me para eu fazer as malas e ir-me embora.

─ O filme que já vai para aí! ─ suspirei num misto de aborrecimento e diversão. ─ Concordo contigo. Devo-te esse respeito! ─ Sentei-me no sofá. ─ Encontrei a Raquel em Midões e fui cumprimentá-la, nada mais. Ficámos a conversar algum tempo. Foi só isso, ó “noiva”.

Susana esforçou-se por segurar o sorriso, mas acabou por o soltar. Eu levantei-me do sofá e fui até ela, abraçando-a pela cintura e beijando-a com paixão.

─ Vamos fazer amor!

─ Agora? ─ interrogou ela como se houvesse uma hora exacta para o fazer.

─ Agora! ─ confirmei, não aceitando recusas.

Peguei-lhe ao colo e levei-a para o quarto, enquanto ela me fustigava a boca com beijos fogosos, reveladores de uma vontade selvagem em saciar toda a tesão que lhe percorria as veias. Podia ter alguns defeitos, mas era uma amante fenomenal.

Larguei-a sobre o colchão e fiquei a observá-la a despir-se, ajoelhada na colcha da cama. Abriu a camisa, acariciando os seios e lambendo os mamilos, insinuando-se para mim. A saia foi puxada para a cintura e a sua mão entrou nas cuecas. Susana começou a acariciar-se, fechando os olhos e soltando pequenos gemidos.

─ Queres que me masturbe para ti? ─ sugeriu, olhando-me com languidez.

Abanei afirmativamente a cabeça, encostando-me à parede do quarto, deliciando-me com a sua actuação.

Susana inclinou o tronco para trás, apertando um dos seios com uma mão, levando a outra a pressionar o interior do tecido rendado. Ela sabia como aquilo me excitava. Soltava gemidos arrastados, ronronando a cada toque que oferecia a si própria. Atirou as cuecas para o chão, largou a camisa na cabeceira da cama, ficando só com a saia enrolada na cintura. Virou-se de barriga para baixo e abriu as pernas, empinando o rabo.

─ Anda! ─ convidou. ─ Vem penetrar-me!

Libertei-me da roupa que vestia e saltei para a cama, colocando-me sobre ela, encostando o meu peito às suas costas. Entre as suas pernas, conduzi o fruto do seu desejo, fazendo-o entrar em si. Susana respondeu com um ronronar sensual.

Segurava os tornozelos com as mãos, puxando as pernas para cima, tornando o seu corpo num baloiço, enquanto eu saltava sobre si, embatendo nas suas nádegas rijas e curvilíneas. Apoiava-me nas mãos e nos joelhos, investido freneticamente contra ela. Quanto mais aumentava o ritmo, mais ela gemia de prazer.

Foi mais um momento delicioso de paixão com sexo intenso e uma enorme explosão de prazer. Porém, o nosso entendimento alterara-se, esfriando aquela ligação que se vinha a edificar desde as vésperas do Carnaval.

Logo que terminámos, levantei-me da cama e fui para a casa de banho sem dizer uma palavra. Não partilhámos um beijo nem qualquer assunto, nem tão pouco permanecemos a desfrutar da companhia do parceiro. Susana já estava completamente arranjada quando voltei, deixando-me um quarto vazio de calor humano.

Se acendíamos a chama ela ardia bem, mas apagava-se rapidamente.

Jantámos com os olhos na televisão, mantendo um completo silêncio entre nós. Ninguém se esforçava por quebrar a falta de diálogo.

Observávamos o noticiário com uma atenção concentrada. Nesse instante, o jornalista relatava alguns acontecimentos desportivos, o que fez Susana aproveitar para levar os pratos para a cozinha. Naquele bloco, o homem anunciou mais uma transferência do futebol português, um antigo colega meu no Benfica que se transferira para o Real Madrid. E calcule-se quem era o empresário dele? Ambrósio.

─ O estupor do teu amigo facturou mais uns milhões. ─ disse eu, quando Susana regressou à sala.

─ Que amigo? ─ questionou.

─ O Ambrósio!

─ Deves ser parvo. ─ respondeu, zangada pelo comentário.

─ Que foi? Ofendi-te o querido? ─ interroguei num tom irónico, franzindo o nariz.

Susana olhou-me com raiva e contrapôs:

─ Não sei a que propósito vem a merda dessa conversa, Ivan.

─ Tão a propósito como a tua, esta tarde, em relação à Raquel. ─ argumentei.

─ Ahhhhhh! ─ exclamou, elevando a voz. ─ Então é isso. Que eu saiba, eu não tenho andado a falar com ele.

─ Sei lá...

─ Ouve, Ivan! ─ dirigiu-se-me irritadíssima com a suspeita. ─ Não te admito isso! Não tens razão para duvidares do que te digo.

─ Nem tu, em relação à Raquel. ─ retorqui, levantando-me da cadeira.

─ Mas, a merda da Raquel já estava esquecida, Ivan. Tu é que estás a falar nisso.

Apontando-lhe o dedo, ameaçadoramente, avisei:

─ Vê lá como falas da Raquel. Pára com os “merda” a cada frase que dizes. Parece que vieste das barracas.

Susana ficou incrédula, a olhar para mim, mas sem dizer nada. Observava-me com um olhar enraivecido e magoado, sem compreender porque a tratava assim.

─ Porque é que não o dizes? ─ interrogou, meio engasgada.

─ Não digo, o quê?

─ Porque é que não dizes que queres que me vá embora? ─ completou. ─ É isso que queres não é? Prefiro que o digas, a tratares-me como me tens tratado. ─ Levantou as mãos. ─ Aliás, não é preciso que o digas! Eu vou-me embora.

─ Não sejas parva! Não é nada disso.

Susana ignorou-me e seguiu para o quarto. Eu fui atrás dela.

─ Eu não quero que te vás embora! ─ afirmei, encarando-a. ─ Não te armes em vitima, numa questão que tu própria levantaste.

─ Vitima?

─ Sim. ─ confirmei. ─ Parece que hoje nos temos desentendido demasiado. Vou espairecer um pouco, mas não quero que te vás embora.

E com aquelas palavras, saí de casa e fui andar de carro pela noite.

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