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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XVI

A noite amena convidava a passear na rua. Não se sentia frio, apenas uma brisa suave, onde dificilmente uma mente menos atenta diria que a Primavera mal tinha começado.

Tanto eu como Camila gostávamos de música ao vivo, por isso, optei por a levar a um bar, perto do rio, onde todas as noites um artista cantava num pequeno palco, colorindo o ambiente com a sua voz, acompanhada por melodias suaves que temperavam a penumbra romântica do interior. Escolhi uma mesa pequena para duas pessoas, permitindo-me ficar olhos nos olhos com Camila. Em cada mesa, havia uma pequena vela a arder calmamente, espalhando um odor adocicado no ar.

─ É um sitio bonito. ─ concordou Camila. ─ Parece-me é pouco compatível com dois amigos que vêm conversar.

Falta de inteligência não era uma característica de Camila. Daí, rapidamente me dar a perceber que o ambiente era demasiado romântico.

─ Não é nada disso que estás a pensar. ─ contrariei. ─ Só quero conversar. Não tenho segundas intenções.

─ Espero que não. ─ retorquiu em tom de aviso, franzindo as sobrancelhas.

No palco, uma rapariga tocava e cantava uma música. O estilo era jazz e a língua era o inglês, pois raramente se ouvia aquele género em português. Em frente ao palco, não havia mesas, permitindo aos casais dançarem ao ritmo lento da balada.

Pedi uma cola para mim e um martini para Camila.

─ Como se têm dado, tu e a rapariga? ─ perguntou Camila.

A nossa relação estava óptima. Contudo, optei por responder:

─ Como te tinha dito da última vez. Mal falamos um com o outro.

─ Não me digas que vocês não... ─ tentou adivinhar com um sorriso malicioso.

Abanei a cabeça negativamente.

─ Não me lixes, Pedro! ─ redarguiu. ─ Eu conheço-te bem! Não acredito que estejas há tanto tempo sem sexo.

Encolhi os ombros, desvalorizando o facto de ela acreditar ou não.

─ Andas a encontrar-te com a “direita”? ─ interrogou a gozar.

Correspondi aos seus sorrisos, questionando:

─ Também posso dizer o mesmo de ti? Com o teu noivo no estrangeiro, já lá vão quantos meses?

─ Com as mulheres é diferente. ─ ripostou. ─ Nós não temos tanto desejo como os homens.

─ E neste tempo...

─ Não lhe fui infiel, se é isso que tentas saber. ─ respondeu prontamente. Sorriu maliciosamente, dando um golo no martini. ─ Claro que tenho uns objectos, lá em casa, que ajudam.

Por momentos, ficámos a olhar um para o outro.

─ Até quando vais manter essa situação? ─ interrogou.

─ Não sei. Pelo menos, até regressar a Lisboa para jogar no Benfica. Aproveito isso para separar a Susana do contacto com a minha família. Cá em baixo, será mais fácil de a despachar e de justificar isso aos meus pais.

─ Vai ser um desgosto, segundo me disseste.

─ Não será maior que aquele que eu lhes dei, quando me separei de ti.

─ Não vamos falar sobre isso, Pedro! ─ pediu imperativamente.

Anui com a cabeça, acatando o seu pedido.

─ Podias ir visitá-los. ─ sugeri. ─ Sei que gostariam que os fosses ver.

─ É melhor não.

Camila temia que a reaproximação aos meus pais os fizesse ter esperanças de um regresso ao passado, o que os faria sofrer mais. Não duvido que ela gostava deles, mas compreendia a sua posição.

A rapariga que actuava no palco, embalando os vários casais que dançavam à sua frente, decidiu mudar o género de música, apesar de manter as baladas. Ao ouvir os primeiros acordes, arrepiei-me e percebi que o mesmo sucedera a Camila. Ela ia cantar o “Private Emotion”.

─ Juro-te que não planeei nada disto. ─ disse eu a Camila, temendo a sua reacção.

─ Tudo bem.

─ Queres dançar? ─ convidei.

Camila fulminou-me com o olhar, abanando a cabeça e recusando determinantemente o convite.

─ Vá lá, Camila! ─ insisti. ─ Não me digas que dois amigos não podem dançar.

─ Pedro...

─ De que tens medo? Não somos só amigos? ─ desafiei.

Camila sentiu o desafio que lhe lançara. Se éramos só amigos, que mal tinha dançarmos. Se ela recusasse, poderia ser visto por mim como um sinal de fraqueza da sua parte, como se ainda sentisse alguma coisa por mim.

─ Está bem! Vamos lá.

Caminhámos até à pequena pista de dança, parando no meio dos casais. Abracei-a pela cintura, sentindo-a fugir ou afastar-me para que não ficássemos perigosamente juntos. Encostámos os rostos e balançámos ao ritmo da música.

─ Recordo-me sempre de ti, quando ouço esta música. ─ sussurrei ao seu ouvido.

Camila não se manifestou.

─ Nunca me esquecerei do momento em que a dancei contigo, pela primeira vez. ─ continuei. ─ Aliás, nunca me esquecerei de nenhum segundo de todos os maravilhosos que vivi contigo.

─ Pára, Pedro! ─ pediu ela, com a boca perto da minha orelha.

─ Espero que sejas muito feliz, Camila! ─ desejei. ─ Que tenhas tudo o que eu não te consegui dar!

Camila descolou o seu rosto do meu, colocando a sua cabeça em frente à minha, encarando-me o olhar.

─ Fui uma besta! ─ confessei. ─ Como pude abrir mão do teu amor? Como pude abrir mão de ti?

Camila não dizia nada, limitando-se a olhar para o fundo dos meus olhos. Eu desejava que aquela dança não tivesse fim. Não teria muitos mais momentos, assim, abraçado a Camila com o seu corpo colado ao meu, o seu rosto diante do meu, a sua respiração misturando-se com a minha... Não resisti e beijei-lhe os lábios. Surpreendentemente, Camila deixou-se levar pelo momento e correspondeu ao beijo. Um beijo quente, muito quente, fazendo-nos esquecer que a nossa relação terminara e deixando-nos dar largas à paixão que sentíamos.

Subitamente, Camila parou.

─ Não devemos. ─ lembrou.

─ Porquê? ─ questionei. ─ Estamos ambos carentes. Vamos desfrutar do momento.

─ Não posso, Pedro! Eu estou noiva.

Sorri nervosamente.

─ Não quero ser injusto, mas...

─ Mas, o quê?

─ Não acreditas que o Nick seja celibatário, pois não? ─ sugeri eu, levantando um falso testemunho sobre alguém que nem conhecia.

No entanto, percebi que a desconfiança permanecera na mente de Camila. Era a minha oportunidade e não ia desperdiçá-la.

─ Estamos ambos carentes, Camila. Para quê procurar saciar o que sentimos em terceiros, se podemos passar um bom bocado juntos?

─ Por favor, Pedro! Por quem me tomas?

─ Não me interpretes mal, Camila! Não estou a tentar convencer-te a largar o Nick, nem a voltar para mim. Apenas uma noite de recordação. Uma espécie de despedida de solteira.

Camila olhava-me, franzindo o rosto como se se sentisse ofendida. Porém, o seu intimo ansiava pelo que eu lhe propunha.

─ Anda até minha casa. ─ convidei.

─ Não. ─ recusou, desviando o olhar. ─ Ofendes-me com uma sugestão dessas.

─ Ok. Desculpa! ─ pedi, inclinando a cabeça para que ela olhasse para mim.

─ Leva-me para casa! ─ exigiu.

Afastámo-nos e regressámos à mesa. Fiz sinal ao empregado para que trouxesse a conta. E vi o individuo aproximar-se com um talão sobre um pires que trazia na mão.

Antes de chegar ao carro, caminhávamos nós pelas ruas quase desertas junto ao rio, quebrei o silêncio que se mantinha desde que saíramos do bar.

─ Camila!

─ Sim.

─ Vou voltar amanhã para Paúle! ─ informei. ─ Não sei quando voltarei a Lisboa. Mas tenho a certeza que não volto antes do teu casamento. ─ Travei a caminhada, colocando-me diante de si. ─ Podíamos passar o resto da noite juntos?

─ Pedro!!! ─ irritou-se.

Levantei os braços em jeito de defesa. Olhei-a com seriedade e insisti:

─ Não é isso que estás a pensar.

─ Há pouco também não era. ─ recordou Camila. ─ E vê no que deu.

─ Prometo que não tento nada. ─ disse eu. ─ Só quero conversar e desfrutar da tua presença.

─ Isso só te prejudica. ─ avisou com distanciamento. ─ Devias habituar-te a não me ter perto de ti. Quando eu casar com o Nick... Aliás, assim que ele regressar dos Estados Unidos, estes encontros deixam de ser possíveis. Compreendes? Para quê alimentarmos situações que não levam a nada?

─ Então, mais razão me dás. ─ insisti, intransigente. ─ Só te peço a tua companhia. Peço-te isso por todos os bons momentos que vivemos juntos.

Camila não respondeu de imediato. Talvez na sua mente passassem todas as probabilidades do que poderia acontecer, se aceitasse o convite. Não lhe estava a pedir mais que uma conversa de amigos, apesar de eu saber que se tivesse oportunidade, faria amor com ela. E calculo que ela também o sabia. Restava saber se ela correria o risco ou até que ponto, ela própria também não o quereria. A forma como me beijara, revelara muito. Muito do que ainda sentia por mim, muito da sua carência, muito do seu desejo, muito da sua vontade de esquecer a realidade e desfrutar do prazer de uma noite de paixão...

─ Tudo bem! ─ concordou. ─ Espero poder confiar em ti.

 

A noite de Alcochete era tão silenciosa que os nossos passos ecoavam pela rua, durante o percurso entre o automóvel e a minha casa.

A viagem fora relativamente rápida, não havendo qualquer trânsito. Não me lembro bem a que propósito, Camila viera todo o trajecto a falar nas viagens do pai e da última vez que estiveram juntos.

No entanto, assim que chegámos, Camila silenciou-se. Não sabia o que ela temia ou a fazia ficar tão apreensiva. Porém, apercebi-me que era a primeira vez que ela regressava ali, desde a nossa separação.

─ Continua tudo igual ao que era, quando vivias cá. ─ disse eu, retirando os lençóis de cima dos sofás para nos sentarmos.

─ Não mudaste nada. ─ concordou. ─ Mas, também não tens vivido cá muito tempo.

Destapei o restante mobiliário da sala, atirando os lençóis para um canto, pois teria de os recolocar quando regressasse a Paúle.

─ Só cá vivi no segundo semestre do ano passado. ─ informei, recordando e calculando o tempo.

Camila sentou-se no sofá, cruzando a pernas e deixando-me, inconscientemente, uma bela visão delas.

─ Queres beber alguma coisa? ─ ofereci.

─ Só se ainda tiveres aí a minha garrafa de martini. ─ disse ela, trocista.

Caminhei até ao bar e agachei-me atrás do balcão, retornando com a garrafa na mão.

─ Esta? ─ inquiri com um sorriso.

O rosto espantado de Camila mostrava toda a surpresa.

─ Não acredito! ─ exclamou incrédula. ─ Ainda a guardas aí?

─ Espero que esteja dentro da validade. ─ desejei, procurando uma data no rótulo.

Camila levantou-se, aproximou-se de mim e, retirando a garrafa da minha mão, explicou:

─ Isto não tem validade, Pedro!

─ E será que está bom?

─ Claro que está, Pedro! Tu és demais. Guardares a minha garrafa.

Olhei-a encantado por a ter ali. Camila retirou um copo e abriu a garrafa.

─ Nunca me desfiz de nada teu, que tivesses cá deixado. ─ confessei-lhe.

─ Não bebes nada? ─ perguntou, despejando o liquido para o copo.

Abanei a cabeça negativamente.

Camila regressou ao seu lugar no sofá, adoptando a mesma posição e segurando o copo com a mão direita. Bebeu um golo, fechando os olhos e sentindo o sabor que tanto gostava.

─ Maravilhoso! ─ exclamou. Olhou para mim, alterando o semblante. ─ Não me lembro de ter deixado cá nada.

─ Anda cá! ─ convidei.

Camila levantou-se do sofá e seguiu-me no meu trajecto pela casa. Atravessámos o corredor e entrámos na cozinha, logo que eu acendi a luz.

─ Lembras-te? ─ indaguei, apontando para o relógio de cozinha pendurado na parede. ─ Foste tu que o compraste e o quiseste pôr ali.

Abandonámos a cozinha e fui até à casa de banho. Acendi novamente a luz e chamei a sua atenção para o armário, ao fundo.

─ Deixaste cá a escova-de-dentes e o copo. ─ disse eu, indicando-os.

Camila estava fascinada. Jamais esperava que eu, ao fim de tanto tempo, ainda mantivesse aquelas pequenas coisas. Foram pormenores que eu não tivera tempo de tocar ou alterar, antes de partir para Paúle, logo que nos separámos. E quando regressei, não fui capaz de me desfazer deles. Olhava para os poucos objectos que Camila esquecera, imaginando que ela ainda ali vivia comigo.

─ Talvez nunca tenha perdido a esperança de que voltasses. ─ desabafei.

Camila não se manifestou, mas eu conhecia-a bem e notara como ficara tocada com aquilo. A sua opção foi voltar à sala. Segui as suas passadas, vendo-a entrar na sala e procurar a garrafa e servir-se de mais um martini.

─ Até as tuas velhas revista eu mantive. ─ continuei. ─ Também é verdade que nunca dera por elas. E quando dei, a primeira reacção foi deitá-las fora. Foi nelas que descobri a foto da Susana com o canalha do Ambrósio. Aliás, acho que já te tinha contado.

─ Sim, sim. Contaste-me. ─ confirmou Camila, andando vagarosamente pela sala, com o copo na mão. Perto da parede, parou. Deu mais um golo na bebida e encostou a testa à tinta fria. Numa voz embargada, suspirou:

─ Como tudo poderia ter sido diferente!

Dando passos como se tentasse não ser ouvido, acerquei-me dela, imobilizando-me atrás de si. Fiquei a contemplar as suas costas, as curvas das suas nádegas, a barriga das suas pernas...

─ Fui um estúpido! ─ afirmei, recordando a forma como abdicara dela pelo futebol.

As nossas posições mantinham-se inalteráveis, ficando Camila com um braço caído a segurar o copo com as pontas dos dedos, enquanto o outro se apoiava na parede, acima da sua cabeça.

─ Não foste só tu. ─ corrigiu ela. ─ Eu também abdiquei de ti.

Dei mais um passo e fiquei com o meu corpo a milímetros do dela. Devagarinho, coloquei as mãos nas suas ancas. O seu corpo reagiu ligeiramente à surpresa da sua presença, mas não as afastou.

─ Se pudesse voltar atrás, teria sido diferente! ─ afirmei, deixando as mãos deslizar pelas pernas dela.

Camila não dava sinais de recusa, deixando-me tactear o seu corpo e falando como se nem se apercebesse da sua presença.

─ Dizes isso, agora. ─ retorquiu ela. ─ Agora que sabes o que se passou. Mas, naquela altura, com todos os sonhos na cabeça, não creio que fizesses diferente.

Encostei o meu corpo ao dela, curvando-me sobre as suas costas. Desviei com o rosto o rabo-de-cavalo e levei os meus lábios a saborearem a pele do seu pescoço. Camila despegou a testa da parede, repelindo o meu beijo. Porém, deixou-se ficar a sentir o meu corpo, levando o copo aos lábios e ingerindo o resto da bebida.

Eu sentia um desejo enorme por ela. A atracção e a paixão que lhe devotava, sempre que a via, tinham crescido ao longo da noite. E a sua permissividade, deixando-me tocá-la, aumentavam os níveis de desejo em fazer amor com ela.

─ Eu amo-te Camila! ─ exclamei, quase ofegante, agarrando-a pela cintura e beijando-lhe o pescoço.

─ Vem Pedro! ─ foi a sua resposta, deixando que eu a encostasse à parede.

As minhas mãos entraram na sua saia, algo que ansiava fazer, mal a vira na casa de Jorge e Eduardo. As pontas dos meus dedos passaram por pontos saudosos, livrando-a da cobertura ao meu desejo. Fi-la sentir as saudades que tinha do calor do seu corpo, enquanto as minhas mãos subiram até aos seus seios, apertando-os suavemente sobre o tecido do vestido. Camila arfava de prazer, deixando-se pressionar entre o meu corpo e a parede, sentindo-me em si. Foi inesquecível, explodir de prazer dentro de si, repetindo algo que o meu corpo não tinha havia demasiado tempo e ansiava desde o primeiro segundo longe dela.

Camila revelava um semblante saciado, quando a voltei para mim. Beijei-lhe os lábios e continuei a acariciá-la como se o orgasmo ainda não tivesse acontecido. Ela mantinha os olhos semi-cerrados, beijando-me aos tropeções e apoiando-se em mim com os braços à volta do meu pescoço.

Parecia estar algo embriagada, mas longe de não ter consciência do que se estava a passar. Não trocava as palavras nem dizia coisas sem nexo. Apenas se equilibrava com alguma dificuldade.

─ Promete-me que esta noite fica só entre nós. ─ pediu, olhando-me nos olhos.

─ Achas que iria contar a alguém? ─ interroguei eu, beijando-lhe os lábios.

─ Vou... confiar... em ti. ─ respondeu, entre beijos.

Conduzi-a até ao quarto e ajudei-a a despir-se. Camila deixava-me fazer tudo o que quisesse, demonstrando-se fragilizada, rendida e carente. Completamente nua, entrou na cama e ficou a observar-me, enquanto eu me despia para me juntar a ela. Recebeu-me no calor do seu corpo, entre os lençóis e cobertores da cama, querendo sentir o meu peso e abraçando-me com as suas pernas. Fizemos amor novamente, entregando-nos totalmente até adormecermos saciados nos braços um do outro.

 

─ Não o devíamos ter feito! ─ foi a primeira coisa que ela me disse na manhã seguinte.

Camila acordara-me logo que também ela despertara de um sono calmo. Tentei dar-lhe um beijo, mas ela recusou.

─ Não sei o que me passou pela cabeça. ─ lamentou-se.

─ Pára com isso, Camila! ─ exigi. ─ Ambos o desejávamos, ontem.

─ Aproveitaste-te de mim. ─ queixou-se, levantando-se da cama e tapando-se com a ponta do lençol.

─ Não digas disparates. ─ retorqui. ─ Podes estar arrependida. Mas, não me vens dizer que não o desejavas tanto quanto eu.

Camila virou-me as costas, sentada na cama, sem encontrar palavras para me contrariar. Tentou levantar-se, mas eu travei-a, puxando-a pelo pulso.

─ Camila...

Ela voltou a sentar-se, aguardando as minhas palavras.

─ Eu amo-te, Camila! Nunca deixei de te amar. Tu sabes isso. Sempre soubeste.

Camila olhou para mim, trazendo um olhar entristecido e forçando-se a um sorriso.

─ É tarde, Pedro! Tivemos a nossa oportunidade. ─ lembrou. ─ Desperdiçámo-la.

─ Nunca é tarde, quando se ama. ─ argumentei.

─ Essas frases caiem bem, mas não nos levam a lado nenhum. ─ redarguiu. ─ O que sucedeu esta noite não irá alterar, em nada, o nosso futuro. Eu continuarei noiva do Nick e irei casar com ele.

Sentia-me magoado com as suas palavras, mas não a condenei por elas. Se criara novas expectativas em relação a Camila, só as devia a mim. Quando a convidara para ali, até quando chegara a sugerir o que de facto acontecera, não lhe propusera mais que uma noite de amor como recordação do passado. Apenas uma noite e não um regresso.

─ Eu amo-te, Camila! ─ tornei a repetir como se a sua mudança de decisão estivesse pendente do numero de vezes que repetisse aquela frase.

Camila abanou a cabeça, desesperando. Escondeu o rosto com o cabelo e começou a soluçar. Desviei os cabelos caídos, destapando a sua face de traços ténues asiáticos, e encontrei duas lágrimas a verterem dos olhos verdes.

─ Porque choras? ─ perguntei num tom carinhoso.

─ Parvoíce... ─ balbuciou, limpando o rosto com as costas da mão.

─ Perdoa-me! ─ pedi, quase não evitando chorar por a ver chorar. ─ Começo a chegar à conclusão que te faço mais mal que bem.

─ Não! ─ contrariou prontamente. ─ Não é isso. ─ Fez uma pausa, segurando o choro. ─ Estou tão confusa. Parece que os meus sentimentos andam todos embrulhados, cá dentro. ─ Soluçou novamente, derramando mais lágrimas. ─ Até ontem, parecia ter a certeza que estava a fazer o correcto, mas agora... ─ Caiu num pranto desesperado.

Abracei-a com força e deixei-a chorar à vontade, sem dizer nada e aguardando que ela se recompusesse. Camila deixava-se proteger por mim, escondendo-se no meu abraço. Acalmou-se e limpou mais uma vez o rosto com as costas das mãos.

─ Já não sei se quero casar. ─ confessou, subitamente, espantando-me com a mudança de decisão. ─ Eu amo o Nick, mas também te amo, Pedro! Que merda. Porque é que a vida é tão confusa?

─ Camila...

A sua mão esticada na minha face, obrigou-me a calar.

─ Não digas nada, Pedro! Peço-te. ─ implorou sem evitar o corrimento das lágrimas pelo rosto. ─ Preciso de tempo para pensar. Tenho que pensar muito bem no que vou fazer. ─ Fez nova pausa. ─ Por amor de Deus, Pedro. Não interpretes isto como uma intenção de voltar para ti.

─ Como queres que interprete, então? ─ inquiri, contagiado pelas suas duvidas.

─ Não sei, Pedro. ─ respondeu. ─ Só não quero criar-te novas esperanças.

Com aquela frase, levantou-se da cama e refugiou-se na casa de banho.

A manhã já ia avançada. Demasiado avançada para quem planeara partir cedo para Paúle. Camila e eu caímos no silêncio, enquanto nos vestimos e preparámos para deixar a casa. Tapei os móveis que descobrira e fechei o apartamento, ignorando quando voltaria ali. No caminho até ao carro, sugeri a Camila um pequeno-almoço, o qual ela recusou por falta de apetite.

Conduzi o Mégane em direcção a Lisboa, envolto num silêncio capaz de me ferir os ouvidos. No entanto, não queria falar com Camila, temendo cair no mesmo assunto de sempre. A casa de Camila localizava-se na zona do Restelo, uma moradia que Nick comprara em Lisboa para ambos viverem.

Compreendi que Camila não quisesse que a levasse até à porta, receando algum comentário dos seus empregados. Parei a mais de cem metros da casa.

─ Podemos voltar a encontrar-nos? ─ perguntei, antes das despedidas.

─ É melhor, não! Eu...

─ Por favor, Camila. ─ pedi. ─ O teu noivo só volta daqui a dois meses. Tal como dizes, não vou criar esperanças. Mas, podemos repetir a dose desta noite, até ele voltar.

Camila tentou lançar o seu melhor olhar de ofendida. Contudo, a recordação do que fizéramos não a deixou. Ela seria capaz de encontrar os piores adjectivos para se classificar, perante o que fizera. Só que o seu corpo queria repetir. Que mal faria, fazermos amor até o seu noivo voltar?

─ Combinávamos e encontrávamo-nos em minha casa, em segredo. ─ insisti. ─ Não contamos a ninguém. Nem aos nossos maiores confidentes.

A ideia do fruto proibido tentava-a.

─ Não sei, Pedro.

Só o simples facto de ela vacilar na recusa, já era um motivo para eu acreditar que iríamos repetir aqueles encontros.

─ Tenho de ir. ─ avisou, abrindo a porta do carro.

─ Não me dás um beijo? ─ questionei.

Camila hesitou um instante, acabando por me dar a saborear a sua boca e a sua língua. Mal findou o beijo, afastou-se e saiu do carro, fugindo a qualquer coisa mais que eu pudesse dizer.

Três horas mais tarde, cheguei a Paúle, encontrando a chuva no lugar do Sol e da temperatura agradável que deixara em Lisboa.

A monotonia do percurso permitiu-me pensar se deveria contar a Susana o sucedido com Camila. Fora isso que nós combináramos. E se havia a hipótese de reatar a relação com Camila, eu deveria afastar Susana. No entanto, Camila já me habituara a tomar decisões opostas ao que esperaria dela. Talvez fosse cedo para tomar uma atitude dessas. Seria melhor esperar para ver se Camila se encontraria novamente comigo. E “despedir” Susana não levaria muito tempo.

Ao entrar em casa, em Paúle, Susana recebeu-me com muita saudade. Abraçou-me muito e beijou-me com paixão. Ela não percebeu, mas eu não a conseguia encarar da mesma forma como o fazia, antes de partir na manhã anterior.

─ Será que já posso saber o que foste fazer a Lisboa? ─ inquiriu Susana.

Segui até à sala e sentei-me no sofá-cama.

─ O pai do Aquiles queria falar comigo. ─ informei, tentando descansar.

Susana seguiu-me, interrogando-se:

─ O senhor Lúcio Velez? O candidato à presidência do Benfica? Que queria ele de ti?

─ Quer que eu volte ao Benfica, caso ele ganhe as eleições. ─ expliquei.

Sentando-se ao meu lado, Susana constatou:

─ Por isso é que não querias que eu soubesse. Tinha medo que eu fosse contar a alguém. Tu não confias em mim!

Olhei-a sem dizer nada, mas com um semblante que confirmava as suas palavras.

─ Compreendo-te. ─ disse ela. ─ Eu, no teu lugar, teria as mesmas desconfianças. Mas, podes acreditar, não tenciono voltar a falar com o Ambrósio. Talvez um dia confies em mim.

─ Tive receio que pudesses... Sei que já não tens qualquer contacto com o Ambrósio. ─ justifiquei. ─ Só que a dúvida assolou-me o espírito e optei...

─ Tudo bem, Ivan! ─ atalhou ela. ─ Não tem importância.

Percebi que ficara magoada. As últimas semanas tinham-lhe dado a ilusão de que as coisas haviam mudado. De facto, a nossa relação mudara, mas não ao ponto de confiar nela. Contudo, não quis que se sentisse ferida. Ajoelhei-me no chão, em frente a ela, e encarei o seu olhar.

─ Acredito que tenha sido injusto. ─ disse.

─ Não tem importância.

Lançou-me um sorriso e começou a puxar a saia para cima, revelando-me a ausência de qualquer outra peça de roupa. Afastou as pernas e convidou-me a aproximar-me.

─ Comissão de boas-vindas! ─ exclamou. ─ Estava desejosa que voltasses.

Ajoelhado no chão, arrastei-me para o meio das suas pernas e puxei as calças para baixo. Segurava-o na direcção do seu convite, quando me lembrei:

─ Vou buscar um preservativo.

─ Não sejas parvo, Ivan! Há já tanto tempo que não usamos?! ─ lembrou ela. ─ Anda! Quero sentir-te dentro de mim.

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