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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XVIII

Nem sabia bem para onde ir, conduzindo o carro pela estrada de Paúle. Passei em frente ao café da dona Palmira e encontrei Aquiles à porta. Parei e fiz-lhe sinal para se aproximar.

─ Que andas a fazer? ─ perguntou-me.

─ Ando a dar uma volta. ─ respondi.

─ Sozinho? ─ indagou. ─ Deixaste a Susana em casa?

Assenti com a cabeça.

─ Queres ir até Oliveira, beber qualquer coisa e conversar um bocado? ─ convidei. ─ Estou a precisar de me afastar um pouco de Paúle.

Aquiles percebeu que eu não estava muito bem e aceitou o convite.

A estrada entre Paúle e Oliveira do Hospital embrenhava-se na mais completa escuridão, interrompida apenas na passagem por Travanca de Lagos. Os candeeiros que se perfilavam ao longo do alcatrão, mal se iluminavam a eles próprios, quanto mais à estrada. Decidi parar junto a um pequeno bar, numa rua da cidade de Oliveira do Hospital.

O lugar era bastante calmo com uma suave música ambiente, a qual permitia que as pessoas pudessem conversar. Parecia um pequeno pub irlandês.

Aquiles e eu sentámo-nos ao balcão, num dos altos bancos que o rodeavam, pedimos duas colas fresquinhas, as quais saberiam bem num ambiente tão quente como aquele.

─ Pareces preocupado. ─ alertou Aquiles. ─ Posso ajudar em alguma coisa?

Abanei a cabeça negativamente, enquanto dava um golo na bebida. Pousei o copo no balcão e disse:

─ Está tudo bem. Precisava espairecer um pouco.

Aquiles não se convenceu com a minha justificação, porém também não insistiu. Optou por olhar para a movimentação da clientela que se espalhava pelo interior. Poderia haver uma ou outra rapariga que chamasse a sua atenção, mas a maior parte não lhe despertava interesse.

─ Ainda bem que amanhã não há jogo, senão... ─ constatou Aquiles. ─ Não poderíamos estar aqui. Houve uma vez que ia tendo problemas, ainda jogava nos juvenis, por ter ido para a night, duas noites antes de um jogo.

─ No Paúle não ligam a isso, a menos que te queiram lixar. ─ disse eu, recordando o que acontecera comigo. ─ No ano passado, souberam que cheguei a casa depois das quatro da manhã e excluíram-me de um jogo.

─ E como é que se resolveu?

─ Quiseram instaurar-me um processo disciplinar. Só que o jogo foi tão humilhante para o Paúle que preferiram esquecer o assunto, a revelarem-se culpados pela minha ausência.

─ Foste para a má vida? ─ questionou com um ar gozão.

─ Não! Estive a conversar com uma amiga e perdi-me nas horas.

─ Sei...

Sabia que ele não acreditava naquilo. Contudo, pouco me importava com isso. Dei mais uns golos na minha cola. Reparei que o olhar de Aquiles se desviara na atenção de algo. Deixei-o divagar naquilo que prendia a sua concentração, até ele dizer:

─ Já viste aquela miúda?

Ia a olhar para trás, mas ele travou-me:

─ Não! Não olhes que ela vê.

─ Está sozinha? ─ indaguei.

─ Parece que sim.

─ Porque não vais falar com ela? ─ sugeri.

─ Não sei...

─ Vai lá! ─ insisti. ─ Não te preocupes comigo. Eu fico aqui com a minha cola.

A princípio, Aquiles hesitou. No entanto, a jovem correspondera aos seus olhares e instigara-o a interpelá-la. Ele largou o copo no balcão e saltou do banco, caminhando pelo meio das pessoas, sentindo uma tremedeira nas pernas. Segui as suas passadas até ele se abeirar da mesa dela, podendo finalmente ver a quem ele se referia. Vi uma jovem mulata de cabelo comprido, roupas jovens e informais, aspecto atraente e pouco mais velha que ele, se é que não tinha a mesma idade.

Aquiles abordou-a e ela acolheu-o de forma simpática, convidando-o a sentar-se ou a aceitar o seu pedido para lhe fazer companhia. Donde estava não dava para perceber.

Permaneci sozinho no balcão, olhando para o copo meio vazio e pensando na vida. Passados alguns minutos, fartei-me de ali estar e decidi ir-me embora. Virei-me no banco para procurar Aquiles, de forma a dizer-lhe que iria para casa. Nesse instante, sem intenção, acertei com o cotovelo na pessoa que ia a passar atrás de mim.

─ Desculpe! ─ pedi eu, assim que senti o toque.

Olhei para trás e surpreendi-me com o rosto conhecido.

─ Devo ter feito algum mal a alguém para estar a levar contigo outra vez. ─ barafustou Raquel. ─ Com tantos sítios nesta parvónia, logo tinha de entrar num em que estivesses tu.

─ Desculpa a cotovelada. ─ repeti. ─ Não te queres sentar?

Raquel ficou a olhar para o banco vazio.

─ Tens uma lata! ─ exclamou. ─ Achas que me vou sentar a teu lado?

Espreitei ao longo do balcão e referi:

─ É o único vago. Podes sempre sentar-te no chão.

─ Engraçadinho...

Contra vontade, Raquel lá acabou por se sentar, não deixando de avisar:

─ Vê lá se não falas comigo!

─ Como queiras. ─ concordei. ─ Vieste sozinha?

Raquel lançou-me um olhar colérico.

─ Vês alguém aqui comigo? ─ questionou furiosa. ─ Só se estiver no meu bolso. Parece que és parvo.

─ Podias estar à espera de alguém. ─ contrapus.

─ Porquê? Uma mulher não pode vir beber um copo sozinha?

Encolhi os ombros, aceitando o facto como sendo perfeitamente natural.

Antes que voltasse a dizer alguma coisa, Aquiles apareceu junto de mim, informando-me que iria sair dali com a rapariga que conhecera. Não lhe perguntei onde ia, nem tinha nada com isso. Limitei-me a saber:

─ Queres que espere por ti?

─ Não. Eu arranjo-me.

Dei-lhe um abraço e vi-o abandonar o bar, acompanhado pela rapariga.

─ Vê-se logo que é teu amigo. ─ concluiu Raquel, quando retornei à minha posição anterior, virado para o balcão. ─ Anda no engate, à noite, atrás de uma queca com uma desconhecida.

─ Não digas isso. O Aquiles não é assim.

─ Pois não. ─ ironizou. ─ Vocês, homens, são tudo estrume da mesma merda!

Soltei uma risada, dizendo:

─ Não é “farinha do mesmo saco”? É uma versão nova de tua autoria?

Raquel não respondeu.

─ Não podemos fazer umas tréguas? ─ sugeri. ─ É Páscoa. Isso não te deixa mais... Sei lá. Mais apaziguadora?

─ Só podes estar a gozar-me. ─ retorquiu com raiva. ─ Deves estar a esquecer-te que, para mim, a Páscoa significa a época em que nos envolvemos e em que me deixaste, ao rever a Camila. Já percebi que não te recordavas que tinha sido na Páscoa.

O meu olhar demonstrava isso mesmo. Esquecera por completo que a fora buscar ao comboio, a Carregal do Sal, na Sexta-Feira Santa do ano anterior. E fora nessa noite que nos envolvêramos. E fora na manhã seguinte que Camila aparecera na minha porta, em Paúle, para me dizer que não morrera.

─ Peço-te desculpa, Raquel! ─ pedi, acentuando o tom pesado na minha voz. ─ Não foi com intenção.

Ela encolheu os ombros, desinteressada na questão.

─ Nunca tens intenção de nada! ─ redarguiu. ─ Só que as pessoas saem sempre magoadas, quando se aproximam de ti.

─ Não tenho argumentos para te rebater. ─ disse eu. ─ É um facto. Sei que magoo as pessoas. Mas, acredita que não é de propósito. E, no teu caso, não foi.

─ Já hoje te disse que não basta pedir desculpa. Não podemos fazer as porcarias e esperar que um “desculpa” resolva tudo. ─ Raquel falava com um tom menos agressivo e mais condenatório, tipo reprimenda. ─ Não te digo isto para que mudes o que quer que seja, em relação a mim. Digo-to para que sirva de aviso a evitares magoares outras mulheres.

─ Terei mais atenção.

─ Terás mesmo? ─ inquiriu, descrente. ─ Olha para ti! Estás num bar, sozinho, à noite, em vez de estares em casa com a tua namorada. Uma namorada que é quase como se fosse tua mulher, segundo se diz. Vivem maritalmente não é? Que diria ela, se soubesse que estavas aqui a falar comigo?

─ Mas, tu agora és a minha consciência? ─ interroguei aborrecido.

─ Não, Ivan! Aliás, nem digo mais nada. Se não queres ouvir o que penso, também não vou dizer só o que queres ouvir.

─ Ok, desculpa! ─ Dei o último golo na bebida. ─ Pela tua boca, sou o maior estupor do mundo.

─ É a imagem que me passaste. ─ explicou. ─ Espero, para teu bem, que nem toda a gente tenha a mesma que eu!

Senti-me cansado fisicamente e agastado com a conversa. Poderíamos ficar ali a noite inteira a debater o meu carácter. Uma ideia que não me interessava.

─ Vou-me embora. ─ comuniquei.

─ Também vou. ─ Pegou no telemóvel. ─ Vou telefonar ao meu motorista para me vir buscar.

─ Deixa lá estar o homem a dormir. ─ disse eu. ─ Eu levo-te!

─ Não é preciso.

─ Vá lá! ─ insisti.

Raquel acabou por se deixar transportar até casa.

Felizmente que optara pelo silêncio, durante a viagem. Trouxera-a por cortesia, ficando-lhe agradecido por não me entupir os ouvidos com repreensões e condenações pelo passado. Não queria continuar a discutir. Teria muito gosto em ter novamente a amiga, mas dispensava tudo o resto.

Não encontrámos uma pessoa ou um carro que fosse, em todo o trajecto entre Oliveira do Hospital e o palacete da família Calheiros. A noite ia longa e dificilmente haveria alguém por aquelas bandas, na rua. Parei junto aos altos portões verdes, esperando que ela saísse do carro.

─ Obrigado! ─ agradeceu com simplicidade, saindo do carro.

Nem respondi, limitando-me a observá-la a caminhar pelo terreno até à entrada. O segurança de serviço abriu-lhe a porta e ela entrou. Não olhou uma única vez para trás. E ainda bem que não o fez.

A estrada em frente aos portões seguia numa longa recta que se perdia na escuridão da floresta, a qual se estendia por largos quilómetros até São Geraldo. Vista de dia já não era tão verde como outrora, devido ao fogo que ali acontecera. Contudo, àquela hora, olhando para o fundo da estrada, via-se o amontoado escuro de sobras, tendo um pouco acima pequenos pontos de luz, vindos da povoação mais próxima.

Preparava-me para arrancar de regresso a Paúle, quando... Os meus olhos quase podiam jurar que o tinham visto, ao fundo na estrada, perto do último foco de luz, um cavalo branco saltar do nada para a estrada, atravessando-a na direcção da mata e perdendo-se do meu ângulo de visão.

Não quis acreditar, mas não deixei de acelerar até lá, embrenhando-me na escuridão da mata. Parei na berma da estrada, saindo apressadamente do carro e correndo até ao muro lateral, espreitando para a floresta. Muito ao fundo, no meio do negrume, pareceu-me ver um vulto branco perder-se no meio das árvores. Não sei o que seria ou se seria realmente alguma coisa. Esfreguei os olhos, tentando espevitá-los. Contudo, apenas a escuridão e as sombras ali se mantinham.

Regressei ao carro com a imagem na cabeça, mesmo não tendo a certeza de nada, pois a recordação era semelhante a um sonho. Conduzi pela estrada iluminada, rumo a Paúle, temendo sempre ser surpreendido por uma cena idêntica. Só que isso não aconteceu.

Estaria eu louco? Quase poderia jurar que se tratava de um cavalo branco. Talvez um animal fugido de uma qualquer quinta... Talvez até mesmo da propriedade da família Calheiros. Foram tudo dúvidas que me assolaram o espírito, enquanto chegava a casa.

Susana já dormia na cama, sozinha e enroscada nos cobertores. Deitei-me e adormeci quase de imediato. Na manhã seguinte, a imagem não passava de uma recordação ténue a que não dei importância.

 

O Domingo de Páscoa apresentara-se algo nublado. Acordei tarde e encontrei um almoço frio na mesa à minha espera. Susana deixara-me um bilhete a dizer que ia visitar a minha irmã.

Nessa tarde, fui até ao café da dona Palmira, procurando os amigos para passar a tarde à conversa. Encontrei um estabelecimento praticamente cheio, repleto de paulenses conhecidos. Os almoços na vila tinham sido em família, onde muitos se juntavam na celebração da quadra. No entanto, à tarde, após a passagem do padre com a cruz pelas casas dos devotos, a população reunia-se no café como costume. Numa mesa, Augusto, Teodoro e Aquiles conversavam animadamente. Mal me viram, chamaram-me para junto deles.

─ Olá pessoal! ─ cumprimentei. ─ Estão animados.

─ O Aquiles está a contar-nos as suas peripécias. ─ explicou Augusto.

─ Que peripécias?

─ Com a miúda, ontem. ─ disse Aquiles.

Tive receio que ele pudesse comentar a presença de Raquel, naquela noite. No entanto, não sei se Aquiles reparara nela. E se tivesse reparado, não teria notado que estávamos a conversar. Além disso, Aquiles não conhecia Raquel.

─ Para onde foram? ─ perguntei, curioso.

─ A gaja era tímida. ─ começou Aquiles. ─ Estávamos a conversar, a lançar olhares... Perguntei-lhe se não queria ir para outro sítio. Disse-me que sim. ─ Largou um sorriso. ─ Levou-me para uma esquina a alguns metros dali e começámos a curtir.

─ Curtir? ─ interrogou Teodoro, pouco acostumado aos termos da juventude da capital.

─ Deram uns beijos. ─ traduzi.

─ Beijos? ─ questionou Aquiles. ─ Não foram só beijos. Aquele corpinho foi todo passadinho a ferro.

─ Mas, disseste que era tímida. ─ lembrou Augusto.

─ Tentei despi-la. ─ prosseguiu Aquiles. ─ Disse-me que ali não. Perguntei onde, então. Respondeu-me que não era uma qualquer e que não andava a fornicar nas esquinas. Já viste isto, Ivan? Atirou-se a mim e depois não era nada com ela.

─ E então? ─ indagou Augusto, expectante.

─ Lá lhe fui dando uns beijinhos... toquei aqui e ali...

─ E...? E? ─ insistia Augusto.

─ Bolas, Augusto! ─ exclamou Teodoro. ─ Pareces os putos a ver uma revista pornográfica.

Soltámos todos uma gargalhada.

─ O resto deixo à vossa imaginação. ─ rematou Aquiles. ─ E tu, Ivan? Como foi o resto da tua noite?

─ Nada de especial.

─ Estava uma loura ao teu lado. ─ recordou-se Aquiles. ─ Não tentaste nada?

Abanei a cabeça.

─ Não seria necessário! ─ respondi. ─ Era a Raquel.

─ Eh lá! ─ espantou-se Teodoro.

─ Quem é a Raquel? ─ perguntou Aquiles.

Com um olhar preocupado para mim, Augusto respondeu:

─ É a filha da engenheira Calheiros.

─ Vocês...? ─ questionou Teodoro.

─ Não! ─ apressei-me a negar. ─ Ficámos a conversar. E acabei por a levar a casa. Mas, por favor, não deixem este assunto sair daqui.

Todos se comprometeram a não comentar aqueles pormenores. Eu não queria que Susana soubesse, pois iríamos discutir, certamente. Notei que Augusto ficara com um semblante preocupado, adivinhando um novo caso com Raquel, o que colocaria um fim à minha relação com a actual melhor amiga da minha irmã. Esse fim estava próximo, mas não pela razão que ele esperava.

─ Aconteceu uma coisa estranha, quando a deixei no palacete dos Calheiros. ─ disse eu, partilhando com eles, o que sucedera. ─ Vão dizer que eu estou maluco, mas acho que vi um cavalo branco a atravessar a estrada da floresta.

Esperava uma gargalhada geral como reacção aos meus relatos. Contudo, os rostos de Augusto e Teodoro permaneceram sérios. Só Aquiles esboçava um sorriso, estranhando logo de seguida os seus semblantes.

─ Também tu? ─ inquiriu Teodoro.

─ Também eu, o quê? ─ perguntei.

─ Aqui o Teodoro não acredita nessas coisas. ─ disse Augusto.

─ Não acredita no quê? ─ voltei a perguntar.

─ No mito do unicórnio branco. ─ explicou Augusto.

─ No quê? ─ espantei-me eu. ─ Unicórnio branco? Afinal, vocês é que estão doidos.

Aquiles interrompeu as questões lançadas para o ar e quis saber do que se falava. Teodoro explicou:

─ Diz-se que existe na mata um unicórnio branco, o qual aparece a meio da noite, saltando para estrada e desaparecendo no meio do pinhal.

─ Certo é que só foi visto por uma pessoa, até ontem. ─ adicionou Augusto.

─ Sim. ─ confirmou Teodoro. ─ Pelo bêbado do Norberto, quando trabalhava em São Geraldo e vinha de mota, a meio da noite, com copos a mais. Antes de desviar para Paúle, a seguir à mata, dizia que lhe aparecia um cavalo branco enorme com um grande corno na testa, a saltar a estrada e a desaparecer no pinhal. Nunca ninguém viu nada. E a palavra de um bêbado, vale o que vale.

─ Mas, o Ivan não bebe. ─ lembrou Augusto.

─ E tens a certeza que o viste mesmo? ─ questionou Teodoro, olhando-me.

Encolhi os ombros e o assunto ficou por ali.

Ao fim dessa tarde de Domingo, Raquel Calheiros retornou a Coimbra, voltando para o ambiente estudantil que tanto apreciava, especialmente por se encontrar longe de Paúle e dentro do urbanismo que adorava.

A história do unicórnio branco não fora esquecida, apesar de não se ter falado no assunto no resto da semana. Ninguém lhe ligara, enquanto a única testemunha fora Norberto. Contudo, quando eu falei nisso com a suspeita de ter visto algo semelhante, pelo menos os que me ouviram, interessaram-se.

Numa semana em que nada de relevo acontecera, Augusto sugerira no treino de Sexta-Feira que fossemos, nessa noite, até às imediações da propriedade Calheiros, perto da floresta para ver se víamos o unicórnio. Não falámos do assunto a ninguém, pois tomar-nos-iam por loucos.

Assim, logo após o jantar, reunimo-nos no café da dona Palmira e seguimos no carro de Aquiles, pois era mais discreto. Percorremos os dois quilómetros entre Paúle e o palacete dos Calheiros, estacionando na berma da estrada, logo depois da propriedade, virados para a escuridão da floresta. Aquiles conseguira colocar o carro mesmo fora da estrada, evitando alguma desatenção de qualquer condutor que ali passasse.

O Smart Forfour era um carro pequeno exteriormente, porém, bastante espaçoso por dentro. A zona do banco traseiro chegava a ser mais ampla que a do meu Mégane Coupé. Sentado no seu lugar de condutor, Aquiles desligou a ignição e todas as luzes. A seu lado sentava-se Augusto, olhando para as sombras da noite. Eu optara pelo assento traseiro, atrás de Aquiles. E Teodoro fazia-me companhia naquele sector.

Estávamos para lá do último candeeiro da estrada, completamente envolvidos na escuridão da noite. A Lua mal se via, escondida pelas nuvens. Todos procurávamos qualquer movimento nas sombras da floresta, observando o negrume e esperando que dele saltasse um unicórnio branco.

─ Se os seguranças do palacete nos vêem, ainda cá vêm. ─ disse Teodoro, olhando para trás e vislumbrando ao longe a entrada da propriedade.

Mantendo a atenção no exterior, Augusto exclamou:

─ Isso é que era bom! Só faltava que nos viessem aborrecer, estando nós numa via pública.

─ Não me admirava que o fizessem. ─ confidenciou Teodoro.

O meu ângulo de visão abrangia parte da floresta e o muro lateral da propriedade, junto à estrada que seguia directa à parte inferior de Paúle, uma via muito mal tratada com mais terra que alcatrão. Raramente era utilizada por carros. A estrada contornava a propriedade ao longo de muitos metros, perdendo-se para lá de uma curva à esquerda, continuando a cercá-la, mas já fora do nosso ângulo de visão.

Aquele muro recordava-me a noite em que assistira ao aproximar das chamas, naquele incêndio ateado por Rui com a cumplicidade de Xavier. Foi dali, estando eu do lado de dentro dos terrenos da família Calheiros, que presenciara o pânico das pessoas que se aglomeraram naquela estrada rudimentar, temendo pelos seus haveres.

As horas foram passando e nem sinal do mito. Começávamos a ficar impacientes e com vontade de regressar às nossas casas. Tínhamos até já chegado a esse consenso, quando eu avistei luzes ao fundo da estrada velha.

─ Que é aquilo? ─ perguntei.

─ É um carro, Ivan! ─ respondeu Aquiles. ─ Não deves estar a pensar que, esta noite, o unicórnio veio de carro, pois não?

Os outros dois soltaram umas risadas.

Continuei a olhar e vi as luzes apagarem-se. Nada de extraordinário se, segundos mais tarde, não tivesse vislumbrando no escuro, dois vultos negros caminharem cautelosamente, junto ao muro.

─ Conseguem ver aquilo? ─ interroguei para o grupo, apontando para lá.

Eles seguiram a minha indicação com o olhar. A princípio, tiveram dificuldade em os discernir por entre as sombras. Porém, após alguns instantes, também os viram.

─ Que estarão a fazer? ─ interrogou-se Teodoro.

Por enquanto, ninguém tinha resposta para ele.

O carro de Aquiles era perfeito. Pequeno e escuro, disfarçado pelo amontoado de sombras na berma. Mesma assim, tomávamos precauções para que não se apercebessem da nossa presença. Contudo, por muito camuflados pela escuridão que estivéssemos, se continuassem a caminhar naquela direcção, dariam por nós ali.

A meio da travessia entre a curva e o cruzamento onde estávamos, os indivíduos pararam e encostaram-se ao muro. Só Aquiles não conhecia o interior da propriedade, pois eu e os outros percebemos o porquê de pararem ali.

─ Eles vão saltar o muro. ─ constatou Augusto.

─ Sim, aquele é o local onde o terreno interior é mais alto, logo, mais fácil de transpor. ─ disse eu.

Ingénuo, Aquiles perguntou:

─ Que vão eles fazer?

─ Nada de bom, certamente! ─ afirmou Teodoro. ─ É melhor avisar os seguranças.

─ Concordo.

Os dois estranhos desapareceram do lado de lá do muro. Não havia tempo a perder. Sugeri a Teodoro que seguisse com Aquiles de carro até aos portões, ficando eu e Augusto ali, aguardando a eventualidade de eles saíram novamente por onde entraram. Todos concordaram com a ideia.

Augusto e eu saímos do carro e escondemo-nos atrás do muro, em frente ao alto muro da propriedade Calheiros. Vi Aquiles ligar a ignição com suavidade e dar a volta, seguindo na direcção da entrada e só ligando as luzes, a meio do trajecto para não denunciar a nossa posição.

Teodoro sugerira que tivéssemos os telemóveis à mão e os usássemos em caso de necessidade. Apesar da distância, consegui vê-lo sair do carro e dirigir-se aos portões. Não dava para ouvir o que dissera. Os seguranças deram-lhe toda atenção, pois conheciam-no. Vi Aquiles sair do carro e seguir Teodoro, acompanhando os seguranças na procura dos estranhos invasores.

Ao perdê-los de vista, direccionei a minha atenção para o muro da propriedade. Subitamente, ouvi gritos de alerta, vindos do interior da propriedade. Os seguranças haviam detectado a localização dos invasores e perseguiam-nos pelo terreno privado. Estava certo que se trataria de miúdos numa qualquer aventura irresponsável, talvez uma aposta de amigos em como conseguiriam entrar na propriedade.

Mantendo a nossa posição, Augusto e eu vimos os vultos saltar o muro, por onde entraram. Corriam em fuga desesperada. Peguei no telemóvel, ligando para Aquiles, de forma a denunciar o seu posicionamento. Só que Augusto teve a infeliz ideia de gritar:

─ Eih! Vocês! Onde pensam que vão?

Um dos tipos voltou-se para trás. A escuridão não deixava ver muito, mas dera para perceber que tinha algo nas mãos. Algo comprido que apontou para nós. Como Augusto estava de pé, tive o impulso de me atirar na sua direcção e derrubá-lo, ao mesmo tempo que ecoava um estrondo pavoroso. Ouvi os chumbos embater no muro. Fora uma sorte, o tiro que o indivíduo disparara não ter acertado em nenhum de nós.

Alertados pelo som do disparo, os seguranças apareceram no cimo do muro da propriedade com alguma precaução, não fossem eles voltar a disparar. Porém, os dois homens desapareceram após a curva e mais ninguém soube nada deles.

Nunca houve uma certeza absoluta do que ali acontecera. A hipótese mais plausível dava conta de um grupo de criminosos, vindos sabe-se lá donde, que tentaram assaltar o rico palacete da família Calheiros. Valeu a todos os que lá se encontravam que ali estivéssemos, dando o alarme para o que estava prestes a acontecer.

Felizmente não acontecera nada de grave. Havia uma certa ideia de que a província era um sitio calmo e sem criminalidade. Infelizmente, já não era assim. E ninguém estava a salvo de nada em lado nenhum.

Quanto ao unicórnio branco, enfim... Nunca mais houve relatos que tivesse sido visto. Eu próprio não tivera a certeza que o vira. E depois de uma aventura tão perigosa, não voltámos a pensar em procurá-lo.

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