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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XV

Aquela noite não fora nada abonatória para o prestígio de Paúle, do seu clube e das suas gentes. Alguns jornais regionais, no primeiro dia útil a seguir ao feriado de Carnaval, deram grande destaque ao sucedido, apelidando os jogadores de Paúle de indisciplinados, amantes da noite e das borgas, havendo mesmo um que insinuou a possibilidade de estarmos ligados ao tráfico de droga. Claro que todos sabemos como a comunicação social é um óptimo meio para se dizer o que quer que seja, mesmo que não passe de mentiras, não havendo defesa para os visados.

Relativamente às autoridades, mais ninguém teve problemas ou aborrecimentos com o caso, para além dos detidos. Miguel e Xavier ficaram em prisão preventiva. Carla não ficou presa, pois não havia provas da sua ligação e Miguel conseguira protegê-la, omitindo factos encriminatórios. Também as brasileiras se mantiveram encarceradas, sendo posteriormente entregues ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras que as repatriou para o Brasil.

De forma a evitar mais problemas, Alfredo Carrapiço encerrou o bar. Contudo, isso não lhe evitou uma convocatória urgente ao palacete da família Calheiros, após todas as notícias e histórias saídas nos jornais.

Na reunião entre a engenheira Amândia Calheiros e o senhor Alfredo Carrapiço, a primeira não abdicou de ter a seu lado a minha irmã. E foi ela quem me relatou os factos lá falados.

Assim que entrou no salão, onde era esperado pela engenheira, Alfredo Carrapiço ainda trazia os sinais da desgraça que se abatera sobre a sua família. O seu rosto continuava pálido e perdera o ar risonho com que se dirigia às pessoas da aldeia. Do velho Carrapiço, apenas restara a subserviência para com a poderosa senhora.

─ Estou espantada, Carrapiço! ─ exclamou ela. ─ Logo o seu filho? Poderia esperar de muitos outros, mas... logo o seu filho.

─ Não sei que dizer... ─ suspirou, mantendo a cabeça baixa.

Amândia Calheiros levantou as mãos para o ar, dizendo:

─ Que fazia toda a equipa lá?

─ Foram convidados. ─ explicou. ─ Ia haver uma festa de Carnaval...

─ Toda esta publicidade é negativa para o clube e para os negócios. ─ barafustou. ─ O nome Paúle é uma marca!

─ Não sei que lhe diga, senhora engenheira. ─ rendeu-se Alfredo. ─ Neste momento, a minha preocupação é o meu filho.

O rosto da engenheira compadeceu-se dos lamentos de Alfredo Carrapiço. Não abdicando da pose altiva, perguntou:

─ Já arranjou um advogado para ele? Se não, aqui a doutora Manuela pode encarregar-se disso.

Para enorme satisfação de Manuela, Alfredo Carrapiço agradeceu a oferta, mas já contratara um advogado para se encarregar do caso. Se assim não fosse, Manuela teria recusado a tarefa, pois jamais representaria Miguel ou Xavier.

Miguel Carrapiço já tinha um advogado, o que não acontecia com Xavier.

A família de Xavier também sofrera um choque. No entanto, continuaram a apoiá-lo no que ele necessitasse. Todos, excepto Samuel que estava farto das negociatas do irmão. A sua irmã Deolinda ia visitá-lo à prisão e dava conta aos seus pais do seu estado. Perante a necessidade de um advogado, a empregada no palacete da engenheira Calheiros foi pedir à patroa a sua ajuda.

Esse pedido não lhe valeu um advogado. Quando a engenheira oferecera os serviços de Manuela a Alfredo Carrapiço, a minha irmã comunicou à senhora as suas convicções e a sua recusa em defender criminosos. Sabendo isso, a engenheira não ofereceu uma ajuda maior que algum dinheiro para o que fosse preciso, a Deolinda. Segundo se conta, quem pagou o advogado que viria a defender o seu irmão toxicodependente, foi Justino. Este não descurava o seu compromisso de auxiliar a viúva do seu irmão.

Outra das envolvidas, Carla, mesmo não tendo sido presa, temia que a polícia a voltasse a procurar para mais inquéritos. Manteve-se a viver sozinha em Oliveira do Hospital no apartamento que Miguel comprara para eles. E visitava-o na prisão.

Miguel Carrapiço e Xavier foram ouvidos no tribunal de Oliveira do Hospital, sendo-lhes imposta a prisão preventiva até ao julgamento, justificando-se a decisão com a possibilidade de se colocarem em fuga, caso saíssem em liberdade.

O tempo foi passando e a lembrança dos acontecimentos foi caindo no esquecimento. Não que as pessoas esquecessem o sucedido, apenas, já não se falava tanto no assunto.

Uma semana antes da Páscoa, já na segunda quinzena de Março, O Paúle recebeu e venceu o São João Ver, o que nos deixou colados ao Anadia, a cinco pontos do União de Coimbra e a sete do Cesarense.

No princípio dessa semana, Aquiles aproveitou o facto de o clima apresentar sinais de melhoras para visitar o seu tio na Figueira da Foz. A estadia não seria maior que um dia, partindo de manhã e regressando ao fim da tarde. Ele tinha uma óptima relação com o seu tio Ulisses, andando desde algum tempo a falar em visitá-lo. Como no fim-de-semana seguinte não haveria jogos, os treinos só se retomariam a meio da semana. Era, de facto, uma altura ideal para a pequena viagem.

Já por diversas vezes me falara no seu tio. Gostava que eu o conhecesse, por isso, convidou-me para ir com ele. Eu aceitei. Convidei Susana a vir também, mas ela declinou o convite. Desde que conhecera a minha irmã, ambas se haviam tornado muito amigas. E como estávamos em plena época lectiva de férias da Páscoa, Manuela pediu a Susana que tomasse conta da minha sobrinha, afastando-a do café da dona Palmira, onde normalmente ficava, quando não estava nas aulas. Cibele gostava tanto de Susana que até já lhe chamava tia. Porém, eu não gostava muito disso, pois não queria grandes aproximações entre a minha família e Susana. Não passava pelos meus horizontes futuros a continuidade da relação com Susana, pois sabia que um dia ela terminaria. Mesmo que estivéssemos num óptimo momento da nossa relação sem compromissos, a qual corria maravilhosamente bem, não havendo responsabilidades de parte a parte, apenas muita atracção e sexo. Contudo, eu continuava a não confiar nela, tal como não lhe perdoara o que fizera. Susana não me amava e, por vezes, dizia-mo com medo que eu interpretasse mal os seus sentimentos.

Como já referi, havia um acordo entre nós, o qual atribuía o compromisso de se afastar, eu ou ela, se o outro iniciasse uma relação amorosa. Por exemplo, se Susana arranjasse um namorado, só teria de chegar a casa, fazer as malas, dizer-me o sucedido e ir-se embora, sem cobranças de parte a parte. Uma espécie de pedido de demissão. Sim, porque apesar da nossa relação, eu continuava a pagar-lhe o que contratara com ela

Eu tinha consciência que o inverso seria mais difícil para ela, uma vez que, se eu encontrasse uma nova namorada, ela teria de abandonar a casa sem ter para onde ir. Essa ideia preocupava-me, levando-me a ter isso em consideração, se tal acontecesse.

Em ambos os casos, a situação iria parecer muito estranha a todas as pessoas, as quais nos viam como um casal apaixonado em vias de se casar. Fora o filme que realizáramos e tornáramo-nos reféns dele.

 

A manhã solarenga animava a nossa viagem. Eu conduzia o meu Mégane, enquanto Aquiles conversava animado. O seu estado de espírito melhorara muito, desde que conseguira ser mais assíduo no onze inicial do G. D. Paúle, muito à custa de uma lesão de Reis. Durante esse período, cerca de duas semanas, Aquiles realizou três excelentes exibições, o que levou Freitas a mantê-lo na equipa, mesmo após o restabelecimento de Reis.

Não conhecia a Figueira da Foz. Por isso, a partir de um certo ponto, Aquiles teve de me ir dando indicações sobre o caminho. Conduzi pelas vias-rápidas, atravessando o concelho até às praias. O hotel do senhor Ulisses Velez ficava junto ao areal, permitindo aos hóspedes uma paisagem magnífica do extenso manto de areia e do mar.

O vento soprava com força, junto à entrada do alto edifício. Aquiles encaminhava-me pela entrada, recepção, corredores, conhecendo todos os caminhos e quase todos os funcionários, tal como eles a ele. Subimos no elevador até ao último andar e saímos num hall, o qual nos deu acesso ao escritório de Ulisses.

Uma senhora de meia-idade, muito simpática e elegante, recebeu-nos, cumprimentando com grande afecto o jovem Aquiles. Pela conversa, percebi que a senhora o conhecia desde pequeno. Fui apresentado e apertei a mão da senhora, retribuindo a gentileza com que me cumprimentava. Abriu-nos a porta do gabinete do patrão e anunciou-nos ao senhor sentado atrás de uma longa secretária em carvalho envernizado.

O tio de Aquiles levantou-se e abraçou o sobrinho, saudoso da sua presença. Seguidamente, Aquiles apresentou-nos. Ulisses estendeu-me a mão e cumprimentou-me, soltando alguns elogios à minha qualidade futebolística. Mesmo sabendo que havia muita gente que me conhecia dos relvados, sentia-me sempre surpreendido quando alguém me reconhecia.

O rosto de Ulisses Velez revelava feições muito parecidas com as de Lúcio Velez, seu irmão. Eram daqueles irmãos que não deixavam dúvidas que o eram. A única diferença, entre eles, notava-se no facto de Ulisses ser mais baixo e mais gordo.

O senhor Ulisses parecia uma pessoa muito simpática. Fez questão em mostrar-me o seu hotel numa visita guiada por ele. Sentia orgulho na sua obra e gostava de a revelar a quem por ali passava.

Entre o edifício e a praia, existia uma enorme piscina, dentro do lote do hotel, onde os hóspedes se podiam descontrair na água doce ou numas das muitas cadeiras espalhadas à volta do rectângulo, banhando-se de raios solares.

─ O ponto alto é o Verão! ─ afirmava Ulisses, justificando a desertificação do local. ─ Principalmente, quando se disputa o Mundialito de Futebol de Praia e o Torneio de Voleibol de Praia do Circuito Mundial.

─ Isto costuma estar cheio. ─ confirmou Aquiles. ─ Eu venho cá ver os torneios, todos os anos.

O dia estava bonito, mas soprava um vento desagradável. De tal forma que, quando o meu telemóvel tocou, tive que me resguardar no interior do hotel, para ouvir a chamada. Tratava-se de uma ligação de Jorge.

─ Olá, Jorge! ─ cumprimentei.

─ Olá Ivan! ─ retribuiu ele. ─ Estás ocupado?

─ Mais ou menos.

─ Podes vir a Lisboa? ─ perguntou apressadamente.

─ Bolas, Jorge! Falas em ir a Lisboa como se eu estivesse ao virar da esquina. ─ referi eu.

─ Desculpa, Ivan! Mas, surgiu um imprevisto. O senhor Lúcio Velez telefonou-me esta manhã. ─ explicou o meu empresário. ─ Está a tratar de pormenores da candidatura à presidência do Benfica. Quer reunir-se connosco para oficializarmos um acordo para o teu regresso ao clube, caso ele vença as eleições.

Fiquei surpreso com a notícia, apesar de o poderoso pai de Aquiles me ter prometido esse regresso. A ideia de poder regressar ao clube do meu coração, desta feita sem a atrapalhação de terceiros, deixou-me nervoso. Acabei por dizer:

─ Não estou em Paúle. Estou na Figueira da Foz.

─ Ainda melhor. ─ retorquiu Jorge. ─ Estás mais perto. A reunião é à tarde. Passa pelo meu escritório! Seguimos juntos para o escritório dele.

Desliguei, esforçando-me para que a ansiedade não tomasse conta de mim. Olhei para o aparelho e comecei a marcar o número de Susana.

─ Susana?

─ Sim, Ivan. ─ atendeu ela.

─ Telefonei-te para te avisar que tenho de ir a Lisboa. ─ informei-a.

─ Que se passa? Algum problema? Está tudo bem com os teus pais? ─ questionou com voz preocupada.

─ Não! Está tudo bem.

─ Então, que vais fazer a Lisboa? ─ interrogou.

Já ia para lhe contar o telefonema de Jorge, quando se acercou de mim o receio de partilhar o assunto com ela. Eu não confiava nela. Tinha receio que pudesse ir contar a Ambrósio, tentar tirar dividendos com essa informação. Talvez estivesse a ser injusto, mas quem me engana uma vez, dificilmente, me engana segunda.

─ Tenho uns assuntos a tratar, Susana!

Susana tentou insistir na pergunta, mas eu descartei-me, dizendo que precisava de desligar. Quase que lhe desliguei o telefone na cara. Contudo, ainda lhe mandei “beijinhos”, antes de carregar no botão vermelho.

Ulisses e Aquiles conversavam alegremente, no instante em que retornei ao pátio onde os deixara. Aproximei-me deles, carregando no rosto uma leve tristeza por não poder continuar ali. Comuniquei-lhes a necessidade de viajar imediatamente para Lisboa, o que fez Ulisses dizer:

─ Que pena! Esperava que nos acompanhasse ao almoço.

─ Tenho muita pena, mas é uma urgência. ─ disse eu.

─ Algum problema? ─ perguntou Aquiles.

Não tinha razões para não confiar em Aquiles, razão pela qual lhe relatei:

─ O teu pai quer reunir-se comigo e com o meu empresário para falarmos no meu regresso, caso ele vença as eleições.

─ Que bom! ─ exclamou Aquiles.

─ Mas, não contes nada disto em Paúle. ─ pedi.

─ Fica descansado

─ Boa sorte! ─ desejou o seu tio.

─ Obrigado, senhor Ulisses! ─ agradeci.

─ Espero que volte a visitar-nos. ─ desejou ele. ─ Fica a dever-me a sua companhia numa almoçarada.

─ Está combinado.

 

Naqueles últimos dois anos, já fizera tantas vezes a viagem de Paúle para Lisboa e de Lisboa para Paúle que lhe perdera a conta. Estava capaz de fazer as cerca de duas centenas de quilómetros de olhos fechados.

Antes de partir, preocupei-me com o regresso de Ulisses a Paúle, pois o rapaz viera no meu carro. Com um sorriso divertido, disse-me para não me preocupar, logo se arranjaria. O mais certo seria voltar num dos autocarros que fazem a carreira da Figueira da Foz ao interior do país, talvez um que passasse por Oliveira do Hospital. Ou então, teria sempre o comboio que passava pelo Carregal do Sal.

Em hora e meia, atravessei a pista de alcatrão, entrando na capital pouco depois da hora de almoço. Como ainda tinha tempo até à hora marcada com Jorge, decidi fazer uma visita surpresa aos meus pais, acabando mesmo por almoçar com eles.

Em Lisboa, a temperatura era significativamente mais alta. Quase se tornara habitual os últimos dias de Março serem quentes, quase a chegarem aos trinta graus, para depois o frio voltar em Abril e Maio, dando depois lugar definitivamente ao Verão.

Conforme combinara com Jorge, fui buscá-lo ao seu escritório e seguimos para uma das empresas de Lúcio Velez, onde o rico industrial nos receberia para uma reunião solicitada pelo próprio. O seu escritório ficava num edifício espelhado, em Algés.

Dentro do edifício, fomos conduzidos por um jovem bem vestido até ao gabinete do patrão. Lúcio Velez recebeu-nos com enorme simpatia, apertando a mão de Jorge e abraçando-me com força.

─ Ainda bem que pôde vir. ─ disse-me, satisfeito. Apontou-nos as cadeiras em volta de uma mesa oval, no amplo gabinete. ─ Por favor, sentem-se!

Lúcio Freire Velez preparou uma reunião muito informal, fazendo-a parecer mais uma conversa de amigos. E, realmente, houvera sempre um bom entendimento entre mim e ele, desde que nos conheceramos. Parecia mesmo que a simpatia era uma característica comum da família Velez, pelo menos dos elementos que eu conhecia.

Assim que se sentou, Jorge perguntou:

─ Tinha-me falado, hoje de manhã, que queria discutir o regresso de Ivan ao Benfica, em caso de vitória nas eleições.

─ Calma! ─ exclamou Lúcio, levantando os braços. ─ Já lá vamos. ─ Olhou para mim. ─ Ivan Pedro! Como é que o meu filho se tem dado lá pelo... Como é que se chama o clube?

─ Grupo Desportivo de Paúle. ─ respondi. ─ Tem estado bem. O seu filho é um grande jogador! Já se tornou titular da equipa.

─ E você?

─ Vou fazendo pela vida.

─ Tem marcado muitos golos?

─ Alguns... ─ disse, encolhendo os ombros. ─ Não é essa a minha função.

Lúcio Velez anuiu. Seguidamente, puxou de uma folha de papel, onde fizera alguns apontamentos, e começou a falar:

─ Lembra-se que lhe disse que gostaria de o ver a jogar no Benfica? Quando lho disse, não esperava que tivesse que o contratar novamente. Mas, já que aqueles pulhas que lá andam quebraram o contrato consigo, vamos lá fazer tudo de início. ─ A sua atenção passou para Jorge, pois sabia que era com ele que tinha de lidar. ─ A minha proposta é um contrato por uma época com o mesmo vencimento que tinha, havendo depois o direito de opção para a seguinte, aumentando dez por cento na seguinte.

─ Estamos a falar de cinquenta mil euros por mês? ─ questionou Jorge.

─ Exacto. ─ confirmou Lúcio Velez. Olhou para mim. ─ Parece-lhe bem?

Jorge não me deixou responder, continuando:

─ Isso dá seiscentos mil euros por ano, mais prémios. Correcto?

─ Sim. ─ tornou a confirmar Lúcio Velez. ─ Claro que os prémios terão de ser negociados mais tarde, dependendo dos objectivos.

─ Os objectivos do Benfica costumam ser ganhar todas as competições onde estão envolvidos. ─ lembrou Jorge. ─ Não me parece que o senhor vá mudar isso.

Lúcio Velez sorriu-lhe, respondendo:

─ Onde quer chegar, senhor Jorge?

─ Gostaria que os prémios ficassem já definidos no contrato.

─ Não os posso definir agora, neste acordo. ─ explicou. ─ Mas, serão bem definidos quando formalizarmos o contrato final.

Jorge concordou. Vi-o pegar numa pequena calculadora e fazer contas. Olhou novamente para o candidato e indagou:

─ Estamos a falar de seiscentos e sessenta mil euros por ano na segunda época. Correcto?

─ Você é que fez as contas... ─ disse ele, levantando os braços.

─ Parece-te bem? ─ perguntou-me Jorge.

─ Penso que sim.

─ Sendo assim... ─ prosseguiu Lúcio Velez, ouvindo a minha concordância. ─ Formalizaremos este acordo, por escrito, havendo a necessidade de fazer um contrato oficial, após as eleições.

─ Acha que vai ganhar? ─ interroguei, sorrindo.

Lúcio Velez respondeu:

─ Meu caro Ivan Pedro! Se não me achasse capaz de vencer aqueles bandidos hipócritas, não me teria candidatado.

O candidato à presidência ordenou a uma funcionária que redigisse um acordo com as clausulas combinadas. Durante esse tempo, ficámos à conversa, ouvindo-o principalmente falar dos seus projectos para o clube. Algum tempo depois, a funcionária trouxe duas cópias do acordo, o qual lemos e assinámos. Pode parecer que tudo não demorou muito tempo, mas ao sairmos do seu gabinete, a tarde já findara e a noite tornara-se já realidade nas ruas de Lisboa.

─ Que te pareceu? ─ indagou-me Jorge, enquanto caminhávamos para o carro.

─ Parece-me bom. Resta saber se ele ganha as eleições.

Entrámos no Mégane e partimos de Algés, rumo a Lisboa.

─ Queres jantar lá em casa? ─ convidou Jorge. ─ Há já algum tempo que não vês o Eduardo.

─ Tens razão. Vamos lá, então.

Conduzindo pelas ruas iluminadas da cidade, segui o trajecto que nos levaria até uma das torres das Amoreiras, local onde Jorge comprara uma bela casa para viver com Eduardo. Viemos pelo Viaduto Engenheiro Duarte Pacheco, contornando posteriormente todo o complexo habitacional e comercial das Amoreiras, entrando no parque de estacionamento subterrâneo, no lado oposto ao Centro Comercial. Jorge tinha direito a dois lugares de estacionamento, estando um deles ocupado pelo seu carro, o qual nunca levava para o escritório, preferindo deslocar-se em Lisboa nos transportes públicos.

O apartamento de Jorge ficava no décimo andar. O elevador transportou-nos até um hall amplo e iluminado, tendo ele saído primeiro para abrir a porta de casa.

Ao entrar, ouvi duas vozes conversarem alegremente.

─ Temos visitas. ─ constatou Jorge, espantado.

Do fundo do corredor, ouvi a voz de Eduardo perguntar:

─ És tu amor?

─ Sou. ─ respondeu Jorge. ─ Trago um convidado para o jantar.

Eduardo aproximou-se de nós. A forma de vestir dele era hilariante, camisola justa, decotada, calças largas e chinelos rosa com uma bolinha de pelos na ponta. Como estava na cozinha a fazer o jantar, envergava também um avental colorido. Porém, ao ver quem era o convidado, o seu rosto mudou para alguma apreensão. Deu um beijo a Jorge e dirigiu-se a mim.

─ Olá, Ivan! ─ cumprimentou-me, apertando-me a mão.

─ Olá, Eduardo!

Estranhei a sua reacção, mas compreendi-a assim que vi quem era a segunda pessoa lá em casa.

─ Quem é o convidado, Eduardo? ─ perguntou Camila, saindo da cozinha.

Senti o meu coração a bater com mais força. Não esperava encontrá-la lá. Camila aparecia espantosamente linda, dentro de um vestido azul-escuro com um decote sóbrio, mas tentador. Calçava sandálias pretas com fios que se entrecruzavam ao longo das suas pernas até aos joelhos.

─ Olá, Pedro! ─ cumprimentou, aproximando-se, enquanto prendia o longo cabelo num rabo-de-cavalo. Ainda não perdera aquele tique de quando se sente nervosa. Dei-lhe um beijo em cada face.

─ Convidei o Ivan para jantar! ─ informou Jorge.

─ Até aí já tinha reparado. ─ disse Eduardo, colocando as mãos nas ancas. ─ Podias ter avisado. Agora, não sei se o jantar chega.

─ Fazes sempre comida para trezentos. ─ redarguiu Jorge.

─ Isso é uma critica?

─ Vá lá, não se zanguem. ─ interrompeu Camila. ─ A comida chega para todos.

Eduardo regressou à cozinha, abanando a cabeça e levantando as mãos para o ar.

─ Está tudo bem, Camila? ─ indagou Jorge.

─ Sim. Aproveitei o dia para passear e visitar os amigos.

─ Fizeste bem.

Camila falava com Jorge. Não evitava olhar-me ocasionalmente, encontrando-me sempre de olhos fixados nela.

─ E tu, Pedro? Está tudo bem contigo?

Antes que eu falasse, Jorge antecipou-se:

─ Está tudo óptimo! Vimos de uma reunião com o futuro presidente do Benfica.

─ Olha que ele ainda não ganhou. ─ lembrei.

─ Vais voltar ao Benfica? ─ interrogou Camila, revelando uma enorme alegria com o olhar. ─ Que bom.

─ Só se o Velez ganhar as eleições. ─ referi.

─ Tens dúvidas? ─ questionou Jorge, certo do resultado.

Eduardo reapareceu, trazendo o jantar e colocando-o a meio da mesa. Foi buscar mais um prato e preparou o meu lugar para a refeição.

─ Está pronto, queridos! ─ avisou.

Sentámo-nos à mesa, ligeiramente arredondada, ficando Camila, Eduardo, Jorge e eu nesta ordem, espalhados por ela. Fora Eduardo quem planeara as nossas posições, muito cuidadoso com a presença dos convidados que tinha. Sei que receava o facto de Camila e eu estarmos na mesma sala, depois do tudo o que acontecera entre nós. Contudo, desde o nosso acordo de amizade, a nossa relação estabilizara, havendo um esforço mútuo para que, após falhado o amor, a amizade vingasse. E íamos no bom caminho. Notava isso nas longas conversas na internet com Camila. Claro que ela não me era indiferente como mulher, ainda para mais, lindíssima como se apresentava naquele jantar.

Não tenho dúvidas de que Camila contara a Eduardo a minha última tentativa, três meses antes de reatarmos a nossa relação. Eduardo era o seu amigo, confidente e conselheiro. Sabia que ele me via sempre como o mulherengo, tentando conquistar novamente a sua amiga. Talvez por isso, Eduardo tivesse iniciado o seguinte assunto:

─ Então, Ivan? Soube que tens um relacionamento sério, lá na terrinha.

Olhei para Camila que me sorriu, como quem diz “não lhe contei nada sobre a vossa representação”, aliás, conforme eu lhe pedira.

─ É verdade. ─ confirmei.

─ Vão casar?

─ Ainda não pensámos nisso.

─ Fazia-te bem, casar! ─ afirmou Eduardo.

─ Concordo, se o fizesse com a mulher certa. ─ retorqui, lançando um olhar a Camila.

─ Ohhhhhhh! ─ exclamou Eduardo no seu jeito. ─ Não é ela a mulher certa?

Encolhi os ombros, como se não soubesse responder à pergunta.

─ Já viste isto? ─ interrogou ele para Camila. ─ Nem todos têm a nossa sorte que encontrámos os homens da nossa vida.

Jorge sorriu-lhe ao elogio, dirigindo-se depois a Camila:

─ Quando é que o Nick regressa?

─ Perto da data do casamento. ─ informou.

─ Quando é que é? ─ inquiri eu.

─ No último Sábado de Maio.

Eduardo segurou o braço de Camila e interpelou-a:

─ E como vai a empresa?

─ Muito trabalho, principalmente a aturar os americanos que vêm dirigir os diversos departamentos.

A sala onde jantávamos era um local muito confortável, requintado com uma decoração excêntrica, obra de Eduardo, mas acolhedora. As paredes tinham vários quadros com pinturas de paisagens, sendo intercaladas com pequenos apliques de iluminação. Ao centro, no tecto, um enorme candelabro com doze lâmpadas. Nós estávamos no sector menor da sala, pois o maior continha vários sofás com uma mesa baixa ao meio e um televisor ao fundo, um plasma de muitas polegadas.

─ Tu és uma espécie de presidente da empresa. ─ continuou Eduardo.

─ O presidente é o Nick! ─ emendou ela. ─ Eu sou a vice-presidente.

─ Logo, na ausência dele... ─ insistiu.

O serão estava bastante agradável. Findo o primeiro prato, passámos a uma bela salada de frutas que Camila confeccionara, antes de nós chegarmos, quando ajudava Eduardo na cozinha.

─ Então, para o ano, lá irás tu para o Benfica, novamente! ─ disse Eduardo, trincando uma uva.

─ Só se o Velez ganhar. ─ tornei a dizer.

─ Quais são as possibilidades? ─ questionou Camila.

Jorge apressou-se a engolir o que tinha na boca e respondeu:

─ Os adeptos estão muito descontentes com a direcção. O Lúcio Freire Velez tem boas hipóteses.

─ Vou torcer por ele! ─ afirmou Camila. ─ Só para que consigas, finalmente, realizar o teu sonho, Pedro.

Eduardo lançou-lhe um olhar de reprimenda, condenando aquele apoio tão frontal.

O jantar não se prolongou por muito mais tempo. E com o fim da refeição, vieram as despedidas.

─ Queres que te leve a casa? ─ sugeriu Jorge a Camila.

─ Não. ─ recusou. ─ Eu apanho um táxi.

─ Eu levo-te! ─ ofereci.

─ A sério, Pedro! Não vale a pena. Eu apanho um táxi aqui em baixo.

Ainda insisti mais uma vez, mas ela recusou.

─ Então, deixa-me acompanhar-te lá baixo.

─ Está bem.

Despedimo-nos de Jorge e Eduardo e desaparecemos no interior do elevador. Carreguei no botão “-2”, onde tinha o carro. Camila esticou o dedo e ia a carregar no “0”. Num impulso, travei-lhe o movimento, segurando-lhe o pulso meigamente.

─ Que fazes? ─ perguntou.

─ Posso convidar-te para um copo? ─ sugeri. ─ Podíamos conversar um bocado. Há tanto tempo que não falamos pessoalmente.

─ Mas, eu amanhã...

─ Por favor, Camila! Se quiseres, eu imploro pela tua companhia. ─ disse, demonstrando a intenção de me ajoelhar.

─ Levanta-te, Pedro! Tudo bem. Mas, não pode ser até muito tarde.

─ Obrigado! ─ agradeci, oferecendo-lhe um beijo nas costas da mão que segurara.

A porta do elevador abriu, colocando-nos em frente aos vários carros estacionados no parque. Caminhámos por entre eles, ao ritmo do bater das solas das sandálias de Camila no cimento.

Abri a porta do carro para ela entrar, contornando-o depois para entrar para o meu lugar. Liguei a ignição, acendi as luzes e arranquei rumo à saída.

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