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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XIV

Os paúlenses não eram muito tradicionais no que respeita a carnavais. Contudo, a crescente publicidade aos eventos que se desenrolavam, naquele dia, um pouco por todo o país, levou a que se agendasse um desfile na aldeia, durante a tarde do feriado.

Não querendo ficar atrás dos organizadores do evento, Miguel Carrapiço organizou uma festa nocturna na véspera, um pouco à imagem do que acontecia nos bares do Brasil, nesta época.

A festa foi amplamente publicitada, tendo aquela visita de Miguel à aldeia, servido para distribuir panfletos a anunciá-la. No treino dessa tarde, repetira diversas vezes o convite a todos, insistindo para que não faltassem.

Sinceramente, não estava com grande vontade de comparecer. Nem, tão pouco, ele me convidara. Podia subentender-se que o convite era geral. Porém, não me seduzia.

Aquiles, rapaz ainda fresco na sua juventude, manifestou logo o seu interesse em ir. Quase todos os que ali estavam se dispuseram a ir. Eu recusei. Contudo, Augusto insistiu para que eu fosse, pois era o único da equipa que não ia. Acabei por aceder aos seus pedidos.

Quando chegámos ao local, já noite escura e avançada, encontrámos um ambiente previamente preparado para um público masculino. E, de facto, os visitantes eram quase todos homens. Por exemplo, a minha irmã não acompanhara Augusto, ficando com Cibele. Ambas tiveram a companhia de Susana, a qual não quis ficar sozinha em casa, após eu lhe ter pedido para que não viesse.

Lá dentro, percebi outras ausências, como a de Samuel. Claro que ele nunca dissera que iria, mas também não declinara o convite. No entanto, a sua ausência era compreensível, pois não simpatizava com Miguel e desagradava-lhe a vida que o irmão levava. Que me recorde, mulheres conhecidas vi Maria de Fátima, a acompanhar o marido. E Livia também lá estava.

As brasileiras foram-se espalhando pelos homens sozinhos que por ali andavam. Uma delas ofereceu-se para me fazer companhia, mas eu recusei. Augusto também fora interpelado, dando a mesma resposta. Ficámos os dois com Teodoro e Maria de Fátima, numa mesa, a beber. Aquiles veio, igualmente, juntar-se a nós, sentindo-se deslocado.

Donde estava, vi Livia conversar com uma brasileira. A estrangeira pareceu recusar o que ela lhe dissera, mas mudou de ideias com a entrega de uma nota de cinquenta euros. Vi a mulher de trajes provocantes sentar-se ao lado de Livia e ali ficar. O aspecto de Livia e a sua forma de vestir continuavam a fazê-la parecer um miúdo.

Desde o primeiro momento em que entrara no bar, notei múltiplas diferenças em relação ao que conhecera. O ambiente já não era iluminado por luzes psicadélicas, sendo estas substituídas por focos de luz espalhados estrategicamente. Tinha havido um certo cuidado em melhorar a decoração, cativando mais gente. A música também se alterara, colocando-se definitivamente de lado as canções do Nélson Ned, substituindo-as por música actual, muito mais ao gosto das camadas jovens. Já referi que o elenco de alternadeiras mudara de tipas horrorosas com as banhas a sair pelas bordas dos vestidos, para brasileiras com ar exótico e corpos atraentes. Não me recordo de casos de prostituição antes, ao contrário destas que ao fim de dois copos se ofereciam para encontros sexuais em troca de umas tantas “prendinhas”, expressão usada como sinónimo de euros.

No bar, dois indivíduos encarregavam-se de servir as bebidas, enquanto o serviço às mesas era feito por empregadas. Estas só ali estavam para aquilo, sendo frequente depararem-se com convites sexuais, os quais recusavam, irredutivelmente. E se o cliente insistisse, o mais certo era ser convidado a sair. Se não quisesse sair, um segurança “aconselhá-lo-ia” a fazê-lo.

Em frente ao bar, espalhavam-se conjuntos de mesas com três ou quatro cadeiras, feitas em alumínio e pouco confortáveis. À volta do salão, vários compartimentos pequenos com sofás e uma mesa, locais mais visitados pelas raparigas, uma vez que os seus utilizadores eram clientes habituais e mais ricos.

Nessa noite, devido ao elevadíssimo número de clientes, também Carla se juntou ao grupo de empregadas que serviam às mesas. E Miguel Carrapiço, de vez a vez, aparecia atrás do bar, controlando as coisas e falando com o seu pessoal. O único que não vislumbrei por lá foi Xavier. Esse, só viria a aparecer muito mais tarde, acompanhado por um homem alto, aspecto sombrio, vestido de fato e gravata e a fumar charuto. Sentaram-se num dos compartimentos de sofás, tendo logo duas brasileiras a oferecer-lhes companhia.

O salão estava completamente apinhado de gente, causando um certo mal-estar a algumas pessoas que se sentiam apertadas.

Apesar da música alta, conseguíamo-nos ouvir uns aos outros.

─ Quem é aquele individuo? ─ perguntei eu a Augusto. ─ Aquele ali com o Xavier.

─ Não conheço. ─ respondeu, disfarçando a observação.

Eu bebia uns golos da minha cola e observava-os, tendo o cuidado de que não reparassem em mim. As duas brasileiras cercaram o homem, ficando uma de cada lado. Nenhuma se aproximou de Xavier. A conversa entre os dois homens era imperceptível, conseguindo eu, apenas, perceber alguns gestos explicativos e uns abanares de cabeça. Não tinha dúvidas de que se tratava de uma discussão de negócios. E a vinda de Miguel, algum tempo depois, para se juntar à conversa, confirmou isso mesmo.

─ Estás muito interessado. ─ disse-me Augusto, reparando na minha atenção.

─ Gosto de ter os inimigos debaixo de olho. ─ respondi.

─ Deixa-os lá! Estão a lixar-se para ti. ─ constatou Augusto. ─ Devem andar a fazer alguma negociata de droga.

─ Droga? ─ interrogou Aquiles, espantado. ─ Também já há disso aqui?

─ Infelizmente. ─ suspirou Teodoro.

─ Vá lá que em Paúle não temos lá dessa gente. ─ referiu Maria de Fátima.

─ Tens o Xavier. ─ lembrou-lhe o marido.

─ O Xavier não é de Paúle! ─ retorquiu ela.

Os meus acompanhantes de mesa continuaram a conversar, tendo eu alheado-me do assunto, prosseguindo a observação. Mais um aspecto da importância do que ali se deveria estar a discutir era o facto de só Carla ter permissão para servir aquela mesa. Tal como as outras empregadas, vestia uma camisa rosa, saia preta curta e meias pretas, caminhando em sapatos de salto alto. O seu cabelo continuava ruivo, tal como quando a conhecera. Achei a indumentária e o ar delas muito provinciano, procurando serem sensuais, mas passando uma imagem de prostitutas baratas, mesmo não sendo elas quem se prostituía ali.

Passado pouco tempo, reparei que entraram no salão alguns indivíduos suspeitos. Todos eles eram encorpados, usavam blusões almofadados e óculos escuros. Pareciam fazer parte do mesmo grupo, mas entraram em separado e colocaram-se em posições estratégicas, dentro do recinto. Curiosamente, não vi nenhum dos seguranças do bar, por ali.

Na mesa de Miguel, Xavier levantou-se e desapareceu por entre a multidão. Calculo que tivesse ido ao escritório, nas traseiras do bar, pois regressou com uma maleta preta. Tornou a sentar-se no seu lugar e colocou a maleta sobre a mesa, cabendo a Miguel a tarefa de a abrir, perante o olhar do estranho.

─ Augusto! ─ chamei, disfarçadamente.

O meu cunhado ouviu-me e olhou para o local que eu lhe indicara.

─ Estão a vender droga! ─ adivinhou ele.

─ Também me parece. ─ concordei. ─ E já topaste aqueles tipos?

Augusto olhou para os indivíduos que eu apontara, discretamente, com o rosto.

─ Já tinha reparado neles. ─ disse Aquiles, entrando na conversa.

Na mesa do negócio, o homem assentiu com a cabeça e Miguel voltou a fechar a maleta. Seguidamente, o estranho abriu a sua maleta sobre a mesa, mostrando a Miguel aquilo que calculei ser o pagamento. Miguel concordou e entregou-lhe a sua maleta, recebendo a dele.

─ Isto não me está a cheirar nada bem. ─ disse eu. ─ O melhor é irmos embora.

Contudo, antes que algum de nós tivesse tempo de tomar alguma decisão, vi dois homens aproximarem-se da mesa deles, enquanto um terceiro se dirigiu para a zona de colocação de músicas. Os outros permaneceram nos seus lugares.

Um dos homens disse qualquer coisa que fez Xavier tentar levantar-se e pôr-se em fuga. Foi, imediatamente, agarrado. Miguel não conseguiu reagir, sendo bloqueado pelo “comprador”, o qual estava combinado com os outros todos. Nesse instante, a música parou, deixando todos surpreendidos. O terceiro homem aproximou-se do microfone, na zona de música, e disse:

─ Meus senhores e minhas senhoras! Polícia! ─ Algumas pessoas tiveram um movimento instantâneo de fuga. ─ Não vale a pena fugirem, pois estão cercados por vários agentes. Fiquem nos vossos lugares!

Os vários homens de óculos escuros começaram a organizar as pessoas para fazerem algumas perguntas. Vi os outros agentes algemarem Miguel e Xavier, levando-os para o exterior, onde os transportariam num carro patrulha da GNR para as celas do posto mais próximo. Logo de seguida, entraram vários elementos da GNR fardados, os quais detiveram todas as raparigas brasileiras, após se constatar que estavam todas ilegalmente no nosso país.

Eu, Augusto, Aquiles, Teodoro e Maria de Fátima permanecemos nos nossos lugares, completamente sossegados, aguardando que alguém viesse falar connosco.

Passado cerca de um quarto de hora, um agente acercou-se de nós. Com muita educação, o indivíduo disse:

─ Boa noite! Os vossos documentos?

Retirei a carteira do bolso e fui o primeiro a entregar-lhe o Bilhete de Identidade. Os restantes foram buscar os seus, aos lugares onde os guardavam, ficando à espera que o agente os pedisse.

─ Profissão, senhor Ivan Pedro?

─ Jogador de futebol. ─ respondi.

O homem olhou para mim, ligeiramente, surpreso. Continuou:

─ Onde?

─ Grupo Desportivo de Paúle.

Ele abanou a cabeça afirmativamente, pois deveria ser da região, logo, conhecia o Paúle. Entregou-me o Bilhete de Identidade e indagou:

─ E qual é a sua profissão, para além do futebol?

─ Não tenho! ─ respondi com naturalidade.

─ Então como ganha a vida? ─ questionou.

─ Já lhe disse! Como jogador de futebol. ─ repeti, enfadado.

O homem olhou-me duvidoso e prosseguiu:

─ Quer que acredite que o rendimento que obtêm num clube de aldeia lhe chega para governar a vida?

─ Eu não quero que acredite em nada! ─ exclamei. ─ Se não sabe quanto eu ganho, se não sabe quanto é que eu tenho de despesas, como é que quer acreditar no que quer que seja?

─ O senhor agente, desculpe! ─ intrometeu-se Augusto. ─ O Ivan Pedro é jogador profissional e foi contratado...

─ Isso não me interessa! ─ atalhou. ─ Dê-me a sua identificação!

Augusto entregou-lhe o Bilhete de Identidade.

─ Senhor Augusto! Qual é a sua profissão? ─ inquiriu o agente. ─ Não me diga que também é jogador da bola?!

─ Sou! ─ respondeu Augusto. ─ E trabalho no café da minha mãe, em Paúle.

─ Também joga no Paúle?

─ Sim.

O homem apontou-lhe o Bilhete de Identidade e solicitou o de Aquiles.

─ Aquiles? Nome pouco comum. ─ referiu. ─ Que faz?

─ Sou jogador de futebol. ─ informou Aquiles, usando do tom de naturalidade que eu usara.

─ Outro? São todos jogadores da bola? ─ questionava-se o agente. Virou-se para Maria de Fátima. ─ E a senhora? Não me diga que também joga?

─ Não! ─ respondeu-lhe ela com antipatia. ─ Trabalho no café da minha mãe em Paúle, juntamente com o meu irmão Augusto.

─ Tudo bem. ─ disse o agente. ─ Já lá vamos. Joga no Paúle, senhor Aquiles?

─ É verdade. ─ confirmou Aquiles.

O agente ia tomando apontamentos sobre tudo o que perguntava.

─ Estuda? Trabalha?

─ Trabalho.

─ Onde?

─ No Grupo Desportivo de Paúle.

O agente arregalou os olhos como se achasse que estavam a gozar com ele. Escreveu mais umas notas e disse:

─ Esse clube deve ser muito rico para pagar ordenados tão bons.

─ Por acaso, quem paga o meu ordenado é o Benfica.

─ Você está a gozar comigo? ─ interrogou o agente, irritado.

─ É verdade! ─ disse eu. ─ Ele veio por empréstimo para o Paúle. Se tem dúvidas, depois do feriado, ligue para o clube e confirme.

Mantendo um olhar de suspeita, o homem entregou os documentos a Aquiles e passou para Teodoro. Repetiu as perguntas e ficou a saber que ele também jogava no Paúle e que era pintor.

─ São todos jogadores de futebol do Grupo Desportivo de Paúle? ─ interrogou para o ar, elevando a voz.

Um dos seus colegas ouviu e, aproximando-se dele, disse-lhe:

─ Não são os únicos. Há aí mais. Deve cá estar plantel todo.

─ Isso é muito suspeito.

O segundo agente concordou e adicionou:

─ E um dos gerentes também é, o tal Miguel Carrapiço!

O primeiro agente olhou para nós e indagou:

─ É verdade?

Nós confirmámos com um aceno de cabeça.

─ E o presidente do clube, o senhor Alfredo Carrapiço, é o pai dele e dono do bar. ─ explicou o segundo.

─ Isso é tudo muito suspeito.

Perante os factos, os jogadores do G. D. Paúle passaram de futebolistas a membros de um grupo de malfeitores, reunidos naquele bar e ligados ao tráfico de droga. Isto, na mente daquele agente, o qual se deveria ter convencido que era o Sherlock Holmes lá do sitio. Contudo, a sua opinião foi levada em conta, o que obrigou todos os elementos identificados como jogadores do Paúle, e/ou amigos dos detidos, a deslocarem-se ao posto da GNR de Oliveira do Hospital, imediatamente.

Tal como fôramos para o bar, todos entrámos no Smart de Aquiles e seguimos para lá. Pedi a Augusto que telefonasse à minha irmã, pois poderia ser útil a presença de uma advogada.

 

A sala de espera foi demasiado pequena para receber todos aqueles a quem foi solicitada a presença para prestar declarações. Carla foi a primeira a ser ouvida. Não fora detida, pois o agente infiltrado não conseguira provas da sua cumplicidade nos crimes. Durante o seu interrogatório, chegou ao posto Alfredo Carrapiço, visivelmente abalado com a prisão do filho.

Como o ambiente estava muito pesado e havia muita tensão no ar, eu e Augusto fomos para a rua, sentindo o frio gelado da noite já longa, esperar a minha irmã.

Ela chegou alguns minutos depois, conduzindo o seu carro, o qual estacionou do outro lado da rua. Saiu do interior e revelou-nos um rosto muito irritado:

─ Que aconteceu? ─ questionou.

Augusto ficou mudo, quase como se tivesse medo dela. Calmamente, expliquei-lhe tudo o que sucedera, tendo o cuidado de o fazer detalhadamente, pois os pormenores poderiam ser importantes para ela.

─ Estás a ver? ─ interrogou ela, furiosa, olhando para Augusto. ─ Eu bem te avisei para não ires para lá.

─ Ó amor, eu ia lá adivinhar...

─ Cala-te! Não me digas nada. ─ ordenou-lhe.

Entrámos os três no posto e aguardámos com os outros a nossa vez.

─ Quem é que ficou a tomar conta da Cibele? ─ indaguei.

─ A Susana. ─ informou Manuela, não abdicando do semblante duro. ─ Aquela rapariga é um amor. Ofereceu-se logo para lá ficar, até eu voltar.

Parecia que Susana estava a mudar, pensei para mim. Ou teria sido ela sempre assim, não sabendo eu descobri-la?

─ Senhor Ivan Pedro! ─ chamou um agente, depois de já quase todos terem sido ouvidos.

Caminhei até ao gabinete do comandante do posto, o qual estava a chefiar o interrogatório. Passei pelo agente, acompanhado da minha irmã. Este não queria deixá-la entrar. Porém, Manuela identificou-se como minha advogada, mantendo um tom de voz inflexível.

─ Não era necessário advogados. ─ disse o comandante, aguardando que eu e Manuela nos sentássemos.

─ Eu sou irmã dele! ─ afirmou. ─ Sei que só estão a fazer algumas perguntas. Não vejo inconveniente na minha presença.

─ Claro que não, senhora doutora. ─ concordou o comandante, revelando alguma simpatia.

A sala do comandante era uma divisão com uns vinte metros quadrados. As paredes eram brancas e havia alguns armários com documentação. O comandante sentava-se atrás de uma secretária de madeira, tendo a seu lado um agente, de pé, o qual me pareceu ser o chefe da operação. Eu e Manuela ficámos nas duas cadeiras colocadas em frente à secretária.

─ O senhor conhece o senhor Miguel Carrapiço? ─ perguntou o comandante.

─ Sim. ─ confirmei. ─ É capitão da equipa onde jogo.

─ E o senhor Xavier?

─ Mal. ─ disse eu, encolhendo os ombros. ─ Sei que é irmão de um colega nosso, no Paúle, mas nunca falei com ele.

─ E qual era sua relação com Miguel Carrapiço?

─ Distante. Nunca houve grande simpatia entre nós. ─ expliquei.

─ Alguma razão em especial?

Em poucos minutos, relatei resumidamente os ciúmes dele em relação a mim e a Raquel.

─ E uma rapariga chamada Carla? Penso que ela teria uma relação com o senhor Miguel Carrapiço. ─ prosseguiu. ─ Conhece-a?

─ Conheço. Aliás, a minha irmã também a conhece.

─ Que me podem dizer acerca dela?

Expliquei ao comandante como a conhecera, a relação que havíamos tido, anos antes, e como tudo acabara. Falei-lhe no aparecimento dela em Paúle com o ex-marido da minha irmã e... A partir daí, Manuela tomou a palavra e relatou o que sucedera, a tentativa de rapto da sua filha, planeada por Rui, tendo Carla e Xavier sido cúmplices, apesar de não se conseguir provar a intervenção dela.

O comandante ouvia-nos com muita atenção, considerando haver informações importantes nas nossas declarações. Findas as histórias, ele informou:

─ Essa senhora, a Carla, declarou que o senhor também estava envolvido no grupo, apesar de não saber explicar muito bem como.

─ Penso que, depois do que lhe contámos, poderá tirar as suas ilações dos propósitos dessas declarações. ─ referiu a minha irmã.

─ Sim. ─ concordou o comandante. ─ Aliás, todas as pessoas que já questionámos nos dizem que nunca viram o senhor Ivan Pedro por aqueles lados. E que pelo que conhecem dele, não o viam envolvido nesse tipo de coisas. Um dos seus grandes defensores foi o senhor Alfredo Carrapiço, pobre homem, o qual justificou os seus rendimentos e até os daquele miúdo, o... Não me lembra o nome.

─ Aquiles? ─ sugeri.

─ Exacto. ─ confirmou.

O comandante fez-me mais algumas perguntas, tendo-me dispensado logo a seguir. Abandonei o gabinete e regressei à sala de espera, onde apenas Augusto, Aquiles, Maria de Fátima e Teodoro nos esperavam. Já todos os outros tinham prestado declarações, faltando apenas Augusto.

Manuela acompanhou o marido até ao gabinete.

Aquiles ofereceu-me boleia para Paúle. Porém, eu recusei, preferindo esperar que o interrogatório a Augusto chegasse ao fim. Aquiles, Maria de Fátima e Teodoro despediram-se de mim e partiram no automóvel de regresso a casa, deixando-me sozinho na sala de espera.

Passados uns vinte minutos, saíram do gabinete, podendo todos regressar sem problemas e completamente livres de qualquer suspeita sobre o caso.

 

Susana adormecera no sofá da sala na casa de Manuela e Augusto, tombando com a força do sono que o adiantar da hora lhe provocara. Fui encontrá-la a dormir profundamente. Manuela e Augusto nem a viram, seguindo directamente para o quarto de Cibele.

─ Susana! ─ chamei baixinho.

Ela reagiu com um gesto, mas continuou a dormir.

─ Susana! ─ voltei a chamar.

Completamente ensonada, lá abriu os olhos. Vendo que era eu, despertou rapidamente e levantou-se.

─ Então? Está tudo bem? ─ perguntou, habituando o olhar à claridade. ─ Houve algum problema?

─ Não te preocupes! ─ descansei-a. ─ Está tudo bem. Fizeram-nos umas perguntas e mandaram-nos embora.

Susana levantou-se do sofá, meia a cambalear com o sono. Eu segurei-a, apoiando-a nos meus braços.

Manuela surgiu na sala.

─ Obrigado, Susana! ─ agradeceu. ─ Desculpa, ter-te feito ficar aqui até tão tarde! Ela não deu aborrecimentos?

─ Não. ─ disse Susana com um sorriso. ─ É uma criança maravilhosa!

Seguidamente, apareceu Augusto. Eu e Susana aproveitámos para nos despedirmos deles e regressar a casa. Sem nunca largar Susana, encaminhei-a para o meu carro que ficara estacionado em frente à casa da minha irmã, desde que fora com os meus amigos para o bar. O trajecto de retorno foi silencioso e tranquilo, fazendo ela um esforço enorme para não adormecer.

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