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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XIII

Nunca vivera num clima tão frio e tão implacável como era o Inverno em Paúle. E aquele ano parecia estar a ser um dos mais agrestes dos últimos anos. Raramente se via um dia de Sol, os quais eram igualmente gelados. A cor cinzenta dominava diariamente, acompanhada pelo frio. As noites tinham sempre uma névoa no ar e tudo ficava carregado de humidade. O ar na rua era tão frio que parecia queimar as vias respiratórias. E sentia-se, quase sempre, uma chuva miudinha a cair. Naquele Inverno, convenci-me que iria nevar num desses dias.

Paúle ficara com um habitante novo. Aquiles mudara-se do hotel em Tábua para o quarto que a dona Palmira lhe alugara. Desde que Augusto deixara de lá viver, o quarto ficara sem uso. Por isso, a sua mãe decidiu-se a arrendá-lo. Como Aquiles procurava um lugar para ficar, juntou-se o útil ao agradável. Sabia que ele andava algo desmoralizado, pois o treinador Freitas não parecia contar muito com ele, afastando-o das convocatórias.

Comigo, as coisas mudaram. Na tarde em que enfrentámos o último classificado, Freitas concedeu-me a titularidade. E eu correspondi com uma daquelas exibições que maravilharam as gentes de Paúle. Marquei dois golos e dei mais um a marcar, numa vitória fácil. Ouvi elogios das bocas que outrora me insultaram. Liguei-lhes tanto como fizera com os insultos.

O G. D. Paúle lá se ia mantendo nos lugares de topo, após alguns bons resultados seguidos, permanecendo em quarto lugar, relativamente perto do terceiro. A diferença ficara em apenas um ponto, após a vitória no jogo realizado no primeiro Domingo de Fevereiro.

Nesse jogo, Aquiles estreou-se na ficha do jogo com a camisola do Paúle, mesmo não tendo jogado. Tivemos a sorte de o Sol ter iluminado o desafio, o que foi bom para a partida e para os cofres do clube, uma vez que encorajou mais gente a ir ver o encontro. Contudo, ao cair da noite, desabou um temporal forte sobre a aldeia, obrigando todas as pessoas a passarem o serão a coberto das suas casas.

Confesso que me sentia bastante cansado, nessa noite, ainda com o resultado do esforço empreendido no jogo. Eu e Susana jantámos envoltos no habitual clima de silêncio, onde nos limitávamos a mastigar e a desviar o olhar, um do outro, recusando-nos a abrir a boca para outra coisa que não fosse ingerir alimentos ou beber água. Todos os dias o padrão era respeitado: Susana cozinhava, punha a mesa, eu sentava-me a comer, ela acompanhava, eu terminava e ia para o sofá ver televisão, ela levantava a mesa e lavava a louça. Não houvera mais discussões, nem desentendimentos. O silêncio e o distanciamento, um pelo outro, traziam o benefício de afastar as zangas. No entanto, nessa noite, algo aconteceu.

Sentado no sofá, ocupava o meu tempo a ver mais um jogo da Superliga em directo na SportTv. Tinha um especial interesse, pois defrontavam-se Estoril e Boavista, no campo do primeiro. Felizmente, para eles, o tempo por lá estava bem melhor. Aquele jogo deveria estar a ser seguido por muitos paúlenses, os quais davam especial atenção aos resultados do Estoril, equipa treinada pelo saudoso José Luís, o treinador adorado da aldeia. E também por essa razão, ali estava eu, a ver aquele desafio de futebol.

Subitamente, ouvi:

─ Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

O grito viera da cozinha.

Sem pensar duas vezes, levantei-me e corri para lá. Encontrei Susana em frente ao lava-louças, agarrada à mão direita, a qual sangrava com alguma abundância. O seu rosto empalidecera e o seu olhar revelava todo o pânico que a assolava.

Peguei num pano e enrolei-o à volta da mão, aconselhando:

─ Calma, Susana!

Nada parecia acalmá-la. Susana confessou que tinha horror a sangue e entrava facilmente em pânico com ferimentos que pudessem sangrar. Não sabia explicar muito bem aquela fobia, mas pela sua reacção, notava-se como aquilo a perturbava.

Toda a minha preocupação se centrou em acalmá-la e tratar-lhe o ferimento que ela fizera com uma faca, enquanto a lavava. Uma pequena desatenção com uma lâmina afiada e... o golpe acontecia.

Sem que me apercebesse disso, esquecera toda minha raiva e ódio, por ela. Abracei-a com ternura e conduzi-a até à casa de banho, onde tinha um estojo de primeiros-socorros com o qual a podia tratar. Sentei-a no tampo da sanita e fui buscar o que necessitava, vendo-a agarrada ao pano, temendo que o sangue passasse pelo tecido.

─ Não te preocupes! ─ descansei-a. ─ Eu cuido de ti!

“Eu cuido de ti!”. Mal o acabei de dizer, senti um arrepio pelo significado que tal expressão podia ter. Olhei para ela e vi-a encarar-me com ar fragilizado, lançando-me um olhar de derrota e incapacidade para me agredir verbalmente, como costumava fazer.

Ajoelhei-me defronte dela e comecei a desembrulhar o pano. Susana retesou-se toda e franziu o rosto, fechando os olhos para não ver a ferida.

Não era nenhum perito de primeiros-socorros, mas os meus pais sempre me ensinaram o que deveria fazer nestas situações.

─ Não abras os olhos! ─ sugeri, olhando para o corte na sua mão.

Ela confiou e manteve-os cerrados.

─ Deves achar-me uma parva?! ─ disse ela, mantendo-se imóvel, como se eu estivesse a fazer-lhe uma cirurgia.

─ Porquê? ─ interroguei, limpando a ferida.

─ Pareço uma criança, em pânico.

─ És impressionável! ─ afirmei. ─ Não tem mal nenhum. Por exemplo, o meu pai não suporta ver operações. Quando estão a dar documentários de medicina, muda de canal para não ver as cirurgias. ─ A minha voz parecia acalmá-la. ─ Agora imagina! A minha mãe é o oposto. Gosta de ver.

Susana sorriu com a história. E eu senti que a conseguira descomprimir dos seus medos.

Coloquei um pouco de Betadyne na ferida, alertando:

─ Isto vai arder.

─ Fod... ─ soltou, cerrando os dentes e continuando com os olhos fechados.

Coloquei uma compressa na sua mão, sobre a ferida, e liguei-a com uma ligadura.

─ Já podes abrir os olhos! ─ disse, por fim.

Susana revelou-me os seus belos olhos verdes. Direccionou-os para a mão ligada e soltou um suspiro. Seguidamente, olhou-me nos olhos e disse:

─ Obrigado, Ivan!

─ Não foi nada.

─ Senti-me em pânico com tanto sangue. ─ confessou. ─ Desde pequena que não suporto ver sangue. Não sei porquê. ─ Sorriu-me e o seu olhar já não demonstrava raiva nem ódio. ─ Nunca pensei que me ajudasses.

─ Rica ideia que deves fazer de mim. ─ tentei adivinhar.

Susana encolheu os ombros e retorquiu:

─ Não é isso! Depois do que te fiz. Depois da forma como ambos nos temos tratado, ultimamente. Acho que no teu lugar, tinha voltado para o sofá e ia continuar a ver a bola.

─ Seria incapaz de deixar quem quer que fosse sem auxilio. ─ assumi. ─ Muito menos tu.

─ Muito menos eu? ─ repetiu, intrigada. ─ Porquê, muito menos eu?

─ Nada! Esquece. ─ disse, tentando finalizar o assunto.

Saí da casa de banho e regressei ao sofá. Susana abandonou o seu lugar e seguiu-me até lá, sentando-se a meu lado.

─ Que queres dizer com aquilo, Ivan? ─ insistiu.

Virei a cabeça para ela. Percebi que me exigiria uma resposta e jamais aceitaria que não lha desse. Olhei-a bem nos olhos.

─ Eu gostei muito de ti, Susana! ─ afirmei. ─ Tu nunca gostaste de mim, tal como já me disseste, mas eu gostei de ti. És uma mulher linda e a tua representação enquadrava-se no meu tipo de mulher. ─ Fiz uma pausa. Não sei o que me levou a isso, mas decidi abrir o que sentia o meu coração. ─ Tu traíste-me. Tu enganaste-me. Mas, o que senti por ti não se esquece assim. ─ Susana olhava-me com atenção sem dizer nada. ─ Não me és indiferente. Se o fosses, não te tinha trazido comigo.

─ Tu contrataste-me para as tuas necessidades. ─ lembrou. A sua frase poderia parecer o inicio de nova discussão. Porém, o tom da sua voz era terno e carinhoso, semelhante a como me falava, na época em que namorávamos.

─ Talvez... ─ suspirei.

Susana abandonou o sofá e regressou à cozinha. Mas, antes de entrar, voltou-se para trás e perguntou:

─ E ainda gostas de mim?

─ Não! Não da forma como gostei.

Susana compreendeu a resposta e desapareceu para lá da porta da cozinha.

Com aqueles acontecimentos, acabei por não prestar muita atenção ao jogo, dando por mim a olhar para o ecrã no instante em que o árbitro apitara o final. O Estoril vencera por dois a um.

Levantei-me do sofá e mudei-me para uma das cadeiras em volta da mesa, pegando no meu computador e ligando-o. Susana saiu da cozinha e reparou no que eu estava a fazer.

─ Vou para a cama. ─ informou-me.

─ Boa noite! ─ desejei, sem tirar os olhos do que estava a fazer.

─ Não queres vir? ─ sugeriu.

─ Vou mais tarde. ─ avisei, sempre com o olhar no portátil.

Sem que eu prestasse muita atenção, Susana seguiu para o quarto e foi direitinha para a cama. Não a voltei a ouvir. Minutos mais tarde, já não se via luz por baixo da porta, o que me levou a concluir que adormecera.

Esperei algum tempo, até que Camila aparecesse online. Combináramos o encontro por email, na noite anterior. Tinha-se tornado um hábito agradável, conversarmos na internet, desabafando o que nos ia na alma. Fazíamo-lo, no mínimo, uma vez por semana.

Camila acabou por ser a minha confessora, durante aqueles tempos de mau ambiente com Susana, os insucessos no futebol, etc... Era a única pessoa que conhecia a verdadeira história da minha relação com Susana. Por estranho que me pudesse parecer, anteriormente, a nossa amizade estava a resultar. Pelo menos, virtualmente, ela resultava.

“Estive em casa do meu pai.”, contou-me, após os cumprimentos do costume.

“Está cá, ele?”, perguntei eu.

“Chegou a Lisboa na Sexta. Vai passar cá uns dias, antes de seguir para a Alemanha.”

O pai de Camila passava a vida a viajar, fosse em trabalho ou por puro divertimento. Nunca fora um pai muito presente na vida de Camila. E quando ela se tornou mais independente, então, raramente lhe punha a vista em cima. Contudo, davam-se bem e ele avisava-a sempre que vinha a Portugal ou quando passava por Nova Iorque, quando ela lá estava.

“Como tens passado, Pedro?”

“Mais ou menos. Felizmente, as coisas no futebol têm corrido bem melhor! Hoje vencemos mais um jogo.”

“Fico feliz, por ti!”

Sentia-me muito cansado. Gostava muito de conversar com ela. Porém, o dia fora estafante e a necessidade de repousar aumentava. Sendo assim, foi quase um alívio quando li:

“Amanhã vou ter um dia terrível! Tenho duas reuniões com pessoal da empresa do Nick. É melhor não ficar até muito tarde.”

“Também me sinto um pouco cansado.”

“Então vamos para a cama, Pedro! Beijinhos”, escreveu Camila, logo a seguir.

“Beijinhos!”

O sono era tanto que me limitei a desligar o aparelho sem o arrumar. Apaguei as luzes e cambaleei até ao quarto. Despi-me todo e nem perdi tempo a vestir o pijama, encobrindo-me nos lençóis e cobertores, adormecendo quase de imediato. Susana já dormia havia algum tempo e nem deu pela minha chegada.

A noite fora tranquila. Dormi lindamente até meio da manhã, quando ainda sonolento e mais a dormir que acordado, comecei a sentir as minhas pernas a serem tocadas. A princípio assustei-me, pensando ser algum bicho. No entanto, apercebi-me que se tratava do tactear de dedos. Mantive os olhos fechados e deixei-me desfrutar dos acontecimentos. As mãos acariciavam-me as coxas e a barriga, movimentando-se em volta dos genitais. Entreabri os olhos e vi o volume que se elevava por baixo da roupa da cama, revelando apenas um par de pés a sair de um dos lados. Reconheci imediatamente os pés de Susana, como se houvesse alguma dúvida de que era ela quem ali estava.

As carícias avançaram vagarosamente, aproximando-se dos locais que eu mais desejava serem tocados. Permaneci silencioso e de pálpebras cerradas. O meu corpo reagiu e o crescimento fez-me sentir que a face de Susana não deveria andar muito longe daquele local. Uma das suas mãos iniciou uns movimentos ligeiros, ora para cima, ora para baixo, enroscada naquilo que de mais rijo eu tinha. Arrepiei-me com o toque de uma língua quente a saborear os redondinhos. A mão puxou tudo quanto havia para puxar, proporcionando-me uma erecção firme, cobrindo depois tudo com a sua boca. Os seus lábios exerciam pressão, enquanto o saboreavam, transmitindo-me um prazer extremo.

No entanto, apesar de todo o prazer que aquilo me dava, travei-lhe os movimentos. Não disse nada, mas Susana percebeu que eu queria que ela parasse. Susana soltou-me e roçou-se pelo meu corpo até aparecer por entre os lençóis, completamente nua.

─ Bom dia! ─ disse-me com a preocupação de o fazer num tom, sedutoramente, rouco. ─ Que se passa? Não estavas a gostar da minha “prenda”?

─ Não é isso.

─ Então o que é? ─ interrogou, colocando-se de joelhos, apoiada sobre os tornozelos, mostrando-se-me como viera ao mundo. ─ Não acredito que não tenhas vontade, pelo que vi...

─ Não é isso, Susana! ─ repeti sem saber muito bem como o dizer. ─ Não quero que seja assim.

─ Assim, como?

Sentei-me na cama, igualmente nu como me deitara.

─ Que me queres retribuir com essa “prenda”? ─ indaguei.

─ Não se trata de retribuir, Ivan. ─ respondeu Susana. Falava ternamente como já não fazia havia muito. ─ Foi uma forma de te agradecer, por ontem.

Sorri-lhe, dizendo:

─ Não acredito que seja essa a forma como costumas agradecer a quem te ajuda.

Susana correspondeu ao meu sorriso e respondeu:

─ Claro que não! Por quem me tomas?

A sua expressão de ofendida revelava que não o sentia a sério.

─ Não precisas de me agradecer. ─ disse eu.

Acariciando-me os pêlos das pernas, lembrou:

─ Tu foste muito gentil, ontem! Confesso que não esperava aquilo de ti. ─ Desviou o olhar para a janela. ─ Pensei em recompensar-te, nada mais. Sei como tens andado “a seco”! ─ Tornou a olhar para mim, atirando-me um olhar inquisidor. ─ Ou terás tu arranjado alguém para te saciar? ─ Mudou o olhar e baixou a cabeça. ─ E quem sou eu para te questionar sobre isso? Afinal, não passo da tua empregada para todo o serviço!

Segurei-lhe o queixo com carinho e elevei-lhe o rosto, fazendo-a encarar-me.

─ És mais que isso! Não te descrevas assim. Não és para todo o serviço. Neste tempo todo que temos vivido juntos, neste clima de desentendimento, seria incapaz de me deitar contigo.

─ Deitaste todos os dias. ─ lembrou.

─ Tu sabes ao que me refiro.

Susana anuiu.

─ Tu mostraste-te sempre insensível, quando... Tu sabes. ─ continuei. ─ Atiraste-me à cara que nunca gostaste de mim. Fazias-me sentir o sacrifício que foram as nossas relações. Não me passaria pela cabeça, fazer sexo contigo, perante um ódio tão grande e tamanho distanciamento, conforme davas a entender das poucas vezes em que tentei, aqui. ─ Respirei fundo. ─ Não quero, Susana! Prefiro ficar “a seco”, como referiste, a usar-te como instrumento sexual.

Ela ouvira-me com atenção. E só com a certeza que eu terminara, se pronunciou:

─ Os meus sentimentos por ti não mudaram! ─ afirmou. ─ Pelos menos, os sentimentos amorosos. Não gosto de ti da mesma forma como tu gostaste de mim. Contudo, a noite de ontem, fez-me deixar de te odiar. Revelaste-me um Ivan Pedro generoso, mesmo para quem o odiava. Isso tocou-me! ─ Esboçou um sorriso. ─ Tal como tu, também eu não faço sexo desde a nossa última vez. Talvez não acredites, mas fui-te fiel. Nem em Lisboa, antes de descobrires a verdade, eu te enganei. Não penses que a cumplicidade com Ambrósio ia para além do acordo que te falei. As intimidades entre nós terminaram muito antes de te conhecer. ─ Parou de falar, ficando a olhar para o vazio. ─ Por vezes, penso no que me fez vir contigo, aceitar ser paga para me passar por tua namorada. Chego sempre à mesma conclusão: Medo. Medo das consequências que o divórcio me iria trazer, se não viesse contigo. Preocupava-me em te odiar, esquecendo-me que foras tu quem me dera a mão, quando precisei. ─ Olhou bem no fundo dos meus olhos. ─ Adorava amar-te! Adorava ser tudo o que desejas de uma mulher. Só que esses sentimentos não se têm com a vontade. E nem eu me considero merecedora de alguém como tu, muito menos depois do que te fiz.

─ Susana...

─ Deixa-me acabar, Ivan! ─ pediu. ─ Sexo contigo nunca foi um sacrifício! Não, não estou a dizer isto para te fazer sentir melhor. É a verdade. És um homem bonito, atraente e amigo. Demonstraste-me isso, antes de nos aproximarmos ao ponto de dormirmos juntos, e voltaste a mostrá-lo ontem. ─ A sua expressão mudou, oferecendo-me um sorriso malicioso. ─ Anda! Vamos saciar-nos da vontade que ambos temos!

Retribui-lhe o sorriso, avançando na direcção aos seus lábios e colando os meus neles. Como tinha saudades de a beijar. Trocámos alguns beijos com sofreguidão, até ela me afastar. Perante o meu olhar, debruçou-se para a frente, ficando apoiada nos joelhos e nos cotovelos, empinando o rabo, lançando o convite.

Ajoelhei-me atrás dela, colocando o preservativo que retirara da gaveta, antes de a penetrar. A sensação do avançar para dentro de si e a pressão das paredes do seu interior, só por si, era quase orgásmica. Coloquei as mãos nas suas ancas e iniciei os movimentos que ela aguardava, fazendo as suas nádegas embaterem na parte inferior da minha barriga. Os movimentos aumentaram, aumentaram, aumentaram... até ela soltar um grito de êxtase e eu libertar toda acumulação que a “secura” provocara.

Nunca o declarámos abertamente, mas, a partir daquela manhã, a nossa relação ficou mais próxima. Eu gostava dela, não sendo amor, talvez uma atracção física e muita paixão. E ela não escondia que não me amava, mas gostava do sexo comigo. Susana não descurava a representação da namorada apaixonada perante terceiros. Porém, em casa, a nossa relação convertera-se numa amizade, partilha de sexo e completo descomprometimento, se alguma parte quisesse começar uma vida nova com outra pessoa. Isto era, aliás, uma frase que repetíamos muitas vezes, um ao outro.

 

Mesmo com o muito frio que se fazia sentir, eu gostava de ir até ao varandim defronte da casa, olhar para a estrada, para a entrada de Paúle e ouvir a natureza. Nessa tarde, o doutor Gervásio saíra da sua casa e viera fazer-me companhia. Aproveitámos para pôr a conversa em dia.

Subitamente, vi o carro de Miguel sair de Paúle e prosseguir pela estrada em direcção a Oliveira do Hospital. O facto era curioso, pois raramente se via Miguel Carrapiço pela aldeia, fora das horas dos treinos. E, por estranho que pareça, só nessa altura tive consciência disso.

─ Doutor! Estava aqui a pensar que, desde que regressei a Paúle, nunca vejo o Miguel por estas bandas.

─ Ele vive em Oliveira! ─ informou o doutor Gervásio.

─ Então, já não vive em Paúle?

O doutor Gervásio abanou, negativamente, a cabeça e explicou:

─ O povo de Paúle conhece a história da moça com quem ele vive a... Como se chama ela?

─ Carla! ─ lembrei. Como me poderia esquecer de tamanha víbora, a qual me traíra anos antes e quase arruinara a vida da minha irmã e da minha sobrinha.

─ Sabem da ligação dela com o seu ex-cunhado.

─ O Rui!

─ Exacto. ─ confirmou. ─ As pessoas não lhe perdoam o que eles tentaram fazer à sua irmã. Ninguém lhe iria atirar pedras, se ela por cá passasse, mas criar-lhe-iam mau ambiente, certamente. Por isso, o Miguel achou por bem mudarem-se para mais longe.

A antipatia que Miguel Carrapiço nutria por mim era sobejamente conhecida, fosse pelos ciúmes que tivera em relação a Raquel, fosse por todo o “veneno” que Carla lhe impingia sobre mim. Esperava sempre que, um dia destes, um deles tentasse algo para me prejudicar, mas até à data...

Segundo o doutor Gervásio, Miguel Carrapiço tinha a seu cargo o bar de alterne do seu pai, nuns terrenos baldios, não muito longe de Oliveira do Hospital. E Carla trabalhava lá com ele. Conhecendo como conheci Carla, julguei logo que não passaria de mais uma alternadeira no local. Porém, a versão do doutor relatava que ela se encarregava da parte de escritório.

─ Não é estar a duvidar de si, doutor. ─ disse eu. ─ Mas, a Carla a trabalhar num escritório é anedótico. Ela é mais burra que os burros!

─ É o que se diz. ─ reafirmou ele. ─ E a rapaziada que costuma lá ir, nunca a viu por lá, a fazer-se aos clientes.

Por muito que me custasse a acreditar, lá aceitei a história.

Nisto tudo, bem me podia dar por satisfeito ao ter ultrapassado o primeiro grande obstáculo do meu regresso ao Grupo Desportivo de Paúle. Miguel Carrapiço e Barnabé eram bastante amigos, usando o primeiro essa amizade para o segundo influenciar o treinador Freitas a deixar-me de lado nas convocatórias. Só que os maus resultados e a ameaça que começava a pairar de “chicotada psicológica” (despedimento da equipa técnica), levaram-nos a ceder nas suas pretensões.

No entanto, o bar de Alfredo Carrapiço era um local muito pouco recomendado. Eu chegara a visitá-lo uma vez com os meus colegas do Paúle, quando vim pela primeira vez para a aldeia. A localização erma e o mau ambiente do interior, repleto de provincianos bêbados e mulheres horrorosas, apertadas em vestidos justos quase a rebentar, rapidamente me motivaram a não voltar. Porém, nessa época, Miguel Carrapiço mal tomava conta do bar.

Neste tempo decorrido, Miguel concentrara-se mais na gerência do local, afastando o seu pai de lá, o qual agradecia, pois a construção civil já lhe dava problemas de sobra. Com poderes plenos para fazer o que queria, sendo que o dinheiro vinha sempre que era preciso, o filho de Alfredo começou a afastar a alternadeiras horrorosas, trocando-as por brasileiras ilegais no nosso país. Isso cativou mais gente ao bar, o que agradou à família Carrapiço.

Alfredo não se preocupava com o que lá se passava, satisfazendo-se com os relatórios do filho. Muitas das brasileiras, se não todas, além da companhia nos copos, iam com os clientes que o desejavam até uma residencial, não muito longe, ter relações sexuais em troca de alguns euros.

Miguel Carrapiço recebia comissão sobre todos estes negócios, sendo o papel de Carla o de gerente das brasileiras. Estas viviam escondidas numa casa não muito longe do bar.

Com o passar do tempo, Miguel descobriu outra forma de ganhar mais dinheiro, o tráfico de droga. E a ideia surgiu numa conversa com Xavier, o qual se associou a ele, em troca dos contactos com alguns traficantes. O bar de alterne transformava-se assim em local de prostituição e tráfico de droga.

Ao que se dizia, havia muita clientela para a droga, vindos principalmente da cidade. Ali de Paúle, que se soubesse, ninguém se metia em drogas, apesar de alguns paúlenses serem visitas assíduas das meninas brasileiras. Somente, Xavier era conhecido como drogado e nem era da aldeia de Paúle.

Saber destas histórias, permitiu-me compreender porque Samuel não falava com Miguel. Tinha conhecimento da sociedade do filho de Alfredo com o seu irmão, contribuindo para a sua continuidade nas teias da droga. E isso era imperdoável.

A gestão destes negócios, por parte de Miguel Carrapiço, apesar do conhecimento de todos, nunca tivera problemas com as autoridades. Esta sua gestão começara meses antes, no Verão do ano anterior, sem que houvesse relatos de alguma rusga ou inspecção ao local. Dizia-se que as autoridades locais tinham um acordo com ele, algum dinheiro todos os meses e os olhos fechavam-se ao que ali se passava. Só que algo fez isso mudar. E curiosamente, o ponto de viragem aconteceu na noite daquele dia em que eu conversava com o doutor Gervásio, véspera de Carnaval.

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