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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XII

Curiosamente, calhou que a chegada de Aquiles a Paúle coincidisse com a partida dos meus pais. A descrição que eu fizera de Aquiles, dando ênfase à sua qualidade de defesa central, criou uma enorme expectativa nas pessoas, relativamente, à sua vinda. Aliás, na aldeia, bastava contar algo a meia dúzia de pessoas para que, em poucos dias, todos soubessem.

Logo pela manhã, bem cedo, fui buscar os meus pais a casa da minha irmã. Ofereci-me para os acompanhar a Carregal do Sal, onde apanharia o comboio com destino a Lisboa. Claro que o comboio não era directo, mas levá-los-ia até ao que ligava Coimbra a Lisboa.

A manhã pintara-se de cinzento claro. Não parecia que a chuva marcasse presença, mas o frio era terrível, trazendo uma temperatura que pouco acima dos zero graus se mantinha. Quase que preferia uma enorme chuva àquela brisa capaz de congelar os ossos.

Susana não me acompanhou nas últimas despedidas aos meus pais. Não que ela não se tivesse disponibilizado para tal. Eu é que decidira assim, tentando afastá-la o mais possível deles, de forma a tentar reverter a afeição que eles lhe devotavam. Justifiquei a sua ausência com uma noite mal passada e mal dormida, tendo ela ficado a repousar na cama, naquela manhã. Claro que os meus pais me repetiram dezenas de vezes para lhe dar um beijo da sua parte, mas eu não tencionava fazê-lo. Ainda para mais porque a minha relação com ela estava numa fase em que poucas palavras trocávamos, tendo chegado à conclusão que a melhor forma de conservar aquela trégua seria evitar o diálogo.

Antes de nos fazermos à estrada, o meu pai não dispensou um último café no estabelecimento da dona Palmira e uma última despedida. Notava-se no semblante de todos a saudade e o lamento pelo seu regresso a Lisboa.

O comboio partiria cerca de meia hora após a nossa chegada à estação. Para fazer tempo, eles sentaram-se num banco de pedra na zona de embarque, ficando eu em pé à sua frente.

─ Ivan! ─ chamou o meu pai. ─ Ainda bem que estamos sós. Queria perguntar-te uma coisa.

─ Diz.

─ A tua relação com aquela moça, a Susana, é séria? ─ indagou.

─ Porquê? ─ interroguei, pensando o que dizer.

─ Ficámos todos surpreendidos com a aliança que lhe ofereceste. ─ explicou a minha mãe. ─ Eu e o teu pai até pensámos que a fosses pedir em casamento.

─ De facto, um anel daqueles só poderia significar isso.

E fora com essa ideia que fora comprado, apesar que quando o ofereci não tinha essa intenção. Contudo, não era altura para lhes contar a verdadeira história. Lancei um sorriso para o ar e respondi:

─ Nada disso! Eu vi aquele anel numa montra em Lisboa. Achei que era a cara dela e comprei-o para lhe oferecer no Natal. Nada mais.

─ Mas, não respondeste à minha pergunta. ─ insistiu o meu pai. ─ É séria, a vossa relação?

Encolhi os ombros, dizendo:

─ Vocês sabem tão bem como eu que as relações podem ser sérias e não dar em nada. Foi o que aconteceu com a Camila.

─ Sim... É verdade! ─ concordou a minha mãe, inconformada.

─ Eu gosto muito da Susana. ─ menti. ─ Convidei-a para me acompanhar. Só agora começámos a viver juntos e a partilhar o dia-a-dia. Não sei se vai resultar. Por enquanto... ─ Interrompi-me com a recordação da real relação que partilhava com Susana.

─ Sim...? ─ disse o meu pai. ─ Por enquanto, o quê?

Os olhos de ambos dirigiam-se para mim, expectantes na resposta.

─ Por enquanto, tudo corre bem. Não se preocupem.

Subitamente, o apito da locomotiva anunciou a chegado do comboio à estação. Dei um par de beijos a cada um e acompanhei-os até à sua carruagem. O meu olhar seguiu o seu trajecto aos lugares.

O comboio partiu pouco depois, tendo eles acenado da sua janela até os perder de vista.

Quando o comprido conjunto de carruagens puxado por uma robusta locomotiva desapareceu após a primeira curva, eu regressei ao meu carro estacionado no largo exterior à estação. Porém, antes de entrar, o meu telemóvel tocou.

─ Ivan Pedro!

─ Sim...

─ Bom dia! Tás bom? É o Aquiles.

─ Olá Aquiles! ─ cumprimentei. ─ Então? Quando vens para Paúle?

─ Estou a caminho. ─ informou. ─ Esperava que me pudesses ajudar a chegar aí.

─ Onde é que estás? ─ perguntei, tentando localizá-lo.

─ À saída da auto-estrada, no IP3, perto de Coimbra. ─ explicou.

─ Estás no bom caminho! ─ afirmei, antes de lhe fornecer o trajecto.

Aquiles estacionara no parque, logo a seguir à portagem do IP3, junto à saída da auto-estrada em Coimbra. Conhecia o percurso até ali, pois costumava fazê-lo quando ia visitar o seu tio Ulisses, dono de um hotel na Figueira da Foz, conforme me contou posteriormente. Indiquei-lhe o caminho, explicando-lhe que ele deveria seguir ao longo daquele itinerário principal até avistar uma placa de desvio para Carregal do Sal. Como não estava muito longe, combinei que me encontraria com ele lá e o traria para Paúle.

Assim fiz, seguindo no meu carro até ao local e parando na berma, aguardando avistar o seu carro, um Smart Forfour Pulse preto de 109 cv. Aquiles chegou uns trinta minutos depois. Reconheceu o meu automóvel e parou atrás de mim. Abraçámo-nos com saudade.

─ Como correu a viagem? ─ perguntei.

─ Bem. Estava com receio que chovesse.

─ Tiveste sorte. ─ disse, olhando o céu. ─ O mesmo não posso eu dizer.

Aquiles olhou para a estrada e indagou:

─ Falta muito para Paúle? É muito longe daqui?

─ Uns vinte e tal quilómetros. Mas, faz-se bem. ─ expliquei. ─ E já pensaste onde vais ficar?

─ Esperava que me pudesses dar uma ajuda, aconselhar-me um hotel.

Recordei-me como fora a minha chegada a Paúle, ficando instalado em Tábua, antes de alugar a casa às portas da aldeia. Naqueles minutos seguintes, contei-lhe resumidamente como tudo acontecera. Aquiles considerou ser uma opção válida e pediu-me para o levar até ao hotel.

Cada um de nós entrou para o seu carro e arrancámos em direcção a Tábua, eu à frente, conduzindo o Mégane, e Aquiles a seguir-me com o seu Smart. O percurso percorreu-se rapidamente, tendo nós parado em frente à fachada do hotel, alguns minutos passados.

O primeiro a conhecer Aquiles foi Joselino. Estava de serviço na recepção do hotel e recebeu com enorme fraternidade o novo reforço do clube. Não foi difícil arranjar-lhe um quarto, apesar de estarmos numa época do ano em que há sempre muitos visitantes.

Ajudando-o a instalar-se, senti-me um pouco na pele de Augusto, quando me auxiliara a mim, naquele dia em que o conheci. Contudo, não o acompanhei na sua primeira visita a Paúle, pois ele ficou no hotel, tendo eu regressado à aldeia. Quem o levou a conhecer a região foi o próprio Joselino, o qual se ofereceu para o levar ao primeiro treino que decorreria ao fim da tarde.

 

A equipa do Grupo Desportivo de Paúle já não se reunia para treinar, desde as vésperas do último jogo do campeonato, estava eu ainda em Alcochete. Fizera-se uma pausa para a época natalícia, agendando-se apenas um treino para a semana antes do Ano Novo. Compromissos de campeonato, só daí a semana e meia. E todos sabíamos que o ritmo de treino diários seria retomado na primeira semana do novo ano.

Reentrar no balneário do Paúle provocou-me uma sensação estranha, de quem regressa a um local de boas memórias, sentindo simultaneamente que não se conseguia libertar de ali estar. Gostava de jogar lá, tinha ali muitos amigos... Porém, para um futebolista profissional como eu, aquele não era o meu objectivo. Pela segunda época consecutiva, estava a jogar na 3ª Divisão. A idade não pára e os anos do auge da carreira começavam a ficar para trás.

Quando cheguei, Aquiles conversava alegremente com todos. Isso deixou-me satisfeito e aliviado pela sua rápida integração no grupo. Cumprimentei todos e sentei-me no meu lugar, preparando-me para me equipar.

Estivera ausente do clube pouco tempo, cerca de seis meses, mas as diferenças da época anterior eram algumas. O facto de não ter José Luís a treinar, estando no seu lugar Freitas e o seu adjunto Barnabé, revelava que a imagem desta equipa técnica nada tinha de comparável ao carisma de José Luís. Também o capitão de equipa era diferente, um lugar que eu ocupara na final da Taça de Portugal e que perdera com a minha desvinculação do clube, fora entregue a Miguel Carrapiço, não por competência, mas por ser filho do presidente. E havia as caras novas que já referi anteriormente, durante o casamento da minha irmã.

Felizmente, o dia cinzento não passou disso mesmo, não havendo chuva para incomodar o treino. Começámos por uma corrida ligeira, em volta do relvado. Todo o plantel agrupado, encabeçados por mim e por Aquiles, visivelmente mais bem preparados fisicamente que os restantes. Sempre que passávamos junto da equipa técnica, Barnabé gritava:

─ Fogça! Fogça! Cogam.

Havia sempre sorrisos, cada vez que o “baixinho” abria a boca.

No entanto, olhando para os técnicos e observando-os com atenção, reparava que era sempre Barnabé quem opinava. Freitas parecia muito conformado e disposto a seguir tudo o que o adjunto dizia. E o tempo mostrar-me-ia que quem realmente dava as ordens era Barnabé.

A maior manifestação disso mesmo, aconteceu em Coimbra, no segundo Domingo do ano seguinte. Era o nosso primeiro jogo após as festas e após o meu regresso.

Os treinos nessa semana foram uma desgraça, se tivermos em consideração a preparação física dos jogadores. O primeiro deles foi mesmo o pior, tendo acontecido no segundo dia do ano com quase todos a denotarem bem o resultado das farras na noite da passagem de ano. Penso que só eu, o Aquiles e o Augusto não nos mostrávamos mais gordos ou cansados. Curiosamente, os únicos que decidiram comemorarem essa noite numa pequena festa na casa da minha irmã.

O autocarro com os convocados para o jogo e restante staff partiu de Paúle, a meio da manhã. O percurso até Coimbra não era grande. O almoço aconteceu num restaurante da cidade, a poucos metros do estádio onde a União de Coimbra costumava efectuar os seus jogos.

O jogo tinha início marcado para as 15h00. Freitas e Barnabé haviam convocado vinte jogadores, o que os obrigava a deixar dois de fora da ficha de jogo. E o que surpreendeu todos foram as escolhas.

No instante em que entrámos no balneário, o senhor Freitas aproximou-se de mim. O seu semblante revelava que não me iria dar boas notícias, mas tentava transmitir-me alguma simpatia.

─ Tu e o Aquiles vão ficar de fora! ─ informou.

Aquiles, a meu lado, conformou-se rapidamente. O facto de ser novo na equipa e ser um jovem comparado com os experientes Reis e Joselino, habituais titulares, levaram-no a aceitar com naturalidade a decisão do técnico, mesmo sendo para o excluir até do banco de suplentes. Contudo, eu não me contentei com essa facilidade.

─ Desculpe lá, mister! Mas, essa não compreendo. ─ disse-lhe, indignado.

─ As decisões do tgeinadog não são para compgendeg. ─ intrometeu-se Barnabé. ─ São para cumpgig!

Fulminei-o com o olhar e ignorei-o nos meus argumentos. Reparei que toda a equipa nos olhava, pois conheciam-me bem e sabiam como era o meu feitio.

─ Lamento, Ivan! Ainda não estás entrosado com os colegas e...

─ Entrosado? Você esquece-se que eu joguei com quase todos a época passada? Acha que não os conheço o suficiente.

─ Ivan Pedgo! ─ chamou Barnabé, em tom de reprimenda.

─ Você, quando quiser dizer o meu nome, faça-o como dever ser! ─ corrigi-o.

Os meus colegas começaram a perceber que a coisa poderia acabar mal e intervieram. Joselino aconselhou-me calma e pediu-me para não prosseguir a discussão, o mesmo acontecendo com Augusto e Reis, entre outros.

─ Tudo bem! ─ exclamei, olhando para os técnicos. ─ Não querem que eu jogue? Vou-me embora.

Saí porta fora, sendo seguido por Aquiles. Tinha mesmo vontade de me ir embora do clube, pois percebera que a minha dispensa daquele jogo se devera a alguma antipatia que Freitas e Barnabé pudessem ter por mim. Eu estava em melhor forma que todos e enquadrava-me dentro do sistema de jogo, o qual não se alterara muito do que José Luís implementara.

Não tinha interesse sequer em ver o jogo. Ponderara regressar sozinho a Paúle, não fosse Aquiles pedir-me para que ficasse e me acalmasse. Acabei por aceder a ir para a bancada ver o jogo. O Paúle perdeu por cinco a um, num jogo em que andaram a ver a União de Coimbra jogar. E notava-se que estavam mal preparados.

Nunca tinha assistido a uma viagem do autocarro do clube com toda a equipa no mais absoluto silêncio. Todos de cabiz baixo, remetidos aos seus próprios pensamentos, talvez tentando adivinhar como teria sido se eu tivesse jogado. Ninguém saberia. O que contava era o facto de ter entrado em campo com o desejo de se aproximarem da frente da classificação e saíram com uma humilhação no resultado.

Tinha a certeza que os técnicos tinham aprendido a lição. Só que eles eram um bocado burros. E na semana seguinte, aconteceu algo pior.

 

A relação com Susana atingira um ponto de estabilidade. Não falávamos um com o outro, para além do estritamente necessário, apesar de continuarmos a dormir juntos. Nunca mais houvera sexo entre nós. E os problemas que se me deparavam, inconscientemente, retiravam-me essa vontade.

Susana mal saia de casa, desde a partida dos meus pais. Apenas me acompanhava em algumas visitas à minha irmã. E isso tornava-se conveniente para ela, pois reduzia-lhe os tempos de representação.

As poucas vezes que estávamos juntos, fora de casa, se alguém o questionasse perguntando se estava tudo bem, eram desvalorizadas com o mau tempo e a fraca vontade dela enfrentar o frio cortante de Paúle, extremamente agressivo aos alfacinhas.

A semana que antecedeu o último jogo da primeira volta do Campeonato Nacional da 3ª Divisão - série C, o qual nos oporia ao primeiro classificado, o Cesarense, foi carregada de chuva com dias de muito frio e intempéries terríveis. Fomos aconselhados pelo jardineiro do clube a evitar os treinos sobre o relvado, sob pena de o inutilizarmos para o jogo de Domingo. A equipa técnica acedeu ao pedido, transferindo as corridas para a mata enlameada e não fazendo qualquer tipo de peladinha.

Sinceramente, Freitas não parecia muito à vontade na tomada de decisões, optando sempre pelo fácil em detrimento do razoável ou obrigatório. Não treinar jogadas de equipa ou fazer pequenos jogos de treino entre os jogadores do plantel não era um bom principio para encarar o jogo que se avizinhava. Recordo-me que José Luís apanhou igualmente um clima péssimo, mas sempre encontrou forma de realizar os treinos que considerava necessários.

No Domingo à tarde, repleto de chuva, o pequeno estádio de Paúle tinha menos de meia casa. O clima húmido e a fraca prestação da equipa afastaram muitos paúlenses do estádio.

Perante a postura de Freitas e Barnabé, não esperava vir a jogar. Não fui titular, mas colocaram-me no banco. Augusto estava comigo, pois tivera uma pequena constipação e o doutor Gervásio recomendara a sua não utilização naquela tarde. Assim, Coelho ocupou o seu lugar na baliza. Miguel Carrapiço, Reis, Joselino e Sassi na defesa. Teodoro, Samuel, Ramalho, Sergei e Castanha no meio-campo. E Preto na linha avançada.

O campo parecia uma horta, antes de começar o jogo, até se transformar quase num pântano com o desenrolar dele. Foi um jogo muito mal jogado, caracterizado por tropeções, faltas, passes errados, etc... No princípio da segunda parte, uma desatenção da nossa defesa deu o golo ao Cesarense.

As dezenas de espectadores desesperava com a situação e gritavam para que Freitas me colocasse a jogar. Por duas vezes, Freitas sugeriu essa hipótese a Barnabé. E em ambas, ele respondeu:

─ Pog enquanto não! A equipa está a jogag bem. Podegia destabelizag o colectivo.

Contudo, a forma de jogar do Paúle não evoluía. Começaram-se a ouvir os primeiros insultos para o banco, gente da terra descontente com tanta inércia de uma equipa que jogava sem saber muito bem o que andava a fazer.

A quinze minutos do fim, lá substituíram o Sergei e eu entrei para o seu lugar. Não havia muito a fazer, para além de me sujar. O campo mal dava para pisar sem recear torcer um pé e fazer uma lesão grave. Entrei num momento em que toda a equipa mal corria, devido ao cansaço. Naqueles quinze minutos, só por uma vez toquei na bola, tendo escorregado, acabando por a perder pela linha lateral.

─ Vai-te embora! ─ gritaram da bancada.

─ Se voltaste para essa merda, mais valia teres ficado onde estavas! ─ ouvia outro reclamar.

Memória curta, a das pessoas. Pelos vistos, já se haviam esquecido dos triunfos que dera ao clube.

─ Só queres é ganhar dinheiro! ─ exclamou outro, perto da linha.

Não liguei a ninguém. No futebol passamos de bestiais a bestas num segundo. Não sei o que esperavam eles de mim, naqueles últimos minutos de jogo.

O árbitro apitou para o final do jogo, o qual foi encarado como um alívio, pois jogar naquele pantanal fora uma tortura. Perdemos o jogo, fomos vaiados e saímos de cabeça baixa e com o olhar na lama.

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