Votos do utilizador: 0 / 5

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

IVAN PEDRO

CAPÍTULO XX

Ao que parecia, o calor dava sinais de ter regressado, naqueles primeiros dias de Maio. Ainda não tínhamos chegado ao Verão, mas a temperatura durante o dia já era elevada. Só à noite é que o clima arrefecia.

Num belo Domingo primaveril, o G. D. Paúle iria deslocar-se a Santa Comba Dão para defrontar a equipa local, naquele que seria o nosso antepenúltimo jogo do campeonato. E era mais um desafio importante, pois estávamos em segundo lugar a defender a posição da ameaça do União de Coimbra, equipa com menos um ponto que nós.

Pelo segundo ano consecutivo, o Paúle fazia história. Desta vez não fora um acontecimento tão mediático como vencer a Taça de Portugal. Contudo, para o clube era a primeira vez que poderia chegar à 2ª Divisão B. E isso era um feito histórico para as gentes daquela aldeia.

Logo a seguir ao almoço, saí de casa e dirigi-me para o estádio de Paúle para me juntar aos meus colegas. Partiríamos dali para Santa Comba Dão num autocarro fretado, algo que era usual fazer, sempre que os jogos se disputavam no terreno do adversário.

Ao sair de casa, tentei saber se Susana estava bem, pois desde manhã que reparara que não andava muito bem-disposta, talvez alguma coisa que tivesse comido que não lhe tivesse feito bem, pois já vomitara. No entanto, o facto de a nossa relação não ser boa fez com que me respondesse com indiferença. Mesmo com a sua postura de “não te interessa”, telefonei a Manuela, a caminho do estádio, para lhe pedir que fosse vê-la.

Rumo ao local da concentração, fiquei a pensar se Camila já teria tomado uma decisão. Não me voltara a contactar, desde a última vez que estivera em Lisboa. E eu sabia que o regresso de Nick estava previsto para o fim do mês, logo, o prazo estava a esgotar-se. Quem também não voltara a dar noticias fora o recém-eleito presidente do Benfica, o senhor Lúcio Velez, para acertarmos os pormenores do meu contrato com o clube. Falara nisso a Jorge e este dissera-me para não me preocupar com isso, pois havia tempo para o fazer.

Todos os convocados se reuniram perto do autocarro, estando já todos lá quando eu cheguei. Pouco depois, chegou a equipa técnica, o doutor Gervásio e Livia. Por último, sem que fosse muito habitual a sua companhia, chegou Alfredo Carrapiço que seguiria connosco. Não pude deixar de reparar no seu semblante carregado, algo que se tornara regra, desde a prisão do filho.

A viagem até Santa Comba Dão não chegava às três dezenas de quilómetros. Uma viagem praticamente em silêncio, havendo apenas um ou dois focos de conversa entre a comitiva. À chegada ao estádio do nosso adversário, um clube classificado no meio da tabela, pude observar alguns dos nossos adeptos. Aliás, houve muitos paulenses a deslocarem-se ao estádio para nos apoiar, pois havia muita esperança que conseguíssemos esse feito histórico de subir à 2ª Divisão B.

Tal como era normal, equipámo-nos no balneário e subimos ao relvado para fazer alguns exercícios de aquecimento, perante o olhar dos poucos espectadores que começavam a chegar às bancadas.

Cerca de vinte a trinta minutos depois, regressámos ao balneário. Ao entrarmos, Alfredo Carrapiço aguardava toda a equipa. Sempre de semblante carregado, pediu a todos que se sentassem e começou a falar:

─ Hoje temos uma boa hipótese de consolidar a boa época que temos vindo a fazer. ─ Freitas e Barnabé ficaram a seu lado e assentiam com a cabeça a cada frase que ele proferia. ─ É já uma grande vitória, tudo o que fizemos esta época. Por isso, não considero importante o facto de subirmos, ou não, de divisão. E é isso mesmo que está em causa, hoje. O Grupo Desportivo de Paúle não tem condições financeiras para jogar numa 2ª Divisão B. Por isso, aquilo que vos peço é que com toda a dignidade que nos têm habituado, façam um bom jogo, mas não o vençam.

─ O quê? ─ interroguei, incrédulo com o que chegava aos meus ouvidos. ─ Terei ouvido bem? Está a pedir para que percamos o jogo?

─ Não há dinheiro para a próxima época, se subirmos. ─ argumentou. ─ Ninguém se dispôs a patrocinar-nos, para além das empresas da engenheira Calheiros. E ela já afirmou que não vai aumentar o orçamento.

─ Foi ela que o mandou pedir-nos para perder? ─ questionei.

─ Não, Ivan! Eu sou o presidente deste clube. Eu é que sei o que é melhor para o clube. ─ disse Alfredo Carrapiço. ─ Também eu gostava de ver o clube a subir de divisão, mas não temos dinheiro para isso.

Barnabé deu um passo à frente e disse:

─ Ó senhog Ivan Pedgo! O senhog é pago paga jogag! Não é paga fazeg a gestão do clube.

─ Eu sou pago para ajudar o clube a ganhar jogos! ─ lembrei. ─ Como não é esse o objectivo, esta tarde, prefiro ficar de fora.

─ Ivan! ─ chamou Joselino. ─ Tem calma!

─ Não vou jogar! ─ acentuei, determinado. ─ Mister! Agradeço que coloque outro no meu lugar.

─ Se não jogages, levas com um pgocesso disciplinag! ─ ameaçou Barnabé.

Contudo, Alfredo Carrapiço puxou-o pelo ombro e pediu-lhe para não se meter. Seguidamente, disse-me:

─ Lamento que não compreendas a situação.

─ Tenho alguma dificuldade em compreender a mediocridade, senhor presidente.

Alfredo Carrapiço, homem visivelmente abatido, encolheu os ombros e conformou-se com a minha opinião. Abandonou o balneário e seguiu para o seu lugar na bancada. Alguns dos meus colegas acharam que eu devia ter sido mais compreensivo. Eu discordei.

A equipa técnica começou a dar instruções aos onze jogadores titulares, enquanto eu me vestia.

O G. D. Paúle perdeu o jogo, uma derrota que não foi mais que um complemento à exibição miserável que fora pedida. No entanto, quis o destino que não perdêssemos o segundo lugar, uma vez que a União de Coimbra também perdera, em casa, com o Cesarense. Com essa vitória, a equipa de Cesar garantia o primeiro lugar.

Penso que poderão imaginar o clima e estado de espírito de toda a comitiva, durante a viagem de regresso a Paúle. E na aldeia, eram muitos os rostos desiludidos. Felizmente, ninguém soubera do pedido de Alfredo Carrapiço, apesar do boato de que a direcção do clube não queria a subida. Aos que perguntaram, a minha ausência foi justificada com uma pequena lesão, após o aquecimento.

 

O Sol já se começava a pôr, quando chegámos a Paúle. Mal o autocarro parara dentro do terreno frontal à sede do G. D. Paúle, fui o primeiro a sair e segui para o meu carro, agastado com tudo o que acontecera nessa tarde. Não falei com ninguém e evitei Augusto e Aquiles que me pediram para aguardar.

Susana não se encontrava em casa, quando lá cheguei. Deparei-me com uma casa desabitada, o que me levou a pensar que Susana pudesse ter partido. Desde que lhe relatara os acontecimentos com Camila, ficara com a sensação que ela partiria a qualquer momento. Como pedira à minha irmã para olhar por ela, decidi telefonar-lhe para saber se Manuela sabia de alguma coisa.

─ Ela está cá em casa! ─ informou-me a minha irmã, quando lhe liguei. ─ Estava a sentir-se mal e eu trouxe-a para aqui. Agora está melhor e vai cá passar a noite. Se quiseres, vem também.

Não senti a mínima vontade de aceitar o convite. Respondi com um:

─ Obrigado, mana! Mas, vou ficar por aqui. Avisa a Susana que eu amanhã vou a Lisboa.

─ É para ela ir aí ter contigo, amanhã?

─ Não! Eu vou sozinho. É só para ela saber.

─ Que vais fazer a Lisboa? ─ indagou Manuela. ─ Vais visitar os pais?

─ Talvez.

Senti um ligeiro silêncio, do outro lado da linha, até ouvir a pergunta:

─ Que andas tu a fazer em Lisboa, Ivan? Para que vais lá tantas vezes? Ainda para mais, sozinho e deixando a tua namorada cá.

─ Depois conto-te. ─ atalhei, desligando o telefone e não dando possibilidade a mais perguntas.

Nessa noite, tentei ligar a Camila para lhe dizer que iria até Lisboa no dia seguinte. Não consegui contactá-la, pois tinha o telemóvel desligado. Acabei por lhe enviar um email com a notícia, pedindo-lhe para que me ligasse ao fim da manhã.

Apesar de toda a insatisfação que sentia pela forma como a minha equipa encarava o futuro, deixando-se perder e aceitando de ânimo leve as justificações de Alfredo Carrapiço, consegui passar uma noite tranquila. Dormi como uma pedra e só o despertador, a alertar para as sete da manhã, me conseguiu despertar.

Ainda não eram 08h00, já eu seguia pela estrada, deixando Paúle para trás, rumo a Lisboa.

Total de Visitas 284431