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IVAN PEDRO

CAPÍTULO XI

A noite da Consoada fora fria como tradicionalmente o era. Ao longo do dia, o Sol espreitara por entre as poucas nuvens no céu sem nunca ser suficientemente forte para aquecer. E o Inverno ainda mal começara, pois os meses seguintes seriam significativamente mais frios. Havia até quem dissesse que a neve iria regressar a Paúle, o que poderia inviabilizar algum dos nossos jogos.

Nessa noite, ficara combinada a reunião familiar para a casa da minha irmã. Iriam estar presentes os meus pais, Manuela, Cibele, Augusto, Maria de Fátima, Teodoro e a dona Palmira, juntando-se assim as duas famílias para o jantar. Aquela era a noite da família. E eu também lá iria estar acompanhado de Susana.

Durante a tarde, andei a passear por Oliveira do Hospital com Susana para comprarmos os presentes de Natal. Em público, ela nunca se distraia da sua personagem de namorada apaixonada, tal como não se esquecia de me lançar algumas palavras amargas, entre dentes. Comprámos presentes para todos, inclusive aquele que Susana me ofereceria com muito amor nessa noite, o qual eu teria de comprar, pois ela não estava preocupada com o assunto.

No caso de Susana, não sabia o que lhe oferecer, nem tive muitas oportunidades de procurar, com ela sempre a meu lado. Decidi que lhe daria como presente a aliança que comprara em Lisboa.

Quando chegámos a casa de Manuela e Augusto, encontrámos um interior acolhedor, como sempre, decorado com motivos natalícios em diversas partes da casa. Eu carregava todos os presentes que trazíamos, enquanto Susana se limitava a acompanhar-me.

A sala comum, uma divisão estruturada em duas secções, uma para estar outra para jantar, brilhava ao sabor das luzes que se espalhavam por uma grande árvore de Natal, arrumada junto à parede, no meio das secções. As luzes do tecto estavam acesas, mas o piscar cadenciado das luzinhas imprimia um toque especial ao ambiente. O pinheiro artificial cobria já um vasto número de embrulhos, aos quais juntei os que carregava comigo.

O meu pai e Susana juntaram-se em amena cavaqueira, falando sobre vários assuntos. Reparara desde o primeiro momento que havia uma certa empatia entre eles. Se Susana estava a representar ou não, era uma incógnita para mim.

Por vezes, a minha mãe juntava-se à conversa, interrompendo logo a seguir para ajudar Manuela, que preparava o jantar, voltando depois. Os meus pais tinham apreciado muito Susana e recebiam-na sempre muito bem.

Por muito que Manuela dissesse que não era necessário, Maria de Fátima e a sua mãe não abdicavam de a ajudar nos preparativos. As quatro atarefavam-se na cozinha, esforçando-se para que não falhasse nada. Até Susana lá fora oferecer os seus préstimos (para minha surpresa), mas Manuela recusou, pois já lá havia gente a mais.

Junto à televisão da sala, Cibele sentara-se no chão sobre umas almofadas a ver os desenhos animados.

Abandonei a sala e segui até às traseiras da casa, local onde existia uma pequena adega. Encontrei Augusto e Teodoro a beber um copinho de vinho e a conversar. Ao verem-me, cumprimentaram-me e convidaram-me a juntar-me a eles.

─ Nos copos? ─ interroguei em jeito de brincadeira.

─ Um aperitivo, antes do jantar. ─ justificou Teodoro.

Augusto deu-me uma palmadinha nas costas e entregou-me um copo pequeno com vinho para eu provar.

─ Já trataste do contrato com o Carrapiço? ─ indagou.

─ Ontem! ─ respondi, dando um golo na bebida. ─ Fui ontem ao clube e assinei o contrato.

─ Já vais poder jogar no próximo jogo?

─ Sim, Teo! Se o treinador assim o decidir.

Ficámos alguns minutos a conversar sobre a equipa, tendo eles partilhado comigo algumas situações ocorridas nos jogos já disputados. Um diálogo interrompido por Manuela que veio chamar todos para o jantar.

A refeição compunha-se de um belo peru assado, repleto de batatas igualmente assadas. Havia também como opção bacalhau com batatas cozidas, mais ao gosto de alguns. Augusto escolhera dois belos vinhos, um tinto e um branco, para ajudar a digerir.

Na mesa, Manuela entregara uma cabeceira da mesa ao meu pai, ficando a oposta para a dona Palmira. Ao lado direito do meu pai sentava-se a minha mãe, Manuela, Cibele e Augusto. E ao lado direito da dona Palmira sentava-se Maria de Fátima, Teodoro, eu e Susana.

─ Então, Susana! Está a gostar do jantar? ─ perguntou o meu pai.

─ Está uma delicia! ─ afirmou ela com um sorriso. ─ Parabéns à cozinheira.

─ Tive uma boa professora. ─ revelou Manuela, olhando para a minha mãe.

A minha mãe sorriu e abanou a cabeça, desvalorizando o elogio.

─ A sua família deve estar com pena de não a ter consigo, este Natal?! ─ disse o meu pai a Susana.

Eu olhei para ela e receei a sua reacção, temendo que ela não soubesse o que dizer ou se atrapalhasse. Contudo, eu também não sabia o que dizer para a ajudar. Só sabia que Susana sempre se recusara a mencionar o que quer que fosse da sua vida privada.

O rosto de Susana entristeceu-se.

─ Não tenho família! ─ exclamou num tom triste. Todos a olharam com atenção e piedade. ─ O meu pai abandonou a minha mãe, quando ela estava grávida. Por sua vez, a minha mãe deve ter achado que eu dava muito trabalho e deixou-me aos cuidados da irmã, bastante mais velha que ela. A minha tia era viúva e nunca tivera filhos. Criou-me com muito amor e fez de mim aquilo que sou hoje. Infelizmente, faleceu há cinco anos.

─ Peço desculpa! ─ pediu o meu pai. ─ Não queria...

─ Não tem importância. ─ respondeu ela, lançando-lhe um sorriso amistoso. ─ Não me sinto só. O Ivan tem sido uma companhia excepcional. ─ Olhou para mim. Notei-lhe a falsidade daqueles olhos verdes. ─ Eu amo-te muito, Ivan!

─ Eu também. ─ respondi-lhe, forçando um sorriso.

A minha mãe ficara tão tocada pela história que lhe disse:

─ A Susana tem família! Pode considerar-nos todos a sua nova família.

E todos concordaram com ela.

Eu fiquei aparvalhado. Não sabia se a história que ela contara era verdadeira ou não. Nada do que saísse da boca de Susana poderia ser aceite sem uma enorme carga de suspeita. E para complicar tudo, via a minha família abrir cada vez mais o seu coração a ela. Senti que estava a construir todos os dias mais um bocadinho de uma bomba que estoiraria a qualquer momento.

─ Quando é que abrimos as prendas? ─ perguntou Cibele, despertando-me dos pensamentos.

─ Amanhã de manhã. ─ respondeu Manuela.

─ Ó mãe...

─ Não me digas que não deixas a criança abrir as prendas à meia-noite? ─ interferi eu. Manuela fulminou-me com o olhar, repreendendo-me por me meter no assunto. ─ Vá lá. ─ insisti. ─ Deixa-a lá abrir as prendas daqui a pouco.

─ Deixa lá, mãe.

Manuela acabou por aceder a que ela ficasse acordada até à meia-noite para abrir as prendas. E Cibele sorriu-me satisfeita, agradecendo ter advogado em seu interesse. A minha irmã não deixou de me recriminar com a expressão do seu rosto, mas mudou de assunto, questionando:

─ Que fazias em Lisboa, Susana?

─ Trabalhava em Relações Públicas no Benfica! ─ contou ela. ─ Foi lá que conheci o Ivan. Lamentável o que lhe fizeram.

Que cabra miserável, pensei. Foi por culpa do ex-marido dela que as coisas tinham corrido daquela forma. E ela fora cúmplice dele. Actriz fenomenal, constatei para os meus botões.

─ E largaste tudo para vir com o Ivan?

─ O que não se faz por amor? ─ retorquiu Susana, abraçando-me o braço e dando-me um beijo na face. Beijo de Judas.

Manuela anuiu com a cabeça e, olhando para mim, disse:

─ Sortudo! Finalmente, uma mulher à tua medida.

Dissera aquilo com o significado de “encontraste uma mulher que te ama e sem as lacunas de Camila”.

Susana protagonizava o papel da namorada perfeita. Espantoso como ninguém desconfiou da realidade, perante uma perfeição tão grande. E teria eu suspeitado, no lugar deles? Talvez não.

Todos se deliciavam com a comida. Eu optara pelo peru assado com batatas para comer e pelo vinho branco para beber. Magnifico seria pouco para descrever o sabor.

─ Estamos a pensar voltar no início da próxima semana. ─ comunicou-me o meu pai.

─ Já? ─ interrogou a dona Palmira. ─ Contava que só regressassem depois do Ano Novo.

─ Tem de ser. Preciso de tratar de alguns assuntos em Lisboa. ─ explicou ele.

Houve alguns lamentos pela partida dos meus pais, pois tinham gostado de os conhecer e afeiçoaram-se à sua presença. A dona Palmira, então, adorava conversar com o meu pai. Perdiam horas a discutir os mais diversos assuntos, desde os temas mais simples aos mais complexos.

Manuela também sentiria muito a falta deles. Para além do amor que lhes nutria, eles tinham sido uma grande ajuda a cuidar de Cibele, desde o casamento.

O jantar decorreu calmamente, onde todos comiam e conversavam sobre isto e aquilo. Os mais faladores eram o meu pai, Manuela e a dona Palmira. Susana recatou-se nos assuntos, evitando expor-se. E os restantes também não a interpelavam muito, receosos de tocar em mais algum assunto melindroso.

Quando a refeição terminou, os homens reuniram-se na sala de estar, arrumando-se pelos sofás. Augusto fizera questão de servir uns whiskeys a todos, excepto ao meu pai que recusara. As mulheres entreajudaram-se na recolha do que ficara na mesa, transportando tudo para a cozinha. Maria de Fátima e Susana ficaram a ajudar Manuela a lavar e secar, enquanto a minha mãe e a dona Palmira foram conversar para a sala de jantar.

─ Em que lugar está o Paúle? ─ perguntei.

─ Em quinto. ─ respondeu Augusto. ─ Este ano as coisas estão a correr bem. Dificilmente, correremos o perigo de descer.

─ E estão a jogar muito bem! ─ afirmou o meu pai.

─ O teu pai foi assistir ao nosso último jogo. ─ disse o meu cunhado.

─ Ainda subimos de divisão. ─ equacionou Teodoro, a gozar.

Mais sério, Augusto deu a sua opinião:

─ Só sobem os dois primeiros! E os três primeiros classificados, neste momento, estão a jogar a um nível muito superior.

─ Quem são? ─ indaguei.

Augusto respondeu:

─ É o Cesarense, o União de Coimbra e... Quem é o outro?

─ Anadia! ─ completou Teodoro. ─ E o quarto é o Valecambrense que tem mais dois pontos que nós.

─ O nosso próximo jogo é com o União de Coimbra, em Coimbra. ─ informou Augusto. ─ E, na semana seguinte, recebemos o Cesarense.

─ Complicado... ─ suspirei.

─ Não me parece que conseguíssemos subir à 2ª Divisão B. ─ continuou Augusto. ─ Mas, se houvesse essa possibilidade, penso que o Carrapiço não queria. Há quem diga que o clube não teria dinheiro para isso. E para acontecer o que aconteceu, esta época, com a UEFA... Não quero ser injusto, mas acho que se nos aproximássemos muito da frente, ele nos pedia para perdermos.

─ Não quero acreditar nisso. ─ disse eu. ─ Então que andamos nós a fazer em campo, se nos pedem para perdermos?

─ Espero estar errado! ─ desejou Augusto. ─ Mas, é o que se diz por aí.

Seguidamente, ficámos todos em silêncio, pensando naquela possibilidade. Fomos despertados dos pensamentos vagos pelas senhoras vindas da cozinha. Susana veio sentar-se a meu lado, dando-me a mão e sorrindo-me para que nada fosse suspeito. Manuela foi falar com Cibele que ficara ao lado da avó, vindo posteriormente sentar-se perto de Augusto. E Maria de Fátima foi para perto da sua mãe e da minha conversar com elas.

A meia-noite chegou. Mal apareceram os quatro zeros no relógio digital, arrumado numa prateleira do armário da sala, Cibele começou a pular e a chamar todos. Eu estava tão confortável no sofá, envolto no ambiente quentinho da sala com a lareira acesa, que ficara ensonado e com pouca vontade de me mexer.

Manuela levantou-se e foi com Cibele para junto dos embrulhos. Coube à criança abrir primeiro todos os seus presentes, não a demorando com os nossos. Augusto também ajudava, perante os olhares enternecidos de todos os outros que ficaram nos sofás.

Foram minutos que valeram pelas expressões de felicidade de Cibele, descobrindo uma após a outra, quase todas as coisas que pedira. Lembrou-me o tempo em que eu tinha a idade dela, quando a nossa mente ainda é um poço de ingenuidade e a quantidade de brinquedos mede a nossa felicidade. Naquele instante, olhando para a minha sobrinha, o melhor presente que eu podia ter era estar ali, junto de todas as pessoas que me eram queridas.

Após uma pilha enorme de papel de embrulho para deitar para o lixo e uma nova colecção de bonecas, entre outros brinquedos, Cibele foi obrigada a despedir-se de todos para ir dormir.

─ Mas, eu queria brincar... ─ suplicava ela.

─ Não, Cibele! ─ recusou Manuela. ─ Já ficaste acordada até tarde para abrir os embrulhos. Amanhã brincas!

Manuela não abdicava da educação de Cibele, repleta de regras e princípios, primando sempre pela boa educação, respeito e amor. E estava correcta, pois a criança bem-educada resulta normalmente num adulto bem formado.

Contrariada, Cibele lá deu dois beijos a cada um, desejando as boas noites. Todos aguardámos que Manuela deitasse a minha sobrinha, não havendo grande pressa na abertura dos presentes.

Novamente junto a nós, Manuela foi a primeira a abrir um presente, uma oferta dos meus pais composta por um faqueiro muito bonito para a casa. Acabava por ser um presente para ela e para Augusto. Vez após vez, todos foram recebendo os seus presentes. Quando recebi o relógio que comprara para mim em nome de Susana, tive que fazer um ar estupidamente surpreso, como se não imaginasse o que vinha no embrulho.

─ Espero que gostes, amor. ─ disse Susana, mantendo o seu papel.

─ Obrigado! ─ agradeci com um sorriso forçado, dando-lhe um beijo nos lábios.

Mais alguns embrulhos foram abertos, ficando quase para o fim o...

─ De Ivan Pedro para Susana! ─ leu a minha irmã que os distribuía, pegando no pequeno pacote.

Susana foi buscá-lo e começou a rasgar o papel que o envolvia. Por muito boa actriz que fosse, não conseguiu esconder o olhar de espanto, vendo a aliança no interior.

─ É lindo Ivan! ─ disse com um tom falso que a todos pareceu encantado.

A surpresa era evidente nos rostos que nos olhavam. Ficaram a pensar que se tratava de um pedido de casamento.

─ É uma aliança! ─ exclamou a minha mãe.

─ Uma aliança de casamento. ─ adicionou o meu pai.

Susana alterou o olhar, encarando-me furiosa, mas esforçando-se para que a “máscara” não caísse. O seu rosto parecia perguntar, o que significava aquilo.

─ Calma! ─ pedi eu. ─ É só um anel. Encontrei-o numa ourivesaria e achei que era a cara da Susana.

─ É muito bonito. ─ concordou a minha irmã.

Susana colocou o anel no dedo. Servia na perfeição. Deu-me um beijo apaixonado, para eles verem, aproximando-se depois do meu ouvido e sussurrando:

─ Não sei qual é a tua ideia com esta merda.

Como sabia que os outros tinham percebido que ela me dissera algo, disse em voz alta:

─ Não sou nada, amor! Tu mereces tudo.

Abriram-se os últimos embrulhos. Susana prosseguia a sua interpretação de namorada apaixonada, mas o seu olhar revelava-me a sua irritação. Mal o último presenteado abriu o seu presente, todos começámos a preparar-nos para regressar a casa.

Despedimo-nos uns dos outros, ganhando coragem para enfrentar o frio do exterior. Só os meus pais, Manuela e Augusto tinham a sorte de não o fazer, pois já estavam em casa. Acabei por dar boleia à dona Palmira, filha e genro, evitando-lhe a caminhada a pé por entre a noite gelada.

Quando arranquei novamente com o carro, após os deixar à porta do café, Susana abandonou a personagem e perguntou furiosa, apontando para a aliança:

─ Que significa esta merda?

─ Essa merda não significa nada.

─ Não me podias ter dado outra coisa? ─ questionou. ─ Agora, todos pensam que vamos casar.

─ Descansa! ─ retorqui. ─ Isso nunca acontecerá.

─ Ai não acontece, não! Deus me livre, se casaria com alguém como tu. ─ desdenhou.

─ Tu só casas com Ambrósios! ─ ripostei.

Circulava pela estrada deserta e escura. Os candeeiros, junto à estrada, pouca luz ofereciam a quem por ali passava. Era possível observar uma ligeira neblina no ar, fruto da temperatura muito baixa.

─ O Ambrósio é muito melhor que tu! ─ afirmou Susana, em resposta.

No interior do automóvel, o ambiente era escuro, fazendo sobressair as luzinhas dos manómetros e do visor do rádio. Olhei-a de relance, mas as suas feições não eram perceptíveis. Contudo, notara-lhe a rispidez com que falava.

─ Vocês estavam bem um para o outro. ─ redargui. ─ Nem percebo porque se divorciaram. ─ Estacionei o Megane no lugar do costume, em frente à minha casa. ─ Mas, confesso-te uma coisa: És uma grande actriz! Então aquela treta da tia que te criou, a coitadinha abandonada pelos pais... Foi demais. Parecias uma novela mexicana.

Susana virou-se para mim com os olhos inundados de raiva. O seu rosto franzia-se e os seus lábios mordiam-se, procurando as palavras certas para responder. A face avermelhara-se com a cólera e os punhos fecharam-se ameaçadoramente. A resposta surgiu num pranto imenso, fazendo-a desabar num mar de lágrimas. Cobriu a face com as palmas das mãos e chorou.

─ Pára lá de representar! ─ ordenei. ─ Fingida do caraças!

Sem parar de chorar, Susana abriu a porta do carro e saiu, dirigindo-se para as escadas, em direcção a casa.

Eu também saí e percorri o mesmo caminho. Senti o ar gelado acertar-me no rosto, incentivando-me a ficar no interior quente do carro. Susana esperava-me no cimo das escadas. Quando cheguei até ela, as suas lágrimas mantinham-se, mas conseguira acalmar-se. Evitou olhar para mim, desprezando-me.

Comecei a ponderar a hipótese de a história ser verdadeira. Por isso, sentindo algum arrependimento pelo que dissera e mudando o tom de voz, perguntei.

─ A história é verdadeira?

Susana não respondeu, ficando a olhar para o vazio. Só se voltou a mexer, no instante em que abri a porta, caminhando apressadamente para o interior.

─ É verdade, Susana? ─ insisti na pergunta.

Enervada como ainda não a tinha visto, ela respondeu:

─ Que te interessa saber? Não tiraste já as tuas conclusões? ─ A voz era trémula e soluçava por entre as palavras, não conseguindo parar de chorar. ─ Tu não sabes nada da minha vida! Não sabes... Não sabes nada!

─ Peço desculpa! ─ disse eu. ─ Mas, as tuas histórias... É difícil acreditar em ti.

─ Então não acredites. ─ retorquiu irada. ─ Não preciso que acredites em nada! Nem tão pouco penses que choro pelo que disseste. Choro pela lembrança do passado. ─ Levou a mão à aliança e retirou-a do dedo. ─ E esta merda, podes enfiá-la pelo cu acima! Não penses que usarei isto. Aliás, continuo sem saber a razão disto.

Com todo o desprezo, atirou a aliança para o chão, na direcção dos meus pés. Eu apanhei-a do chão e disse-lhe:

─ Vais ter de a usar, pelo menos, perto das outras pessoas. Podem desconfiar...

─ Que se fodam as outras pessoas! ─ exclamou. ─ Que te fodas tu!

─ Fala baixo! ─ mandei, temendo que a nossa discussão fosse ouvida na casa do doutor Gervásio.

Completamente fora de si, Susana gritou:

─ VAI-TE FODER!!!!

Perdi totalmente a paciência e corri para ela. Susana percebeu as minhas intenções e tentou fugir. Ainda lhe deitei a mão à roupa, rasgando-lhe a camisa, por baixo do casaco desapertado. Ela escapou para o quarto, mas não teve tempo para fechar a porta, entrando eu de rompante atrás dela.

─ Que vais fazer? ─ perguntou, encarando-me cheia de coragem. ─ Vais bater-me? Anda! Sê homem.

Estávamos frente a frente, olhando um para o outro com o ódio a correr-nos nas veias. Senti-me excitado com aquela cena.

─ Anda cá dizer quem é que se vai foder, puta miserável. ─ vociferei.

─ Puta é a tua mãe! ─ respondeu.

Não suportei o insulto e atirei-me a ela, agarrando-a e empurrando-a contra a parede.

─ Larga-me! ─ exigia Susana. ─ Larga-me, bruto! Animal!

Virei-a de frente para a parede e comprimi-a entre mim e os tijolos. Comecei a desapertar-lhe as calças, dizendo:

─ Vê lá como é que falas da minha mãe.

Sentindo-me desapertar-lhe as calças e puxá-las a baixo, Susana debatia-se para que a soltasse. Usando de toda a minha força, mantive-a bem presa, enquanto baixava as minhas.

─ Grande homem! ─ exclamava ela. ─ Vais violar-me? Vá anda! Não me sentirei pior que das outras vezes.

Já nada que ela pudesse dizer me faria parar. Perdera a conta aos dias de inactividade sexual. E, naquele momento, precisava de o fazer. Conduzi a minha erecção até a sentir tocar-lhe nas cuecas. Subitamente, um raio de lucidez passou pela minha cabeça. Que estou eu a fazer, interroguei-me. Soltei-a bruscamente, fazendo-a cair sobre a cama. Vesti-me novamente e deixei-a sozinha no quarto.

Ficara atónito com a minha atitude. Nunca me tornara tão selvagem, tão bruto como fora com Susana. Os nossos ódios aumentavam mais um bocadinho a cada dia, sem se saber onde iríamos parar. Ainda nos matávamos um ao outro.

Sentei-me no sofá da sala com a cabeça a andar à roda, querendo esquecer que quase a forçara a ter relações sexuais comigo. Que traste era eu? Encostei a cabeça às costas do sofá e fechei os olhos.

Ouvi passos a saírem do quarto. Abri os olhos e vi Susana com outra roupa, aquela que usava para dormir, a passar a porta do quarto em direcção à cozinha. Chamei-a.

Susana entrou na sala. O seu olhar permanecia duro, mas a sua voz denotava uma trégua temporária.

─ Que queres? ─ perguntou.

─ Quero pedir desculpa. ─ disse eu. ─ Desculpa... ─ Encolhi os ombros, sem saber como dizer o que sentia. ─ Desculpa tudo o que te fiz hoje! Desculpa não ter acreditado na tua história! Desculpa, quase ter-te... tu sabes.

Ela permaneceu sem expressão. Após o meu silêncio, interrogou com frieza:

─ É tudo?

─ Só mais uma coisa. ─ continuei. ─ Não precisas de usar a aliança! Se alguém perguntar, diremos que achaste melhor não a usar, pois poderíamos estar a dar um passo maior que a perna.

─ Como queiras... ─ concordou como se fosse irrelevante. ─ É tudo?

─ É.

Susana virou-me as costas e foi para o quarto, deitar-se na cama. Eu permaneci na sala mais alguns minutos, dando tempo para que ela adormecesse, de forma a não nos encararmos mais nessa noite.

A nossa relação era semelhante a um barril de pólvora. Bastava uma faísca e a explosão seria brutal.

No momento em que me deitei na cama e apaguei a luz, Susana não se mexera, o que me levou a crer que já estava a dormir. Eu não tinha sono nem vontade de dormir. Fiquei a olhar para os vultos na escuridão, pensando na vida.

─ Ivan... ─ chamou Susana num sussurro, surpreendendo-me.

─ Sim...

O seu corpo permanecia imóvel. Ainda pensei que ela estivesse a falar a dormir. Porém, ela continuou:

─ Ivan! Se voltares a fazer o que fizeste hoje, eu vou-me embora! Podes pagar-me para fazermos o que combinámos, mas não me pagas para me bateres. Nem eu aceitaria isso.

─ Não voltará a acontecer. ─ sussurrei no mesmo tom que ela. ─ Perdoa-me!

─ Se queres sexo, diz! Não precisas de me obrigar, nem forçar a nada. Temos um acordo, o qual inclui isso. Eu sei as regras e cumpro-as. Mas, se me voltas a bater ou a forçar, eu...

─ Já sei, Susana. ─ interrompi. ─ Não te preocupes.

Susana virou-se na cama, ficando virada para mim. Houve uns segundos de completo silêncio, altura em que ela sussurrou:

─ Queres?

─ O quê?

─ Sexo.

─ Não. ─ recusei, esforçando-me para que o desejo não tomasse conta de mim.

Ela soltou umas risadinhas de gozo e disse:

─ Já não fazes há tanto tempo... De certeza que não queres? Anda! Assim no escuro não percebo que és tu. E tu podes imaginar que eu sou quem tu quiseres.

─ Vai dormir!

Tornou a voltar-se para o outro lado, continuando com as risadas de sarcasmo.

O seu gozo irritava-me. Continuava a sentir aquela vontade de fazer sexo e ela sabia-o. E gozava com isso. Talvez fosse a sua pequena vingança contra mim.

Deitado de barriga para cima, tocava nele e sentia a sua “fome”. Olhava para o tecto, tentando relaxar e atenuar o desejo. Porém, não era fácil. Não era mesmo nada fácil.

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