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IVAN PEDRO

CAPÍTULO X

Dormi como uma pedra. Acordei, sentindo que o sono fora altamente retemperante. No segundo seguinte, surpreendi-me com a presença de Susana a meu lado, dormindo profundamente. Não sei o que esperava, realmente. Se eu próprio lhe dissera que ela deveria portar-se como minha namorada, nada mais natural do que ela dormir na minha cama. A minha casa só tinha um quarto. E esse quarto uma única cama, a qual era de casal. O sofá da sala tinha uma cama de abrir, mas Susana não iria pôr-se à procura, nem dormir no chão. E não seria a primeira vez que dormíamos juntos.

A nossa relação pautava-se por ódio, entre portas. No entanto, era bom que acontecesse o inverso na presença de outras pessoas, senão, pegaria em Susana e recambiava-a para Lisboa no primeiro comboio.

Esbocei um sorriso, vendo-a anichada nos cobertores, protegendo-se do frio. Senti uma enorme ternura pelo seu ar frágil, dormindo sossegadamente. Olhei para a janela. A persiana ficara meia corrida, permitindo o entrar dos raios de Sol de mais uma manhã fria. Alegrei-me por ver o brilho solarengo da primeira manhã daquele Inverno.

Levantei-me da cama e fui tomar um duche quente.

Quando regressei ao quarto, Susana já acordara e estava sentada na cama, compondo a camisa-de-dormir. Devia ter acabado de acordar, pois o seu rosto denunciava um ar ensonado.

─ Bom dia! ─ disse-lhe.

─ Só se for para ti. ─ respondeu amuada.

─ Dormiste bem? ─ indaguei.

─ Que te interessa? ─ retorquiu rispidamente.

Dei alguns passos até ela e inquiri:

─ Será necessária toda essa agressividade?

Susana levantou-se da cama e cambaleou com sono. Passou por mim, lançando-me um olhar de ódio, dizendo:

─ Que queres? Trazes-me para esta merda e... Pediste que me portasse como uma namorada apaixonada, perante outras pessoas! ─ Olhou em redor do quarto. ─ Não vejo aqui ninguém. Por isso, não preciso de fingir. Posso odiar-te à vontade.

Agarrei-a pelo braço e puxei-a para mim. Os nossos olhos desafiaram-se, enquanto as nossas respirações se misturavam. Tentei não me deixar influenciar por a ter tão perto de mim. Retomei o tom duro e disse:

─ Não és só tu a odiar, aqui dentro. Eu também te odeio!

─ Então não sei para que me trouxeste, para que me pagas para estar aqui contigo?!

O seu rosto estava muito próximo do meu. Não resisti e beijei-lhe os lábios. Susana não retribuiu, limitando-se a receber o meu beijo e a aguardar que me afastasse. Quando o fiz, ela olhou-me com desprezo e perguntou:

─ Posso ir? Ou vais querer ir para a cama comigo, agora? Não me esqueci que também me pagas para me foderes.

Larguei-lhe o braço, fulminando-a com um olhar colérico.

─ Podes ir!

Susana fechou-se na casa de banho e, também ela, foi tomar um duche quente.

Retirei algumas roupas de uma das minhas malas. A manhã brilhava com o Sol, mas mal coloquei um pé fora de casa, notei logo a baixa temperatura. Até estranhei que não tivesse nevado. Ainda tinha o Inverno anterior bem vincado na memória, não me deixando esquecer como era rigoroso, nada semelhante com o da capital.

Havia comida em casa. Contudo, achei melhor afastar-me um pouco do apartamento, deixando Susana sozinha, habituando-se à sua nova casa. Assim, optei por um belo pequeno-almoço no café da dona Palmira.

Em passadas calmas, caminhei junto à estrada em direcção ao café. Nem sequer levei o carro, pois sabia-me bem andar por entre aquele ambiente frio. Entrei na aldeia e segui pela estrada principal. Encontrei alguns conhecidos pelo caminho, os quais me chamavam e cumprimentavam-me saudosos. Alguns até já sabiam do meu regresso definitivo para voltar a vestir a camisola do Paúle, felicitavam-me por isso e desejavam-me sorte. Outros, alguns que nem ligavam ao futebol, esboçavam um sorriso e confessavam as suas saudades da minha pessoa. Se eu tivesse alguma duvida, aquela pequenina viagem revelar-me-ia o quanto as pessoas de Paúle gostavam de mim.

Alguns minutos mais tarde, estava a passar a porta do café da dona Palmira. Apenas Augusto se encontrava a trabalhar, mas não tinha clientes para atender. Ao ver-me, saiu detrás do balcão e veio abraçar-me.

─ Olá cunhado! ─ disse ele. ─ Já estava a pensar em passar lá por casa para te ver.

─ Podes lá ir, à mesma.

Augusto voltou para trás do balcão e perguntou-me se queria comer alguma coisa.

─ Um pequeno-almoço ligeiro. ─ respondi.

Com o alto balcão entre nós, vi-o começar a preparar umas torradas.

─ O teu pai, ontem, avisou-nos da tua chegada! ─ iniciou o relato. ─ Estávamos muito apreensivos por ti com aquele temporal.

─ Não foi uma viagem fácil. ─ confessei, sentando-me num dos bancos que contornavam o balcão.

─ Podias ter lá ido. ─ opinou. ─ Desculpa dizer-te isto, Ivan! Mas, pareces-me estranho desde o dia do casamento. Aliás, nem foste capaz de te despedir de ninguém, antes de regressares a Lisboa.

─ Tens razão, Augusto! ─ concordei. ─ Só que estava a sentir que não havia necessidade de ficar cá mais tempo ─ Forcei um sorriso. ─ E tinha alguém à minha espera.

Augusto olhou-me intrigado e questionou:

─ Novo amor?

─ Já andamos há algum tempo. ─ contei, fazendo parecer que vivia uma enorme felicidade. ─ Ela veio comigo.

─ Está lá em casa? ─ perguntou surpreso.

─ Sim. ─ confirmei.

─ Então é sério?

Encolhi os ombros, lançando a dúvida:

─ Quem sabe? Por enquanto, estamos a dar-nos bem.

As torradas ficaram prontas. Pedi um copo de leite simples e natural.

─ E o resto do pessoal? ─ inquiri, mastigando o pão.

─ O Teo está a trabalhar. A minha mãe e a Maria de Fátima foram comprar algumas coisas que faltam cá no café.

─ E os meus pais? Como se têm dado com a aldeia?

─ Lindamente! ─ afirmou com satisfação. ─ Têm estado a adorar a estadia. A tua mãe é que se tem queixado do frio.

Assenti com a cabeça, recordando-me como a minha mãe detestava o frio.

─ Isto está muito calmo. ─ constatei, olhando em redor.

Augusto concordou, justificando:

─ Nesta época de Inverno, o pessoal passa por aqui a caminho do emprego. A meio da manhã, é raro aparecer alguém. Depois, volta a haver muita gente é à hora de almoço. Por falar nisso, espero que elas não se demorem, senão o almoço atrasa-se.

Não fiquei muito mais tempo à conversa, acabando por continuar o meu passeio, logo que acabei de comer. Continuei a descer a rua até ao cruzamento, perto do campo do G. D. Paúle. Não vi ninguém e prossegui a caminhada rumo à casa da minha irmã, do outro lado da aldeia.

Quando cheguei, o meu pai brincava com a neta no jardim, aproveitando ambos o bonito Sol que irradiava uma luz forte, mas nada quente. Indiferentes ao frio, ele tentava ensiná-la a andar de bicicleta. Ao verem-me, largaram tudo e receberam-me com imensa saudade. Entrei em casa com Cibele ao colo e o meu pai a conduzir-me com o seu braço sobre os meus ombros. Seguidamente, foi a minha mãe quem me ofereceu um abraço, fustigando-me com beijos nas faces, como se já não me visse há muitos anos.

Só Manuela não estava em casa. Àquela hora, deveria estar a acompanhar a engenheira Calheiros em algum assunto importante.

Aproveitei o tempo para conversar longamente com eles, relatando-lhes os últimos acontecimentos em Lisboa. O meu pai não conseguia esconder a tristeza pelo fim da “novela” Benfica. Contudo, sabia que o melhor para o meu futuro era sair de lá.

Depois de muito tempo a conversar, ganhei coragem para dizer algo importante. Havia uma informação nova que lhes queria dar, ignorando completamente a sua reacção.

─ A minha namorada veio comigo. ─ disse-lhes. ─ Trouxe-a para viver comigo, aqui em Paúle.

Apesar de nunca me terem dito explicitamente, sabia que os seus corações estavam relutantes em receber uma nova Camila. Custara-lhes muito perder “aquela” nora. E talvez não estivessem preparados para receber uma nova.

─ Quem é ela? ─ perguntou a minha mãe?

─ É aquela rapariga com quem andavas, em Lisboa? ─ interrogou o meu pai.

Confirmei com a cabeça, adicionando:

─ Chama-se Susana.

─ Isso é sério? ─ indagou desconfiado, o meu pai.

─ Não sei... ─ hesitei. ─ Sei ao que se referem com essa pergunta. E isso, eu não sei.

─ Quando é que a conhecemos? ─ quis saber a minha mãe, querendo parecer ansiosa.

─ Vão conhecê-la, brevemente. Só não veio agora comigo porque estava a dormir.

Ambos tentaram mostrar-se satisfeitos por mim, mas... Que querem de alguém que vê ouro e depois lhes dão prata?

Mesmo com as dezenas de insistências para que almoçasse com eles, recusei sempre. Já passara algum tempo fora de casa, o suficiente para retemperar a paciência e enfrentar a antipatia de Susana. Só esperava que ela fosse a excelente actriz que fora comigo, quando eu a desse a conhecer a todos.

Por mais que tentasse, essa preocupação assolou-me o espírito durante todo o trajecto de regresso. Como seria, se ela não cumprisse o acordo? Sei o que lhe faria, porém... Como ficaria a minha imagem perante todas as pessoas?

Cheguei a casa, refazendo o percurso inverso e demorando mais algum tempo, devido a mais algumas pessoas que encontrei, as quais não se coibiam de me oferecer um abraço e desejar felicidades.

Quando entrei, ouvi Susana atarefada na cozinha. Não escondo que me surpreendeu que ela estivesse tão empenhada, fazendo-me lembrar aquela Susana com quem passara o fim-de-semana na Ericeira, a qual se mostrava uma dona-de-casa muito à vontade com todas as tarefas.

Apanhara o cabelo para se mover melhor. Vestia roupas informais, umas calças de ganga e uma camisola, tal como sucedera na Ericeira, e protegia-se com o meu avental. Este ainda era uma peça que ali ficara da estadia anterior. Susana conseguia ser linda de qualquer forma. O meu coração batia mais forte com as recordações de quando não nos odiávamos. Como tudo podia ter sido diferente, pensei. Vê-la, despertava-me toda a paixão que nutria por ela. Contudo, não conseguiria partilhar os momentos íntimos de outrora. Não suportaria uma serviçal sexual no lugar da mulher apaixonada... ou supostamente apaixonada.

 

Tentei adiar o mais que pude, aquele momento em que apresentaria Susana à minha família. Não confiava nela. Receava que ela aguardasse o momento certo para me humilhar e se vingar de mim, só por eu não assinar o contrato com Ambrósio, negando toda a riqueza que ela desejava.

A minha irmã telefonara-me ao fim dessa tarde, já informada das novidades, para que eu fosse jantar lá casa com Susana. Hesitei inicialmente, procurando uma forma de me escapar. Contudo, poderia parecer estranha a recusa, por isso, concordei.

Susana não se manifestara muito, quando lhe comuniquei o convite.

─ Não te esqueças do combinado! ─ avisei.

─ Está descansado, “amor”! ─ disse com sarcasmo.

Já noite serrada, seguimos de carro até ao outro extremo da povoação. Susana não escondia a rosto aborrecido, evitando olhar-me ou atirando-me todo o ódio quando tinha de o fazer. Preparara-se com todo o cuidado e estava lindíssima, muito bem maquilhada, o cabelo solto caído sobre os ombros...

Parámos em frente à casa. Saímos do carro e sentimos novamente o frio intenso do exterior. Antes de entrar, olhei para ela. Susana percebeu os meus receios e sorriu com um sarcasmo ameaçador.

Augusto apareceu à porta, como se adivinhasse a nossa chegada. Susana contornou o carro e caminhou até mim. Interpretando o papel da namorada apaixonada, agarrou o meu braço com carinho e deixou-se conduzir para o interior da casa.

Comecei por a apresentar a ele. Seguiram-se a minha irmã e a minha sobrinha. Susana distribuía sorrisos afáveis, mostrando grande contentamento em os conhecer. Era, de facto, uma grande actriz.

Os meus pais apareceram vindos da sala. Estremeci com receio do que ela poderia dizer ou fazer. Observava todos os seus movimentos, mantendo-me alerta. Apresentei-a ao meu pai e à minha mãe, vendo-a cumprimentá-los com enorme gentileza.

─ Estava ansiosa por os conhecer. ─ disse Susana. ─ O Ivan fala tanto da família e tão bem. Hoje estou a confirmar as pessoas maravilhosas que são e que ele me descreveu.

─ Bondade sua e exagero dele! ─ exclamou o meu pai, encantado.

A minha mãe permanecia mais reservada. Porém, notara-lhe a satisfação quando Susana me abraçou, beijando-me o rosto e dizendo:

─ Percebo agora, onde o Ivan aprendeu a ser tão maravilhoso.

Eu abracei-a com carinho, sendo cúmplice da sua representação.

─ Venham! ─ chamou Manuela. ─ O jantar está a arrefecer.

A minha mãe e Manuela prepararam um belo macarrão para o jantar. Eram ambas muito competentes na cozinha italiana, para além de todos os outros pratos que sabiam fazer.

O jantar decorreu bastante bem, acima até das minhas expectativas. Estive quase sempre calado, envolto no nervosismo e ansiedade a cada gesto de Susana. No entanto, ela foi o centro das atenções, colocando em prática a sua habilidade de relações públicas e conversando com todos, mostrando-se muito simpática e inteligente. Sorria sempre que olhava para os meus pais, encantando-os. Trocava assuntos com Manuela como se fossem amigas de longa data. Estava a fazer um trabalho formidável de representação, o que me criava novo problema.

Eu não tinha noção de como terminaria a relação com Susana, não só porque ela própria me prometera afastar-se à primeira oportunidade, como eu próprio a demitiria das suas funções, chegado o momento. Só que, após aquela noite, notei que ela tocara o coração dos meus pais, o que me afligiu, sabendo que os estava a enganar. Esse facto era irrelevante para Susana. Contudo, para mim, magoá-los era a ultima coisa que desejava. Não queria uma segunda Camila nas suas vidas com o respectivo desgosto.

Após a refeição e um serão agradável, despedimo-nos de todos. Conhecia bem a minha família e sabia que quando estivessem novamente comigo, sozinhos, me diriam o quanto Susana os fascinara. E eu não teria coragem de lhes contar a verdade.

Assim que entrou no carro e a minha família ficou para trás, o rosto de Susana endureceu, recordando-me os sentimentos negativos que nos uniam. Não trocámos uma única sílaba, naquele curto trajecto entre as duas habitações.

Ao entrar em casa, quebrei o silêncio entre nós, dizendo:

─ Parabéns! Foste uma grande actriz.

─ Caso não saibas, costumo ser muito profissional nas minhas funções. ─ retorquiu, amarga.

Desprezando qualquer resposta minha, seguiu para o quarto. Eu percorri o seu caminho e também fui para lá. Cada um do seu lado da cama, começámos a despir-nos para nos deitarmos. Não pude evitar de a observar e sentir saudades de ter aquele corpo nos meus braços e de fazer amor com ela.

Susana ignorava-me completamente. Estar eu ali ou um vaso com plantas era igual para ela. Vestiu a camisa-de-dormir e encobriu-se nos lençóis e cobertores da cama. Eu vesti o pijama e deitei-me do meu lado.

A vontade de fazer sexo era enorme. Aproximei-me dela, por baixo da roupa da cama, e coloquei um braço sobre o seu corpo. Comecei a beijar-lhe a face e a acariciar-lhe a barriga. Susana compreendeu o que eu queria e deixou-se ficar de barriga para cima, aguardando profissionalmente o meu corpo.

A minha boca procurou a sua. Mas, Susana colocou a mão entre elas e disse:

─ Sem beijos!

─ Porquê? ─ questionei.

─ Não queres sexo? Então anda! Não precisas de me beijar para me comeres.

A forma como falava, quase esfriava o meu desejo. No entanto, estava tão carente de sexo que tentei ignorar e prossegui. Puxei-lhe a camisa-de-dormir para cima, acariciando-lhe as pernas e subindo suavemente até aos seios. Coloquei o meu corpo sobre o dela, dando-lhe beijos ternurentos no peito e tacteando a sua pele em múltiplos sítios. Olhei para o seu rosto, procurando uma expressão de prazer, mas encontrei-a a olhar para o tecto, impávida. Susana não se mexia, a menos que lhe pedisse para fazer isto ou aquilo. Cada gesto, cada expressão, cada toque, tudo era feito de maneira a recordar-me que só o fazia porque eu estava a pagar.

A situação era inadmissível para mim. E por muita necessidade que tivesse de sexo, naquela noite, optei por me atirar para o lado e regressar ao meu canto na cama.

─ Já acabaste? ─ perguntou com frieza.

─ Nem comecei. ─ respondi com a mesma frieza, sentindo uma raiva enorme.

─ Então posso ir dormir... patrão?

Lancei-lhe um olhar enraivecido, sentindo-me inundar pela cólera. Apetecia-me bater-lhe, fazer algo que a magoasse, mas...

─ Podes! Vai dormir!

Levantei-me da cama e deixei-a sozinha. Se estivesse em Lisboa, sairia porta fora e iria procurar alguém para uma queca pontual, sem nomes nem nada que nos ligasse, só uma troca de satisfação sexual. No entanto, em Paúle, teria de ir bem longe para que pudesse fazer algo semelhante sem que o assunto fosse notícia nos dias seguintes. E não estava para isso.

Sentei-me numa cadeira e fui ligar o computador. Usaria a navegação na internet para me distrair um pouco e ganhar sono. Como estávamos a três dias do Natal, lembrei-me de enviar um postal electrónico a Camila, a desejar as Boas Festas.

Cinco minutos após o envio, recebi um email de Camila com a mensagem “Obrigado pelo postal! Também te desejo um óptimo Natal! Se estiveres online e quiseres conversar, estou no sítio do costume. Beijinhos.”

Apressei-me a abrir o ICQ, falhando alguns cliques, mas chegando lá. Com o programa a finalizar a iniciação, reparei no nome de Camila a azul nos contactos. Abri uma janela de mensagem e escrevi:

“Olá!”

“Olá!”, apareceu quase de imediato.

“Obrigado pelas Boas Festas!”, agradeci.

“Não foi nada de especial. Desculpa não te mandar um postal, mas não estava com paciência para procurar um bonito.”

“Não faz mal.”, escrevi. Não ligara a esse facto, pois o que contava era a intenção.

“Como estão as coisas por aí?”, perguntou Camila.

“Normais.”

“Soube que os teus pais também foram viver para aí.”

“Não. Vão voltar a Lisboa na próxima semana.”

Houve uma pequena pausa no diálogo. Aguardei e li a mensagem seguinte:

“Perdoa-me a intromissão, mas gostava de te fazer uma pergunta. Os teus pais contaram-me, no casamento da tua irmã, que tu estavas a ter um caso com uma rapariga. É verdade?”

“Engraçado, estares a fazer-me essa pergunta agora. Porque não me perguntaste isso, quando estivemos juntos?”

“Não tem nada de mais. É mera curiosidade.”, escreveu.

Não percebendo muito bem onde queria chegar, digitei a resposta:

“Não lhe chamaria um caso. Era uma amiga colorida. Não te vou mentir. Tínhamos uma relação íntima.”

“Ainda estás com ela? Ela foi contigo?”

“Porquê esse interesse?”, questionei curioso.

“Por nada. Desculpa a pergunta. Não tenho nada com isso.”

“Não tem importância. Sim, ela veio comigo.”

Mais uma vez, a resposta demorou. Apareceu com a seguinte mensagem:

“Fico feliz que tenhas encontrada uma mulher que te ame! E que te possa acompanhar na tua carreira.”

Eu já encontrara a mulher ideal e que me amava, anos antes. E estava a falar com ela. Porém, não iria repetir coisas que Camila sabia de cor.

Sentia-me um pouco desmoralizado, a necessitar de conversar e desabafar. Precisava de falar com alguém acerca daquela situação. Sem o planear, Camila surgiu como a ouvinte ideal.

“As coisas não são bem assim.”, escrevi, deixando adivinhar algo de errado.

“Que se passa? Pressinto que me queres contar alguma coisa. Podes confiar na tua amiga!”

“Eu sei. Mas, isto fica entre nós! Não contes a ninguém, nem ao Eduardo.”, pedi.

“Podes estar descansado.”

Não deixava de ser curioso, estar ali a falar com a mulher que mais amava, sobre a minha vida e a confiar-lhe os meus segredos. Bem vistas as coisas, esse era o meu desejo, poder confiar-lhe tudo, até a minha vida. Teclei com a maior velocidade que consegui, tentando não cometer gralhas, nem erros de português. Escrevia uma a duas frases e enviava para que Camila não pensasse que eu estava ausente. E ela aguardava, lendo e enviando uns “sim”.

Contei-lhe abreviadamente como conhecera Susana e como nos tornámos amigos. Não adiantei pormenores de como a relação subira para o patamar amoroso, limitando-me a referir que tudo acontecera num fim-de-semana passado em conjunto. Omiti os receios que tivera quando decidi regressar a Paúle e, jamais, lhe referiria que tivera a ideia de pedir Susana em casamento. Relatei-lhe como descobrira o plano de Susana, como as suas velhas revistas tinham sido úteis e a confissão dela. Expliquei-lhe que precisava de alguém para cuidar da casa e dos meus assuntos. Justifiquei a encenação com o facto de as pessoas, ali, sabendo-a a viver comigo fariam várias histórias. Assim, pintava o filme como todos gostariam que fosse, apesar de em privado, Susana e eu, mal nos falarmos. Novamente, omiti a parte de que também a contratara para fazer sexo.

“Ao que tu chegaste!”, digitou ela por fim, após a finalização do relato.

“É o que repito a mim mesmo, todos os dias.”

“Não quero ofender-te, mas parece estúpido estares a pagar, quando podes ter qualquer mulher sem desembolsar nada.”

“Não posso ter qualquer mulher! E tu sabes bem.”

“Pedro...”

“Descansa! Não vou voltar a esse assunto.”, teclei de imediato, evitando que ela fugisse com a possibilidade do assunto tabu.

“Como pensas resolver isso?”, indagou, procurando ajudar-me.

“Não sei, Camila! Para já, deixo andar. A minha única preocupação são as ilusões que possa criar aos meus pais.”

Houve mais alguns segundos sem mensagens de ambos os lados, como se estivéssemos os dois a pensar o que dizer. Camila adiantou-se:

“Tenho uma reunião, amanhã cedo! Preciso de ir descansar. Quando quiseres voltar a falar, manda um email.”

“Obrigado, Camila!”

“Não agradeças. É para isso que servem os amigos.”

Despedimo-nos com ofertas de “beijinhos” e terminámos a conversação.

Desliguei tudo, apaguei as luzes e fui para o quarto. Susana dormia profundamente. Deitei-me na minha metade do colchão e fiquei a olhar para o escuro até o sono se apoderar de mim.

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