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IVAN PEDRO

CAPÍTULO I

Ainda hoje não percebo porque me contrataram... ou não quisesse perceber que não fora mais que um peão numa guerra que não era minha.

 

Decorria o mês de Dezembro, véspera da data prevista para a minha irmã dar o nó com o Augusto. A cerimónia estava prevista para a igreja de Paúle, no Sábado de manhã e posterior copo-de-água no café na aldeia com muitos convidados (talvez todo o Paúle).

Desde finais de Julho que não voltara a Paúle. Sempre que me recordava do local, assaltava-me à memória os melhores e piores momentos da minha vida. Contudo recordava-o com saudade.

Enquanto preparava a bagagem para partir de viagem, olhava para a janela e via as gotas de chuva embater com raiva no vidro. Não pude evitar as lembranças do que tinham sido aqueles últimos meses, desde que deixara Paúle.

A vida não fora nada fácil, desde o momento que assinei contrato com o Benfica e viajei para a Suíça, onde encontraria os novos colegas em estágio...

 

O ar fresco que se sentia no interior do aeroporto sabia bastante bem, a quem ali entrava vindo do exterior, em plena tarde de Julho.

Jorge, o meu empresário, acompanhara-me até lá.

─ Com te sentes? ─ perguntou-me Jorge.

─ Vazio. ─ confessei. ─ Sinto-me feliz por ir jogar no Benfica, mas...

─ A Camila continua aí, não é? ─ interrogou, apontando para o meu coração.

─ Que posso eu fazer? É mais forte que eu.

Jorge abanou a cabeça e disse:

─ Esquece-a! O Eduardo esteve com ela em Nova Iorque, a semana passada. Ela deu um rumo à vida dela. Conheceu alguém... Enfim, tu sabes.

─ Não. Diz lá! ─ pedi eu.

Com um tom pesaroso, Jorge contou:

─ A Camila conheceu outra pessoa, um americano. Parece que se dão bastante bem. Vão casar no próximo ano.

─ Que sejam felizes! ─ suspirei.

─ Anima-te, Ivan! Ainda vais conhecer o amor da tua vida.

─ Já conheci, Jorge. Está em Nova Iorque. ─ retorqui. ─ Mas, só me posso culpar a mim. Se tivesse tomado outras opções, há um ano, agora a Camila estava comigo.

─ Mas tu não estarias no Benfica.

─ E não estaria a sentir este vazio.

Os altifalantes do aeroporto anunciaram a última chamada para o meu voo.

─ Boa sorte! ─ desejou-me.

─ Para ti também.

Nesse instante, uma mulher alta, elegante e vestindo um fato saia-casaco bege, aproximou-se de nós e perguntou:

─ Senhor Ivan Pedro?

─ Sim. ─ confirmei.

Não pude deixar de reparar nos seus olhos verdes, o cabelo escuro comprido a cair sobre o casaco. O volume do peito com um crachá que constatei ser o emblema do Benfica.

─ O meu nome é Susana! ─ apresentou-se. ─ Sou Relações Públicas do Sport Lisboa e Benfica! E vou acompanhá-lo na viagem até ao estágio.

Que mulher linda, pensei.

Dei um último abraço a Jorge e sussurrei-lhe ao ouvido:

─ Talvez nem tudo esteja perdido no amor.

Jorge sorriu-me e ficou a ver-nos afastar em direcção à porta de embarque.

Claro que aquela frase era algo que ficava bem dizer naquele momento. É como dizer “esta semana vai sair-me o Totoloto” e até o dizemos com convicção e a acreditar que isso vai acontecer. Neste caso...

Caminhando ao lado dela, olhava-a disfarçadamente pelo canto do olho, tentando adivinhar o que a roupa dela escondia.

Fiquei encantado com os seus olhos verdes.

─ Sr. Ivan Pedro...

─ Por favor, trate-me por Ivan. ─ interrompi.

─ Não seria correcto. ─ argumentou.

─ Então terei de a tratar por Sra. D. Susana, cada vez que lhe dirigir a palavra. ─ argumentei.

Susana não evitou um sorriso, um belo sorriso que me derreteu o coração.

─ Tudo bem... Ivan.

Não sei se seria impressão minha, se seria real, mas notava em Susana algumas parecenças com Camila. Talvez fosse o facto de Camila não me sair da cabeça e procurar em todas as mulheres algo dela.

Susana sentara-se no seu lugar no avião, junto à janela, ficando eu a seu lado. Poucas palavras trocáramos entre o momento em que nos conhecêramos e aquele.

Mantendo sempre uma postura profissional, explicou-me que o voo nos levaria numa viagem de cerca de duas horas até Genebra, onde posteriormente seguiríamos para Nyon, local de estágio de pré-época do Benfica. Depois disso, pegou numa revista e começou a ler, aguardando o passar do tempo e limitando-se a acompanhar-me, quase como se fosse um menor a ser acompanhado por um adulto numa viagem.

Sempre que podia, sem dar nas vistas, olhava-a e imaginava-a... Que rica Relações Públicas, pensava eu, pena não ser uma Relações Sexuais. Deliciava a mente com fantasias de como seria ela na cama e...

─ Senhores passageiros, queiram fazer o favor de apertar os cintos de segurança! ─ alertou a hospedeira pelo altifalante do avião, despertando-me.

Todos os passageiros acataram a ordem.

Os minutos foram passando. O avião circulava por entre as nuvens e Susana continuava compenetrada na leitura. Entediado com a viagem e aborrecido por ela não me ligar nenhuma, lembrei-me de começar a fazer conversa:

─ Então Susana? Já trabalha como Relações Públicas no Benfica há muito tempo?

─ Dois anos. ─ respondeu rapidamente sem tirar os olhos das letras da revista.

De facto, não parecia muito interessada em falar comigo.

As hospedeiras de bordo começaram a passar por entre as filas de cadeiras, perguntando às pessoas se estava tudo bem e se desejavam alguma coisa. Uma delas abeirou-se de nós e perguntou:

─ Vão querer tomar alguma coisa?

─ Pode ser uma cola. ─ pedi.

─ Traga-me um martini, por favor. ─ solicitou Susana.

Feito o pedido, a sua atenção retornou aos textos da revista que lia.

Cada vez mais entediado pela falta de atenção, perguntei:

─ Quanto tempo demora a viagem?

─ Cerca de duas horas. ─ respondeu, novamente sem tirar os olhos da revista.

─ E vai passar o tempo todo a ler? ─ questionei rispidamente.

A pergunta surpreendeu-a e fê-la olhar para mim.

Mal dissera a última palavra, percebi como fora indelicado.

─ Desculpe, Susana! ─ pedi. ─ Fui indelicado consigo. Você tem todo o direito de passar a viagem como bem entender.

Susana sorriu.

─ Peço desculpa. Afinal, a minha função é fazer-lhe companhia.

Correspondi ao sorriso, mas fiquei bloqueado acerca do que haveria de dizer a seguir.

─ As viagens de avião deixam-me sempre nervoso. ─ acabei por dizer, sem que fosse realmente verdade, pois o que me estava a deixar nervoso era ela.

─ Compreendo.

Após guardar a revista, Susana virou-se ligeiramente para mim, no seu lugar, e perguntou:

─ Não costuma viajar muito de avião, pois não?

─ Meia dúzia de vezes. ─ se tanto, pois até aquela altura, acho que tinha entrado duas vezes dentro de um avião.

─ Eu já me habituei. Contudo, nas primeiras vezes, senti muito nervosismo e enjoava. ─ confessou.

─ As primeiras vezes são sempre difíceis. ─ adicionei.

A frase não soou bem a ambos, mas não nos manifestámos. Penso que ela ficou com a ideia que era um gracejo sobre perdas de virgindade. Porém, não fora essa a minha intenção.

─ Calculo que a primeira vez que entrou num estádio cheio ficou nervoso?!

─ É verdade. ─ confirmei. ─ Mais que nervoso. Cheio de medo.

A minha expressão fê-la sorrir, o que mais uma vez me deliciou a alma.

─ Onde jogava antes de vir para o Benfica?

─ No Paúle.

─ Onde??? ─ interrogou como se nunca tivesse ouvido falar em semelhante nome. ─ É algum clube estrangeiro?

─ Não. ─ neguei sem conseguir evitar uma risada. ─ É um clube da 3ª Divisão. Vencemos a Taça de Portugal há dois meses.

─ Perdoe-me a minha ignorância, Ivan. Mas, não percebo muito de futebol.

─ Também não tem de perceber de tudo. ─ disse eu. ─ Foi um feito extraordinário. Pela primeira vez, uma equipa da 3ª Divisão venceu a Taça.

─ Daí o interesse do Benfica.

─ Alguns de nós demos nas vistas. ─ continuei. ─ Uns tiveram mais sorte que outros. O Jorge, o meu empresário, conseguiu-me este contrato no Benfica. Ao que sei, dois colegas meus foram para a Académica. E o nosso treinador acho que está em vias de assinar por uma equipa da Superliga. ─ O meu olhar perdeu-se no vazio em recordações. ─ Desde pequeno que sonho jogar no Benfica.

─ Então foi a concretização de um sonho, este contrato. ─ constatou ela, despertando-me das memórias.

Assenti com a cabeça.

─ A sua família deve ter ficado muito feliz por si. ─ adivinhou.

─ Sim. Os meus pais (principalmente o meu pai) deliraram com a notícia. Já a minha irmã ficou com a felicidade de quem sabe que uma coisa boa acontece ao irmão, pois de futebol percebe tanto como a Susana.

O olhar de Susana teve aquela expressão de “ok, não percebo nada de futebol, já sei”.

─ E a sua mulher?

─ Não sou casado. ─ respondi com um sorriso tremido, tentando evitar a lembrança de todos os desastres na minha vida amorosa. ─ Solteiro e bom rapaz.

─ Mas tem namorada, não? ─ insistiu. Contudo, apercebeu-se que estaria a entrar demasiado no carácter íntimo das perguntas. ─ Desculpe, Ivan! Não quero intrometer-me na sua vida.

─ Não tem importância. ─ respondi com um semblante terno. ─ Sou completamente descomprometido. Não lhe vou dizer que é por opção, mas neste momento... ─ Não sabia como completar. Estava sozinho porque cometera erros graves na minha relação com Camila. Se estava ali, naquele instante, a seguir rumo ao estágio do Benfica, fora à custa desse amor. E com Raquel... Enfim, que posso eu dizer das atitudes que nem eu desculpo a mim mesmo?

─ Sim? ─ interrogou, esperando que eu continuasse.

Olhei para ela e disse:

─ Não me leve a mal, Susana, mas preferia não falar nisso.

─ Tem razão. Sou uma “cusca”.

Sorri-lhe.

─ E a Susana? ─ inquiri.

─ Eu, o quê?

─ Tem namorado?

Notei que a expressão do seu rosto endurecera. Concluí que não deveria querer falar no assunto e não insisti. Contudo, foi ela que acabou por dizer:

─ Casada. Já lá vão uns cinco anos.

Fiquei espantado e isso notou-se nas feições do meu rosto.

─ Porquê o espanto?

─ Casou muito nova?

─ Aos vinte e seis.

O meu espanto foi ainda maior.

─ Sim, é verdade. Tenho trinta e um anos.

Refeito do choque, se é que lhe poderei chamar choque, disse:

─ Parece muito mais nova. Julguei-a mais nova que eu.

Susana presenteou-me novamente com o seu sorriso e agradeceu.

No entanto, não me esquecera da reacção que ela tivera ao dizer “casada”. Curioso, não me escusei a perguntar:

─ Notei uma certa tristeza, quando falou no casamento. Algum problema?

─ Preferia não falar nisso.

Tudo bem. Eu merecia aquela resposta. Também não quis falar da minha vida privada. Não insisti. Preocupei-me em arranjar outro assunto para que aquele reconfortante ambiente de conversa não se findasse por ali.

─ Não é fácil manter um casamento com a vida profissional que eu tenho. ─ desabafou Susana. O seu olhar saíra de mim e passara para o vazio. ─ O primeiro ano foi bom, mas os restantes aumentaram as divergências e as discussões. Como R. P. do Benfica, viajo muitas vezes com a equipa... O meu marido não entende isso e a relação tem vindo a esfriar. Acho que estamos a deixar o ponto das discussões para passar à indiferença. E a indiferença é o princípio do fim do amor, acho eu.

Senti que ela aproveitara a minha disponibilidade para a ouvir e desabafou o que lhe ia na mente. Pensei no que haveria de dizer, mas limitei-me a escutar.

─ Quando regressar a Lisboa, quero ver se tomo uma atitude. A situação actual é prejudicial para ambos. ─ continuou.

─ Que pensa fazer? ─ interroguei por instinto.

Susana olhou para os meus olhos e respondeu:

─ Ele já me deu a entender que quer o divórcio, até porque já nem dormimos juntos... ─ interrompeu-se a si própria, irritou-se consigo e questionou-se ─ Que estou eu para aqui a fazer? Não tenho o direito de o estar a maçar com os meus problemas.

─ Não diga isso, Susana. ─ contrapus. ─ Sinto-me honrado em merecer a confiança dos seus desabafos.

Susana sorriu e o olhar enterneceu-se. Algo naquelas palavras a tocara no seu espírito.

─ É estranho, mas senti uma certa confiança consigo. ─ disse ela. ─ Espero não ter abusado dela.

─ Não.

─ Obrigado por me ouvir. Mas, prefiro não falar mais no assunto.

─ Compreendo.

Pelos altifalantes, soou uma campainha. Seguiu-se a voz da hospedeira a dizer:

─ Senhores passageiros! Estamos a chegar a Genebra. Queiram fazer o favor de voltar a apertar os cintos.

Surpreendido, interroguei:

─ Já chegámos? Como o tempo passa.

O tempo passara bastante depressa e havia algum tempo que não me sentia tão bem perto de alguém.

Mal o avião se imobilizou na zona de desembarque, os passageiros começaram a abandonar os seus lugares.

 

À saída do aeroporto, em Genebra, aguardava-nos um veículo com motorista, alugado pelo clube para me transportar ao estágio.

Susana dirigiu-se ao indivíduo e trocou algumas palavras com ele. Nesse instante, o meu telemóvel tocou.

─ Olá, Ivan!

─ Olá Jorge!

No outro lado da linha, o meu empresário.

─ Já chegaste à Suíça?

─ Acabei de chegar. ─ informei. ─ Não me digas que estás a telefonar-me para saber se cheguei bem?

─ Também. Mas, não só. ─ respondeu. ─ Preciso de um favor teu.

─ Diz.

─ Tens o contacto do teu ex-treinador?

─ O José Luís?

─ Sim.

─ Porquê?

─ Como sabes, o Estoril subiu à Superliga. E os dirigentes querem contratar um novo técnico e falaram-me no nome dele.

─ Mas, acho que ele já assinou por um clube da Superliga. ─ lembrei.

─ Eu vou averiguar isso. A proposta é muito boa, Ivan. Tens o contacto?

─ Tenho. Aponta aí.

Quando desliguei a chamada, Susana aguardava pacientemente à minha frente.

─ Desculpe, Susana! ─ pedi.

─ Não tem importância. Já falei com o motorista. Ele vai levá-lo até Nyon. Não fala português. O Ivan fala francês? Ou alemão?

─ Inglês?

─ Pode ser. Ele também fala inglês.

Desapontado, inquiri:

─ Não me acompanha até lá?

─ Não posso. Tenho que fazer aqui em Genebra. Mas a viagem é curta até lá.

─ Obrigado pela companhia. ─ agradeci.

─ Não tem que agradecer. Não fiz mais que a minha obrigação.

─ Não diga isso assim, Susana. Gostaria de pensar que também foi agradável para si.

─ E foi. ─ confessou com um sorriso tímido.

─ Gostei muito de a conhecer e de conversar consigo, Susana.

─ Eu também. Mas, é melhor despachar-se, pois o senhor está à espera.

Sentia-me como um adolescente. Queria fazer-lhe “aquela” pergunta, mas parecia não ter coragem.

─ Então? Que espera? ─ interrogou ela, apressando-me.

─ Posso voltar a vê-la? ─ perguntei a medo.

─ Não me parece que seja boa ideia. ─ recusou, ceifando as minhas pretensões.

─ Nem que fosse para um jantar e uma conversa?

─ Não, Ivan. ─ recusou novamente. ─ É melhor não, acredite. E além disso, deve concentrar-se naquilo que tem pela frente.

─ É o que estou a fazer. ─ respondi, acentuando o olhar sobre ela.

─ Referia-me ao Benfica. ─ explicou. ─ Não fui mais que a sua companhia numa viagem de avião. Por favor, não se esqueça disso. Boa sorte para a sua carreira!

─ Mas...

Não pude dizer mais nada, limitando-me a vê-la afastar-se na direcção do parque automóvel, onde entraria noutro carro que a levaria ao seu destino.

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