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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO IX

Começava a tornar-se normal, haver dias de chuva forte em pleno Julho. Partira de Paúle após o almoço e, devido à chuva, só perto do jantar cheguei a casa dos meus pais. Curiosamente, quando estacionei, o Sol de fim de tarde começou a despontar por entre as nuvens.

Toquei à campainha e ouvi a voz da minha mãe perguntar:

─ Quem é?

─ Sou eu, mãe.

A porta da escada abriu e eu subi até ao andar onde eles viviam.

A minha mãe, ao ver-me, abraçou-me com saudade.

─ Já estavamos em cuidado. ─ disse.

O meu pai surgiu logo atrás, cumprimentando-me.

─ A chuva atrasou-me. ─ justifiquei. ─ A Manuela já chegou?

─ Tio! ─ ouvi a voz de Cibele, chamar-me.

Abracei-a e peguei-lhe ao colo.

─ A Manuela está no escritório, mas deve chegar antes do jantar. ─ disse o meu pai.

Entrámos em casa e eu sentei-me no sofá da sala. Cibele ficou junto a mim, a brincar com uma barbie, gosto que herdara da mãe e da avó. O meu pai sentou-se na poltrona e a minha mãe regressou à cozinha, onde estava a terminar a confecção do jantar.

─ Como estão a correr as coisas lá em cima? ─ indagou o meu pai.

─ Como te tinha dito da última vez. ─ lembrei. ─ Não é propriamente aquilo que ambicionava, mas pelo menos permite-me continuar a jogar.

─ O Jorge ainda não conseguiu nada?

─ Não! Ninguém me quer para o plantel. O Jorge disse-me para esperar pelo inicio da época. Talvez com alguns bons jogos, ele consiga colocar-me numa equipa da II B.

─ Sentes-te confiante?

─ Sinto-me... nem sei. ─ encolhi os ombros. ─ Achos que podes calcular o que é ser jogador da terceira divisão.

O meu pai assentiu com a cabeça.

Ouvi o som da chave na fechadura da porta, senti-a abrir e ouvi a voz de Manuela. Ao chegar à sala, surpreendeu-se com a minha presença e correu a abraçar-me.

─ Então, maninho? Que fazes por cá?

─ Precisava de falar contigo.

Quando disse isto, o meu pai chamou Cibele e convidou-a a irem brincar para o computador dele, coisa que a minha sobrinha adorava.

Manuela e eu ficámos sozinhos.

─ Que se passa? Podiamos ter falado pelo telefone. Foste fazer esta viagem toda...

─ Soube que o Rui está cá fora e tem estado a ameaçar-te. ─ interrompi.

─ O pai contou-te, não foi?

─ Claro, Mané. Ele está preocupado.

─ Sugeriu-me que fosse para fora com a Cibele. ─ contou. ─ Mas, eu não quero andar fugida. Tenho a minha vida aqui e estou cheia de trabalho.

─ Eu percebo. Mas, pensa na Cibele.

─ Eu penso, Ivan.

─ Vem passar uns dias comigo. ─ convidei.

─ Na parvónia?

─ Não é assim tão mau, acredita.

─ Tenho muito trabalho, maninho! ─ reafirmou. ─ Não posso sair daqui assim.

─ Mete uns dias de férias. ─ sugeri. ─ Os teus sócios não se iam importar.

─ Não sei, Ivan.

─ Passas o Verão lá, comigo. Descansas e aquele ar puro vai fazer-te bem e à Cibele. E, entretanto, pode ser que o Rui se canse e te deixe em paz.

─ Acreditas nisso?

─ Não! ─ confessei. ─ Contudo, enquanto lá estiveres, ele não te chateia. E tu descansas. Vá lá, Mané!

Manuela fez uma pausa, encolheu os ombros e disse:

─ Ok, maninho! Mas só uns dias.

Abracei-a feliz com a sua decisão.

Na manhã seguinte, Manuela foi ao escritório reunir-se com os sócios que viram com agrado as suas férias. Passou algumas pastas aos colegas e regressou a casa ao almoço.

Após a refeição, eu, Manuela e Cibele partimos para Paúle.

 

A noite já tomara conta do horizonte, quando estacionei o carro em frente à minha casa. Manuela e eu resolveramos jantar pelo caminho, o que atrasou substancialmente a chegada.

Cibele dormia profundamente ao meu colo, enquanto eu subia as escadas. Dei a chave à minha irmã para que abrisse a porta e entrámos.

Pedi a Manuela que ficasse alojada no meu quarto, juntamente com Cibele, pois eu não me importava de ficar no sofá-cama da sala.

Estavamos todos tão cansados que não ouve tempo para grandes conversas, tendo elas recolhido para descansar.

Sozinho na sala. Coloquei o pequeno computador sobre a mesa e tratei de fazer uma cama confortável no sofá.

No entanto, não quis ir dormir sem ligar o aparelho e ver se haveria novidades.

Consultei o email e deparei com quatro mensagens novas de Camila.

A primeira era de Segunda à tarde, a relatar que na noite anterior não fora possivel estar online para falar comigo, uma vez que o pai aparecera de surpresa em Nova Iorque. Lembro-me bem do homem viajado que ele é, tão depressa está em Lisboa como viaja até Sidney. Lamentava não termos falado, mas que poderiamos combinar outra oportunidade.

A segunda, do mesmo dia à noite, sugeria que nos encontrassemos no ICQ, por volta das “8:00 PM” ─ Hora de Nova Iorque ─ para conversar.

A terceira era da madrugada de Terça, onde Camila escrevia que ficara à minha espera duas horas e eu não aparecera. E perguntava se estava tudo bem.

A quarta era de Terça à tarde, em que Camila achava que eu ficara tão chateado que não voltara a querer falar com ela.

Após ler a última mensagem, cliquei no reply e respondi-lhe, contando o que se passara. Sugeri a conversa para a noite seguinte, se ela pudesse.

Desliguei tudo e fui dormir.

No dia que se seguiu, levei a familia a passear, até porque precisava de ir às compras.

O primeiro sitio onde fomos, foi logo o estabelecimento do senhor Sebastião Lenin, ali em baixo. Necessitava de algumas coisas para a casa. Depois, levei-as até Oliveira do Hospital, ao hipermercado que lá havia e aproveitei para lhes mostrar alguns locais que já conhecia.

Demorámos tanto tempo nas compras que acabámos por almoçar num restaurante da cidade. Cibele estava a gostar de todos aqueles locais, da paisagem... Já a minha irmã, notava-se que estava completamente deslocada do seu ambiente.

Nesse fim de tarde, honrando o que combinara com o técnico José Luis, apresentei-me para o treino do Paúle. É certo que cheguei um pouco atrasado, mas lá estava.

Antes de entrar no balneário, encontrei-o a tomar umas notas no bloco. Chamou-me e perguntou:

─ Então? Conseguiste resolver as coisas?

─ Mais ou menos.

─ Não quero jogadores a jogar com a cabeça noutro lugar. ─ avisou. ─ Quero jogadores totalmente concentrados.

─ O mister não vai começar com a treta das vedetas, pois não?

─ Treta?

─ Sim. ─ insisti. ─ Eu não sou nenhuma vedeta, mister. Tenho os meus problemas, mas não se preocupe que não costumo levá-los para o relvado.

E entrei no balneário.

Ao entrar, percebi que todos se calaram com a minha entrada. Não havia dúvidas que estavam a falar de algo que não queriam que ouvisse.

─ Algum problema? ─ indaguei.

Uns não responderam, outro encolheram os ombros.

Augusto disse:

─ Então pessoal? Não estávamos a dizer nada de especial.

─ A malta estava a comentar a surpresa de saber que és casado e tens uma filha. ─ informou Abilio.

─ Eu? ─ a estranheza era absoluta. ─ Vocês devem estar a gozar.

Abilio ripostou:

─ O Castanha disse que te viu a passear em Oliveira com uma mulher e uma menina.

─ Pois vi! ─ confirmou o outro.

─ E a minha mãe contou-me que o Lenin lhe disse o mesmo e que estavam ambas a viver contigo. ─ relatou Augusto.

Dei uma gargalhada forte. Naquela terra as noticias corriam depressa, mas distorcidas.

─ Podes dizer a verdade. ─ disse Joselino. ─ Qual é o problema de ser casado e ter uma filha?

─ As pessoas de quem vocês falam, são a minha irmã e a minha sobrinha que vieram passar uns dias comigo.

Norberto riu-se e, virando-se para o grupo, disse:

─ Bem me parecia. Não me parecia que o puto fosse daqueles que casam.

─ O que é que queres dizer com isso? ─ questionei-o.

─ Nada. ─ respondeu com ar embriegado.

Abilio passou por mim e sussurrou-me:

─ Não ligues. O tipo gosta de arranjar problemas.

A equipa seguiu toda em passo de corrida até ao relvado para o treino habitual.

Ramalho seguiu ao meu lado e perguntou:

─ Como está a perna?

─ Está bem.

─ Desculpa lá aquilo. ─ repetiu ele pela milionésiama vez. ─ Não tive int...

─ Eu sei, Ramalho! Não te preocupes com isso.

 

Quando cheguei ao carro, encontrei Raquel encostada a ele, esperando pelo meu regresso. Deixara a mota mesmo em frente ao automóvel e aguardava com um ar irritado.

Aproximei-me com a intesão de lhe dar um beijo na face. Porém, ela afastou-se, evitando-o propositadamente. Calculei que fossem sequelas da minha recusa à oferta que ela me propusera.

─ Que se passa? ─ perguntei.

─ Podias ter-me contado. ─ disse num tom rude.

─ Contado o quê? ─ indaguei atordoado.

─ Tu sabes muito bem.

─ Não, não sei. ─ continuei, respondendo com calma à sua agressividade. ─ Podes esclarecer-me?

─ Então tu és casado com a Camila e tens uma filha dela!

─ O quê? ─ interroguei perplexo. As noticias estavam cada vez mais distorcidas.

─ Contaram-me...

─ Contaram-te mal! ─ cortei em bruscamente. ─ Quem está a viver comigo é a minha irmã e a minha sobrinha! Que merda. Nesta terra as pessoas inventam cada estapafurdice. Bolas.

Raquel ficou a olhar para mim, confusa.

─ Que foi? Não acreditas? ─ perguntei, mantendo a aspereza.

─ Desculpa, Ivan! ─ pediu, mais calma.

─ Tudo bem.

─ Queres ir dar uma volta? ─ convidou ela.

─ Não, Raquel. Vou para casa. Depois falamos.

Entrei dentro do carro e arranquei rumo a casa, deixando-a no local onde a encontrara.

Perto de casa, Manuela telefonou-me. Estava a preparar o jantar, mas faltava-lhe sal. Pediu-me se eu não podia ir comprar, pois o mini-mercado do Lenin já estava fechado.

Àquela hora, só a mercearia do senhor Herculano e da dona Gertrudes se encontrava aberta. Conduzi até Midões e parei junto ao estabelecimento.

Samuel tomava conta do local. Pedi-lhe um pacote de sal e acabámos por ficar alguns minutos a trocar impressões acerca do treino. Uma conversa só interrompida por novo telefonema da minha irmã a perguntar se demorava muito. Despedi-me dele e fiz-me à estrada.

À saida de Midões, junto a uma zona de pinhal, vi ao longe uma rapariga atravessar a estrada, correndo desesperadamente. Antes de chegar ao local, vi um rapaz correr na mesma direcção.

Parei o carro na berma, junto ao sitio onde os vira passar e saí, tentando perceber o que se passava.

Fora do veiculo, ouvi gritos vindos da mata. Gritos de mulher.

Numa atitude não muito sensata, corri em direcção ao som, entrando na penumbra da mata. Como a noite era de Lua cheia, conseguia ver-se relativamente bem.

Após alguns metros de pinheiros, fui desemboacar num descampado. Não vi ninguém.

Novo grito.

Olhei para junto das árvores no outro lado da clareira e vi uma rapariga deitada no chão com um vulto masculino sobre ela. Aproximei-me mais um pouco e ouvi o som de roupa a rasgar.

─ Hei! Tu aí! ─ chamei, não parando de me aproximar.

─ Desaparece daqui, palhaço. ─ respondeu o individuo.

─ Larga a miuda! ─ ordenei.

O individuo levantou-se. Tinha as calças abertas e pareceu-me ver a sombra de algo a sair delas. Sem hesitação, puxou de uma navalha do bolso do casaco.

─ Desaparece, animal! Já disse. ─ continuou.

Olhei para a rapariga e reconheci-a. No chão estava Dália com o peito a aparecer por entre uma camisola completamente rasgada.

─ Ajuda-me! ─ suplicou.

─ Cala-te, puta! ─ mandou o tipo, dando-lhe um pontapé.

O rosto dele parecia-me familiar e a sua identificação confirmou-se quando ela disse:

─ És um cabrão, Xavier!

─ Desaparece daqui! ─ tornou ele a exigir. ─ Isto não é nada contigo.

Dália aproveitou a desatenção dele para se levantar e correr para junto de mim.

─ Desaparece tu! ─ disse-lhe.

Vendo que os seus intentos estavam comprometidos, Xavier guardou a navalha e desapareceu por entre os pinheiros.

Eu olhei para Dália e disse-lhe:

─ Anda, eu levo-te a casa.

Dália limitou-se a acompanhar-me até ao carro.

Fizemos o percurso até casa dela sem trocar uma palavra.

Quando a deixei à porta de casa, Dália olhou-me e agradeceu a ajuda que lhe tinha prestado.

─ Não precisas de agradecer. ─ disse-lhe.

─ Gostava de falar contigo, noutra altura. ─ pediu. ─ Precisamos de falar do que aconteceu entre nós lá no bar.

─ Quando quiseres. ─ aceitei.

─ Reparei que havia um certo clima... uma relutância em falares comigo, quando nos vimos aqui no Paúle.

─ Não é bem isso...

─ Eu sei que foi. ─ atalhou ela. ─ Eu sei o que as pessoas falam de mim.

O som da porta de casa a abrir, interrompeu o diálogo. Vi o Norberto a sair para averiguar o que se passava.

─ Depois falamos melhor. ─ rematou ela rapidamente.

Norberto aproximou-se e perguntou-lhe o que se passara.

─ Um tipo tentou violar-me. ─ informou friamente.

─ Quem? ─ interrogou rudemente Norberto, mais preocupado com a identidade do individuo que com o estado da filha.

─ Não vi quem era. O senhor Ivan Pedro é que me salvou.

Norberto olhou para mim. Julguei que me ia agradecer, mas em vez disso questionou:

─ Não sabes quem foi? Não viste o gajo?

─ Não. ─ respondi, percebendo que Dália não queria revelá-lo.

O dois viraram-me as costas e recolheram ao interior da casa.

 

Tanto Manuela como Cibele dormiam. Eu ficara na sala a navegar pelo computador, fazendo tempo até à hora combinada com Camila.

Cliquei no icon com o simbolo do ICQ e o programa abriu. Uma vez online, reparei que Camila permanecia off. Continuei a navegar.

Passados alguns minutos, fez-se ouvir o som caracteristico de chegada de mensagem. Um botão no rodapé começou a piscar e eu clique sobre ele. Uma nova janela se abriu com a mensagem de Camila.

─ Olá! ─ apareceu no ecrã.

─ Olá! ─ escrevi.

Segundos depois, Camila escreveu:

─ Desculpa não ter comparecido no Domingo.

─ Tudo bem.

─ Como estás?

─ Mais ou menos. Tenho saudades tuas.

─ Eu também.

Pensei um pouco sobre o que havia de escrever a seguir. Optei por:

─ Ainda gostas de mim?

A resposta demorou um pouco. Veio um:

─ Sabes que sim.

─ Ainda me amas?

Nova espera.

─ Não vamos começar a falar na nossa relação, Pedro. Por favor. ─ Uma outra mensagem sua se seguiu. ─ Ambos tomámos as nossas decisões. O que está feito, está feito!

─ Isso não responde à minha pergunta, mas tudo bem. Eu não tenho problemas em dizer que te amo.

─ Se queres enverdar por esse assunto, acho melhor terminarmos aqui. ─ ripostou ela.

─ Não. ─ acatei eu. ─ Não vamos falar nisso. Como estão as coisas por aí?

─ Está tudo bem. Os meus colegas receberam-me muito bem. Somos uma equipa fantástica. ─ Novo som, nova mensagem. ─ E por aí? Como tem corrido os jogos?

─ Só fizemos um de preparação. ─ respondi. ─ O campeonato só começa daqui a cerca de um mês.

─ Ganharam?

─ Sim.

Não, não te vou dizer que me lesionei e, por momentos, quase tudo fora em vão.

─ Então? Não dizes nada?

Não, disse para mim. Não queres falar do mesmo que eu. Acabei por escrever:

─ Não sei que dizer.

─ Conta-me como está a tua irmã. Como resolveram aquele problema?

─ A Manuela e a minha sobrinha vieram passar uns dias comigo.

─ Espera um pouco! ─ apareceu na mensagem seguinte.

Aguardei alguns segundos. Estes tornaram-se em minutos. Escrevi:

─ Ainda estás aí?

Nada.

Ao fim de quase uma hora, já eu navegava pela net e perto de desligar tudo, veio outra mensagem:

─ Desculpa! Fui atender o telefone. Só desliguei agora.

─ Podias ter avisado.

─ Eu sei, desculpa! Fiquei a conversar e perdi-me no tempo.

Não era dificil perceber que a minha importância perante ela parecia ter-se desvanecido.

─ Já é tarde. ─ escrevi. ─ É melhor continuarmos a falar amanhã.

Camila respondeu:

─ Amanhã vou partir para a Flórida! Temos que preparar um desfile para este fim-de-semana. Vai dando notícias.

─ Ok. Beijos.

─ Beijos.

E rapidamente passou a offline.

Fiquei com a sensação de que ela estivera à conversa comigo, apenas por consideração ao que partilháramos. Parecia estar tudo definitivamente terminado entre nós. Possivelmente, já encontrara alguém em Nova Iorque, alguém que a amasse como merecia e não a trocasse por um rectângulo relvado cheio de homens a correr de um lado para o outro atrás de uma bola. Talvez fossem só conjecturas da minha cabeça. Continuava a amá-la como no primeiro dia. E cada vez mais, duvidava da escolha que fizera.

Porém, estava feito e não havia como mudá-lo. Desliguei tudo e fui dormir.

 

Se para mim o amor não era mais que uma flor seca, apodrecida num jardim arrasado pelo calor. Para outro, o amor florescia inesperadamente...

Augusto aparecera em minha casa, logo após o almoço, para uma visita. Apresentei-o a Manuela e, logo nesse instante, senti que os seus olhares se perderam um no outro. Augusto não disfarçou o fascinio ao vê-la, como se a minha irmã fosse a deusa dos seus sonhos.

No entanto, Manuela não correspondeu ao fascinio, mantendo uma postura distante. Bem sei como a minha irmã é no que respeita a emoções e a transmiti-las. Se calhar, era isso que a fazia a excelente advogada que era, a frieza a aparente falta de sentimentos, o calculismo...

Convidei Augusto para se sentar à conversa comigo.

Ele aceitou com os olhos a seguir os movimentos de Manuela, a afastar-se em direcção ao quarto, onde Cibele brincava.

─ A tua irmã é linda! ─ disse com um semblante encantado. Contudo, como que subitamente despertado, emendou. ─ É uma mulher muito bonita! Desculpa, Ivan, não quis faltar ao respeito.

─ Tudo bem, Augusto.

Cibele apareceu na sala e eu apresentei-os. A minha sobrinha acenou-lhe e voltou para o quarto.

─ O teu cunhado também cá está? ─ indagou Augusto.

─ Não. A minha irmã está divorciada.

─ Não correu bem?! ─ disse ele, esperando que completasse a história.

Eu respondi vagamente:

─ Nem todos correm.

Durante muito tempo, ficámos a conversar na sala, sobre diversos assuntos. Passávamos de uns temas para os outros, quase sem dar por isso, até chegarmos á conclusão que ambos gostávamos de pescar.

─ Podiamos combinar e ir à pesca. ─ sugeriu.

─ Agora com a minha irmã e a minha sobrinha cá...

─ Podiam ir também.

─ Se elas quiserem, combinamos.

─ Que tal amanhã?

─ Vou falar com elas e logo, no treino, digo-te.

Augusto lembrou-se que ainda tinha de ir a Tábua tratar de um assunto do café. Despedimo-nos e ele lá foi.

Após conversar com Manuela, ela concordou em ir connosco.

Antes do treino, para felicidade de Augusto, combinámos a pescaria para a tarde seguinte.

Pescar é uma actividade fascinante, permitindo-nos disfrutar da natureza e conseguir alguma paz de espirito para pensar.

Augusto levara-nos até ao rio, a alguns quilometros de Paúle, um local que ele conhecia bem e onde costumava pescar desde pequeno. As margens tinham uns pequenos pontões em pedra, o que nos permitia sentar nas pontas e lançar o anzol mais perto do centro da corrente.

Com uma cana que Augusto me emprestara, fiquei na extremidade de um dos pontões, ficando ele no seguinte. Manuela preferira o conforto de estar deitada numa toalha estendida sobre a relva, enquanto Cibele corria perto dela e brincava sozinha.

Os peixes deviam ter combinado entre si evitar o anzol, pois já ali estávamos havia hora e meia sem que sentissemos o minimo sinal da presa.

A minha mente estava longe dali, muito longe mesmo. Se o isco fosse mordido por um tubarão, eu nem daria por isso. Mas, ali também não havia tubarões... aliás, acho que não havia nada.

Recordava os momentos felizes que vivera com Camila. Talvez fosse a forma que eu arranjara para manter viva a nossa relação, mesmo sabendo que para Camila essa relação deixara de existir. Sei que a culpa fora minha, mas... Porque é que não podemos ter aquilo que queremos? Porque é que a vida tem de ser feita de opções? Qual é o mal de se ter tudo?

Não queria conformar-me com a ideia de que Camila não era um amor, mas sim o amor. E eu desperdiçara-o.

Ouvi a voz de Augusto dizer:

─ Não vás para aí.

E vi Cibele em cima do pontão.

─ Sai daí, Cibele! ─ ordenei eu.

Manuela sentara-se na toalha e começou a chamá-la para que fosse para junto dela.

Tinha a certeza que nunca encontraria ninguém como Camila.

Ouvi algo cair na água com estrondo, seguindo-se o grito apavorado da minha irmã:

─ CIBELE!!!

Vire-me para lá e vi que a minha sobrinha tinha caido à água.

Augusto largou a cana e atirou-se ao rio.

A minha irmã estava em pânico na margem, sem saber o que fazer, pois não sabia nadar.

Larguei a cana e saltei para a água.

Por baixo de água, a visibilidade era quase nula, tudo muito escuro e extremamente perigoso. Voltei à superficie e nem sinal de ambos. Inspirei fundo e voltei a mergulhar. Procurei o máximo que pude, sustendo a respiração. Senti que havia ramos soltos e muito lixo no fundo daquela zona menos profunda. Aguentei o mais que pude, mas não a consegui encontrar. Nadei de volta á superficie.

─ Graças a Deus! ─ ouvi a minha irmã dizer.

Olhei para a margem e vi-a abraçada a Cibele que fora resgatada por Augusto. Nadei até lá e abracei ambas, certificando-me de que estavam bem. Cibele tinha apenas uns arranhões.

Tanto eu como Manuela nos multiplicámos em agradecimentos. Porém, Augusto achava que não tinha feito nada de especial e que tivera somente sorte em a encontrar primeiro.

Nessa noite, Augusto jantara connosco lá em casa. Fora a maneira encontrada para lhe agradecer, contudo muito longe de ser suficiente.

Após o jantar, e depois de Manuela colocar a filha a dormir, ficámos os três a conversar alegremente na sala. Percebi que Manuela o olhava de forma diferente, como se os acontecimentos da tarde tivessem modificado algo em si. Já Augusto mantinha o mesmo ar encantado cada vez que lhe dirigia o olhar.

O som da campainha interrompeu a conversa.

─ Deixem-se estar que eu vou abrir. ─ ofereci-me.

Caminhei até à porta e abri-a para ver quem era. Do outro lado da porta, apareceu Dália com aquele aspecto de camponesa do interior.

─ Dália?

─ Precisava de conversar contigo. ─ pediu.

─ Diz.

─ Aqui não. ─ recusou. ─ Podemos ir a qualquer lado, longe daqui? Digamos que não é muito bom para a tua imagem, verem-te a conversar comigo.

─ Não costumo ligar a essas coisas.

─ Vai por mim, Ivan. Não queiras...

─ Tudo bem. Onde?

Dália olhou em redor, certificando-se que ninguém ouvia. Seguidamente, sugeriu:

─ Conheces aquele cruzamento, na estrada para Oliveira do Hospital? Aquele a cerca de um quilometro daqui?

─ Sim...

─ Encontramo-nos lá, dentro de meia hora, ok?

─ Combinado.

Mal concordara, Dália afastou-se apressadamente.

Regressei ao interior.

─ Quem era? ─ perguntou a minha irmã.

─ Nada de importante. ─ disse, seguindo para o quarto.

Fui buscar a carteira, o telemóvel e um casaco.

Ao voltar, avisei-os de que ia sair.

─ Então, é melhor eu ir andando. ─ constatou Augusto.

─ Não. Fica mais um pouco. ─ pediu Manuela.

─ Deixa-te ficar. ─ autorizei eu. ─ Ficas a fazer-lhe companhia. Eu já volto.

Augusto concordou, disfarçando o facto de ser mesmo essa a sua vontade.

Saí de casa e entrei no carro, arrancando para o lugar combinado.

O cruzamento era um lugar ermo, muito escuro, apenas com uma casa ali perto. Esperei alguns minutos, pacientemente.

Dália apareceu com um visual que nada tinha a ver com o anterior, readquirindo aquela linha que envergara quando a conheci no bar, roupas provocantes e sedutoras. Isso levou-me a pensar que a sua ideia fosse engatar-me para repetirmos a cena de sexo.

Ela entrou no carro.

─ Podemos ir até Oliveira do Hospital? Conversamos e, depois, podes deixar-me lá.

─ Donde é que sugiste? ─ perguntei, confuso.

─ Os meus avós vivem naquela casa. Costumo cuidar deles, ver se precisam de alguma coisa... E costumo usar a casa para mudar de roupa, sem que o meu pai saiba. E a esta hora já eles estão a dormir.

─ Posso saber o que queres conversar comigo?

─ Não te agradeci, devidamente, por me teres ajudado no outro dia. O meu pai apareceu... Achei que podiamos conversar um pouco, se não te importares.

Cada vez mais, tinha a certeza que ela queria repetir a dose. E, mesmo tendo jurado a mim mesmo, que não faria sexo só pelo sexo, percebi que me saberia bem fazê-lo.

Em Oliveira do Hospital, estacionei num parque isolado, longe de qualquer transeute que por ali andasse. O lugar fora sugestão de Dália, pois queria evitar que nos vissem juntos. E tendo em conta a fama que ela tinha, podia sentir-me satisfeito por ninguém nos ver.

─ Lembras-te que te disse que queria falar contigo, quando me levaste a casa? ─ começou.

─ Sim.

─ Quero esclarecer o que se passou entre nós, lá no bar.

─ Não precisas de te justificar. ─ disse.

─ Não. Não me estou a justificar. ─ contrapôs. ─ Mas sei o que as pessoas dizem de mim. Calculo, o que te devem ter contado a meu respeito.

Não me manifestei, mas lembrei-me das histórias contadas no café.

─ As pessoas dizem que sou uma puta. Os homens gabam-se de terem ido comigo, mesmo que a verdade seja diferente.

─ E qual é a verdade? ─ questionei.

─ Se te contasse, não acreditavas! E se acreditasses, tinhas de me prometer que não contarias a ninguém.

─ Testa-me. ─ desafiei.

─ Que te leva a pensar que és merecedor dessa confiança?

─ Se não achasses que eu era, não tinhas pedido esta conversa.

─ Astuto.

─ Já me chamaram coisas piores. ─ disse, fazendo-a soltar um riso nervoso.

Dália puxou de um cigarro e perguntou:

─ Importaste que fume?

─ Importo.

─ E se abrir a janela?

─ Está bem, fuma lá.

Dália acendeu o cigarro. Inspirou calmamente o fumo, sentindo-lhe o sabor e explliu-o para a rua.

─ Gosto de ir para o engate à noite. ─ confessou. ─ Não tenho a culpa de gostar de sexo e de um fazer com quem me apetece. Se fosse homem era um heroi, mas como sou mulher, acham-me puta. Olha, nunca levei dinheiro a ninguém.

Nova bafurada no cigarro.

─ As pessoas dizem que sou uma desgraçadinha, que o meu pai é um bêbado que dava porrada na minha mãe... Não sei se estás preparado para ouvir isto!

─ Conta lá! ─ insisti. ─ Agora que começaste...

Mais uma vez o cigarro foi à boca e novamente o fumo lá para fora.

─ Sabes que a minha mãe se matou?

Acenei afirmativamente com a cabeça.

─ As pessoas dizem que era porque o meu pai lhe batia.

─ E não foi? ─ interroguei, adivinhando a resposta negativa.

─ Não, Ivan! Desde criança que o meu pai abusa de mim. Quando a minha mãe descobriu, em vez de me ajudar, achou que o melhor era pôr uma corda à volta do pescoço. Aí tens a razão.

─ E tu? Não contaste a mais ninguém?

─ Não podes imaginar, o que é passar por isto. Chegamos a uma altura em que nos rendemos à situação e tentamos que ela nos afecte o menos possivel. Acho que a forma que arranjei, de me vingar da submissão a que ele me sujeita, foi seduzir outros homens e controlar o sexo que faço com eles.

─ Ele ainda...

─ Não...

─ Porque é que não fizeste queixa dele à policia?

─ Achas que acreditariam em mim, agora? ─ questionou. ─ Ainda me acusavam de seduzir o meu próprio pai.

Dália deu uma última bafurada no cigarro e atirou-o pela janela. Pegou na pequena malinha e disse:

─ Vou andando. Ainda quero ir divertir-me um pouco.

E com aquelas palavras, abriu a porta e afastou-se do local.

Liguei a ignição do carro e conduzi pelas ruas desertas da cidade.

O relógio do Megane marcava quase 4h30, quando estacionei junto a casa. Tudo estava silencioso e calmo, sentindo-se o vento soprar mansamente pelas redondezas. Tentei não fazer muito barulho, mas não consegui evitar o ruido das solas a embate no chão.

Entrei em casa. Tudo escuro e sem se ouvir nada. Tanto a minha irmã como a minha sobrinha estavam a dormir, já havia algum tempo.

Também eu começara a sentir as pálpebras pesadas, por isso, apressei-me a arranjar o sofá-cama e a ir dormir.

A voz da minha irmã acordou-me na manhã seguinte. Mal abrira os olhos e, rapidamente, me veio à memória que havia jogo naquele dia.

─ Toca a levantar, dorminhoco.

Levantei-me do sofá e fui tomar um duche fresco.

Manuela preparara um almoço delicioso. Desde que estava ali comigo, as minhas refeições passaram a ser bastante mais saborosas.

─ Vais ver o jogo? ─ perguntei-lhe, durante o almoço.

─ Não é que tenha grande interesse.

─ Anda lá, mãe. ─ pediu Cibele.

─ Só vou para te ver jogar, maninho. Sabes como acho o futebol uma estupidez.

─ Está bem, mana. Vai, então, para me ver.

─ A que horas é?

─ Lá para as cinco da tarde. ─ informei. ─ Ontem ainda ficaram muito tempo a conversar?

─ Quem?

─ “Quem?” Tu e o Augusto.

─ Ficámos mais um pouco. ─ relatou. ─ Ele é uma excelente companhia.

─ Estou a ver...

─ Não comeces com ideias, Ivan! ─ avisou, zangada.

─ Bem vejo como ele te olha.

Manuela levantou-se da mesa e argumentou:

─ Imaginação tua.

─ E tu também...

─ Ivan Pedro, para com isso!

Parecia a minha mãe a falar. Quando se irritava comigo, falava-me como se fosse minha mãe e tivessemos muitos mais anos de diferença.

─ O Augusto é um bom conversador. ─ continuou.

─ Pois, pois...

Uma hora antes do inicio do jogo, cheguei eu ao recinto, altura em que começaram a chegar igualmente alguns colegas de equipa.

Logo à porta, depois de passar os portões, estava o autocarro do Oliveira do Hospital, clube que iriamos defrontar nessa tarde.

Muitos aguardavam com enorme expectativa este jogo. A equipa visitante era do escalão acima daquele onde iriamos competir. E havia quem o considerasse um verdadeiro teste às nossas capacidades no campeonato.

Segundo jogo de preparação da época, mas o primeiro a jogar-se em moldes mais oficiais.

As filas para comprar bilhete já tinham um comprimento de respeito. Poucos seriam aqueles que desperdiçariam a oportunidade de ver o jogo.

Entrei no balneário, acompanhado por Augusto, Samuel e Ramalho. Os restantes já lá estavam, à excepção do capitão Abilio e do treinador José Luis.

O doutor Gervásio mandou o plantel equipar-se e subir ao relvado para o aquecimento habitual.

Quinze minutos mais tarde, estávamos a trepar as escadas rumo ao rectângulo verde.

Largas dezenas de adeptos, aguardavam já a nossa entrada, aplaudindo eufóricamente.

Começámos a correr à volta de metade do relvado, sob as indicações do médico do clube. No lado de lá, os jogadores do Oliveira do Hospital faziam o mesmo.

Ainda nem tinhamos acabado a primeira volta, vi Abilio juntar-se ao grupo.

Augusto, que corria a meu lado, perguntou:

─ A tua irmã também vem?

─ Penso que sim.

Cerca de vinte a vinte cinco minutos de exercicios e, ambas as equipas regressavam aos balneários. Ao entrarmos no nosso, José Luis e o presidente Alfredo Carrapiço esperavam-nos.

Os jogadores espalharam-se em volta do espaço, sentando-se lada a lado.

Alfredo Carrapiço tinha um semblante carregado, o que era estranho tendo em conta o ambiente que se vivia lá fora.

José Luis olhou para mim e disse:

─ Ivan, tu podes vestir-te que não vais jogar.

─ O quê? ─ interroguei, atónito. ─ Porquê?

Todos ficaram surpresos, excepto o presidente e Abilio. Ficara claro que a reunião urgente se devera à minha pessoa.

─ Tenho informações de que andaste na “borga” toda a noite. ─ informou o técnico. ─ E isso não é um comportamento digno de um jogador profissional.

─ De que é que você está a falar? ─ perguntei.

─ Não é verdade que chegaste tarde a casa, ontem, na vespera de um jogo importante.

Jogo importante? Uma merda de um jogo entre dois cascalheiras? Um jogo de preparação? As perguntas sucediam-se na minha cabeça, mas esforçava-me para manter a calma.

─ O mister viu que o teu carro não estava à frente da tua casa, ontem à noite, quando passou por lá. ─ disse Abilio.

─ Então, também gostava de saber onde é que você andou, ó borgas? ─ questionei eu o técnico.

─ Ouve lá rapaz... ─ José Luis tentou acender mais a discussão, elevando a voz.

Alfredo Carrapiço meteu-se pelo meio:

─ Calma, meus senhores! Isto não é uma peixaria. Comportem-se como homens.

─ Este puto tem a mania que é vedeta. ─ prosseguiu José Luis.

Fiz um movimento de resposta, mas Augusto travou-me para não piorar as coisas.

─ Ivan! ─ chamou o presidente. ─ O clube vai instaurar-te um processo disciplinar para averiguar os acontecimentos.

Processo disciplinar? Deveriam chamar-lhe processo de como tirar algum dinheiro ao jogador. Sim, era para isso que servia.

─ Mas nós nem estávamos em estágio. ─ lembrei. ─ Não havia indicação nenhuma...

─ Esses factos serão avaliados a seu tempo. ─ afirmou Alfredo Carrapiço, finalizando a conversa.

Excluido do jogo, voltei a vestir-me, enquanto José Luis dava as últimas indicações aos jogadores. A minha vontade era ir-me embora, ligar ao Jorge e dizer-lhe para arranjar maneira de resolver o contrato com o G. D. Paúle.

Definidos os titulares e os suplentes, a equipa abandonou o balneário e seguiu para o relvado. E eu fiquei ali sozinho.

Já vestido, fui para o meio do público, procurando a minha familia que estaria algures no meio da assistência. As pessoas olhavam para mim e percebia-se-lhes o semblante desalentado por não me verem equipado e a jogar.

O apito do árbitro fez-se ouvir e o jogo começou.

Encontrei a minha irmã encostada ao muro, segurando a filha pelos ombros. Vendo-me, a sua pergunta era óbvia.

─ Que fazes aqui?

─ Depois conto-te.

Apesar de não ter muita vontade, consegui convencer a minha irmã a ficar.

Ficar de fora, permitiu-me observar melhor a minha equipa.

O Oliveira do Hospital era muito forte para uma equipa como a nossa. Os seus jogadores fintavam os do GDP com facilidade e ultrapassavam a defesa como faca em manteiga. Norberto fazia o que podia, mas não era muito.

A meio da primeira parte, Oliveira do Hospital vencia por quatro zero.

Norberto discutia com Joselino e Reis que não se entendiam com os avançados adversários. Abilio protestava com o médios que não conseguiam fabricar uma única jogada de ataque. E Hélder, lá na frente, era um espectador do jogo, já que os defesas contrários não o deixavam tocar na bola.

Ao intervalo, cinco a zero era o resultado.

A segunda parte foi a continuação do desacerto.

No final, oito a zero.

Os jogadores foram vaiados, mais o técnico, a quem perguntavam “porque é que não puseste o Ivan Pedro?”.

No desporto as pessoas passam rapidamente de bestiais a bestas. Os jogadores, horas antes idolatrados, eram assobiados e ofendidos na sua caminhada para o balneário.

O jogo fora humilhante para o G. D. Paúle. Tenho a certeza que não teria sido diferente, se eu tivesse jogado.

O público começou a abandonar o campo, desalentados e resignados com a diferença de nivel futebolistico demonstrado.

O processo disciplinar que me fora instaurado não tivera consequências. Nunca se falou em nada e acho que não passou de uma paranoia de José Luis. Não sei o que aonteceu nos bastidores, apenas que na semana que se seguiu, Alfredo Carrapiço me disse:

─ Esquece aquela cena de Sábado! Contamos contigo!

─ E o processo?

─ Qual processo? Nunca houve processo, rapaz.

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