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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO VIII

Acordei sobressaltado, no Sábado de manhã, pelo barulho dos foguetes da festa da Vila do Mato, a alguns quilómetros dali. Era mesmo por causa dessa festa que o Paúle ia defrontar o Vila do Mato, num amigável nessa tarde.

O jogo estava marcado para as cinco da tarde. No entanto, os jogadores deveriam juntar-se no campo do Paúle, cerca de hora e meia antes, para partirem para o local do jogo.

Preparei um almoço leve, evitando assim digestões dificeis e prejudiciais ao desempenho no jogo. Como de costume, almocei sozinho na cozinha.

Conforme combinado, cerca das três e meia da tarde, lá estavam todos perto do edificio dos balneários do G. D. Paúle. Cheguei ao volante do meu carro e estacionei-o dentro do complexo. Curioso, chamar complexo a um terreno amplo rodeado por um muro cinzento com pouco mais que um campo de futebol.

Perto dos carros, um autocarro de transporte de passageiros, alugado a alguma transportadora, aguardava pacientemente, tal como o seu motorista.

Augusto foi o primeiro a cumprimentar-me. Os restantes limitaram-se a “boa tarde”.

José Luis certificava-se que estavam todos e começou a mandar-nos entrar. Os elementos da equipa espalharam-se pelo interior do autocarro, distribuindo-se pelos bancos duplos. Augusto ficou sentado a meu lado. Os lugares da frente eram ocupados pelo técnico, o médico, o presidente e o capitão de equipa.

Deveria estar um dos dias mais quentes do ano, pois sentia o Sol a queimar cada vez que me atingia a pele. Sentado junto à janela, visualizava a paisagem ao redor.

O autocarro começou a descer por uma estrada alcatroada. Mais à frente, vislumbrei o campo de futebol em terra batida, colocado num vale, separando a vila e a estrada, ambas em pontos mais altos. Para ver o jogo, não seria necessário pagar bilhete, pois via-se sufucienemente bem lá para baixo para o campo. Em algumas zonas, haviam sido levantados tapumes para que as pessoas não conseguissem ver, mas os pontos estratégicos eram mais que suficiente.

Contudo, muitas pessoas não abdicaram de ver o jogo lá dentro, bem perto dos jogadores. Em volta do campo, vários pés em pedra seguravam um barrote de ferro que contornava o rectângulo de jogo, passando atrás das balizas e dos bancos dos suplentes.

O autocarro parou junto à entrada e nós descemos, conduzidos para uma entrada que nos levaria aos balneários. Muitas pessoas, não muito longe dali, faziam fila para comprar o bilhete.

O estrondo dos foguetes surgiu novamente, ecoando pelo ar. Reparei que os balneários do Vila do Mato tinham um aspecto degradante, comparável às casas-de-banho públicas e empreguenados de um cheiro horrivel a suor.

Os jogadores começaram a equipar-se. Camisola preta com um rectângulo amarelo no peito a dizer Paúlewear, marca registada das industrias texteis Calheiros, calções brancos e meias pretas. A minha camisola tinha o 19 nas costas, número que escolhera préviamente.

José Luis entrou no balneário. Uma pequena introdução acerca do jogo e divulgou as escolhas para o onze inicial. Não fui um dos eleitos, pois ele relegara-me para o banco.

Não esperava esta atitude, mas como a vontade de jogar num campo de terra batida era nula, aceitei bem a sua decisão.

Debaixo de um calor arrasador, entrámos em campo para o aquecimento antes do jogo. Falar-se em aquecimento com uma temperatura de quarenta graus parece ridiculo. Contudo, os exercicios fisicos antes de começar eram essenciais para evitar algumas lesões.

Eu e os meus colegas escolhidos para suplentes fomos para o banco. Bastante mais agradável do que o rectângulo de jogo, pois estávamos à sombra.

Muitos populares rodeavam o gradeamento que delimitava o espaço para os espectadores. Não havia bancadas e as pessoas colocavam-se lado a lado para verem. Lá no alto, junto à estrada, alguns mirones poupavam o dinheiro do bilhete.

Junto à linha de meio campo, vi o árbitro e um assistente. O homem do apito mandou chamar os capitães de equipa e os treinadores. Pediu também que um individuo gordo com uma t-shirt apertada e a barriga de fora, se juntasse à conversa.

Curioso, levantei-me do meu lugar e fui ver o que se passava. Augusto também veio.

─ Temos um problema. ─ disse o árbitro. ─ O meu outro assistente sentiu-se mal e não vai puder comparecer.

─ E então? Como resolvemos isso? ─ perguntou o gordo.

Pela conversa, percebi que o gordo era o presidente da comissão de festas da Vila do Mato. Devia pesar uns cem quilos e transpirava abundantemente.

─ Podemos arranjar-lhe um assistente? ─ perguntou José Luis ao árbitro.

─ Desde que seja um assistente de árbitro. ─ respondeu o outro.

─ Ó xou árbitro! ─ chamou o gordo. ─ Isto é um jogo amigável, uma atracção das festas. Pode ser uma pessoa que perceba as regras, não acha?

─ Sim, tudo bem. ─ condescendeu o outro.

─ E estás a pensar em quem? ─ perguntou-lhe o treinador do nosso adversário.

─ Posso ser eu. ─ respondeu lider da comissão.

Deu-me vontade de rir, pois nunca vira nada mais ridiculo. O homem corria tão depressa como um caracol e parecia que se caisse ao chão, a terra tremeria dali até à Figueira da Foz. Porém, o árbitro lá o aceitou.

─ Tem é que arranjar uma bandeirinha. ─ disse-lhe.

─ Não há problema.

Com a barriga a saltar, fez a sua melhor imitação de uma corrida até à bandeira de canto que liga a linha de fundo à lateral. Alguns populares perguntaram-lhe o que se passava e ele respondia orgulhoso que ia assistir o árbitro. Arrancou a bandeira do seu local. Esta tinha um pau de um metro, mais ou menos, demasiado grande para manejar como uma bandeirinha de assistente. No entanto, ele resolveu a situação, partindo o pau ao meio e gritando para o árbitro:

─ Já está! Já tenho bandeira.

O jogo começou. O mais recente assistente de árbitro fazia a sua função na linha em frente ao nosso banco. Da assistência ouviam-se coisas como “sai da frente, estás a tapar o jogo”, “saí dai que fazes sombra”, etc... Na primeira parte, nós atacávamos da esquerda para a direita. O tipo inventava foras-de-jogo só para evitar que marcássemos. O Paúle era claramente superior ao Vila do Mato.

Sinceramente, não sei para que é que as pessoas vêm ver jogos destes. Futebol em campos de terra batida levanta tanto pó... Quando os jogadores correm levantam terra, outros atiram-se para o chão a tentar cortar a jogada, aumentam a poeirada.

Por entre toda a poeira no ar, pude ver alguns dos meus colegas em acção. O Norberto raramente tocava na bola, pois eram poucos os ataques do adversário. O Sassi e o Miguel nas laterais revelavam alguma qualidade, tal como o Joselino e o Reis no centro da defesa. No meio campo, Abilio era o patrão do quarteto que formava com Justino, Samuel e Teodoro. Na frente, Castanha a tentar fazer jogo para o ponta-de-lança Helder.

Ao quinto fora-de-jogo mal assinalado, José Luis virou-se para o gordo e disse:

─ A gordura deve estar a subir-te para os olhos.

Quarenta e cinco minutos mais três de desconto e a primeira parte chegava ao fim.

Atravessei o campo empoeirado, seguindo perto de José Luis e Alfredo Carrapiço que viera ao seu encontro. Sem que tivesse essa intensão, ouvi a conversa entre ambos.

─ Que achaste deles? ─ perguntou o presidente.

─ Se a proposta for boa. ─ respondeu o treinador.

Pelo assunto, percebi que falavam de dois ou três jogadores que Alfredo Carrapiço queria comprar ao Vila do Mato para o Paúle. E compreendia-se, pois o nosso plantel só tinha dezassete jogadores e no mínimo deveria ter vinte.

─ Três mil euros pelos três. ─ referiu Alfredo.

Curioso como os jogadores deste escalão eram tão baratos. Os três custavam um mês do meu ordenado no Alverca.

Na segunda parte, José Luis fez entrar em campo os suplentes todos. O Augusto trocou com o Norberto na baliza, o Rato e o Macário para o lugar do Miguel e do Sassi, o Toni trocou com o Joselino, Emanuel com o Helder e eu fui para a posição do Samuel.

Antes do jogo recomeçar, José Luis falou com cada um dos jogadores que ia entrar. Ao chegar a minha vez, mandou-me jogar na ala esquerda, local onde habitualmente jogava.

O jogo recomeçou. Felizmente o calor diminuira ligeiramente.

A primeira vez que toquei na bola, não calculei o facto de ela saltar mais num campo de terra batida e deixei-a fugir pela linha lateral. Os meus colegas fulminaram-me com o olhar, pensando se era para aquilo que estavam a pagar tanto àquela porcaria que era eu.

O Vila do Mato parecia mais desinibido no ataque. Decorrido o primeiro terço da segunda parte, um dos jogadores deles rematou à baliza. Augusto nem se mexeu e a bola entrou na baliza.

Abilio e Reis reclamaram com ele. Compreendia agora porque é que Norberto, com aquele ar pesado e atabalhoado, era o titular da baliza. Augusto era extremamente inseguro, nervoso e com muita falta de confiaça.

Alguns minutos mais tarde, novo remate à nossa baliza. Tivemos a sorte do avançado adversário não ter acertado nela.

Desde que perdera a bola que os meus colegas não me a passavam. Já desistira de fazer sinais e limitava-me a não cair em fora-de-jogo. Contudo, a dada altura, Abilio passou-me o esférico lá para o lado esquerdo. Recepcionei a bola e fintei o defesa encarregue da minha marcação. Passei a bola para o centro da grande área, onde Emanuel estava. Mal tinha feito o passe, fui atropelado por um adversário que me atirou ao chão.

Foi dolorosa a minha primeira queda na terra. O pó entrara-me para o olhos e toive de pestanejar para recuperar a visão. Ouvia os berros de alguns jogadores eufóricos.

Ao abrir os olhos, vi Emanuel correr na minha direcção e abraçar-me, atirando-me novamente ao chão.

─ Grande passe! ─ dizia ele, em cima de mim. Senti o resto da equipa atirar-se para cima de nós e senti o peso de todos a esborrachar-me.

O meu passe fora certinho à cabeça de Emanuel que marcara o golo do empate.

Quando me levantei, a minha camisola mudara de cor. Deixara de ser preto para ser preto empoeirado. Tinha os cotovelos esfolados, mas sentia uma enorme felicidade por não ter qualquer dor na perna outrora lesionada.

Já não faltava muito tempo para o final. Toni conduzia a bola pelo meio campo e viu a minha desmarcação do lado esquerdo. Passou-me a bola. Correndo e tentando evitar os adversários, levei a bola até à grande área. Aí, fintei o último defesa e rematei para o fundo da baliza. No entanto, senti uma pancada brutal na perna, logo após o remate.

Caido no chão, fiquei em pânico, contorcendo-me com dores, muito fortes e que nem me deixavam mexer a perna. Alguns dos meus colegas vierem ver como estava. Vi o doutor Gervásio aproximar-se de mim e colocar-me gelo na perna, enquanto pulverizava a zona com um spray.

─ Doi? ─ perguntou ele, carregando na área da lesão.

Soltei um gemido de dor.

─ É melhor saires. ─ disse.

O jogador que me lesionara veio ao meu encontro e pediu-me desculpa. Fiz-lhe sinal que estava tudo bem, mas ele fez questão de me acompanhar até à linha lateral.

O jogo prosseguiu mais alguns minutos, altura em que o árbitro deu o apito final. O Paúle vencera por dois a um.

Ajudado por Abilio e Augusto, fui para os balneários. A perna doia, mas a dúvida da gravidade da lesão assustava-me mais. Só de pensar que tudo poderia ter sido em vão. Sentia a perna como a sentira meses antes, na época das visitas à fisioterapia.

O doutor Gervásio observou-me melhor no balneário. José Luis e a equipa aguardavam o veredicto.

─ Está magoado, mas bem. ─ disse ele. ─ Repousa uns dias, Ivan. Penso que lá para quarta podes voltar a treinar sem limitações.

Suspirei de alivio.

 

Sentei-me numa cadeira que tinha na varanda, aproveitando a brisa fresca da noite. Colocara gelo sobre a zona da perna atingida, conforme me aconselhara o médico. Ainda tinha o corpo dorido pelas quedas no piso duro e pela desabituação a um jogo de futebol.

O meu vizinho, doutor Gervásio, saira de casa e viera sentar-se a meu lado.

─ Então, como está a perna?

─ Melhor. ─ respondi. ─ Mas, ainda me doi.

─ É natural. Não te preocupes que não é grave, Ivan.

O que mais me preocupava era o medo de não voltar a jogar. Aquele sector da perna era intocável e cada vez que sofria uma pancada a li, parecia que o medo de se tornar uma lesão permanente era maior que a dor. Estava traumatizado pela lesão que sofrera em Faro que me colocara em recuperação tantos meses e quase acabara com a minha carreira.

─ Sabes que o Paúle contratou três jogadores do Vila do Mato? ─ indagou o médico. ─ Vão ser apresentados na Segunda.

─ Quem são eles?

O médico riu-se e disse:

─ Um deles foi o que te atingiu esta tarde. Chama-se Ramalho e é médio.

─ Não lhe guardo rancôr. ─ confessei. ─ Foi bastante atencioso e fartou-se de pedir desculpa. Até quando ia a entrar para o autocarro, ele lá foi pedir desculpa novamente.

─ É bom rapaz! ─ afirmou. ─ Estive na tropa com o pai dele.

─ E os outros?

─ Serafim que é médio também. E o... como se chama ele? Gustavo! É avançado.

O telefone tocou em casa do médico e ouvi a sua esposa atender e, pouco depois, chamá-lo.

O doutor Gervásio despediu-se de mim e foi para casa, atender a chamada.

Segurando o gelo na perna, também eu regressei ao interior da casa e fui até ao computador viajar pela net.

Manuela enviara-me um email a perguntar como estavam as coisas e para me contar que o meu ex-cunhado saira da prisão.

O casamento da minha irmã fora um momento muito complicado na sua vida. Conhecera o Rui poucos meses depois de abrir o seu escritório de advocacia com os sócios. Começou por ser um cliente à procura de um advogado para um caso qualquer de partilha de terrenos. Após a sentença do caso, Manuela e Rui continuaram a encontrar-se.

O meu pai nunca gostara muito do Rui, nem eu. Era um homem simpático, mas tinha uma personalidade estranha e um olhar misterioso de quem planeava sempre qualquer coisa.

Casaram e foram viver para a Margem Sul. A vida em comum revelou a Manuela o verdadeiro Rui, um homem metido em esquemas fraudulentos, rodeado de ilegalidades e que, para além disso, ainda a traía com outras mulheres. Manuela perdoou-lhe as traições, mas recusou-se sempre a defendê-lo em tribunal. Passado um ano de casamento, nasceu Cibele. Eu e os meus pais acompanhámo-la naquele dia na maternidade, ansiando por noticias, enquanto Rui andava em parte incerta. Mais algum tempo e Manuela começou a aparecer com um olho negro, entre outras mazelas... Contudo, não queria divorciar-se por causa da filha.

No entanto, um dia, Rui começou a bater na minha sobrinha. Foi a gota de água que faltava. Manuela pegou em Cibele, foi para casa dos meus pais e pediu o divórcio. Rui telefonáva-lhe a ameaçá-la, mas nunca se atrevera a ir lá a casa, pois sabia como o meu pai o receberia. E também não teve muito tempo para o fazer, uma vez que passadas duas semanas, foi preso por uma fraude qualquer.

O tom do email de Manuela, a informar-me que o ex-marido tinha saido da prisão, era apreensivo, pois sabia o que estava para vir.

Respondi à mensagem dizendo que estava tudo bem e que a equipa vencera o jogo dessa tarde. Não falei no episódio da falta que sofrera. E sugeri-lhe que fizesse umas férias e fosse com a Cibele passar uns dias comigo em Paúle.

Enviei a mensagem sabendo qual seria a sua reacção ao ler. Férias? Eu lá tenho tempo para férias, diria ela. Contudo, não custava tentar.

Cliquei uma última vez no send/receive para ver se havia novas mensagens.

Para meu espanto, ouviu-se o som de mensagem nova. Olhei para o ecrã e na lista de mensagens, lá estava uma nova a bold com o remetente a dizer Camila.

O meu coração ficou aos pulos. Uma mensagem de Camila? Cliquei com mil cuidados como se um toque mal dado pudesse apagar todo o conteudo.

“Olá Ivan Pedro! Desculpa não te escrever antes, mas tenho estado muito ocupada aqui em NY. A vida profissional tem corrido bem, os colegas são excepcionais e o meu chefe acolheu-me muito bem. Quanto à vida pessoal... Bem, Pedro, tu sabes que nunca te menti e não vou fazer o papel de quem ultrapassou tudo sem mácula. Estou a sofrer. Sofro porque te amo e continuo a amar, mesmo sabendo que tu não desistirás de ficar aí. E eu não desistirei de permanecer aqui. Mas, continuo a pensar em ti e não te consigo esquecer. Sabes que te desejo as maiores felicidades do Mundo! Adormeço todos os dias na esperança de na manhã seguinte ter ultrapassado a dor da separação. Porém, acordo sempre com ela. Acho que nunca vou deixar de te amar. Espero que consigas atingir os teus objectivos, mesmo sabendo que não faço parte deles. Amo-te! Camila. P.S.: Não te esqueças! Deixa que o amor seja a tua energia.”

Deixa que o amor seja a tua energia. Fora sempre a frase que Camila usara para me motivar a ultrapassar os maus momentos e a minha lesão. Significava que eu deveria usar o nosso amor como força interior para vencer. No entanto, o nosso amor não era mais que uma recordação. E eu já não estava tão certo do que queria, nem tinha força sem ela perto.

Porque é que eu não fazia a mala e ia para Nova Iorque. Para quê continuar ali, sonhando com possibilidades tão remotas... Não conseguia desistir. A verdade era essa. Camila dissera-o um dia e tinha razão, o futebol era mais importante que qualquer outra coisa na minha vida, mesmo que fosse a jogar na III Divisão.

Respondi ao email escrevendo que tinha saudades dela. Não disse que a amava, já que poderia soar a falso. Se me amas porque não vens ter comigo? Seria uma pergunta obvia. E acho que inconscientemente era essa a sua ideia, dizendo que ainda me amava. Era a secreta esperança que eu desistisse e fosse para lá. Era um “ainda te amo e estou a dar-te uma segunda oportunidade”. E talvez o “deixa que o amor seja a tua energia” fosse um “deixa que o meu amor seja a tua força para vires para cá”. Porém, a minha energia estava toda directionada para o futebol.

Pedi-lhe que nos continuassemos a corresponder por email. E enviei a mensagem, despedindo-me com muitos beijinhos.

Na manhã seguinte, tinha a resposta.

Camila escreveu que sempre seria minha amiga. Deu a ideia de conversarmos em chat no ICQ ─ programa no qual ela me ensinara a mexer e, o qual, permitia a duas ou mais pessoas dialogarem na Internet, mesmo estando afastadas como nós. ─ mais logo à noite. Não falou uma única vez em amor e despediu-se com um distante “gosto muito de ti”.

 

O ar condicionado no café da dona Palmira sabia mesmo bem, depois de caminhar desde casa até lá, debaixo de um Sol escaldante. Tinha ideia de beber um café, mas optei por um sumo fresco.

Cumprimentei Abilio e Justino que jogavam snuker no fundo do salão. Perguntaram-me como estava a perna e eu disse-lhes que estava melhor.

Augusto puxou-me pelo braço e sentou-se comigo numa das mesas do café.

─ Como está a perna?

─ Está melhor, mas sinto o osso dorido.

─ Foi cá uma pancada. ─ lembrou ele. ─ Já sabes que o tipo vem jogar para o Paúle? O gajo que te deu a cacetada!

─ O doutor Gervásio contou-me. E o tipo pediu-me desculpa.

─ Mesmo assim. ─ insistiu Augusto. ─ Não se faz, bolas. Era um jogo amigável.

─ Ouve lá! Que é que te aconteceu no lance do golo?

Augusto encolheu os ombros.

Abilio que ouvira a pergunta, aproximou-se, deu um toque no ombro de Augusto e disse:

─ Falta de confiança! Este rapaz entra em campo sempre cheio de medo.

─ Tens de confiar mais em ti. ─disse-lhe.

Augusto voltou a encolher os ombros.

Justino falhara a tacada, por isso, Abilio voltou ao jogo.

Nesse momento, entrou uma rapariga no café. O rosto não me era desconhecido, mas parecia deslocado do local e das roupas que vestia, tipo camponesa. Pensei um pouco e reconheci-a. Era aquela misteriosa miuda com que me envolvera certa noite em Oliveira do Hospital.

Tentei não olhar para ela, evitando que me reconhecesse. Puxei Augusto pelo braço e sussurrei:

─ Quem é?

─ É a filha do Norberto! ─ disse ele com naturalidade.

Não me faltava mais nada. Tivera uma queca com a filha do guarda-redes da minha equipa que ainda por cima era menor. Se já evitava que me visse, a minha discrição passou a ser prioridade absoluta.

─ Não faças assunto disto... ─ continuou Augusto. ─ mas dizem que é uma putazona!

─ Como assim? ─ indaguei.

─ Há pessoal que a costuma ver à noite em Oliveira do Hospital. Alguns tipos da equipa já a “comeram”! Só que o pessoal não fala no assunto por causa do Norberto. Achoa que as pessoas sabem que se isso chega aos ouvidos dele, o gajo dá-lhe um tiro.

A rapariga virou-se na nossa direcção e olhou-nos frontalmente. Tenho a certeza que me reconhecera, mas comportou-se como se nunca me tivesse visto. Sabia que falavam dela. Penso até que já estaria habituada a que as pessoas falassem de si por onde passava.

─ Podemos sentar-nos? ─ perguntou Abilio acompanhado de Justino, após terminarem o jogo.

─ Claro! ─ consenti.

─ Estavamos a falar na Dália. ─ avisou Augusto, mantendo um tom baixo.

Abilio soprou para o ar como que tinha muito a dizer sobre o assunto.

─ O Sassi e o Castanha é que a conhecem bem. ─ disse Justino com gozo.

─ É! ─ confirmou Abilio. ─ Os gajos encontraram-na no... como é que se chama aquilo?

─ O bar em Oliveira? Não sei.

Abilo prosseguiu:

─ Dizem que a encontraram no bar e que ela se atirou a eles.

─ Foi com os dois. ─ completou Justino.

─ O tipos também são uns tretas. ─ lembrou Augusto.

─ É verdade. ─ insistiu Justino. ─ Dizem que ela os levou para o pinhal, à noite, no carro deles e que se despiu e quis que a f... ali.

─ Parece que estou a ver a cara do Sassi a contar isso e a dizer que a tinham a “comido” por todos os lados. ─ adicionou Justino.

Entretanto, Dália fora embora sem que ninguém percebesse.

O meu telemóvel tocou.

─ Pai? Está tudo bem? ─ atendi eu.

Afastei-me um pouco do grupo e fui até à porta do café.

─ As coisas não estão muito bem. ─ disse ele. ─ O teu ex-cunhado anda a fazer ameaças à tua irmã.

─ Ele foi aí?

─ Não! Já sabes que ele não se atreve a vir aqui.

─ Então?

─ Telefonou-lhe esta tarde a dizer que queria ver a Cibele.

Notei a preocupação na voz do meu pai. Quando Manuela pediu o divórcio por maus tratos, conseguiu que Rui não tivesse qualquer direito de ver Cibele, devido às provas de agressão sobre a filha. Entretanto, ele fora preso. Agora parecia voltar à carga pela filha. No entanto, todos sabiamos que isso era um pretexto para atingir a minha irmã. Rui nunca gostara da filha. Até ficara decepcionado quando soube que ia ser pai de uma menina e não de um menino.

─ Já lhe disse para tirar umas férias e ir uns dias com a Cibele para longe. Mas ela não quer.

─ Eu também lhe disse isso. ─ concordei.

─ Será que podias vir a Lisboa e tentar convencê-la? ─ pediu o meu pai.

─ Vou tentar. Sabes que não posso ausentar-me sem autorização.

─ Vê lá o que podes fazer.

 

A conselho médico, estava dispensado dos treinos. Porém, acompanhei os meus colegas de conversa até ao campo do GDP para falar com José Luis e pedir-lhe se poderia ir até Lisboa, explicando-lhe vagamente o que se passava.

Como não podia treinar até Quarta-Feira, ele disse que eu tinha até esse dia para ir e voltar.

Agradeci-lhe o favor e regressei a casa para planear a minha partida na manhã seguinte.

 

Nunca fora bom na cozinha. Sabia o elementar para me alimentar, quando vivia sozinho. Camila é que era uma óptima cozinheira. Porém, Camila já não estava perto de mim, por isso tinha de me desenrascar.

Naquela noite, passara por Tábua, num local que Augusto me aconselhara, onde se faziam uns frangos de churrasco maravilhosos. Foi um jantar delicioso, o franguinho acompanhado por umas batatas fritas.

Camila combinara comigo o encontro na net após o jantar dela, ou seja, por volta da uma hora da madrugada, devido à diferença horária.

Enquanto esperava, liguei o rádio, sintonizei o Oceano Pacifico do João Chaves e fui começar a fazer a mala para a viagem do dia seguinte. Não havia muito a arrumar, pois estaria de regresso dois dias mais tarde, no máximo.

Colocava eu uma peça de roupa dentro da mala, quando ouvi o ruido de uma motoreta a passar na estrada e a parar junto ao edificio. Poucos minutos passados e a campainha tocou. Fui abrir e encontrei quem já calculava que fosse.

Raquel cumprimentou-me com um beijo na face, dizendo:

─ Espero não estar a incomodar.

─ Não. Entra!

Caminhava como se se exibisse para mim e olhava-me sempre com um semblante de sedução e atracção.

─ Estava a preparar a mala. ─ contei. ─ Vou a Lisboa amanhã.

─ Vais lá ficar muito tempo? ─ indagou ela, receosa da resposta.

─ Não! Máximo dois dias.

O seu rosto não escondeu o alívio.

─ Que estás a ouvir? ─ perguntou, reparando na musica calma que ecoava pela casa.

─ É o Oceano Pacifico.

─ Também gostas? Eu ouço-o todas as noites.

─ Tem música muito boa! ─ afirmei. ─ É o meu programa de rádio de eleição. Cresci a ouvi-lo.

Raquel sentou-se na cama e ficou a observar-me a arrumar a mala.

─ Ouvi dizer que te lesionaste, ontem.

─ É verdade. ─ confirmei. ─ Mas, não foi nada de grave. Vou parar só por uns dias.

Sentada na cama, Raquel cruzou as pernas, fazendo a saia descair ligeiramente, para revelar mais um pouco as pernas, e inclinou-se para a frente de forma a que a abertura da camisa se tornasse mais apelativa. Tentei não reparar.

─ Ficaste chateado com a noite do jantar? ─ interrogou.

Abanei a cabeça negativamente e disse:

─ A tua mãe não é muito simpática. E também não fiquei com muita vontade de lá voltar. Mas isso não tem nada a ver com a nossa amizade.

Raquel voltou a cruzar as pernas e a saia descaiu mais, fazendo com que a peça de roupa que normalmente estaria abaixo dos joelhos, ficasse transformada numa minuscula saia.

─ Como não voltámos a falar desde essa noite.

─ Não te preocupes com isso.

Ela olhava em redor. Reparou no computador e perguntou:

─ Tens um computador?!

O tom soou como se aquilo fosse uma anormalidade.

─ Porquê o espanto?

─ Não me leves a mal, mas... ─ continuou. ─ Quando se pensa num jogador de futebol, não...

─ Acham que são todos burros e só sabem dar pontapés numa bola. ─ completei.

─ Não é isso.

─ Comprendo o que estás a pensar. ─ disse sorrindo. ─ Tenho-o para navegar na Internet e enviar e receber emails. Foi a Camila que me ensinou a mexer em computadores.

Ao ouvir o nome “Camila”, o semblante de Raquel mudou para uma forma mais carregada e pesarosa.

─ Tens tido noticias dela? ─ perguntou num tom frio.

─ Tenho. ─ respondi sem adiantar muito acerca disso.

Raquel levantou-se da cama e caminhou um pouco.

─ Gostava de a conhecer. ─ disse subitamente.

─ Porquê? ─ questionei com estranheza.

─ Deve ser lindissima para te conseguir prender a uma distância tão grande.

Fechei a mala e coloquei-a no chão. Virei-me na direcção de Raquel e afirmei:

─ Eu não estou preso a ela! Nem ela a mim. Não tenho culpa de continuar a amá-la.

Raquel aproximou-se de mim.

─ Porque não me deixas fazer-te esquecê-la?

A pergunta apanhou-me desprevenido. Há muito que percebera os seus olhsres e as suas intensões, mas não esperava uma declaração tão... clara.

─ Que queres dizer?

─ Que gosto de ti! ─ acentuou. ─ Que me sinto atraida por ti.

Não sabia o que dizer e fiz um gesto para que ela não dissesse mais nada. Porém, raquel continuou:

─ Que foi? Não sentes o mesmo por mim? Não te atraio?

E deu um passo até mim, ficando tão perto que lhe conseguia sentir a respiração. Tão perto que, antes que tivesse qualquer reacção, levou a boca até à minha e começou a beijar-me os lábios, chupando-os docemente.

Por momentos, retribui o beijo. Porém, rapidamente tomei consciência do que estava a fazer e afastei-a de mim.

─ É melhor pararmos por aqui. ─ pedi.

─ Porquê? ─ interrogou. ─ Não me digas que não estavas a gostar.

─ Não é isso, Raquel. Eu amo a Camila! Mesmo estando ela em Nova Iorque e assumidamente separados, eu continuo a amá-la! Não era correcto usar-te para atenuar isto. Não quero, Raquel.

Pensei que as minhas palavras a fizessem desistir. Contudo, acho que a minha preocupação em não a magoar ainda a atraiu mais.

─ E se eu não me importar que me uses? ─ questionou. ─ Se não me importar que andes comigo até voltares para ela, se é que voltarás algum dia.

─ Não digas isso. Tu ias sofrer muito, se tivessemos uma relação temporária e depois te deixasse.

Raquel abanou a cabeça incrédula com a minha recusa. Uma mulher linda a oferecer-se para a minha cama pelo tempo que eu quisesse e sem compromissos. E eu recusava.

─ Ivan, eu vou voltar para Coimbra em Setembro! Tenho aulas como já te tinha falado. Tu atrais-me! Não te estou a pedir em casamento. Estou a propôr-te uma relação sem compromissos, sem amarras de ambas as partes, durante o Verão. Nada mais.

Olhei-a com seriedade e perguntei:

─ Já amaste alguém?

Raquel franziu os olhos, não entendendo o porquê daquela pergunta.

─ Quando se ama alguém, a nossa vida parece ligada à da outra por muito longe que ela esteja. A Camila faz parte de mim! Se eu fizesse o que me propões, eu não seria capaz de me olhar ao espelho.

─ Tudo bem. ─ concordou ela, aborrecida. Deu-me um beijo de despedida na face e disse: ─ Se mudares de ideias, sabes onde me encontrar.

E foi-se embora, batendo com a porta.

Dei conta que não conseguia fazê-lo. A minha consciência não me deixava fazer aquilo. Ainda me condenava por aquele momento de sexo com a filha do Norberto. Impensável aceitar o que Raquel me propunha. Só conseguia pensar em Camila e já descobrira que o sexo, só por si, não me fazia esquecê-la.

Aguardei, ansiosamente, em frente ao computador, navegando por páginas e páginas para fazer tempo. Mantinha o ICQ aberto e constando, de cada vez que o observava, que Camila continuava offline.

Perto da uma e meia da manhã, o som de chegada de email ecoou pelo quarto. Fui ver que era o emissor. Camila. A mensagem trazia-me um pedido de desculpa, mas não seria possivel falarmos naquela noite. Não explicou porquê. Talvez tivesse encontrado algo mais interessante para fazer ou, pura e simplesmente, não teve coragem para voltar a falar comigo.

Senti-me um asno. Aquilo fora a paga que ela me dera pela prova de fidelidade que tivera momentos antes. Senti vontade de ir a correr atrás de Raquel e trazê-la para ali e metê-la na minha cama e fazer sexo a noite toda... Foi o impeto da raiva pela frustração.

Mais calmo, consciencializei-me que Camila e eu estavamos separados, que Camila não poderia saber da minha prova de fidelidade, que nem eu tinha que me justificar a ela, nem ela a mim... Senti-me vazio por não a ter junto de mim. Mas continuava a amá-la! E o sexo com terceiros ─ ou melhor, terceiras. Nada de confusões. ─  não amenizaria a minha dor.

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