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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO VII

A manhã surgiu cinzenta como um manto de fumo lá no alto do céu. O calor era intenso, o que tornava o ar pesado e abafado, apesar do aspecto invernil.

A luz que entrava no quarto era diferente, muito devido ao tempo. Parecia que o interior não tinha iluminação e as sombras espalhavam-se mais que o normal.

Levantei-me da cama e fui a cambalear de sono até ao duche.

Ao longo da manhã, arrumei as minhas coisas todas, roupa na mala grande, sapatos na outra. Desliguei o portátil e guardei-o na pequena mala onde o protegia das viagens.

Peguei na bagagem e carreguei-a até à recepção. Não era muita coisa, por isso, não foi necessário pedir ajuda a nenhum bagageiro.

Encontrei, atrás do balcão, o meu colega Joselino.

─ Bom dia, Ivan!

─ Bom dia!

─ Então sempre é hoje que te mudas? ─ indagou.

─ É verdade. ─ confirmei. ─ O serviço é bom, mas estou farto de viver num hotel.

Joselino sorriu e disse:

─ Compreendo.

Com as malas no chão e o portátil debaixo do braço, pedi-lhe que me entregasse a conta do hotel. Joselino foi conferir os registos e trouxe-me a factura detalhada. Saldei a conta com o cartão multibanco.

Despedi-me dele, não por muito tempo, pois teriamos treino juntos, ao fim da tarde.

Cá fora, coloquei tudo no porta-bagagens do Mégane.

Antes de entrar no carro, vi o treinador José Luis, do outro lado da rua.

Mister! ─ chemei.

José Luis olhou para mim e acenou-me desprendidamente.

Não esperava que viesse a correr abraçar-me, mas com uma forma tão fria de falar, quase por favor, tive vontade de o mandar para “a da mãe”.

Subitamente, ele desviou caminho e veio na minha direcção. Não sei se ele próprio constatou que fora frio a acenar, ou o que fora que o fizera vir ter comigo.

─ Bom dia, Ivan! ─ cumprimentou-me com austeridade.

─ Bom dia, mister!

Parecia ridiculo tratar aquele basbaco, treinador mediocre de uma equipa de pacóvios, por mister. Se fosse o Camacho ou o Mourinho ou outros tantos que são supra-sumos na arte de treinar. Agora este...

─ Que faz por aqui? ─ perguntei.

─ Dou aulas aqui no liceu de Tábua. ─ informou. ─ E tu? Tão cedo? Tinha ideia de que as vedetas só acordavam depois do meio-dia.

─ É capaz de ter razão. ─ disse com cinismo. ─ Ainda bem que me avisa. Assim, quando for uma vedeta, levanto-me depois do almoço.

José Luis riu-se com sarcasmo.

─ Tanta modestia.

─ Diga-me uma coisa, mister. Porquê essa antipatia toda?

─ Já te disse que não gosto de vedetas. Tive muito trabalho a construir esta equipa para agora vir um “cú-cheio-de-vento” estragar tudo.

Este merdas fala como se tivesse construido um campeão europeu, pensei. A vontade era dizer-lhe: Ó parolo! Tu és treinador de uma equipa de berma de estrada que nunca ninguém ouviu falar, para além de ti e dos teus vizinhos.

Porém, contive-me.

─ Tenho de ir. ─ avisou. ─ Tenho uma aula dentro de dez minutos. Vê se não te atrasas logo.

Até parecia que eu costumava chegar atrasado. Enfim, meti-me no carro e segui pela estrada, rumo à minha nova casa.

Em frente ao mini-mercado, existia um pequeno pátio onde se podia estacionar os carros. Deveriam caber lá uns quatro ou cinco carros, mas nunca via lá mais que dois. Parei o meu num desses espaços e comecei a retirar a bagagem do Mégane.

Enquanto pegava nas malas, ouvi uma voz conhecida perguntar:

─ Precisas de ajuda, Ivan?

Olhei e respondi:

─ Obrigado, Augusto! Não é preciso. Queres entrar para conhecer a casa?

Augusto aceitou o convite e subiu as escadas, atrás de mim.

Abri a porta e entrámos. Levei as malas para o quarto e sugeri-lhe que se sentasse no sofá.

─ Desculpa, não te oferecer nada, mas...

─ Não te preocupes, Ivan! Quando tiveres tudo em ordem, convidas-me para beber uma “fresquinha”.

─ Tenho de comprar algumas coisas. ─ disse. ─ Vou aqui a este mini-mercado, aqui em baixo.

─ Ao Lenin? ─ interrogou Augusto. ─ Força. É um tipo porreiro e tem produtos de qualidade.

─ Lenin? ─ questionei eu. ─ É ucraniano?

─ Quem, o Lenin? Não. É como o pessoal lhe chama. ─ contou Augusto. ─ Ele chama-se Sebastião. ─ Levantou-se do sofá. ─ Se houver alguma coisa que ele não tenha, vai à mercearia do Herculano em Midões

─ Ok.

─ Olha! Queres ir almoçar lá ao café? Já são quase horas de comer e não deves ter material para cozinhar.

─ És capaz de ter razão. ─ confessei. ─ Já lá vou ter, daqui a pouco.

Augusto despediu-se de mim e saiu.

No quarto, comecei a distribuir a roupa pelas gavetas. Fui guardando os objectos pessoais nos mais variados sitios, tipo escova de dentes, gilete da barba, etc... Faltavam-me coisas básicas como papel higiénico, entre outras.

Desci até ao mini-mercado. Diversas filas dos mais diferentes produtos, atravessavam o espaço interior, desde a porta até à parede ao fundo. Junto à entrada, um senhor completamente careca, sentado atrás do balcão com uma máquina registadora.

─ Boa tarde! ─ cumprimentei, entrando naquele clima da região, de cumprimentar tudo e todos. Apontei para as filas. ─ Posso?

─ Boa tarde! Claro, fique à vontade. ─ respondeu o senhor.

Compreendi porque lhe chamavam lenin. Sem um único cabelo no crânio e com um bigode pequeno, o individuo parecia a reencarnação do próprio Lenin.

Andei por todas as filas, recolhi tudo o que me fazia falta, desde comida, bebidas, produtos de limpeza, higiéne... Quando me aproximei do balcão, o homem olhou-me como se lhe tivesse saido o totoloto. Bom, é um pouco exagerado, mas a conta era gratificante para ele.

Ao dizer-me a soma a pagar, retirei o dinheiro do bolso e ouvi-o perguntar:

─ O senhor é o novo inquilino aqui de cima?

─ Sou.

─ Bem me pareceu, quando o vi chegar.

─ Aqui tem. ─ entreguei eu o conjunto de notas.

─ Continuação de boa tarde! ─ desejou, enquanto eu saia com as compras nos sacos.

─ Obrigado!

Só não comprara batatas, pois não havia.

Ao começar a escalar as escadas com os sacos nas mãos, ouvi o toque da campainha da porta. Olhei para cima e vi Raquel a pressionar o ruidoso botão.

Aproximei-me dela e larguei os sacos no chão.

─ Olá! ─ cumprimentou-me ela, beijando-me na face para minha surpresa. Nem consegui retribuir, uma vez que, quando tomei consciência do beijo, já ela ia demasiado longe.

─ Olá!

─ Pensei que estivesses em casa. ─ disse ela. ─ Soube que tinhas alugado isto e vinha dar-te as boas-vindas.

─ Obrigado! Queres entrar?

─ Claro!

O olhar dela deixava-me pouco à vontade. Parecia avaliar cada célula da minha pele. Notava nela um interesse mal disfarçado, misturado com uma forte intensão de não se entregar facilmente.

Longe dos meus gloriosos tempos de mulherengo ─ como o Eduardo irritantemente me chamava ─ tentei não lhe corresponder. Ela não me despertava amor, nem carinho. E jamais a levaria para a cama por mera atracção fisica. Contudo, ela mantinha aquele olhar de apaixonada e eu mantinha o receio de lhe partir o coração.

Tentando refriar os seus intentos, disse:

─ É nestas alturas que vejo a falta que a Camila me faz.

─ Quem é a Camila? ─ interrogou Raquel, franzindo os olhos.

─ É a minha namorada. ─ Namorada. Já fora namorada! Agora era uma conhecida algures no outro lado do Atlântico.

─ Não sabia que tinhas namorada. ─ disse, desalentada.

Tinha conseguido pôr fim aos seus sentimentos logo ao principio... não fosse ter dito:

─ Está a trabalhar em Nova Iorque.

Bolas.

Raquel sorriu imediatamente.

─ Em Nova Iorque? Então não vem viver contigo?

Vive obrigado a contar a verdade:

─ Não! Separámo-nos antes de vir para cá.

─ Então, não é tua namorada! ─ exclamou Raquel.

─ É porque eu considero-a como tal.

Raquel encolheu os ombros, desvalorizando os meus sentimentos. Uma namorada a milhares de quilómetros não era concorrente para si, pensaria ela.

Falava com ela e ia arrumando as coisas nos armários da cozinha.

─ A minha mãe quer conhecer-te! ─ informou, subitamente.

─ Porquê? ─ estranhei.

─ Diz que quer conhecer a nova vedeta do GDP.

GDP? Gás de Portugal? Não, espera, Grupo Desportivo Paúle. Ainda não estava enquadrado na minha recente realidade.

─ Não sou nenhuma vedeta. ─ reclamei, colocando os pacotes de sumo no frigorifico.

─ Disse-me para te convidar para o jantar, logo á noite.

Olhei para ela e para o semblente firme de quem não admitiria uma recusa. Concordei que estaria lá por volta das oito e meia. Raquel veio dar-me outro beijo na face e despediu-se, deixando-me sozinho nas arrumações.

Só me faltava carne e batatas. A carne compraria à tarde no talho em Paúle. As batatas...

 

A mercearia do senhor Herculano e da senhora Gertrudes situava-se numa pequena praceta, em Midões, mesmo em frente aos correios.

Ainda sentia o estômago cheio do belo almoço no café da dona Palmira. Parei o carro junto à porta da mercearia e saí.

Do interior, ouviam-se algumas vozes exaltadas. Estranhei e entrei apreensivo com o que ia encontrar. Mal passara a porta, um jovem mal barbeado e vestindo umas roupas emporcalhadas, quase esbarrou comigo.

─ Volta aqui, Xavier! ─ gritava-lhe a senhora idosa.

O rapaz parecia um touro a andar, cabeça caida para a frente e andar rápido.

Então, este era o famoso Xavier que se metia na droga.

A senhora deitou as mãos à cabeça e refugiou-se no interior da loja, fora dos olhares da clientela que entrasse. O marido, um homem idoso e franzino com aspecto doente e olheiras bem cavadas na face, denotava estar abalado com o sucedido. Perguntou-me simpaticamente o que desejava.

─ Batatas.

O sexagenário, andando como se arrastasse o corpo, indicou-me um canto da loja onde se amontoavam várias sacas delas.

─ Algum problema? ─ indaguei, vendo o seu ar transtornado.

─ Não. Não, senhor.

Percebi que ele não me queria contar o que sucedera. Não me admiraria se a história se resumisse a mais um roubo de dinheiro da caixa por parte do rapaz. Contudo, quem é o pai que quer contar semelhante façanha do filho?

─ Deixe estar que eu levo. ─ ofereci-me, tentando evitar que ele pegasse numa das pesadas sacas. ─ Eu carrego-a para o carro. Está já ali.

O idoso recebeu o dinheiro, ainda com as mãos a tremer.

Coloquei a saca no porta-bagagens e regressei a casa. Não conseguia esquecer a aflição estampada na cara do senhor Herculano.

 

Ao fim da tarde, logo a seguir ao treino, Augusto explicou-me como chegar à Casa de Paúle. Não vesti smoking, mas fui com um traje formal. O acesso à estrada que ele falara, ficava num cruzamento entre Midões e o Paúle.

Duas enormes placas em pedra, encastradas nas sebes e com “Casa de Paúle” escrito, repousavam logo à entrada do caminho. Seguia-se um recta ladeada por arbustos altos até uma ligeira curva para a esquerda que a ligava a outra recta, esta ladeada por casas. Notava-se que eram quase todas habitadas, pois via-se luz no interior. Nova curva, esta à direita, e uma estrada minimamente encurvada a descer. Esta começava com casa do lado direito e um muro, não muito alto, à esquerda. Contudo, o alcatrão apertava-se alguns metros mais adiante com arbustos ainda mais altos que os primeiros.

Saido desse corredor onde não parecia haver espaço para os carros se cruzarem, deparei com um portão enorme verde, o qual servia de entrada aos longos muros de cedros que os cercavam. Diante do portão, do outro lado da estada, um largo quadrado de alcatrão com um pequeno edificio que Augusto me informou, tratar-se de um lagar. A estrada continuava ladeada de cedros, até abrir para um espaço mais amplo, alguns metros mais à frente.

Aí, um desvio em terra batida conduziria os que por lá se aventurassem até ao Paúle. Pelo alcatrão, o viajante percorreria alguns quilómetros de pinhal, encontrando uma casa ou outra perdida pelo meio, até chegar à povoação seguinte, São Geraldo.

Com o carro parado defronte do portão, vim cá fora e toquei à campainha. Não tinha aspecto de receber muitas visitas, pois não havia ninguém perto para abrir o portão.

Espreitando pelo portão, vi que o caminho a seguir a ele se prolongava até ao fundo, coberto por árvores altas e arbustos. Lá longe, vislumbrava parte de um palacete, mas muito pouco perceptivel dali.

─ Que deseja? ─ ouvi uma voz perguntar, através de um altifalente.

─ Sou Ivan Pedro. ─ identifiquei-me. ─ Fui convidado para o jantar.

A voz não me respondeu. Em seu lugar, um estalido da engrenagem que abria os portões. Voltei a entrar no carro e avancei pelo interior.

O caminho era escuro. O dia estava na recta final e a sombra das árvores acentuavam a escuridão. A luz do pôr-do-sol regressou quando a estrada se transformou num largo frontal ao palacete que dava pelo nome de Casa de Paúle.

O edificio fez-me lembrar aqueles palacetes que vimos nos filmes. Três pisos de uma arquitectura muito inicio do século XX.

Estacionei junto à entrada e subi, a pé, os cinco degraus de acesso á porta principal. Um individuo de farda, possivelmente o mordomo, recebeu-me com pompa.

─ Queira fazer a gentileza de entrar e aguardar no salão, doutor Ivan Pedro. ─ disse-me.

Agradeci e não evitei o sorriso pelo “doutor”. Doutor só se fosse em futebol. Porém, acho que nestas casas só podem entrar pessoas de estatuto, por isso, se não era passava a ser.

Atravessando o hall de entrada, passei ao salão. Sozinho, pude apreciar o luxo da móbilia, os objectos requintados, os quadros na parede... Tudo coisas que a maior parte dos portugueses conseguiria ter se vivesse umas cinco gerações e não pagasse impostos.

O silêncio foi interrompido pelo ecoar dos saltos de sapatos. Virei-me para a entrada do salão e vi uma senhora, meia-idade, caminhando da forma que acharia mais elegante e pomposa, dirigindo-se a mim.

─ Como vai, senhor Ivan Pedro?

A senhora vestia um tailler calça e casaco cinzento, acompanhado por sapatos de salto alto. Usava um penteado volumoso que parecia estar cheio de laca para manter o aspecto. Na mão esquerda, trazia um cigarro que fumava despreocupadamente, não ligando à cinza que ia caindo ao chão.

─ Bem obrigado, senhora. ─ respondi. ─ Deixe-me agradecer-lhe, desde já, o convite para a acompanhar ao jantar.

─ Não tem nada que agradecer. ─ contrapôs, apontando-me o sofá para que me sentasse, o que fiz a seguir a si.

O mordomo voltou ao salão e perguntou se desejávamos alguma coisa.

─ Sirva-me um bourbon! Que bebe, senhor Ivan Pedro?

─ Para já, nada, obrigado!

Novamente, surgiram passos vindos das escadas. Vi Raquel entrar no salão, desfilando com um vestido muito elegante, azul claro, e sandálias. O cabelo louro vinha todo puxado para trás à força de gel.

Levantei-me para a receber. Cumprimentou-me com um beijo na face e sentou-se a meu lado.

A engenheira Amândia Calheiros recebeu o bourbon e bebeu um golo. Raquel pediu ao mordomo um para si.

─ Tem familia, senhor Ivan? ─ perguntou a senhora.

─ Tenho. Os meus pais, a minha irmã e a minha sobrinha.

Raquel pegou-me no braço e disse:

─ A mamã queria conhecer-te.

─ Conhecer o jogador de que tanto se fala aqui na terra. ─ emendou a mãe.

─ A mamã é sócia honorária do clube...

─ O que neste caso significa entrar com dinheiro para o budget do plantel. ─ completou a senhora.

Novamente, o mordomo entrou no salão e perguntou:

─ Senhora, posso servir o jantar?

─ Claro.

A engenheira levantou-se pesadamente do sofá, deixou o cigarro no cinzeiro a queimar e caminhou até à divisão ao lado, onde se serviria o jantar.

Numa mesa comprida, colocada ao centro de uma sala tão ricamente engalanada como a anterior, a patrona sentou-se à cabeça, ficando a sua filha ao seu lado direito. Eu fui encaminhado para a outra ponta da mesa.

O mordomo aguardava à entrada da sala, olhando para nós, enquanto uma criada servia a refeição, peito de pato fatiado assado no forno. Na altura não a reconhecera, mas era Deolinda, casada com o Abilio e filha dos donos da mercearia de Midões.

O silêncio durante a refeição era incomodativo. Parecia que se alguém falasse, isso seria visto como uma falta de educação. Junto à porta, impávidos, permaneciam o mordomo e Deolinda.

A engenheira Calheiros interrompeu o vazio:

─ Sabe? Foi o meu pai quem cedeu os terrenos para o campo de futebol do Paúle. E, claro, a familia Calheiros está por trás de quase toda a gestão do clube.

─ Pensei que fosse o senhor Alfredo Carrapiço o gestor. ─ disse eu, confessando a minha ingenuidade.

─ Ah meu Deus! ─ exclamou a senhora. ─ Esse bronco?

Raquel soltou uma risada.

─ Lembro-me quando me propôs a sua contratação. ─ continuou a engenheira. ─ Falava-me em milhares de euros como se fossem tremossos para acompanhar com as cervejas com que enche aquele barrigão. Pensar que com o dinheiro da sua vinda para o Paúle poderia ter comprado um Monet!

─ Talvez ele não jogasse tão bem como eu. ─ contrapuz.

A engenheira arregalou-me os olhos, parando mesmo de mastigar.

Monet é um pintor, Ivan! ─ informou-me Raquel, apontando para um quadro pendurado na parede.

Bom, se tivesse um buraco ali ao lado, escondia-me nele para que não vissem tamanha ignorância.

─ A mamã gosta muito das pinturas de Monet!

─ Não lhe pergunto se gosta, senhor Ivan, pois já percebi que não faz a minima ideia de quem se trata.

─ Não podemos ser bons em tudo, senhora.

─ Estou certa que perceberá bastante mais de futebol. ─ retorquiu.

O tom da sua voz suou a aviso. Parecia querer dizer “é bom que jogues bem e valhas o dinheiro que investi em ti”.

─ A minha filha disse-me que é solteiro e que veio sozinho para Paúle?!

─ Sim.

─ Tem namorada em Nova Iorque. ─ adicionou Raquel.

Era como a mãe. Dizia uma coisa, mas num tom que sugeria outra.

─ Nova Iorque? Gosto bastante de Nova Iorque. ─ disse com saudade, a engenheira. ─ A última vez que lá fui foi há... três anos. Que faz a sua namorada lá?

─ Trabalha para uma multinacional.

─ O povo costuma dizer: Longe da vista, longe do coração.

Raquel falara lançando-me um olhar matreiro. A frase era uma ferroada para mim. “Então não é tua namorada!”, lembrara-me eu da frase que me dissera em minha casa, nessa manhã.

─ O povo diz muitos disparates. ─ argumentei.

─ A voz do povo é a voz de Deus. ─ contrapôs a senhora.

Mas o que era isto? Algum concurso de provérbios? Ganha quem disser mais frases acerca da minha vida?

O jantar voltou a cair no silêncio, ouvindo-se apenas o toque suave dos talheres.

Findo o jantar, a engenheira Calheiros fez sinal à empregada para levantar a mesa.

O mordomo aproximou-se e perguntou:

─ Quer que lhe sirva um café?

─ Vai querer café, senhor Ivan? ─ perguntou-me a senhora.

─ Faço-lhe companhia.

─ Três cafés! E sirva-os no salão. ─ ordenou a engenheira.

Regressámos ao salão e sentámos-nos nos mesmos lugares em que ficáramos antes.

A dona da casa acendeu mais um cigarro.

─ Quais são os objectivos do Paúle para esta época? ─ interrogou. ─ O Carrapiço falou em manutenção, mas espero que o senhor Ivan tenha mais ambição.

─ Que ambição quer que eu tenha? A Liga dos Campeões? ─ questionei eu, lacónico.

─ Vejo que tem sentido de humor. ─ replicou.

Percebi que Raquel se alienara do assunto, pois não entendia nada de futebol. Contudo, o mesmo não se podia dizer de sua mãe.

─ Gosto de gente ambiciosa. ─ acentuou. ─ O Carrapiço tão depressa fala em contratar uma estrela como fala em tentar não descer de divisão. Gosto do José Luis, o vosso treinador. Quando entrou para o clube disse que queria ganhar o campeonato e ganhou. Levou o Paúle ao titulo da Divisão de Honra da A. F. de Coimbra.

Não dei resposta. Não sabia se ela queria que lhe respondesse o que pensava ou o que ela gostaria de ouvir.

─ Onde jogava, antes?

─ No Alverca.

─ E trocou o Alverca pelo Paúle? ─ questionou com estranheza.

Nesse instante, o mordomo entrou e distribuiu os cafés, permanecendo a seguir junto à entrada.

Mexendo o café com a colher, respondi:

─ O Alverca dispensou-me devido a uma lesão que eles achavam não ter recuperação.

─ E tem? ─ perguntou asperamente. ─ Ou terá o Paúle contratado um jogador coxo? ─ Não me deu tempo para responder. ─ Espero sinceramente que sim ou então o Carrapiço tem os dias contados no clube.

Comecei a notar que, cada vez que a senhora falava, menos simpatia me despertava. O serão não fora o mais agradável, mas servira para eu perceber quem era o verdadeiro poder administrativo do G. D. Paúle.

─ Bom, senhor Ivan. Vai desculpar-me, mas amanhã é dia de trabalho e... ─ vai-te embora que eu já estou cansada de te ter cá.

─ Eu já estava de saída. ─ disse, levantando-me.

Raquel e sua mãe levantaram-se igualmente. A senhora Amândia Calheiros estendeu-me a mão e despediu-se friamente. A filha pediu ao mordomo que acompanhasse a mãe e puxou para si a função de me acompanhar à porta.

─ Espero que tenhas gostado do jantar. ─ disse, enquanto desciamos as escadas.

─ Foi melhor que ver um filme de terror.

Raquel riu-se.

─ Não foi assim tão mau.

─ A tua mãe não é propriamente a simpatia em pessoa.

─ Eu sei. ─ concordou. ─ Mas, espero que isso não afecte a nossa amizade.

Pressionei o botão da chave do carro para destrancar as portas.

─ Descansa. Não costumo avaliar as amizades pela familia delas.

Raquel aproximou-se de mim, puxando-me o braço de forma a que ficasse de frente para ela.

─ Não levaste a mal, aquilo que disse sobre a tua namorada estar longe?

─ Não. Percebo que as pessoas pensem assim.

Raquel continuava a aproximar-se.

─ E como é que um homem tão atraente consegue ficar assim tão apaixonado por um amor tão longe? ─ A sua mão acariciou-me o cabelo. ─ É um desperdicio.

Afastei-lhe a mão com ternura.

─ Dorme bem! ─ disse-lhe, beijando-lhe a face.

Ciente da recusa, Raquel recebeu o beijo e retribuiu-o. Ficou parada junto às escadas, a olhar para o carro, vendo-me afastar em direcção aos portões.

Os altos portões verdes abriram-se sozinhos para que eu saisse, fechando-se após a minha passagem. Não fiquei com a minima vontade de lá voltar.

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