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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO VI

Poderia ser considerado uma loucura, aquilo que G. D. Paúle me pagava por mês, cerca de um terço do que eu recebia no Alverca, mas o suficiente para uns três ordenados dos meus colegas. Eu fora a extravagância de um presidente euforico por levar a sua equipa, pela primeira vez, aos nacionais.

Talvez por isso, não fosse de estranhar a forma como alguns me olhavam. E claro que me cobrariam, muito mais a mim que a qualquer outro, os fracassos.

Todos os elementos da equipa eram amadores e tinham as suas profissões, o seu ganha-pão, fora do futebol. Jogar era para eles uma diversão. Para mim, era a minha vida, a minha carreira que estava em jogo a cada desafio.

Tendo todos uma profissão e horários a respeitar, a apresentação da equipa para o inicio da época foi agendada para as oito da noite no campo Engº. Calheiros, nome dado em memório do avô de Raquel, generoso doador dos terrenos para o efeito.

Conduzindo pela estrada principal de Paúle, parei em frente ao café da dona Palmira e esperei por Augusto. Nem precisei de apitar, pois ele já vinha a caminho, acompanhado por outro individuo ligeiramente mais velho mais velho.

─ É o meu cunhado, Teodoro. ─ apresentou Augusto.

─ Teo para os amigos. ─ corrigiu com simpatia o outro.

Convidei-os a entrarem no carro e seguimos.

Ao fundo da rua existia uma bifurcação. Virando à esquerda, a estrada continuava tendo à direita o muro do campo de futebol e do esquerdo várias vivendas. Seguindo em frente, tinhamos outro muro do campo de futebol à esquerda e, à direita, algumas casas e vegetação.

Seguimos em frente. O muro parecia não acabar, todo cinzento com uns três metros de altura. Ao fim de uns cento e cinquenta metros, uma porta e dois buracos onde se vendiam os bilhetes antes do jogo.

Continuei a contornar o muro, seguindo as indicações de ambos. Aquela rua terminava numa rotunda singela. Antes, um portão grande, por onde entrei com o carro.

O terreno era constituido pelo campo de futebol relvado ─ a relva não é muito comum nestes clubes pequenos que têm predominantemente campos de terra batida ─ um rectângulo acimentado com gradeamento em volta, local onde se jogava futsal e onde actuavam ranchos foclóricos. Havia um edificio de piso único com acesso ao relvado. Lá dentro, os balneários. Existiam uma pequenas bancas de bebidas para os dias dos jogos e outro edificio mais longe do relvado, a sede do clube.

Enquanto caminhávamos para os balneários, Augusto dava-me conta de que o Paúle tinha umas instalações para os jogadores ao nivel da II Divisão B. Não sabia se devia ficar satisfeito ou não.

Ao entrarmos no baneário, já todos os jogadores e outros elementos lá estavam. Augusto e Teo distribuiram cumprimentos, mas não houve tempo para apresentações. Logo de seguida, entrou a equipa técnica e o presidente.

Alfredo Carrapiço quis fazer um pequeno discurso, lembrando a gloriosa época anterior, em que haviam ganho a Divisão de Honra da Associação de Futebol de Coimbra. E desejando uma época feliz e a concretização do objectivo principal, a manutenção na III Divisão.

José Luis era o treinador da equipa. Homem com semblante rigido, ciente do que queria. Um filho da terra licenciado em Educação Fisica que, para além de treinador, era também professor daquela disciplina no liceu de Tábua. Tivera pouca sorte no mundo do futebol, nunca conseguindo um lugar de destaque ao comando de uma equipa de divisões superiores. Nunca quisera ser jogador. Queria ser o seu mentor, estar no banco a comandar. Alfredo Carrapiço contratara-o no ano anterior, quando tomou a presidencia. José Luis não tinha adjunto, sendo Abilio, o capitão de equipa, a exercer essas funções.

Ao lado de José Luis estava um senhor baixo, já com alguma idade, com fato-de-treino do clube, boina e óculos com umas lentes grossas. Fez-me lembrar a imagem do Pedroto. Tratava-se do Dr. Gervásio, médico e massagista da equipa. Pessoa bastante conceituada e querida das gentes locais, tinha um consultório no Centro de Saude da freguesia, e ainda hoje faz consultas ao domicilio.

Norberto e Augusto eram os guarda-redes do plantel. Norberto era o principal. Um individuo gordo e estatura média. Comecei a pensar como é que ele, com aquele fisico, conseguia defender um remate. O rosto era avermelhado, principalmente nas bochechas e nariz. Não tinha dúvidas que ele se metia na “pinga”. Durante o dia trabalhava como mecânico numa oficina, ali perto.

Como defesas, o G. D. Paúle tinha: Miguel Carrapiço (lateral-direito), o filho do presidente, que profissionalmente tratava de alguns negócios do pai. A seguir, Sassi (lateral-esquerdo), um brasileiro de vinte e um anos que fora contractado ao... não me lembro o nome, mas sei que era um clube dos distritais de Viseu. Trabalhava como pedreiro para a empresa de Alfredo Carrapiço, numa obra no Carregal do Sal. Depois, Joselino (central) que via o seu tempo ocupado pelos turnos no hotel de Tábua. Reis (central), encarregado de parte do pessoal das obras de Alfredo Carrapiço. Toni (central), homem com porte que impunha respeito e muito alto. Usava um penteado muito certinho e barba. Toni trabalhava no Centro de Saude como porteiro. Havia ainda o Macário (central que, por vezes, jogava a lateral-esquerdo), talhante em Paúle. E um baixinho, chamado Zacarias, que todos tratavam por Rato e que jogava nas laterais. Conhecido pelo povo local por “rato da farmácia” por trabalhar na de Midões.

Abilio, o capitão de equipa, era médio defensivo. Trabalhava num stand de automóveis em São Paio a vender carros e ainda disponibilizava tempo para voluntariado nos bombeiros locais. Justino, seu irmão, fazia a mesma posição, mas não a mesma profissão. Trabalhava na Junta de Freguesia. Ao lado deles, Teo, médio ofensivo, jogador das alas, era pintor. E Samuel, um médio para jogar na zona atrás dos avançados, trabalhava na Casa de Paúle, a residência da familia Calheiros ─ Engenheira Amândia Calheiros e sua filha Raquel Calheiros.

Perto de Samuel sentava-se Castanha. Castanha era um macaense que viera viver para Portugal, quando Macau passara para as mãos dos chineses. Jogava numa posição intermédia, aquilo a que os entendidos chamam de “numero dez”, o play maker da equipa. Profissionalmente, era consultor numa agência de viagens em Oliveira do Hospital.

Na linha avançada. Eu a extremo-esquerdo. Helder, ponta-de-lança, um ano mais velho que eu e funcionário de uma casa de ferragens. E Emanuel, extremo-direito, um tanto anafado e que não parecia ser grande jogador, o qual trabalhava numa fabrica de texteis e ainda estudava à noite.

 

Todos equipados, subimos ao relvado para o primeiro treino da época. O Sol já começava a desaparecer no horizonte, deixando o ambiente escuro a envolver-nos. As luzes do campo estavam acesas, mas eram tão fracas que mal iluminavam.

José Luis mandou todos correrem à volta do campo, excepto eu. Chamou-me perto do banco de suplentes e disse:

─ Quero falar contigo, Ivan.

Era a primeira vez que me dirigia a palavra.

─ Diga, mister.

─ Quero esclarecer alguns pontos, já desde inicio. ─ começou. ─ Não gosto de vedetas, nem que se armem nelas! Não sfui a favor da tua contractação, até porque este clube não se pode dar ao luxo de ter jogadores a custar o que tu custas. Mas, o Alfredo quis assim. Por isso, fica ciente que exigirei sempre muito mais de ti do que a qualquer outro que está neste clube!

Encolhi os ombros e respondi:

─ Pode exigir, à vontade. Se pensa que o trabalho ou o esforço fisico me atormentam, está enganado. Está a ver aquela cicatriz? ─ apontei para a minha perna. ─ Fez-me ser operado e andar de departamento médico para departamento médico para recuperar.

─ Isso é outro problema. ─ declarou o treinador. ─ Nem sabemos se estás em condições de jogar.

Mister! Disse-me que não tolera vedetas. Eu não tolero injustiças. Ponha-me lá dentro ─ apontei o indicador para o relvado. ─ e teste-me! Mas, não diga antes que eu não estou em condições sem ver. Lutei muito para ultrapassar esta fractura do perónio. Só peço que não tornem mais dificil do que está a ser, voltar a jogar.

─ Podes ir! ─ ordenou secamente o treinador.

Sozinho, comecei a correr em volta do relvado. A restante equipa já fizera meia volta, a um ritmo tão lento que quase pareciam não sair do mesmo sitio. Corri com o ritmo que sempre fiz, o que normalmente se emprega nos treinos dos clubes profissionais. Alcancei-os com facilidade.

Junto deles, percebi que corriam desconcentrados e despreocupados com a importância do treino. Conversavam entre eles sobre os mais diversos assuntos. Ultrapassei-os e segui o meu ritmo. Ouvi alguns dizerem “olha a vedeta” ou “vai com pressa”. Não liguei.

Ao passar pelo banco, vi José Luis largar o seu bloco e começar a correr a meu lado.

─ Parece que não percebeste o que te disse sobre as vedetas. ─ reclamou por entre a respiração ritmada.

─ Não me disse que iria exigir muito mais de mim? Então, tenho de estar em forma.

E acelerei de forma a deixá-lo para trás, pois começava a fartar-me da sua antipatia.

José Luis aguardou que o restante grupo chegasse até ele e começou a mandá-los acelerar o ritmo. Estes pouco aumentaram.

O treino não passou daquela corrida. Era o primeiro dia e muitos vinham em muito má forma para treinos intensos.

Após os duches, José Luis regressou ao balneário e pediu que todos prestassem atenção.

─ No próximo Sábado, vamos fazer um jogo-treino com o Vila do Mato.

─ Vila do Mato? ─ interroguei eu, pois nunca ouvira semelhante nome.

Teodoro, que enxugava a cabeça ao meu lado, informou-me que era uma vila a meia dúzia de quilómetros dali. Tinham uma equipa de futebol no segundo escalão disitrital e Alfredo Carrapiço combinara um jogo com eles.

Grande parte da equipa não trocava muitas palavras comigo e ainda me olhava com desconfiança. O meu estatuto não agradava. Porém, eu não pedira para ali estar nem tinha a culpa de ter um curriculo maior que todos os outros juntos.

Augusto aproximou-se de mim e convidou-me a ir jantar lá a casa. Primeiramente, recusei.

─ Vá lá! ─ insistiu Teodoro. ─ A Maria de Fátima e a minha sogra faziam muito gosto nisso.

─ A minha mãe faz um franguinho de churrasco... uhmm.

─ Convenceram-me. ─ disse eu. ─ Venham! Eu dou-vos boleia.

Despedimo-nos dos restantes, eles mais expressivamente que eu, e rumámos ao café do Paúle.

Àquela hora, quase não havia ninguém no estabelecimento. A dona Palmira e a filha tinham arranjado duas mesas para todos jantarmos. Quase sempre jantavam no café, pois iam comendo e servindo os clientes. Era um ambiente muito bairrista, onde todos se conheciam e onde não se faziam grandes cerimónias.

Assim que chegámos ao local, o cheirinho a frango espalhava-se pelo ar. Cumprimentei as duas anfitriãs e sentei-me no local que me haviam indicado.

─ Ainda bem que veio, senhor Ivan Pedro. ─ disse a dona Palmira.

Sorri-lhe e disse:

─ Por favor, tire o senhor. Trate-me por Ivan, dona Palmira.

─ Só se o Ivan tirar daí o dona.

Chegámos a acordo.

Num café completamente vazio, todos reunidos á volta da mesa, jantámos um delicioso frango de churrasco com batatas fritas. Conversámos agradávelmente durante aquele tempo. Contei-lhes algumas coisas a meu respeito. Eles também me relataram algumas histórias. Fiquei a saber que o marido da dona Palmira a deixara depois de Augusto nascer e que ela criara ambos os filhos sozinha. E ainda geria aquele café. A senhora falava mesmo com alguma emoção desses tempos dificeis que felizmente já eram passado.

A conversa foi interrompida pela entrada de Norberto no café.

─ Boa noite! ─ cumprimentou todos. E dirigiu-se a um dos bancos do balcão.

Maria de Fátima levantou-se e foi servir-lhe uma cerveja.

A dona Palmira, sentada ao meu lado, sussurrou-me:

─ Pobre coitado, é um desgraçado com o alcool.

─ Felizmente que quando vai para os jogos, vai sobrio. ─ disse Teodoro.

─ Quando vai. ─ corrigiu Augusto. ─ Ainda me lembro em Março deste ano, quando fomos jogar à Pampilhosa, que ele entrou em campo com uma piela.

─ É verdade. ─ corroborou Teodoro. ─ Foi uma vergonha. Ainda o jogo não tinha começado, o Zé Luis mandou-o para o balneário e disse ao Augusto para jogar.

─ Antes não tivesse ido. ─ lamentou o outro. ─ Sofri cinco golos nessa tarde.

Mais algumas pessoas foram chegando, mas Maria de Fátima ia dando conta do recado. E, em frente a Norberto, os copos iam multiplicando-se.

─ Tem uma filha. ─ informou a dona Palmira. ─ Deve ter uns...

─ Quinze ou dezasseis. ─ adivinhou Teodoro.

A dona Plamira continuou:

─ Pobrezinha com um pai assim. É ela que faz tudo lá em casa.

─ E a mãe? ─ indaguei.

Teodoro, baixando a voz ao máximo, relatou:

─ Matou-se quando a miuda era pequena. Fartou-se das cargas de porrada que ele lhe dava e enforcou-se. Foi a miuda que deu com ela, lá em casa pendurada numa viga do tecto.

─ A miuda não bate bem! ─ afirmou Augusto.

─ Não digas isso. ─ repreendeu a dona Palmira.

─ É verdade. ─ insistiu Augusto. ─ Mal fala com as pessoas. Ninguém a vê a maior parte do tempo. E o Xavier diz que a costuma ver chegar a casa ás tantas da madrugada.

─ Esse também, deixa lá. ─ lamentou a senhora.

─ Quem é o Xavier? ─ perguntei.

─ É o irmão do Samuel, lá da equipa. ─ explicou Teodoro.

─ Um drogado que aí anda. ─ adicionou Palmira.

Espantei-me com o facto de se falar em droga numa terra tão pacata:

─ Também há cá disso?

─ Claro sen... desculpe, Ivan. ─ confirmou Palmira. ─ Pensa que só nas grandes cidades é que há drogados? Nós também cá temos.

─ Que se saiba, é só esse. ─ corrigiu Teodoro.

─ Talvez...

─ O tipo levou uma tareia do irmão, já lá vai algum tempo. ─ lembrou Augusto.

─ Sim. Robou os pais para comprar droga. ─ disse Palmira. ─ Agora, segundo se diz, tudo o que ganha lá onde trabalha, no Carregal é para a droga. E parece que já assaltou algumas lojas em Oliveira do Hospital. Não sei se será verdade. Aqui, nunca roubou nada.

─ Os pais são os donos da mercearia em Midões, não sei se conheces? ─ informou Augusto.

Abanei a cabeça negativamente.

─ São uma joia de pessoas. ─ congratulou Palmira. ─ Têm ambos uns sessenta e... qualquer coisa. A Gertrudes é uma santa. É lá que costumo comprar as coisas aqui para o café. O Herculano, o marido, é que anda muito doente.

Teodoro chamou-me, puxando-me o braço, e contou:

─ A filha deles, a Deolinda, é casada com o Abilio.

─ Trabalha na Casa de Paúle como criada.

Olhei para o relógio. A noite já ia longa e o café cheio de gente. A dona Palmira afastou-se e foi ajudar a filha no atendimento, tal como Augusto. Teodoro permaneceu ali.

─ Então? Que tens achado disto? ─ perguntou.

─ Confesso que ainda me estou a adaptar.

─ O que é que te fez vir jogar para cá?

Encolhi os ombros.

─ Foi o único clube disposto a contractar-me, depois de ter fracturado a perna.

─ Partiste a perna?

─ O ano passado em Faro, a jogar pelo Alverca.

─ Mas pareces estar em forma.

─ Não é o que os médicos do Alverca dizem. Por isso, fui dispensado.

Teodoro pediu um café ao cunhado.

─ Tens esperança de voltar a jogar no Alverca? Não me vais dizer que vens fazer carreira para o Paúle?! ─ interrogou.

─ Não. Acho que ninguém acreditaria nisso. Mas também não tenho ideias de voltar a jogar pelo Alverca. Quero demonstrar que ainda tenho capacidade de jogar futebol. O meu empresário acha que se jogar sempre no Paúle, consegue provar que estou em condições e arranjar-me lugar numa equipa secundária da Superliga ou numa equipa da II Liga.

─ O Paúle é só uma ponte.

─ Não vejas isso assim. Enquanto aqui jogar, lutarei pelas vitórias, tanto quanto vocês. Mas, tal como disseste, não esperem que faça carreira aqui.

─ Compreendo.

Algumas pessoas começavam a ir-se embora. A hora já ia adiantada e aproximava-se a hora de fechar.

Despedi-me de todos, apesar das insistências para que ficasse mais um pouco. Agradeci o maravilhoso jantar e serão.

 

Parado no cruzamento à saida de Paúle, reparei numa vivenda de dois pisos, mesmo em frente. Tinha um mini-mercado no rés-do-chão, encerrado e completamente às escuras. O primeiro andar dividia-se em dois apartamentos. No da direita, viam-se luzes e estava habitado. No da esquerda, tudo escuro e com um letreiro a dizer “aluga-se”.

Estacionei junto à berma e caminhei até lá.

Viver no hotel tornava-se demasiado dispendioso. Devido a isso, a ideia de alugar uma casa parecia ser a mais razoavel.

O letreiro não tinha contactos. Seria melhor voltar no dia seguinte, a uma hora mais propicia, para saber que a arrendava.

A porta do apartamento ao lado abriu-se. Vi aparecer na varanda o Dr. Gervásio.

─ Boa noite, doutor! ─ cumprimentei eu.

─ Boa noite, Ivan! ─ retribuiu, descendo as escadas e caminhando até mim. ─ Que faz por estas bandas?

─ Nada de especial. ─ disse, apertando-lhe a mão que me estendera.

─ Está uma bela noite de Verão.

Olhando para o apartamento, perguntei:

─ O doutor vive aqui?

─ Sim, porquê?

─ Não sabe quem é que está a alugar o apartamento ao seu lado?

─ Sei! Os donos deste edificio são os Calheiros. Está interessado é?

─ Estou.

─ Então, fale com a engenheira Calheiros. Eu tenho o numero dela. Espere um pouco que vou buscar.

O médico regressou a casa. Aguardei alguns minutos até que voltasse com um papel rasgado na mão, contendo o numero da senhora.

Despedi-me dele e reentrei no automóvel, seguindo rumo a Tábua.

A vila era um deserto. Não se via ninguém na rua tão tarde.

Entrei no hotel e cumprimentei o Joselino que estava a fazer o turno da noite. Meti-me no elevador e subi até ao andar do meu quarto.

Acendi a luz, sentei-me na cama e descalcei os sapatos. Liguei o computador e fui à procura no programa de email por noticias de Camila.

Nada.

Voltei a escrever-lhe um novo email pedindo que me respondesse, que gostava de ter noticias dela, etc...

Inconsciêntemente, comecei a ter noção de que Camila poderia já não estar interessada em falar comigo. Magoei-a muito. E talvez ela nunca me perdoasse isso.

Desliguei tudo e fui dormir.

 

O sono foi abruptamente interrompido pelo soar do telemóvel. Acordei com a sensação que acabara de adormecer. Porém, olhando para a janela, percebi que o dia já ia avançado.

Atendi. Do outro lado da linha, o meu pai. Queria saber como estava, se tudo corria bem. Ainda no dia anterior falara com ele. Disse-lhe que estava tudo bem.

Costumávamos falar quase todos os dias. Ora telefonava eu, ora telefonava ele. Falava com a familia toda, a cada chamada.

Após desligar, peguei no número que o doutor Gervásio me dera, deixado junto ao computador, e digitei os algarismos no telemóvel.

─ Calheiros Property, bom dia! ─ atendeu uma voz feminina.

Não evitei uma risada. Um nome inglês para uma imobiliária de provincia.

─ Bom dia! Eu estou a ligar por causa de uma casa que têm para alugar, ali para os lados de Paúle.

─ Estou a falar com o senhor...

─ Ivan Pedro.

─ Como está, senhor Ivan Pedro? Em que posso ser útil?

Ok. Tinhamos uma jovem formada num call center. Nota-se logo pela forma de falar.

─ Estava interessado em alugar essa casa que lhe falei. Mas, gostaria de a ver primeiro.

─ Claro. Vou dar-lhe o contacto do nosso agente encarregue dessa zona.

Escrevi os sete digitos do telemóvel do individuo e desliguei. Voltei a marcar os numeros no aparelho e aguardei que me atendessem.

Atendeu-me um homem. Falei-lhe das minhas pretensões e ele concordou em encontrarmo-nos à porta da casa, nessa tarde. Repetiu-me várias vezes que a casa estava impecável e que era um belo negócio.

 

Com o Sol a bater-me de chapa, sentindo todo aquele calor seco do interior do pais, aguardava encostado ao carro pela chegada do individuo. Cinco minutos após a hora combinada, o homem de fato e gravata chegou, ao volante de um Opel Corsa preto.

Apresentámo-nos. Pegando na chave do apartamento, convidou-me a subir as escadas e a ver a casa.

Ao abrir a porta, vi um corredor de uns cinco metros com piso de mosaicos e paredes pintadas de bege. Entrámos e o agente imobiliário começou a falar-me das vantagens de alugar a casa e como o preço era tentador.

Atenciosamente e com visivel interesse em agradar, o homem guiou-me pelo interior. No corredor havia duas portas à esquerda, uma à direita e outra ao fundo. A da direita dava para a sala. Reparei que estava mobilada, assim como o resto da casa, o que era uma vantagem. Tinha sofás confortáveis (um deles, sofá-cama), um armário e uma televisão.

Seguimos para a primeira porta do lado esquerdo, uma cozinha bem equipada com o essencial a poder funcionar, frigorifico, fogão, máquina de lavar roupa e mais alguns pequenos electrodomésticos.

Passámos à porta seguinte, a casa-de-banho. Não tinha banheira, mas sim um poliban no seu lugar.

Por último, a porta ao fundo, o quarto, já com cama de casal, guarda-fato e uma pequena cómoda.

─ Que achou? ─ perguntou-me o individuo, finalizando a visita.

─ Gostei. Ainda não me falou no preço.

O homem falou em tantos euros. Eu negociei o valor e chegámos a um acordo. Como tinha alguma pressa em ver o assunto resolvido, combinei com ele acompanhá-lo até ao escritório e formalizar o acordo.

 

Já era noite, quando regressei ao hotel, após mais um treino em Paúle. Trazia na mão a cópia do contracto de arrendamento e a chave da nova casa.

Entrei no quarto e telefonei para o serviço do hotel, pedindo que me trouxessem o jantar. Larguei a papelada sobre o móvel e fui para a casa-de-banho tomar um duche.

Alguns minutos mais tarde, bateram à porta. Fui abrir com a toalha enrolada à cintura e o corpo molhado. Recebi o empregado do hotel que me vinha entregar o jantar.

Vesti uns calções e liguei o pequeno portátil. Enquanto o ouvia processar a inicialização do sistema, fiquei a olhar para as ruas da vila iluminadas pelos candeeiros.

Sentei-me na cama e deliciei-me com o jantar. Croquetes de carne com batatas fritas e salada de alface.

Finda a refeição, fui até ao computador para ver se tinha mensagens no email. Mais uma vez, nada. Camila definitivamente não queria conversas comigo, nem por email.

Como tinha alguma curiosidade acerca de como ela estaria, telefonei ao Jorge.

─ Então como estão a correr as coisas aí em cima? ─ perguntou-me ao atender.

─ Correndo...

─ Não pareces muito motivado.

─ Tu estarias? ─ interroguei.

─ Para ser sincero, não!

─ Olha! Tens tido noticias da Camila? ─ indaguei, não querendo dar a entender que esse era o motivo principal do meu telefonema.

─ Ela tem telefonado ao Eduardo. ─ informou ele. ─ Disse-lhe que estava tudo a correr bem, lá em Nova Iorque. E que os colegas novos eram todos porreiros.

─ Não perguntou por mim?

Jorge não respondeu logo, talvez pensando se me haveria dizer a verdade ou mentir. Optou pela primeira:

─ Não, Ivan! Ela não perguntou por ti.

─ Já me esqueceu! ─ afirmei.

─ Não acredito. ─ recusou ele. ─ A Camila ama-te demais para te esquecer em tão pouco tempo. Acho mesmo que ela nunca te esquecerá.

─ Nota-se.

─ Dá-lhe tempo. ─ pediu.

─ Não preciso de lhe dar nada. Ela já demonstrou que caminho a nossa relação deve seguir. ─ argumentei. ─ É bom que ela me esqueça, pois eu já a esqueci.

Não me conseguia convercer disso, quanto mais convencer os outros.

Jorge disse-me que sim. Porém, sabia que não era o meu coração que estava a falar.

Após o telefonema, voltei a sair do hotel para apanhar ar e colocar as ideias em ordem. Sentia que talvez tivesse tomado a decisão errada.

Caminhei pelo passeio da vila e desci até ao café, deixando-me cair numa cadeira da esplanada.

O funcionário cumprimentou-me com simpatia e perguntou-me o que desejava. Pedi-lhe um café.

Era extraordinário a forma como as pessoas se tratavam ali. Havia sempre uma palavra simpática, um cumprimento. Todas as pessoas se conheciam e, caso não se conhecessem, cumprimentavam-se.

Tomei o café e reparei nas pessoas que ali estavam. Não pude deixar de notar os olhares que uma bela jovem me atirava. Devia ter a minha idade e vestia roupas que insinuavam a sua forma corporal.

Lembrei-me daquele acontecimento, dias antes. Aquele momento de sexo pelo sexo do qual me arrependera assim que terminara. Não posso dizer que tenha sido uma lição, mas concluí que estes momentos ocasionais de “dar uma” e ir cada um para seu lado já não me satisfaziam. Nada se comparava a fazer amor com Camila.

Tinha imensas saudades de Camila. Apetecia-me desistir de tudo e ir atrás dela. Pensei que poderia fazer a mala, partir para Lisboa, na manhã seguinte, e apanhar o avião para Nova Iorque e... Sonhos. A vida não era assim. Eu tinha desistido dela. E ela de mim.

Reparei que a jovem na esplanada continuava a olhar para mim. Levantei-me e fiz sinal ao empregado. Paguei-lhe e fui-me embora.

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