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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO V

Acordei no quarto de hotel pela manhã, bem cedo. Já ia para o terceiro dia que ali estava, mas ainda não me habituara. Desde que chegara àquela região, passava os dias entre o quarto, andar pela rua ali perto e tomar um café numa pastelaria próxima.

Levantei-me e caminhei até à janela para observar a paisagem. Tudo tão calmo e sereno. No primeiro dia em que ali dormi, tive dificuldade em adormecer porque o silêncio incomodava-me. Nós, que nascemos e nos criámos nos grandes centros urbanos, temos alguma dificuldade de nos ambientarmos a esta paz da província.

Olhei para o calendário que colocara em cima da cómoda do quarto. Havia uma bola a marcar aquele dia. E eu sabia porquê, pois fora eu quem a desenhara. Fizera-o para não me esquecer que aquele era o dia em que Camila partia para os Estados Unidos.

Voltei a olhar lá para fora, para o céu, como se tentasse naquela direcção ver Lisboa. Ignorava o facto de estar demasiado longe e possivelmente nem estar na direcção correcta.

Dirigi a minha atenção para o relógio. Era cedo, mas não demasiado. Dei alguns passos até à cabeceira da cama e peguei no telemóvel. Marquei o número de Camila e esperei. Tocou algumas vezes até surgir o voicemail. Desliguei.

Atirei o telefone para cima da cama. Telefono mais tarde, decidi. No entanto, não sabia muito bem o que lhe havia de dizer. Optei por voltar a ligar para ela.

Novamente tocou até surgir o voicemail. Esperei pela mensagem.

─ Olá! Falou para a Camila. De momento, não posso atender. Se quiser, depois de ouvir o pi, deixe a sua mensagem.

─ Olá Camila! ─ comecei. ─ Não me esqueci da tua partida hoje. Queria desejar-te uma boa viagem e... ─ Fiquei em silêncio. ─ Não sei o que dizer. Amo-te! Amo-te muito! Mesmo sabendo que tu não acreditas. Sê feliz! ─ E desliguei, amargurado.

Caminhei de novo até à cómoda. Liguei o portátil e abri o browser para navegar até ao site da ANA. Através dele, podia ver os horários das partidas e chegadas ao Aeroporto da Portela. Cliquei aqui e ali. Lá descobri a hora do vôo Lisboa – Nova Iorque.

O telefone do quarto tocou.

─ Sim?

─ Bom dia, senhor Ivan! ─ disse uma voz feminina. ─ Fala da recepção! É para avisar que está aqui uma jovem para falar consigo.

─ Quem? ─ perguntei com pouca paciência para visitas.

─ É a menina Raquel que o aguarda no bar do hotel. ─ disse a voz com reverência na informação do nome.

─ Diga-lhe que já desço.

Desliguei.

Calmamente, fui tomar um duche. Que quereria ela? Possivelmente, vinha pagar a gasolina do outro dia. Não era preciso.

Saí do duche, sequei-me e vesti uma roupa fresca desportiva. Peguei no telemóvel, na esperança que Camila telefonasse, e desci.

Ao chegar ao bar, encontrei Raquel sentada num dos luxuosos sofás. Deslumbrante é pouco para a definir. Envergava um vestido azul sem mangas e com uma gola até ao pescoço, o qual terminava numa saia comprida. Todo ele muito justo. Calçava sandálias, uma das quais abanava irrequietamente, impaciente pela minha chegada.

Ao ver-me, puxou os óculos escuros para o topo da cabeça e revelou o olhar azul.

Aproximei-me e cumprimentei-a com “bom dia”.

─ Costumas fazer as pessoas esperar tanto tempo? ─ respondeu irritada.

─ Não! Só as que aparecem sem avisar. ─ contrapus.

Acho que ela não estava muito habituada a ser contrariada ou a que lhe respondessem no mesmo tom. Levantou-se para ficar à minha altura e disse:

─ Não és muito simpático, sabias?

Sorri-lhe.

─ Já me disseram coisas piores. Mas, pronto, desculpa!

Raquel retribuiu o sorriso.

─ Vim fazer-te uma visita. Já sei que não queres que te pague a gasolina. Mas, posso convidar-te para almoçar?

Deitei uma olhadela ao relógio.

─ Podes.

─ Então está combinado. Tenho de ir tratar de uns assuntos. ─ avisou. ─ Venho ter contigo dentro de uma hora. ─ E saiu, sem esperar que eu dissesse se estava bem ou não.

Não consegui evitar olhar para ela e para os seus pontos mais atraentes. Que bem que me sabia o almoço se ela fosse o prato principal.

Seria realmente capaz? Foi a minha ideia seguinte. Desde Camila que nunca mais pensara em sexo com outra mulher. Nos últimos anos, Camila era a única que me despertava sexualmente. Contudo, ia fazer uma semana que estávamos separados. E eu não sou de ferro! Acabei por me convencer que não seria capaz de traír Camila. Como se o eu e Camila ainda fosse uma realidade.

Saí do hotel e fui passear pela vila. Levava o telemóvel na mão, esperando que tocasse. Algo em mim esperava uma chamada de Camila, um agradecimento, um “amo-te”... qualquer coisa que me permitisse voltar a ouvir a voz dela. Atravessei a rua e entrei numa papelaria para comprar o jornal.

O ar era quente. Até à sombra se sentia a pele a bronzear. Regressei ao hotel, deliciado com o ar condicionado fresco do interior. Passei pela recepção e segui até ao salão, onde um funcionário me serviu um sumo de laranja.

Desfolhei o jornal, procurando alguma noticia de interesse.

O telemóvel tocou. Procurei-o com a ansiedade de um adolescente que aguarda um telefonema da namorada. Olhei para o visor e vi o nome do Jorge escrito. Acho que atendi de uma forma algo rispida.

─ Bolas! Que mal te fiz?

Mudei o tom de voz:

─ Desculpa! Esperava uma chamada de outra pessoa.

─ Da Camila?

─ Como adivinhaste? ─ indaguei eu.

─ Estive com ela há cerca de um quarto de hora. ─ informou. ─ Já deve ter partido para a América. Pediu-me que te dissesse que te desejava muita sorte.

Senti-me ferido por não mo ter desejado ela própria e ter mandado mensageiro.

─ Como estão a correr as coisas por aí?

─ Bem...

Sei que soou a falso. E ele percebeu isso, mas não se pronunciou.

 

Raquel mostrou-se pontual. Cerca de uma hora após ter combinado comigo ali, lá estava.

Almoçámos no restaurante do hotel. Notava nela uma postura muito elegante, como se tivesse sido educada num meio de muita classe. Já ouvira comentários acerca da sua familia, extremamente rica, donos de um palacete enorme a cerca de dois quilometros de Paúle, rodeado por uma imensidão de terreno.

Sentada à minha frente, com a mesa entre nós, Raquel segurava a taça de vinho branco com o indicador e o polegar, suavemente. Pegava na faca e no garfo com subtileza e levava pequenos pedaços de comida à boca, mastigando-os quase sem mexer os maxilares. Perante ela, eu parecia um pelintra, tão desprovido de educação para ali estar. Logo eu que me considerava com alguma classe.

─ Dizem que és uma vedeta do futebol. ─ disse, após engolir. Nunca falava com comida na boca.

─ Vedeta? ─ Não evitei uma risada. ─ Longe disso. Muito longe, mesmo.

─ Onde jogavas? Benfica, Sporting...? ─ questionou. ─ Desculpa, mas não percebo muito de futebol.

─ Alverca. ─ informei, vendo-a aproveitar a minha fala para levar mais um pedaço de comida à boca.

Mastigou, engoliu, bebeu um golo de vinho e disse:

─ Não conheço.

Tomei atenção para não falar com a boca cheia.

─ Já me disseste que ambicionas ser médica e bem longe daqui. Como estão a correr as coisas?

─ Vou começar o último. Espero no próximo ano iniciar o estágio.

─ Em Coimbra?

─ Sim.

─ É suficientemente longe? ─ perguntei com um sorriso.

Raquel respondeu ao meu sorriso e à minha pergunta:

─ É!

─ No outro dia, deixaste bem explicito o quanto “amas” a terra.

Raquel lançou-me um olhar diferente, como se procurasse o fundo dos meus olhos.

─ Tu também não gostas muito disto? Ou estarei enganada?

Abanei a cabeça. Tomei um pequeno golo de ice tea e respondi:

─ Não, não estás. Mas eu nasci em Lisboa e estou habituado a outro ambiente. Agora tu...

─ Eu nasci aqui, mas fui viver para Madrid, aos cinco anos, quando os meus pais se divorciaram. Só voltei aos catorze, quando ele morreu, para viver com a minha mãe. A partir daí, só cá estava nas férias. Ela quis sempre que eu estudasse nas melhores escolas e mandou-me para Coimbra. ─ Fez uma pausa. Como não disse nada, continuou. ─ E tu? Fala-me de ti.

─ Que queres saber?

Um funcionário do restaurante aproximou-se, retirou os pratos e deixou a ementa para seleccionarmos a sobremesa.

─ Tens familia? Mulher? Filhos?

Olhei para a lista e disse:

─ Os meus pais vivem em Lisboa. Tenho uma irmã mais velha e uma sobrinha que vivem com eles.

Raquel sugeriu um doce muito bom e eu concordei.

─ Solteiro?

─ Sim.

─ E namorada? Tens?

Sorri, achando graça ao interesse. Porém, lembrando-me de Camila, senti a amargura de saber que ela estava cada vez mais longe. O sorriso desapareceu.

─ Prefiro não falar nisso.

─ Tudo bem. Eu também não tenho.

Primeiro: Não te disse se sim, se não. Segundo: Que me interessa isso? Pensei, mas não disse. E ainda bem, pois estaria a dirigir para ela uma raiva que sentia para comigo por ter deixado Camila.

Saboreámos uma deliciosa sobremesa de frutas.

Raquel olhou para o relógio.

─ Tenho de ir. Fiquei de me encontrar com a minha mãe.

Levantou-se, despediu-se de mim com um beijo que mal me tocou a face e partiu, deixando-me a conta.

O mesmo funcionário abeirou-se de mim e perguntou se desejava mais alguma coisa.

─ Traga-me um café e a conta, por favor.

Também não tinha intenções de aceitar que ela pagasse. Porém, ela podia ter feito aquela cena do “eu pago... eu insisto... tudo bem, pago para a próxima”.

Assinei o papel da conta e regressei ao quarto.

 

Ao fim da tarde, tal como vinha fazendo desde que chegara, saí do hotel e fui correr. Adoptei um programa de treino, enquanto não começavam os trabalhos da equipa. Ainda sentia algumas dores na perna. Não sei se seria psicológico ou realmente fisico. Fazia um pequeno trajecto de três, quatro quilómetros só para me manter em forma.

Ao passar em frente à esplanada da pastelaria perto do hotel, ouvi uma voz chamar o meu nome. Parei e olhei para lá.

Descendo os poucos degraus até ao passeio, Augusto aproximou-se de mim, vindo acompanhado por outros dois homens.

─ Fomos alí ao hotel, mas disseram-nos que tinhas saido. ─ contou Augusto. ─ A treinar?

─ Manter a forma. ─ corrigi.

─ Ivan, estes são o Abílio e o Justino.

Abílio era um individuo de estatura média. Tinha trinta e quatro anos e era capitão de equipa do G. D. Paúle. Usava um penteado com pôpa e vestia um fato-de-treino, como se isso fosse uma roupa usual para andar a passear.

Justino era irmão de Abílio. Era treze anos mais novo e jogava, tal como o mano, a médio centro. Achei graça ao cabelo comprido que lhe caia despenteado pela cabeça, tornando-se quase incomodativo. Vestia umas calças de ganga gastas e uma camisola do Sporting.

─ Disseram que já jogaste no Sporting?! ─ interrogou Justino.

─ Passei por lá. ─ respondi.

Abílio limitou-se a apertar-me a mão, ficando a olhar-me com ar desconfiado.

Augusto deu-me uma palmada nas costas e convidou:

─ A malta, logo à noite vai beber um copo. Queres vir?

─ Não, obrigado. Não bebo.

Os outros dois soltaram duas gargalhadas por eu dizer aquilo. Parecia que não beber alcool era uma anormalia.

─ Anda lá. ─ insistiu Augusto. ─ Há lá umas gajas giras.

Se forem todas tão lindas como a tua irmã, pensei.

Não estava com muita vontade, mas Augusto insistiu tanto que acabei por combinar com eles no Paúle às dez da noite.

No hotel, tomei um duche fresco e vesti umas calças e camisola pretas. Pedi que me levassem o jantar ao quarto.

Enquanto esperava, fui até ao computador navegar pela Internet, ler as noticias do desporto.

Abri o email e encontrei-o vazio. Olhei para a lista de endereços e logo me deparei com o nome de Camila. Cliquei duas vezes sobre o seu nome e uma nova janela se abriu no computador. Escrevi que tinha saudades dela, mas apaguei. Voltei a escrever que tinha saudades e que esperava que ela tivesse chegado bem. Desejei que ela tivesse sorte e sucesso em Nova Iorque. Despedi-me com um “gosto muito de ti” e pedi para que ela não me esquecesse, pois eu jamais a esqueceria.

Conforme combinara, à noite, lá cheguei eu ao Paúle. Uma tentativa de socializar com as gentes locais, apesar de me sentir extremamente deslocado.

Ao chegar, vi que Augusto já me aguardava, dentro de outro carro, na companhia de Abílio, Justino e outro que na altura não reconheci. Atrás destes, estava Miguel Carrapiço, noutro carro, acompanhado por Joselino e outro.

─ Vem atrás de nós. ─ gritou Augusto.

Acenei que sim e segui-os.

Conduzi na traseira de um Fiat Punto azul muito desgastado. Tomámos a estrada à saída de Paúle, na direcção oposta à que me trouxera. A estrada atravessava uma zona de pinhal que, durante a noite, era tão escura e medonha que a última coisa que nos apetecia era parar ali. Poucos quilómetros andados, vi alguns candeeiros de rua. Estávamos a passar por Travanca, mais uma pequena aldeia.

O pinhal escuro continuou. A luz dos faroís, passados mais meia dúzia de quilómetros, revelou-me uma tabuleta que dizia Oliveira do Hospital. Entrámos na cidade. Esta tinha um aspecto significativamente mais desenvolvido e civilizado que todas as terras em redor.

Limitando-me a seguir os outros dois carros, sei que passei por ruas, virei em curvas, entrei e saí de rotundas, até Oliveira do Hospital ficar para trás.

Novamente em mais pinhal escuro, vi outra placa a dizer Oliveira do Hospital e com um traço vermelho a atravessá-la de ponta a ponta.

Penso que deveríamos ter feito quinze a vinte quilómetros, na altura em que virámos num desvio e entrámos num pequeno parque com piso em terra batida. Parei ao lado dos dois veículos que me acompanharam e saí.

O grupo reuniu-se ali. Augusto apresentou-me os dois elementos que eu não conhecia. Xavier, um jovem de vinte e poucos anos, magrinho e com um rosto exageradamente marcado pelas olheiras. E Samuel, irmão de Xavier, mais velho e mais forte.

Entrámos numa casa contígua ao parque.

Aquele lugar era um bar, propriedade do presidente do G. D. Paúle, que os meus novos colegas de equipa gostavam de frequentar.

Entrei e deparei com um interior iluminado por luzes psicadélicas, mesas e cadeiras espalhadas pelo salão e alguns sofás mais recolhidos. No meio do salão, vários casais dançavam ao som de Nélson Ned.

Mal entrei, tive vontade de sair. Contudo, não querendo ser desmancha-prazeres, lá fui com eles.

Sentados à volta de uma mesa, todos pediram whiskys, excepção feita à minha pessoa. Solicitei uma limonada fresca. A empregada, vestida de top e mini-saia pretos com a barriga a abarrotar para o exterior, torceu a cara como se não me quisesse servir. Abílio levantou-se, apalpou-lhe o rabo e disse:

─ Vá! Traz lá a limonada ao rapaz.

E afastou-se.

Acompanhei-o com o olhar e vi-o ir ter com outra mulher num dos sofás mais recatados.

A música mudou de Nélson Ned para outra balada qualquer. Reparei que mais dois dos nossos amigos se tinham esgueirado para os sofás, ao encontro de mulheres que os aguardavam. E pareciam já se conhecer muito bem.

A empregada trouxe-me o sumo. Dessa vez, pude reparar como era feia. Logo depois, duas mulheres gordas com vestes provocantes e aspecto de quem já perdeu o prazo há muito tempo, aproximaram-se da nossa mesa e perguntaram:

─ Será que não nos oferecem um copo?

Aqueles pacóvios ficaram todos babados e começaram a abrir espaço para que elas se sentassem.

Percebi que aquilo era um bar de alterne. E aquelas duas, tal como muitas outras que vagueavam pelo salão, não eram mais que alternadeiras. Todas tão feias que só vendo para acreditar. No entanto, eles estavam deliciados como se estivessem na companhia da Fernanda Serrano ou da Sofia Aparício ou até da Marisa Cruz.

Acho que fiquei com bicho-carpinteiro. Se já me sentia deslocado, então aquilo era inadaptação demais. Recordar-me, nos meus velhos tempos de mulherengo ─ como Eduardo me chamava ─ em que ia à noite de Lisboa sozinho e saia sempre acompanhado de uma Marisa Cruz ou uma Fernanda Serrano.

─ Pessoal! Vou andando. ─ disse, querendo ver-me livre daquele ambiente.

─ Já! ─ reclamou Augusto.

─ Deixem-se ficar. ─ continuei. ─ Amanhã, contam-me tudo. ─ como se isso me interessasse.

Lancei uns apertos de mão vagos e abandonei o bar com toda a pressa. O ar da província nunca me soube tão bem, assim que cheguei ao parque. Meti-me no carro e tomei o caminho de volta, por entre o pinhal sombrio.

Ao atravessar Oliveira do Hospital, passei por uma rua, onde um néon piscava aos soluços. Reduzi a velocidade do carro e ouvi a música vinda do interior. Era completamente diferente do local onde estivera e tinha um ritmo que me fazia lembrar... Lisboa.

Parei e decidi ir inspeccionar o local.

Ao chegar junto da porta, reparei num segurança alto, entroncado com cara de poucos amigos. Revi na minha memória a cena em que conhecera Camila e senti as saudades de a ter comigo. Esperei ser recebido com a mesma forma arrogante e preconceituosa como os seguranças fazem a seriação dos clientes nos bares. Um homem sozinho não é o protótipo do cliente ideal.

─ Boa noite! ─ cumprimentei o indivíduo.

Este retribuiu o cumprimento e abriu-me a porta do bar.

Ena, parece que afinal não é tudo mau por aqui.

Entrei. Lá dentro, tudo cheio. Não havia uma mesa vaga e o balcão em forma de U estava apinhado de jovens. Era tudo malta na casa dos vinte, trinta e alguns, quarenta. Abri espaço entre eles e pedi uma cheers ao tipo que atendia ao balcão.

Confesso que fiquei deliciado com o interior. Tudo muito ao espirito dos bares de Alcântara, com um pequeno palco ao fundo, onde alguns jovens tinham a oportunidade de mostrar o seu talento, cantando versões de músicas bem conhecidas.

Notei que uma jovem, do outro lado do bar, me olhava. Fingi não reparar, mas todas as vezes que dirigia para lá o olhar, ela me observava. Não estava na minha mente, nada do que possivelmente estaria na dela. Acabei por me virar de costas e olhar para o palco. Segundos depois, ela estava à minha frente.

Parecia jovem, quase demasiado jovem para ali estar. Vestia uma camisola de alças muito justa e uma saia curta, larga. Não pude evitar de reparar na cova entre os seios que o decote revelava.

─ Posso pagar-te um copo? ─ perguntou, sorrindo-me languidamente.

─ Podes, se me fizeres companhia. ─ respondi.

Num instante, estava a entrar no jogo, mas não me importei.

Pedi outra cheers e um vodka com limão para ela.

Ficou junto a mim, enquanto bebíamos e ouvíamos um jovem que cantava uma versão de feel do Robbie Williams. Porém, ela pouca atenção prestava à música. Comecei a sentir a sua mão na minha perna, subindo até... Travei-a com a minha e olhei para os seus olhos escuros. Tinha um rosto bonito e umas bochechas rosadas. O seu olhar dizia tudo o que queria de mim.

─ Está calor aqui. ─ disse-me ao ouvido. ─ Anda apanhar ar.

Puxou-me pela mão e levou-me para a casa-de-banho. Entrámos num dos compartimentos e ela sentou-me na sanita. Parte de mim não queria, mas... Já lá ia mais de uma semana sem...

Fechei os olhos e senti-a meter-me a mão dentro das calças. Puxar para fora o que queria e tocá-lo com a ponta da lingua. Arrepiei-me até à espinha. Imaginei que era Camila que ali estava comigo, tentando que isso atenuasse a minha culpa.

Atrás da lingua vieram os lábios que apertaram desde a ponta até à base. Que bem que me estava a saber, sentir a mão dela movimentar-se, ritmadamente, num dueto perfeito com os lábios.

Parou. Abri os olhos e vi-a rasgar a embalagem de um preservativo. Colocou-mo com a eficiência de uma profissional e sentou-se ao meu colo. Não tinha cuecas. E, mal me apercebi, já lá estava dentro.

Enrolei-lhe a camilsola até lhe descobrir o peito. Tinha seios pequenos, mas com tanta excitação nem ponderei a hipotese de ela ser muito nova.

Podia ser nova, mas sabia o que fazia. Novamente de olhos serrados, apalpava-lhe o peito, enquanto ela saltava sobre o meu membro. Tentava imaginar que era Camila, mas a reacção ao toque, a expressão de prazer e os gritos que dava rapidamente me lembravam que não era.

Quase ensurdeci com o berro que ela deu ao atingir o orgasmo. Tive o meu, logo de seguida, juntamente com um sentimento de culpa que me trespassava como uma espada.

A estranha levantou-se, puxou a camisola para baixo e disse:

─ Foi bom.

Meio aturdido com toda a situação, perguntei:

─ Que idade tens?

─ Dezasseis.

Se já sentia uma espada, passei a sentir duas.

Indiferente a mim ou ao que acabaramos de fazer, a jovem misteriosa arranjou a roupa e deixou-me sozinho sentado numa pia, com as calças pelos joelhos.

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