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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO IV

Passara quase um mês, desde o final da época. Nenhum clube surgira interessado em mim, até porque um jornal desportivo tornara público, as fortes possibilidades de eu não voltar a jogar. No emprego, Camila começava a ser pressionada a dar uma resposta à proposta de ir para os Estados Unidos. E ela, por sua vez, pressionava-me a aceitar acompanhá-la.

Numa tarde de Sexta-Feira, Jorge telefonou-me a dar-me conta dos últimos desenvolvimentos.

Não havia um único clube até à 2ª Divisão B que me quisesse contratar. Porém, Jorge fora contactado por um clube da III Divisão, interessado em mim.

─ Quem? ─ perguntei.

─ É o Grupo Desportivo do Paúle. ─ informou. ─ Um clube que subiu à 3ª Divisão esta época. São de uma aldeia no interior do país, lá para os lados de Viseu ou Coimbra, não sei.

─ Estás a brincar comigo, não? ─ refilei eu, ansiando para que não fosse verdade.

─ Não, Ivan, não estou. ─ confirmou. ─ É uma equipa que subiu aos nacionais pela primeira vez. E vão jogar a série C na próxima época. O presidente do clube é um tipo cheio da massa que quer contratar uma figura de destaque para alegrar ainda mais os adeptos. E calar aqueles que dizem que eles não vão lá fazer nada.

─ Nem penses, Jorge. ─ recusei. ─ Agora vou jogar para a parvónia?

─ Pensa bem, Ivan. ─ insistiu. ─ Pode ser a tua única oportunidade de provares que ainda podes jogar a alto nivel.

─ A alto nivel no Desportivo dos Pulos?

─ Grupo Desportivo do Paúle, Ivan!

─ Isso...

─ Ivan, estou a propôr-te uma época. ─ argumentou. ─ Se jogares sempre, ou quase sempre, posso conseguir que daqui a um ano estejas a jogar, pelo menos na II Liga. Então?

Não respondi logo.

─ Vou pensar.

─ Preciso de uma resposta até ao fim do dia. ─ alertou. ─ O tipo quer-nos lá amanhã de manhã, se houver interesse.

Combinei que lhe daria a resposta à noite.

Quando Camila chegou, contei-lhe a oferta que fora feita.

─ Acho que isso não tem discussão. ─ disse Camila, rispidamente.

─ Que queres dizer com isso? ─ questionei.

─ Achas lógico ires jogar para um cascalheira qualquer?

─ São os únicos dispostos a contratar-me, amor.

Camila agarrou-se à cabeça, furiosa e levantou a voz:

─ Eu não acredito. Pedi-te que viesses comigo para Nova Iorque. Tu sabes como isso é importante para mim. E sabes que não quero afastar-me de ti. ─ As lágrimas começaram a verter dos seus olhos. ─ E queres trocar o meu sonho por um clubezeco de merda, só porque são os únicos que te deixam jogar?

─ Tu sabes como o futebol é importante para mim!

─ Mais importante que eu, Pedro?

Não respondi. E aquele silêncio magoou muito Camila. Tentei atenuar:

─ Não se trata de quem é mais importante, amor.

As lágrimas corriam-lhe pela cara.

─ Não sei viver sem jogar, tu sabes.

A soluçar, Camila indagou:

─ O Jorge, por acaso... por alguma vez... ou tu, pensaram em encontrar um clube para ti nos Estados Unidos?

─ Eu não quero acabar a jogar num clube anónimo do outro lado do Mundo.

─ Mas queres acabá-la na III Divisão? ─ soluçou. ─ Se queres ir, vai! Eu não vou contigo. ─ E correu para o quarto, trancando-se e ficando a chorar.

Telefonei ao Jorge e pedi-lhe que combinasse o encontro com o presidente do clube.

Camila não jantou. Dormimos na mesma cama, mas não trocámos uma palavra.

Na manhã seguinte, deixei-a a dormir com um bilhete ao lado, dando-lhe conta da viagem. Saí cedo de casa, pois combinara encontrar-me na Estação Oriente com o Jorge, onde apanharíamos o comboio para uma vila de nome Carregal do Sal.

O Sol começava a despontar no horizonte, enquanto eu conduzia vagarozamente pelas ruas desertas da cidade.

Cheguei à Estação Oriente e estacionei o carro no parque subterrâneo. Ali ficaria até ao meu regresso, o qual estava previsto acontecer à noite.

Subi as escadas, olhando para o relógio e vendo que ainda tinha algum tempo até à partida. Era muito cedo e tudo estava deserto.

Pensava em Camila. Não queria deixá-la, mas não podia ser de outra forma. Ela sabia como eu era e como era importante jogar futebol para mim. Aquilo era a minha vida.

Cheguei às zonas de partida.

Jorge viu-me antes que o visse a ele. Cumprimentou-me e entregou-me o meu bilhete que comprara antecipadamente.

─ Partimos dentro de dez minutos. ─ informou.

Ainda pensei em telefonar a Camila. Mas, ia acordá-la e não traria nada de novo.

Lentamente a locomotiva eléctrica rebocou as carruagens até à paragem. Jorge e eu entrámos na terceira e procurámos os nossos lugares. Sentámo-nos junto à janela e eu fiquei a olhar para o exterior.

─ Então? ─ perguntou. ─ Pareces preocupado.

─ A Camila não aceitou muito bem isto. ─ disse num tom pesaroso. ─ Diz que se eu for, ela não vai comigo.

─ Ivan, pensa bem. Como vão ficar as coisas entre vocês?

─ Não sei, Jorge. Tenho esperança que ela mude de ideias.

─ Ela, se calhar, pensa o mesmo de ti.

─ Talvez. ─ concordei, desviando o olhar para ele. ─ Mas, tal como o disseste, isto pode ser a minha única oportunidade de voltar a jogar.

─ E estás disposto a perdê-la pelo futebol?

─ A Camila sabe o que faz. Se é isso que ela quer...

Jorge olhou-me incrédulo.

─ Nunca pensei que abrisses mão dela com essa facilidade.

─ Afastar-me dela é como arrancar o coração.

Ele abanou a cabeça e confessou:

─ Desculpa que te diga, mas não parece.

─ Deixa-me contar-te uma história. ─ disse, olhando novamente para o exterior e sentindo o comboio começar a movimentar-se. ─ Quando eu era pequeno e entrei para as escolas do Atlético, o meu pai ficou felicíssimo. O grande sonho dele foi ser jogador de futebol, mas o meu avô não permitira. Contou-me isso quando comecei a jogar e sempre me incentivou. Jogar futebol para mim é um prazer. Mas sempre que me sinto cansado ou desmoralizado, penso no brilho dos olhos do meu pai a falar do seu sonho. Ele vê-se em mim, percebes? Desde miúdo que jurei a mim mesmo que havia de chegar lá ao topo. Havia de vencer, não por mim, mas por ele. Quando me disseram que podia nunca mais jogar, senti não só a minha tristeza como a dele. Se esta é a minha última oportunidade de conseguir algo, então que assim seja.

─ E a Camila?

─ A Camila tem de decidir o que é mais importante para ela. Eu já decidi. Se ela não vier... Que queres que te diga? Acho que os últimos tempos têm servido para ver quem nos apoia e quem nos fecha a porta à menor adversidade.

─ A Camila ama-te!

Não me pronunciei.

─ E sabes quão mínimas são as hipóteses de sucesso no clube de província?!

─ Sei...

Permanecemos calados algum tempo.

Jorge, cansado com a correria dos últimos dias, acabou por adormecer sentado no banco. Enquanto eu... Eu fiquei a olhar para a paisagem e a pensar em Camila.

Tivemos de mudar de comboio em Coimbra, apanhando um que parecia ter algumas décadas, até à vila de Carregal do Sal. Uma viagem morosa, pois ele parava em todas as estações.

Ao sair do comboio, senti logo o bafo quente do ar, muito mais seco que em Lisboa. Desci os três degraus da composição, atrás de Jorge. Ele sofria mais com o calor que eu. Já tinha tirado a gravata e trazia o casaco pendurado no braço. Talvez eu não sentisse tanto os 38 graus porque vinha num traje mais informal.

Atravessámos o interior da estação e viemos sair a um largo alcatroado com uma rua, que subia, mesmo à frente da estação. Nesse largo, um individuo balofo permanecia encostado a um Mercedes.

Jorge caminhou até ele. Eu fui atrás.

O homem tinha um barrigão enorme. Vestia uma camisa branca às riscas com uns botões que se esforçavam por segurar a gordura. As mangas arregaçadas. Tinha umas calças de ganga a cair pelo rabo. E usava umas botas à cowboy. Mais perto, reparei que tinha cabelo meio grisalho, todo puxado para trás com algum gel de qualidade duvidosa.

Jorge aproximou-se dele e cumprimentou-o. Virou-se para mim e apresentou:

─ Ivan! Este é o senhor Alfredo Carrapiço, presidente do Grupo Desportivo de Paúle.

Se isto é o presidente, não quero conhecer o porteiro, pensei.

Estendi-lhe a mão e ele apertou-a com pujança.

Alfredo Carrapiço era construtor civil. Um tipo com pouco jeito para as palavras e de cultura inexistente que ganhara a vida a acartar tijolos e cimento. Conseguira fundar a sua própria construtora e ganhava rios de dinheiro com obras adjudicadas. Porém, não deixava de ter um ar abrutalhado e de novo-rico.

Entrámos todos no carro e seguimos até um restaurante ali perto.

Chegados ao interior, o homem solicitou uma mesa ao empregado. Denotava ser bem conhecido no local. As pessoas olhavam para mim e comentavam entre si. Acho que toda a gente já deveria saber quem eu era e o que fazia ali.

Sentámo-nos. O homem de um lado, eu e o Jorge do outro.

Olhando para a ementa, aconselhou-nos um leitão no forno e um vinho tinto da região, para acompanhar. Jorge aceitou o conselho. Eu não. Pedi um linguado assado no forno com batatas e uma cerveja sem alcool.

─ Peixe! ─ exclamou o homem. ─ Peixe não puxa carroça, amigo.

Lancei-lhe um sorriso amarelo.

Jorge rapidamente lançou o tema que nos levara ali. Eu ouvia-os a debater alguns pontos, mas apreciava tudo à minha volta e pensava onde me estava a meter.

Carrapiço puxou dos papéis que trazia numa maleta de pele, claramente gasta pelo uso, e atirou-os para a mesa.

─ Tomei a liberdade de mandar redigir este contrato, segundo o acordo que já tínhamos falado, senhor Jorge.

Jorge pegou numa cópia e entregou-me outra a mim.

Durante alguns minutos, li as cláusulas do contrato. O vencimento era razoável para o tipo de clube, tinha a duração de um ano e... na última cláusula, cedia-me o direito de opção de renovar o contrato. Não contive o riso.

Não era um riso humorístico. Era mais um riso desolado pelo ridículo da situação. Quem quereria exercer direito de opção de ficar num clube daqueles, presidido por um gordo das obras. Se, daí a um ano, a minha melhor opção fosse aquilo, abandonaria o futebol.

Jorge aguardou um pouco e depois disse:

─ Eu já tinha discutido estes pontos, Ivan. Penso que podemos assinar.

Assenti com a cabeça e todos assinámos os papeis.

Findo o almoço, o presidente levou-nos de volta à estação. Antes de se despedir de nós, informou-me que a pré-época da equipa começaria dentro de uma semana, altura em que me deveria apresentar.

─ Fique descansado, presidente!

─ Alfredo, rapaz! Trata-me por Alfredo.

 

Circulávamos vagarosamente pela linha da Beira Interior. Calculo que o meu semblante não fosse o melhor. Sabia que o que me aguardava naquele clube não era nada de extraordinário e estava a anos-luz do meu sonho chamado Benfica. Contudo, a primeira impressão tinha sido má demais. E sentia uma enorme vontade de desistir.

Jorge interrompeu os meus pensamentos:

─ Como te sentes?

─ Como achas que me sinto? ─ respondi. ─ Acabei de assinar contrato com um clube da parvónia que tem um presidente que parece um trolha.

─ Não eras obrigado a isso.

─ Eu sei, Jorge. Eu sei.

Chegámos a Lisboa ao fim da tarde. Abandonámos o comboio que nos trouxera desde Coimbra e seguimos para as escadas.

Jorge despediu-se de mim e afastou-se na direcção contrária. Antes de ir, lançou um desejo:

─ Boa sorte com a Camila!

 

Estava a escurecer. O Sol já tomava aquela tonalidade alaranjada de despedida ao dia.

Entrei em casa e senti o silêncio. Não se ouvia nada, nem ninguém. Cheguei a pensar que Camila saira. Porém, ela apareceu na porta da sala. Ficámos frente a frente.

─ Então? ─ perguntou.

─ Correu como tinha de correr. ─ disse desiludido.

─ Isso quer dizer...

─ Que é o meu próximo destino. ─ atalhei.

Camila soluçou e levou a mão ao nariz, tentando evitar chorar.

─ Vem comigo. ─ pedi. ─ Contigo não será tão dificil.

Vi as lágrimas começarem a escorrer-lhe pela face. Dei um passo para a consolar, mas ela recusou-me com um sinal da outra mão.

─ Não acredito. ─ balbuciou. ─ Quis acreditar que tu não me farias isto.

─ É a minha única hipotese de voltar a jogar, amor.

O meu tom era sereno. O dela era magoado.

─ Sabes o que mais me dói? É ver-te desistir de mim com essa facilidade.

─ Não estou a desistir de ti! ─ contrariei eu.

─ Não? De certeza, Ivan Pedro?

─ Eu amo-te Camila!

─ Não! ─ Senti a raiva na sua voz. O olhar inundado. ─ Eu é que te amo a ti. Tu amas o futebol.

─ Camila...

─ Não digas mais nada, por favor. ─ Chorava desalmadamente. Tentei, novamente aproximar-me. ─ Não! Não me toques. Afasta-te de mim!

─ Camila...

Tentou enxugar as lágrimas com as costas das mãos. Acalmou-se um pouco, perante mim.

─ Vou para Nova Iorque! ─ comunicou num suspiro. Eu não respondi, nem tentei demovê-la da ideia. ─ Acho que será bom. A nossa relação está num impasse. ─ Interrompeu-se a si própria, não aguentando o desespero e as lágrimas de quem sentia o coração dilacerado. ─ Vamos dar um tempo!

Sentia-me a desaparecer por dentro. Amava-a profundamente, mas era demasiado orgulhoso para o admitir e para lhe implorar que ficasse.

─ Quando partes? ─ perguntei.

Camila fez-me esperar um pouco para se recompôr.

─ Combinei com eles que estaria lá no final da semana. ─ informou. ─ Mas vou sair daqui imediatamente.

─ Não partas já. ─ pedi.

─ Vou, Pedro. ─ insistiu. ─ Tornaste demasiado doloroso estar aqui. ─ Fez uma pausa para evitar as lágrimas. ─ Já calculava que fosses manter a tua ideia. Por isso, pedi ao meu pai para ficar em casa dele até partir para Nova Iorque. Tenho as malas no carro. ─ Pegou no casaco. ─ Adeus, Ivan Pedro!

Deixou-me sozinho sem olhar para trás. Vi-a partir de carro, pela janela da sala. Teria sido menos doloroso espetar um punhal no coração, a vê-la afastar-se de mim. Não podíamos ter tudo o que queriamos. Eu tinha tomado a minha opção. E ela a dela.

 

Nada me prendia a Lisboa para além da minha familia. Concluí que não valia a pena atrasar a minha partida para Paúle. Decidi partir na Segunda seguinte.

A véspera fora um dia de despedidas. Os meus pais organizaram um jantar lá em casa para se despedirem de mim. O clima, por muito que os meus pais disfarçassem, era de tristeza. Pedi à minha irmã que cuidasse da minha casa em Alcochete. Prometi a todos que voltava para os visitar assim que pudesse.

Naquele Domingo, passara o tempo todo a aprontar as malas para a viagem. Dei um aspecto o mais arrumado possivel à casa e tapei algumas mobilias com lençois para que o pó as não estragasse.

Acordar na manhã de Segunda-Feira fora tão estranho como na manhã anterior. Já não estava habituado a acordar sem ter Camila ao lado. Dormira pessimamente. Nos últimos cerca de doze meses, sempre a tivera ali. Só interrompia as noites com ela quando ia para estágio com o Alverca. Porém, como nestes últimos meses estivera lesionado, a companhia dela tivera sido ainda maior. Sentia-me dolorosamente sozinho.

Carreguei o carro pela manhã, bem cedo. O céu estava cinzento e ameaçava chuva à minha viagem. Guardei na bagageira do carro, as malas com roupa e objectos pessoais. Ao meu lado, no banco outrora de Camila, coloquei o meu pequeno computador portátil.

Comprara aquele computador, quando Camila me metera o “bichinho” da Internet. Segundo os entendidos, era uma pequena maravilha da informática, equipado com um Pentium IV a não-sei-quantos mhz, modem, ecrã de quinze polegadas e mais não sei o quê. A Camila instalara-lhe o novo pacote de ligação à Internet da Vodafone que me permitia estar online sem cabos.

Entrei dentro do Mégane, sentei-me ao volante e parti.

Parei na estação de serviço da Galp, antes da ponte Vasco da Gama, para atestar o depósito de gasolina. Peguei na mangueira, coloquei-a no orifício do carro e pressionei o botão. Comecei a ouvir o bombear barulhento da máquina. A brisa fria batia-me no rosto e fazia-me lançar impropérios ao Verão cada vez mais incaracteristico.

A minha mente vagueava em pensamentos. Onde estaria Camila? Que estaria a fazer? Tentava convencer-me que ambos tinhamos escolhido e que era melhor assim.

O detector automático da mangueira deu sinal. E o ruido barulhento parou. Depósito cheio.

Caminhei até ao interior da loja e coloquei-me na fila para pagar. Comprei os jornais desportivos, esquecendo-me que não os ia ler, e uns bolos sortidos para a viagem. Tudo pago, regressei ao carro.

Arranquei de junto da bomba e parei novamente no parque. Sintonizei um posto na rádio e ouvi um locutor dizer que se esperava mau tempo para o norte e centro do país. Estava com uma sorte do caraças. Acelerei e reentrei na auto-estrada para atravessar a ponte.

“Ventos Fortes! Circule a menos de 90!” piscava um letreiro à entrada.

O vento era perceptivel no interior do carro. Reparei como o rio estava revolto com as rajadas. Circulei devagar.

Uma hora mais tarde, estava a circular perto de Leiria. A viagem estava monótona e a paisagem não ajudava a que saissemos do marasmo de desolação que cerca a via. As pálpebras pesavam-me devido ao céu cinzento, mas não era sono, era desmoralização.

Longas rectas, curvas ligeiras, novas rectas...

Saí da A1 no desvio para Coimbra. Tinham passado duas horas e alguns minutos. Passei a portagem, paguei quase dez euros e parei num pequeno parque de estacionamento, logo a seguir. Tinha necessidade de esticar as pernas.

O Sol começava a despontar. O ar que respirava parecia mais leve e sentia o odor dos pinheiros que me rodeavam.

Retornei ao carro.

Antes de entrar, reparei num jovem que pedia boleia, alguns metros após a portagem. Nada de anormal. O que chamou a minha atenção foi o cartão com a palavra “Paúle” escrita.

Entrei, liguei a ignição e avancei até ele. Parei, abri o vidro oposto ao meu e perguntei:

─ Jovem! Para onde vais?

Ele puxou os óculos escuros para cima da cabeça, olhou para o interior do carro e respondeu:

─ Para a aldeia de Paúle. Mas se fôr naquela direcção... ─ apontou para onde eu ia. ─ ...os pouco quilometros que me possa transportar já são bons.

Sorri-lhe simpaticamente e disse:

─ Parece que hoje é o teu dia de sorte. Entra! Também vou para esse Paúle.

O jovem franzino, vestindo roupas veraneantes e de mochila às costa, entrou para o carro. E ambos seguimos por uma das estradas mais perigosas do país.

─ Como te chamas? ─ indaguei.

─ Augusto.

─ Eu chamo-me Ivan Pedro. ─ Estendi-lhe a mão sem desviar a atenção da estrada.

Augusto apertou-me a mão rapidamente para que não atrapalhasse a condução.

A conversa era acompanhada pelo ruido de estática da rádio. Havia alguns quilómetros que o rádio perdera a sintonia de qualquer posto. Com a minha autorização, o jovem sintonizou qualquer coisa para se ouvir. Era um posto regional, tocando uma pimbalheira qualquer que ele ouvia deliciado.

─ Que idade tens? ─ perguntei para fazer conversa.

─ Vinte. ─ respondeu.

Após alguns segundos a ouvir o refrão que ele trauteava, continuei:

─ Que fazes na vida?

─ Ajudo a minha mãe no café que temos em Paúle, juntamente com a minha irmã. E nos tempos livres, jogo futebol.

─ Sim? Onde?

─ No clube da terra. E tu? Que fazes na vida?

─ Jogo futebol! ─ respondi, sentindo o peito encher-se de orgulho.

─ A sério? Nunca ouvi falar de ti. ─ respondeu. Não era lá muito politicamente correcto. Porém, era honesto. ─ Onde jogas?

─ Fui contratado para jogar no Grupo Desportivo de Paúle. ─ informei como se dissesse que tinha sido condenado à forca.

─ Não acredito! ─ exclamou surpreso. ─ Então és tu de quem se fala? A estrela que vai jogar no nosso clube, esta época?

─ Parece que sim.

─ Então vamos ser colegas. Eu sou guarda-redes na equipa.

Olhei rapidamente para ele. Pensei: se este puto magricela é o guarda-redes, não quero ver os outros jogadores. Meu Deus, onde me vim meter?!

Durante a viagem, ele continuou a falar, a contar várias coisas da aldeia e do clube. Eu estava tão concentrado na estrada que não ouvi metade.

─ Há algum hotel em Paúle? ─ interrompi eu.

─ Hotel? Não. Só em Tábua.

Paúle, Tábua, que viria a seguir? Prego, Vila de Broca?

─ Onde é que é Tábua?

─ É antes de chegar ao Paúle, uns quinze quilómetros antes.

─ Jovem! ─ chamei. ─ Eu não conheço isto. Podes ser mais especifico?

Ele riu-se.

─ Não te preocupes. Vamos passar por lá. Eu indico-te.

Comecei a ficar enjoado daquela música. Perguntei-lhe se não se importava que eu mudasse de posto. Disse que, por ele, tudo bem. Sem desviar os olhos da estrada, sintonizei outra rádio local, mas com um gosto musical mais perto do meu.

─ ... que tenham uma boa viagem, a todos os que andam por aí fora. ─ dizia o locutor. ─ E agora, fiquem com esse sucesso, “Private Emotion” de Ricky Martin em dueto com Meja.

Não podia ser melhor. Iam tocar na rádio a música que Camila e eu tantas vezes partilhámos. Senti a tristeza aumentar e a saudade a dilacerar-me o coração. Enquanto a música tocava, passavam pela minha mente imagens dos momentos felizes que vivera com Camila.

─ Este gajo é um panasca! ─ interrompeu Augusto, privando-me das minhas emoções. ─ Este Ricky Martin, dizem que é bicha.

─ Sabes lá. Já lhe serviste de colchão, por acaso?

Augusto soltou uma gargalhada.

─ Olha, vira aí à direita! ─ disse ele conduzindo-me para o desvio rumo ao Carregal do Sal.

Cerca de dez minutos por ali e novo desvio, antes de chegar à vila. Sempre por estradas com bom piso, fizemos mais uns quilómetros até passarmos pela placa que sinalizava a entrada de Tábua. Augusto foi dando-me indicações pela vila até chegarmos ao hotel. Subi uma rua de dois sentidos bastante íngreme, tendo chegado ao cimo e visto o liceu local. Virei à esquerda e parei em frente ao hotel.

Augusto saiu do carro, dizendo:

─ Anda! Vou ver se está cá o Joselino.

Saí do carro e segui atrás dele. Entrámos no hotel e dirigimo-nos até à recepção.

─ Joselino! ─ gritou ele para o individuo atrás do balcão, levantando os braços.

O outro, um homem alto de bochechas e nariz avermelhado, reconheceu-o imediatamente. Vestia um uniforme azul escuro com o logotipo do hotel e devia andar na casa dos trinta.

─ Olh’ó Augusto. Como vais?

Juntaram-se num abraço forte.

─ Como foram as férias na Figueira? ─ perguntou.

Augusto encolheu os ombros e respondeu:

─ Foram curtas. Passei uns dias na praia.

Não se notava nada. O tipo devia ter ido para lá à noite, pois estava branco. Deve ser o bronze destas bandas, pensei.

Augusto olhou para mim e apresentou:

─ Joselino, este é o Ivan Pedro.

─ O Ivan Pedro? ─ questionou com olhar de espanto. ─ És tu? Lá na aldeia não se fala noutra coisa, senão na tua chegada.

─ A sério? ─ interrogou Augusto. ─ Bolas, não se pode ficar uns dias fora que ficamos logo desactualizados.

Que maravilha, pensei com ironia. Deve ser uma recepção linda, cheia de pacóvios com vinhaça e chouriço a receber-me como se fosse o Figo.

─ Olha, Jo! O Ivan precisa de ficar no hotel até arranjar outro sítio.

─ Isto está bera. ─ lamentou o outro. ─ Mas vou ver se ainda há alguma coisa disponível. ─ Consultou os cadernos de registo e lá me descobriu um single para eu repousar.

─ Sabes? Aqui o Joselino é defesa central da nossa equipa.

─ E não costumo ficar à sombra! ─ afirmou o outro com riso de gozo.

Augusto olhou-o aborrecido e disse:

─ Ele diz isto, porque eu sou guarda-redes suplente e fico quase sempre no banco.

─ Teve a infelicidade de termos um grande guarda-redes. ─ disse o Joselino.

─ O outro deve ser o Baía. ─ gracejei.

Ambos ficaram a olhar para mim sem perceber.

Assinei o registo no hotel. Um funcionário levou a minha bagagem para o quarto, no segundo piso, que me fora destinado.

Augusto convidou-me a ir à aldeia e assim oferecia-lhe transporte até lá. Sentia-me cansado da viagem, mas não lhe fiz essa desfeita e levei-o.

Cá fora, o ar era muito abafado e seco. O Sol despontara entre as nuvens. E a tarde tornara-se muito quente. Saímos do hotel e regressámos ao carro.

─ Augusto!!! ─ chamou uma voz, atrás de mim.

Olhei para o jovem e vi-o acenar. Virei-me para trás e reparei num preto muito alto, talvez uns dois metros, sentado numa motoreta velha que quase desaparecia debaixo dele. Tinha um porte forte, parecendo um lutador. O capacete que trazia na cabeça era cómico, pois notava-se que era demasiado pequeno para si.

Augusto caminhou até ele e fez-me sinal para que fosse também. O outro desmontou da mota e aguardou, do outro lado da rua.

─ Este é o Reis! ─ apresentou. ─ E este é o Ivan Pedro. ─ apresentou-me.

─ Ivan Pedro do Alverca? O que se transferiu para o Paúle?

Assenti com a cabeça.

─ Venham daí esses ossos. ─ disse ele, apertando-me num abraço que quase me asfixiou.

Augusto deu-lhe umas palmadas nos musculos do braço e contou:

─ O Reis também é defesa central. Faz dupla com o Joselino.

Reis e Joselino que dupla...

─ O Reis é de Cabo Verde. ─ continuou Augusto.

─ Pensei que fosse sueco... ─ deixei eu escapar.

─ O quê? ─ perguntou Reis.

─ O tempo está seco. ─ disfarcei eu. ─ Faz muito calor aqui.

─ Não tanto como na minha terra.

─ Veio jogar para o Tabuense. E agora está no glorioso. ─ exclamou com orgulho, o jovem guarda-redes.

─ Então, não és jogador do Paúle? ─ interroguei eu.

─ Ó Ivan! ─ interrompeu Augusto. ─ O Paúle é o nosso glorioso.

─ Ahh...

Voltámos ao carro e partimos rumo à aldeia. Augusto foi dando indicações, pois eu não conhecia nada do caminho. Seguimos por uma estrada relativamente nova durante alguns quilometros, poucos, até entrarmos noutra que parecia ter cem anos. Tentando evitar os muitos buracos, conduzi até vermos uma placa em forma de seta, a apontar para a direita com a palavra Paúle escrita.

Virei. Entrei numa outra estrada em linha recta, com vivendas de ambos os lados e parei em frente a um café.

As poucas pessoas ali perto, olhavam com curiosidade para mim. Já se sabe que na província, todos se conhecem. Por isso, quando aparece um carro novo com um estranho lá dentro, todos tentam indagar quem é.

─ É aqui que eu vivo! ─ informou apontando para uma vivenda de três pisos com um café no rés-do-chão. ─ Apita aí!

Apitei ligeiramente e vi um rapariga gorda vir à porta.

─ Augusto! ─ chamou com felicidade.

─ Mana! ─ Correu para ela e abraçou-a com saudade.

Saí do carro e olhei em volta. A paisagem dividia-se entre pinhal e vivendas. Senti o cheiro agradável e a paz do campo.

Augusto trouxe até mim a irmã, apresentando-ma:

─ É a Maria de Fátima, a minha irmã.

Acenei com a cabeça, cumprimentando-a. A jovem era bolachuda e gordita. Vestia uma camisola larga e uma saia comprida. Calçava uns chinelos que lhe deixavam ver as unhas compridas e mal tratadas. O seu cabelo preto era preso num pequeno carrapito atrás da cabeça. Sorriu-me com enorme simpatia e eu retribui o sorriso.

Ambos me levaram a atravessar o pátio de cimento e a entrar no interior do café.

O estabelecimento tinha um balcão comprido do lado direito, onde um fila de vários bancos altos se perfilavam ao seu redor. Alguns populares estavam lá sentados, agarrados a uma ou duas cervejas. Pelo salão, várias mesas, quase todas vazias. E ao fundo, uma mesa de snooker onde o senhor Alfredo Carrapiço jogava com um rapaz mais novo que eu.

Uma senhora forte apareceu vinda do balcão. Tinha feições semelhantes às de Maria de Fátima. Percebi que era a mãe dela e de Augusto. A senhora tinha a maneira de vestir e a simpatia da filha. Augusto apresentou-ma como dona Palmira.

O senhor Alfredo Carrapiço, apercebendo-se da minha chegada, largou o jogo e veio ao meu encontro.

─ Ivan, meu rapaz. Podias ter dito que chegavas hoje.

O jovem que jogava com ele largou o taco e também se aproximou.

O presidente do clube puxou-o pelo braço, com aquele jeito abrutalhado da construção civil, e disse:

─ Este é o Miguel, o meu filho!

─ É defesa lateral direito. ─ completou Augusto.

O senhor Carrapiço sugeriu que nos sentássemos todos à mesa e tomássemos qualquer coisa. Foi o que fizemos.

Enquanto conversávamos, a maior parte das vezes só ouvia, alguns habitantes que por ali passavam vinham-me cumprimentar e desejar felicidades. Não tinha dúvidas que para aquelas pessoas eu era uma estrela.

A certa altura, vi entrar no café uma mulher. Caminhava com elegância e parecia não reparar nas pessoas, como se estas fossem insignificantes. Era alta e tinha um cabelo louro comprido a cair pelas costas. Vestia uma camisola muito justa que revelava a configuração curvilinea dos seios. A barriga estava destapada e era lisa como uma tábua e com um umbigo singelo. Trazia calças de ganga branca, também muito justas, e tinha um rabo redondinho que só apetecia apertar com as mãos. Ouvia-se o som estridente dos saltos dos seus sapatos ao bater nos mosaicos do chão. A sua pele era bronzeada e a sua voz ligeiramente rouca.

Ouvi-a pedir uma caixa de pastilhas com arrogância. Vi-a largar vinte euros com desprezo sobre o balcão e receber o troco. Saiu sem perder tempo.

─ Quem era?─ perguntei.

─ É a Raquel. ─ disse Augusto.

─ É filha da nossa generosa sócia honorária. ─ acrescentou o senhor Carrapiço.

Raquel era filha da senhora engenheira Amândia, uma mulher rica já de idade avançada, dona de duas fábricas de texteis da região. O povo rendia-lhe uma enorme vassalagem pelo seu poder e influência. O seu pai, avô de Raquel, fora o generoso doador do terreno onde o clube edificara o seu campo de futebol.

Olhei para Miguel e estranhei o seu olhar. Parecia completamente a leste da conversa, desde que Raquel aparecera no café.

A tarde ia longa. Pedi que me desculpassem, mas tinha de regressar ao hotel. O dia tinha sido cansativo e a viagem estafante. Estava desejoso de um banho e de uma boa noite de sono.

Todos se despediram de mim com afecto, fazendo-me sentir em casa.

 

A temperatura baixara ligeiramente. O ar de fim de tarde era mais agradável de respirar. Enquanto conduzia de volta ao hotel, apreciava a paisagem. Terreno com pinheiros e mais pinheiros que o alcatrão atravessara impiedoso.

Não havia trânsito nenhum. Apenas eu circulava por ali, cruzando-me com um ou dois carros. Perto de uma curva, vislumbrei uma jovem encostada a uma lambreta, sozinha. Fez-me sinal para que parasse.

Reconheci-a, mal me aproximara. Era Raquel. Parei perto dela e abri o vidro do lado oposto.

─ Posso ajudar? ─ perguntei.

Ia começar a falar com arrogância. Porém, algo em mim a fez tomar um tom diferente.

─ Estou sem gasolina.

Tinha uns olhos azuis lindissimos.

─ Entre! Eu levo-a até uma estação de serviço.

Sem dizer nada, nem obrigado, sentou-se ao meu lado.

Conduzi sem dizer uma palavra, nem ela. Também não estava com grande vontade de fazer conversa. Momentos depois, ela disse:

─ Vi-te no café. Não és de cá. Mudaste-te para a cá? Não me digas que és mais um dos que acha que a parvónia é o paraíso.

Percebi que gostava tanto daquilo quanto eu.

─ Vim jogar para o Paúle.

Raquel franziu o rosto.

─ Não tens aspecto destes jogadores da treta que jogam futebol por estas bandas. E tens sotaque de Lisboa. Donde vens?

─ De Lisboa!

─ Deixa-me adivinhar! Ou enlouqueceste ou andas fugido à polícia.

─ Nem uma coisa nem outra.

Raquel desviou o olhar para a estrada e completou:

─ Então desculpa lá, mas não entendo como se pode deixar Lisboa para vir para esta merda.

Sorri deliciado com a raiva dela à terra.

─ Que fazes? ─ perguntei.

─ Felizmente, estudo bem longe daqui. ─ disse. ─ Mas a minha mãe quer sempre que venha passar férias cá.

─ Que estudas?

─ Medicina em Coimbra.

─ Deixa-me adivinhar! E queres ser médica numa grande cidade?!

─ Bruxo...

À entrada de Tábua existia uma pequena estação de serviço. Parei e pedi ao funcionário que me vendesse cinco litro de gasolina e os colocasse num sítio que pudesse transportar. Raquel permaneceu no carro.

O homem, algo entediado, lá me trouxe uma lata de óleo velha fechada com a gasolina lá dentro.

Fizemos o percurso inverso.

Coloquei a gasolina no depósito da lambreta e avisei Raquel que já a podia usar.

─ Olha, não trouxe dinheiro para te poder pagar. ─ disse ela. ─ Diz-me onde estás a viver e eu depois passo por lá para fazermos contas.

─ Não é necessário.

─ Não queres que saiba onde te escondes? ─ questionou. ─ Então sempre andas fugido.

─ Não, não ando. ─ neguei eu. ─ Estou no hotel em Tábua. Mas não preciso que me pagues nada.

─ Ok! Tu é que sabes.

E com aquelas palavras, montou a lambreta e arrancou na direcção oposta à minha.

Fiquei a vê-la até ela desaparecer na curva seguinte. Voltei ao meu lugar no Mégane e senti todo o cansaço. Liguei a ignição e apressei-me a chegar ao hotel.

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