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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO III

Estava farto de esperar pelo meu empresário. Olhei para a rua e vi que o Sol começava a descer para a linha do horizonte. Jorge apareceu, pouco depois, visivelmente estafado. Sentou-se à minha frente e pediu um café.

─ Tudo bem? ─ perguntei.

Jorge abanou a cabeça negativamente.

─ Estive a falar com a direcção do clube.

─ E?

─ Eles não vão renovar contigo! ─ informou num suspiro. ─ Chegaram os resultados dos exames que fizeste, antes de ontem, no Benfica. Dizem que, dificilmente, voltarás a recuperar a cem por cento.

Fiquei sem palavras. Jorge prosseguiu:

─ Já sabes como é. Estás em final de contrato e eles vão aproveitar para te dispensar.

─ Mas... que história é essa de não recuperar?

─ O departamento médico do Benfica enviou o relatório para o médico do Alverca. Dizia que terias de passar por um longo processo de recuperação e o resultado não era certo.

─ Estás a querer dizer-me que estou arrumado para o futebol?

─ Bem...

─ Merda, Jorge! Sim ou não? ─ gritei eu, transtornado.

─ É o que eles dão a entender.

Baixei a cabeça, desanimado. A vida parecia estar a desfazer-se nas minhas mãos.

─ Jorge, jogar futebol é tudo para mim. Tenho vinte cinco anos, pá. Não posso estar acabado quando a maioria está no auge.

─ Tem calma, Ivan. ─ acalmou ele, dando-me um toque no braço. ─ Tenho os meus contactos. Talvez te consiga um contrato com outro clube.

─ Ainda esta semana joguei! Não senti dores...

─ O médico aconselhou o técnico a não arriscar.

─ Jorge, tu sabes como isto é injusto. Este clube foi despromovido à II Liga na época passada. Eu recebi uma proposta para continuar na primeira divisão a jogar no V. Setubal. ─ A minha voz estava alterada. A cólera apoderava-se de mim. ─ Recusei porque já jogava aqui há algum tempo. Quis ajudá-los a voltar a subir. E agora que preciso deles, mandam-me embora?

─ Eu sei, Ivan. Tem calma.

Jorge levantou-se, passou por mim, colocou-me a mão no ombro e aconselhou:

─ Vai para casa, Ivan. Eu vou tentar arranjar uma solução.

 

O Sol começava a desaparecer no horizonte. Eu conduzia pelas ruas de Lisboa, sentindo a raiva dentro de mim. Todas as palavras de Jorge se repetiam na minha cabeça, vez após vez.

Cheguei ao bairro de Alvalade já quando escurecia. Estacionei o Megane no parque perto da casa dos meus pais e saí. Era uma zona calma e arejada. Caminhei desalentado até à porta do prédio e toquei à campaínha.

─ Quem é? ─ perguntou uma voz no intercomunicador.

─ Sou eu, mãe.

A porta abriu-se, de imediato.

Subi as escadas lentamente até ao segundo andar. Junto à porta, Camila aguardava-me. Por trás dela, surgiu Cibele que correu para mim, abraçando-me com saudades. Adorava a minha pequena sobrinha, tal como adorava todas as pessoas que ali estavam.

Camila percebeu que eu não estava bem. Ja vivíamos juntos havia um ano, ou mais, o suficiente para que ela lesse nos meus olhos a tristeza e a alegria. Beijei-a com ternura, trazendo Cibele nos braços.

Enquanto devolvia a pequena ao chão, Camila perguntou se estava tudo bem.

─ Nem por isso.

Antes que Camila tentasse saber mais, surgiu da cozinha a minha mãe. Abraçou-me e repetiu-me várias vezes as saudades que tinha e como eu era um filho ingrato por não os visitar mais vezes. Concordei com tudo.

─ O teu pai está na sala ─ informou a minha mãe. ─ Vai ter com ele. Eu já vou levar o jantar.

Caminhei pelo comprido corredor até à sala, de mão dada com Camila.

Encontrei o meu pai, na sala, sentado no sofá a ver na SportTv um jogo do campeonato turco que estavam a transmitir em directo. É a pessoa mais fanática por futebol que alguma vez conheci.

Levantou-se e veio abraçar-me.

─ Que saudades, filho. Estás bem?

─ Parece mais magro. ─ inventou a minha mãe, carregando um pratão de esparguete à carbonara.

Acho que se notava como estava abatido, quando pedi a todos que se reunissem na sala e me dessem atenção.

Só faltava a minha irmã que acabara de tomar banho. Rapidamente, apareceu, deu-me um beijo e juntou-se aos restantes.

Tudo sentado à volta da mesa, olhando para mim e aguardando as minhas palavras.

─ O Alverca não vai renovar comigo. ─ disse, o mais rápido que pude, evitando qualquer engasguice. ─ O Jorge esteve a falar com a direcção e foi a decisão que lhe comunicaram.

─ E deu-te alguma solução? Já tem clube para ti, na próxima época? ─ perguntou Camila.

─ Ele diz que vai ver o que se consegue arranjar, mas... ─ Fiz uma pausa. ─ Os médicos dizem que estou arrumado para o futebol.

Naquele instante, pareceu-me ver uma lágrima no canto do olho do meu pai. Vi-o pedir desculpa e levantar-se da mesa, desaparecendo no corredor.

─ Deixem estar, eu falo com ele. ─ disse, levantando-me.

Encontrei-o no quarto, cabisbaixo, apertando o nariz entre os olhos. Entrei.

─ Pai?

Ele olhou para mim. Rosto triste, forçou um sorriso para que não me preocupasse.

─ Não é o fim do mundo, pai.

─ Eu sei, Ivan. ─ aceitou com uma ligeira tremura na fala. ─ Acredito que conseguirás... Perdoa-me, Ivan. Mas, não consigo deixar de pensar que talvez tenha sido eu a influenciar-te para o futebol. Quis fazer do meu sonho, o teu sonho.

Aproximei-me dele, abracei-o e disse:

─ Pai, eu sempre gostei de futebol. Eu nasci a jogar futebol.

O meu pai continuou:

─ Se não te tivesse encorajado, talvez a tua vida tivesse levado outro rumo e tu não estivesses agora a sofrer. Sim, Ivan! Eu sei que estás a sofrer.

Baixei o olhar e, por momentos, observei o chão em pensamentos vagos. Olhei novamente para ele e disse:

─ Lembras-te quando não consegui ir para o Benfica? Foi o maior desgosto da minha vida! Mas, jurei a mim mesmo que haveria de continuar a jogar.

─ Ivan Pedro, filho! ─ chamou. ─ Não estamos a falar de não entrar num clube. Estamos a falar do fim da tua carreira. Quando um médico diz que o jogador está acabado, isso confirma-se quase sempre. Desculpa, mas estou a ser realista. Sei o quanto amas o futebol. Também eu adoro ver e desejei ser profissional, quando era pequeno. Que vais fazer se não puderes voltar a pisar um relvado?

Encolhi os ombros.

─ Um dia de cada vez, pai.

E abracei-o.

Escusado será dizer que ninguém jantou decentemente.

Camila e eu saímos cedo, logo após o jantar. Durante o periodo em que estiveramos todos juntos, ela não se manifestou muito. Preferiu aguardar que ficassemos sós para falar no assunto.

Eu conduzia rumo à ponte Vasco da Gama.

Camila, sentada ao meu lado, colocou a mão na minha perna e perguntou:

─ Como te sentes?

─ Triste. Acima de tudo, triste.

─ Já pensaste o que vais fazer se não voltares a jogar?

─ Não sei, amor. E para te ser sincero, não quero pensar nisso, agora.

─ Desculpa, Pedro!

─ Eu é que te peço desculpa. ─ retorqui, olhando-a de relance. ─ Sei que não devo estar a ser grande companhia nos últimos tempos.

─ Tu és a minha companhia, Pedro. Sabes que te amo como nunca amei ninguém.

Sorri-lhe. A voz dela era tão terna, capaz de me envolver e fazer relaxar.

─ Podiamos ir para os Estados Unidos. ─ sugeriu.

Já não era a primeira vez que me falara no assunto. Camila, desde a falência do centro de cópias, fora trabalhar para uma cadeia de lojas franchisadas de pronto-a-vestir de uma marca americana.

─ Não sei. ─ respondi.

O Eduardo conseguira um cargo de gerente numa dessas lojas e convidou-a para trabalhar lá. Com o excelente desempenho dele, Eduardo foi convidado a um cargo directivo na casa-mãe em Portugal. E Camila ficou como gerente.

Seis meses antes, vieram a Portugal representantes americanos ver algumas das lojas. Ficaram muito agradados com o trabalho dela e convidaram-na para exercer funções em Nova Iorque. Camila recusou.

Recusou pela minha carreira de futebolista, pois sabia que eu não queria ir jogar para os Estados Unidos, onde poucas pessoas gostam de soccer. E também pelo facto de ser em Nova Iorque, cidade de recordações que ela não queria voltar a ter.

─ Se isso acontecesse, já nada te prendia aqui.

─ Os meus pais, a minha irmã e a minha sobrinha. ─ lembrei-lhe.

─ Que tu só vês de vez em quando. ─ argumentou. ─ E podes sempre vir a Portugal vê-los.

─ E o que é que eu ia fazer para a América, Camila?

─ Sei lá, podias ser treinador. Com os teus conhecimentos...

─ Ser treinador de futebol num país que nem chama o desporto pelo nome correcto, amor?! Para eles, o futebol é tão importante como para nós é o basebol.

Por momentos, o silêncio instalou-se entre nós.

─ Recebi um novo convite para trabalhar em Nova Iorque. ─ Não me pronunciei. ─ Sabes que não vou sem ti. Por isso, peço-te que penses nisso.

A sua última frase acontecera no exacto momento em que chegáramos a casa. Parei o carro, olhei-a nos olhos e disse:

─ Eu amo-te Camila! Prometo que vou pensar nisso, se ninguém me quiser contratar.

 

Alguns dias mais tarde, logo a seguir à última jornada do campeonato, a direcção, equipa técnica e jogadores reuniram-se num almoço, antes de todos partirem para férias.

O Alverca ficara em segundo lugar, o suficiente para subir à Superliga. O almoço era também uma comemoração desse feito.

Não era que tivesse muita vontade de comparecer. Contudo, o carinho e amizade dos meus colegas de equipa fizeram-me estar presente.

Fora tudo organizado no restaurante do clube, em frente ao estádio.

Um almoço agradável onde nos espalhámos por meia dúzia de mesas, ficando a direcção e técnicos na central, e os jogadores e outros elementos nas restantes. Tive o previlégio de ficar com alguns colegas que recordo com saudade.

No fim, o presidente do clube levantou-se e decidiu brindar-nos com um discurso.

─ Convido todos a brindarmos a todos aqueles que contribuiram para a subida do Alverca. O meu muito obrigado! Felicidades para a próxima época aos que ficam e aos que vemos partir, sentindo já a saudade apossar-se de nós.

Devias ser político, pensei. “Saudade dos que partem”, um filho da mãe que me dispensou. E todos aplaudiram, menos eu.

Não queria estragar o momento, mas tive uma necessidade enorme de falar. Pedi a palavra.

─ Já que o senhor presidente falou dos que partem. E até ao momento, que eu saiba, sou o único. ─ Alguns deles olhavam para mim, receando o que pudesse dizer. ─ Quero agradecer aos meus colegas estes tempos que passei no clube. Conheci muitos e tenho aqui bons amigos. Vocês foram a força que vos fez chegar onde chegaram.

─ Apoiado! ─ exclamou o presidente, tentando que ficasse por ali.

─ Se não se importa, ainda não acabei. ─ disse eu. ─ Permitam-me, com base na amizade que nos une, que faça aqui um breve desabafo. Não vou estar convosco na próxima época porque, segundo algumas pessoas, estou acabado para o futebol. Apressaram-se a fechar a porta quando mais precisei deles. Não vos guardo rancor, mas prometo que quando vos encontrar do outro lado do relvado não terei piedade.

Todos ficaram em silêncio. Olhei para os meus parceiros de mesa e despedi-me deles. Ao verem que distribuía apertos de mão, outros companheiros se apressaram a despedir-se de mim. Vi rostos indiferentes à minha falta. E vi outros que quase choravam por me ver partir. Foram poucas épocas, mas foram marcantes.

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