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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO II

Cansado do trajecto de Alcochete até Alverca, saí dos balneários todo equipado para o treino. O médico do clube veio falar comigo e aconselhou-me a manter o treino condicionado, limitando-me a correr à volta do relvado. Foi o que fiz, aproveitando para continuar as recordações.

 

Após uma noite, em que até dormi muito bem, acordei achando que tudo não passara de um sonho. Olhei para o lado e não vi ninguém. Se calhar, fora mesmo um sonho, pensei. Levantei-me da cama e vi o vestido preto em cima da cadeira. Não fora um sonho.

Ouvi sons vindos da cozinha. Calcei uns chinelos e peguei no relógio de pulso deixado sobre a mesa-de-cabeceira. Era quase meio-dia e estava um calor imenso. Caminhei até à cozinha e encontrei Camila a preparar uma refeição.

Devia ter tomado banho antes, pois o cabelo tinha um brilho húmido. Usava uma das minhas t-shirts justas que a ela ficava folgada.

─ Bom-dia, dorminhoco! ─ cumprimentou-me ao ver que eu a observava da porta da cozinha.

─ Olá!

─ Espero que não te importes. ─ disse, apontando para a t-shirt.

─ Tudo bem.

Não conseguia deixar de a desejar. Reparei que estava descalça e que usava as cuecas do dia anterior. Ela percebeu e justificou:

─ Tentei calçar os teus chinelos, mas só um dava para os dois pés. ─ sorriu.

─ Tinha esperança que alguma das tuas conquistas tivesse cá deixado umas cuecas lavadas. Mas, pronto, mudo quando voltar a casa.

─ Deves fazer uma linda ideia de mim.

─ Nem por isso. O Jorge e o Eduardo falam muito bem de ti. Dizem que és um tipo responsável, boa pessoa, mas que não gostas de relacionamentos sérios. É verdade?

─ Se não queres que te magoem, não deixes que te toquem! ─ exclamei eu.

Camila pousou a faca com que descascava as batatas e encarou-me.

─ Que quer isso dizer?

─ Quer dizer que em tempos deixei que alguém me tocasse. ─ relatei. ─ E ela magoou-me. Por isso, prefiro estar só.

Retomando a descasca, interrogou:

─ Nunca vais deixar que te amem? As mulheres para ti serão sempre uma fonte de prazer mais nada?

─ Não me perguntes isso, por favor. ─ pedi. ─ Receio que a resposta que te possa dar te possa transmitir uma ideia errada de mim. E não quero isso.

─ Se tivessemos feito sexo, esta noite. Agora já devias estar a querer ver-me a milhas daqui.

─ Estás a fazer-me sentir como se o meu único interesse em ajudar-te tivesse como objectivo foder-te!

─ Eh! Que linguagem. ─ reclamou ela.

Levantei os braços e baixei o rosto.

─ Ok, desculpa!

Camila largou a faca e colocou a última batata dentro do tacho que fervia ao lume. Aproximou-se de mim e tocou-me no peito, dizendo.

─ A noite de ontem foi maravilhosa.

─ Foi? Que fiz eu? ─ questionei com sarcasmo. ─ Devo estar a ficar sonâmbulo...

Camila puxou-me os pelos do peito e lamentou:

─ É tipicamente masculino achar que passar a noite com uma mulher só é maravilhoso quando há sexo. Vocês são todos iguais!

E seguiu para o quarto.

─ Pelo menos nos homens não há duvidas do que querem. ─ lembrei. ─ Já nas mulheres...

Camila voltou atrás.

─ Tens razão! ─ concordou. ─ Eu sei o que tu queres. Aliás, sei-o desde que me interpelaste no balcão do Queen’s. E se eu não tivesse com o período, a esta hora tinhas conseguido o querias. ─ Levantou o tom. ─ E eu seria mais uma para a tua lista.

Não dei resposta.

─ Tu olhas para mim e só pensas em foder-me! Verdade?

─ Agora és tu que estás a usar linguagem...

─ Irritam-me os homens como tu. ─ interrompeu. ─ Desde ontem, por algum momento, pensaste no que eu queria?

O tom colérico dela fazia-a encostar-me cada vez mais à parede.

─ A última vez que me preocupei com o que uma mulher queria, ─ ripostei, empurrando-a ligeiramente. ─ deixei-a vir viver comigo e passado pouco tempo apanhei-a na nossa cama com outro.

─ E como tiveste uma má experiência, achas que todas as mulheres são putas?

A discussão só estava a servir para nos agredirmos e não nos levava a nada. Baixei a cabeça, desanimado.

─ Esquece! Tu não percebes. ─ lamentei. ─ Desculpa se te magoei de alguma forma.

─ Não me magoaste.

─ Mas parece pela forma como falas comigo.

Ela não disse uma palavra. Continuei.

─ Não ando por aí a partir corações. Tenho relações esporádicas com mulheres que sabem ao que vêm e que o querem como eu. Mulheres que não estão interessadas em casar ou ter filhos. Apenas sexo. E eu preciso de sexo, como preciso de comer e beber.

─ Não precisas de te justificar.

─ Não me estou a justificar. Quero que percebas.

─ Eu percebo. Percebi desde que...

─ ...te interpelei no balcão do Queen’s. ─ atalhei.

Camila agarrou no cabelo, fazendo um rabo-de-cavalo e levantando-o. Era um gesto caracteristico nela, quando estava nervosa.

─ Porque é que não és frontal e não admites.

─ Queres frontalidade? ─ perguntei. ─ Eu vou ser frontal. És muito linda e adorava fazer sexo contigo.

─ Estás a ver! ─ exclamou triunfal.

─ Porém, não me perguntes porquê, tenho a sensação de que se o fizéssemos não seria como com as outras.

─ Que quer isso dizer? Que não seria bom?

─ Não... Sim... Bolas! Seria bom! Não tenho dúvidas de que o seria. ─ disse eu com certeza.

─ Então?

Fiz um gesto de “não quero falar mais no assunto” e fui para casa-de-banho tomar um duche.

Foi, de facto, uma sensação estranha o que sentira. Ela despertava algo em mim, muito para além de uma atracção fisica ou a vontade de uma noite de sexo. Não conseguia descrever. Nem com a Carla sentira algo semelhante. E isso assustava-me.

Quando saí do duche, encontrei Camila a pôr a mesa para almoçarmos. Já largara a minha t-shirt e voltara a usar o vestido e calçara as sandálias.

Vesti qualquer coisa informal e que não fizesse mais calor que aquele que estava.

Camila aguardava-me sentada à mesa. Preparara umas batatas cozidas com ovos mexidos. Eu também não tinha muita coisa em casa. Sentei-me e servi-me. Estava delicioso.

Não trocámos muitas palavras, até eu dizer:

─ Vou telefonar a um amigo meu que é mecânico. Talvez ele consiga trazer o carro para mudar o pneu.

─ Fico-te agradecida. ─ disse ela, secamente.

─ Não é preciso. ─ ripostei. ─ Não me custa nada.

Camila colocou os talheres de lado e levou o prato para a cozinha.

─ Tenho de arranjar quem me abra a fechadura de casa. ─ lembrou ao voltar. ─ Talvez os bombeiros me arrombem a porta.

─ Se quiseres, podes ficar aqui até o teu pai voltar. ─ convidei.

─ Deixa estar, obrigado.

─ A sério! Escusas de te estar a meter em trabalhos. ─ insisti.

─ Não quero! ─ recusou com firmeza. ─ Preciso de mudar de roupa. E é lá que está a minha roupa.

─ Tu é que sabes.

Não voltei a insistir e fui tratar do carro. Combinara com esse meu amigo à porta do meu prédio. Ele tinha um reboque e era proprietário de uma pequena oficina na Estrela, mas não remendava pneus.

Acompanhei-o até Alcantâra ao parque onde o Saxo ficara. Havia meia dúzia de carros lá estacionados para além dele.

Quando chegámos, ele colocou o reboque em frente ao carro e eu, usando a chave que Camila me dera, coloquei-o em cima da carrinha.

Esse meu amigo mecânico, deixou-me com o carro perto de uma oficina que arranjava pneus e estava aberta a um Domingo. Agradeci-lhe e tive a paciência de esperar que me arranjassem o pneu furado. Ao fim de meia hora, lá veio o pneu remendado que ainda tive de pagar com taxa de urgência.

Sentei-me ao volante e regressei ao Restelo. Reparei que no tabliê do carro estava uma fotografia de um individuo. Calculei que fosse o falecido Sonny.

Estacionei o carro ao lado do meu.

Camila aguardava a minha chegada à janela. Fiz-lhe sinal que o pneu estava arranjado e ela respondeu que ia descer. Quando chegou à rua, vinha tão elegante quanto a encontrara na noite anterior. Entreguei-lhe a chave.

─ Quanto é que te devo do arranjo?

─ Nada! ─ disse eu. ─ Ele é meu amigo e não me levou nada.

Camila sorriu e agradeceu-me.

─ Queres que te acompanhe? ─ sugeri. ─ Faço-te companhia até te arranjarem a porta.

─ Não é necessário. ─ recusou com frieza. Queria mostrar-me que eu não deveria fazer parte da sua realidade, mais que o necessário.

─ Posso voltar a ver-te? ─ perguntei.

─ É melhor não. É melhor para ambos.

─ Achas que sabes o que é melhor para mim?

─ Pelo menos sei o que é melhor para mim. ─ constatou, denotando um olhar magoado.

Com aquela frase, deu-me um beijo na face e entrou para o carro.

 

Não sei há quanto tempo já estava a correr à volta do relvado. Notei que as nuvens se tinham dissipado e o Sol reaparecera para se exibir.

O médico do clube fez-me sinal para parar.

No relvado, os meus colegas começavam a recolher aos balneários. Parei e olhei para a enorme cicatriz na perna, resultante da operação ao perónio. O médico perguntou-me como me senti. Estava cansado, mas nada de anormal. Pouco depois, chegou o técnico que me fez a mesma pergunta e à qual dei a mesma resposta.

Ambos decidiram que eu deveria fazer uns testes de esforço à perna, no departamento médico do clube, para avaliar melhor as sequelas da lesão. E o técnico disse-me que se estivesse bem, possivelmente, me colocaria a jogar no próximo jogo, a última jornada da época.

Durante quinze minutos, fiz os testes. Levantar pesos com a perna, testes de resistência ao esforço, elasticidade e mobilidade, etc...

No fim, o médico torceu o nariz com os resultados. Acabou por me dizer que seria melhor não jogar nesse fim-de-semana e desaconselhou a minha convocatória ao técnico.

Sozinho nos balneários ─ os meus colegas já tinham saido ─ tomei um banho. Seguidamente, vesti a roupa, arranjei o cabelo húmido e calcei os ténis. Por vezes, tinha ligeiras pontadas na lesão, mas não ligava.

Como combinara encontrar-me com o Jorge, aguardei no café do clube pela sua chegada. Tomei um sumo de laranja e continuei a recordar.

Nem uma semana passara, desde que me despedira de Camila. Mal partira e eu já sentia a falta dela. Não conseguia tirá-la da cabeça. Sei o que estão a pensar. Talvez já estivesse apaixonado por ela.

Num dia de folga, sem treinos nem jogo, decidi tomar uma atitude e procurá-la. Não tinha nenhum contacto dela nem sabia onde vivia, apenas que era algures em Loures. Telefonei ao Jorge e perguntei-lhe onde ficava a loja onde o Eduardo trabalhava. Ele informou-me que era um centro de cópias e impressão na Avenida da República. Disse-me que daria facilmente com aquilo porque era uma especie de megastore do ramo.

Meti-me no carro e segui para o centro de Lisboa.

Estava um dia infernal, um calor asfixiante. Lembro-me que conduzia o meu carro com os vidros completamente abertos. Nunca gostei de ar condicionado.

Fiquei parado no trânsito no túnel da Av. Eng. Duarte Pacheco. Havia partes em que ficava à sombra e até sabia bem a corrente de ar fresco no interior do túnel. Noutras, o Sol incidia sobre mim, impiedosamente, através das aberturas.

A tarde estava quente. Sentia a t-shirt branca colar-se-me ao corpo. E até os óculos escuros pesavam mais que o habitual.

Ao fim de meia hora no túnel, consegui andar um pouco melhor e comecei a descer a Av. Joaquim António de Aguiar até ao Marquês de Pombal.

O Sol não me dava descanso. Passamos um Inverno inteiro a desejar calor e, quando chega o Verão, só queremos coisas frescas. Subi a Av. Fontes Pereira de Melo e encostei à faixa da direita para contornar o Saldanha por fora. Em frente ao Atrium a confusão do costume. Na saída da Av. Praia da Vitória deixei que um carro entrasse para a minha frente e logo recebi uma buzinadela de quem me precedia. Há horas em que o trânsito em Lisboa é uma selvajaria.

Contudo, estava bem disposto, mas algo nervoso. Entrei na Av. Da República pelas faixas exteriores e circulei lentamente à procura da loja. Não fazia a mínima ideia onde ficava. Perto do Galeto, buzinei a um transeunte e perguntei-lhe se sabia onde ficava. Ele disse que sim e explicou-me que era do outro lado da avenida, apontando mais ou menos para o local. Agradeci e prossegui.

Virei na João Crisóstomo e segui até à Av. Defensores de Chaves, onde virei à esquerda. No cruzamento com a Av. António José de Almeida, cometi a transgreção de virar à esquerda, de volta à Av. da República. Felizmente, não havia policia por perto.

Atravessei a larga avenida e reparei no grande letreiro com o nome da loja. Entrei na Av. Miguel Bombarda e procurei um lugar para estacionar. Não havia. Virei para a Av. 5 de Outubro e nada. Novamente à direita, entrei noutra rua e vi um individuo acenar.

Junto ao passeio, um jovem mal vestido e com longas barbas apontava para uma abertura entre dois carros, em cima do passeio. Não era muito bom, mas era o unico sítio vago para deixar o carro. Estacionei lá. O individuo ficou atrás do carro, acenando a outros automobilistas e fingindo que não me via, porém aguardando que lhe desse uma moeda. Tirei cinquenta cêntimos do bolso e dei-lhe. Antes de me afastar, perguntei-lhe se os “sapos” andavam por ali. Ele respondeu que os parquimetros estavam avariados.

Caminhei até à avenida. As pernas tremiam e tinha a boca seca. A ideia de a voltar a ver assustava-me. Pensava no que havia de dizer, sem dizer o que realmente queria dizer... Complicado. Já perto da porta, pensei que raio de ideia ir ali, que motivo tinha eu para ali estar, que justificação havia para a procurar no local de trabalho. Parei para pensar e fiquei em frente à montra da loja.

Espreitei lá para dentro, mas não a vi. Virei-me para a rua e deparei-me com uma loura de óculos escuros, mini-saia e top, a olhar para mim como se me quisesse “comer”. Estava sentada no banco direito de um Porche descapotável. Subitamente, deviou o olhar e a seu lado sentou-se um jovem de fato, aparentando riqueza por todos os poros.

Voltei, novamente, a minha atenção para a loja. Pensei como seria fácil conquistar aquela loura. Meter conversa, convidar para um copo e em menos de duas horas estavamos em minha casa, na cama a fazer sexo. Mas, não me fazia sentir o que sentia por ir ao encontro de Camila.

Entrei na loja. Havia um pequeno balcão logo ali, onde, atrás se sentava uma jovem de cabelo encaracolado a atender o telefone. Aproximei-me e aguardei que terminasse a chamada.

Simpaticamente, olhou para mim e perguntou:

─ Em que posso ajudá-lo?

─ Eu...

─ Eu estou a reconhecê-lo! ─ interrompeu-me. ─ Tu és o Ivan Pedro do Alverca, não és?

Não me faltava mais nada. Nunca me reconheciam em lado nenhum. Logo agora, aparecia uma fã.

─ Sim, sou. ─ respondi, desvalorizando o facto.

─ Reconheci-te logo. ─ continuou. ─ Eu vivo em Alverca. Costumo ir ver os jogos com os meus irmãos.

Eu assentia com a cabeça, esperando que ela se calasse e me deixasse seguir. Contudo, continuou a falar no clube, na época, nos meus colegas, o árbitro injusto... Acabei por a interromper:

─ Desculpa, mas eu estou com pressa. Vinha só dar uma palavrinha à Camila.

─ Camila? Camila quê? ─ questionou.

Encolhi os ombros e disse:

─ Não sei o apelido, mas há mais que uma a trabalhar aqui?

─ Não. Mas fica bem perguntar o apelido. ─ respondeu, dando uma risada irritante.

És um bocadinho estupida, pensei.

A rapariga pegou no telefone, ia a marcar o número, mas arrependeu-se e voltou a pousar o auscultador.

─ Já me esquecia. Ela está de folga, hoje.

─ ... da-se!

─ Diga?

─ O Eduardo está aí? ─ perguntei. ─ E por amor de Deus, não me pergunte o apelido que também não sei.

Ela não respondeu e voltou a pegar no telefone. Teclou três numeros e olhou para o fundo da loja.

Segui o seu olhar. A loja era enorme. Dalí até ao fundo deviam ir uns cinquenta metros. Pelo meio, várias máquinas com pessoas a trabalhar, as quais não tinham aspecto de funcionários. E um balcão com outra jovem de camisola branca a servir cafés.

Lá muito ao fundo, um balcão comprido com meia dúzia de funcionários e diversas máquinas. Foi aí que o telefone tocou.

Enquanto ela falava com o Eduardo, fiquei a contemplar o interior. Ouvia-se ao fundo o ruido de várias fotocopiadoras, mas o som mais geral, era o da musica da rádio que tocava por várias colunas espalhadas por alí.

Por cima de mim, existia um segundo piso. Olhei para cima e vi um gradeamento, onde estava uma mesa comprida com três computadores. Um homem e uma mulher vestidos de camisola branca trabalhavam neles.

Atrás da recepcionista, existia um escada que dava acesso ao piso superior.

Todos os funcionário vestiam uma peça de roupa branca da cintura para cima. Não era um farda, era mais uma regra que todos deviam seguir. Só que, como a minha t-shirt era branca, confundia-me com eles.

A jovem desligou o telefone e disse:

─ Olha, podes ir ter com ele. O Edu já fala contigo. ─ apontou para o fundo. ─ E boa sorte para a próxima época!

─ Obrigado...

Afastei-me dela e fui ao encontro do Eduardo. O chão fazia um pequeno declive. Do lado esquerdo tinham colocado vitrines de parede com produtos para vender. No meio, outras vitrines de mesa. E à direita um departamento de fotografia e revelação.

Continuei até aquele pequeno corredor se transformar num salão amplo. Havia máquinas no meio, do lado esquerdo uma escada para uma cave e do lado direito um bar. Por cima, o piso superior abria-se no meio e contornava o tecto com varandas onde dezenas de computadores eram utilizados por clientes das mais diferentes idades.

O enorme balcão quase ligava as duas paredes mais afastadas. Vi o Eduardo contorná-lo e vir ao meu encontro.

─ Tás bom, Eduardo?

─ Tudo bem. Que fazes aqui?

─ Vim conhecer o local.

─ Me engana que eu gosto. ─ respondeu no seu jeito afemininado.

Sorri com a expressão dele. E acabei por confessar:

─ Vinha à procura da Camila.

─ Já calculava... Vocês homens são todos iguais.

Era um tipo divertido. Achava imensa graça quando ele falava como se fosse uma mulher. Às vezes, assistia a discussões dele com o Jorge em que parecia mesmo uma mulher irritada.

─ Queres beber um café? ─ convidou. ─ Vou fazer uma pausa. Aquelas parvas estão a dar cabo de mim. ─ relatou, apontando para duas senhoras que aguardavam no balcão.

Andámos uns metros até ao balcão do bar. Sentámo-nos nuns bancos altos e ele pediu dois cafés à rapariga.

─ A Camila está de folga. ─ disse ele.

─ Edu, queres natas? ─ perguntou ela.

Ele acenou que não, esticando nervosamente o indicador.

─ Já me tinham dito. Mas, aproveitei e vim cumprimentar-te.

─ Fizeste bem. Olha, viste o Jorge? Anda a pôr-me doida. Ontem não dormiu em casa.

Eu sorri e disse:

─ Não te preocupes. Deve andar a tratar de negócios.

─ Não sei, não. ─ duvidou ele. ─ Olha, gostas disto?

─ Tem um ar porreiro. ─ disse eu. ─ O que é aquilo lá em cima?

Eduardo olhou para o piso superior e disse:

─ São computadores self-service. Aqueles são para internet e os outros para aluguer de programas. Lá ao fundo é o departamento de design. Depois existe um pequeno balcão onde se alugam os computadores. Daqui não se vê.

─ Onde é que a Camila trabalha?

─ Nas cópias, ali atrás. Ah! Ali em baixo é o departamento de grandes formatos.

Eduardo fizera-me uma descrição da planta da loja e dos serviços. Mas, nada disso me interessava.

─ Qual é o teu interesse na Camila? ─ perguntou secamente.

─ Como assim?

─ Eu conheço-te há algum tempo, Ivan. És um mulherengo.

─ Onde é que queres chegar com isso? ─ questionei, aborrecido com a intromissão dele. ─ É por causa dessas tretas que ela tem uma ideia errada de mim.

Eduardo atirou os braços para trás.

─ Ó filho, se andar com uma mulher diferente todas as semanas não é ser mulherengo, então o que é?

─ Isso é um exagero...

Num tom mais sério, disse:

─ Ouve, não me interessa as mulheres que tens. Mas, não metas a Camila aí no meio. Eu sei o que ela sofreu. Ela não merece ser mais uma.

─ Se não te conhecesse dizia que a querias para ti.

─ Ela é como uma irmã para mim. Dói-me vê-la magoada.

Percebi nos olhos dele a sua sinceridade. Coloquei-lhe a mão no ombro e usei um tom fraternal.

─ Não a quero magoar, acredita! Só quero falar com ela. Sei o que se passou.

─ Será que sabes mesmo? ─ interrogou ele. ─ Será que consegues perceber, dar valor ao sofrimento dela. Diz-me que quando a vês, não pensas nela como mulher na cama, no corpo... Ivan, sou gay mas não sou cego. Vejo como ela é bela. És capaz de olhar para o interior dela? Interessar-te pelo que ela pensa, sente? O que gosta, o que a faz feliz?

─ Só a conheço há uma semana, Eduardo. ─ lembrei. ─ Dá-me algum crédito.

Eduardo olhou para o vazio, deu um golo no café e contou:

─ Já a conheço desde que veio para cá trabalhar. Cinco... Minto, seis anos. Ela contava-me como corria bem a relação com o Sonny, o namorado. Acompanhei o sofrimento dela com a morte dele, o estado em que estava no hospital, a depressão. Nunca mais a vi apaixonada por ninguém. ─ Bebeu mais um golo. ─ Lembro-me que tivemos aqui um colega, o ano passado, que gostava dela. Não teve hipóteses. Ela não abre o coração a ninguém. Não sai com ninguém. É casa-trabalho, trabalho-casa. Fiquei espantado quando a vi na minha festa. Não acreditava que fosse. Mas ainda bem, sempre desanuviou... Havias de ver a casa dela. Tem fotos do Sonny por todo lado.

Eu bebi o meu café, fiz intensões de pagar, mas o Eduardo quis ficar com o prejuizo.

─ Sabes onde ela mora? Gostava de a visitar e falar com ela. Não me olhes assim, não estou a pensar “comê-la”, merda. Não posso ser amigo dela?

Eduardo soltou uma gargalhada e exclamou:

─ Quando tu conseguires ser amigo de uma mulher sem a levares para a cama eu deixo de ser gay!

─ Pronto, não vou discutir contigo. Tu só tens essa ideia de mim. ─ lamentei-me. ─ Podes dizer-me, então, onde ela vive?

─ Conheces Loures?

─ Não!

─ Então como queres lá ir? Posso dar-te a morada, mas duvido que lá chegues. ─ constatou. ─ Faz assim: Ela está cá amanhã. Passa por aí e falas com ela, ok?

─ Como tu queiras.

Despedi-me dele com um abraço e abandonei o local, regressando ao carro.

Fiz-me à estrada, lamentando a forma como era avaliado pelas pessoas. Principalmente, porque sabia que era dessa mesma forma que Camila me via. Só que não me saia da cabeça o porquê daquele momento, naquela noite em que nos envolveramos em beijos. Se eu era tudo o que ela não queria, porque se entregou assim? Parecia que qualquer gesto meu só lhe podia fazer mal...

Naquela noite, tal como em quase todas as noites, jantei sozinho em casa. Entretive-me a ver o Telejornal e a SportTv. Acabei por adormecer no sofá, sendo acordado pelo telefone. Tentei adivinhar quem seria o animal que me estava a telefonar tão tarde. Antes de atender, vi que eram nove da noite, não era assim tão tarde.

─ Tou?

Do outro lado da linha, ouvi a voz de Camila:

─ Pedro? É a Camila.

Foi tão inesperado que não consegui falar.

─ Pedro? Tou? Estás aí? ─ insistiu ela.

Respirei fundo e respondi:

─ Sim... Que surpresa.

─ Espero não te estar a incomodar?!

─ Não. Pelo contrário. Tenho muito gosto em te ouvir.

─ Podemos falar um pouco, Pedro?

Camila sempre me tratou por Pedro. Acho que não gostava muito do nome Ivan.

─ Claro. ─ concordei. ─ Curiosamente, hoje estive onde trabalhas...

─ Eu sei! O Eduardo disse-me. ─ A sua voz era suave. ─ Contou-me que apareceste lá para falar comigo.

Já calculava. Algo me dizia que ele ia fazê-lo. Devia ter-lhe dito “cuidado, olha que é um mulherengo” e “não te metas com ele que sais magoada”. Não lhe levava a mal. Compreendia que a quisesse proteger.

Ia a confirmar, quando ela perguntou subitamente:

─ Que me queres, Pedro?

─ Gostava de te voltar a ver.

─ Já te disse que é melhor não.

─ Dá-me uma razão. Tens medo de quê?

Do outro lado, fez silêncio.

─ Que me magoem! ─ confessou. A sua voz, outrora segura, tremia.

─ Eu não te quero magoar.

Novo silêncio.

─ Camila?

─ Já pensaste que o podes fazer sem querer?

─ Estás a julgar-me por coisas que eu não fiz! Que conheces de mim para teres essa certeza? Que conheces de mim, para além das coisas que o Eduardo te conta?

Novo silêncio. Conseguia ouvi-la respirar.

─ Camila? Camila! Aquela noite não significou nada para ti?

─ Aquela noite podia ter sido um grande erro. ─ respondeu bruscamente.

─ Sentia-me carente, beijámo-nos... Felizmente não passou disso.

─ Há uma semana disseste que foi uma noite maravilhosa. Agora dizes que ia sendo um erro. Não te percebo, Camila.

─ Pois não. Estás a ver? Se não me percebes, como podes ter tanta certeza que não me magoas? A noite foi maravilhosa exactamente pelo que não aconteceu. Foi maravilhosa porque me senti protegida quando dormi a teu lado. Foi bom estar contigo, mas sei que não é isso que queres. E o que tu queres, eu não te quero dar.

─ Como podes saber o que quero? ─ interroguei, elevando o tom de voz. ─ Achas que só tu é que tiveste desgostos? Todos sofremos. Há tanta coisa na vida que nos pode magoar... Sabes o que nos distingue? É a vontade de viver. Todos sofremos! Mas uns lutam por ultrapassar isso, enquanto outros se deixam ficar. O que achas que senti quando me lesionei pela primeira vez? Quando vi o sonho de jogar no Benfica desfeito porque um tipo achou que eu não servia? O que senti quando encontrei a Carla na cama com um puto? Diz-me! Sabes o que senti? Senti vontade de lutar e provar a mim mesmo que aquelas coisas não me deitariam abaixo, nunca!

Ela não respondeu. Parei de falar e senti um soluçar do outro lado.

─ Camila, desculpa! ─ pedi, arrependendo-me de cada palavra que dissera. ─ Acho que fui longe de mais.

─ Talvez... tenhas razão.

A voz saia-lhe embargada pelas lágrimas.

─ Camila! Não te vou mentir. Sinto um enorme desejo quando te vejo. Mas há algo em mim, quando penso em ti, que não é normal. E sinto vontade de explorar esse sentimento. Mesmo que isso me venha a magoar.

Silêncio.

Camila desligou sem dizer uma palavra.

Pousei o auscultador com a certeza que tudo tinha acabado. E toda aquela ausência, aquele vazio, aquele final de conversa silencioso me partiram o coração.

Percebi finalmente que o que eu estava a sentir era amor. Percebi-o no exacto momento em que constatei que o mesmo era impossivel.

Voltei à sala, sempre com Camila em mente, desliguei a televisão e regressei ao quarto. Pensei em como aquela conversa e os “se” do que poderia ter acontecido me iriam marcar para o resto da vida. Imaginar-me com oitenta anos, sozinho, a perguntar a mim mesmo como teria sido a vida se a conversa tivesse sido diferente. Mas que poderia ser diferente? Era ela que não me queria dar uma oportunidade. Não! Ela não queria dar uma oportunidade a ela própria.

Deitei-me na cama destroçado. Adormeci com dificuldade, pois toda a conversa se repetia ininterruptamente na minha cabeça. Não sei o que sonhei, mas fui acordado pela campaínha da porta.

Levantei-me, irritado por me acordarem às quatro da manhã. Cambaleei até à porta e abri a da rua. Espreitei pelas escadas e senti o elevador subir. Aguardei furioso pela chegada do visitante.

A porta do elevador abriu. Lá dentro... Camila.

Os meus olhos não acreditavam no que viam. Talvez fosse um sonho.

Camila saiu, abraçou-me e disse:

─ Pedro, ajuda-me a viver!

 

Senti um toque no braço que interrompeu as minhas recordações. Olhei para trás e vi o empregado do bar do clube.

─ O seu telemóvel.

Percebi então que o meu telemóvel estava a tocar.

─ Então, Jorge? ─ atendi eu, após visionar o numero. ─ Estou à tua espera há montes de tempo.

Jorge pediu-me desculpa e avisou-me que estava em reunião com a direcção do Alverca. Combinou que estaria ali dentro de meia hora.

Desliguei. Pousei o aparelho sobre a mesa e retomei as lembranças.

 

Camila entregara-se completamente naquela noite. Notei o seu olhar ferido, mas com um brilhozinho lá no fundo, denotando uma enorme vontade de lutar.

Começamo-nos a beijar e eu levei-a para dentro de casa. Caímos na cama apaixonados, beijando-nos fogosamente como acontecera da primeira vez. Eu despi-a. Ela despiu-me. Tocámo-nos, acariciamo-nos... Encarei-a nos olhos e senti uma força interior, vinda do peito. Uma atracção não pela forma, mas pelo ser. Se naquele instante, fosse uma chave, teria acabado de encontrar a única fechadura que poderia abrir as portas do amor.

Acordei na manhã seguinte, sentindo um bem estar e uma paz interior que nunca sentira. Quase julguei ter sonhado aquela noite, mas ouvi a voz dela e alegrei-me com a confirmação da realidade.

Abri ligeiramente os olhos. Camila estava de pé, virada de costas para mim, completamente nua, a falar ao telemóvel:

─ Tou? Edu?... Tudo bem?... Preciso de um favor. Precisava de faltar hoje?!... Não! Está tudo bem. Não acreditas no que me aconteceu. ─ Uma pausa. ─ Estou em casa do Pedro... Do Ivan Pedro! ─ Nova pausa. ─ Eu sei, não te preocupes. Edu, estou apaixonada!... Não, não te preocupes. Ele não me vai magoar.

Percebi que o Eduardo devia estar a repetir a cantilena do mulherengo que “só te vai fazer mal”.

Camila desligou o telefone e virou-se para mim. O seu olhar revelava toda a surpresa por me ver acordado. Notei a sua apreensão. Acho que, naquele momento, a sua mente encontrou uma enciclopédia de dúvidas a respeito do futuro da nossa relação. Não havia posição mais frágil, nua perante a pessoa por quem se apaixonara e fizera amor, sem saber se era reciproco o sentimento e com a hipotese de um “foi bom, mas...”

Sentei-me na cama, olhei-a seriamente.

Camila apertava o telemóvel com ambas as mãos, nervosamente.

Sorri-lhe e perguntei:

─ Que achas de tomar um banho e ires para casa,... ─ Senti que ela se ia desfazer em lágrimas. ─ ...pegares numa mala de roupa e vires passar uns dias comigo?

Foi assim que começámos a viver juntos.

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