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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO XIX

O céu permanecia nublado, mas o ambiente era abafado. Vi-me aos pulos na relva, juntamente com os meus colegas, a fazer os exercicios de aquecimento, antes do inicio da partida.

As bancadas tinham uma boa moldura humana. Mais de metade do estádio era composto por adeptos do F. C. Porto. O resto dividia-se entre adeptos do Paúle, gente das regiões de Coimbra, Guarda e Viseu, que se deslocaram ali para nos apoiar, e muitos daqueles que não eram a favor de nós, mas contra os portistas.

Sabia que algures entre a multidão, estariam os nossos familiares e amigos da aldeia.

Augusto estava extremamente nervoso. Os últimos jogos do campeonato não lhe correram nada bem e notei-lhe uma elevada crise de confiança.

─ Tudo bem, Augusto? ─ perguntei-lhe no regresso aos balneários.

Fez-me sinal de assim-assim, mas não proferiu uma letra.

No balneário, José Luis deu as últimas indicações até chegar a hora de subir novamente ao tapete verde.

Subi as escadas orgulhoso da camisola negra que vestia. Augusto, Rato, Joselino, Reis, Sassi, Justino, Teodoro, Ramalho, Castanha e Hélder seguiam-me.

O barulho era ensurdecedor, quando as duas equipas entraram simultaneamente no relvado. Soltaram-se fumos e os adeptos das claques organizadas saltavam e pulavam loucamente.

─ Porto! Porto! ─ gritava o estádio maioritariamente portista, calando qualquer intento dos nossos adeptos em se fazerem ouvir.

Perfilámo-nos para a bancada VIP do estádio e ouvimos o hino nacional.

Se normalmente me sentia nervoso e ansioso com o começo dos jogos, aquela fita branca no braço multiplicava esses sentimento.

Alfredo Carrapiço solicitara à Federação Portuguesa de Futebol que nos autorizasse a usar um simbolo de luto pela morte de Abilio. Por isso, todos tinhamos uma fita preta na manga direita.

Após o protocolo das fotografias, dirigi-me à equipa de arbitragem. O capitão do Porto fez a mesma coisa. O árbitro olhou para nós com uma moeda na mão e perguntou:

─ Quem escolhe?

O capitão adversário respondeu, apontando para mim:

─ Pode ser ele.

Escolhi uma face da moeda e o homem do apito atirou-a ao ar.

─ Ganhou você! ─ disse-me. ─ Que escolhe? Campo ou bola?

Escolhi que fosse o Porto a dar o pontapé-de-saida.

Apertei a mão ao capitão do Porto e aos elementos de arbitragem, tal como fez o adversário. Regressei ao meu meio-campo e preparámo-nos para o inicio do jogo.

Antes do começo da final, os jogadores reuniram-se à volta do circulo central para um minuto de silêncio em homenagem ao nosso capitão Abilio, conforme fora combinado com a Federação.

Vinte e dois jogadores ao longo da grande linha circular branca, respeitando o momento de homenagem. Todos as pessoas de ambos os lados clubisticos respeitaram o momento. Só foi de lamentar o comportamento das claques azuis que cantaram, gritaram e assobiaram ao longo daquele minuto.

Os jogadores posicionaram-se no terreno e o jogo foi iniciado com a indicação do árbitro.

O Porto começou o jogo ao ataque, pressionando-nos o mais que podia.

José Luis gritava indicações, temendo cada toque na bola do adversário.

Justino não tinha descanso a marcar o numero dez deles, aquele a quem chamavam o mágico.

Parecia a primeira parte do jogo com o Benfica. Não conseguiamos aproximar-nos da linha central, quanto mais chegar à baliza deles.

Tinhamos de saber sofrer, como dizia o José Luis.

Eu jogava na minha posição habitual, pelo lado esquerdo do ataque. Contudo, a minha função principal era dobrar as marcações de Sassi.

Foram o esforço, companheirismo e capacidade de luta que nos fizeram chegar ao intervalo com zero a zero no marcador.

Se antes do jogo começar, ninguém pensava que o Porto nos poderia golear, ao intervalo essa incapacidade era um certeza. Quem vence o Benfica na Luz, não é uma equipa fácil.

O treinador do Porto viu-se obrigado a fazer alterações. Os avançados não conseguiam furar a nossa defesa e o meio-campo não construia as jogadas como ele desejava.

No nosso lado, continuavamos muito concentrados. Não parava de incentivar os meus colegas. E pedi aos defesas que tivessem sempre uma palavra de ânimo para com Augusto.

A segunda parte começou e nova carga portista se abateu sobre nós.

Por duas vezes, os jogadores do Porto tentaram enganar o árbitro, entrando na grande área e atirando-se para o chão, tentando “puxar” uma grande penalidade. Felizmente, o árbitro não se deixou enganar.

Com o decorrer dos minutos, a nossa equipa começou a apresentar sinais de desgaste. Não era fácil segurar as investidas ofensivas dos azuis e brancos.

Justino mostrava-se arrasado com o esforço fisico imposto pela marcação ao endiabrado brasileiro, maestro do futebol portista. Numa das últimas vezes que se encontraram, Justino só o conseguiu para com uma rasteiro, o que levou o árbitro a mostrar-lhe o cartão amarelo.

José Luis não se podia dar ao luxo de o manter no relvado. Justino dificilmente o conseguiria continuar a travar sem recorrer à falta. E isso faria-o ser expulso do jogo.

Rapidamente, ordenou a Toni que aquecesse e, volvidos alguns minutos, colocou-o no lugar de Justino.

O resultado continuava num nulo para ambos os lados. No entanto, o Porto mostrava-se mais perigoso que nunca, muito devido ao nosso cansaço.

Aos trinta minutos da segunda parte, Macário e Miguel renderam Joselino e Rato.

Um minuto depois, fui rasteirado por um jogador do Porto e cai desamparado no chão, sentindo uma dor muito forte na zona em que me lesionadra em Faro e que quase me pusera fora do futebol.

O árbitro não mostrou o cartão amarelo ao jogador, mas marcou a falta e fez sinal para que entrasse o médico do Paúle.

O doutor Gervásio apressou-se a auxiliar-me. Quase todos os jogadores do Paúle me rodearam, preocupados com a minha situação.

─ Doi? ─ perguntou ele, apertnado-me a perna.

Soltei um grito de dor.

─ Estão a queimar tempo! ─ exclamou um jogador adversário, ao árbitro.

Este aproximou-se de nós e ordenou:

─ Tem que o retirar do relvado!

A maca entrou no relvado e eu fui transportado para fora do rectângulo de jogo.

A equipa de bombeiros deixou-me junto ao banco de suplentes. A dor era insuportável, quase não conseguia mexer a perna.

José Luis aproximou-se e perguntou:

─ Então doutor?

─ O jogo, para ele, acabou! ─ afirmou o médico.

─ O quê? ─ interroguei eu com a dor marcada no rosto. ─ Ele não pode fazer mais substituições.

Ouviu-se um bruá no estádio. O Porto quase marcara ao rematar uma bola ao poste.

José Luis gritou mais umas indicações para o relvado.

Fiz um esforço enorme e consegui colocar-me, novamente, de pé.

─ Não vás, rapaz! ─ avisou o médico. ─ Podes agravar irremediavelmente a lesão.

─ Deixa-te ficar aí! ─ exigiu José Luis. ─ Nenhuma taça vale a minha vida ou a tua.

A dor na perna era tão forte que quase não a sentia. Coxeei até ao quarto árbitro e disse-lhe que ia reentrar. O individuo acenou ao árbitro principal para que ele autorizasse a minha reentrada.

Penso que todas as pessoas notaram a dificuldade com que eu me mexia.

O Porto dava o tudo por tudo. Só o guarda-redes deles ficara atrás da linha de meio-campo. Ora pela esquerda, ora pela direita, ora pelo centro, tudo era válido para tentar levar a bola a entra na nossa baliza.

A cinco minutos do final, o Porto iniciou novo ataque. O jogador que apareceu em frente a mim, ultrapassou-me como se eu não existisse. Já mal conseguia andar.

Os azuis trocaram a bola e fintaram os nossos defesas até ficar o avançado dele defronte de Augusto. O jogador rematou com força, mas Augusto repeliu o remate a soco, fazendo a bola voar para a nossa linha defensiva. Evitando nova carga adversária, Reis chutou a bola com toda a força para o campo contrário.

Vi a bola dirigir-se na minha direcção. Ficara para trás, pois mal me conseguia mexer. Não tinha ninguém entre mim e aqueles cinquenta metros até ao guarda-resdes do F. C. Porto. Porém, não tinha força nem para andar.

Parei a bola com o pé. Reparei que os jogadores azuis e brancos corriam furiosamente para mim. Lembrei-me de todas as pessoas de Paúle. Lembrei-me do alegria dos olhos daquele jovem que pedia dispensa do emprego para nos ia ver jogar. Recordei Abilio e sua liderança em tantos aspectos. Recordei o carinho e o amor que as gentes de Paúle nutriam por mim. “Deixa que o amor seja a tua energia”, ecoou pela minha mente.

Não sei de onde veio a força que impulsionou pelo relvado, fazendo-me correr com a bola nos pés em direcção à baliza contrária.

Sentia os musculos a latejar e parecia que me ia desfazer naquela corrida. Pelo canto do olho, notei que os defesas se aproximavam desesperados.

O guarda-redes do Porto saiu da baliza, tentando ser o obstáculo derradeiro à minha missão e sabendo que não podia falhar.

A uns cinco metros dele, rematei a bola e fi-la passar por cima dele.

A bola subiu, subiu... começou a descer. O tempo parecia ter parado. A respiração suspendera-se naquele suspense de saber onde a bola ia cair. Desceu e pareceu-me que ia cair para lá da baliza. Via quase tocar na barra e embater no chão, voltando a subir e aninhando-se no interior da baliza.

O impasse da incerteza da conclusão do lance, deu lugar ao grito eufórico dos adeptos do Paúle. Gritavam o mais que podiam, rejubilantes com o mais que certo final do conto de fadas que presenciavam naquele estádio.

Os últimos minutos demoraram mais que horas a passar. Defendemo-nos de todas as formas das investidas desesperadas e quase violentas do nosso adversário.

Quando o árbitro apitou para o final, soltámos toda a adrenalina num grito eufórico de alegria. Estávamos a viver um sonho que era bem real.

Corremos uns para os outros, abraçámo-nos, chorámos de felicidade. Lembro-me que um reporter se acercou de mim e perguntou se eu me considerava o principe do conto de fadas. E eu respondi que o principe eram todos os jogadores do Paúle que se tinham transformado de sapo com o amor dos seus adeptos.

A minha perna ficara num estado tão miserável que tive de subir à tribuna em ombros para receber o troféu das mãos de sua Excelência, o Presidente da República.

Quando pude sentir a enorme taça nas minhas mãos, apoiei-me na perna saudável, olhei para o céu e ergui a Taça de Portugal, dizendo:

─ Para ti, Abilio!

 

Decorreram dois meses, desde aquele dia glorioso.

A lesão obrigara-me a uma semana numa clinica de reabilitação em Lisboa. Felizmente, os exames revelaram que não era grave.

Após a conquista da Taça de Portugal, José Luis foi convidado para treinar uma equipa da Superliga na época seguinte. Sabia que era o seu sonho e fiquei feliz com a noticia.

Hélder e Justino foram os únicos jogadores que sairam do clube, devido a contratos aliciantes para jogar na Academica.

Durante algum tempo, os jornais falaram noutros nomes que iriam deixar o Paúle, mas nada disso se veio a concretizar.

O Benfica voltou a contactar o meu empresário. Após longas conversações, muito por causa da minha exigência de compensação do G. D. Paúle pela minha saida, chegámos a acordo e eu pude concretizar o meu sonho de jogar no clube do meu coração.

O dinheiro das transferências permitiu a Alfredo Carrapiço reforçar a equipa de forma suficiente a não sofrer tanto para conseguir a manutenção no ano posterior.

A minha irmã acabou por aceitar o pedido de casamento de Augusto. E a cerimónia foi agendada para o final desse ano.

Raquel licenciou-se em Medicina e prosseguiu a carreira em Coimbra.

Carla, que tanto fizera para me prejudicar, acabou por ficar a viver com Miguel muitos anos. Dizia-se que o tria com outros homens, mas nunca ficou provado.

 

Nesse principio de mês de Julho, cerca de um ano após ter partido para Paúle, encontrava-me no Aeroporto da Portela. Jorge fazia-me companhia, enquanto aguardava a chamda para o embarque no vôo que me levaria até à Suiça, onde o Benfica fazia o seu estágio de pré-época.

─ Com te sentes? ─ perguntou-me Jorge.

─ Vazio. ─ confessei. ─ Sinto-me feliz por ir jogar no Benfica, mas...

─ A Camila continua aí, não é? ─ interrogou, apontando para o meu coração.

─ Que posso eu fazer? É mais forte que eu.

Jorge abanou a cabeça e disse:

─ Esquece-a! O Eduardo esteve com ela em Nova Iorque, a semana passada. Ela deu um rumo à vida dela. Conheceu alguém... Enfim, tu sabes.

─ Não. Diz lá! ─ pedi eu.

Com um tom pesaroso, Jorge contou:

─ A Camila conheceu outra pessoa, um americano. Parece que se dão bastante bem. Vão casar no próximo ano.

─ Que sejam felizes! ─ suspirei.

─ Anima-te, Ivan! Ainda vais conhecer o amor da tua vida.

─ Já conheci, Jorge. Está em Nova Iorque. ─ retorqui. ─ Mas, só me posso culpar a mim. Se tivesse tomado outras opções, há um ano, agora a Camila estava comigo.

─ Mas tu não estarias no Benfica.

─ E não estaria a sentir este vazio.

Os altifalantes do aeroporto anunciaram a última chamada para o meu vôo.

─ Boa sorte! ─ desejou-me.

─ Para ti também.

Nesse instante, uma mulher alta, elegante e vestindo um fato saia-casaco bege, aproximou-se de nós e perguntou:

─ Senhor Ivan Pedro?

─ Sim. ─ confirmei.

Não pude deixar de reparar nos seus olhos verdes, o cabelo escuro comprido a cair sobre o casaco. O volume do peito com um crachá que constatei ser o emblema do Benfica.

─ O meu nome é Susana! ─ apresentou-se. ─ Sou Relações Públicas do Sport Lisboa e Benfica! E vou acompanhá-lo na viagem até ao estágio.

Que mulher linda, pensei.

Dei um último abraço a Jorge e sussurrei-lhe ao ouvido:

─ Talvez nem tudo esteja perdido no amor.

Jorge sorriu-me e ficou a ver-nos afastar em direcção à porta de embarque.

 

 

 FIM

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