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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO XVIII

Nunca imaginei a proporção das consequências da morte de Abilio na população de Paúle. Quase toda a população se deslocara ao cemitério de Midões para o acompanhar nesta sua última viagem.

Segundo se conta, após os festejos com a equipa, quando regressava a casa, o carro de Abilio foi abalroado por outro veiculo conduzido por um individuo embriegado. Este teve ferimentos ligeiros, enquanto Abilio teve morte imediata, ao ser projectado para fora da estrada e vindo a embater num poste, junto à berma.

Abilio era um homem extremamente respeitado e amado pelas pessoas de Paúle, Midões, aldeias adjacentes e até em Tábua, onde era bombeiro voluntário. Pessoas como a engenheira Amândia Calheiros gostavam de ouvir a sua opinião e levavam-na em conta.

Não me lembro de uma pessoa de Paúle que não estivesse ali, em volta da cova onde o capitão do G. D. Paúle iria ser sepultado.

Deolinda estava inconsolável, apoiada no braço do cunhado Justino. O seu irmão Samuel mantinha-se no lado oposto, tentando consolá-la. Já Xavier optara por uma distância mais larga, limitando-se a observar todos. Deolinda recebia também o conforto dos pais Gertrudes e Herculano.

O padre dizia algumas palavras, lembrando essencialmente as qualidades de Abilio.

Reparei em Alfredo Carrapiço que não disfarçava as lágrimas, tal como o doutor Gervásio e a sua esposa. José Luis revelava um rosto duro, mas todos sabiam como sofria por dentro.

Nem a engenheira Calheiros faltou a este último adeus. Contudo, a sua filha Raquel não viera, pois regressara a Coimbra, após aquela novidade que se tornara em mais uma questão a resolver na minha vida. A engenheira fizera questão em ser acompanhada pela minha irmã.

Todos os jogadores do Paúle ali estavam, alguns lavados em lágrimas, outros de cabiz baixo a desejar que tudo não passasse de um pesadelo.

Eu tinha comigo a dona Palmira, Augusto, Maria de Fátima e o seu marido Teodoro.

Lidas as palavras de circustância, o caixão foi descido à terra e as pessoas atiraram flores para o buraco.

O dia era solarento, mas os espiritos ali presentes não podiam estar mais nublados.

José Luis planeara a partida da equipa para Lisboa daí a dois dias, pois a final da Taça de Portugal era no Domingo seguinte. Até isso nos fazia doer a alma. Lembrarmo-nos de que por meia duzia de dias, Abilio não viveria aquele sonho de jogar no Estádio Nacional.

Como precisava de resolver algumas coisas em Lisboa, pedi ao treinador para me deixar partir mais cedo com o compromisso de me apresentar para estágio, no hotel, quando a equipa chegasse a Lisboa.

Ao anoitecer desse mesmo dia, eu já estava na minha casa em Alcochete.

 

Jorge telefonara-me no dia seguinte para combinar um encontro. Precisava de falar comigo sobre umas novas propostas que recebera acerca da minha contratação.

Antes, fui a casa de Camila na esperança de a encontrar e de podermos conversar. Já não a via nem conversava com ela, desde o dia em que soubera que ela estava viva.

Toquei a campainha do seu prédio. Uma voz no intercomunicador perguntou:

─ Quem é?

─ É o Ivan Pedro, Camila!

Seguiram-se segundos de silêncio até ela voltar a falar:

─ Que queres?

─ Falar contigo.

─ Não temos nada para conversar.

Entretanto, um casal de idosos morador no prédio entrou, ficando a olhar para mim e estranhando aquele diálogo com o aparelho na parede.

─ Só quero um minuto do teu tempo. ─ pedi.

Ouvi o estalido na porta e entrei na escada, subindo até ao seu andar.

A porta do apartamento estava aberta. Vi Camila aguardando a minha subida, segurando a porta e com semblante impaciente. Continuava soberbamente linda. Constatei que continuava apaixonado por ela.

─ Que queres, Pedro? ─ interrogou, aborrecida por eu ali estar.

─ Posso entrar? ─ pedi.

Camila apontou-me o interior da casa e eu entrei.

Raramente entrara ali. Aquele apartamento era do quase sempre ausente pai de Camila. Mesmo durante o tempo em que namorámos, só uma ou duas vezes visitara aquele sitio.

─ Desculpa ter vindo sem avisar.

─ Já cá estás. ─ disse com desprezo. ─ Vá! Diz lá o que queres. Tenho que sair, daqui a pouco.

─ Não me deste oportunidade de conversarmos, quando foste visitar-me a Paúle. ─ lembrei.

─ Por favor, Pedro! Não me lembres as parvoices que eu fiz, está bem?

O seu tom de voz era aspero. Parecia que cada palavra tinha a missão de me socar ou derrubar. Deparei-me com uma enorme raiva de Camila para comigo.

─ Tudo bem. Só queria explicar-te que...

─ Tu não tens que me explicar nada, Pedro! ─ interrompeu abruptamente. ─ Já to tinha dito. Nós não temos nada um com o outro. Segue a tua vida, Pedro! E, por amor de Deus, deixa-me seguir com a minha!

─ Mas, eu amo-te! ─ atalhei.

A frase atingiu Camila e quebrou, momentaneamente, o seu ódio. Não que ela não o soubesse. Porém, ouvi-lo da minha boca ainda tinha um efeito que ela não conseguia rebater.

Camila baixou o olhar e tapou o rosto com as mãos.

─ Eu amo-te, Camila! Quero passar o resto da minha vida contigo!

Levantando a mão, fez-me sinal para que me calasse. Reparei que chorava, mas não percebia porquê.

─ Já reparaste que o teu amor só me tem magoado? ─ perguntou num soluço. ─ Todas as vezes que acredito em ti, tu magoas-me! Trocaste-me por um clube de merda da parvónia. Fizeste-me acreditar que me amavas e eu acabei por te encontrar na cama com outra.

─ Pensava que tinhas morrido, Camila.

─ Queres que acredite que nunca tiveste nada com ninguém, neste tempo todo?

─ É a verdade. ─ respondi. ─ A Raquel foi uma amiga até àquela noite.

Camila soltou uma gargalhada sarcástica.

─ Amiga? Eu sei como tu és amigo das mulheres.

─ Estás a ser injusta. ─ lembrei.

Camila olhou-me enraivecida e indagou:

─ Diz-me, Pedro! Vieste até aqui, disseste tudo o que tinhas a dizer... Afinal que esperas de mim? Que te diga: Pronto, amor! Estás perdoado. Anda! Vamos viver felizes para sempre.

Abanei a cabeça.

─ Então, Pedro! Que queres tu?

─ O teu amor, Camila.

─ E o amor daquela gaja que enfiaste na cama? ─ gritou ela. ─ Esse não queres?

─ Não significou nada para mim.

─ E será que eu signifiquei, Pedro? ─ interrogou, desmanchando-se num mar de lágrimas desesperado. ─ Será que o nosso amor significou alguma coisa para ti? Tu só amas o futebol. O amor para ti é igual a sexo. ─ Olhou-me inundada em ódio ─ Se pudesses foder a bola, acho nem ligavas às mulheres.

Tentei manter a calma, mesmo deparando-me com alguém possessa de raiva por mim. E tinha razão. Eu merecia toda a negatividade das suas palavras.

─ Que queres que faça, Camila? Queres que implore de joelhos? Tudo bem. ─ Ajoelhei-me. ─ Se queres que implore o teu amor, eu imploro. O que aconteceu com a Raquel foi um momento de fraqueza. Comecei a ter noção de que tinhas partido para sempre e tentei dar um rumo à minha vida. Ela foi uma amiga sincera e acabámos por nos envolver... Camila! Ouve-me! Quando te vi reaparecer depois de quatro meses julgando-te morta, foi como ver o Sol depois dos nevões! Podes nunca acreditar, mas tu és o meu verdadeiro amor.

Camila começou a quebrar. Pediu que me levantasse, mas eu recusei-me. Ajoelhou-se à minha frente e balbuciou:

─ Tenho medo, Pedro! Tenho medo que me magoes novamente.

─ Dá-me outra oportunidade! Confia em mim!

Camila abraçou-me e repousou o seu espirito sofrido sobre mim.

─ Vais ver que vai correr tudo bem. ─ continuei. ─ Só tenho de resolver a questão da Raquel.

Senti a tensão no braços de Camila. Largou-me suavamente, encarou-me perturbada e inquiriu:

─ Que questão?

─ Ahh... A Raquel... Bom...

─ Fala, Pedro!

─ A Raquel pensa que está grávida. ─ disse o mais rapidamente que consegui.

Camila levantou-se num ápice e deitou as mãos à cabeça.

─ Grávida? ─ interrogou incrédula. ─ Grávida? Ela está grávida e tu estás aqui com essa conversa? Que raio de homem és tu?

─ Uma coisa não tem nada a ver com a outra. ─ retorqui, levantando-me também. ─ Se ela estiver mesmo grávida, eu assumo a criança! Mas, isso não impede que eu e tu fiquemos juntos.

Camila abanou a cabeça, deseperada com o que eu dizia. Levantou as mãos ao céu e levou-as ao cabelo.

─ Por quem me tomas, Pedro? Achas que eu conseguiria viver com uma situação dessas? E tu? Eu não acredito no que ouço. Tu não podes ser o Pedro que eu amei. Esse Pedro não seria homem para abandonar uma mulher que espera um filho dele.

─ Camila...

─ Não digas mais nada! Por favor, vai-te embora! ─ pediu, apontando-me a porta. ─ Desaparece da minha vida de uma vez por todas, Pedro! Tu já me magoaste demais.

─ Mas, Camila...

─ Vai, Pedro!

Camila estava irredutivel. Não valia a pena tentar o que quer que fosse com ela. Não me serviria de nada dizer uma palavra que fosse. Já sujara tanto a minha imagem, já me portara tão mal, já a magoara tanto que não tinha perdão. Saí do apartamento e da vida de Camila.

 

Jorge acabara por ser o ouvinte das minha lamúrias. Contara-lhe o sucedido nessa tarde com Camila e também ele me censurara por todas as atitudes que tomara em relação a ela.

Sentia-me terrivelmente mal comigo próprio, pelo que me tornara e pela dor inflingida a algumas pessoas. Tudo podia ter sido diferente se eu tivesse abandonado o futebol, se tivesse sabido sair desse mundo na altura certa. Podia estar a viver tranquilamente nos Estados Unidos com Camila. Perguntava-me porque não soubera ponderar melhor o futuro, porque fora cego ao ponto de só ver uma possibilidade, de ter a mania que estava sempre correcto.

Que tinha eu agora, pensei.

Jorge tentou reconfortar-me. Para minha felicidade, Eduardo não estava com ele, pois não esquecera a forma dura e quase sempre certa de ele ver as coisas.

─ Mas, que me querias tu dizer? ─ perguntei, lembrando-me do telefonema de Jorge.

O semblante de Jorge alterou-se para um sorriso radioso.

─ Fui contactado por um representante do Benfica. ─ informou. ─ Querem saber condições para a tua contratação.

─ Não brinques, Jorge!

─ Não estou a brincar.

Percebendo que ele falava verdade, senti o entusiasmo tomer conta de mim e, por instantes, todos os outros problemas pareceram distantes.

─ Disse-lhes que a transferência era a custo zero. Não têm de pagar nada ao Paúle...

─ Não, Jorge! Isso não. ─ interrompi. ─ O Paúle tem de receber uma verba. Sei que isso não está no contrato, mas era injusto para eles. Foram os únicos a estender-me a mão quando mais precisei. Não os posso deixar assim.

─ Compreendo, Ivan. Só que eles podem não estar muito dispostos a isso. ─ avisou ele. ─ Estás disposto a desperdiçar a oportunidade por causa disso?

─ Ouve, Jorge! Estou farto de fazer porcaria ao longo da vida. Não sei se ainda conseguirei reparar alguma coisa dos que estraguei, mas pelo menos disso não abdico. Não peço nada que o Benfica não possa pagar. É uma questão de principio. Sou jogador de futebol! Não sou mercenário!

─ Tudo bem. ─ concordou Jorge. ─ Vou falar com eles e ver o que me dizem. ─ Bebeu um golo da sua bebida. ─ Li no jornal de hoje que o Porto também está interessado em ti.

Soltei um sorriso irónico.

─ Não acredites muito nisso. ─ avisou. ─ Ninguém do clube falou comigo. O mais certo é serem noticias para te destabilizar antes do jogo da final.

─ Se eles soubessem como eu estou, nem se davam ao trabalho. ─ afirmei.

─ Tens que dar a volta por cima, rapaz. Não chegaste até tão longe para desistir assim.

Encolhi os ombros como se nada daquilo me importasse.

 

Conforme combinado com José Luis, apresentei-me no hotel que o G. D. Paúle escolhera em Lisboa para a sua estadia antes do jogo. Nessa mesma Sexta-Feira, fizemos o primeiro treino no relvado do Jamor.

Notava ainda, em toda a comitiva, o pesar pela falta de Abilio. Cheguei à conclusão que seriamos todos soldados perdidos num campo de batalha, durante o jogo, sem uma voz de comando como a de Abilio.

A equipa fez novo treino no Sábado, ficando o restante do dia reservado para o mais completo isolamento e concentração no hotel.

A equipa foi informada pelo presidente Alfredo Carrapiço que a engenheira Calheiros financiara uma excursão de autocarros, possibilitando assim aos paulenses a presença no Jamor para apoiar a sua equipa. A própria engenheira viria assistir ao jogo, acompanhada pela filha Raquel, ficando ambas no Hotel Ritz, segundo me informara a minha irmã.

Na manhã de Domingo, decidi tomar uma atitude em relação à minha vida afectiva. Fui ao quarto de José Luis e pedi-lhe para me ausentar do estágio por uma hora.

─ Nem penses. ─ recusou o treinador.

Mister! Preciso de resolver um assunto. ─ expliquei. ─ Se não o fizer, mais vale não jogar, pois não vou ter cabeça para o jogo.

─ Ivan...

─ Por favor, mister...

José Luis acabou por aceder ao meu pedido.

Sem demora, meti-me no carro e conduzi até ao Hotel Ritz.

Quando cheguei à luxuosa recepção do hotel, perguntei ao funcionário por uma hóspede chamada Raquel Calheiros.

O individuo confirmou a sua presença e telefonou para o respectivo quarto, informando-a de que eu estava ali e queria falar com ela.

Dez minutos mais tarde, Raquel descera e encontrara-me no bar do hotel a tomar um café.

─ Olá, Ivan! ─ cumprimentou-me, beijando-me a face com distânciamento.

─ Olá, Raquel! ─ retribui, sorrindo-lhe. ─ Tenho um convite para te fazer.

─ Diz. ─ sugeriu com o olhar triste.

─ Queres casar comigo? ─ perguntei.

O seu rosto não denotou qualquer reacção, mantendo-se distante e triste.

─ Então, Raquel? Queres casar comigo? ─ insisti.

─ Não estou grávida, Ivan! ─ informou no mesmo tom distante. ─ Tinha alguns dias de atraso, mas o periodo já apareceu.

Senti um certo vazio pela ideia de já não ir ser pai. No entanto, reiterei a proposta:

─ Tudo bem Raquel. Mesmo assim, gostava de casar contigo.

─ Para quê, Ivan? Tu não me amas! Tu amas a Camila! É com ela que deves casar. ─ concluiu.

─ A Camila não quer nada comigo, Raquel.

Raquel sorriu. Porém, o seu sorriso era triste e carregado de ironia.

─ Não sou segunda escolha, Ivan! ─ exclamou. ─ Podes crer que te amei como nunca amei ninguém. Mas, prefiro que fiques longe de mim, a casar contigo sabendo o quanto amas a Camila. Se não me podes amar, pelo menos respeita os meus sentimentos e não faças de mim um mal menor na tua vida!

Não encontrei palavras para a contrariar.

─ Não estou grávida, Ivan! Tu não tens obrigações comigo! Boa sorte para o jogo e para a tua vida! ─ desejou, afastando-se de regresso ao seu quarto.

Perante a recusa de Raquel e o facto de não estar grávida, engendrei novo plano para o meu futuro. Corri para o carro e meti-me à estrada na direcção da casa de Camila.

Dirigia o carro e pensava no que haveria de dizer a Camila. Como convencê-la a voltar para mim. Como fazê-la acreditar no meu amor...

O telemóvel tocou.

Atendi sem parar de conduzir, não querendo perder um minuto que fosse.

─ Tou? Jorge?

─ Ivan! Tenho noticias para ti. ─ disse-me do outro lado da linha.

─ Não podemos falar mais logo? ─ sugeri. ─ Vou a caminho da casa da Camila.

─ Não vale a pena ires lá Ivan! ─ alertou.

─ Porquê?

─ A Camila partiu, ontem à noite, para Nova Iorque. ─ informou.

A noticia fez-me parar o carro junto à berma.

─ Foi-se embora? ─ interroguei, não querendo acreditar que me fugira novamente.

Jorge contou:

─ Voltou para a sua vida em Nova Iorque. Tinha telefonado para a sua empresa a contar o que sucedera há já algum tempo. Eles ficaram felicissimos quando a souberam viva. Propuseram-lhe que voltasse a trabalhar com eles.

─ Há quanto tempo ela decidira voltar?

─ Para aí umas duas semanas.

Então ela já tinha a sua decisão tomada, quando eu falara com ela, concluí. Não sei se a nossa conversa, em algum momento, a teria feito mudar de ideias. A realidade era que ela tinha partido mais uma vez. E desta vez para sempre.

─ Eram essas as noticias que tinhas para mim? ─ perguntei.

─ Não, Ivan! ─ negou ele com uma voz preocupada. ─ O Benfica cancelou as negociações. Já não estão interessados na tua contratação.

 

Regressei ao hotel, antes do almoço, cumprindo o horário a que me comprometera.

O doutor Gervásio viu-me chegar e chamou-me.

─ Algum problema? ─ perguntei.

─ Não, Ivan. ─ descansou ele. ─ O grupo está à tua espera para a palestra do Zé Luis, antes do jogo.

Seguimos para o salão do hotel, o qual havia sido reservado pelo G. D. Paúle para aquele momento.

Durante largos minutos, José Luis discursou sobre o jogo. Explicou determinados pormenores tácticos que queria ver implementados em campo. Trocámos impressões acerca dos jogadores do Porto e sobre a melhor forma de os vencermos.

Findo todos aqueles temas, José Luis disse:

─ Lembrei-se que chegar até aqui já foi uma grande vitória. No entanto, nenhum de nós se satisfaz com menos do que a vitória. Nem que seja para a dedicar ao nosso Abilio.

Todos concordaram e alguns aplaudiram a lembrança do capitão.

─ Ivan! ─ chamou José Luis. ─ Vem até aqui.

Sem perceber qual a sua intensão, caminhei até ao local onde ele estava, perante o olhar dos meus colegas. Notei-lhes no olhar que eles já sabiam o que ia acontecer.

José Luis estendeu-me a mão e fez-me reparar que tinha algo nela.

─ Ivan! Na tua ausência, este grupo reuniu-se para discutir algo muito importante. E tomámos a decisão unânime de te pedir que uses a braçadeira de capitão do Grupo Desportivo de Paúle.

Olhei para a sua mão que se abriu e vi a braçadeira que Abilio envergava em todos os jogos.

─ Não posso aceitar, mister. ─ disse eu atónito. ─ Qualquer um, aqui, é mais antigo e tem mais anos de clube que eu.

Justino levantou-se da cadeira e lembrou:

─ Se estamos aqui, hoje, foi porque tu nos fizeste acreditar que era possivel. Tu foste a voz de comando nos momentos dificeis. ─ Fez uma pausa. ─ Estamos num momento dificil. Ninguém aqui conseguiu ainda ultrapassar a m... morte do meu irmão. Por isso, te pedimos que nos lideres. Porque tu és o único com a capacidade e voz de comando que ele tinha.

A crença que eles depositavam em mim comoveu-me. Ouvir aquelas palavras valia mais que um contrato com o Benfica.

Segurei respeitosamente na braçadeira e aceitei o compromisso de capitaniar o Paúle na final do Jamor.

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