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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO XV

Em Fevereiro, o frio pareceu dar algumas tréguas. Nunca, na minha vida, passara um Inverno tão rigoroso, habituado que estava ao de Lisboa. Ali, tudo era muito mais frio e invernil.

A neve visitara-nos algumas vezes, havendo até alturas em que pensámos ter em risco os nossos jogos em casa.

Raquel não viera a Paúle, desde a última vez que a vira, em Coimbra. Porém, todos os dias falávamos telefonicamente.

A minha vida continuava a ser um vazio. Não tinha interesse em nada e apenas continuava a jogar no Paúle, por consideração a todos os que gostavam de me ver lá.

Vivia sozinho, mesmo com as centenas de insistências da minha irmã para que me mudasse para casa dela.

Após a vitória sobre o Alverca, Jorge perguntou-me se queria que tentasse uma nova contratação por parte deles. Recusei, afirmando que jamais jogaria novamente no clube que me abandonara, quando mais precisei deles. Odiava profundamente os dirigentes do clube, pois fazia sempre a mesma equação: Se não me tivessem despedido, continuava a jogar lá, Camila continuava a aceitar a situação, não partia para os Estados Unidos e não teria morrido no regresso.

Em finais de Janeiro, Jorge propôs-me uma transferência para o Estoril Praia, passando assim a jogar na Liga de Honra (II Divisão). No entanto, voltei a recusar, pois seria um rude golpe para o Paúle. Só sairia na época seguinte, se saísse.

A ideia de terminar a carreira no futebol e dedicar-me a outra coisa qualquer, cimentava-se a cada dia na minha cabeça. Só que a dúvida do que seria o futuro, quebrava sempre os meus intentos. A verdade é que não sabia fazer mais nada.

Houvera tempos em que planeara, após o futebol e ganhar muito dinheiro, dedicar a minha vida a Camila e aos seus desejos. Ficara sem objectivos com a perda de Camila.

Desorientação completa era a única certeza da minha vida.

Numa noite de Fevereiro, acabado que estava mais um jogo da Superliga na SportTv, fiquei sentado no sofá a ver o que dava na televisão. Parei no SexyHot, canal cujo os serviços adjudicara havia muito pouco tempo.

Quase não me reconhecia, mulherengo como sempre fora, na longevidade que a minha abstinência sexual tinha. O pior, é que o corpo começava a reclamar por compensação.

Nesse instante, a campainha da minha casa tocou. Esqueci-me de mudar de canal, até porque pensei tratar-se do doutor Gervásio que, algumas vezes, ali ia pedir-me alguma coisa que faltava lá em casa.

Ao abrir a porta, deparei com Dália, enfarpelada num blusão robusto, mas mantendo a saia curta e as meias de lã.

─ Boa noite!

─ Posso entrar? ─ pediu.

─ Claro.

Dália entrou em casa e seguiu para a sala. Surpreendeu-se com as imagens da televisão e disse:

─ Espero não estar a interromper nada?!

Corri para o comando e mudei de canal.

─ Desculpa, Dália! São passatempos de solteirão solitário. ─ justifiquei. ─ Mas, que fazes por aqui? Não costumas andar por Oliveira, a esta hora?

Dália sentou-se no sofá, despiu o blusão e fez-me reparar na blusa semi-transparente que usava por baixo. Atirou o casaco para uma cadeira e relatou:

─ Fui até lá, mas não havia muita gente. E os que vi... Enfim, não valia a fod... Desculpa! Tu percebes.

Sorri, mas não consegui disfarçar algum nervosismo. Sentei-me no sofá e mudei de canal para descontrair.

─ Estás bem? ─ perguntou ela. ─ Pareces tenso.

─ Não. Estou óptimo. Tenho frio.

Desde a adolescência que não me sentia assim. Aquela ansiedade misturada com excitação que, quando tinha os meus treze ou catorze anos, terminava sempre com a “amiga” direita.

─ Não me apetecia ir já para casa. ─ continuou. ─ Como vi luz, pensei em vir visitar-te.

─ Fizeste bem.

─ Mas que tens tu? ─ voltou a perguntar, notando a continuidade da minha tremura. ─ Já sei, Ivan. ─ aproximou-se de mim. ─ Queres dar uma?

─ O quê? ─ interroguei como se não tivesse percebido. Como saberia bem ter sexo com ela, naquele momento. Contudo, não sei porquê, continuava a ver a cena como uma traição a Camila.

─ Sexo, Ivan!

─ Não! ─ exclamei perentório. ─ Não quero.

─ Tudo bem. Percebo que não queiras fazer com alguém como eu. ─ justificou-me. ─ Mas, estás com um aspecto desgraçado.

─ Como assim?

─ Desculpa que te diga, mas se não “os” vazas rapidamente, ainda explodes.

─ Que disparate é que estás para aí a dizer? ─ barafustei. ─ Parece que estou doente.

─ Não sei se é doença, mas tenho um medicamento óptimo. ─ prosseguiu, deliciada com o diálogo. Seguidamente, tomou uma postura mais séria e disse ─ Ivan, não quero tomar o lugar da tua falecida namorada. É só um convite para curtir.

─ Não me sinto à vontade. ─ confessei. ─ Ainda não ultrapassei o que aconteceu e... Sentia-o como uma traição a ela. Sei que parece absurdo, mas é o que sinto.

─ Não é absurdo. Compreendo-te, acredita. ─ Baixou ligeiramente a voz. ─ Há quanto tempo...?

Dei uma gargalhada nervosa e respondi:

─ Se te dissesse, não acreditavas. Nem eu acredito.

Sorriu-me novamente e começou a acariciar-me a perna, subindo até onde eu já não conseguia disfarçar. Enfiou a mão pelo fecho das calças e disse-me:

─ Não digas nada! Amanhã, nada disto aconteceu.

Ajoelhou-se, à minha frente, e desapertou a blusa, puxando o soutien para baixo, de forma a fazer saltar os seios para fora. Debruçou-se no meu colo e...

 

A chuva não parava, já lá iam três dias, desde o principio da semana. E naquela Quarta-Feira em que iriamos defrontar a Academica de Coimbra, para os quartos-de-final, a situação não apresentava melhoras.

O jogo estava marcado para a tarde, o que faria com que muito poucas pessoas fossem assistir. Por parte da comunicação social, as atenções estavam viradas para o jogo entre o Sporting e o F. C. Porto, cabeça de cartaz dos quartos-de-final. Mesmo em Paúle, muitos populares falavam na transmissão televisiva do encontro. Já na noite anterior, o Benfica vencera o Vitória de Guimarães.

Para a mesma hora do nosso jogo, estava marcado o Salgueiros versus Boavista.

O relvado parecia um lamaçal, tal fora a carga de água que o fustigara. Felizmente, a chuva parara durante o jogo.

A Academica apresentava-se com algumas ausências. Uma norma muito usada pelas equipas da Superliga, poupando os principais jogadores para o campeonato.

Ao chegarmos até ali, gerou-se o mito de “quem seria capaz de derrubar o Paúle”, titulo usado num dos maiores jornais desportivos. Uma questão de tempo para a maioria das pessoas que seguiam as competições desportivas.

Por muito que as pessoas dissessem acreditar, sabiamos que todos esperavam que a Academica levasse a melhor naquela tarde. Talvez só nós, os jogadores, tivessemos a esperança de marcar mais que o adversário. Certo é, garantidamente, que ninguém sonhava sequer o que se viria a passar naquela tarde chuvosa.

José Luis colocou a equipa principal a jogar, à excepção de Joselino que ficara fora da convocatória, devido a uma constipação.

O jogo começou e a falta de humildade da equipa adversária ficou patente, logo a partir do apito do árbitro. Jogavam tranquilamente como se o golo da vitória fosse uma certeza, a qual tinha como unica dúvida fosse o momento em que aconteceria.

Foi o seu erro e foi fatal.

Empenhados como sempre, trocávamos a bola com atenção e concentração, lutando com as marcações do adversário e com a lama na relva.

Aos cinco minutos, Hélder marcou o primeiro golo do Paúle.

Perante algumas falhas da defesa, aos vinte e dois minutos de jogo, Hálder marcou novamente.

A Academica começou a ter noção dos seus erros. E o intervalo deve ter sido duro para as orelhas dos jogadores, pois o treinador não poupou nas criticas. Elas ouviam-se do nosso balneário.

Ao voltarmos ao relvado, os “estudantes” tentaram tudo para empatar a partida.

Inteligentemente, mantivemos a calma e jogámos em contra-ataque, o que nos levou a chegar ao resultado de quatro a zero.

Perto do fim, a Academica marcou o golo de honra.

Cerca de cinquenta e tal pessoas rejubilaram connosco a continuidade do nosso feito histórico.

Simultâneamente, o Boavista derrotara o Salgueiros. E à noite, o F. C. Porto trouxe do Alvalade XXI o passaporte para as meias-finais.

No dia seguinte, os nossos quatro a um à Academica foram mais noticiados que o jogo entre os “grandes”.

“Cuidado com eles!” era o titulo de um jornal. Outro escrevia “Paúle(ada) nos estudantes”. E “Quem se segue?” perguntava um terceiro.

O sorteio das meias-finais aconteceu alguns dias mais tarde. Alfredo Carrapiço desejava que o Paúle jogasse em casa com o Benfica ou o Porto, o que daria uma boa receita ao clube. Já para os outros clubes, jogar connosco seria mau, ainda mais em casa, pois a receita teria resultado contrário.

“A fava saiu ao Benfica!”, noticiava o telejornal dessa noite. Pois foi, ninguém saiu satisfeito da sede da Federação Portuguesa de Futebol. O Benfica iria receber o G. D. Paúle e o F. C. Porto recebia o Boavista F. C.

Apesar de ninguém o admitir, perante as demonstrações de bom futebol dadas pelos encarnados ─ que lutavam taco a taco com o Porto pela Superliga ─ todos temiam uma goleada na Luz. O jogo estava marcado para o principio da segunda quinzena de Março.

José Luis reunira o plantel, após um treino, e falou-nos nos compromissos desportivos seguintes. A situação no campeonato era problemática, continuando o Paúle abaixo da linha da manutenção, mas continuando com possibilidades de atingir os seus objectivos.

O jogo com o Benfica também ia exigir de nós uma boa preparação fisica. Não que alguém tivesse o desplante de pensar em ganhar o jogo. Só queriamos jogar o suficiente para dignificar a camisola do G. D. Paúle.

No fim dessa reunião no balneário, José Luis saiu do local e os restantes acabaram de trocar de roupa.

Todos os jogadores do Paúle se relacionavam optimamente comigo, excepto Miguel. Sabia que muito da sua antipatia por mim era infiltrada pela lingua venenosa de Carla. E o facto de ele achar que eu lhe roubara Raquel, ainda agudizava mais essas divergências.

─ Então a tua filha, anda aqui com a vedeta, Norberto? ─ perguntou, provocatório, Miguel.

─ O quê? ─ interrogou Norberto, meio atónito.

─ Não ligues. ─ disse-lhe. ─ O Miguel anda com visões.

Miguel encarou-me com postura desafiante e continuou:

─ Visões? A Carla contou-me que viu a Dália a sair de tua casa, às tantas da madrugada. É mentira?

Abanei a cabeça, enfadado com a conversa.

No entanto, Norberto aproximou-se de mim e repetiu:

─ É mentira?

─ É, Norberto! ─ confirmei. ─ A Dália esteve, de facto, em minha casa. Passou por lá para conversarmos um bocado. Sabes que eu e a tua filha nos damos bem, desde aquela noite...

─ Sim, sim. ─ concordou de imediato, evitando que falasse na tentativa de violação.

Porém, Miguel com todo o seu instinto incêndiário e perante o fracasso da primeira iniciativa, prosseguiu:

─ Só quem não conhece a Dália é que acredita que vocês estiveram a conversar.

─ Que queres dizer com isso? ─ questionou Norberto.

Abilio colocou-se defronte de Miguel e aconselhou-o a calar-se. Miguel borrifou-se para o conselho.

─ A tua filha é uma puta! Vai todas as noites para os bares em Oliveira, engatar gajos.

─ Seu...

Justino e Reis agarraram Norberto, impedindo-o de socar Miguel.

─ Estás a ir longe demais. ─ avisou Abilio.

─ Não sei porquê essas caras. ─ insistiu Miguel, percebendo os olhares condenatórios. ─ Não estou a mentir. Além disso, Norberto, alguns dos teus colegas já foderam com a tua filha!

A raiva de Norberto estava-lhe patente no olhar. Afastou violentamente Justino e Reis e saiu do balneário, batendo com a porta.

Augusto e eu, como já estávamos vestido, saímos do balneário para ver onde ele ia, temendo algum acto treslocado. Contudo, a fúria de Norberto teve como destino o bar do clube, procurando afogar a raiva no alcool. Lembro-me quando todos abandonámos o balneário e seguimos para as nossas casas, ele ainda ali estava, agarrado ao copo de vinho tinto.

Todos condenaram a atitude de Miguel, mas apenas Abilio tivera coragem para o condenar, cara a cara.

Nessa noite, após o jantar, resolvi ir tomar um café ao estabelecimento da dona Palmira.

O frio continuava, mas não era tão intenso como foro no pico do Inverno, altura em que quase todos se recolhiam nas suas casas e não se via ninguém nas ruas. Passado esse tempo, as pessoas iam retornando aos cafés e ao convivio entre amigos.

Como era normal, Augusto lá estava no café da mãe a ajudar. A minha irmã Manuela ficava quase sempre em casa, agarrada aos processos em que trabalhava para a familia Calheiros. Eu costumava acompanhar Augusto a casa e aproveitava para visitar a minha irmã.

Naquela noite, Ramalho, Justino e Abilio acompanhavam-me no café e na conversa animada.

Teodoro aproximou-se da nossa mesa e perguntou:

─ Sabem do Miguel?

─ Não! Porquê? ─ disse Abilio.

─ O José Luis telefonou aqui para o café, a perguntar por ele. ─ explicou Teodoro. ─ Parece que contaram ao mister o que aconteceu.

─ O Miguel deve estar no bar do pai. ─ sugeriu Justino.

─ O Miguel anda armado em parvo. ─ considerou Abilio. ─ Não havia necessidade de dizer aquilo ao Norberto.

─ Ele não queria atingir o Norberto! ─ afirmei. ─ Queria era virá-lo contra mim.

─ Também percebi isso. ─ concordou Ramalho.

Abilio deu uma palmada na mesa e concluiu:

─ Anda assim, desde que anda com aquela tipa, a Carla. Quem é aquela gaja?

─ Nem queiram saber. ─ disse eu.

─ Conhece-la? ─ indagou Abilio.

Lembrei-me que em todo aquele tempo, nunca contara a ninguém quem era a Carla. Achei que estava em boa hora de saberem. Porém, exclui a parte da história em que andámos um com o outro, nos meus tempos de belenense.

─ A Carla era amante do meu ex-cunhado. Quando ele apareceu cá, ela vinha com ele. Desapareceu na noite em que ele morreu, a noite do incêndio. E reapareceu na festa de Paúle. ─ Bebi um pouco da água que tinha no copo. ─ Tem um ódio de estimação por mim e pela minha irmã.

O ódio dela era por mim. A minha irmã estava fora do alvo.

─ Então está explicado! ─ exclamou Abilio. ─ Anda a atirar o Miguel contra ti.

─ Conta-me outra, Abilio. ─ disse, encolhendo os ombros. ─ Essa já eu sei há muito tempo.

A conversa foi interrompida por dois estrondos. Todas as pessoas ali no café os ouviram e ficaram curiosas a olhar para todo o lado.

─ Foguetes? ─ questionei.

─ Não. ─ negou prontamente Abilio. ─ Isto são tiros.

Levantámo-nos das cadeiras e fomos para a rua, tentar perceber o que se estava a passar. Encontrámos José Luis que vinha a chegar.

─ Que aconteceu, mister?

─ Não sei. ─ respondeu. ─ Pareceram-me tiros vindos dali.

O treinador apontava para o fundo da rua, para lá do estádio, na extremidade da aldeia, junto ao caminho que ia dar à parte baixa da Casa de Paúle.

Um grupo de pessoas, eu incluido, caminhámos pela estrada até lá. Depois de passarmos o estádio, encontrámos uma velhinha que nos disse ter ouvido o som vir da casa de Norberto, dez metros mais à frente.

Temendo o pior, Abilio pediu ao irmão que fosse chamar a GNR.

O grupo precipitou-se para a casa, mas foi impedido pelas palavras de José Luis, aconselhando a que ninguém se arriscasse, antes de chegar as autoridades.

Abilio não partilhou dessa opinião e voluntariou-se a ir ver o que se passava. E eu fui com ele.

A porta da casa estava aberta. Enquanto nos aproximávamos cautelosamente, ouvi a senhora idosa relatar que ouvira gritos e discussão entre Norberto e a filha.

Abilio seguia na frente, tapando ligeiramente o meu ângulo de visão.

Deparámo-nos com Norberto sentado no chão da sala com uma pistola na mão, olhar vidrado e uma lágrima a escorrer pela face. Sentimos que algo terrivel acontecera.

Abilio temeu que Norberto se fosse suicidar e tentou aproximar-se mais. Eu desviei-me, procurando Dália.

Nunca entrara naquela casa e não conhecia nada. Dava passos cuidadosos, inspeccionando cada bocadinho do interior. Ouvia Abilio dizer:

─ Norberto! Estás bem, Norberto? ─ Não ouvi qualquer resposta do outro. ─ Vá, Norberto! Dá cá a arma.

Continuei até chegar à cozinha. Preferia mil vezes, não ter sido o primeiro a chegar ali.

Existia um balcão na cozinha, ao longo da parede, onde ficava o lava-louça e alguns electrodomésticos encastrados. Dália estava deitada de barriga para baixo, sobre o balcão, com uma perna sobre o tampo e a outra caida para o chão. Tinha a saia levantada até à cintura, as nádegas a descoberto e notava-se os lábios vaginais com aspecto de que fora penetrada recentemente. A roupa do tronco estava intacta. E a cabeça despenhava-se numa poça de sangue que escorria pelas paredes do balcão, espalhando-se pelo chão.

Dália não dava o minimo sinal de vida.

Escutei o som da sirene do jipe da GNR. Sem tocar em nada, regressei à sala e vi que Abilio ainda não conseguira desarmar Norberto.

Dois agentes entraram na casa e os populares acotovelavam-se para ver o sucedido. Norberto entregou-se sem qualquer resistência.

Naquela noite, acreditando na confissão de Norberto, ele regressara a casa embriegado e com as palavras de Miguel na cabeça. Discutiu com a filha e ela, no calor da discussão, confirmou as afirmações que ele ouvira. Treslocado, atirou-se à filha e tentou fazer o que sempre lhe fizera, desde pequena, abusar dela sexualmente. Dália resistiu, mas ele tentou forçá-la sob a ameaça da pistola que guardava em casa. Ninguém sabe o que aconteceu a seguir, até porque o próprio Norberto não se lembra. O resultado foram duas balas na cabeça de Dália e a sua morte instantanea.

A aldeia de Paúle perdia assim dois dos seus habitantes. A oficina de automóveis em Midões, um dos seus mecânicos. E o G. D. Paúle, o seu guarda-redes.

Norberto foi mais tarde julgado por homicidio e ainda hoje cumpre pena no estabelecimento prisional em Coimbra.

 

Apenas com um guarda-redes no plantel, José Luis comunicou a necessidade de nova contratação de um jogador, um guarda-redes. Contudo, Alfredo Carrapiço recusou o pedido do treinador, justificando a falta de verbas do clube.

A altura era propicia a transferências, uma vez que o prazo para inscrições, a meio do campeonato, estava prestes a fechar.

Jorge visitara-me em Paúle, vindo de Coimbra, onde tivera uma reunião com o presidente da Academica, o qual ficara fascinado com a minha capacidade futebolistica. Telefonara ao meu empresário e apresentou-lhe uma proposta aliciante para que eu me mudasse para o seu clube já em Março.

─ Não, Jorge! ─ recusei, quando me revelou os pontos da proposta. ─ Já te disse que não saio do Paúle, antes da próxima época.

─ Pensa bem, Ivan. Isto pode ser o melhor contrato que te consigo, estando tu ao serviço do Paúle. A Academica está muito interessada em ti. Nada me garante que continuem em Julho.

─ Mesmo assim, Jorge. Não posso deixá-los agora. Eles precisam de mim.

Jorge abanou a cabeça, incrédulo, e insistiu:

─ Reconsidera, Ivan Pedro! Pode ser a oportunidade de voltares à Superliga. Daqui a alguns dias, vocês vão à Luz e... O resultado pode ter consequências nefastas para a tua carreira.

─ Ouve, Jorge! Se me aparecem propostas, agora, foi porque o paúle acreditou em mim e me deixou jogar lá, este tempo todo. Seria, no minimo, uma pulhice largá-los numa altura tão critica.

Jorge levantou as mãos para o céu e disse:

─ Deus queira que tu saibas o que estás a fazer, Ivan!

 

Uma semana antes do jogo com o Benfica, o canal televisivo SportTv convidou o G. D. Paúle para uma reportagem acerca do clube.

Chamavam-nos a equipa sensação da Taça de Portugal. Protagonizávamos o espirito do troféu, a competição em que os “pequenos” derrubavam os “grandes”. Porém, o “grande” que tinhamos pela frente era demasiado grande.

─ Acha que estão a viver um conto de fadas? ─ perguntava-me o reporter.

─ Se isto é um conto de fadas, o nosso principe encatado deve ser o senhor presidente da república, quando nos entregar o troféu no Jamor.

O jornalista não evitou uma risada. Seguidamente, questionou:

─ Acredita que o paúl pode vencer a Taça?

─ Se me perguntasse se eu achava que o Paúle chegava às meias-finais, há seis meses, eu dizia-lhe que não. Por isso, o que eu acho, vale o que vale.

─ Mas acredita? ─ insistiu.

─ Todos nós acreditamos que tudo pode acontecer. O Benfica é fortissimo. E mesmo que cheguemos a conseguir vencê-los, ainda temos um Porto ou um Boavista na final. É muito dificil.

O jornalista olhou para uns apontamentos e perguntou:

─ Quem é o Ivan Pedro? Percebi, desde que chegámos a Paúle, que você é uma especie de vedeta do clube. Que tem a dizer?

─ Que não sou nenhuma vedeta. Estou cá a jogar desde Julho e sou um jogador como outro qualquer.

─ Mas nenhum tem o seu curriculo. ─ lembrou. ─ O Ivan foi um jogador dispensado pelo Alverca, após uma grave lesão na perna, a época passada. Como veio parar aqui.

─ Honestamente? Foram os unicos que não me fecharam a porta na pior altura da minha vida.

─ Guarda alguma mágoa pelo tratamento dos dirigentes do Alverca?

─ Não. Guardar sentimentos em relação a eles, seria dar-lhes importância que eles não merecem.

─ O jogo com o Alverca teve um sabor a vingança, não?

─ Não. Teve uma mistura de sensações. Alegria pela vitória do Paúle, mágoa pela derrota de muitos amigos que mantenho naquela casa.

Nova olhadela nos apontamentos e nova pergunta:

─ Ivan Pedro! E o futuro?

─ A Deus pertence, como diz o povo. ─ respondi de imediato.

─ Sim. Mas quais são as suas expectativas?

Sorri timidamente.

─ Sinto que já passei a idade das expectativas. Estes últimos tempos têm sido... Não sei como os descrever. Alegro-me pelas pessoas que me rodeiam e congratulo-me por continuar a fazer algo que adoro, jogar futebol.

A minha entrevista acbou por ser o destaque do programa dedicado ao G. D. Paúle.

Quando o mesmo foi transmitido pela televisão, não evitei enormes gargalhadas com a entrevista de Alfredo Carrapiço. Primeiro, escreveram Carrapito no apelido do homem. Depois, apareceu na imagem um homem de casaco bege, apertado em esforço com a enorme barriga quase a fazer os botões ceder, falar do clube e das aspirações. Via-se os pelos do peito a sair pela camisa mal abotoada, não encontrando maneira de esconder aquele aspecto de homem rude da construção civil, como eu o conhecera.

─ Senhor Alfredo! ─ começou o jornalista. ─ O que leva um homem a presidir um clube como o Paúle?

─ Os votos. ─ respondeu. ─ Nós temos eleições de dois em...

─ Não me referia isso. ─ interrompeu o reporter. ─ Pergunto, o que o motiva?

Motiva era uma palavra demasiado culta para ele. Fingiu perceber e respondeu:

─ As pessoas gostam de mim. E isso fez-me ser eleito.

─ Acreditava que o Paúle podia chegar onde chegou, na Taça?

Alfredo Carrapiço tossiu e cuspiu uma escarreta nojenta para o chão. Depois, respondeu:

─ Merda de tabaco. Sim... Uhm? Quer-se dizer, nós queremos sempre vencer. Claro que chegar tão longe... Samos humidos e graças a Deus conseguimos isto.

“Samos humidos”, frase célebre de Alfredo Carrapiço para somos humildes.

José Luis também foi entrevistado. Disse coisas bastante acertadas. E ouvindo-o responder à perguntas e a forma como falava, fizeram-me concluir que ele merecia algo mais que um clube de III Divisão.

Para além disto, a reportagem falava da aldeia, do estádio, da opinião das pessoas acerca do clube e dos jogadores. Quase todos falavam no meu nome. A imagens do estádio e das instalações revelavam o trabalho que fora feito nos últimos anos no G. D. Paúle, o que nos dignificou ainda mais.

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