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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO XIV

Regressei a Lisboa na véspera de Natal para o funeral de Camila.

Quando a sua morte foi confirmada com o fim das buscas, pedi ao presidente do G. D. Paúle algum tempo para me deslocar a Lisboa. Sensibilizado com o que sucedera, Alfredo Carrapiço concedeu-me o tempo que fosse necessário para eu ultrapassar a tragédia e regressar.

Augusto e Manuela acompanharam-me na viagem, até porque a minha imã fazia questão de estar presente na cerimónia fúnebre.

Debaixo de uma chuva miudinha, várias pessoas assistiam ao discurso do padre, antes de enterrarmos um caixão vazio, pois nunca o corpo de Camila fora encontrado.

Mantivera no meu coração a esperança de que ela, por qualquer milagre, aparecesse viva. Porém, pessoas entendidas no assunto, disseram-me ser impossivel sobreviver tanto tempo no mar com aquele clima.

Em volta do caixão, vi o pai de Camila, alguns familiares seus, os meus pais, a minha irmã com Augusto e a minha sobrinha.

Cada monte de terra atirado para a cova era um sopro na chama de esperança no meu coração.

Antes da tragédia, estava previsto os meus pais passarem o natal em Paúle. No entanto, com os acontecimentos sucedidos, o Natal transferira-se para a casa deles em Lisboa.

Manuela e Augusto passaram a Consoada em Lisboa e foram passar o dia de Natal com a familia dele em Paúle.

Terminado o almoço de Natal, em casa dos meus pais, debaixo de um clima de grande tristeza, decidi refugiar-me na minha casa em Alcochete.

Conduzi o carro rumo à margem sul do rio Tejo, despreocupado com o perigo de dirigir a mais de cento e cinquenta quilometros/hora numa estrada alagada pela chuva.

Estacionei em frente ao prédio e entrei em casa.

Senti o odôr a ambiente fechado do interior da casa, ao entrar. Fechei a porta e desejei nunca mais sair dali, nem ver ninguém.

Os meus dias eram passados a ver televisão, dormir, comer e... casa-de-banho. Só atendia chamadas dos meus pais para lhes dizer que estava bem e que queria ficar sozinho. Não tomava banho nem tinha cuidados com a higiene e até deixei crescer a barba.

Decorreu uma semana e eu entrei no novo ano, completamente, isolado de tudo e de todos. Nem os pedidos da minha mãe, para que passasse a quadra com eles, me tirou de Alcochete.

Ao fim de duas semanas, atendi uma chamada de Alfredo Carrapiço.

─ Como estás, rapaz? ─ perguntou-me.

─ Mal. ─ respondi.

─ As coisas aqui também não estão nada bem. ─ lamentou o presidente. ─ O Paúle não tem jogado bem e temo que a este ritmo voltemos aos Distritais.

─ Lamento. ─ disse com frieza.

─ Precisamos de ti, aqui, rapaz. ─ pediu. ─ A equipa precisa de ti.

Respirei fundo e avisei:

─ Não tenciono voltar a jogar, senhor Carrapiço. A vida para mim acabou.

─ Por favor, Ivan Pedro. Nós precisamos de ti. ─ implorou. ─ Pelo menos, vem jogar o jogo da Taça!

─ Lamento, senhor presidente! ─ e desliguei.

O telefone voltou a tocar, mas não atendi.

Ao ver televisão, reparei nos resultados dos jogos em atraso da quinta eliminatória. O Alverca vencera o Belenenses e tinha como adversário na sexta ronda o... G. D. Paúle.

Que curioso, pensei, a minha actual equipa a defrontar a minha antiga. Conhecendo como conhecia o Alverca e vendo que o jogo era no Ribatejo, concluí que o Paúle iria fazer o seu último jogo na competição.

O telefone voltou a tocar. Olhei para o visor e vi o numero do Jorge.

─ Diz, Jorge!

─ Como estás, Ivan?

─ Como achas que estou? Na merda.

─ Sei o que estás a sentir. ─ disse ele.

─ Não sabes não. ─ retorqui. ─ Só se o Eduardo fosse naquele avião.

─ Talvez tenhas razão... Ouve! O presidente do Paúle telefonou-me.

─ Calculei.

─ Diz que não queres voltar a jogar lá. É verdade?

─ Nem lá, nem em lado nenhum. ─ emendei. ─ Acerta com ele a rescisão e pagamos a indeminização.

─ Não há nenhuma idminização a pagar, Ivan. Eu fiz o contrato com a hipotese de saires quando quiseres. Não te lembras?

─ Sim. ─ confirmei. ─ Mas não os quero prejudicar. Acerta uma verba com eles, Jorge.

─ Eles não querem dinheiro, Ivan. Querem-te a ti! Tu és a alma daquela equipa!

─ Acabou, Jorge. Não sou a alma de nada. Eu morri naquele dia.

─ Ivan tu...

Desliguei a chamada e atirei o aparelho para longe.

A recordação dos momentos vividos ali com Camila retornaram à minha mente. E os meus olhos encheram-se de lágrimas.

 

Chegara o dia do jogo com o Alverca. Apesar de cimentar a ideia de não voltar a pisar um campo de futebol, continuava a ter a curiosidade de saber as noticias do desporto. Em relação à actuação do clube no campeonato da III Divisão, a informação era escassa, pois ninguém se preocupava com as prestações das equipas semi-amadoras. Porém, os jogos da Taça eram noticia e, principalmente, o jogo daquela equipa-surpresa da Taça que ia defrontar o Alverca.

Pela manhã, ouvi a campainha tocar e surpreendi-me. Não recebera uma única visita, desde que ali estava. Calculei que fosse o carteiro e abri a porta. Aguardei na escada a subida do individuo, pois senti as passadas de alguém.

Quando percebi quem era, não quis acreditar.

Mister?

─ Olá, Ivan Pedro! ─ cumprimentou-me, subindo os últimos degraus. ─ Desculpa ter vindo sem avisar.

─ Só me faltava esta. ─ reclamei. ─ Que quer?

─ Podemos conversar? ─ pediu. ─ Posso, pelo menos, entrar?

Notei o seu espanto ao ver a minha figura emporcalhada com uma barba de pelos enriçados, igualmente suja.

Fiz-lhe sinal com a mão para entrar.

José Luis entrou no meu apartamento e torceu o nariz com o cheiro nauseabundo do interior. Manteve a coragem e sentou-se no sofá da sala.

─ Que quer, mister? ─ voltei a perguntar. ─ Nem os amigos quero ver, quanto mais você.

─ Sei que não morres de simpatia por mim, Ivan. Mas, preciso de falar contigo.

Sentei-me na poltrona que tinha na sala e escutei-o:

─ Ivan, lamento o que te sucedeu. Só que não podes desistir de tudo, dos teus sonhos...

─ Que sabe você dos meus sonhos? ─ interrompi. ─ Não era você que dizia que eu era um tipo armado em vedeta? Não foi você que me pôs no banco de suplentes, só porque não pactuei com a sua mentalidade mesquinha e a sua falta de ambição? Que quer agora?

─ Quero que tu jogues, logo à tarde!

─ Não treino, já lá vai quase um mês. Não tenho a menor motivação. Acredite, mister, eu sou a última pessoa que você quer naquele campo.

José Luis respirou fundo, coçou o nariz e perguntou:

─ Como se chamava a tua namorada?

─ Ca... Camila. ─ ainda se me embargava a voz, ao proferir o seu nome.

─ Onde quer que ela esteja, achas que gostaria de te ver acabar assim?

Levantei-me do sofá e dei um soco no móvel.

─ Não me venha com conversa da treta! Acabar como? Acabar aqui sozinho ou acabar na merda do Paúle? São essas as minhas hipoteses. Fazer carreira na III Divisão, que bonito, que motivo de orgulho...

─ Pareceu-me que sentias orgulho em jogar lá. ─ disse com serenidade. ─ Quem joga como tu jogaste pelo Paúle, não o faz por fazer. Quem motivou uma equipa de jogadores sem ritmo a reverter um zero a dois para três a dois...

─ Pode parar por aí, mister! ─ tornei a interromper. ─ Eu acreditei que a jogar ali, poderia conseguir um novo contrato com uma equipa melhor. O meu empresário fez-me acreditar que poderia subir aos poucos e voltar a jogar na primeira divisão. E eu acreditei.

─ Mas...

─ Espere, mister! Deixe-me acabar. ─ sentia toda a raiva na garganta. ─ Separei-me da mulher que mais amei na minha vida, deixei-a partir para longe... Para quê? Diga-me, para quê? Para jogar no... Foda-se, estou farto disto. Estou farto da vida!

Ao ver-me destroçado, José luis levantou-se do sofá e colocou-me a mão no ombro.

─ Ivan! Graças a Deus, nunca passei pela tragédia que passaste. No entanto, percebo a tua mágoa por jogares num clube da III Divisão (que, ainda por cima, está perto de descer novamente). Compreendo que o teu sonho fosse a Superliga. É o sonho de nós todos. Achas que não gostava de treinar um F. C. Porto, um Sporting, um Benfica, ou até um Rio Ave? Também tenho ambição, Ivan! Mas, por vezes, temos que lutar com as armas que temos. E isso, não é cobardia, é realidade.

─ Acredita que fui tão estupido, que cheguei a pensar que um dia jogaria no Benfica?

─ Sonhar move montanhas. ─ retorquiu.

─ Ó mister, poupe-me! Daqui a pouco está a recitar a Pedra Filosofal.

José Luis sorriu ligeiramente.

─ Vou-me embora, Ivan! ─ informou. ─ Só quero que saibas que tu nos fizeste sonhar. Na televisão, falam em equipa-surpresa e em conto de fadas. Cada um dos teus colegas vê esse conto de fadas, esse seu sonho, em ti. Cerca de dúzia e meia de homens, o presidente, eu, uma população inteira da aldeia de Paúle acha que tu podes fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso. Porém, Ivan, nós somos só a gente humilde do campo, os parvónios como vocês nos chamam aqui em Lisboa. Sonhamos, é verdade. Mas, se sonhamos, é porque tu nos fizeste sonhar. Adeus Ivan!

Nem percebi que ele saira, até ouvir a porta a bater.

Fiquei sozinho em casa, despenhado no sofá da sala. Enojei-me com a porcaria em que me tinha tornado. Reparei na foto de Camila, na prateleira do móvel, e pensei na sua reacção se me visse naquele estado. Fechei o olhos e tentei adormecer, desejando não mais acordar.

Nesse instante, a minha memória recordou aquele jovem que encontrar no restaurante, em Setembro, a sua alegria por ir ver o jogo e o brilho dos seus olhos a falar do seu singelo clube. Não. A mistica não é exclusiva dos “grandes”. Os feitos dos clubes são, muitas vezes, os raros momentos de felicidade de muita gente.

Apodrecer naquele sofá não me traria Camila de volta. Sucumbir à tristeza não dignificaria o amor que sempre nutri por ela. Não percebi que lição Deus me queria dar com aqueles acontecimentos, mas recusei-me a render à morte, abdicando da vida.

Diz-se que o verdadeiro soldado morre no campo de batalha. Se eu queria morrer, que fosse morrer no meu campo de batalha, um campo de futebol, suando a camisola.

Tomei um banho e fiz a barba. Ao sair da casa-de-banho, eu era outra pessoa.

 

Já se ouvia o ruido dos adeptos no estádio do Alverca. Fez-me lembrar as épocas em que jogara por aquele clube. A sensação de entrar ali para jogar pelo adversário era, no minimo, estranha.

Conhecia os cantos todos ao estádio. E as pessoas conheciam-me a mim. Entrei pelo acesso dos jogadores e caminhei tranquilo até aos balneários. Parei junto à porta que dizia “Equipa Visitante” e bati.

A porta abriu e vi José Luis.

No interior, todos ficaram mudos ao ver-me. Já ninguém contava com a minha presença, mas quase todos revelaram o brilho da esperança nos olhos.

─ Ivan! ─ exclamou Augusto, correndo para mim e abraçando-me.

A equipa rodeou-me e cumprimentou-me. Os meus colegas perguntavam-me como estava e se precisava de alguma coisa.

Agradeci e segui para o meu lugar para me equipar.

José Luis iniciou uma pequena palestra, dando algumas indicações para o jogo e relembrando a táctica. Por fim, disse:

─ Ivan! Gostariamos de ouvir-te, acerca do jogo. Tu jogaste no Alverca. Que nos podes dizer sobre eles?

Levantei-me do meu lugar, impecavelmente, equipado.

─ Os dirigentes deste clube consideraram-me acabado para o futebol e dispensaram-me. Hoje, vendo-me com vocês, vão achar-vos tão acabados como me acharam a mim. Vamos usar isso a nosso favor. Alguém aqui pensa que eu estou acabado?

─ Não! ─ disseram todos.

─ Então, meus amigos. Vocês também não.

Soltámos gritos de ânimo e preparámo-nos para subir ao relvado.

As equipas entraram lado a lado. Abilio lideráva-nos como sempre. Vi o presidente Alfredo Carrapiço na tribuna com o presidente do Alverca e acenei-lhe. Concedi-lhe uma das suas maiores alegrias, ao ver-me regressar ao G. D. Paúle.

Alguns jogadores do Alverca cumprimentara-me, saudosos. Sabia que deixara lá amigos. Houve também quem se estivesse borrifando para mim e não me conhecesse de lado nenhum.

O árbitro apitou e o jogo começou.

A tarde permanecia nublada e a iluminação arteficial já estava ligada, apesar de pouco passar das cinco da tarde.

O jogo foi renhido e as possibilidades de golo foram raras. Eu tinha como marcador directo um miudo que não era do meu tempo de jogador do Alverca. Fazia de tudo para me parar, mas batia-o quase sempre.

A meio da primeira parte, Norberto executou duas excelentes defesas, evitando o golo do Alverca. Perto do intervalo, Hélder quase marcava para nós.

José Luis jogava todas as cartadas, colocando os principais jogadores a actuar.

Quando regressámos para a segunda parte, o jogo continuou repartido. Porém, um facto foi de lamentar. Calculo que alguém tenha dito ao jovem, que tinha como missão contrariar os meus ataques, que eu tivera uma lesão e que tinha um ponto fraco. Por duas vezes, tentou rasteirar-me violentamente com o objectivo de acertar na perna, outrora lesionada. À terceira, derrubou-me com aparato, deixando-me no chão a contorcer-me com dores.

O árbitro chamou-o e mostrou-lhe o cartão vermelho, debaixo de um coro de protestos do público e jogadores.

O doutor Gervásio veio prestar-me assistência e colocou-me o spray milagroso na perna. Levantei-me, dei uns passos e fiz sinal que estava bem.

A partida terminou com zero a zero, obrigando a um prolongamento de trinta minutos.

A nossa preparação fisica não era tão boa como a do Alverca, daí que tivessemos passado esse periodo a defender desesperadamente a nossa baliza. Norberto foi a figura do jogo, negando diversas vezes o golo aos ribatejanos.

Com tudo empatado ao fim desses trinta minutos, recorreu-se ao desempate pela marcação de cinco grandes penalidades para cada lado.

Os treinadores escolheram os jogadores para as marcarem e entregaram as listas ao quarto árbitro.

O Alverca foi o primeiro a rematar. A bola foi parar à bancada, tal foi a força e a falta de pontaria. Nessa primeira rodada, Abilio marcou golo.

Todas as restantes grandes penalidades foram convertidas em golo.

O resultado era uma igualdade a quatro. E só faltava eu rematar.

Caminhei para a marca pintada no chão e peguei na bola. Vi o guarda-redes francês do Alverca a meio metro, tentando desconcentrar-me.

─ Não vale a pena, amigo. ─ disse-lhe sorrindo.

Ele retribuiu o sorriso. Éramos velhos conhecidos e amigos.

O árbitro ordenou-lhe que ocupasse o seu lugar na baliza.

Ouviam-se assobios. Os adeptos tentavam distrair-me para que falhasse. Tinha nos meus pés a hipotese de colocar o Paúle nos quartos-de-final.

Parti para a bola e rematei, não dando qualquer hipotese de defesa ao guarda-redes.

Foi estranha, a sensação de marcar ao Alverca. Não comemorei o golo. Olhei para trás e vi os meus colegas correrem para mim. Na minha frente, o francês ajoelhado no chão, arrasado com o fracasso.

Dirigi-me a ele e estendi-lhe a mão, ajudando-o a levantar. Abracei-o e felicitei-o pelo bom jogo.

Os jogadores do Paúle desaceleraram a corrida e, aquilo que se preparava para ser um clima de euforia, transformou-se numa saudável confraternização entre vencedores e vencidos, debaixo dos aplausos da assistência.

 

Nessa mesma noite, o autocarro com a comitiva do G. D. Paúle partiu de Alverca rumo à Beira Alta. Adivinhava-se a recepção que teriam ao chegar à aldeia.

Eu regressei a Alcochete, mas prometendo a todos que no dia seguite estaria de novo em Paúle.

Ao amanhecer, já conduzia o meu carro pela A1 na direcção sul-norte. No banco ao meu lado, levava o jornal desportivo que tinha em letras colossais o titulo “HOUVE TAÇA” e falava da proeza da humilde equipa da III Divisão que ia a caminho dos quartos-de-final.

Faltavam cerca de trinta quilómetros para chegar a Coimbra, segundo a placa junto à estrada. Coimbra fez-me lembrar alguém com quem já não falava havia algum tempo. Decidi fazer um desvio no meu percurso e entrar na cidade.

A cidade de Coimbra, para mim, era como andar numa sala escura. Não conhecia nada nem niguém e tornava-se dificil encontrar o que quer que fosse.

Sabendo que Raquel estudava Medicina, o mais correcto seria começar por procurar a Faculdade de Medicina de Coimbra.

Parei o carro junto ao passeio e interpelei uma pessoa:

─ Ó amigo! Desculpe. Sabe dizer-me onde fica a Faculdade de Medicina?

─ No Hospital da Universidade de Coimbra. ─ respondeu com desprezo.

─ E onde fica o Hospital da Universidade? ─ insisti.

─ Não sabe onde fica? Estranho como encontrou Coimbra. ─ respondeu.

─ Obrigadinho. ─ disse-lhe, arrancando e afastando-me de tanta estupidez.

Um pouco mais à frente, voltei a parar e perguntei a uma idosa onde ficava a Universidade.

Solicita, a senhora explicou-me, o melhor que pôde, como chegar lá.

Agradeci-lhe e segui viagem.

Chegado ao local, estacionei o carro e aproximei-me de um grupo de jovens, vestidos de negro.

─ Boa tarde! A Faculdade de Medicina?

─ É ali. ─ apontou um deles.

─ Obrigado.

Caminhei calmamente, pegando no telemóvel e marcando o número de Raquel.

─ Tou? ─ atendeu ela.

─ Raquel? É o Ivan Pedro.

─ Olá, Ivan. ─ notei a sua alegria ao ouvir-me. ─ Como estás?

─ Enfim, calculas como devo estar?!

─ Sim.

─ Estás na Faculdade de Medicina, agora?

─ Estou, porquê?

─ É que eu estou aqui à porta.

─ Não acredito. ─ duvidou ela.

─ Podes acreditar. Olha, eu vou esperar aqui, à entrada, está bem?

─ Está.

Não sei quanto tempo esperei, talvez dez ou quinze minutos. Aguardei, sentado nas escadas, junto às arcadas.

Passado esse tempo, Raquel apareceu vinda do interior. Linda, elegantemente vestida com o cabelo louro apanhado em rabo-de-cavalo. Deu-me um beijo na face e disse:

─ Que agradável surpresa, Ivan!

─ Estou de regresso a Paúle, mas como acabei por não te ver no Natal, pensei em visitar-te aqui.

─ Fizeste muito bem. ─ afirmou, sorrindo. Depois, endureceu o semblante. ─ Desculpa, não te ter dito nada depois... daquilo. Não quis intrometer-me na tua vida.

─ Eu compreendo. Confesso que também não tinha cabeça para falar com ninguém.

Raquel olhou para uma pastelaria, um pouco mais abaixo, e convidou:

─ Queres tomar um café e pôr a conversa em dia? Só tenho aulas daqui a uma hora.

Concordei.

Seguimos, lado a lado, até ao local. Engraçado, ver como ela se movia com naturalidade por ali, contrariamente ao que sucedia em Paúle, onde tudo a repugnava.

Sentámo-nos numa em duas cadeiras com uma mesa pelo meio, cara a cara um com o outro. Raquel sorria-me, sempre que olhava para mim, mantendo o charme.

O empregado trouxe os cafés que solicitáramos.

─ Como tens ultrapassado tudo? ─ perguntou, deitando o açucar no café.

─ Eu ainda não ultrapassei nada. Prefiro não pensar no assunto.

─ Soube que não ias voltar a jogar no Paúle, é verdade?

Mexi o café com a colher e respondi:

─ Cheguei a pensar nisso e comuniquei-o à direcção, mas... O treinador convenceu-me a voltar.

─ O José Luis? O teu inimigo numero um?

─ Também não é assim. ─ contrariei. ─ Talvez fosse o facto de a equipa precisar de mim, não sei. Ele soube dizer-me umas quantas verdades. E eu estou-lhe grato por isso.

Raquel bebeu dois golos do café e tornou a pousar a chávena.

─ Quando regressei a Paúle, ninguém me soube explicar o que acontecera. Só quando a tua irmã chegou é que soube da história.

─ Vamos mudar de assunto. ─ pedi. ─ Ainda é doloroso falar nisso.

─ Claro, Ivan. Peço desculpa, realmente, que falta de tacto da minha parte.

─ Não, Raquel. Sei que te preocupas comigo.

─ Não imaginas quanto.

─ Eu sei, Raquel! Acredita que sei.

Gerou-se um silêncio entre nós. Aproveitámos para terminar o café.

─ E agora? ─ indagou ela.

─ Vou voltar ao Paúle e prosseguir com a minha vida.

─ Sozinho?

─ Sim.

Raquel debruçou-se sobre a mesa e confessou:

─ Ainda gosto de ti!

─ Não é o momento, Raquel. ─ lembrei, tentando usar um tom terno. ─ Está tudo ainda muito fresco na minha cabeça. Preciso de tempo para pôr as ideias em ordem. Preciso de uma boa amiga, Raquel. Nada mais.

─ Posso ser essa amiga?

─ Sabes que o lugar é teu. Porque perguntas?

─ Gosto que o digas.

Sorri-lhe com fraternidade.

─ Perdoa-me se não posso corresponder às tuas expectativas. Porém, neste momento, é de uma amiga que preciso.

─ Compreendo.

─ Como têm corrido as coisas na Faculdade? ─ perguntei, mudando de assunto.

─ Bem.

─ Quando é que vais a Paúle?

─ Uma vez que vais lá estar. ─ abriu o sorriso e lançou-me um olhar de sedução. ─ Estou a pensar ir até lá nos fins-de-semana. Mas, tudo depende de ter ou não exames.

Continuámos a conversar, durante mais algum tempo, até chegar a hora de ela ir para as aulas e eu voltar à estrada.

Despedimo-nos com dois beijos na face e com a promessa de um reencontro em breve.

Em Coimbra o frio era muito, mas nada comparado com o de Paúle. Tive de conduzir muito devagar e com cautela por causa do gelo e da neve na estrada.

O primeiro local onde parei, chegando a Paúle, foi em minha casa, já a tarde se encaminhava para o fim. Demorara mais tempo, pois decidira almoçar pelo caminho.

Depois de me certificar que estava tudo como eu deixara, regressei ao carro e conduzi até à casa da minha irmã.

Manuela recebeu-me de braços abertos e abraçou-me com ternura. Já lá ia quase um mês, tendo noticias minhas apenas pelo que os nossos pais lhe contavam.

─ Como estás, maninho? ─ quis saber, direccionando-me para o interior da casa e para o quente da lareira.

─ Um pouco melhor.

─ O Augusto tinha-me dito que regressaste à equipa, ontem.

Assenti com a cabeça.

─ Falava-se que ias deixar de jogar futebol.

Esfreguei as mãos, junto ao fogo da lareira e contei:

─ Foi o que disse ao Carrapiço. Depois do que aconteceu, tinha perdido a vontade de viver.

─ Ó maninho! Temos que continuar a viver.

─ Eu sei. Estou a fazer um esforço para sobreviver ao que aconteceu.

─ Sabes que podes contar comigo.

Nessa noite, jantei com ela e com Augusto. Acabei por não ter coragem de enfrentar o frio do exterior e passei lá a noite.

O meu coração continuava magoado com o que sucedera. E não sentia esperança que a minha vida voltasse a encontrar os momentos de felicidade que vivera com Camila.

Durante muito tempo, ainda chorava cada vez que a recordava. Contudo, é esse mesmo tempo que nos ajuda a cicatrizar as feridas do coração.

Adormecia com a esperança de acordar e tudo não ter passado de um sonho mau. Mas, as constantes confirmações da realidade começaram a habituar-me à triste ideia que Camila partira para sempre.

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