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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO XIII

Para os adeptos do clube, a vitória fora obra das palavras autoritárias que José Luis supostamente dissera ao intervalo. Oficialmente era assim. Porém, tanto os meus colegas, como as pessoas que lhes eram chegadas, sabiam que fora eu quem os influenciara.

O pior era que também José Luis o sabia. E como vingança por isso, colocou-me no banco dos suplentes nos jogos seguintes.

Realizaram-se mais dois jogos para o campeonato que se saldaram em duas derrotas para nós. Mesmo assim, para espanto dos adeptos, José Luis insistia em manter-me no banco.

No último fim-de-semana de Setembro, esse campeonato iria parar novamente para nova eliminatória da Taça de Portugal. O sorteio colocara-nos outra vez a jogar em casa e com o Nogueirense como adversário.

 

A minha irmã Manuela regressara a Paúle, cerca de duas semanas depois de ter partido. Optara por deixar Cibele ao cuidado dos avós, uma vez que já estava matriculada numa escola em Lisboa e eles teriam mais tempo para tomar conta dela, que a minha irmã, mulher sempre muito atarefada.

Através da imobiliária da familia Calheiros, comprou uma casa na zona baixa de Paúle, praticamente no extremo oposto onde eu vivia. Convidara-me para viver com ela, mas eu declinara a oferta, pois preferia ficar sozinho e sabia que ela tinha intensões de convidar Augusto para lá.

Quando lá fui almoçar, três dias depois de ela se mudar, a casa revelava bem o quâo recente era a sua estadia ali.

Após as festas da aldeia, muitos dos que ali passavam férias partiram de regresso às suas vidas. Alguns regressavam a França e à Alemanha, onde trabalhavam e viviam.

Naqueles primeiros tempos, ainda se sentia a falta deles.

O Verão terminara e o Outono, na data prevista, quis mostrar que estava novamente por ali. O facto de as aulas terem recomeçado também alterou o dia-a-dia da população.

Na Faculadade de Medicina de Coimbra, as aulas só começariam em Outubro. E, tal como fazia todos os anos, Raquel regressava à capital do distrito na semana anterior.

Naquela manhã de Sábado, a chuva caia em ambundância, encharcando tudo.

Raquel passara por minha casa para se despedir, pois ia partir para Coimbra. Muito elegante, vestindo um tailler rosa escuro, botas altas pretas e uma pequena mala.

─ É a primeira vez que me custa partir de Paúle! ─ confessou.

─ Porquê?

─ Custa-me deixar-te.

Sorri-lhe com ternura e sugeri:

─ Podes telefonar-me ou mandar um email.

─ Sim. Mas não é a mesma coisa que poder estar perto de ti.

Encolhi os ombros, não tendo solução para aquilo.

Raquel abraçou-me e deu-me um beijo na face, muito perto da boca.

─ Quando chegar telefono-te.

─ Está bem.

─ Vais ter saudades minhas?

─ Claro que sim.

Voltou a abraçar-me com força, como se não me quisesse largar.

─ O tempo passa depressa. ─ disse. ─ Não tarda, estás de volta. Não vens cá num fim-de-semana?

─ Em principio, não. ─ respondeu com desalento. ─ Vai ser um ano muito complicado. Vou precisar de todo o tempo disponivel para estudar. Só devo voltar lá para o Natal.

─ Seja como for, manteremos o contacto, está bem?

─ Espero que sim. ─ suspirou ela, temendo que a esquecesse, assim que passasse a porta.

Raquel saiu para a chuva, protegendo-se com o guarda-chuva. Desceu a escadaria e entrou num Mercedes da Casa de Paúle, conduzido por um dos motoristas da familia.

Não comunicámos muitas vezes, enquanto ela esteve longe, naquele último trimestre do ano, mas ambos tinhamos a preocupação de telefonar para saber como o outro estava. Confesso que mais vezes ela que eu.

No dia seguinte, o G. D. Paúle venceu o Nogueirense por dois a zero, num jogo com pouco público e com um temporal avassalador. Eu joguei, mas voltei recambiado para o banco de suplentes nos jogos seguintes do campeonato.

Nessa noite, Carla apareceu em minha casa. A sua presença na terra e a sua relação com Miguel tornara-se irrelevante para mim. E congratulava-me por ela nem me dirigir a palavra. Contudo...

─ Que queres, Carla? ─ perguntei, ao abrir a porta.

─ Olá para ti também.

─ Nem isso me mereces. ─ contrapuz.

─ Tanta agressividade... Será necessário?

─ Que queres? ─ repeti a pergunta, continuando a segurar na porta.

─ Não me convidas para entrar?

─ Não. ─ recusei. ─ Porque não vais ver onde anda o teu namorado?

─ Ciúmes? ─ interrogou.

─ De ti? ─ questionei com desdém. ─ De uma putéfia como tu?

Carla respondeu-me com uma estalada na cara. E eu retribui-lhe o “mimo”, deixando-lhe o lábio a sangrar.

─ Desaparece daqui, antes que te parta toda! ─ ordenei.

─ Hás-de arrepender-te, animal. ─ ameaçou ela.

Segurando um lenço de papel no lábio, afastou-se, descendo as escadas.

Não esqueci a ameaça dela. Porém, a partir desse dia, não voltou a falar comigo, tal como Miguel, claramente influenciado por ela.

 

Camila raramente dava noticias. A nossa última conversa pareceu afastar-nos mais que o contrário. Mandava-me emails e recebia os meus, contudo, furtava-se a diálogos na net ou por telefone.

A meio de Outubro, fomos jogar ao terreno do Pampilhosa para a terceira eliminatória da Taça de Portugal. Ninguém acreditava em nós, até porque em cinco jogos de campeonato, apenas venceramos um.

Como fora considerado por José Luis um jogador de reserva, só jogava nestes jogos, juntamente com os outros habituais suplentes.

Num campo que quase parecia um quintal de plantar batatas, conseguimos vencer por um a zero, uma equipa que estava na II Divisão B.

Fomos recebidos em Paúle em festa. E a esperança de melhores resultados no campeonato regressou.

No entanto, José Luis continuou a teimar em não me utilizar.

Seguiram-se mais cinco jornadas, onde o G. D. Paúle empatou dois jogos e perdeu três. José Luis era ávidamente contestado pelos adeptos.

À quarta eliminatória da Taça de Portugal, em finais de Novembro, entravam em acção na competição as equipas da Superliga. Não posso dizer que o sorteio não nos foi favorável, colocando-nos a receber em Paúle o Leixões da II Liga.

Seria a nossa despedida da Taça? Todos acreditavam que sim. Porém, muitos foram aqueles que se deslocaram ao estádio para nos ver vencer por dois a um, uma equipa secundária do Leixões que pouco ritmo desportivo demonstrava.

O dia que se seguiu a esta vitória foi considerado feriado local, naquele ano, tal fora a euforia e a festa da população.

Só que no campeonato, as coisas continuavam péssimas e eu no banco. Regressei à titularidade na décima primeira jornada com o Paúle em décimo oitavo lugar.

A contestação a José Luis era elevada e o facto de me manter no banco por capricho, fez com que Alfredo Carrapiço tomasse uma atitude e o obrigasse a colocar-me de inicio.

Nessa jornada, vencemos e subimos um lugar na classificação.

Quando foi o sorteio para a quinta eliminatória da Taça, “saiu o totoloto” ao G. D. Paúle, ao ficar isento daquela eliminatória e qualificando-se automaticamente para os oitavos-de-final.

O G. D. Paúle começava a ser noticia a nivel nacional, pois era a única equipa da III Divisão, ainda presente na competição.

 

No primeiro fim-de-semana de Dezembro, recebi um email de Camila a combinar um encontro na net. Estranhei, pois havia muito tempo que não conversávamos.

Nesse Sábado de manhã, levantei-me cedo e fui bucar a minha irmã, de carro, a sua casa. Iamos buscar os nossos pais e Cibele que vinham a Paúle passar o fim-de-semana de três dias a casa da filha.

Conduzi com cuidado pela estrada que nos levaria ao Carregal do Sal, pois chovia grosseiramente e a visibilidade era reduzida.

Apenas Manuela me acompanhava. Ela insistira com Augusto para que também viesse, mas ele preferiu conhecer os futuros sogros em casa.

─ Quando é que vocês casam? ─ perguntei em jeito de brincadeira, sem tirar os olhos do trajecto.

─ O quê? Casar, eu? Não tenho vida para isso.

─ Vocês não estão bem? Já vivem juntos à dois meses. Porque é que não juntam os trapinhos?

─ Tu viveste um ano e tal com a Camila e não casaste com ela. ─ lembrou.

Por vezes, Manuela falava com a frieza de advogada, a mesma que empregava nas audiências em tribunal. Porém, percebeu que tocava na ferida. ─ Desculpa, maninho!

─ Não te preocupes. ─ disse com a triste recordação da separação de Camila. ─ Não casei, mas devia ter casado.

─ Ainda a amas?

─ Mais que a própria vida.

─ Tens tido noticias dela?

Encolhi os ombros, atribuindo pouco significado aos emails esporádicos que recebia dela.

─ Tu não estás feliz em Paúle, pois não? ─ indagou ela.

─ Não é isso, mana. Se tivesse lá a Camila, estaria feliz até debaixo da ponte da Póvoa de Midões.

Apanhámos um pouco de trânsito na vila, por causa da feira, mas chegámos rapidamente à estação. Estacionei o Megane no largo defronte da estação e ambos demos uma corrida até ao interior do edificio.

Manuela foi perguntar se ainda faltava muito para a chega do comboio.

─ Deve estar a chegar. ─ comunicou-me, regressando ao local onde eu estava.

Ficámos sentados num banco a olhar para a chuva e para o sentido da linha por onde o comboio chegaria.

O comboio chegou quinze minutos depois.

Levantámos-nos do banco e observámos as pessoas a sair.

─ Mamã! ─ ouviu-se uma voz familiar.

Olhámos para a proveniencia da voz e Manuela exclamou:

─ Cibele!

A minha sobrinha correu para os braços da mãe. E eu fui ajudar os meus pais com a bagagem.

A chuva acalmara, quando fizemos o percurso inverso rumo a Paúle.

─ Como têm corrido as coisas? ─ perguntou o meu pai, sentado ao meu lado.

─ Bem. ─ respondeu Manuela. ─ E a Cibele? As aulas? Vá, contem-me tudo!

A minha mãe, sentado no banco de trás com ela e a neta, respondeu:

─ A Cibele é uma aluna maravilhosa. Tem tido boas notas. Enfim, sai à mãe.

─ Ao tio é que ela não sai. ─ gracegei eu.

─ E tu? ─ indagou o meu pai. ─ Como vão as coisas lá no Raul?

─ Paúle, pai! Paúle! ─ corrigi. ─ Vão bem. Até já aparecemos nas noticias.

─ Pois é. ─ confirmou ele. ─ Vi isso no telejornal. A principio nem pensei que fosse a tua equipa, mas depois fui ver o papelito onde tinho o nome e vi que eras tu.

─ São noticia até à próxima. ─ agoirou a minha irmã. ─ Quero ver quando jogarem com uma daquelas equipas... daquelas que ganham campeonatos ─ Nem o nome dos clubes, ela sabia. ─ se os vencem.

─ Pelo menos, os oitavos-de-final ninguém nos tira.

Estacionei o carro em frente à garagem da casa de Manuela. A chuva parara e Augusto aguardava nervoso pela nossa chegada.

Cibele saiu do carro e correu para o colo de Augusto, inundada de saudades.

Manuela conduziu os meus pais até ele e apresentou:

─ Pai! Mãe! Este é o Augusto.

─ Então você é o famoso Augusto. ─ disse o meu pai, estendendo-lhe a mão.

Augusto apertou-a e respondeu:

─ Famoso? Espero que por bons motivos.

─ A Manuela fala-nos muito bem de si. ─ afirmou a minha mãe, apertando-lhe igualmente a mão.

Entrámos dentro da casa e fomos todos almoçar, pois já era hora disso.

 

A chuva regressou violenta, ao anoitecer. Os meus pais tinham ficado hospedados em casa da minha irmã. E eu aproveitava o serão para ver um jogo da Superliga, em directo, na SportTv.

O meu telemóvel tocou.

─ Estou? Olá Raquel!

Raquel telefonara-me para saber como eu estava e para me anunciar que iria regressar a Paúle, perto do Natal, para passar a quadra com a familia.

─ Espero que fiques feliz. ─ disse ela.

─ Claro, Raquel.

─ Olha, vou desligar. Tenho os meus colegas à minha espera para irmos beber um copo.

─ Beijinhos.

E desliguei.

O jogo que vira na televisão fora um tédio completo. Fiquei tão farto da televisão que a desliguei e fui para o computador.

A hora do encontro com Camila aproximava-se e eu já tinha o ICQ aberto, aguardado a sua aparição online.

Passei o tempo a ler as noticias nos sites do jornal “A Bola” e do jornal “Record”.

Quando lia os últimos resultados da liga espanhola, ouvi o som da entrada em linha de Camila.

“Olá!”, apareceu no ecrã.

“Olá, Camila! Já tinha saudades de falar contigo.”, escrevi.

“Eu também. Desculpa, mas não tenho tido tempo.

Uma nova mensagem dela se seguiu:

“Tenho estado muito ocupada. Os mails que te mando são escritos a correr, só para não pensares que não penso em ti.”

Cliquei no responder e digitei:

“Pensas muito em mim?”

“Claro, Pedro. Ainda perguntas?”

“Eu também penso muito em ti.”

“Tenho uma noticia para te dar.”, surgiu escrito na mensagem seguinte. “Penso que vais ficar feliz. E não te a queria dar por email.

“O que é?”

“Vou a Portugal, perto do Natal.”

Senti uma grande alegria e comecei a sentir-me ansioso.

“A sério? E vens ver-me?”

Camila escreveu:

“Claro. Tenho muitas saudades de estar contigo.”

“Tenho tantas saudades de te ver, amor.”, teclei e enviei.

Rapidamente, tentei emendar:

“Desculpa, Camila! É o hábito. Não devia ter escrito amor.”

“Porquê? Já não sou o teu amor?”

“Claro que és, mas...”

“Sou ou não sou?”

“Queres ser?”

A resposta demorou algum tempo. Seguidamnete, apareceu no ecrã:

“Parecemos dois adolescentes, Pedro. Quero dizer-te uma coisa.”

“Sim.”

“Quero ir aí e estar contigo. Temos de conversar, olhos nos olhos, e esclarecer a nossa situação.”

Esperei nova mensagem, pois percebi que ela iria continuar:

“Tenho pensado muito nas coisas que temos dito um ao outro. Sinto a tua falta e não te quero perder.”

“Tu não me perdes. Assim o queiras.”

“Claro que quero, Pedro. És o homem da minha vida! Quero estar contigo. Por isso, temos de conversar.”

“Quando é que vens?”

“Não sei o dia ao certo. Mas, depois digo-te com certeza.”

“Eu amo-te muito, Camila!”

A resposta tornou a demorar.

“Pedro! Ao longo deste tempo, nunca te consegui esquecer. Tentei, mas não o consegui. Tenho pensado muito em ti e na nossa relação e...”

“E?”

“Acho que talvez merecessemos uma segunda oportunidade.”

Senti o coração aos pulos, uma explosão de paixão, toda a atracção que reprimira dentro de mim. Camila propunha-me aquilo que eu julgara ter perdido para sempre.

“Isso faria de mim o homem mais feliz do mundo!”, teclei nervoso e com os dedos a falhar as teclas.

“Ao longo do tempo que estivemos juntos, tu fizeste-me a mulher mais feliz do mundo!”

“Não te amei tanto quanto tu merecias.”

“Não digas isso. Foste maravilhoso.”

Lembrei-me de alguns pormenores e escrevi:

“Camila! E quando regressares aos Estados Unidos? Continuaremos juntos?”

“Nós nunca deixámos de estar juntos, amor.”

“Talvez eu devesse ir contigo para aí?”, desabafei.

“Porquê? As coisas não estão a correr bem?”

“Mais ou menos.”

“Conta-me, amor!”

Respirei fundo e comecei a dedilhar as teclas:

“No campeonato vamos de mal a pior. Na Taça de Portugal, as coisas correm bem, mas não devemos passar do próximo jogo. Tenho falado com o Jorge e ele diz-me que ninguém está interessado em contratar-me.”

“Tens que ter esperança. Confia nas tuas qualidades! Deixa que o amor seja a tua energia! Lembras-te?”

“Sim. Essa frase fez-me voltar a recuperar e deu-me força em muitos momentos.”

“Não foi a frase, Pedro. Foi o nosso amor.”

“Eu amo-te tanto, Camila!”

“E eu a ti.”

 

A partir daquela noite, falávamos quase todos os dias.

Quando Camila soube ao certo o dia em que partiria, telefonou-me a informar-me. Ouvir a sua voz, depois de tanto tempo, foi um bâlsamo para os meus ouvidos.

Notava-se nos nossos diálogos que estávamos cada vez mais próximos. E brincávamos com a forma como reagiriamos quando nos voltássemos a encontrar, frente a frente, no mesmo espaço fisico, podendo tocar-nos e abraçarmo-nos, sentir o cheiro um do outro e experimentar todas as sensações guardadas nas recordações.

Faltava pouco menos de uma semana para o Natal e nem a chuva abundante que caia lá fora, conseguia frustrar a minha animação.

Naquele dia, Camila estava de volta a Portugal. E conforme haviamos combinado, assim que chegasse a Lisboa, apanharia o comboio para o Carregal do Sal, onde eu a iria esperar.

Sabia que o avião partira de Nova Iorque por volta das 6h00 (hora de Portugal), o que pelos meus cálculos a faria chegar ao Aeroporto da Portela por volta das 11h00 ou 12h00. A primeira coisa que ela faria, ao chegar, seria telefonar-me.

Levantei-me a meio da manhã, desejoso que o tempo passasse rapidamente. Estava perto de rever Camila e sentia que a amava com a mesma força de sempre.

Após um belo banho quente, fui à sala ligar a televisão e regressei ao quarto para me vestir. Cantarolava alegremente pela casa. Na cozinha preparei algo para comer e levei tudo para a sala.

Ao entrar na sala, reparei na imagem da televisão. Mostrava um mapa do Arquipélago dos Açores com um ponto a piscar, algures entre o grupo central e oriental. No canto superior esquerdo, o titulo dizia “Tragédia”.

Pensei tratar-se de um terramoto, mas não conseguia perceber, pois o som estava muito baixo. Peguei no comando e elevei o volume:

─ ...que temos até ao momento é que o avião caiu no mar.

Senti um arrepio na espinha ao ouvir a palavra “avião”.

─ Há noticias de sobreviventes? ─ perguntava o jornalista que apresentava as noticias.

Não havia imagens e a comunicação era feita via telemóvel.

─ Até ao momento, as informações são escassas. ─ dizia a reporter no local. ─ Os meios de socorro já foram para o local. Mas, ao que parece, o mau tempo está a dificultar as buscas.

Não queria pensar, mas a minha mente parecia insistir na ideia que era o avião onde viajava Camila. Não. Não podia ser.

A imagem passou para o apresentador que disse:

─ Vamos continuar a acompanhar os acontecimentos nos Açores, nesta manhã trágica. Recordamos que há cerca de meia hora, um avião de passageiros vindo de Nova Iorque rumo a Lisboa se despenhou no mar.

Fiquei em pânico.

O noticiário foi interrompido pela publicidade. Peguei no comando e tentei obter informações nos outros canais. Contudo, não havia grandes novidades.

Peguei no telemóvel e liguei ao Jorge. Talvez ele tivesse mais informações.

Apanhei-o a caminho da Portela para tentar obter mais informações acerca do acidente. Conseguia ouvir o choro desesperado de Eduardo e a esperança de Jorge dizendo-lhe que aquele podia não ser o vôo de Camila.

Tentei ligar para o aeroporto e para a companhia aérea, mas só recebia sinal de impedido. Deviam estar a receber dezenas de chamadas.

Voltei à sala e fiquei colado à televisão, aguardado mais noticias.

O noticiário prosseguiu com outras noticias. Reparei que tremia, desesperadamente, receando as novidades. Queria saber, mas tinha medo do que estaria para vir.

A emissão das televisões concentrou-se na conferência de imprensa que o porta voz da companhia iria dar.

O individuo não foi muito conclusivo nas informações, falando no último contacto que tinha havido com a tripulação, no súbito pedido de socorro, da tentativa de aterragem de emergência numa das ilhas, na referência a qualquer falha que causara aquilo e à perda total do contacto com eles. Não sabia se havia sobreviventes, mas esperava essa informação brevemente, vinda das equipas de socorro. Recusou-se a responder a perguntas e comprometeu-se a nova conferência, quando houvesse mais novidades.

O telemóvel soou ruidoso, fazendo-me atender precipitadamente.

─ Ivan, já há novidades, mas nada conclusivo. ─ disse-me Jorge.

─ Fala! ─ ordenei desesperado.

─ É o avião onde vinha a Camila!

Fiquei sem palavras. Permaneci agarrado ao telemóvel e ouvia a voz dele:

─ Ivan? Ivan? Ainda não há noticias dos passageiros! Ivan? Responde. Pode haver sobreviventes, Ivan.

Senti-me completamente arrasado. No meu intimo não acreditava que houvesse. Um avião a cair no mar em plena tempestade... Não me parecia possivel.

Durante toda a tarde, ali fiquei sentado no sofá. Aguardava cada noticiário, esperançado numa boa noticia. Já havia ligações em directo e podiamos perceber o quanto avassalador era o temporal na região.

Perto do fim da tarde, a repórter anunciou a chegada dos primeiros sobreviventes. Mostraram imagens ao longe, onde se viam igualmente corpos embrulhados, sem vida, resgatados ao mar.

O porta voz da companhia voltou a dar nova conferência de imprensa, para dizer que tinham sobrevivido cinco pessoas. As buscas iam continuar, mas não havia esperanças de encontrar mais ninguém. Logo após a sua declaração, seria divulgada a lista com o nome dos sobreviventes, desaparecidos e mortos confirmados.

Dez minutos depois, Jorge voltou a ligar.

Após voltas e mais voltas para que a noticia não me atingisse tanto, Jorge exclamou:

─ A Camila está na lista de desaparecidos!

O mesmo seria dizer que estava morta, pois ninguém contava encontrar mais sobreviventes.

Novamente ouvi o choro desesperado de Eduardo. O choro de quem perdera uma grande amiga.

Desliguei sem dizer uma palavra. Caí no chão de joelhos e chorei, chorei, chorei... Não sei quanto tempo, até cair esgotado no chão, perder a consciência e não recordar mais nada.

Durante alguns dias ainda quis acreditar na possibilidade de a encontrarem com vida. Permanecia pregado aos noticiários a ouvir a noticia de novos corpos resgatados, mas o nome de Camila continuava nos desaparecidos.

Antes do Natal, as buscas foram concluidas. E eu tive de aceitar a terrivel verdade.

Camila estava morta.

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