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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO XII

Se o primeiro jogo para o campeonato correra bem, o mesmo não se pôde dizer do segundo. A viagem ao terreno do nosso adversário na segunda jornada, saldou-se por expressivos três a zero contra nós.

A euforia que se criara à nossa volta, esmoreceu um pouco com aquela derrota.

Na primeira semana de Setembro, calhava a festa anual de Paúle. O evento começava na Quinta-Feira e prolongava-se até Segunda-Feira da semana seguinte. Em cartaz, diversas opções no programa das festas com actuações musicais, jogos recreativos e um jogo do G. D. Paúle.

Nesse ano, ditou o calendário da Federação Portuguesa de Futebol que se jogasse a primeira eliminatória da Taça de Portugal, precisamente, nesse Domingo. Felizmente para nós, o sorteio ordenou-nos como visitado, mas foi cruel com o adversário, atirando ao nosso caminho a forte equipa do Benfica de Castelo Branco.

As festas teriam inicio na noite de Quinta. Pela tarde, já se ouvia a música a tocar nos altifalantes do estádio do Paúle, local tradicionalmente escolhido para as festas.

Apoiado nas grades, em frente à porta de cas, olhava para o horizonte e ouvia a música não muito longe. De vez a vez, um ou outro foguete era atirado ao céu, explodindo estrondosamente.

Não me sentia muito feliz. Camila nunca mais dera noticias ao longo de quase duas semanas. E faltavam poucos dias para Manuela regressar a Lisboa com Cibele. Iria ser muito solitário, voltar a viver ali sozinho. A viagem estava marcada para Domingo, não dando tempo sequer para que vissem o jogo.

As pessoas da aldeia não tinham grandes esperanças em relação ao jogo. O próprio presidente já referira dezenas de vezes que a Taça não fazia parte dos nossos objectivos e perder logo no primeiro jogo era naturalissimo. A constante falta de ambição só servia para cada vez mais me sentir deslocado naquele clube.

Manuela saiu de casa, apoiou-se nas grades ao meu lado e pediu:

─ Podes ficar com a Cibele? Tenho de sair.

─ Tudo bem.

─ Posso levar o teu carro?

Olhei-a com curiosidade e perguntei:

─ Onde vais?

Manuela explicou:

─ A engenheira Amândia Calheiros telefonou-me e pediu-me para ir ao seu escritório na Casa de Paúle.

Fiquei intrigado.

─ Que quer ela?

Manuela encolheu os ombros e disse:

─ Não sei, maninho. Só me pediu que lá fosse.

Entreguei-lhe as chaves do carro e continuei no meu humilde miradouro.

Cibele não me largou, enquanto não acedi a levá-la a comer um gelado. Segurei-a pela mão e ambos caminhámos até ao café da dona Palmira.

O tempo estava bastante quente e o ar abafado. Pela estrada principal de Paúle, diversas fitas, alusivas à quadra, espalhavam-se até ao longo do estádio. Havia cartazes por todos os estabelecimentos comerciais com o programa das festas.

Quando entrámos no café, Cibele correu para os braços de Augusto. Tinham um relacionamento curioso. Cibele aceitara-o bem como namorado da mãe. E Augusto tratava-a como se fosse sua filha.

A dona Palmira perguntou-lhe se ela queria alguma coisa e Cibele pediu um gelado de chocolate. A mãe de Augusto levou-a pela mão até à arca dos gelados.

─ Já falta pouco para se ir embora. ─ lembrou Augusto com tristeza.

─ Partem no Domingo. ─ informei eu, sabendo que ele o sabia. ─ A minha irmã depois volta, quando puder.

Augusto olhou para mim com total descredito, não acreditando num regresso da minha irmã. Pelo menos, não tão depressa.

─ Ficou em casa? ─ perguntou.

─ Não. Foi para a Casa de Paúle. ─ disse-lhe. ─ A engenheira chamou-a lá. Não sei para quê.

Cibele brincava com Maria de Fátima que a ensinava como funcionavam algumas coisas do lado de lá do balcão. Eu e Augusto, sentados numa das mesas, conversávamos sobre várias coisas.

O meu telemóvel tocou, interrompendo-nos, e eu atendi:

─ Sim? Mana!... Estou no café da dona Palmira!... Tudo bem. Eu espero. ─ e desliguei. Olhei para Augusto e disse ─ Era a Manuela a perguntar onde estava. Diz que saiu agora da Casa de Paúle. Ficou contente por eu estar aqui e pediu-me para esperar aqui por ela.

Augusto e eu ficámos à conversa mais alguns minutos.

Irradiando simpatia como era costume, a dona Palmira aproximou-se de nós e convidou-me para jantar ali com eles. Tradicionalmente, o café fechava nas noites de festa de Paúle para que a familia se pudesse divertir no arraial.

Antes que pudesse dar qualquer resposta, a minha irmã entrou no café.

─ Ainda bem que os encontro todos aqui! ─ exclamou bastante satisfeita.

─ Que aconteceu na casa da engenheira? ─ perguntei.

Manuela deu um beijo apaixonado em Augusto. Sentou-se entre nós e contou:

─ A engenheira Calheiros convidou-me para trabalhar para ela.

─ A sério? ─ interrogou Augusto, arregalando os olhos com intusiasmo.

─ Sim. ─ confirmou. ─ Quer que eu seja sua advogada para tratar de alguns assuntos legais.

─ E tu? ─ perguntei.

Manuela olhou para Augusto e respondeu:

─ Fiquei muito feliz porque tenho motivos para querer ficar por cá.

Augusto beijou-a, felicissimo.

─ Então já não partes para Lisboa? ─ perguntou-lhe após o beijo.

─ Tenho de ir. ─ disse ela. ─ Tenho de falar com os meus sócios e tratar de alguns pormenores da desvinculação da sociedade.

─ E a Cibele? ─ indaguei.

─ Vai comigo para os avós a verem. Já devem ter muitas saudades.

Augusto inquiriu:

─ E quando voltas?

─ Lá para o próximo fim-de-semana.

A dona Palmira deu-me uma palmada no braço e insistiu:

─ Então? Posso contar com vocês para a janta?

─ Queres? ─ perguntei a Manuela.

─ Claro.

A dona Palmira congratulou-se com a nossa presença para o jantar e regressou ao balcão.

Cibele viera para o colo da mãe e Manuela, puxando-me a manga da t-shirt, transmitiu-me:

─ A Raquel pediu para lhe telefonares.

Eu assenti com a cabeça.

 

O dia escurecera e dera lugar à noite, calma e agradável, como me habituara a conhecê-la em Paúle. Após um jantar muito familiar no café da dona Palmira, ali estava eu, em frente aos portões da Casa de Paúle, aguardando a vinda de Raquel.

Telefonara-lhe depois da refeição e ela sugerira-me a sua companhia para a festa da noite em Paúle. Deixei a minha irmã e a minha sobrinha com Augusto e familia e viera buscar a futura médica.

Enquanto esperava, ainda conseguia sentir o cheiro a queimado, vindo lá de baixo da mata ardida.

O portão abriu-se e vi sair da propriedade a jovem, envergando um vestido escuro apertado e com o cabelo falsamente despenteado sobre os ombros. Raquel entrou no Megane e beijou-me a face.

Conduzi o veiculo a velocidade moderada e, em cerca de cinco minutos, chegámos a rua principal, frontal ao estádio do G. D. Paúle. Consegui lugar para estacionar, relativamente perto da entrada.

Costumavam vir muitos visitantes à festa, mas não no primeiro dia, por ser uma Quinta-Feira. Porém, no dia seguinte, haveria certamente mais gente.

Caminhávamos, lado a lado, pelo terreno interior em direcção ao palco que ali fora montado. Para inicio de espectáculo estava previsto a actuação do Rancho Foclórico de Piodão.

O complexo desportivo tinha os holofotes ligados. No entanto, a luz era demasiado fraca para que a claridade fosse satisfatória. Já haviamos treinado sob aquela luz e eu sabia que pouco se podia observar à noite. Só perto do palco e dos barracões de “comes e bebes” é que a luminosidade era suficiente.

Para mim, tudo aquilo era novidade. Nunca estivera assim numa festa de provincia. E até estava a achar interessante. Já para Raquel, aquele seria o último sitio onde queria estar, no meio dos pacóvios e a aturar todo aquele provincianismo. Contudo, a vontade de estar comigo superava toda a asquerosidade sentida contra aquilo.

Logo à entrada, encontrei o doutor Gervásio e a esposa. Mais uns passoa e cumprimentámos Abilio e Deolinda, a qual falou com grande reverência à “menina” Raquel.

Seguimos para mais perto do palco. Vi num dos barracões de venda de cerveja, Norberto escarrapachado perto do balcão, completamente embriegado.

Alfredo Carrapiço apareceu por entre as pessoas e cumprimentou-nos. Cheirava a old spice, deixando a adivinhar que tomara banho no after shave. Não disfarcei um sorriso, quando o vi estender a mão a Raquel que o cumprimentou por educação. Ele usava uma camisa em que os botões lutavam por manter ambas as extremidades juntas, combatendo a força da enorme pança.

Durante alguns minutos, ali ficou a falar connosco... comigo, até aparecer o filho Miguel. Este, antes de falar com o pai, lançou-me um olhar fulminate de raiva. Percebi a razão, ao lembrar-me da história que Augusto me contara acerca de uma paixoneta dele por Raquel.

Pai e filho afastaram-se até ao edificio sede do clube.

O rancho subiu ao palco e foi aplaudido pelo público. A maior parte dos elementos posicionou-se em circulo a meio do palco, enquanto os restantes seguravam os instrumentos. A musica começou e os casais iniciaram a coreografia no palco. E quando surgiu a voz esganiçada da vocalista, percebi porque se estava a vender cerveja em copos de plástico.

A meio da actuação, vislumbrei por entre o público a minha irmã e Augusto. E a alguns metros deles, a dona Palmira, Maria de Fátima com o marido Teodoro e Cibele. Fiz sinal a Raquel e fomos para junto deles.

O público animou-se ainda mais quando entrou em palco uma rapariga que ninguém conhecia de lado nenhum, vestindo mini-saia e um top minusculo, para cantar uma música que pouco mais de um verso tinha. E ela repetiu-o umas mil vezes até se ir embora. Claro que a música ajudava as pessoas a dançar, mas a letra não valia nada. E a rapariga não se livrou de boacas como “ó boa”, “canta aqui para o meu microfone” e outras.

Não estava previsto haver muita coisa naquela noite de abertura. Após a rapariga cantar, as actuações ao vivo foram substituidas por música nos altifalantes para as pessoas dançarem.

Os casais começaram a juntar-se e a dançar ao longo do terrno frontal ao palco. O programa das festas tinha para aquela noite, um agrupamento de uma vila ali perto que vinha cantar exitos dos anos sessenta.

Raquel abraçava-me o mais que podia, aproveitando a dança para sentir o meu corpo todo. Percebi as suas intenções de aproveitar o clima para me beijar, mas evitei-as com cordealidade, dando-lhe a entender que não a queria beijar.

A canção terminou e outra se iniciou. Miguel aproximou-se de nós e pediu para dançar com Raquel. Eu não me opuz, mas ela recusou determinantemente.

─ Achas-te demasiado importante para daçar comigo? ─ perguntou ele.

Percebi, pela forma como tropeçava nas palavras, que estava alcoolizado.

─ Tem lá calma contigo. ─ pedi, colocando-me entre ele e ela. ─ Se ela não quer dançar, respeita a sua decisão.

─ Não te metas nisto, ó vedeta! ─ exclamou, elevando a voz.

Grande parte das pessoas começaram a olhar para nós.

─ Não ligues! ─ disse-me Raquel. ─ Ele está bêbado.

─ E tu és uma puta! ─ retorquiu Miguel.

Eu respondi ao seu insulto, segurando-o pelos colarinhos e dizendo:

─ Põe-te a andar daqui para fora, palhaço. Antes que te parta a cara.

Abilio, que acorreu rapidamente ali, tentou meter-se entre nós, separando-nos. Eu fui agarrado por Augusto que me pedia calma, tal como a minha irmã. Vi José Luis aparecer e, com ele, o presidente do clube.

─ Que se passa aqui? ─ perguntou José Luis.

─ É o menino armado em vedeta. ─ respondeu Miguel.

Eu fiz um gesto de desprezo para ele e preparei-me para me afastar dalí. Porém, Miguel aproveitou a minha distracção para me acertar com um soco na face que me atirou ao chão.

─ Animal! ─ gritou Raquel. ─ És um animal! Um marginal!

Alfredo Carrapiço agarrou no filho e puxou-o para longe daquele aglomerado de pessoas, berrando-lhe múltiplas reprimendas pelos seus actos.

Levantei-me do chão e recompus-me, ajudado por Raquel e Augusto. Também a minha irmã se inteirava do meu estado. Fiquei a olhar para o presidente e o seu filho a afastarem-se e vislumbrei uma mulher a aproximar-se deles. Forcei o olhar para a identificar e concluí que era Carla.

Não sei donde reaparecera e o que fazia junto de Miguel. Mas, isso não significava boas noticias. Ainda pensei em denunciá-la à GNR, só que não tinha provas contra ela, em relação aos acontecimentos na noite do incêndio.

As pessoas dispersaram ligeiramente para verem o grupo que acabara de subir ao palco. Quatro homens que pareciam acabados de sair de um filme do James Dean, cabelos compridos e barba aparada, vestido casaco branco e calça preta. Iniciaram a actuação com uma música dos Beatles, a quem o vocalista chamou “Bitles”, mais concretamente com o Yesterday.

Ouvi-o cantar “iester dei, ol madrimes sofarei” e os meus ouvidos arrepiaram-se. Se eu não soubesse a letra, também não a ficaria a saber com aquele individuo. Contudo, o público gostava e aplaudia.

Seguiu-se o Bridge Over Troubled Water de Paul Simon & Art Garfunkel, os quais na boca do homem se chamavam “Pul Saimo e Arfanquel”. Lembro-me que o verso “Like a bridge over troubled water” saiu parecido com “la cabridge over trable uoteres”.

Não me apeteceu ouvir mais, ao contrário da multidão deliciada.

─ Vou-me embora! ─ disse eu.

─ Vou contigo. ─ concordou Raquel.

Avisei a minha irmã que ia, mas ela preferiu ficar mais um pouco.

─ Eu levo-as a casa. ─ ofereceu-se Augusto.

Agradeci-lhe e despedi-me de algumas pessoas.

Caminhei até à saída com Raquel de braço dado comigo, ao som de Roberto Carlos na voz da figura caricata que se movia no palco.

Conforme nos aproximávamos do carro, o som do espectáculo ficava mais longe. Entrámos no carro e arranquei para bem longe daqueles musicos provincianos parados no tempo.

A estrada perto da minha casa era deserta, não se vendo um único carro.

─ Não me queres levar para tua casa? ─ sugeriu Raquel.

─ Não. ─ recusei com frieza.

Raquel colocou a mão na minha perna e insistiu:

─ Eu gosto de ti, Ivan!

─ Eu sei. Já mo disseste. ─ retorqui, tentando rebater ao máximo as suas investidas. Talvez fosse a forma de não ceder à tentação que era o corpo dela.

─ Sem compromisso. ─ tornou a insistir.

Não parei ao passar em frente à minha casa e disse:

─ Já falámos sobre isso. Existe uma pessoas com quem tenho um compromisso... Enfim, tu sabes a história, Raquel.

─ Sei a história e acho uma parvoíce, dispensares-me por um amor platónico.

Mantendo a atenção na estrada, lembrei:

─ Eu gosto de ti como amiga, nada mais. Se isso não é suficiente para ti, então é melhor afastarmo-nos.

─ Pronto, também não é preciso ser tão radical.

O caminho não era muito longo. Parei perto dos portões da Casa de Paúle. Tudo em redor permanecia ainda mais calmo que quando a fora buscar, sentindo-se sempre o odor a madeira queimada.

─ Tenho necessidade de sexo, Ivan! ─ afirmou frontalmente. ─ Só isso. Queria fazê-lo contigo... Quero fazê-lo contigo!

─ Desculpa, não poder corresponder aos teus desejos, Raquel.

─ Sabes quantos homens dariam a vida por estar no teu lugar?

─ A vida não sei. Mas, pelo menos, um soco sei de um.

Raquel sorriu com a resposta.

─ Dorme bem, Raquel! ─ desejei-lhe. ─ E descansa que, um dia, encontrarás alguém que mereça esse coração. E tudo o resto.

─ Posso, ao menos, pedir-te um beijo?

Permiti que ela me beijasse os lábios. Os seus beijos eram deliciosos e sugavam-me a boca como se tentassem saborear-me. O seu hálito era adocicado com o aroma a morango do batôn.

Saiu do carro, insinuando as formas corporais, tentando-me até desaparecer para lá dos grandes portões verdes.

 

Na noite seguinte, a festa em Paúle tinha um programa mais rico. Iam actuar os Anjos, as Bombocas e a Ruth Marlene.

No entanto, eu não fui nessa noite, pois recebera um email de Camila a combinar novo diálogo para a mesma hora.

Raquel telefonara-me ao jantar, a convindar-me para nova ida à festa. Porém, recusei, justificando que não me apetecia ir para lá, naquela noite. Ela ainda se ofereceu para me fazer companhia em minha casa, mas eu recusei novamente. Talvez tenha ficado com a impressão que a rejeição se devia aos acontecimentos da noite anterior. Não era o caso. Eu só queria ficar sozinho à conversa com Camila.

Também a minha irmã me convidara para ir com ela e Augusto. Expliquei-lhe a razão de não ir e ela compreendeu, aproveitando para me pedir para ficar com Cibele.

Sabia que Camila só estaria online lá para a uma da manhã. Por isso, fui para o varandim saborear a brisa nocturna e ouvir, lá ao fundo, a música da festa.

Enquanto ali estava, vi sair de sua casa o doutor Gervásio.

─ Então, hoje não foi à festa? ─ perguntei.

O médico abanou a cabeça e confidenciou:

─ Hoje, a confusão é maior. Nem eu, nem a minha mulher temos idade para grandes arraiais.

─ Não diga isso, doutor.

─ E o Ivan? Também ficou por aqui?

─ Não estava com cabeça para aquilo, hoje. ─ expliquei. ─ E assim, fico a tomar conta da minha sobrinha.

A esposa do doutor chamou-o para ele ver qualquer coisa na televisão. E eu fiquei novamente sozinho no varandim.

O vento devia estar a soprar de lá para cá, já que o som dos artistas a cantar se ouvia com clareza. Distingui perfeitamente as actuações das Bombocas e da Ruth Marlene.

Após a meia-noite, regressei à sala e liguei o computador, pois aproximava-se a hora marcada. Tive tempo para navegar um pouco, sempre com os olhos no status de Camila. Ainda não era uma hora, quando vi o nome Camila passar de vermelho a azul e ficar online.

“Olá, Pedro!”, dizia a primeira mensagem.

“Olá, Camila!”, retribui, escrevendo seguidamente “Nunca mais disseste nada.”

“Tenho estado ocupadissima.”

“Tinha saudades tuas. E tenho. Não estás a pensar voltar a Portugal?”

“Não. Ainda não posso voltar porque não tenho tempo para ir aí. Talvez lá para o Natal.”

“Se vieres, vens visitar-me?”

“Vou tentar. Tudo depende do tempo que tiver.”

Houve uma pequena pausa e, antes de eu enviar qualquer mensagem, ela escreveu:

“E tu? Porque não vens a Nova Iorque?”

“Falta de tempo. Tenho jogos todas as semanas. E o clube não me dispensava para ir aí.”

“Estás a ver, estamos ambos presos à nossa vida profissional.”

Não sabia o que havia de escrever, a seguir. Detestava quando parecia não termos assunto. Escrevi:

“Sinto muito a tua falta!”

“Eu também!”, confessou ela.

Tornava-se repetitivo, estarmos constantemente a dizer que sentiamos a falta um do outro e que tinhamos saudades, sem fazer nada em contrário. Foi exactamente isso que escrevi na mensagem seguinte.

“Que podemos fazer?”, perguntou ela.

“Não sei. Só sei que gostava de estar contigo.”

Achei que devia adicionar mais qualquer coisa e digitei:

“Ainda te amo! Não sei viver sem te amar!”

A resposta demorou. Também já me habituara a que, as respostas às mensagens que falassem de amor, demorassem mais tempo a vir.

“Ontem, quando estava a trabalhar, chorei por tua culpa.”, apareceu na resposta.

“Porquê?”

“Estava a ouvir rádio e tocaram a nossa música.”

“Private Emotions?”

“Temos outra? L”

“Não. (Não te zangues)”

“Lembrei-me de quando estávamos juntos.”, continuou ela. “Os momentos maravilhosos que partilhámos...”

“Falas como se tudo tivesse acabado.”

“Que temos nós agora, para além de recordações?”

Nada, pensei. Tentei construir alguma frase que soasse bem. Teclei:

“Temos o amor que nos uniu. E que ainda me prende a ti.”

“Talvez...”

Ela não acreditava que eu me mantivesse fiel a uma recordação e amor.

“Não acreditas, pois não?”

“No quê?”

“Que eu continuo fiel a ti, mesmo tendo-te tão longe?”

Esperava várias hipoteses de resposta, menos esta:

“Continuarias fiel, se te dissesse que existia outra pessoa na minha vida? Se te dissesse que tenho namorado aqui?”

Senti um arrepio na espinha. Implorei a Deus, em pensamentos, para que isso não fosse verdade. Teclei:

“E tens?”

“Se te dissesse que tinha tido um encontro, antes de ontem, com um colega? E que tinha ido para a cama com ele?”

Não sei explicar o que senti. O primeiro impacto foi sentir-me ferido nos meus sentimentos. Se fosse verdade, não queria voltar a vê-la, nem falar com ela, pensei.

“Isso aconteceu?”, perguntei, invadido pelo pânico da traição.

“Não respondeste à minha pergunta.”, lembrou ela.

Respirei fundo. Talvez a hipotese não passasse de um teste.

“Seria um golpe duro para mim.”, escrevi-lhe.

“Isso não responde à minha pergunta. Continuavas fiel ou não?”

“Estás a testar-me. Não acredito que fizesses isso.”

“Achas que não era capaz de ir para a cama com outro homem? Eu não teria tanta certeza.”

Confuso era o minimo que me sentia naquele instante. Onde queria ela chegar? Começava a tornar-se claro que ela estava preste a confessar que tivera relações sexuais com um colega. E se calhar, andava com ele. Possivelmente, aquela conversa só tinha um objectivo, dizer-me que outro ocupara o meu lugar no seu coração.

“Pelo teu silêncio, acho que posso adivinhar a tua resposta.“, surgiu na mensagem seguinte.

“Isto não é o quem cala consente.”, retorqui furioso, encornado, sei lá...

“Então responde-me.”

Parei um pouco para pensar. Reflectir nas consequências. Eu amava-a tanto...

“Não sei se me manteria fiel. Mas, nada neste mundo me faz deixar de te amar! É mais forte que eu. O meu amor por ti é a minha vida. Só termina quando eu desaparecer.”

Abri uma nova janela e continuei:

“Mas será que me estás a tentar dizer que tenho de perder todas as esperaças em relação a nós? Que tens um namorado aí? Que eu devo seguir a minha vida sem ti?”

“Antes de ontem, fui jantar fora com um colega meu. As pessoas com quem falo, acham que devo esquecer-te e arranjar um novo relacionamento.”

Sabia que a história não terminara, por isso aguardei nova mensagem. Ela chegou algum tempo depois:

“Caí na estupidez de lhes dar ouvidos e saí com esse colega. Para ele, eu era apenas mais uma para uma noite de sexo. Para mim, ele era a tentativa de te esquecer.”

“Espero que não me vás contar como te fodeu.”, escrevi, mas não enviei. Dei conta de como estava possesso de raiva com aquilo que se adivinhava das suas mensagens.

Camila prosseguiu:

“Fomos jantar fora e conversámos algum tempo. Depois, fomos para um hotel com a ideia de o fazer.”

És uma besta, Ivan Pedro, disse a mim próprio. Andas a recusar-te a ter na cama aquele pedaço de mulher que dá pelo nome de Raquel, por amor a Camila? Toma lá para aprenderes!

“Trocámos alguns beijos. Ele começou a despir-se.”

“Poupa-me!”, pedi.

“Mas não fui capaz!”

Ao ler, hesitei.

“Não queres que conte mais?”, indagou.

“Não foste capaz de quê?”

“Tive a certeza que não era com ele que queria estar! Que estaria a fazer uma enorme burrice. Que queria que fosses tu a estar ali!”

Senti um alivio enorme, sabendo que o templo do nosso amor não fora profanado.

“Pedi-lhe desculpa e deixei-o sozinho no quarto de hotel.”

“Por momentos, pensei que vocês...”, confessei.

“Sei que sim.”

“Camila! Se o nosso amor é assim tão forte, porque não o pomos à prova?”

“Como assim?”

“Porque não reatamos a nossa relação e vemos se ela sobrevive à distância?”

Acho que os segundos nunca demoraram tanto tempo a passar.

Subitamente, vi o nome de Camila no ecrã passar a vermelho e a offline. Fora como se tudo se desvanecesse no nada, desaparecendo sem nunca ter existido... Um toque soou no computador e vi novamente Camila online.

“Desculpa, Pedro! Isto foi abaixo.”

Não disse nada, continuando a espera pela resposta ao convite.

Nova janela se abriu e li:

“Tu magoaste-me muito, quando tomaste as decisões que levaram à nossa separação. E isso é dificil esquecer.”

“Não mereço uma segunda oportunidade?”

“Não se trata de segundas oportunidades. Só acho que se aceitasse, nada mudaria. Continuariamos longe um do outro.”

Antes que reargumentasse, apareceu:

“Este episódio fez-me ter a certeza que não quero mais ninguém na minha vida.”

“Nem a mim?”

“Só a ti, Pedro. Mas estás demasiado longe.”

“Eu amo-te, Camila!”

“Eu também te amo!”

Que mais poderia escrever para a convencer, perguntei-me.

“Pedro, estou com sono.”, surgiu no ecrã. “Vou dormir.”

“Dorme bem, amor!”

“Beijinhos para ti.”

“Muitos para ti.”

E novamente passou a offline, desta vez intensionalmente.

 

Quando acordei no Sábado, não tinha a minima vontade de sair da cama. Porém, ao olhar para o adiantado da hora, dei um pulo da cama fui para a casa-de-banho tomar um duche.

Ao sair, enrolado numa toalha turca, encontrei a minha irmã a fazer as malas no quarto.

─ Bom dia! ─ cumprimentei-a.

─ Bom dia? Diz antes boa tarde.

─ Tens razão. Ainda te falta arrumar muita coisa?

─ Não. Também não trouxe muita coisa.

Caminhei até ao armário e retirei a roupa para vestir.

─ Como correu a conversa com a Camila, ontem? ─ perguntou a minha irmã, apertando a mala com força para a fechar.

─ Queres ajuda? ─ ela fez que não com a cabeça. ─ A conversa foi... o mesmo de sempre.

─ E?

─ E nada.

─ Se não queres falar nisso, tudo bem, maninho.

─ Não é isso, mana. É que as nossas conversas não chegam a lado nenhum.

Manuela colocou a mala junto das outras e interrogou:

─ Onde querias que chegasse?

Encolhi os ombros.

─ Sabes mana? Acho que onde queria chegar já ficou para trás. E eu não sei como voltar.

Manuela franziu o rosto, não percebendo.

─ Eu optei pelo futebol. Abandonei a Camila em busca de algo que... Já não sei se tomei a atitude correcta.

─ Fizeste o que achaste melhor, maninho. Se foi o correcto ou não, terás de viver com isso.

─ Obrigadinho. Pareces um psiquiatra. Daqui a pouco estás a falar-me no Freud.

Manuela sorriu-me, abraçou-me e completou:

─ Sabes que não sou a melhor pessoa nas decisões.

Cibele chamou-nos. Estava sentada à mesa, esperando que fossemos almoçar com ela. Seguimos para lá e Manuela começou a servir os pratos.

─ Hoje à tarde, vamos à procissão. ─ informou Manuela.

─ Vamos?

─ Eu e a Cibele vamos! Tu vais, se quiseres.

Soltei uma gargalhada.

─ Não eras tu que dizias que uma verdadeira advogada não podia ter religião? ─ questionei.

─ E continuo a achar. Só vou porque o Augusto me pediu.

A procissão era uma tradição das festas de Paúle. Iniciava-se perto do campo de futebol, rumava pelas ruas da aldeia e ia terminar na capela.

A partida era sinalizada com o lançamento de foguetes. A encabeçar o longo grupo de pessoas ia o padre da paróquia local, empunhando uma cruz. Um pouco mais atrás, alguns religiosos cerimonialmente vestidos, carregavam a imagem do santo homenageado nas festas.

Conforme a procissão passava por determinados locais, lá se lançavam meia dúzia de foguetes.

Penso que quase toda a população de Paúle ia naquela romaria.

Eu preferi ficar em casa. Primeiro não era católico e segundo estava um calor de derreter os ossos. Talvez os fieis vissem o sacrificio como um acto de fé.

Seja como for, só saí de casa ao fim da tarde, já a procissão terminara, tal como a missa. O último treino antes do jogo da Taça de Portugal estava agendado para o anoitecer.

Enquanto treinávamos no campo de futebol, alguns elementos ligados à organização da festa aprimoravam diversos pormenores para o arraial da noite. Corremos alguns minutos em volta do relvado, depois foram os exercicios fisicos e a peladinha de dez contra dez.

No final, José Luis reuniu o grupo no relvado para falar.

O Sol já desaparecera dos céus e a pouca luz que nos iluminava provinha dos fracos holofotes do estádio.

─ Amanhã, vamos jogar com o Benfica de Castelo Branco. ─ começou o treinador. ─ É um jogo que conta para a Taça, mas não é importante para nós. Por isso, vou poupar alguns de vocês.

─ Desculpe! ─ interrompi. ─ Não é importante?

─ Não. ─ reiterou ele. ─ O nosso objectivo é a manutenção na III Divisão!

─ Eu fico parvo com isto. ─ disse para mim.

José Luis olhou-me zangado e perguntou:

─ Disseste alguma coisa, Ivan?

─ Disse que estou parvo com isto. ─ reafirmei, num tom que respondeu à zanga dele.

Augusto puxou-me pelo braço, tentando impedir-me de dizer alguma coisa que me prejudicasse. Contudo, continuei:

─ Estamos a falar da Taça, competição onde os clubes pequenos se tentam mostrar... E náo, aqui, a falar como se fosse um jogo de treino.

─ Parece-me que para além de vedeta, também tens a mania que és treinador?! ─ retorquiu José Luis.

─ Digamos que estou farto de ambições mediocres! ─ respondi.

Augusto voltou a puxar-me.

Abilio aproximou-se de mim e avisou-me para ter cuidado como falava com o técnico.

─ Achas que sou mediocre? Achas? ─ interrogou, furioso, José Luis.

Vi Miguel aproximar-se dele e incendiar a discussão:

─ Pelos visto, deve querer o seu lugar.

─ Cala-te! ─ ordenou Abilio. ─ Estás armado em quê?

─ Eu não quero o seu lugar. ─ gritei-lhe. ─ Quero é ganhar! Quero jogar com o objectivo da vitória! Não é entrar em campo para vitórias morais ou para poupar esforço para o próximo jogo.

─ Já chega, Ivan! ─ disse Abilio, autoritário.

─ Ouve, rapaz! ─ prosseguiu o treinador, provocante. ─ Se queres jogar, joga! Eras um dos que pensava poupar no jogo de amanhã, mas... Se queres jogar, joga! Todos para o balneário!

Regressámos ao interior dos balneários. Senti no olhar dos meus colegas a condenação pelas criticas que fizera a José Luis. O próprio Augusto me criticou, considerando desnecessário a minha atitude.

Saí do edificio sem dirigir a palavra a ninguém. Senti vontade de partir, no dia seguinte, com a minha irmã para Lisboa e dizer adeus a toda aquela porcaria. Continuava revoltado comigo por ter optado por estar ali, em vez de estar ao lado de Camila.

Naquela noite, não fui para o arraial, apesar da grande insistência da minha irmã. Quis ficar sozinho em casa. Não falei com ninguém, limitando-me a ver televisão até ter sono e dormir.

Na manhã seguinte, acordei bem cedo e comecei a fazer a mala. Farto de tudo e de todos, só a distância daquele lugar me faria sentir melhor. Que se lixe o G. D. Paúle, pensei. Que se lixe o futebol!

Quando a minha irmã acordou, ficou perplexa com o que viu. Tal como fizera muitas vezes, durante a minha adolescência, conversou comigo e pôs-me algum juizo na cabeça.

Manuela regressou a Lisboa com Cibele, nessa manhã, pouco antes do almoço. Fui levá-las à estação do Carregal do Sal e fiquei a observar o comboio a partir. Algumas horas de viagem e deveriam chegar à Estação Oriente a meio da manhã, onde os meus pais as aguardariam, abarrotando de saudades.

Perto da saída da vila, fui almoçar a um local que Augusto me levara a conhecer, uma antiga serração que fora transformada em restaurante.

Sozinho, ali fiquei a a disfrutar da refeição. Lembro-me o quanto me senti triste e abandonado. Sentia a falta de Camila. E naqule momento, também a minha irmã e a minha sobrinha me deixaram. Apesar de saber que voltariam dentro de algum tempo, não conseguia perder aquela angustia. Tudo se resolvia a uma única coisa: Saudades de Camila.

Terminado o almoço, pedi ao empregado que me trouxesse a conta. O jovem que não deveria ter mais de dezoito ou dezanove anos, entregou-me o papel com o total. Coloquei uma nota de vinte euros sobre a conta e disse-lhe que ficasse com o troco.

─ Obrigado, senhor! ─ agradeceu. ─ Boa sorte para o jogo!

Fiquei surpreendido com o que ele dissera. Um tanto ao quanto bruscamente, interpelei-o:

─ Que disse?

─ Boa sorte para o jogo de logo! ─ voltou a desejar. ─ Espero que consigam vencer o Benfica de Castelo Branco.

─ Adepto do Paúle? ─ perguntei.

─ Filho da terra, mas estou a viver aqui no Carregal e a trabalhar a neste restaurante. ─ confidenciou. ─ Mas já pedi ao meu patrão para me dispensar esta tarde para ir ver o jogo.

O brilho nos seus olhos sensibilizou-me. Como poderia alguém dar tanta importância ao jogo de um clube como o Paúle? Irritava-me a falta de ambição de José Luis, mas sempre considerara aqueles jogos como um meio para atingir um fim. Pouco me importava o futuro do clube, apenas queria ganhar porque estava a jogar ali. E eu nunca jogava para perder.

No entanto, a forma como o jovem falava do G. D. Paúle fascinou-me. O culto, a dedicação ao emblema da terra onde nascera. O desejo de o ver vencer. Sabia que o que ele sentia era o que sentiriam todos os paulenses mais tarde, quando jogassemos. Talvez José Luis tivesse razão e não devessemos desperdiçar energias com aquele jogo. Porém, as pessoas apostavam em nós. Apostavam em mim.

─ Desejo-lhe um bom jogo senhor! ─ finalizou o jovem, depois de me contar parte da sua vida.

Despedi-me dele. E penso que pela primeira vez percebi como as pessoas me olhavam e o que significava para elas.

 

Completamente equipado, permaneci sentado no balneário até ao momento de subir ao relvado. Estivera lá, minutos antes, e vira a imensidão de gente que viera assistir ao jogo. O ambiente era de festa e havia quem achasse que a nossa vitória, naquele fim-de-semana, era a cereja em cima do bolo.

José Luis deixara Abilio e Hélder de fora da convocatória, poupando-os para os jogos do campeonato. Norbeto, Joselino, Reis, Sassi, Samuel, Castanha e Emanuel ficaram no banco.

Alfredo Carrapiço entrou no balneário e desejou:

─ Boa sorte, rapaziada! Divirtam-se que o jogo não conta para nada.

Alguns jogadores ainda olharam para mim, esperando que dissesse algo, mas eu não proferi uma silaba.

Subimos ao relvado, já os onze de camisola vermelha e calção branco lá estavam.

Augusto foi para a baliza. José Luis concedera a braçadeira de capitão a Miguel. Rato correu para a lateral esquerda. Toni e Macário colocaram-se no eixo da defesa. O meio-campo ficava a cargo de Teodoro, Justino, Serafim e Ramalho. Eu e o inexperiente Gustavo éramos o ataque do Paúle.

O árbitro apitou para o inicio do jogo.

Os primeiros minutos foram equilibrados até o nosso adversário se aperceber do nervosismo de alguns jogadores, principalmente Serafim e Gustavo que nunca haviam jogado a titulares. Na defesa, Toni atrapalhava-se com Macário e vice-versa. Justino tentava ter voz de comando no meio-campo, mas a falta de entrosamento entre os jogadores arruinava qualquer táctica.

A partir dos vinte minutos, o Benfica de Castelo Branco caiu-nos em cima. Atacaram, atacaram e atacaram até marcarem o primeiro golo. Continuaram a atacar e fizeram o segundo antes da meia hora de jogo.

─ Que merda é esta? ─ gritei aos meus colegas, enquanto Augusto foi buscar a bola ao fundo da baliza.

Ninguém me respondeu, ficando todos de cabiz baixo, derrotados.

─ Vá, vamos lá! ─ exclamou Miguel. ─ Isto acaba depressa.

─ Cala-te, ó mete nojo! ─ ordenei eu.

Miguel dirigiu-se a mim para responder com os punhos. Foi agarrado por Justino que o convenceu a refrescar as ideias indo até ao banco de suplentes, beber água.

Chamei todos junto a mim e disse:

─ Não estamos a jogar nada! Olhem para o público! Olhem para as pessoas que vieram ver-nos jogar! Acham que alguém ali quer outra coisa senão a nossa vitória? Alguém ali pensa que devemos poupar-nos para a merda do campeonato?

O árbitro apitou, avisando-nos para recomeçar o jogo.

─ Pensem neles! Pensem nos que gritam por nós! Joguem com prazer e ambição! Podemos perder, mas havemos de sair daqui com a certeza que tudo fizemos para vencer.

Senti aqueles nove pares de olhos encararem-me. Ouviam-me atentamente e assentiam com a cabeça.

Miguel regressou do banco e aproximou-se do grupo. Contudo, todos nos separámos à sua chegada e tomámos os nossos lugares em campo.

Novamente, Gustavo daria o pontapé na bola para o reinicio da partida.

Antes que a tocasse, disse-lhe:

─ Gustavo! Todos trememos, mas só alguns caiem!

Ele percebeu o que eu queria dizer.

O Benfica de Castelo Branco continuou a pressionar, mas nós conseguimos equilibrar o jogo. Parecia que as minhas palavras tinham feito algum sentido nas suas cabeças.

Antes do fim da primeira parte, Gustavo rematou forte dentro da área e reduziu o marcador para um a dois.

No balneário, José Luis não disse nada de especial, claramente pouco importado com o jogo. Falou para não estar calado. Penso que ninguém lhe deu atenção.

Regressámos ao relvado com a motivação com que haviamos saído.

No público, vi Abilio e Hélder a assistir ao jogo. O primeiro fez-me sinal para que tivessemos força e conseguissemos ganhar.

Grande parte do público permanecia descrente, mesmo após o golo de Gustavo.

Os jogadores adversários recomeçaram o jogo, pressionando-nos e tentando marcar novo golo que, certamente, colocaria um ponto final na decisão do vencedor. Contudo, percebia-se na nossa garra e na nossa motivação que seria dificil deitar-nos abaixo.

Perto dos vinte cinco minutos da segunda parte, Justino ganhou a bola no meio-campo, correu para a grande área e passou-me a bola. Eu tornei a entregar-lhe o esférico, isolando-o. A jogada só não deu golo porque o defesa albicastrense o rasteirou dentro da área.

Ouviu-se o apito do árbitro que apontou para a marca de grande penalidade, aquele pontinho timido que ficava a pouco mais de nove metros da baliza.

O público festejou como se fosse golo.

Normalmente, era Abilio quem chutava nas grandes penalidades. Porém, ele não estava e José Luis não nos precavera para esta situação.

A bola foi colocada no ponto pelo árbitro que aguardou pelo “escolhido”.

─ Força Gustavo! ─ exclamei, voluntariando-o.

─ Não consigo. ─ recusou. ─ Estou muito nervoso.

─ Vai lá tu. ─ sussurrou-me Justino.

Miguel aproximou-se, dizendo:

─ Eu marco!

Justino agarrou-o pelo braço e privou-o de avançar mais.

─ Vai lá tu, Ivan! ─ tornou a pedir.

Os olhares dos meus colegas denotavam a decisão unânime. Queriam que fosse eu a rematar. Que fosse eu a fracassar ou a receber a glória.

Caminhei para a bola com as pernas a tremer. O guarda-redes do Benfica de Castelo Branco estava a cerca de meio metro da bola, tentando perturbar-me. Peguei na bola, dei-lhe uma volta no ar e voltei a colocá-la no sitio.

O homem do apito ordenou ao guarda-redes que fosse para o seu lugar, sobre a linha de golo.

As pessoas gritavam:

─ Força, Ivan Pedro!

Respirei fundo, olhei para o guarda-redes e parti para a bola, confiante na direcção que escolhera. Um remate tenso que só parou no fundo da baliza do individuo.

Ouviu-se a assistencia gritar golo. Pulavam, gritavam... Euforia total.

Os meus companheiros correram para mim para festejar.

─ Calma! ─ disse-lhes. ─ Ainda não ganhámos.

Regressámos ao nosso meio-campo e aguardámos o reinicio do jogo.

A equipa do Benfica de Castelo Branco tornou a ganhar o controlo do jogo. Alguns dos jogadores do Paúle quebraram fisicamente, antes do último quarto de hora do jogo.

Penso que foi nessa altura que José Luis percebeu a vontade que estávamos a demonstrar, a vontade que todos ali tinham em vencer. Olhou para o banco de suplentes e mandou aquecer Joselino e Reis.

Augusto ia defendendo os remates adversários, mas algo nervoso e com algumas fifias que por sorte não acabaram no fundo da baliza.

A dez minutos do fim, Joselino e Reis entraram para o lugar de Toni e Macário, refrescando o eixo da defesa.

Justino era, na minha opinião, o melhor em campo. Tal como o irmão, tomava o meio-campo a pulso e liderava os colegas na construção de jogadas de ataque.

A cinco minutos do apito final, Rato cortou um lance de perigo para a nossa baliza, ficando com a bola e correndo com ela pela ala esquerda. Só o abalroamento de um defesa adversário o fez parar. No entanto, o árbitro não marcou a falta, pois a bola sobrara para Justino que prosseguiu o ataque.

Justino fazia sinal para que a equipa subisse no terreno, rumo aos opositores. Com o pé direito, colocou a bola no interior da área para a cabeçada de Gustavo. Este cabeceou, mas o guarda-redes fez uma defesa espectacular, socando a bola quando tudo levava a crer que ela entraria na baliza.

A bola veio parar aos meus pés. Olhei para ela e foi como se visse o rosto de José Luis. Dei um passo à frente e pontapeei-a com toda a força.

Parecia que o chão tremia, por baixo dos meus pés. Ao meu redor ecoou o som espontâneo das centenas de pessoas que assistiam ao jogo. Os meus colegas correram para mim e abraçaram-me.

A bola entrara na baliza e nós estávamos a vencer por três a dois.

Os últimos minutos foram horas para nós. Defendemos a nossa baliza como se a nossa vida dependesse disso.

Quando o árbitro deu por terminado o desafio, a multidão invadiu o campo, festejando connosco a vitória naquele emocionante jogo.

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