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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO XI

Chegara finalmente o dia da estreia no Campeonato Nacional da III Divisão, série C.

Normalmente, as provas oficiais têm inicio na última semana de Agosto. Porém, devido à realização do Europeu no ano seguinte e a necessidade de todas as competições terminarem em tempo útil, fez com que as provas oficiais começassem ligeiramente mais cedo, mais ou menos a meio de Agosto. Apenas a III Divisão começaria uma semana mais tarde.

Em Portugal, só a Superliga e a Liga de Honra (Primeira e Segunda Divisão) são considerados campeonatos profissionais e, apenas estes, geridos pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional. Os restantes campeonatos (II Divisão B, III Divisão e Distritais) eram semi-profissionais ou amadores e geridos pela Federação Portuguesa de Futebol, a qual tinha a seu cargo a Taça de Portugal.

O campeonato em que estávamos inseridos, a III Divisão, dividia-se em sete séries (A, B, C, D, E, F e Açores). As séries A e B eram disputadas por equipas do norte do país, as C e D pelas do centro e as E e F pelas do Sul. A série Açores, claro, era disputada unicamente por equipas do arquipélago.

O primeiro classificado de cada série iria disputar, entre si, o titulo da divisão. Os dois primeiros classificados de cada série eram promovidos à II Divisão B e os quatro últimos de cada série eram despromovidos aos Distritais ─ Excepto na série Açores, a qual tinha caracteristicas próprias para as promoções e despromoções. ─ O nosso objectivo principal seria ficar acima desses quatro últimos classificados na série C.

Dezoito equipas disputariam aquela serie, jogando todas contra todas, ora no seu campo ora no campo do adversário.

O sorteio que se realizara no mês anterior, ditara que o nosso primeiro jogo seria no nosso estádio e jogariamos contra o União de Coimbra.

Quando acordei na manhã de Domingo, a minha irmã já preparava o almoço. E Cibele fora com Augusto à feira.

A minha irmã e a minha sobrinha tinham voltado para minha casa, após a noite trágica na Casa de Paúle. Terminado o perigo que Rui representava, já não havia razão para continuarem sob protecção da propriedade da familia Calheiros.

Por todo o Paúle e povoações vizinhas vivia-se um ambiente de festa, uma vez que era o dia da nossa estreia no campeonato. Esperava-se uma enchente no nosso pequeno estádio, naquela tarde quente de Agosto. Dezenas de cartazes a anunciar o G. D. Paúle versus União de Coimbra, às dezassete horas, espalhavam-se por vários locais da aldeia. Até em Midões havia desses cartazes.

Os jogadores do plantel tinham indicações para almoçar ao meio-dia e comparecer no estádio às quinze horas para a concentração, antes do jogo.

Augusto chegou mesmo quando nos preparávamos para almoçar, trazendo Cibele que se apressou a correr para a casa-de-banho, para lavar as mãos. Manuela convidou-o a almoçar connosco, mas ele declinou o convite, justificando que a familia o aguardava para a refeição lá em casa.

Durante o almoço, Manuela falou-me da sua última decisão:

─ Vou regressar a Lisboa, mano.

Fiquei um pouco espantado. Calculava que ela decidisse partir, mais cedo ou mais tarde, após a morte de Rui. Porém, não o esperava naquele momento.

─ Quando? ─ perguntei.

─ Em principios de Setembro. ─ informou. ─ O ano judicial vai abrir e é necessário a minha presença no escritório.

─ Já disseste ao Augusto?

Manuela abanou negativamente a cabeça.

─ Quando pensas dizer-lhe?

─ Contava com a tua ajuda.

─ Não me metas nisso, mana. ─ pedi. ─ Isso deve ser falado entre vocês! E não com um intermediário.

─ Tens razão, mas...

─ Eu compreendo que é dificil. ─ disse. ─ Porém, és tu que o tens que fazer.

O tempo passou lentamente até à hora de seguir para o estádio. A ansiedade e nervosismo por voltar a jogar oficialmente, faziam-me tremer e sentir um nó no estômago. Saí de casa descendo as escadas automaticamente, enquanto pensava no jogo que tinha pela frente. Entrei no carro e conduzi até ao meu destino.

Estacionado em frente ao edificio da sede do GDP, saí do carro e vi Abilio chegar num Turbo Diesel azul. Já me habituara a vê-lo sempre com carros diferentes, pois como vendedor automóvel, Abilio tinha acesso a vários modelos.

─ Preparado? ─ perguntou-me, sorrindo.

─ Claro! ─ exclamei.

Seguimos ambos para o interior do edificio, onde estava marcada uma palestra de José Luis, antes de seguirmos para os balneários.

Ainda faltavam alguns elementos da equipa, mas a maior parte estava lá. Em cinco minutos, os restantes chegaram. Sentámo-nos todos em cadeiras viradas para a frente e aguardámos as palavras do nosso treinador.

─ Boa tarde a todos! ─ cumprimentou, olhando-nos autoritáriamente, como sempre fazia. Nós eramos os soldados que ele mandaria para o campo de batalha com o intuito de ganhar a guerra. Talvez isto fosse uma visão belicista de um jogo de futebol. ─ Hoje vamos iniciar a nossa participação no campeonato. Todos conhecem os nossos objectivos. Queremos assegurar a manutenção! ─ O discurso prolongou-se mais alguns minutos, mas sem nada de relevante.

Finda a palestra, a equipa seguiu para o balneário, onde se equiparia para o aquecimento, antes de começar o jogo.

Num plantel de vinte jogadores, como o do Grupo Desportivo de Paúle, havia necessidade de deixar dois jogadores de fora, uma vez que em campo estariam onze e no banco de suplentes sete. José Luis chamou Serafim e Gustavo, os quais já calculavam a sua sorte, e conversou com ele, informando-os de que ficariam de fora. Contudo, queria que eles fossem apoiar a equipa.

Apesar dos conflitos que tinha com ele, sempre achei que ele sabia lidar muito bem com os jogadores. As nossas desavenças eram um conflito de personalidades.

José Luis escolheu para o onze que iniciaria o jogo, os seguintes jogadores: Norberto; Miguel, Joselino, Reis e Sassi; Abilio, Justino, Ramalho e eu; Castanha e Hélder. Augusto, Teodoro, Emanuel, Toni, Macário, Zacarias e Samuel ficavam no banco.

Samuel normalmente seria titular. Porém, as duas últimas semanas que passara de férias na Figueira da Foz, fizeram José Luis considerá-lo abaixo de forma para o jogo.

Entrámos para o relvado e começámos os exercicios de aquecimento. Ao longo do gradeamento que cercava o campo, muitas pessoas já se arrumavam nos melhores lugares para ver o desafio. Vislumbrei a dona Palmira e a filha Maria de Fátima que também assistiam ao jogo. Infelizmente, nem Augusto nem Teodoro iriam jogar de inicio, não havendo assim representantes da sua familia em jogo.

Em frente à linha de meio campo, situava-se uma pequena tribuna coberta, local destinado às figuras de destaque do clube e seus convidados. Perto do final do aquecimento, vi a engenheira Calheiros sentar-se no centro, acompanhada por Raquel e por Manuela com a minha sobrinha, as quais a engenheira convidara para assistirem consigo ao jogo ─ A minha irmã só via futebol quando eu jogava. Detestava o jogo e não percebia nada das regras. ─ Mais atrás, sentava-se Alfredo Carrapiço e os dois jogadores preteridos que ele insistira para verem o jogo ali com ele. Vi mais algumas pessoas, algumas ligadas ao União de Coimbra, convidas por cortesia, e outras pessoas da terra, talvez investidores do clube.

Quando regressámos do balneário para o começo do jogo, a densidade de espectadores aumentara enormemente. Centenas de pessoas debruçavam-se sobre as grades, assegurando a visibilidade suficiente para ver a partida.

Perfilámo-nos todos em frente à tribuna, tanto nós, como a equipa do União e a equipa de arbitragem. Feitos os cumprimentos à assistência, os capitães de equipa ficaram com os árbitros, correndo os outros para cada meio campo, pulando e saltando para disfarçar a ansiedade.

O árbitro deu a escolher as faces de uma moeda aos capitães e atirou-a ao ar. O sorteio foi favorável ao nosso adversário que escolheu o campo, oferecendo-nos o pontapé-de-saida.

Os dois jogadores apertaram a mão ao árbitro principal, aos árbitros assistentes e ao quarto árbitro. E cada um dos capitães regressou para junto da sua equipa.

Abilio fez sinal para que nos juntássemos a ele. Formámos um circulo e gritámos alguns incentivos a nós próprios. Abilio deu algumas indicações e, bem cedo, lembrou que era a voz de comando de José Luis, dentro do relvado. E era natural que assim fosse, pois Abilio era um lider em qualquer lado que estivesse e era respeitado por isso.

Hélder deu o toque na bola que iniciou oficialmente a nossa época. Castanha segurou o esférico nos pés, passando-o a Abilio após a aproximação de um adversário.

As pessoas gritavam palavras de apoio. Não reparei em nenhum adepto do nosso adversário, talvez um ou outro que tivessem vindo com a equipa, mas nada significativo.

O União de Coimbra era uma equipa experiente, consciente das dificuldades e com a lição bem estudada para nos levar a melhor. Perto dos vinte minutos de jogo, uma desatenção de Reis quase dava o primeiro golo do jogo ao União. Valeu a grande defesa de Norberto.

Joselino reclamou com Reis, mas Abilio apressou-se a manter a ordem e concentração.

Na jogada seguinte, Norberto colocou a bola em Miguel que a conduziu alguns metros pelo nosso meio campo. O União não se arriscava muito e só intensificava a pressão perto da linha do meio-campo. Justino recebeu a bola e passou-a ao irmão. Abilio levantou a cabeça e reparou em Castanha a correr pelo centro, chutou a bola por cima de dois adversários na direcção dele. No entanto, um dos defesas cortou o lance, cabeceando a bola para a linha lateral.

A bola veio na minha direcção e eu não a deixei sair. Sassi, um pouco atrás, disse:

─ Aqui.

Toquei a bola para ele e corri. Sassi fintou um adversário e colocou a bola à minha frente com um excelente passe. Eu recepcionei com tal categoria que arranquei alguns aplausos ao público. Corri com ela até à linha de fundo e senti que parte da equipa investira no meio-campo adversário em meu auxilio. Parei a um metro da linha e olhei para a área. Fintei o defesa que me tentou tirar a bola. Alguém da bancada gritou:

─ Olhó Hélder!

No meio de dois defesas centrais, Hélder aguardava o passe.

Olhei para a bola, olhei para ele e passei-lhe o esférico. Hélder não conseguiu chegar à bola porque foi agarrado na camisola. E a bola acabou por morrer nas mãos do guarda-redes.

Ouviram-se enormes protestos da assistência. Referências à mãe do árbitro e a si próprio. Castanha e Justino ainda simularam uma tentativa de protesto, mas Abilio impediu-os.

Bem vindos ao futebol português, pensei.

O intervalo chegou com um nulo no marcador.

Durante a caminhada de regresso ao balneário, vi Abilio dirigir-se ao árbitro e, possivelmente, pedir-lhe explicações acerca do lance polémico. O homem do apito disse-lhe que não vira nada e avisou-o para se retirar dali, antes que lhe mostrasse o cartão amarelo.

Após quinze minutos de descanso, os jogadores estavam de regresso.

José Luis decidira mexer na equipa, retirando o Ramalho e colocando no seu lugar, Samuel.

O jogador do União deu o toque na bola que reiniciou a partida.

A aposta deles centrou-se naqueles quinze a vinte minutos da segunda parte, em que nos pressionaram fortemente e onde por duas vezes quase inauguravam o marcador. Se na primeira valera nova defesa de Norberto, na segunda fora Reis a evitar o golo a escassos centimetros da baliza.

No entanto, apartir daí, o desgaste fisico dos jogadores do União foi evidente. E nós “caimos” em cima deles.

O guarda-redes deles era muito bom, defendia quase tudo. E o que não defendia, ia ao poste ou à barra.

A cinco minutos do fim, Samuel ganhou uma bola perto da grande área adversária. Fintou um defesa e passou a bola a Abilio. Este rematou com força fazendo a bola parar no fundo da baliza do União de Coimbra.

Ouviu-se um grito uníssono na assistência, vibrando com o golo. Corremos todos para Abilio, abraçando-o e festejando com ele.

Até ao final, controlámos o jogo e o resultado. José Luis substituiu-me por Teodoro e substituiu o Hélder pelo Emanuel. Fomos todos ovacionados pelo público.

O árbitro deu uns exagerados sete minutos de desconto, mas isso não evitou a derrota do União. Mal o árbitro apitara para o final, festejámos todos a vitória, havendo até quem invadisse o campo para festejar connosco. Parecia que tinhamos ganho o campeonato.

 

O ambiente estava muito mais calmo quando saimos dos balneários rumo ao parque, após as comemorações nos vestiários e um belo banho. Quase toda a gente já abandonara o estádio, até o autocarro do União de Coimbra com os seus jogadores.

Perto do meu carro, Manuela e Cibele aguardavam-me. A minha irmã deu-me os parabéns pela vitória e pediu-me que levasse Cibele para casa. Eu concordei. Despediu-se de mim e via caminhar até ao local onde Augusto a esperava.

Desejei que tudo corresse bem e ele compreendesse a decisão que Manuela tomara.

Não sei ao pormenor como correu a conversa. Manuela chegou a casa depois de jantar, já Cibele dormia angélicamente na sua cama.

─ Então? ─ perguntei-lhe, ao vê-la entrar.

Manuela encolheu os ombros. Sentou-se ao meu lado no sofá e disse:

─ Contei-lhe que era necessário o meu regresso a Lisboa.

─ E ele?

Manuela olhou-me como se eu tivesse a obrigação de saber a resposta.

─ Ficou triste. ─ contou. ─ Disse que eu me ia embora e me esqueceria dele. Eu disse-lhe que não. Tu sabes como são estas coisas... A Camila está em Nova Iorque e...

─ Não tem nada a ver. ─ interrompi, bruscamente. ─ Não existe nada entre mim e a Camila.

─ Não costumas falar com ela na net?

─ Mantemos a amizade. ─ lembrei. ─ Mas estamos descomprometidos um do outro.

─ Sim, sim... ─ ironizou. ─ Andaste com alguém, desde que terminaram?

─ Não.

Manuela sorriu vitoriosa.

─ O Ivan Pedro que eu conheço, não fica tanto tempo sem...

─ Está bem, já te percebi. ─ atalhei. ─ Acredita em mim, mana. Está tudo terminado entre nós. Não tem volta!

Fazendo um gesto de “como quiseres”, prosseguiu:

─ Eu estou apaixonada por ele! Tal como ele por mim. E acredito que o nosso amor vai resistir à distância.

─ Faço votos que sim. ─ desejei. ─ Ouve lá, mana. E ficaram a conversar até agora?

Manuela revelou um sorriso malandro e respondeu:

─ Ó Ivan! Não vais querer que te conte tudo o que fizemos, pois não?

─ Não, mana. E jantaste?

─ Jantei e estou cheia de sono. Até amanhã, maninho!

Deu-me um beijo na face e caminhou até ao quarto.

Sentado no sofá, ali fiquei a ver televisão. Camila enviara-me um email ao fim da tarde, convidando-me para conversarmos um pouco ao fim da noite. Respondi-lhe que lá estaria no ICQ à hora marcada. Só que ainda faltava bastante tempo e eu estava cansado.

Enquanto via o resumo do Brasileirão na SportTv, pensava nas últimas conversas com ela. Não lhe respondera àquela mensagem em que me enviara fotos dos desfiles nos Estados Unidos. Dois dias depois, mandou-me nova mensagem a perguntar se estava tudo bem ou se estava aborrecido. Respondi que estava tudo bem. Camila evitava dialogar directamente, limitando-se aos emails.

No dia anterior, escrevera-lhe a confessar que tinha saudades de falar com ela e de ouvir a voz dela. Pedi-lhe que me telefonasse. A resposta foi aquele email a combinar o encontro no ICQ.

Deixei o computador ligado e fui até à janela para apanhar ar e espertar do sono que ameaçava arruinar a nossa conversa.

A noite era calma como sempre. Sabia bem a brisa que me batia no rosto, apesar da noite estar quente. As poucas casa que observava dali, tinham as luzes apagadas. Só se viam as luzes da rua e das estradas. E lá ao fundo, num aglomerado imenso de luz, a cidade de Oliveira do Hospital.

Ouvi o som caracteristico do computador, sinalizando uma mensagem nova do ICQ. Afastei-me da janela e sentei-me no sofá com o aparelho nas pernas.

─ Olá, Pedro! ─ dizia a mensagem.

Escrevi:

“Olá Camila!”

“Está tudo bem?”, apareceu no ecrã.

“Sim. Como estás tu?”

“Cheia de trabalho.”

Antes de escrever o que quer que fosse, nova mensagem.

“Tem havido jogos? Tens jogado?”

“Hoje foi a estreia no campeonato. Ganhámos por um a zero.”

“Parabéns! Foste tu que marcaste?”

“Não.”

“Sabes que te desejo toda a sorte, não sabes?”

“Sei.”

Abri uma nova janela e digitei:

“Começo a pensar se chegarei a algum lado.”

“Claro que sim. Ainda hei-de te ver a jogar no Benfica.”

“Não gozes, amor!”

Só depois de mandar a mensagem, é que reparei que escrevera “amor”. Não perdera o hábito de a tratar assim. Era como eu a via, como o meu amor.

Mesmo assim, apressei-me abrir outra janela e a escrever:

“Desculpa, chamar-te amor!”

“Não tem importância.”

“É o hábito. Tu sempre serás o meu amor!”

Depois de enviar, esperei a resposta. Não sei porquê, os segundos pareceram horas a passar. Sabia que estava a tocar no assunto que Camila não queria. Calculei que me fosse censurar por  estar a fazer, mas...

“Vivemos muito tempo juntos para se esquecer as coisas facilmente!”

Ao ler, percebi uma certa abertura para conversar sobre aquilo. Não me criticava. Limitava-se a concordar. Escrevi:

“Nunca esquecerei o que partilhámos! Nunca te esquecerei a ti!”

“Podemos mudar de assunto?”

“Porque será sempre um tabu, falarmos do nosso amor?”

A resposta à minha pergunta, tardou um pouco.

“Não é tabu, Pedro. É uma dor que ainda não desapareceu!”

“Não é só a ti que te doi, Camila.”

“Eu sei, Pedro. Mas, não fui eu que a provoquei. Não quero falar no assunto porque podemos acabar por dizer coisas, um ao outro, de que nos venhamos a arrepender.”

“Continuas a achar que te troquei pelo futebol?”

“Tu não me trocaste pelo futebol! Tu escolheste entre o futebol e o nosso amor. Escolheste o que achaste mais importante para ti. E a mim, cabe-me viver com essa escolha.

“Tu podias ter vindo comigo.”

“Eu também tenho de pensar no meu futuro. Querias que prescindisse de uma proposta profissional, capaz de me permitir uma independencia financeira que sempre sonhei, em prol da tua carreira de futebolista?”

“Sempre me acompanhaste. Sempre estiveste a meu lado.”

“Teria ficado a teu lado, se tivesses perante uma proposta irrecusável. Não podia ficar perante uma loucura de quem se quer arrastar pelo mundo do futebol.”

Senti dolorosamente aquelas palavras. Principalmente porque começava a pensar que ela tinha razão. Atrás daquela mensagem, veio outra:

“Desculpa, Pedro! Não queria magoar-te.”

“Talvez tenhas razão. Eu fui egoísta! Não pensei em ti. Mas, também acho que paguei um preço demasiado alto por isso. O teu amor.”

Novamente, a resposta demorou a vir. Cheguei a pensar que ela tivesse ficado offline. Porém, a indicação no monitor confirmava que estava em linha. Então, só poderia vir uma resposta comprida.

“Tu não perdeste o meu amor! Só não me tens junto a ti.”

“Eu ainda te amo, Camila! E vou amar-te sempre!”

Fiquei à espera de retribuição no mesmo tom.

“As nossas vidas estão a seguir rumos muito distintos. Estarmos a falar de amor, é estarmos a iludir-nos.”

A resposta foi um balde de água gelada. Com o calor que estava até poderia saber bem. No entanto, aquele acertara-me na alma, no coração que batia por ela. E quase se despedaçara.

“Podes não me continuar a amar, mas eu amar-te-ei sempre!”

“Só não quero que as coisas se tornem mais dolorosas.”

“Posso fazer-te uma pergunta?”

“Sim.”

“Existe alguém na tua vida?”

“Queres saber se eu namoro alguém?”

“Sei que não tenho nada a ver com isso. Se não quiseres responder, tudo bem.”

“Não há ninguém, Pedro! Perdi a crença no amor sem dor!”

“Eu também não tenho ninguém.”

“Acreditarias nisso se estivesses no meu lugar?”

A pergunta ofendeu-me.

“Nunca te menti, Camila. Tu conheces-me bem.”

“Por te conhecer é que faço a pergunta, Pedro. Faziamos sexo todos os dias. É dificil acreditar que não fazes nada desde a nossa última vez.”

“Mas não faço! Acredites ou não.”

Pronto, menti-lhe, eu sei. Acreditam que adiantaria alguma coisa dizer-lhe a verdade? Não significou nada e arrependi-me no segundo seguinte. Sei que é o que todos dizem, mas é a verdade.

“Está a ficar tarde e amanhã tenho de trabalhar.”

Era a indicação para nos despedir-mos. Teclei:

“Podemos continuar amanhã?”

“Não sei. Eu mando-te um email quando puder.”

“Está bem. Beijinhos.”

“Beijinhos”

Camila is offline.

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