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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO X

Passara um mês e meio, desde que me mudara para a aldeia de Paúle.

Aproveitei aquele que seria o último fim-de-semana descansado, para ficar sozinho em casa ao fresco e a ver televisão. No Domingo da semana seguinte, começaria o campeonato.

Após aquele humilhante jogo diante do Oliveira do Hospital, fizemos mais dois jogos. Um contra o Tabuense em Tábua, onde empatámos a um golo. E o último em casa com o Carregal do Sal, o qual vencemos por três a um. Contudo, as indicações que a equipa revelava para a época que se avizinhava não eram nada boas.

A minha irmã saíra com Augusto e levara Cibele consigo. Ele convidara-a para lhes mostrar uma zona de quedas de água que ele conhecia.

Manuela e Augusto tinham-se aproximado muito, desde aquele dia de pesca, quando Cibele caíra à água. Conhecendo-a como conhecia, percebi rapidamente o seu crescente interessem nele.

Mesmo recusando a ideia, quando a confrontava com isso, Manuela e Augusto já partilhavam mais que uma recém-criada amizade.

A tarde estava muito quente e o ar era seco, o que me causava um certo mau estar.

Sentado no sofá, bebia eu um sumo fresco e via a SportTv, quando ouvi o toque da campainha.

Podia esperar qualquer pessoa, menos a que me apareceu para lá da porta.

─ Rui? ─ interroguei pasmado ao ver o meu ex-cunhado.

─ Olá, cunhado!

─ Ex-cunhado. ─ lembrei. ─ Que eu saiba, estás divorciado daminha irmã. Ou será que te esqueceste?

Rui era um individuo mais alto que eu, robusto e sempre com barba de dois, três dias. Surpreendera-me vê-lo de cabeça rapada, mas optara por aquele visual devido ao estado avançado da sua cálvice. Já não via desde que fora preso.

─ Não me convidas para entrar? ─ perguntou.

─ Não.

O rosto de Rui endureceu.

─ Ó pá, deixa-te de merdas! Quero falar com a Mané.

─ Ela não está.

Rui empurrou-me e forçou a entrada, constatando com os seus olhos que eu falava verdade.

─ Onde é que elas estão, Ivan?

Olhei para os bolso e disse:

─ Aqui não estão.

Rui ficou ainda mais furioso e tentou forçar-me a dar-lhe a informação. Porém, antes de se aproximar, surgiu uma voz feminina, atrás de mim.

─ Calma, Rui!

A voz pareceu-me familiar. Uma recordação distante, mas conhecida. Voltei-me para a proveniencia da voz e nem quis acreditar.

─ Carla?

─ Olá, Ivan Pedro!

Que fazia ela ali? Parecia um daqueles filmes em que os personagens aparecem sem terem nada a ver com a cena.

Carla estava, claro, mais velha. Já não usava o cabelo ruivo encaracolado, mas sim frisado. Porém, notei nela um olhar diferente. Perdera o ar fútil e tornara-se calculista.

─ Que fazes aqui? ─ indaguei.

─ Penso que é óbvio. ─ respondeu.

Rui colocou-se a seu lado e esclareceu.

─ A Carla e eu...

─ Acho que ele já percebeu, querido. ─ atalhou Carla.

─ Como é que vocês... se conheceram? ─ perguntei, ainda atordoado.

─ Num bar, depois de ele sair da prisão. ─ contou Carla.

─ E o teu nome foi um bom ele de aproximação entre nós. ─ relatou Rui.

Carla sorriu com cinismo e disse:

─ Fiquei logo curiosa de saber onde estava o meu “querido” Ivan.

─ Será que noto aí uma pontinha de ressentimento? ─ perguntei.

─ Achas? Porque haveria de estar ressentida?

─ Se calhar por te ter posto na rua, quando me traiste.

─ As atitudes ficam para quem as pratica. ─ respondeu.

─ Ena! ─ exclamei. ─ Andas a comer sopa de letras?

─ Parem lá com essas tretas! ─ interrompeu Rui. ─ Quero saber onde está a minha filha?

Olhei-o com altivez e lembrei-o:

─ Sabes que não podes aproximar-te delas.

─ Eu faço o que quiser.

Carla chamou a sua atenção, puxando-lhe o braço e sugeriu:

─ Vamos voltar para o hotel. Passamos por cá noutra altura.

E ambos se foram embora, entrando num carro preto que ficara ao lado do meu.

O som do veiculo a afastar-se misturou-se com o ruído da lambreta de Raquel.

Mal faláramos desde que ela me propusera aquela relação sem compromissos. Naquele momento, vinha ao meu encontro para saber como eu estava e reactivar a nossa amizade, a qual fora danificada com semelhante proposta.

Ainda um pouco alterado pela visita anterior, acabei por desabafar com Raquel, aquilo que tinha acontecido.

Raquel ouviu-me com toda a atenção e acabou por dizer:

─ Talvez fosse melhor elas irem lá para casa.

─ É melhor não. ─ recusei.

─ A sério. ─ insistiu. ─ Temos seguranças e elas estariam protegidas dele até se arranjar uma solução melhor.

─ E a tua mãe?

─ Eu falo com ela.

Pegou no telemóvel e telefonou à mãe. Ouvia contar-lhe todos os pormenores do que acontecera, tal e qual eu lhe contara. Percebi claramente que a outra não pusera entraves à ideia e até sugeriu que eu fosse também.

Essa parte da proposta recusei. Sabia que o receio da senhora era que Rui estragasse aquilo que ela considerava uma mais-valia do GDP.

Mal desligara a chamada, senti o trinco da porta rodar e por ela entrarem Manuela, a filha e o Augusto. A minha irmã percebeu no meu semblante que algo grave acontecera.

Levei-a para o quarto para podermos falar à vontade e contei-lhe o que se passara na sua ausência. Ela ficou abalada, mas manteve a clama e o seu calculismo de advogada começou a funcionar.

─ É melhor voltar para Lisboa. ─ disse.

─ Não necessáriamente. ─ lembrei. ─ Lá, continuas à mercê dele. E estás a esquecer-te do Augusto.

Manuela sorriu-me.

─ Eu sei que vocês andam um com o outro, mana.

Expliquei-lhe o plano de Raquel e como estaria mais protegidas em sua casa. Manuela começou por recusar a ideia, pois não queria transformar a sua vida numa prisão. Contudo, o facto de que Cibele estaria significativamente mais segura, pesou na sua decisão de aceitar.

Saí do quarto e pedi a Augusto que fosse lá, pois Manuela queria explicar-lhe o que estava a acontecer. Eu comuniquei a Raquel que se iria fazer como ela sugerira.

O pôr-do-sol revelava-se lindissimo, escondendo-se na linha do horizonte, quando eu e Augusto ficámos a ver Manuela e Cibele serem guiadas por Raquel para o interior dos jardins da Casa de Paúle.

Nessa noite, Camila escrevera-me um email, depois de cerca de um mês sem dar noticias. Relatava o desfile na Flórida e outros que se seguiram a esse, o que a tinha ocupado totalmente nesse tempo. Enviou-me algumas fotos dos preparativos, onde ela aparecia feliz e sorridente juntamente com a sua equipa de trabalho.

Senti-me estranho. Fiquei contente por a ver bem. Porém, não sei se queria vê-la com um ar infeliz, só pelo facto de se ter aventurado naquela empreitada e me ter deixado para trás. Concluí que fora eu quem a deixara para trás. E ela, apenas, tentava viver a sua vida o melhor possivel.

Decidi não responder ao seu email, pelo menos naquela altura.

Mais uma vez, ali estava eu sozinho em casa. Habituara-me a ter a companhia da minha irmã e da minha sobrinha. Pelo menos, voltava a ter a minha cama e podia deixar de dormir no sofá-cama.

Descobri uma boneca de Cibele junto do sofá. Como estariam elas? Teriam recebido ambas bem? Pensei em telefonar-lhes, mas reparei que já era tarde demais para o fazer.

Peguei no telemóvel e liguei para o hotel em Tábua, onde trabalhava o Joselino. Não sabia se ele estaria de serviço naquela noite. Foi o próprio quem atendeu a chamada.

─ Joselino? É o Ivan Pedro!

─ Estás bom? Que se passa?

─ Preciso de uma informação tua.

─ Diz.

─ Sabes se entraram hóspedes novos, nestes últimos dias? ─ perguntei.

─ Entraram.

─ Viste algum casal?

─ Ivan, há vários casais no hotel. ─ lembrou ele.

Tinha razão. Descrevi-lhe pormenorizadamente o Rui e a Carla, esperançado que eles estivessem lá hospedados.

─ Sim. De facto, entrou um casal a noite passada com esses nomes. E conferem com essa descrição. ─ confirmou Joselino.

Resumidamente, expliquei a situação a Joselino e pedi-lhe que me mantivesse informado das suas movimentações. Joselino acedeu ao meu pedido e comprometeu-se a colaborar comigo, sempre que estivesse de serviço no hotel.

Se não os podia afastar da minha familia, pelo menos tinha que os ter controlados e vigiados.

Na manhã seguinte, fui despertado do meu sono por toques sucessivos na campainha.

Levantei-me ensonado e deparei com nova visita de Rui, desta vez sozinho.

─ Onde estão elas? ─ perguntou, empurrando-me novamente como no dia anterior.

─ Isto não pode estar a acontecer. ─ reclamei, bocejando. ─ Outra vez.

─ Onde está a minha filha? ─ insistiu ele, olhando para todo o lado.

─ Estão ambas em lugar seguro. ─ respondi. ─ Agora, põe-te na alheta!

─ Ouve lá, ó amostra de jogador da bola!

Rui dirigiu-se a mim, tentando levar a melhor fisicamente.

─ Ó pá vai-te embora! ─ ordenei. ─ Volta para Lisboa e leva a puta da tua namorada!

Desviei-me do seu punho enraivecido e empurrei-o porta fora, fechando-a de seguida. Ouvi claramente os dois socos que inflingiu à madeira da porta. Após os passos furiosos a descer as escadas, espreitei à janela para ver as suas movimentações.

Rui preparava-se para entrar no carro, quando foi abordado por outro homem. A visibilidade não era muito boa, mas dava para perceber que o outro era Xavier. Não me pareceu que se conhecessem antes daquele momento. Vi Xavier apontar na direcção do meu apartamento e dizer qualquer coisa que fez Rui concordar. O meu ex-cunhado retorquiu algo que também não ouvi e convidou o outro a entrar no carro. Ambos partiram no veiculo preto.

Que rica dupla, pensei. Não havia melhor aliado em Paúle para Rui que o Xavier, aquele que jurara vingança quando o impedi de abusar de Dália.

Aquela nova amizade não me afligiu, minimamente, até ao momento em que me lembrei que Xavier era irmão de Deolinda que era empregada na Casa de Paúle. Não lhe deveria ter passado em claro as novas hóspedes da casa e, obviamente, que o assunto seria discutido em familia. Logo, Xavier contaria a Rui o paradeiro da minha irmã e da minha sobrinha. Só me restava confiar na segurança da casa.

Mesmo assim, telefonei a Raquel e transmiti-lhe os meus receios. Ela descansou-me, lembrando que existia na casa segurança suficiente e que ninguém entrava sem autorização prévia da mãe ou dela.

Mais aliviado, falei com a minha irmã.

Manuela contou-me como as tinham recebido bem e como todos estavam a ser muito gentis com elas. Não a informei dos novos factos, pois não havia necessidade de a preocupar mais.

Raquel voltou ao telefone e convidou-me a jantar lá em casa. A principio recusei, uma vez que a minha personalidade entrava facilmente em choque com a da mãe dela. No entanto, seria uma desfeita desnecessária a alguém que se protificara a ajudar-nos. Acabei por aceitar, colocando antes uma condição: Pedi para que Augusto me acompanhasse. Sabia como isso agradaria a Manuela.

 

Pouco depois das oito da noite, ainda não era noite e o Sol começava a pôr-se, Augusto e eu chegávamos aos enormes portões da Casa de Paúle.

Augusto recusara-se inicialmente a acompanhar-me. A familia Calheiros e a sua residência estavam para a população de Paúle como a Rainha de Inglaterra estava para os britânicos. Existia um clima de vassalagem constante à engenheira Amândia Calheiros.

Sabia que não se sentiria à vontade, mas o facto de rever Manuela incentivou-o a ir.

Tinha o Megane parado em frente à entrada. Um dos portões abriu-se ligeiramente e um individuo saiu em direcção ao carro.

─ Boa noite! ─ cumprimentou o homem.

─ Boa noite! ─ retribui. ─ Ivan Pedro! Venho jantar com a familia Calheiros.

O segurança assentiu com a cabeça. Posteriormente, olhou para Augusto e apontou, perguntando:

─ E o senhor?

─ É o meu amigo Augusto. ─ respondi no seu lugar. ─ As senhoras também aguardam a sua presença.

O segurança confirmou a informação e fez sinal a um colega para que abrisse os portões.

Conduzi o carro pela entrada e segui pelo carreiro cercado de arbusto que me levaria até ao pátio frontal ao pequeno palácio. Conhecia bem o caminho, pois fizera-o na primeira vez que lá fora jantar.

Augusto optara por um fato formal como se fosse a uma audiência no Palácio de Belém. Saiu do carro com enorme cuidado para não amarrotar um milimetro que fosse do tecido. Eu não envergava uma roupa tão formal, até porque não me sentia confortável, mas também revelava alguma classe e bom gosto. Contudo, naquela noite, ao lado de Augusto parecia seu criado.

O mordomo da casa recebeu-nos com cerimónia, como se seguisse um protocolo de visitas de Estado. Porém, não pode seguir todos os procedimentos, pois Cibele fizera o favor de quebrar o gelo do ambiente, correndo para mim.

Com Cibele no colo e Augusto ao meu lado, segui atrás do mordomo que nos indicou o caminho até ao salão.

Sentadas no sofá, Manuela e Raquel esperavam a nossa chegada. Cumprimentámo-nos todos e ficámos sentados frente a frente.

O mordomo saiu do salão.

─ A tua mãe? ─ perguntei a Raquel.

─ Está no escritório.

O mordomo voltou a entrar e disse:

─ Menina Raquel! Sua mãe pede que se desloque ao escritório.

─ Com licença! ─ pediu, levantando-se e abandonando o salão.

Aproveitando a ausência de elementos da casa, perguntei à minha irmã:

─ Então? Como tens passado?

─ Bem. As pessoas tratam-nos muito bem. ─ respondeu Manuela, visivelmente satisfeita. ─ E o Rui? Voltou a aparecer?

─ Não. ─ menti eu, não a querendo preocupar.

─ A senhora Calheiros é um simpatia. ─ afirmou a minha irmã.

─ Não partilhamos da mesma opinião. ─ retorqui.

─ Porquê?

Fiz um gesto, sinalizando que era melhor não falarmos nisso.

─ A tia Raquel é muito simpática. ─ adicionou Cibele.

─ Tia? ─ interroguei eu.

Manuela sorriu e explicou:

─ A Raquel disse-lhe que como era mais ou menos da minha idade, podia ser minha irmã, logo tia dela.

Eu sabia bem como é que Raquel queria ser tia de Cibele.

Ouviram-se passos vindos do corredor, aproximando-se do salão. Raquel entrou e regressou ao seu lugar. Seguidamente, entrou a senhora engenheira, emproada como sempre a conhecera.

Augusto levantou-se do sofá, como se alguém lhe tivesse espetado um alfinete no rabo, e cumprimentou vassalmente a anfitriã.

Também eu me levantei, menos acelerado, e cumprimentei a senhora, dizendo:

─ Como está, senhora engenheira?

─ Bem obrigado. ─ respondeu-me. ─ E o senhor?

─ Bastante mais descansado, devido à sua ambilidade em ter recebido a minha irmã em sua casa.

─ Ora essa! Foi um prazer, meu rapaz. ─ respondeu-me. ─ A sua irmã é uma pessoa bem formada e a sua sobrinha é adorável.

─ Mesmo assim, agradeço-lhe a sua generosidade. ─ insisti.

A engenheira Calheiros o para Augusto e perguntou:

─ Estou a reconhecê-lo, rapaz. É o filho da Palmira, não é?

─ Sou sim senhora. ─ confirmou ele, fazendo mais uma vénia.

─ Admiro muito a sua mãe. ─ confidenciou. ─ Mulher trabalhadora. Lutou muito para vos criar! Lembro-me bem dela com vocês pela mão.

Percebi que, por trás daquela pose emproada e pomposa, estava uma mulher que se batera para merecer a posição que ocupava e admirava as mulheres que tinham lutado e se tinham esforçado por alcançar os seus objectivos.

O mordomo retornou ao salão e disse:

─ Senhora! Posso mandar servir o jantar?

─ Sim.

O grupo caminhou calmamente em direcção à outra sala, onde Deolinda aguardava junto à porta. Entrámos e fomos conduzidos aos nossos lugares na mesa. E o jantar foi servido.

A senhora engenheira encabeçava a mesa, tendo à sua direita Raquel, eu e Augusto e à esquerda Manuela e Cibele.

Deolinda servia a refeição, enquanto o mordomo permanecia junto à porta, estático.

─ Como têm corridos os jogos do Paúle? ─ perguntou a senhora.

─ Mais ou menos. ─ respondi.

─ Vocês foram uma vergonha, naquele jogo contra Oliveira do Hospital. ─ lembrou.

─ Mamã, por favor. ─ pediu Raquel. ─ Não vamos falar de futebol.

─ Tem razão. ─ concordei com a engenheira. ─ Mas está a falar com duas pessoas que não jogaram nesse dia.

─ Também joga no Paúle, Armando?

─ Augusto, senhora. ─ corrigiu ele. No entanto, ela não ligou a isso e esperou que ele desenvolvesse.

─ Sou guarda-redes suplente.

A engenheira Calheiros voltou a olhar para mim e indagou:

─ Porque é que o senhor não jogou, senhor Ivan?

─ Isso terá de perguntar ao treinador. ─ respondi.

─ Já perguntei ao Carrapiço. ─ insistiu. ─ E ele não disse coisa com coisa. Gostava de ouvir a sua versão. Não gosto da ideia de estar a pagar a um jogador para ele não jogar.

─ Não podemos jogar todos. ─ contrapus.

─ Deixe-se de espertezas comigo, senhor Ivan Pedro. Que aconteceu?

O rosto de Raquel estava carregado, furiosa com o assunto. E Manuela também não estava melhor.

─ O mister achou melhor eu não jogar. ─ expliquei. ─ Não me cabe a mim contestar as suas decisões.

A pomposa senhora Amândia ficou a observar-me intrigada, mas não insistiu no assunto.

A refeição prosseguiu em silêncio. A dona da casa não proferira mais nenhuma palavras e todos os outros se mostraram receosos de levantar qualquer assunto.

Subitamente, o meu telemóvel tocou.

Levantei-me da mesa, pedi licença e afastei-me para o exterior da sala de jantar. Era uma chamada de Joselino.

─ Alguma novidade? ─ perguntei.

─ O tipo que me falaste saiu agora do hotel. ─ informou. ─ A mulher ficou no quarto. Mas, ouve Ivan! O tipo saiu daqui com o Xavier.

Agradeci a informação a Joselino regressei ao salão onde todos terminavam a refeição.

A apreensão tomou conta de mim. A minha mente começou a tentar adivinhar o que iriam aqueles dois fazer ou o que estariam a engendrar.

Findo o jantar, a engenheira pediu ao seu mordomo que mandasse servir os cafés no outro salão. Este seguiu imediatamente para a cozinha para dar a ordem.

Manuela levantou-se e informou que ia deitar Cibele. A minha pequena sobrinha despediu-se de todos e seguiu com a mãe para o seu quarto.

A anfitriã sugeriu-nos que passássemos para o outro salão e todos a acompanhámos até lá.

Sentados no sofá da sala, Augusto e eu recebemos as chávenas de café. Antes, o mordomo servira a engenheira Amândia e Raquel.

─ Nunca pensou ser advogado, como a sua irmã, senhor Ivan? ─ perguntou a engenheira.

Não havia dúvida que a mulher implicava comigo.

Nesse instante, Manuela regressou à sala e o mordomo serviu-lhe o café.

─ Estava a perguntar ao seu irmão, se nunca quisera ser advogado? ─ continuou.

─ O Ivan? ─ questionou ela. ─ Tem tanto jeito para direito como eu para o futebol.

Sorri com a sua resposta.

─ E você o que faz, Armindo?

─ Augusto, senhora. ─ emendou infrutiferamente Augusto. ─ Ajudo a minha mãe no café.

─ A Raquel está a terminar o curso de Medicina. ─ informou. ─ Espero que seja médica brevemente.

─ Assim espero mamã.

Enquanto bebia o café, sentia um aroma estranho no ar. Parecia que me cheirava a queimado. Com o passar do tempo, o cheiro foi aumentando e todas as pessoas começaram a notar.

─ Que é aquilo? ─ interrogou a senhora, apontando para a janela.

Nesse momento, o mordomo entrou na sala e disse:

─ Senhora! A mata está em chamas.

Levantámo-nos todos e corremos para as janelas para ver.

O mordomo abriu duas portas estreitas que davam para o terraço frontal à casa. Todos saimos do salão e fomos para o terraço.

A noite era escura, nem se via a lua. Para lá dos muros da Casa de Paúle ficava uma extensa zona de pinhal. Ficámos pasmados a ver as chamas a consumir os pinheiros e a mata seca caida no chão. As labaredas eram muito altas e iluminavam o ambiente nocturno.

─ Chame os bombeiros! ─ ordenou a dona da casa.

No entanto, antes que o mordomo se movesse, começaram a ouvir-se as sirenes dos bombeiros ao longe, rumo ao incêndio.

─ O vento está contra nós. ─ prosseguiu. ─ Se não o apagam rapidamente, pode chegar aqui.

─ Deus o não permita! ─ exclamou Deolinda, benzendo-se.

─ E o teu marido também não. ─ retorquiu a patroa.

Petreficados com a visão assustadora das chamas, permanecemos no terraço a olhar lá para baixo para a mata a arder. Fomos despertados pelo som de uma sirene bastante mais perto. Olhámos todos para os portões da entrada e vimos um jipe dos bombeiros avançar pelo caminho até ao pátio.

O jipe parou em frente à escadaria. A engenheira Calheiros saiu do terraço e deslocou-se até ao local onde o veiculo parara. Eu e Augusto acompanhámos a senhora,

De dentro do jipe saiu Abilio, o nosso capitão de equipa, marido de Deolinda e que pertencia ao corpo de bombeiros local.

─ Que se passa Abilio? ─ indagou muito apreensiva.

Abilio cumprimentou-a com reverência e explicou:

─ O fogo na mata está descontrolado e a chegar ao Laiado.

─ Laiado? ─ questionei.

Augusto explicou-me que era o nome dado à extensão de pinhal que observávamos dali.

─ Se continuar assim e com este vento, pode chegar aqui. ─ prosseguiu Abilio. ─ Por isso, vinha pedir-lhe autorização para que ficasse aqui uma viatura para precaver.

─ Claro Abilio! ─ autorizou a engenheira, claramente preocupada.

Abilio pegou no rádio e deu indicações para que os colegas viessem.

─ Que podemos fazer? ─ perguntou a senhora.

─ Mantenham-se calmos. ─ sugeriu Abilio. ─ Sei que é dificil, mas é o melhor. Mande o seu pessoal regar as zonas junto ao muro para o caso de alguma fagulha encandescente voar até cá.

Olhei em volta e vi os empregados da casa a espalharem-se pelo pátio. Eram bastantes e traziam a curiosidade estampada no rosto.

A engenheira Amândia Calheiros chamou o chefe dos empregados e deu-lhe algumas indicações. Este, por seu turno, começou a distribuir o pessoal pelas zonas indicadas.

Chamei Abilio e perguntei-lhe se podiamos ser uteis.

─ Mantenham-se com as senhoras e acalmem-nas. ─ disse ele. ─ Se isto der para o torto, todos seremos poucos para salvar isto.

A sua voz foi abafada pelo barulho estridente das sirenes do outro carro dos bombeiros. O longo veiculo vermelho parou no pátio e dele sairam alguns colegas de Abilio.

Por momentos, gerou-se alguma confusão entre as pessoas que mal sabiam o que fazer e continuavam assustadas com a aproximação das chamas.

Voltei ao terraço e só encontrei Raquel, pois Manuela fora ver como estava Cibele. Olhei novamente para a densa zona a arder e reparei nas pequenas luzes azuis a brilhar em redor das chamas. Eram as viaturas dos bombeiros. Ver a sua dimensão perto das chamas dava para perceber bem como eram altas as labaredas.

O calor era insuportável e o cheiro a queimado perturbava a respiração. Caminhei até ao muro para ver mais perto o que estava a acontecer no exterior. Para lá do muro, existia uma estrada onde muitos populares observavam e comentavam as chamas. Havia casa mais para baixo que já tinham sido apanhadas pelo fogo. E os proprietários das outras mais acima clamavam por socorro e tentavam salvar o que podiam.

Regressei à minha posição no terraço, cruzando-me com vários funcionários da casa que seguiam as ordens do capataz para defender as imediações do terreno contra as chamas.

Já perto da escadaria, reparei num individuo magricela parado a observar os outros. Mais uns passos e discerni a sua identidade. Era Xavier.

Fiquei sobressaltado, pois sabia que Xavier estivera com Rui e que ambos tinham saido juntos do hotel. Sendo assim, o outro não deveria andar longe, o que comprometia a segurança da minha irmã e da minha sobrinha.

No terraço, Raquel reconfortava a sua mãe, visivelmente transtornada com o que estava a acontecer. Não muito longe, Augusto cumpria as indicações de Abilio  que o mandara ficar junto delas. Perto dele, perguntei:

─ Viste a Manuela?

Augusto olhou para a casa e respondeu:

─ Ainda não voltou. Deve estar com a Cibele.

Aproximei-me mais dele e segredei-lhe:

─ Vi o Xavier ali, no pátio. O Joselino disse-me que o viu sair do hotel com o Rui. Acho que o malandro do meu ex-cunhado deve andar por aí.

─ A sério? ─ interrogou ele, arregalando os olhos.

─ Sim. Fica de olho no Xavier que eu vou ver da Manuela.

Augusto concordou e saiu do terraço, colocando-se numa posição priveligiada para controlar as movimentações de Xavier.

Eu chamei Raquel e perguntei-lhe onde ficava o quarto de Cibele.

Depois de me indicar rapidamente o caminho até lá, entrei na casa e subi as escadas. Não se via nem ouvia ninguém no interior, apenas o ruido da confusão lá fora e as sirenes ao longe a vaguear pelas estradas e caminhos de terra, tentando alcançar uma boa posição para combater as chamas.

Entrei no corredor e caminhei pela passadeira que abafava os meus passos. Ouvi qualquer coisa cair ao chão e um grito. Corri o mais rápido que pude e entrei de rompante no quarto de Cibele.

Encontrei Cibele agachada num canto do quarto, assustada e petreficada com a cena que se desenrolava. Manuela estava caída no chão, um pouco maltratada e com aspecto de quem se batera por proteger a filha daquele louco que permanecia junto à porta.

Ao ver-me, Rui tentou agredir-me com qualquer coisa que não identifiquei. Desviei-me e soquei-o no estômago, atirando-o ao chão.

Manuela gatinhou até Cibele e abraçou-a para a proteger.

Eu estava por minha conta. Não havia possibilidade de ninguém nos vir ajudar, pois todos continuavam demasiado ocupados com o incêndio.

Rui voltou à carga e empurrou-me contra a parede e eu voltei a responder com outro soco. Não sei o que me deu tanta força para me debater com ele, talvez o instinto de protecção da minha familia. Ele conseguiu agarrar-me pelo pescoço e tentou sufocar-me, mas eu consegui libertar-me, dando-lhe uma pancada seca na cabeça.

Manuela fez um esforço por se levantar, abriu a janela e começou a gritar por socorro. Não sei se alguém a ouviu. Porém, isso assustou Rui que optou por se pôr em fuga pelo corredor.

No entanto, eu não estava disposto a deixá-lo escapar e corri atrás dele. Desci as escadas, vendo que ele já fugia pelo átrio rumo ao pátio exterior. O ambiente foi invadido pelo ruido estridente de novo carro dos bombeiros que entrava na propriedade.

Rui saiu porta fora. Eu não desisti e repeti o caminho dele.

Quando saí para a rua, Rui descia as escadas atabalhoadamente sem ver para onde ia. Nesse instante, o veiculo dos bombeiros entrou no pátio a toda a velocidade, dirigindo-se para o mesmo local que Rui. O condutor não teve tempo para se desviar dele e embateu violentamente nele e passando-lhe por cima.

As pessoas que haviam desviado a sua atenção para os gritos de Manuela, viam agora aquela tragédia, como se a que se avizianhava já não fosse suficiente.

Penso que Rui teve morte imediata. Ainda chamaram uma ambulância, mas não havia nada a fazer.

Xavier, que tentara escapar ao ver o cúmplice morto, foi apanhado por Augusto.

No momento em que a ambulância chegou para levar o corpo, o fogo estava muito muito perto. Com a ambulância veio também um jipe da GNR que fora chamado por quem ouviu os gritos de Manuela.

Conversei com os agentes e expliquei o que acontecera e a tentativa de rapto do qual Xavier fora cúmplice. Por essa razão, eles mantiveram-no sob prisão.

Abilio coordenava do seu jipe todas as forças de que dispunha. Com a aproximação das chamas, as viaturas recuaram até perto das casas, tentando desesperadamente salvá-las.

Todos tivemos muita sorte naquela noite. Quando já achávamos que tudo estava condenado a arder, o vento mudou de direcção e empurrou as chamas para outro lado. Parte da corporação deslocou-se para a nova frente e continuou a combater as chamas, enquanto os restantes se mantiveram alerta, caso o vento voltasse a mudar.

Só perto do nascer do Sol é que os bombeiros controlaram o incêndio. Fora uma noite em claro para todos nós. Os populares davam graças a Deus pela salvação dos seus pertences. Contudo, havia muitos que não podiam dizer o mesmo.

Xavier fora levado para o posto da GNR em Tábua e relatara aos agentes alguns factos da noite anterior.

Segundo ele, o fogo fora ateado por Rui para chamar as atenções e causar confusão na Casa de Paúle. Aproveitaram a passagem dos bombeiros dentro da propriedade para entrarem sem que ninguém os visse. Por várias vezes, Xavier disse que tentara demover Rui de fazer aquilo. O objectivo era entrar na casa e raptar a minha sobrinha.

Xavier acabou por sair em liberdade, apesar dos vários avisos de que estavam de olho nele.

Outra pessoa que desapareceu foi Carla, a qual fora vista sair do hotel, meia hora após Rui e Xavier. Joselino identificou o carro em que ela seguia e houve quem dissesse ter visto o carro a cerca de cem metros dos portões da Casa de Paúle na noite da tragédia. Pensa-se que seria a última fase do plano, aguardado Rui com Cibele para se porem em fuga. Dois dias mais tarde, o carro foi encontrado no rio perto de Tábua, mas nem sinal do corpo de Carla. Ninguém acreditava que ela tivesse morrido. Fugira com medo de ser presa.

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