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DEIXA QUE O AMOR SEJA A TUA ENERGIA

CAPÍTULO I

Era tão estranho, quanto o poderia ser, ver chuva às portas do Verão. As gotas grossas batiam no pára-brisas do carro, esborrachando-se e multiplicando-se em gotinhas pequenas.

O calor... esse continuava.

Ali estava eu, ao volante, sozinho no interior de um Megane Coupé vermelho que não era mais que um de muitos veículos parados na ponte Vasco da Gama. Ia a caminho de Alverca, onde deveria treinar ao fim da tarde.

Saíra cedo de casa com a ideia de passar pela dos meus pais em Lisboa. Mas com aquele engarrafamento, teria de ir directo a Alverca.

O rádio tocava uma balada temporariamente nos tops. Quando andamos muito de carro e às mesmas horas, acabamos sempre por ouvir as mesmas músicas. E as escovas que limpavam o vidro, faziam um som cadenciado que acompanhava a música.

O carro da frente andou dois metros e o meu também.

Solitário naquele pára-e-arranca, dei comigo a pensar na vida...

 

Desde pequeno que o meu sonho era ser jogador de futebol. Acho que desde o primeiro dia em que chutei uma bola que o meu destino ficou traçado. Lembro-me de com três anos andar atrás de uma bola de plástico atirada pelo meu pai nos relvados do Estádio Universitário. Ainda guardo algumas fotos dessa altura, eu com a minha mãe e o meu pai a brincarem comigo, fazendo-me sentir no meu mundo de três anos que era um “febelista”.

A minha irmã é que não gostava de futebol. Ainda hoje não gosta...

 

Mais uns metros para a frente e nova paragem. A chuva caía e continuava a cair. Desliguei o rádio e fiquei a ouvir as escovas com o coro de buzinas dos mais impacientes. Peguei no telemóvel e liguei ao meu pai.

─ Pai! Tás bem... A mãe?... Ainda bem. E a Manuela?

A Manuela é a minha irmã que sempre detestou futebol. Era dois anos mais velha que eu. Advogada conceituada, sócia de um escritório de três com bastante sucesso no meio. Divorciada de um marido problemático e mãe de uma menina linda de seis anos, a minha sobrinha Cibele.

Depois do divórcio, Manuela voltou para casa dos meus pais com a Cibele. Tornara-se a forma mais confortável de ultrapassar a situação e de ter quem cuidasse da pequenina na sua ausência.

─ Hoje não vai dar para passar por aí. ─ disse eu.

─ Nem para jantar? Temos muitas saudades tuas. ─ insistiu.

─ Vou tentar...

Tinha saudades de todos eles. Desde que comprara casa em Alcochete que raramente os visitava. Telefonáva-lhes quase todos os dias, mas só isso não chegava.

Olhei para o relógio e fiquei impaciente, pois dentro de uma hora tinha de estar no relvado do Alverca a treinar.

Lembrar-me que tudo começara há dezoito anos...

 

Tinha nove anos quando o meu pai me levou aos treinos de captação do Atlético. Tudo porque eu não me calava que queria jogar à bola. E numa manhã de Sábado, o meu pai leu n’A Bola que no dia seguinte pela manhã aquele clube ia fazer as provas.

Sempre desejara jogar no Benfica, mas havia que começar por algum lado.

Parece que foi ontem. Eu com uma camisola “10” da selecção nacional, que o meu pai comprara na feira de Carcavelos, e onde a minha mãe cosera o nome do Futre, o meu ídolo na altura.

Acompanhado pelos meus pais e pela minha irmã, lá fomos ao campo do Atlético, lá para os lados de Alcântara.

A primeira visão foi assustadora. Havia tantos putos da minha idade e mais velhos no relvado, distribuidos por meia duzia de treinadores que parecia quase uma lotaria ser escolhido.

Os meus pais desejaram-me sorte, naquele tom paternal de quem diz “vai lá e não fiques triste por não ser escolhido”. A minha irmã continuava agarrada a duas barbies louras a quem mudava sucessivamente de vestidos e fingia que andavam, fazendo-as dar pulinhos.

Fizemos várias provas, conforme nos iam indicando os treinadores. Cerca de uma hora em fintas, habilidades técnicas e um sem numero de coisas que supostamente nos avaliariam. Ao fim daquele bocado, a rapaziada voltou para junto dos familiares e amigos que os tinham acompanhado.

Os técnicos reuniram-se alguns minutos no relvado, isolados dos putos barulhentos.

Alguns rostos infantis denotavam a ausência de esperança de ficar, outros vangloriavam-se de já estarem garantidos. Eu mantive-me impávido, olhando para os individuos de fato-de-treino, mal sentindo as palmaditas nas costas dos meus pais e os “foste muito bem” e “parabéns” e “estamos muito orgulhosos de ti”.

Um deles afastou-se do grupo e dirigiu-se a todos nós. Parou de forma a que todos o pudessemos ver e escutar com atenção. Deu os parabéns a todos e lamentou o facto de só poder escolher alguns.

Sentia as pernas a tremer e um nó na garganta. O homem de boné da Adidas com o emblema do clube, segurava um bloco no braço esquerdo e seguia os nomes da lista com uma caneta que empunhava com a mão direita. Começou a chamar o eleitos.

Cada vez que a sua voz se iniciava, eu ansiava na esperança de ouvir o meu nome, para logo de seguida vir a frustração de ouvir o de outro.

“Ivan Pedro”, disse o homem.

Eu ouvi, mas não quis acreditar.

Atrás de mim senti o meu pai e a minha mãe abraçarem-me e elevarem-me ao ar, felicitando-me. Mas eu... Eu nada. Estava tão feliz que fiquei petreficado.

Foi assim que entrei pela primeira vez para um clube de futebol.

 

A recordação foi interrompida por uma buzinadela. O carro à minha frente já andara mais uns cinco metros. Levantei a mão, desculpando-me e segui.

Não fora fácil ter um filho que queria ser jogador da bola, principalmente para o meu pai que depois de dias esgotantes no trabalho ainda me levava, ao fim do dia, até aos treinos e esperava para me levar de regresso à nossa casa em Alvalade.

Voltei a ligar o rádio para ouvir as noticias. O choque de um veículo ligeiro e um camião eram a causa de tamanho engarrafamento. Felizmente, não houvera vitimas.

Ao fim de um ano de Atlético, fui aos treinos de captação do Benfica. Foi um dos piores dias da minha vida. Tudo correu mal... E eu não fui escolhido.

As escovas do limpa-pára-brisas começaram a fazer um ruido estridente. Reparei que parara de chover e elas já limpavam a ausencia das gotas de água.

Joguei no Atlético até aos juvenis, altura em que recebera um convite para jogar no Sporting.

Quando soube da proposta do Sporting senti um misto de alegria e tristeza. Era bom, mas não era o meu sonho chamado Benfica.

O director do departamento de futebol dos escalões jovens telefonara ao meu pai e pediu-lhe que se reunissem com um representante do Sporting. O individuo era olheiro do clube leonino e estava interessado na minha contratação.

O meu pai ficara radiante e deu-me a noticia como se tivesse ganho o totoloto. Para além de ser um clube melhor, ficava significativamente mais perto de casa. Sempre me reservava mais algum tempo para o estudo.

A época no Sporting não correu bem. Se não me falha a memória, só joguei um ou dois jogos e passei os restantes entre o banco de suplentes e a bancada. No fim, fui cedido ao Belenenses por troca com um ponta-de-lança que interessava ao clube e que se formara em Belém.

A carreira no Belenenses prolongou-se alguns anos, estendendo-se pelos juvenis, juniores e primeiro ano de sénior. Sempre a extremo esquerdo. Marquei alguns golos, mas nunca dei nas vistas o suficiente para crescer no mundo competitivo do futebol.

Na altura em que subi aos séniores e o meu ordenado começou a ter um aspecto disso mesmo, decidi sair de casa e ir viver sozinho. A minha irmã ia casar e viver com o marido. E eu queria sair de casa e passar a ser mais autónomo.

Apesar de tristes por ficarem sozinhos, os meus pais apoiaram a minha decisão.

Aluguei um T2 bem perto do Estádio do Restelo.

Quando lá entrei pela primeira vez, acompanhado pelo representante do senhorio, fiquei deslumbrado com o interior e a vista para o Tejo. A minha primeira reacção foi telefonar à Carla para que fosse lá ter comigo e ver também.

Apanhei-a a sair de uma aula. Carla era estudante do nono ano (que tentava terminar pela terceira vez) na Escola Secundária do Restelo. Era uma miuda de dezoito anos para quem o maior objectivo era ser modelo e casar com um homem rico. Tinha um corpo bem atraente com os cabelos ruivos encaracolados e olhos azuis, mas extremamente fútil.

Conheci-a no final de um treino, algum tempo antes, quando ela e mais algumas se descabelavam por um olhar nosso. O visual dela despertou a minha atenção. Isso fez com que eu fosse junto do gradeamento e dar-lhe o ambicionado autógrafo. Algo que eu e os meus colegas costumavamos fazer após o treino, ao pessoal que se juntava ao longo das redes. Miúdos e miúdas que assistiam aos treinos e nos idolatravam.

Para minha surpresa, ela perguntou-me se podia tomar um copo comigo. Não era hábito aceitar, ao contrário de alguns colegas meus que adoravam engatar as adolescentes. Contudo, o facto de estar “sozinho” e o aspecto tentador dela levaram-me a aceitar.

A partir desse dia, após um copo e umas “brincadeiras” ao fim da tarde no meu carro, começámos a namorar... a andar.

O senhor mostrou-nos a casa. Tinha um ar acolhedor, mesmo sem recheio nem nada lá dentro. Disse-lhe que era mesmo aquilo que eu queria e ele comprometeu-se a tratar do contracto. Quinze dias mais tarde, estava a viver lá.

A minha namorada mudara-se comigo. Concordara com essa ideia, apesar de não morrer de amores por a ter ali. Não éramos um casal que alugara uma casa, era eu que pagava a casa e deixara a namorada viver lá. Por vezes, não a suportava ali, mas como ela até dava uma ajuda doméstica e continuava a saber bem na cama, eu deixava a situação prolongar-se.

Porém, a situação durou pouco mais de duas semanas.

Uma Quinta-Feira, eu partira para estágio com a equipa do Belenenses. Íamos jogar a Braga. No entanto, no último treino em Lisboa (após o qual partiriamos para o norte), eu caí mal e desloquei o ombro. Fui levado para o departamento médico do clube, onde o médico depois de me examinar disse “a época para ti acabou”. A tristeza invadiu-me, mas a equipa técnica e colegas confortaram-me.

Fora do estágio, regressei a casa, onde esperava encontrar a minha namorada entediada numa casa semi-vazia. Conduzi o carro com dificuldade, durante aquelas poucas centenas de metros, tendo o ombro imobilizado ao tronco por várias ligaduras.

Ao entrar em casa, dei com tudo em silêncio, ouvindo-se só um ligeiro sussurrar vindo do quarto. Caminhei até lá, começando a reconhecer a voz da Carla e a de um homem. Estava acompanhada? A pergunta surgiu juntamente com a resposta ao abrir a porta do quarto. Deitados na cama, nus, a minha namorada e um outro puto que nunca vira.

Eles ficaram petreficados ao ver-me.

A minha vontade era matá-los... ou pelo menos magoá-los. Principalmente a ela. Mas o meu estado não era o melhor. Olhei para o puto e mandei-o desaparecer da minha frente. Apavorado, ele pegou rapidamente na roupa e fugiu dali, vestindo-se o melhor que podia sem deixar de correr.

A seguir, olhei para ela. Os seus olhos procuravam uma justificação, uma desculpa... mas não surgia nada que servisse. Dirigi-me a ela e agarrei-a pelos cabelos, arrastando-a pelo chão até à porta da rua, insensivel aos seus gritos. Larguei-a e voltei ao quarto. Enquanto ela se tentava levantar do chão, fui buscar algumas roupas para ela vestir, as quais lhe atirei com desprezo. Voltei a arrastá-la pelos cabelos e atirei-a porta fora juntamente com a roupa.

Ao trancar a porta, senti que fechara definitivamente uma etapa da minha vida. Ela ainda esmurrou a madeira, pelo lado de fora, implorando o meu perdão. Mas não houve perdão...

 

O movimento de fazer andar o carro e parar já era automatico. Que tédio, duas horas ali naquilo. Sentia as palpebras pesadas com o céu cinzento e o ar abafado.

Aquele episódio fez-me celibatário durante algum tempo. E alí começou outro mau momento da carreira desportiva.

Ao longe, vislumbrei as luzes dos carros de emergência médica.

 

A lesão no ombro obrigou-me a ser operado e a ficar parado durante alguns meses. Viver sozinho com um ombro imobilizado torna o dia-a-dia bastante dificil. Porém, orgulhoso como era, não recorri à ajuda dos meus pais.

Nesse ano, a época desportiva foi inexistente. Só recuperei a forma e recomecei a jogar com regularidade nas últimas jornadas do campeonato.

O treinador mudara e o novo achava que podia prescindir de mim para a época seguite. Fui dispensado e fiquei sem clube. Foi quando conheci o Jorge.

O Jorge era empresário de futebol. Tipo na casa dos quarenta, bem arranjado e elegante. É dos melhores seres humanos que já me foi dado a conhecer. E era muitas vezes injustiçado por ser homossexual assumido.

Nunca tive problemas em ser seu amigo, apesar dos comentários injuriosos que ouvi algumas vezes. Tive colegas que me perguntavam se era seguro estar perto dele, como se ser homossexual fosse sinónimo de andar a “atirar-se” a tudo o que fosse homem.

A nossa sociedade tem dificuldades em entender certas coisas.

Apesar da nossa grande amizade e fraternidade, jamais o Jorge se insinuou para mim. Sempre lhe conheci o mesmo companheiro com quem tinha uma relação havia muito tempo.

Jorge vivia na zona de Cascais e começara a sua carreira de empresário como representante de jogadores do Estoril Praia. Um desses jogadores transferiu-se para o Belenenses e foi através dele que o conheci.

Conseguiu-me um contracto com o Estoril Praia, onde joguei uma época. Seguiu-se outra no Torreense. E, por fim, o contracto com o Alverca.

 

O telemóvel tocou e despertou-me das recordações. Atendi. Que coincidência, era ele!

─ Tou... Jorge! Então pá?

─ Preciso de falar contigo. ─ disse-me.

─ Algum problema?

─ Depois falamos. ─ fugiu ele. ─ Onde estás?

─ Parado na Vasco da Gama, a caminho do treino no Alverca.

─ Vou para lá. Conversamos depois do treino, ok?

─ Tudo bem. ─ e desliguei.

Apenas três carros me separavam da barreira acidentada na estrada. Vi o pessoal do INEM a prestar auxilio aos intervenientes, os bombeiros a limpar a estrada e a remover os veiculos. Pelo meio, dois agentes da Brigada de Trânsito tentavam organizar o trânsito.

Mais cinco minutos e estava fora da fila, a caminho de Alverca, atrasado e a acelarar pela A1.

A época não me correra nada bem. O Alverca estava a jogar a II Liga e com fortes aspirações a subir de escalão. Eu fora titular indiscutivel até à deslocação a Faro...

 

Adivinhava-se um jogo complicado, aquele que nos opunha ao Sporting Farense. Mas, para mim foi mais do que alguma vez poderia imaginar. Num lance de ataque, um dos meus colegas passou-me a bola e eu fiquei isolado frente ao guarda-redes deles. Preparava-me para rematar, quando senti as pernas serem atingidas violentamente pelos pitons das botas de um defesa adversário. Ouvi um estalo arrepiante e senti o osso da perna quebrar-se.

As dores eram tão fortes que nem conseguia abrir os olhos. Sei que alguns colegas meus ainda tentaram tirar de esforço com o outro...

O médico só me dizia para ter calma, como se isso fosse possivel quando se tem o perónio fracturado. O massagista fazia sinal para o banco, alertando a necessidade de ser substituído. E o árbitro mostrava o cartão vermelho ao defesa do Farense. O tipo fora expulso por me ter derrubado quando estava cara-a-cara com o guarda-redes e não pela gravidade da lesão. Eram as leis do jogo.

Tive de ser operado e ficar inactivo alguns meses. O defesa que me lesionara nunca tivera uma palavra de preocupação pelo meu estado ou um pedido de desculpa. As visitas aos hospitais dos lesionadores aos lesionados só acontecem na divisão principal porque fica bem e é noticia no dia seguinte.

A recuperação fora feita entre os departamentos médicos do Futebol Clube de Alverca e o Sport Lisboa e Benfica. Fizeram um trabalho excepcional e recolocaram-me apto a pisar um relvado.

Havia duas semanas que regressara aos treinos. E na última jornada jogara os primeiros minutos após a lesão, na parte final do jogo.

 

Estacionei o carro no parque do clube. Havia alguns sócios por ali, gente que me lançava sempre uma palavra de apoio. Acenei um cumprimento e entrei rumo aos balneários.

Nesse instante, o meu telemóvel voltou a tocar.

─ Olá Camila! ─ atendi.

─ Olá amor!

Camila era a minha namorada.

─ A tua mãe telefonou-me a pedir que te convencesse a ires jantar lá casa, logo. ─ contou ela, num tom meigo para me convencer a aceitar. ─ Os teus pais têm muitas saudades tuas.

─ Eu sei...

─ Posso dizer-lhes que sim?

─ Vais lá ter? ─ perguntei. ─ Ou queres que te vá buscar.

─ Eu vou para lá já. ─ disse ela. ─ Não vale a pena estares a voltar para trás.

Trocámos alguns carinhos e desliguei.

A relação com Camila fora das mais sérias e duradoras que tivera. Gosto de recordar o dia... ou melhor, a noite em que a conheci.

 

O Jorge convidara-me para a festa de aniversário do seu companheiro, o Eduardo. Participar em festas onde a maioria dos convidados eram homens predominantemente gays não era muito do meu agrado. Porém, em consideração à minha amizade pelo Jorge, aceitei passar pelo Queen’s e cumprimentar o aniversariante.

O bar não fora reservado propositadamente para a festa, mas metade dos presentes eram convidados.

Após deixar o carro perto da esquadra de Alcântara, caminhei alguns metros até à entrada do bar. Uma fila de meia dúzia de pessoas aguardava autorização para entrar. Coloquei-me atrás dos casais que aguardavam e esperei a minha vez.

Ao chegar junto ao segurança, este barrou-me a entrada. Sempre aquela treta de quando vamos sozinhos ou não temos o aspecto que o segurança acha que devemos ter para entrar, não nos deixam passar. Calmamente, expliquei-lhe que estava a haver uma festa para o qual tinha sido convidado. O outro não quis saber. Pedi-lhe que chamasse o Jorge, mas ele recusou-se.

O tom de voz tornava-se ameaçador. E eu não queria arranjar problemas. Decidi desistir de tentar entrar. Antes que desse o primeiro passo para sair dali, senti uma mão de mulher segurar-me o braço e uma voz dizer:

─ Olá querido! Desculpa o atraso.

Olhei para trás e vi uma mulher morena de cabelo liso comprido. Tinha um tom de pele que lhe dava um ar bronzeado natural. Era elegante e tinha a minha estatura. O rosto tinha traços asiáticos e os olhos eram verdes. Vestia um vestido preto simples de alças e saia curta. Calçava sandálias apertadas por um fio que se cruzava várias vezes ao longo das pernas até aos joelhos. Fiquei tão encantado que não me saiu uma única sílaba.

─ Podemos entrar? ─ perguntou ela, num timbre natural, fazendo a pergunta soar como um “sai da frente”.

O segurança franziu o nariz, mas acabou por se afastar.

De braço dado com ela, entrámos e rapidamente nos vimos envolvidos pelo imenso ruido da música. Olhei para ela e saiu-me um timido obrigado, meio engasgado. Ela sorriu, piscou-me o olho e acenou-me um ténue adeus, afastando-se na direcção oposta à minha.

Procurei os anfitriões. Encontrei-os numa das várias poltronas espalhadas pelo interior. Sentados bem juntos, lá estavam o Jorge e o Eduardo.

Sempre bem arranjado, fato com laço e sapato a brilhar, Jorge estava sorridente e animado. Tinha o braço sobre as costas do companheiro.

O Eduardo tinha trinta e poucos anos, mas a maneira de vestir fazia-o parecer mais novo. Era tão diferente de Jorge que quase passavam por pai e filho. O cabelo era alourado e todo espetado em diversas direcções. Bem barbeado, usava uma t-shirt de rede preta e calças de brancas. E calçava umas sandálias pretas.

Estavam rodeados por muitos amigos. Contudo, não eram só homens. Havia algumas mulheres entre eles. Namoradas de uns, pois ser homossexual não implica só ter amigos homossexuais, amigas e parentes como era o caso da mãe do Jorge.

Cumprimentei-os a quase todos. Alguns dos amigos deles olhavam para mim atenciosamente. Olhar de “que pena não ser” ou “tão lindo”. Mas sabiam quem eu era e as minhas preferências.

Sentei-me junto do Jorge e contei-lhes, por entre o som altíssimo da música, o que acontecera na entrada. O Eduardo, que era amigo do gerente, disse que ia pedir satisfações do sucedido. Mas, eu pedi-lhe que esquecesse. Tinha valido a pena, só por ver aquela mulher linda e misteriosa.

Tanto o Jorge como o Eduardo começaram a meter-se comigo pela forma como eu falava da estranha.

Pedi um sumo de laranja à empregada.

─ Ainda essa mania de não beber alcool quando conduzes? ─ interrogou Eduardo.

─ Achas que é mania? ─ gritei eu para que me ouvisse.

O Jorge deu-me uma palmadinha nas costas e disse:

─ Continua assim. O Mundo está carente de pessoas com juízo.

Eduardo encolheu os ombros. Irritava-o quando o companheiro falava num tom paternal.

Não tinha ideia de ficar muito tempo. Esperava até uma oportunidade de me despedir de ambos e regressar a Belém, local onde ainda vivia, apesar de já estar a pensar mudar-me. Pousei o copo na mesa pequena e, quando ia a abrir a boca, vi novamente a mulher misteriosa.

Caminhando elegantemente, ela aproximou-se de nós e foi directa ao Eduardo. Beijou-lhe a face e desejou-lhe um óptimo aniversário. Depois cumprimentou o Jorge, dando-lhe igualmente um beijo. Olhou para mim disfarçadamente e sorriu-me, da mesma forma como fizera anteriormente. Por fim, afastou-se em direcção ao balcão.

─ Conhecem-na? ─ perguntei.

─ A Camila? ─ questionou o Jorge.

─ Camila? É assim que se chama? ─ estava deliciado a olhar para ela, lá ao fundo, junto ao bar.

─ Pareces um puto babado! ─ exclamou Eduardo, acompanhado por um coro de risos dos amigos. ─ A Camila é minha amiga. Trabalha lá no centro de cópias.

O Eduardo trabalhava numa loja de cópias como chefe do seu departamento.

─ Podias apresentar-nos. ─ sugeri eu.

─ Ó filho, tenho mais que fazer... ─ refilou ele, atirando o braço para trás.

Durante alguns instantes, continuei a olhar para ela. Bebi mais um golo do sumo e abandonei o copo na mesa pela última vez. Despedi-me do grupo, apesar das muitas insistências para que ficasse mais um pouco, e afastei-me.

Caminhei até ao balcão, mais precisamente ao local onde ela estava. Parei

a seu lado e disse:

─ Obrigado, mais uma vez.

O seu primeiro olhar foi de surpresa, mas ao reconhecer-me sorriu.

─ Vou-me embora. A festa está boa, mas estou um pouco cansado. ─ continuei.

─ Não é preciso agradeceres. ─ a sua voz era quente e sobrepunha-se com facilidade a todo o ruido envolvente. ─ Mas se me quiseres pagar um copo...

Sorri, mas sem razão. Não sei porquê, a frase não me caiu bem. Repentinamente, a mulher à minha frente parecia aquelas tipas que estão nos bares, distribuindo simpatia em troca de um copo.

─ Fica para a próxima. ─ disse-lhe. ─ Estou cansado.

─ Espera. ─ pediu. Levou o cigarro, que segurava entre os dedos, à boca. Expeliu o fumo. ─ Gostava que ficasses. Bebíamos qualquer coisa e conversávamos.

─ Não é propriamente o melhor sítio para conversar. ─ constatei eu, fazendo um gesto para a música ruidosa.

Ela aproximou-se do meu ouvido e sugeriu:

─ Podemos ir para outro sítio.

Novamente, saiu-me o mesmo sorriso sem razão. Ela pareceu adivinhar os meus pensamentos e disse:

─ Sei o que estás a pensar. Que eu estou aqui no engate. Que só quero é uns copos e uma queca num lado qualquer.

Não confirmei, nem desmenti. Isso, pareceu irritá-la severamente. Deixou dez euros no balcão, pegou na mala e afastou-se em direcção à porta sem dizer nada.

Vendo-a desaparecer pelo meio das pessoas, senti que talvez tivesse sido injusto e preconceituoso.

─ Correu mal? ─ perguntou Jorge, que viera ao meu encontro, após a cena.

Encolhi os ombros, como se nada daquilo tivesse importância.

Jorge continuou:

─ Fiquei satisfeito quando a vi cá. Desde a morte do namorado, só vivia para o trabalho e nunca mais saiu de casa sem ser para ir trabalhar.

O meu olhar inquiria-o.

─ O namorado era americano e morreu no Onze de Setembro. Trabalhava no World Trade Center. O Eduardo contou-me que ela ficou num estado lastimável, entrou em depressão, esteve três meses de baixa... enfim.

─ E...?

─ Queres que te conte a vida da rapariga agora, nesta barulheira toda?

─ Conheceste-o?

─ Vi-o duas vezes, quando ele veio a Portugal. Por acaso, até era parecido contigo.

─ Treta. ─ disse eu.

─ Estou a falar a sério. ─ insistiu ele. ─ Tinha assim essa tua expressão.

Baixei a cabeça e olhei para o chão. Já tinha feito porcaria. Mais valia que ele não me tivesse contado aquilo, sempre ficava com a ideia errada mas menos penosa. Apertei-lhe a mão em despedida e pedi-lhe que quando a visse lhe transmitisse o meu pedido de desculpas.

Quando saí do bar, o som da noite movimentada da ribeira do Tejo parecia o campo comparado com a barulheira lá dentro. Olhei para o relógio e segui rumo ao parque onde deixara o carro.

Havia mais carros no parque do que quando cheguei. Porém, um Citroen Saxo branco chamou a minha atenção. Não tinha nada de especial, a não ser uma mulher sozinha de cabisbaixo encostada à porta do lado esquerdo.

Aproximei-me lentamente sem que ela desse pela minha presença, pois estava de costas. A poucos metros, reconheci-a. Nesse exacto momento, ela virou-se e eu confirmei a sua identidade. Reparei que o pneu direito da frente estava furado.

─ Desculpa, aquilo há pouco. ─ pedi.

Sem me olhar nos olhos, disse:

─ Não faz mal! Acho que a estupidez é uma característica normal nos homens.

Não levei em consideração as suas palavras. Parei em frente a ela e sugeri:

─ Podemos começar de novo? Chamo-me Ivan Pedro.

Ela olhou para os meus olhos. O seu semblante continuava frio. Apertou a mão que eu lhe estendera.

─ Camila.

─ Já vi que tens um pneu furado.

─ A sério??? ─ ironizou ela. ─ Bem se não fosses tu a dizer...

─ Estou a tentar ajudar. Mas, se quiseres posso ir-me embora.

Ela segurou-me o braço, privando-me de me afastar.

─ Desculpa...

Eu voltei a encará-la nos olhos. Era tão linda que até doía.

─ Posso tentar trocar-te o pneu.

─ Não tenho outro para trocar. ─ informou-me com desânimo. ─ Queria ir-me embora daqui. Quero ir para casa.

─ Eu posso levar-te. O meu carro está ali.

Camila assentiu e caminhou a meu lado até ao carro.

Ambos entrámos no carro, pusemos os cintos de segurança e eu liguei a ignição. Propus-lhe que no dia seguinte arranjasse alguém que lhe fosse buscar o carro, um reboque. Ela não disse nada, pois na altura pensaria o que fazer.

─ Onde vives? ─ perguntei.

─ Em Loures. Mas podes deixar-me numa praça de táxis para não teres de ir tão longe.

─ Não me custa nada. ─ respondi eu solícito.

─ Merda! ─ exclamou ela, seguidamente. Pegou na mala, abriu-a e vasculhou tudo. ─ Merda! Merda! Merda! Esqueci-me da chave de casa.

─ Vives sozinha?

─ Não! Vivo com o meu pai. Mas, ele está em viagem e só volta na próxima

semana. Que merda!

─ Se quiseres podes passar a noite em minha casa?! ─ ofereci. Ela olhou para mim com um semblante inquisidor. ─ Não é nada do que estás a pensar. É só para te desenrascar. Amanhã levo-te a casa, chamas as “Chaves do Areeiro” e eles abrem-te a porta. E tratas do carro. E eu desapareço da tua frente, prometo. ─ A promessa saiu-me porque notava que as nossas personalidades estavam em choque. Camila não se manifestou.

Não se manifestou ali nem durante todo o trajecto até ao Restelo.

Toda a viagem calados, somente com o rádio ao som de música pop. Estacionei junto ao meu prédio, desliguei a ignição e tudo ficou no mais absoluto silêncio.

─ Chegamos. ─ avisei.

Camila olhou para o exterior, desapertou o cinto de segurança e abriu a porta. Eu fiz o mesmo.

Tranquei o carro, liguei o alarme e seguimos, lado a lado, até à porta do edifício de cinco andares azulado. Entrámos no átrio do prédio e prosseguimos até ao elevador no mais absoluto silêncio.

Enquanto subíamos rumo ao segundo andar, olhei para o rosto triste e fechado dela, sem expressão. Tentava não lhe olhar para o decote do vestido, nem para as longas pernas. Mas, era mais forte que eu.

O elevador parou. Abri a porta e deixei-a passar primeiro. Ela aguardou que eu saísse e a conduzisse até umas das portas do piso. Passei por ela, retirei a chave do bolso e introduzi-a na fechadura da minha casa.

─ É aqui. ─ Sorri. ─ Não repares na desarrumação. O serviço de quartos está de folga.

Ela manteve-se impávida.

Abri a porta e acendi a luz. A casa tinha um pequeno hall que dava acesso a um corredor singelo. Logo ali, duas portas. Uma era a do meu quarto, a outra da sala. No prolongamento do corredor, outra porta que dava para a casa-de-banho. Ao fundo, mais duas portas para a cozinha e outro quarto que usava como arrecadação.

Camila entrou. A cada passo aguardava sempre a minha reacção, fosse para acender uma luz, abrir uma porta ou dizer-lhe para onde ir.

Fechei a porta da rua e acendi a luz da sala, convidando-a a sentar-se no sofá.

Ela caminhou com elegancia até lá, atirou a mala para a ponta do sofá e deixou-se cair sobre a outra ponta. Ficou com a cabeça caída para trás e os olhos fechados. Não conseguia ficar indiferente ao seu corpo, à sua beleza. Sentar-se tinha revelado ainda mais as suas belas pernas. Respirei fundo e fui ao quarto arrumar as chaves.

Voltei à sala.

─ Como estás?

Camila abriu os olhos e olhou-me friamente.

─ Bem, tendo em conta todo o sucedido.

Fazia-me sentir como um mal menor em tantos azares.

─ É arriscado aceitar ajuda de desconhecidos. ─ constatei eu. ─ Tiveste sorte de eu...

─ Poupa-me! Está bem? ─ interrompeu ela. ─ Eu sei quem és. O Eduardo já me tinha falado de ti.

─ Bem, espero?!

─ Irrelevante. ─ disse com aspereza. ─ Reconheci-te quando estavas sentado ao lado do Jorge e confirmei quando te apresentaste.

─ Todo o cuidado é pouco. ─ alertei.

─ Ó pá, mas estás armado em meu pai? ─ vociferou. ─ Vais violar-me, é?

─ Não! ─ apressei-me eu a negar. Tal ideia estava afastada do meu pensamento. Mas, não me importava de fazer sexo com ela.

─ Então, cala-te! Deixa-me um pouco em paz.

Rica forma de agradecer a minha ajuda, pensei. Contudo, não a quis incomodar mais e fui até à cozinha.

Camila permanecia de olhos cerrados, quando regressei. Aproximei-me dela. Insconcientemente, os meus olhos navegavam por ela e não paravam de a avaliar, belas perna, peito sugestivo, elegante, escultural...

─ Podes arranjar-me um copo de água? ─ pediu. ─ Preciso de tomar um comprimido. Está a doer-me a cabeça.

Fui buscar.

─ Obrigado! ─ agradeceu quando lhe entreguei o copo. Retirou um comprimido da mala e tomou-o. ─ Preciso de dormir um pouco.

─ Podes ficar na minha cama. Eu durmo aqui no sofá.

─ Não é necessário...

─ Insisto. És minha convidada.

Camila assentiu. Notava-se que estava com pouca paciência para dialogar.

─ Posso perguntar-te o que se passa? O teu rosto parece demasiado triste para quem teve um furo e se esqueceu da chave de casa.

─ Que te interessa? ─ ripostou ela. ─ Achas que por ter aceite a tua ajuda te devo contar a minha vida? Que tens tu a ver com isso?

A agressividade dela irritou-me. Levantei-me do sofá e disse:

─ Tens razão! Não tenho nada a ver com isso. Anda, vou mostrar-te onde podes dormir.

Camila levantou-se, imponente, do sofá. Pegou na mala, mas acabou por se despenhar num mar de lágrimas e a soluçar.

Não sabia o que fazer. A reacção dela foi tão inesperada que eu fiquei sem reacção. Acabei por abraçá-la e reconfortá-la. Tocava-a como se tentasse retirar uma carta de um castelo de cartas. Desejava-a, mas receava que algum gesto meu fosse mal interpretado.

Conduzia-a de volta ao sofá e sentei-me a seu lado.

─ Não me quero intrometer...

─ Tudo bem. ─ atalhou ela. ─ Não me sinto muito bem. Aliás, há muito tempo que não me sinto bem.

─ Queres falar sobre isso? ─ O meu tom parecia de psicanalista. ─ Desabafar, ajuda.

─ Nunca me ajudou. ─ contrapôs. ─ Andei meses a consultar um psiquiatra e só sentia dor e amargura. Falava com ele uma hora até ele me dizer que a consulta tinha acabado. Raramente falava, só ouvia e receitava-me comprimidos para dormir.

─ Pois...

─ Tentei matar-me, uma vez! ─ exclamou. Acho que ela não ouvia já o que eu dizia. As coisas iam-lhe saindo num desabafo, apenas pela necessidade de falar. ─ Desde a morte do Sonny, nunca mais fui feliz, amada... ─ E continuou a chorar como uma criança.

Abracei-a, tendo o cuidado de não apertar os longos cabelos escuros.

─ O Sonny era o meu namorado. Conheci-o numa viagem de férias com umas amigas a Nova Iorque. Trabalhava como consultor económico em Wall Street e era sócio de uma empresa situada no World Trade Center.

Não sabia o que dizer. Não fui surpreendido com a história, pois horas antes o Jorge tinha-ma contado. Porém, mesmo assim, não me saía uma única palavra.

─ Ia muitas vezes a Nova Iorque ter com ele. ─ continuou. ─ Curiosamente, nunca falámos em eu ir viver com ele ou casarmos... Mas, fazia sentir-me bem, amada. E eu amava-o! Como o amava, meu Deus!

Mais lágrimas que lhe embargaram a voz, ficando a soluçar. Apertei-a ligeiramente contra mim.

─ Morreu no Onze de Setembro?! ─ foi o que me saiu.

─ Ainda tive esperança que ele pudesse ter escapado. ─ prosseguiu. ─ Que não tivesse ido trabalhar nesse dia...

─ Como é que soubeste?

A voz dela respondeu, denotando mais calma:

─ Telefonei para a empresa, no dia seguinte, esperançada que alguém atendesse. Nada. Telefonei para o centro de informações e apoio às vitimas e familiares das vitimas. Aí disseram-me... disser...

E caiu num pranto arrepiante.

─ Pronto. Não fales mais nisso. ─ disse eu.

Aos poucos, Camila acalmou-se. Limpou as lágrimas com um lenço de papel que retirara da mala. As mãos tremiam-lhe. Estava a reviver tudo o que tinha passado. A sua mente não estava ali, estava nas recordações.

─ Tive um esgotamento nervoso. Estive internada alguns dias. Fiquei de baixa três meses. ─ Fez uma pausa. ─ Há cerca de um ano que tenho tentado recuperar. Embrulhei-me no trabalho, para ver se esqueço isto, e não tenho interesse em mais nada. Hoje só fui à festa pela amizade que tenho ao Eduardo.

─ E ainda bem que foste. ─ confessei eu, não reparando que estava tão perto do rosto dela que lhe conseguia sentir a respiração. Sorri-lhe, tentando desanuviar o seu drama, e disse ─ Senão, como tinha conseguido entrar?

─ Talvez, pegando no telemóvel e ligando para o Jorge. ─ disse, rispidamente, sem tirar os olhos do chão.

Eu fiquei mudo.

Camila olhou para mim e sorriu.

─ Não fazia a minima ideia de quem eras. Quando me aproximei, fizeste-me lembrar o Sonny. Por isso, ajudei-te.

─ Obrigado.

Camila abriu mais o sorriso e aproximou o seu rosto do meu. As suas pálpebras baixaram e o seu olhar centrou-se na minha boca. Beijou-me os lábios suavemente.

Foi o suficiente para despertar todo o desejo que sentia por ela. Puxei-a para mim e intensifiquei a paixão naquele beijo. Camila sentou-se ao meu colo, uma perna de cada lado e de frente para mim. A sua lingua quente entrava na minha boca, os nossos lábios esmagavam-se entre si. Sentia um calor enorme a subir pelo corpo.

Toquei-lhe nas alças do vestido para que caissem pelos seus braços, deixando- lhe o peito nu. Beijava-me com tanta sofreguidão que quase me custava a respirar. E eu ajudava.

Comecei a tocar nos seus seios. A pele era macia. A outra mão acariciava uma das pernas e procurava por entre o vestido.

Subitamente, Camila pôs fim ao momento e afastou a sua boca da minha.

Fiquei aparvalhado.

─ Temos de parar.

─ Porquê? ─ questionei.

─ Dias dificieis. ─ respondeu ela.

─ Todos os temos. ─ ripostei eu.

Camila riu-se.

─ Não estás a perceber. Estou com o período. Não podemos fazer sexo! É melhor pararmos por aqui.

Para perceberem como eu fiquei, é como nos levarem a uma pastelaria, mostrarem-nos os bolos, darem-nos a massa a provar... Mas, quando queremos trincar, dizem-nos que não. Bolas!

Camila saiu do meu colo. Pôs-se de pé e recolocou as alças do vestido.

─ Fui eu para o engate no bar, logo hoje. ─ ironizou ela com sarcasmo, fazendo-me lembrar que a tomara por uma alternadeira no bar do Queen’s.

─ Já pedi desculpa por isso.

─ Mas devias ter mais cuidado. ─ avisou. ─ Podes magoar as pessoas.

E com aquelas palavras caminhou até ao corredor, esperando que lhe indicasse onde dormir.

Abri a porta do quarto e apontei para a cama, dizendo:

─ Fica à vontade! Eu durmo no sofá.

─ Que parvoice! ─ recusou ela. ─ Ou durmo eu no sofá ou dormimos os

dois na cama.

─ É melhor não.

─ Porquê?

─ Não sou de ferro. ─ respondi.

Ela olhou-me com seriedade.

─ Se não és capaz de dormir a meu lado sem termos de fazer sexo, então não és a pessoa que pensei que fosses, quando me estiveste ali a ouvir!

─ Não é isso...

─ Eu durmo no sofá! ─ decidiu.

Eu segurei-a pelo braço, num gesto terno.

─ Pronto, ganhaste! Dormimos na cama.

Podem não acreditar, mas dormimos na mesma cama sem que houvesse qualquer atitude de cariz sexual. Não posso dizer que não me senti excitado e não me apetecesse agarrá-la... Mas não aconteceu nada.

Ela sentou-se na cama, descalçou as sandálias e despiu o vestido. Deitou-se só com as cuecas pretas e tapou-se com o lençol. Estava uma noite quente... em termos meteorológicos.

Eu despi-me, fiquei com os boxers e deitei-me a seu lado. Tive a iniciativa de deixar uns vinte centimetros de espaço entre nós para evitar surpresas.

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