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AS MAGRIÇAS

CAPÍTULO I

A lesão que tive no jogo contra o Cesarense foi muito grave, de tal forma que a hipótese de voltar aos relvados era quase nula. Como eu tinha contrato com o Benfica, o clube encarregou-se da minha recuperação, inicialmente em Lisboa e depois na Suíça, numa clínica prestigiada.

Susana foi uma companheira extraordinária, acima de todas as minhas expectativas. Acompanhou-me em todos os momentos e viajou comigo para a Suíça, quando para lá fui iniciar o tratamento.

Alguns meses mais tarde, Susana deu à luz uma bela menina, a quem quis dar uma versão feminina do meu nome, Ivana. O parto aconteceu na Suíça, o que fez com que Ivana ficasse com nacionalidade luso-helvetica.

Eu dei sinais de recuperação, apesar de nunca atingir os níveis obrigatórios a quem queria voltar a jogar futebol profissionalmente. Andei cerca de meio ano com duas muletas, passando depois só para uma, evitando demasiado esforço na perna magoada.

Tendo contrato de um ano com o Benfica, não me surpreendeu que Lúcio Velez não o tivesse renovado, perante as perspectivas da minha recuperação. Sei que não o fazia por sua vontade, mas não tinha como justificar à restante direcção a renovação de contrato de um jogador que, basicamente, já não o era. Apreciei a sua atitude, aproveitando o estágio do clube em Nyon para me procurar e conversar pessoalmente sobre o assunto. O Benfica não interviria em mais nenhum aspecto do meu tratamento, mas ele dispôs-se a ajudar-me no que fosse necessário.

Por muito que me custasse, acabei por admitir que a minha carreira de futebolista tinha chegado ao fim, ainda antes dos trinta anos. O tratamento na clínica terminou e eu fiquei sem saber muito bem o que fazer na vida ou como sustentar a minha companheira e a minha filha.

A minha única opção parecia ser o regresso a Portugal. Contudo, antes de tomar essa decisão, Susana sugeriu-me a possibilidade de tirar um curso superior lá. Sei que também o poderia fazer em Portugal, mas como já estava a viver na Suíça havia um ano, optei por essa hipótese. Larguei definitivamente a casa de Paúle e pedi à minha irmã Manuela que me vendesse a casa de Alcochete.

Também Susana se adaptara muito bem ao país, talvez sendo quem melhor se adaptou. Nessa época de decisões, conseguiu um emprego numa multinacional suíça, fruto do seu currículo como Relações Públicas. A proposta de sete mil euros de ordenado foi irrecusável, ainda para mais, exercendo funções que ela gostava. Passado meia dúzia de anos, ela já tinha um cargo directivo e ganhava mais do dobro do inicial.

Eu formei-me em Educação Física e Desporto. Inicialmente foi difícil, principalmente por causa da língua. Felizmente, tudo correu bem. Após o curso, inscrevi-me noutro, de treinadores da FIFA, e fiz um estágio num clube do segundo escalão profissional de futebol.

Conciliava os estudos com a educação de Ivana, pois Susana tinha o tempo todo ocupado. O seu emprego exigia-lhe uma saída de casa bem cedo e um regresso tarde, já para não falar nas deslocações que fazia em serviço, chegando a estar alguns dias afastada da família.

Ao todo, desde que saí de Portugal, estivéramos na Suíça cerca de sete anos. Durante esse tempo, nunca vim a Portugal, mantendo o contacto com a família por telefone e internet.

Para além da visita de Lúcio Velez, apenas Jorge veio até à Suíça para me ver. Foi através dele que soube que Camila e Nick tinham tido um filho, o qual nascera um mês antes de Ivana.

Apesar da minha relação com Susana já ter alguns anos e estar solidificada, nunca nos decidimos a casar. Também não tivemos mais filhos, mais por opção de Susana que nem queria falar de qualquer coisa que implicasse afastar-se do emprego por mais de três dias.

Enquanto eu tirava o curso, Ivana ficava numa creche, não muito longe da casa onde vivíamos. Eu deixava-a lá a caminho das aulas e ia buscá-la no regresso, não abdicando de todos os momentos que podia estar com ela. Sempre tivemos uma relação muito próxima, bastante diferente da que tinha com a mãe, fruto da habituação à ausência de Susana em casa.

O apartamento onde vivíamos era um duplex num edifício de três andares numa localidade perto de Genebra, um apartamento inicialmente alugado quando nos mudámos para lá, o qual comprámos posteriormente, ao decidirmos ficar na Suíça.

O edifício tinha mais cinco inquilinos, quatro casais suíços e um luso-francês. Estes últimos, moradores no duplex ao lado do nosso, foram os nossos melhores amigos naquele país. Também nos socializávamos bastante bem com os restantes, mas o facto de António ser português, casado com uma francesa de nome Gabrielle, e morar logo ali ao lado, ajudaram a uma maior proximidade.

António era um indivíduo da idade de Susana, perto dos quarenta anos, o qual emigrara para a Suíça, aos vinte e cinco, em busca de melhores condições de vida. Trabalhava como engenheiro informático numa empresa de telecomunicações em Genebra.

Já Gabrielle ocupava o seu tempo com a actividade que tanto amava, a pintura. Possuía um atelier no apartamento, onde passava horas a fio a pintar. Gabrielle era oito anos mais velha que António. O seu nome era bem conhecido em França e na Suíça e já expusera as suas obras em diversas galerias.

 

No Verão desse ano, pouco depois de Ivana ter completado o primeiro ano na escola, aprovada com óptimas notas, António e Gabrielle contaram-me que haviam planeado passar umas férias em Portugal, algo que já não faziam havia três anos, para António visitar a família. Depois passariam por França e ficariam alguns dias por lá com uns parentes de Gabrielle.

Como nós somos portugueses, convidaram-nos a acompanhá-los na viagem a Portugal, mesmo que não permanecêssemos juntos lá, pois cada um teria os seus próprios sítios de destino.

A ideia de um regresso temporário ao meu país agradou-me, pois poderia rever algumas pessoas que me eram queridas, mostrar a Ivana a minha terra natal e permitir-lhe conhecer os avós e a tia.

Quando falei no assunto a Susana, ela lamentou a inoportunidade da viagem, pois estava numa época particularmente complicada na empresa, o que tornava impossível a sua ausência. Contudo, como sabia o quanto era importante para mim, sugeriu-me que fosse eu e Ivana.

Não era a situação ideal, mas perante uma vontade tão firme em não se afastar do emprego, acabei por aceder ao que me propunha. Assim, num Sábado de manhã, eu e a minha filha despedimo-nos de Susana em casa e seguimos de carro, juntamente com António e Gabrielle, para o Aeroporto de Genebra.

Após a entediante espera pelo embarque, lá fomos os quatro para o interior de um avião com destino a Lisboa.

Apesar da alegria do regresso ao meu país e saber que iria rever pessoas por quem nutria grande afecto, não deixei de sentir uma certa tristeza por Susana não nos acompanhar.

─ Pai! Portugal é bonito? ─ perguntou-me Ivana, logo após o levantamento do enorme avião.

─ É!

─ Mais que a Suíça?

─ Não sei, Ivana. Para mim é mais bonito porque nasci lá. ─ confessei-lhe. ─ Mas, para ti, talvez a Suíça seja mais bonita.

Nos bancos da frente seguiam António e Gabrielle.

─ Portugal é muito bonito. ─ disse ele. ─ Tem locais lindíssimos.

─ Tal come la France. ─ intrometeu-se Gabrielle. ─ Devias ver Paris et...

─ Nada se compara a Portugal. ─ ripostou António. ─ Lisboa com os seus bairros típicos...

Eles lá ficaram a esgrimir argumentos, enquanto Ivana se maravilhava com a vista, saboreando a sua primeira viagem de avião.

Para mim, as viagens de avião já não eram novidade. Encostei a cabeça à cabeceira do confortável banco e recordei os últimos tempos em Portugal...

 

Nem queria acreditar que estávamos em Junho. Chovia copiosamente em Coimbra, no dia em que tive alta do hospital. Caminhando com o auxílio das muletas, segui para o carro que me esperava na entrada. Lá dentro, ao volante, Manuela gritava a Augusto, que me ajudava, para que se despachasse e evitasse a chuva.

─ A Susana não veio? ─ perguntei, assim que entrei no carro e reparei que ela não estava lá.

Augusto fechou a porta e entrou para o lugar ao lado de Manuela.

─ Devia ter chegado hoje, mas teve de ficar mais algum tempo no Porto. ─ informou a minha irmã. ─ Dois ou três dias, não mais.

Partimos de Coimbra e rumámos a Lisboa. Os meus pais já haviam regressado à capital, no dia anterior, para preparar tudo para me acolherem em sua casa. Insisti várias vezes para que me deixassem ir para Alcochete, mas eles quiseram cuidar de mim e foi impossível demovê-los disso.

─ A Susana telefona-te logo. ─ avisou Manuela conduzindo pela auto-estrada. ─ Falei com ela, esta manhã, e pediu-me para te dizer isto.

Após aquele Sábado em que aparecera no hospital, Susana não voltou lá, uma vez que no Domingo que se seguiu teria de viajar novamente para o Porto. Não me quis dizê-lo frontalmente, mas pediu à minha irmã para que me dissesse que não voltaria ao hospital, antes de eu ter alta.

─ Também me disse... ─ continuou ela, sorrindo. ─ ...para não teres medo que ela não tinha fugido de ti.

─ Não gozes! ─ pedi.

─ Não estou a gozar, maninho.

─ Cuidado com a estrada, amorzinho. ─ alertava Augusto.

─ Não te preocupes! Pensas que não sei o que estou a fazer? ─ reclamou ela com o alerta. ─ Que mania que tu tens de...

─ Pronto, amorzinho! Não digo mais nada.

A chuva intensa começou a diminuir com a proximidade de Lisboa. Mesmo não sendo o ideal, a chuva dera lugar a singelos aguaceiros e o céu estava mais desanuviado.

Quando parámos perto da casa dos meus pais, já não chovia. Manuela ajudou-me a sair do carro, enquanto Augusto carregava a bagagem. Tive de ter cuidado para não tropeçar em nenhuma pedra do caminho entre a rua e o edifício, pois já começava a escurecer.

Os meus pais receberam-me como se já não me vissem havia meses. Abraçaram-me e beijaram-me, apaparicando-me o mais possível. E que bem que me sabia o conforto do lar, depois de mais de uma semana no hospital. Manuela ajudou o meu pai a levar-me para a sala, ficando a minha mãe a preparar um café na cozinha. Augusto ficara ignorado à entrada, sem saber onde colocar as malas.

A casa dos meus pais era suficientemente grande para nós todos. Realojaram-me no meu antigo quarto, ficando o de Manuela para ela e para Augusto, os quais teriam de se arranjar para dormir na sua cama de solteira. Ao contrário do quarto dela, o meu estava muito vazio, pois desde os tempos em que decidira viver sozinho que não dormia lá. Já Manuela vivera ali, após o divórcio e antes de ir viver para Paúle. Só faltava Cibele, a qual não viera connosco por causa da escola. Porém, estava em boas mãos, a cargo da dona Palmira.

Ao jantar, lá tive de comer uma pratada de macarrão que a minha mãe fizera para todos. Tive de comer muito, pois a minha mãe achava que eu estava “fraquinho”.

Como Manuela e Augusto iam regressar a Paúle na manhã seguinte, foram os primeiros a recolherem ao seu quarto. Logo a seguir, eu também fui, principalmente, para não obrigar os meus pais a ficarem ali a fazer-me companhia, pois sabia que gostavam de se deitar cedo. Contudo, só depois de terem total certeza de que não me faltava nada é que eles se foram deitar.

Permaneci deitado na cama com o telemóvel na mão, aguardando que Susana telefonasse. Olhava para as sombras na parede, projectadas pelo candeeiro e pensava na vida. Estava tudo silencioso, não se ouvindo nada. Subitamente, comecei a ouvir um colchão a ranger. Rapidamente, percebi que o som vinha do quarto ao lado, onde estavam Manuela e Augusto. Desconfiado, levantei-me da cama e encostei o ouvido à parede para “cuscar”. Discerni alguns gemidos misturados. Nunca perdera tempo a imaginar como seriam eles na intimidade, mas a oportunidade deixou-me curioso. Ouvi Augusto dizer:

─ Está a... ah, ah... ser bom, amorzinho?

A resposta surgiu num gemido mais pronunciado, levando-me a calcular que sim.

─ Oh, amorzinho... Estou quase a vir-me... ─ avisou ele.

─ Não te atrevas, Gugu... ─ ameaçou ela. ─ Oh, sim... mais... mais...

O som dos saltos sobre o colchão intensificou-se. Os gemidos também, parecendo um grunhido selvagem. De repente pararam. Senti que um deles saltara da cama e embatera com os pés no chão.

No seu tom autoritário, ouvi a minha irmã dizer:

─ Vá, Gugu! Isso. Na minha cara.

─ Ohhhhhhhhhhhh. ─ gemeu por fim, Augusto.

Ena, pensei. Não te imaginava com essa pancada, maninha.

Nesse instante, o telemóvel tocou, surpreendendo-me a risada silenciosa e ecoando com estridência. Agarrei-o e atendi-o o mais depressa que pude.

─ Tou?

─ Ivan!

─ Olá, Susana! ─ Senti um alivio no coração, ao ouvir a sua voz. ─ Estava a pensar que te tinhas esquecido de mim.

Susana sorriu carinhosamente e explicou:

─ Não pude telefonar mais cedo. Estive a trabalhar até tarde. Só há pouco cheguei a casa. Ainda nem jantei.

─ Então devias ir comer. ─ retorqui. ─ Não podes ficar fraquinha. Tens de dar de comer ao nosso menino.

─ Adoro quando falas no bebé. ─ confessou.

A sua voz era suave e ligeiramente rouca. Falava com ternura e eu tentava dar ao meu tom de voz, algo semelhante.

─ Como é que te sentes? ─ perguntou.

─ Mais ou menos. ─ respondi. ─ O que custa mais é este trambolho à volta da perna.

─ Não deve ser fácil, andar com esse gesso todo.

Por momentos, parecia que não sabíamos o que dizer um ao outro. Ouvíamos a respiração um do outro, mas as palavras não saiam.

─ Tenho saudades tuas. ─ acabei por dizer. ─ Quando é que vens ter comigo?

─ Vou ficar cá até depois de amanhã. ─ informou. ─ Eles pediram-me para ficar até vir a substituta. Se tudo correr como o planeado, espero estar a apanhar o comboio para Lisboa, ao fim da tarde desse dia.

─ Vai ficar alguém a substituir-te, enquanto vens a Lisboa? ─ indaguei.

─ Não, parvinho! Vai substituir-me porque eu pedi demissão. ─ relatou. ─ Estou a pensar ir para junto de ti, definitivamente, caso ainda me queiras perto de ti.

─ Se quero, amor? É o que eu mais quero!

 

Acho que dois dias nunca custaram tanto a passar, tal era a ansiedade pela chegada de Susana. E quando se tem que passar o dia em casa, deitado a ver televisão, as horas parecem ficar paradas. Ainda para mais, a casa ficara mais vazia com a partida da minha irmã e do meu cunhado.

Ao fim da tarde, via o noticiário na televisão com o meu pai, sentado no sofá da sala com a perna engessada sobre um banco e as muletas ao lado. Andava sempre vestido de calças com uma das pernas cortadas até à altura do gesso, pois era impossível vesti-las por cima daquilo.

Foi nesse momento, em que via as notícias e ouvia os comentários do meu pai sobre elas, que o meu telemóvel tocou.

─ Olá, amor! ─ cumprimentou Susana, assim que atendi.

─ Já chegaste? ─ perguntei expectante.

Susana sorriu com a minha ansiedade e respondeu:

─ Não. Estou em Campanhã. Acabei de comprar o bilhete e estou à espera do comboio.

─ Falta muito para ele chegar?

─ Estou a olhar para o painel com os horários. Diz ali que faltam dez minutos. ─ informou com a voz trémula, denotando que estava a andar enquanto falava comigo. ─ Vou desligar. Assim que chegar a Lisboa, telefono-te.

A viagem demoraria cerca de três horas e meia, pelo que calculei que Susana nunca chegaria a Lisboa, antes da meia-noite.

Os meus pais bem tentaram, mas não conseguiram aguentar acordados pela hora de chegada de Susana. Gostavam muito dela e queriam estar presentes para a receber. Mas, o sono não esteve de acordo com eles. Quando se despediram de mim, repetiram-me várias vezes para que lhe pedisse desculpa por isso.

Sozinho, ali fiquei na sala a ver televisão, esperando ansioso.

Faltavam vinte minutos para hora a que julgara que o comboio chegaria, quando Susana me telefonou.

─ Estou na Estação Oriente. ─ informou-me. ─ Acabei de chegar.

─ Vê-se muita gente, por aí? ─ indaguei preocupado com a sua segurança.

─ Quase ninguém. ─ respondeu.

─ Tem cuidado. É perigoso andar por aí sozinha. ─ alertei.

─ Não te preocupes. ─ retorquiu. ─ Já sou uma menina crescida. ─ Deu umas risadas, deliciada com a minha preocupação por si. ─ Vou descer e ver se há táxis lá em baixo.

─ Mantém-te em linha! ─ pedi. ─ Fico mais descansado se estiver a ouvir-te.

─ Porquê tanta preocupação?

─ Desculpa ser assim, mas tu és demasiado preciosa para mim.

─ Oh, amor... ─ suspirou. ─ Sabes que cada vez te amo mais?

─ Eu também te amo.

Susana parou um pouco de falar para respirar convenientemente, enquanto andava. Ouvia os seus passos e o ecoar dos ruídos no interior da ampla estação. Repeti-lhe a morada para que ela não tivesse dúvidas. Susana ia descrevendo os sítios por onde passava. Descera as escadas da estação ferroviária para o piso térreo da Estação Oriente. Seguidamente, caminhou na direcção da zona de camionagem, onde existia uma praça de táxis. Constatou que havia lá alguns e apressou-se a alcançá-los. Depois, abriu a porta do táxi, despediu-se de mim e desligou.

Não consegui ficar ali sentado à espera. Peguei nas chaves de casa e desci as escadas, vagarosamente, para a ir esperar ao patamar do edifício. Movimentando-me com a ajuda das muletas e apoiado no corrimão, demorei tanto tempo a chegar lá abaixo que perto da porta, vi Susana a segurar a bagagem e a caminhar pelo terreno até ao edifício.

Abri a porta da rua e esperei-a. Susana subiu os degraus até ao pequeno pátio, em frente ao prédio, e só parou junto a mim. Largou as malas no chão e abraçou-me.

Tive receio de largar as muletas para a abraçar, mas encostei-me a ela, recebendo o seu abraço e demonstrando-lhe como gostava que ela ali estivesse.

─ Queres ajuda? ─ ofereci, depois de a beijar.

Susana sorriu-me, mas declinou a oferta, dizendo:

─ Estás maluco, Ivan? Achas que podes com isto, assim nesse estado?

Pela forma como vinha vestida, concluí que fora do emprego directamente para a estação. Envergava mais um dos seus característicos fatos saia-casaco. Organizada como era, Susana planeou tudo ao pormenor na forma como se demitira sem causar prejuízos à empresa. Desde que se mudara para o Porto, Susana vivia numa residencial e procurava um pequeno apartamento para viver. Nessa manhã, saíra pela última vez da residencial, levando a bagagem para o emprego, de forma a não perder tempo para partir.

Ao fim dos dez minutos, tempo que um tipo de muletas leva a subir ao terceiro andar num prédio sem elevador, Susana e eu entrámos em casa.

─ Os meus pais pedem desculpa por terem ido dormir.

─ Não tem importância. ─ desvalorizou, deixando as malas no hall.

A casa estava toda silenciosa. Caminhei com o apoio das muletas, mostrando o caminho até à sala a Susana que me seguia. Convidei-a a sentar-se no sofá, o que ela agradeceu de bom gosto, pois estava algo cansada. Sentou-se, cruzou as pernas e segurou-me nas muletas, enquanto me sentava a seu lado. Tinha vontade de namorar um pouco com ela, por isso, sentei-me bem próximo de si.

Comecei a beijá-la, mas senti-a algo receosa, apesar de retribuir.

─ Algum problema? ─ perguntei.

Susana manteve o olhar na televisão e respondeu:

─ Desculpa, Ivan! Mas, ainda me sinto insegura perto de ti. Sei que é injusto, mas não consigo perder o medo de que mudes de atitude, comigo.

─ Eu compreendo. ─ disse eu. ─ Afinal, fui eu que te transmiti esses receios.

Susana ofereceu-me o seu belo sorriso e agarrou-me a mão, apertando-a com ternura.

─ Estou cansada, Ivan!

─ Se quiseres, podes ficar no quarto da minha irmã. ─ ofereci, tal como me haviam sugerido os meus pais. ─ Eu preferia que dormisses comigo. Mas, a minha cama é pequena.

─ E se ficarmos bem agarradinhos? ─ sugeriu Susana com um olhar malicioso.

─ Anda! Vamos experimentar.

Susana foi buscar as suas malas e seguiu-me até ao meu quarto. Andávamos cuidadosamente para não fazermos barulho. Entrei no quarto e acendi a luz.

─ Não é assim tão pequena. ─ referiu Susana num tom gozão. ─ Podemos dormir um em cima do outro.

─ Se quiseres o outro quarto...

─ Não, tontinho! Estou a brincar contigo.

Deixei Susana à vontade para se instalar, ficando sentado na cama, encostado à cabeceira e com as pernas esticadas sobre o colchão. Observei os movimentos dela, deliciado por a ter novamente junto de mim.

Não querendo demorar muito tempo, ela retirou da mala só alguma roupa e os objectos mais pessoais, guardando-os por onde achou melhor. Basicamente, algo semelhante ao que fizera quando a levei para a minha casa em Paúle. Logo que terminou, sentou-se na cama, junto às minhas pernas, e passou a mão pelo gesso.

─ É incómodo, não é?

Assenti com a cabeça.

Num gesto natural, levei a minha mão até às suas pernas, começando a tacteá-las suavemente e entrando ligeiramente abaixo da saia.

─ Tenho uma coisa para te mostrar. ─ disse ela. Despiu o casaco, puxou a camisa para fora da saia e começou a desapertar os botões, abrindo-a desde a cintura até abaixo do peito. ─ Já viste? Ainda não tinhas visto a minha barriga de grávida.

─ Continuas com uma barriga linda! ─ afirmei.

─ Estou para ver se ainda dizes isso, quando estiver com um barrigão enorme.

─ Tenho a certeza que continuarás linda.

─ És um amor.

Retirei a mão das pernas dela e acariciei a barriga.

─ Já dá para sentir? ─ interroguei.

─ Não. Só a partir do quarto ou quinto mês é que se consegue sentir os movimentos do bebé.

Fiz mais umas festas na barriga, olhando-a nos olhos, sugestionando-lhe o que me ia na mente.

─ Não me queres mostrar mais nada? ─ questionei.

Susana sorriu-me com paixão e perguntou:

─ Que queres que te mostre?

─ Não sei... ─ disse, olhando-lhe para o peito.

Susana desapertou os restantes botões e abriu o resto da camisa. Revelou-me o soutien branco que lhe apertava os seios, dando-lhe o ar ainda mais apelativo. Deixou que a minha mão subisse da barriga, mas travou-a antes de tocar no tecido.

─ Onde é a ida? ─ interrogou como se não quisesse que a tocasse. ─ Ainda não disse que podias mexer.

Adorava aquele jogo de quero-não-quero. Voltei a pôr a mão nas suas pernas, entrando pela saia junto às coxas.

─ Assim não dá para ver. ─ disse-lhe.

─ Quem disse que eu os queria mostrar?

─ Não queres? ─ inquiri, tocando-a entre as pernas, provocando-lhe um arrepio.

As suas mãos investiram ao encontro da minha, travando-me o início das carícias que pensava fazer-lhe.

─ Espera, Ivan!

─ Que foi? ─ surpreendi-me, retirando a mão. ─ Não queres?

─ Não é não querer, Ivan. ─ explicou. ─ Estou cansada. Foi um dia estafante. Desculpas-me?

Abanei a cabeça afirmativamente, encolhendo os ombros, obrigado a refrear o ânimo. Porém, no interior dos meus calções, algo se revelara pouco interessado na recusa. Susana olhou para lá e sorriu.

─ Ficaste de “pau feito”. ─ constatou, passando a mão na minha perna sem se aproximar dele. ─ Já não o “alimentas” há muito tempo?

─ Não gozes. ─ pedi.

─ Agora, a sério. ─ insistiu num tom menos brincalhão. ─ Desde quando é que...

─ Ainda vivíamos juntos! ─ atalhei.

─ Bolas... ─ espantou-se.

A sua mão continuava ali com vontade de o agarrar. Lançou-me um sensual olhar de libido aceso. ─ Queres uma mamada? Estou cansada, mas aguento um broche! Queres?

Só a forma como falava, usando aqueles termos de calão, deixavam-me imensamente excitado. Fiz que sim com a cabeça e Susana acelerou o movimento da mão para o interior dos calções, puxando-me o membro para o exterior. Acariciou-o por uns momentos e debruçou-se abrindo a boca, mas foi travada por mim.

─ Então? ─ perguntou.

─ Gostava que tirasses o soutien. ─ sugeri. ─ Excita-me ver-te as mamas, enquanto me chupas.

Susana saltou para cima das minhas pernas, ajoelhando-se e colocando-as entre as suas. Despiu o soutien e convidou-me a tocar-lhe os seios. Seguidamente, puxou o cabelo para trás e baixou a cabeça sobre a erecção.

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