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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

DIA 25 DE DEZEMBRO 

CAPÍTULO IX

Logo que terminou o telefonema, Mário desligou o telemóvel e saiu da pequena divisão, onde trocara de roupa, procurando Joana. Quase tivera o seu “presente” no instante em que o telemóvel tocara. Olhou para o relógio e constatou que ficara a dialogar com o americano mais de meia hora. Onde estaria Joana?

Antes que pudesse decidir por qual dos lados deveria optar para a procurar, Joana apareceu ao fundo do corredor. Caminhava tranquilamente, acompanhada por algumas colegas que já vestiam os casacos para regressarem a casa. Mário aguardou que ela chegasse até ele, coisa que ela fez naturalmente, assim que o viu.

Todas as outras se despediram dela e completaram o trajecto pelo corredor até ao elevador. Joana parou em frente a Mário.

─ Peço desculpa pela interrupção. ─ pediu ele, lamentando o surgimento da chamada.

─ Não tem importância. Até calhou bem porque as minhas colegas já me esperavam para deitar as crianças.

─ Falávamos de... ─ tentou recordar Mário, de forma a levar Joana e falar no quase beijo.

─ Não me recordo. ─ atalhou ela. ─ De que falávamos?

─ Com esta história do telefonema, já nem me recordo. ─ disse ele, não querendo dar valor ao que ela parecia desvalorizar. ─ Que vai fazer agora?

─ Vou ficar por aqui. Estou à espera de notícias da Marisa.

─ Marisa?

─ Sim. A jovem que encontrámos que estava grávida.

─ A drog...

Mário travou a tempo, mas ainda viu o olhar condenatório ao seu preconceito.

─ A rapariga não é nenhuma drogada! ─ afirmou Joana, um pouco irritada.

─ Tem razão! Desculpe!

─ Peça-lhe desculpa a ela, não a mim! ─ contrapôs Joana. ─ Afinal, é a ela que está a ofender.

─ Não tem noticias novas dela? ─ indagou Mário, mostrando-se preocupado com o assunto para debelar a irritação dela.

─ Está em trabalho de parto.

─ Joana! ─ chamou uma voz na extremidade do corredor, perto do elevador. ─ Anda! A rapariga vai dar à luz.

Os dois seguiram a enfermeira para o elevador.

Joana foi autorizada a presenciar o nascimento na sala de partos, enquanto Mário foi mandado para a sala de espera no piso térreo. Logo que lá chegou, encontrou Alfredo apreensivo e ansioso por notícias.

─ Eih! Já sabes, preto Alfredo? ─ chamou Mário a atenção de Alfredo, usando a expressão em jeito de brincadeira.

Alfredo olhou-o com aborrecimento, farto que lhe chamassem preto.

─ Que foi?

─ A tua amiga vai dar à luz!

A ansiedade de Alfredo aumentou. Até parecia que era o pai da criança, andando de um lado para o outro, observando todas as movimentações e esperando que alguém lhe desse alguma novidade.
 

Só quando despertou do sono é que Ludmila se deu conta que adormecera na casa da senhora idosa. Ficara a conversar com Maria da Glória noite dentro, ouvindo as suas recordações e fazendo-a ter prazer em lhas contar. Era uma pessoa com muitas memórias, sedenta de ter com quem conversar e relatar os episódios da sua vida. Pode parecer ridiculo a muita gente, mas naquela noite, o melhor prenda da octagenária foi ter a companhia de Ludmila e o seu ouvido atento. Só que o cansaço de muitas horas de trabalho no INEM começaram a fazer efeito. E por muito que se esforçasse por aguentar, Ludmila adormeceu a meio de uma das histórias.

Acordou coberta por um cobertor quente para que não tivesse frio, enquanto descansava. Que senhora atenciosa, pensou, preocupando-se consigo e deixando-a descansar ali. Penetenciava-se pela indelicadeza de ter adormecido ao ouvi-la.

Ao olhar para a outra poltrona, viu que Maria da Glória também adormecera na poltrona. Num movimento contínuo, Ludmila levantou-se e aproximou-se da senhora. Tocou-lhe no ombro e disse:

─ D. Maria da Glória! É melhor eu ir andando. E senhora deve ir para a cama. Não lhe faz bem nenhum dormir aí no sofá.

Maria da Glória permaneceu quieta. O seu rosto tinha um semblante tranquilo e um leve sorriso como quem adormecera feliz.

─ D. Maria da Glória! ─ tornou a chamar, tocando-lhe a mão. Surpreendeu-se com a pele fria. ─ D. Maria da Glória?

Como se adivinhasse a resposta, levou os dedos ao pescoço da idosa, procurando a sua pulsação. Nada. Não sentiu nada. Ludmila ficou sem reacção perante aquele rosto alegremente adormecido. Não conseguiu conter as lágrimas pela sua partida. Fora uma morte tranquila e sossegada. Não sentira nada, certamente. E nem acordada Ludmila lhe poderia ter valido. Olhou para o seu rosto e pensou que, para onde quer que fosse que a morte a tivesse levado, iria encontrar o seu companheiro de toda a vida, o seu marido Germano.
 

A noite estava terrivelmente fria e húmida, apesar de a chuva não ter voltado a aparecer. Mário, para passar o tempo, veio para a rua, junto à entrada, e foi fumar um cigarro. Conseguira conter-se muito tempo, mas já sentia a falta do fumo a circular pelo corpo.

─ Pode arranjar-me um? ─ pediu Alfredo, acercando-se dele. ─ Isto está a deixar-me nervoso.

Mário estendeu-lhe o maço, deixando que o mendigo retirasse um cigarro.

─ Se quiseres mais, tira! ─ ofereceu Mário.

─ Não, obrigado! Este chega.

─ Isso é tudo nervos? ─ interrogou Mário, observando a forma como ele tremia.

─ Nervos e frio. ─ respondeu Alfredo.

O diálogo foi interrompido pela chegada de um luxuoso Mercedes preto que quase parecia uma limusine. O motorista parou à porta da maternidade e apressou-se a sair do carro para abrir as portas traseiras aos patrões.

─ Ainda dizem que eu sou rico. ─ soltou Mário, olhando para o casal que saia do interior do carro.

Um homem e uma mulher, já na casa dos cinquenta, afastaram-se do carro e entraram no edificio. Caminhavam com altivez e arrogância, olhando para todos de cima para baixo. Aproximaram-se da recepção e perguntaram por uma rapariga chamada Marisa que estaria ali em trabalho de parto. Quando lhes pediram a identificação, Mário e Alfredo ficaram a saber que eles eram os pais de Marisa.

Farejando o cheiro a dinheiro, o recepcionista apresentou-se muito prestativo, segurando imediatamente o telefone e procurando novidades com alguém do piso de partos. Soube que a rapariga estava a um passo de dar à luz e convidou o casal a subir até lá.

Apesar da enorme preocupação com a filha, os procedimentos todos necessários efectuar a quem quer estar numa sala de parto, pareceram muito incomodativos ao casal que optou por aguardar no exterior do piso de partos, ficando junto às escadas. Nem por um instante abandonaram a postura arrogante.

Lá dentro, Joana auxiliava a jovem Marisa, apoiando-a e transmitindo-lhe confiança. Também a parteira lhe atirava indicações de segundo a segundo, fosse para respirar, fosse para fazer força. Ao fim de alguns minutos de entrar na sala de partos, Marisa deu á luz um belo rapazinho saudável.
 

Não foi dificil para Jacinto adivinhar o que trazia o agente Hélder até ali, abeirando-se da cela de Sandrine.

─ Algum problema, senhor guarda? ─ indagou Jacinto.

O agente abanou afirmativamente a cabeça e informou:

─ O meu turno está a chegar ao fim. Falei com o colega que me vem render, mas ele não assume a responsabilidade da sua presença aqui. Por isso, lamento, mas tenho que lhe pedir para sair.

─ Compreendo. ─ disse Jacinto. ─ Dê-me só uns minutos.

─ Claro. ─ concordou o policia. ─ Fico à sua espera lá fora.

E com aquelas palavras, refez o caminho de volta, saindo pela porta de acesso aos calabouços.

─ Parece que é o fim da nossa noite de Natal. ─ constatou Jacinto.

─ Parece que sim. ─ repetiu Sandrine. ─ Agradeço-te muito a companhia que me fizeste este tempo todo.

─ Não agradeças! Foi um prazer. ─ Lançou-lhe um sorriso terno. ─ Assim que puder, voltarei para te ver. Vou também telefonar a um advogado, meu amigo, para ver se ele toma conta do caso. E...

─ E vê se dormes! ─ lembrou ela. ─ Estás com cara de quem precisa de descansar.

─ Olha quem fala.

─ Eu também farei um esforço para dormir.

Por instantes, ficaram a olhar um para o outro sem a minima vontade de se separarem.

─ É melhor ir. ─ disse, por fim, Jacinto. ─ Ainda me vêm cá buscar. Posso dar-te um beijo?

─ É obvio que sim. ─ concordou.

─ Podes aproximar o rosto das grades para te dar um beijo na face? ─ sugeriu ele.

Sandrine encostou a cara entre duas grades, encostando-se completamente a elas.

─ Tu mereces mais que isso, Jacinto! ─ afirmou ela. ─ Leva o sabor dos meus lábios.

Jacinto aproximou-se e beijou-lhe a boca com ternura.

─ Parecias uma obra de Shakespeare. ─ disse Jacinto com humor.

─ Eu sei. ─ concordou Sandrine.

─ Jamais te abandonarei! ─ prometeu ele.

Jacinto guardou todos os desperdicios que aglomerara ali ao jantar e levou-os consigo. Atirou mais um beijo a Sandrine e abandonou o local. Passando pela entrada, voltou a agradecer ao agente Hélder. Finalmente, saiu para a rua e enfrentou a noite deserta, rumando a sua casa.
 

Na sala de espera da maternidade, Alfredo e Mário aguardavam sentados nas cadeiras que se perfilavam, lado a lado, ao longo das paredes. Inconsciêntemente, acabaram por andar perto um do outro, ora falando, ora ficando calados.

A certa altura, um funcionário do hospital entrou na sala e perguntou:

─ Procuro um mendigo chamado Alfredo, quem é?

Alfredo levantou-se da cadeira e denunciou-se.

─ Ó preto! Parece que te querem lá em cima. ─ disse o individuo com maus modos, amesquinhando o pobre homem.

─ Oiça lá! ─ insurgiu-se Mário. ─ Isso são maneiras de falar?

O funcionário espantou-se com aquele homem bem vestido, denotando ser bastante rico, indignar-se consigo. Espantado, também ficou Alfredo que não contava com aquela atitude.

─ Peço desculpa... ─ gaguejou o funcionário.

─ Que raio de modos! ─ afirmou Mário. ─ Veja se vai aprender a falar com as pessoas! Ou acha que só porque se é pobre, não se tem dignidade?

─ Não é isso. ─ tentava desculpar-se o homem. ─ É que...

─ É que nada. ─ atalhou.

Alfredo olhou para Mário e fez-lhe sinal que não era necessário fustigar mais o pobre individuo.

─ Tudo bem. ─ disse Mário a Alfredo. ─ Mas, fico lixado com estas merdas.

O funcionário aproveitou a oportunidade para desaparecer por uma porta.

─ Você não pára de me surpreender. ─ constatou Alfredo. ─ Se bem se recorda, você também falou assim comigo, hoje... ou melhor, ontem à tarde.

─ Eu? ─ questionou Mário.

─ Deixe lá. ─ desvalorizou Alfredo. ─ Vou lá cima ver o que me querem. E obrigado pela sua indignação!

Passando a porta da sala de espera, seguindo para o acesso ao elevador, Alfredo encontrou novamente o funcionário. Este mal o conseguia encarar.

─ Peço-lhe desculpa pela minha maneira de falar! ─ pediu o individuo.

─ Deixe lá isso. ─ desculpou Alfredo.

─ Pediram-me para que o levasse lá cima. ─ relatou o funcionário. ─ Parece que a jovem Marisa quer falar consigo.

Alfredo seguiu o homem até ao elevador. Ao chegarem junto às portas metálicas, estas abriram e por elas saiu Joana. Passou por Alfredo, meia apressada, atirando-lhe um:

─ É um menino!

Alfredo sorriu e entrou no elevador com o outro.

Joana caminhou pelo corredor, duvidando que Mário ainda estivesse por ali, após tanto tempo de espera. Sentia que ele despertava algo em si, algo que quisera esquecer durante muito tempo, mas que ele a fizera recordar. Estava a fazê-la sentir-se viva, ansiosa, nervosa perante ele e seduzida. Talvez ele já tivesse ido embora, deixando aquele dia como única recordação de se terem visto na vida. O seu coração começou a bater descompassadamente, quando constatou que ele permanecia à sua espera.

─ Então? ─ perguntou Mário a Joana. ─ Já nasceu?

Joana lançou-lhe um sorriso carinhoso e quente, respondendo:

─ Sim. É um menino.

Mário sorriu, sentindo-se feliz com a felicidade que ela lhe transmitia.

─ Que vai fazer agora? Ainda vai ficar por cá?

─ Não. Vou para casa.

─ Vive longe?

─ Em Fernão Ferro.

─ Posso levá-la...

─ Não vale a pena. ─ cortou Joana, ansiando por que ele insistisse.

Foi o que ele fez, argumentando:

─ Já é muito tarde. Dê-me o prazer de a acompanhar a casa.

De facto, Joana ainda demoraria muito tempo para chegar a casa. Teria de ir para a paragem esperar que houvesse autocarros, algo dificil na madrugada de Natal. Se conseguisse transporte até ao comboio, teria nova espera relativamente ao que partiria para a Margem Sul. E, por fim, teria de percorrer o trajecto de autocarro, desde a estação até casa. Claro que perante um cenário destes, a boleia era tentadora. Porém, não era só a boleia que a tentava, era também a companhia de Mário.

─ Se não se importar, agradeço-lhe a sua oferta. ─ disse Joana.

─ Não me importo nada! Vamos.

Mário e Joana sairam do edificio da Maternidade do Hospital de Santa Maria e caminharam pela noite fria até ao parque de estacionamento, do outro lado da avenida, onde ficara o carro dele, estacionado alguns metros mais abaixo. Cavalheirescamente, Mário abriu-lhe a porta do carro, fechando-a logo que ela entrou. Seguidamente, contornou o carro e entrou para o seu lugar.

Mal ligou a ignição o ar-condicionado automático do Audi A3 encarregou-se de fazer com que o interior aquecesse. Antes de partir, Mário olhou para Joana.

─ Sei que já é tarde, mas... ─ começou por dizer. ─ Gostava de a convidar para tomar um copo!

Joana olhou para o relógio e repetiu:

─ Já é tarde!

─ Eu insisto. Afinal, amanhã é feriado.

─ Hoje.

─ Sim, hoje.

Joana acabou por aceder ao convite, o qual assentava lindamente nos seus desejos inconsciêntes de se manter perto dele.
 

Quando Alfredo chegou ao piso dos partos, teve de bater à porta para que alguém o deixasse entrar. Poucos instantes depois de dar duas pancadinhas na porta, uma enfermeira abriu-a e deparou-se com ele. O seu rosto denotava um enorme espanto, como se a presença de Alfredo ali fosse a coisa mais estranha do Universo.

─ Que deseja? ─ perguntou numa postura ofensiva. ─ Não sei como conseguiu passar pela segurança, mas aviso-o já que não damos esmolas. Que descaramento, vir pedir dinheiro à porta de uma zona de partos.

─ Não é nada disso. ─ negou Alfredo num tom calmo. ─ Avisaram-me lá em baixo para subir. Vim ver uma rapariga chamada Marisa.

─ Não está cá nenhuma Marisa. Vá-se embora, antes que eu chame um segurança.

E fechou-lhe a porta da cara.

Por momentos, Alfredo ficou sem saber muito bem o que fazer, perdido por zonas que não conhecia. Talvez o melhor fosse mesmo ir embora, antes que que criasse mais problemas para si. Caminhou até ao elevador e carregou no botão para chamar o ascensor. Contudo, este parecia parado num piso superior e sem intensões de descer. Alfredo acabou por descer pelas escadas.

Assim que desceu o primeiro andar, reparou no letreiro por cima da porta desse piso, o qual dizia “Berçário”. Será que Marisa já teria sido transferida para ali? Foi a questão que surgiu na sua mente. Como a porta estava entreaberta, decidiu espreitar. Encontrou um pequeno hall e uma segunda porta, completamente aberta, que dava acesso a um corredor onde se localizavam os quartos.

Antes que tivesse qualquer reacção, apareceu o segurança daquela zona.

─ Eih! Quem és tu? Que fazes aqui? Andas a roubar, drogado de merda? ─ perguntava o homem caminhando para ele e não se apercebendo como estava a falar alto.

Alfredo levantou os braços em sinal de rendição e disse:

─ Não! Procuro uma jovem chamada Marisa.

─ Põe-te andar daqui, antes que te dê uma sova, mendigo do car...

Nesse instante, ouviu-se uma voz vinda do corredor:

─ Que se passa aqui?

O segurança olhou para trás e disse:

─ Temos um gatuno nas instalações!

Alfredo olhou para o homem e este não lhe pareceu estranho, apesar de não o reconhecer. E o outro olhou para ele, algo curioso.

─ Como se chama? ─ perguntou o homem de vestes aprumadas e ar de rico.

─ Alfredo!

Alterando o seu semblante para um ar mais simpático e acolhedor, o homem constatou:

─ Então é você, o mendigo que ajudou a minha filha.

Alfredo recordou-se então que vira aquele homem chegar à maternidade num carro luxuoso, acompanhado por uma senhora. Meio espantado por este se lhe dirigir como se o conhecesse, Alfredo viu-o dizer ao segurança para que o deixasse entrar.

─ Não são permitidas visitas! ─ cortou friamente o segurança.

─ Quer que telefone, a esta hora, para o director do hospital, para ele o mandar deixar entrar? ─ perguntou o homem em tom ameaçador.

O segurança afastou-se e deixou Alfredo passar.

─ Venha! ─ chamou o pai de Marisa. ─ Venha vê-la.

Sem saber muito bem o que fazer, Alfredo seguiu o trajecto do homem até ao quarto onde estava Marisa. Habituado como estava à forma como as pessoas o tratavam, temia qualquer surpresa pouco agradável. Que estaria a planear fazer com ele? Que humilhação o iriam fazer passar? Aquelas pessoas ricaças desprezavam pessoas como Alfredo.

Ao entrar, viu a senhora que calculou ser a esposa do homem. Seguidamente, olhou para o lado e viu Marisa deitada na cama a sorrir-lhe, enquanto segurava o bebé.

─ Boa noite! ─ disse Alfredo timidamente.

A mãe de Marisa aproximou-se dele e estendeu-lhe a mão.

─ Queriamos agradecer-lhe o que fez pela nossa filha. ─ disse ela.

Alfredo sentiu uma mão no seu ombro e ouviu o pai de Marisa dizer:

─ A nossa filha contou-nos como a ajudou. E como se manteve junto dela. Tentámos saber se ainda cá estava e, perante toda a sua espera, achámos que merecia conhecer o novo membro da nossa familia.

─ Obrigado por tudo! ─ agradeceu Marisa. ─ Quer pegar-lhe?

─ É melhor não! ─ recusou Alfredo. ─ Estou todo sujo. Tenho receio que lhe faça mal.

─ Terá oportunidade para o fazer. ─ lembrou o pai dela.

Alfredo sorriu, apesar de não perceber muito bem o que ele queria dizer com isso.

─ Bom, temos de ir andando. ─ disse o homem. ─ Quer que o deixe em casa?

Alfredo sorriu ironicamente e respondeu:

─ Não, obrigado!

─ Algum sitio para onde vá? ─ insistiu o homem.

─ Eu desenrasco-me. ─ tornou a recusar. ─ Mas, obrigado, à mesma.

O homem ficou a olhá-lo com ar sério e indagou:

─ Você não tem casa, pois não?

Alfredo encolheu os ombros, mas não disse nada.

─ Venha, amigo! ─ convidou o homem. ─ Dê-me a honra de o ter em nossa casa, por uns tempos. Calculo que já não saiba o que é dormir uma boa noite de sono. Venha! É o minimo que podemos fazer por si.

O convite era tentador, mas Alfredo temia sempre as segundas intensões ou o dia seguinte, o momento em que despertasse para a realidade. Preferiu dizer:

─ Não fiz nada de mais, senhor! Não me devem nada! Fiz o que qualquer pessoa faria.

─ Não, não fez! ─ contrariou o homem. ─ Pergunte à Marisa quantas pessoas passaram por ela, ontem de manhã! ─ Alfredo olhou para Marisa e o seu olhar respondia à pergunta. ─ Como vê, não fez o que qualquer um faria.

─ Mesmo assim...

─ Não tenha medo, amigo! ─ disse o pai de Marisa. ─ Por muito que toda a situação lhe pareça estranha, não receie nada de nós! Convidamo-lo de coração e braços abertos. É livre de não aceitar, claro.

As palavras e o tom do homem pareceram sinceros a Alfredo, o que o fez acabar por aceitar o convite.

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