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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

CAPÍTULO VIII

A chuva parara de cair subitamente, fazendo respirar de alivio quem tinha de andar pela cidade a velocidades vertiginosas para acudir a todos os pedidos de socorro.

Ludmila, sentada ao lado do condutor do carro da sua equipa, contatou isso mesmo.

─ Temos mais algum pedido? ─ perguntou ele.

─ Não. Vamos regressar ao INEM. ─ sugeriu Ludmila. ─ Pode ser que tenhamos a sorte de ser rendidos, finalmente.

E, de facto, foi o que sucedeu. Após muitas horas de actividade, a equipa recebeu a tão desejada rendição. Tanto ela como os restantes membros da equipa estavam estafados, a precisar de descanso.

Logo que trocou de roupa, saiu do vestiário e despediu-se do condutor do veículo, o único da sua equipa que ainda ali estava. Este ainda a convidou a passar o Natal com ele e com a sua familia, mas Ludmila recusou a oferta.

Assim que saiu para a rua, sentiu o ar frio soprar-lhe, atirando-lhe a humidade que pairava no ar. Abriu o seu bloco de notas e olhou para a folha onde apontara a morada da senhora idosa.

Não se via ninguém na rua, enquanto Ludmila caminhava pelo passeio cheio de poças de água por todo o lado. Olhava para os prédios e via um número incontável de luzes natalicias espalhadas um pouco por todos os apartamentos. Se não seria dificil adivinhar os momentos de alegria daquelas reuniões familiares em cada um deles, também não seria dificil constatar a tristeza e infelicidade dos que se perdiam na rua, encostados a uma qualquer parede, escondidos da chuva e do frio, completamente abandonados pela vida.

Não foram muitos os minutos que esperou na paragem até aparecer um autocarro que a levasse ao seu destino. Ia completamente vazio. Ludmila entrou e reparou no semblante aborrecido do motorista. Ninguém gosta de ter de trabalhar quando poderia estar com a sua familia a festejar o Natal.
 

Em Santa Maria o jantar estava muito animado. Era emocionante, até mesmo comovente, para as voluntárias, verem a alegria daquelas crianças. Todas elas tinham alguma maleita, umas mais graves que outras, mas todas com um grau de cuidado elevado ao ponto de terem de estar internados. Alguns tinham a sorte de ter a companhia dos seus pais ou outros familiares. Talvez só um dos rapazitos não se enquadrasse no lote de doentes, um pequenito que fora deixado nas Urgências, vitima de espancamento por parte do padrasto, havia cinco dias. Deixaram-no lá e nunca mais apareceu ninguém para o vir buscar, uma situação que começava a tornar-se frequente. Contudo, se a situação já era triste no dia a dia, naquela época de paz e amor, isso tornava-se ainda mais comovente. Felizmente, o rapazito sorria com a algazarra do salão repleto de crianças. Não deveria ficar por ali para além do princípio da semana seguinte, altura em que uma Assistente Social se encarregaria do seu destino.

Por mais estranho que pudesse parecer a quem o conhecia bem, Mário permanecia por ali, observando os movimentos de Joana como se só ela existisse ali. As suas roupas já haviam secado e nada justificava que ali continuasse, a não ser o seu fascinio por ela.

O salão encadiava luz por todo o lado, desde as luzes brancas no tecto até às muitas luzinhas de diversas cores que ora acendiam, ora apagavam. As voluntárias começaram a reunir as crianças e a distribui-las pelos seus lugares nas mesas. Joana viu Mário a observar tudo junto à porta e aproximou-se dele.

─ Ainda por aqui? ─ indagou. ─ Julguei que tivesse ido embora, assim que as suas roupas secaram.

─ Passei por aqui e não resisti a ficar a ver o vosso trabalho. ─ respondeu Mário com um olhar visivelmente tocado pela generosidade daquela mulheres. ─ Pode não acreditar, mas nunca julguei que houvesse pessoas assim.

─ Assim como?

─ Com tanta generosidade. ─ explicou ele. ─ Com tanto para dar sem nada receber.

─ Acha que não recebemos? ─ interrogou ela. ─ Já viu aqueles sorrisos? Quer melhor recompensa?

Mário sorriu e concordou com a cabeça.

─ Porque não nos faz companhia? ─ convidou Joana. ─ Venha! Junte-se a nós.

─ Não sei...

─ Vá lá! ─ insistiu ela. ─ Não lhe peço que tome conta dos miudos.

Nesse instante, uma colega de Joana saiu do salão e aproximou-se dela, dizendo:

─ Temos um problema!

─ Que se passa? ─ inquiriu Joana, preocupada.

─ Enganaram-se a mandar o fato de Pai Natal. ─ informou a outra. ─ É muito grande e não servirá a nenhuma de nós.

─ Que fazemos agora? ─ interrogou-se Joana. ─ Os miudos iam adorar ver um Pai Natal a distribuir as prendas.

Intrometendo-se no assunto, Mário interviu:

─ Se me servir, não me importo de fazer o papel.

Joana olhou-o espantada e encantada com a oferta.

─ Está a falar a sério?

─ Claro! ─ confirmou ele. ─ Não me custa nada e será uma forma de retribuir o convite para jantar.
 

Os prédios pareciam todos iguais a Ludmila, quando entrou na rua com o nome que escrevera no papel. E de noite com a fraca iluminação dos candeeiros, só mesmo o número da porta lhe daria a certeza de não se enganar.

A chuva dava sinais de querer voltar, lançando uma gota ou outra e carregando o céu com nuvens cinzentas. O chão estava muito fustigado pela água derramada durante todo o dia que enlameara passeios e estrada. Aquela era mais uma das zonas antigas de Lisboa, onde tudo estava de pé, apesar de ninguém saber explicar como, tal era o nivel de degradação e antiguidade dos prédios.

Quando Ludmila encontrou a porta do prédio, tocou no botão correspondente à casa de D. Maria da Glória, a idosa a quem prometera regressar, logo que terminasse o serviço. Tocou uma, duas e três vezes sem que ninguém atendesse. Tocou uma quarta e ouviu uma voz perguntar:

─ Quem é?

Ludmila olhou para cima e viu a senhora na janela, procurando vislumbrar quem lhe tocava à campainha com tanta insistência.

─ Sou eu, D. Maria da Glória! ─ exclamou Ludmila. ─ A médica do INEM.

A senhora retornou ao interior de sua casa.

Passados alguns segundos, um estalido fez abrir a porta da rua.

Ludmila entrou e procurou a luz da escada. Um pouco às apalpadelas, lá encontrou o interruptor na parede. Caminhou até às escadas e escalou-as até encontrar a senhora idosa à sua espera, junto da porta de casa.

─ D. Maria da Glória! Como está? ─ A senhora olhou-a pasmada. ─ Lembra-se de mim? Sou a Dra. Ludmila do INEM. Estive cá...

─ Sim, sim. Recordo-me perfeitamente.

─ Como lhe havia prometido, cá estou. ─ disse Ludmila. ─ Peço desculpa se a estou a incomodar.

─ Não incomoda nada. ─ apressou-se a idosa a dizer, visivelmente alegrada pela visita. ─ Entre! Estava a jantar.

Ludmila entrou na casa. O ambiente era escuro e silencioso, não havendo qualquer televisão ou rádio para animar. Apenas a luz da sala de estar estava acessa, deixando o resto da casa no mais completo negrume. E mesmo a luz da sala não era muito forte. Em cima de uma mesinha, uma chávena de chá e umas torradas, o jantar da D. Maria da Glória.

─ Quer comer alguma coisa? ─ ofereceu ela.

─ Não. Deixe estar, obrigado! ─ recusou Ludmila, percebendo que ela pouco teria para si própria, quanto mais para as visitas.

─ Também só tenho chá e torradas para oferecer. ─ lamentou-se. ─ Nada digno de uma ceia de Natal.

─ Não diga isso. ─ contrapôs Ludmila. ─ Eu já jantei.

─ Infelizmente, não há dinheiro para mais! Talvez quando receber a minha reforma, no princípio do mês, consiga comprar algumas coisinhas. ─ Reparou que Ludmila permanecia em pé. ─ Sente-se, doutora!

Ludmila sentou-se na poltrona velha ao lado daquela onde a idosa se sentara, tendo entre elas uma mesinha com o chá e as torradas.

─ Voltou a sentir falta de ar? ─ perguntou Ludmila.

A idosa encolheu os ombros como se isso não tivesse importância.

─ Não foi a doutora que disse que eu não tinha nada? ─ interrogou a idosa.

─ É verdade. ─ confirmou a médica. ─ Não lhe detectei qualquer problema respiratório. Foi mais um problema de solidão, não foi?

Novamente, a senhora encolheu os ombros, enquanto dava uma dentada na torrada. Mastigou um pouco, engoliu e disse:

─ Não tem sido fácil, desde a morte do Germano.

─ Germano era o seu marido?

─ Sim. ─ confirmou, puxando do lenço amarrotado, sentindo as lágrimas nos olhos. ─ Faleceu há uns meses.

─ Eu sei. A senhora contou-me, esta tarde.

─ Olhe à sua volta! ─ pediu a idosa, passando o olhar pela sala. ─ Já imaginou o que é passar os dias aqui sozinha, sem ninguém com quem falar, sem ninguém que queira saber de mim? Sinto que posso morrer e apodrecer aqui que ninguém daria pela minha falta.

─ Não diga isso. A sua familia...

─ Que familia? ─ interrogou ela, balbuciando. ─ A minha familia era o Germano. Nem os meus filhos se preocupam em saber como estou.

Ludmila não tinha argumentos para que ela se pudesse sentir melhor. Tocou com a mão no seu braço e disse:

─ Eu preocupo-me com a senhora! Como viu, vim até cá para saber como estava.

─ A doutora é boa moça! ─ afirmou a outra. ─ Mas, não precisava de desperdiçar a sua Consoada com uma velha parva como eu.

─ Não fale assim de si, D. Maria da Glória! ─ pediu Ludmila. ─ A senhora é muito simpática. E é uma honra passar a Consoada consigo.

A idosa apertou a mão que Ludmila colocara no seu braço e sentiu-se reconfortada. Emocionada, não conteve as lágrimas por a ter ali.
 

A noite decorria quase sem se dar por o tempo passar, para Jacinto e Sandrine. Sentados com as grades pelo meio, ambos conversam fraternalmente, contando episódios das suas vidas.

Sandrine não conteve uma risada, dizendo:

─ Não acredito!

─ É verdade. ─ insistiu Jacinto. ─ Às vezes, não sei o que me passa pela cabeça e distraio-me com as coisas que vou para fazer.

─ Mas, daí a ir para a rua em pijama.

─ Sei que parece mentira, mas nesse dia, levantei com a ideia de ir tomar um banho. ─ relatou ele, deixando Sandrine hilariante. ─ Comecei a pensar no que tinha para fazer naquele dia e distrai-me. Dei comigo na escada do prédio, em pijama. Felizmente, não cheguei a ir para a rua.

Sandrine olháva-o encantada, sorrindo com a história e esquecendo por breves momentos a sua situação.

─ Deves achar-me ridiculo?! ─ concluiu Jacinto.

─ Não! ─ negou ela. ─ Pelo contrário. Acho-te uma pessoa maravilhosa.

─ Agora é a minha vez de dizer “que queres dizer com isso?”.

─ Exactamente isso! ─ exclamou ela. ─ Tens-te revelado uma enorme surpresa. Não que fizesse qualquer juizo de valores sobre ti, mas... Penso que se puder tirar algum ponto positivo disto tudo, é a possibilidade de te ter conhecido melhor.

─ Eu também gostava de te conhecer melhor. ─ confidenciou Jacinto.

─ Que queres saber? Já te contei algumas coisas sobre mim.

Jacinto respirou fundo e encarou-lhe o olhar.

─ Sei que talvez não seja a melhor altura...

─ Que se passa? ─ interrogou ela, notando-lhe a mudança na expressão do seu rosto.

─ Achas que se não tivesse acontecido tudo isto, haveria alguma hipotese de haver alguma coisa entre nós?

─ Alguma coisa como? ─ interrogou ela. ─ Sermos amigos?

Jacinto franziu o rosto, revelando que não se referia a isso, exactamente.

─ Não! ─ respondeu com distanciamento, como se recordasse o seu dia a dia na empresa onde ambos trabalharam. ─ A menos que alguma coisa nos aproximasse. ─ Olhou-o nos olhos e aproximou-se mais das grades. ─ Mas, penso que a tua pergunta não é bem essa. O que tu queres saber é se há alguma hipotese de haver alguma relação entre nós, para além da amizade, certo?

─ Já que falas nisso. ─ suspirou ele, disfarçando a sua ansiedade.

─ Vou prometer-te uma coisa! ─ disse ela. ─ Enquanto aqui estiver, só preciso de amizade. A tua tem sido uma ajuda preciosa. Se for condenada e ficar presa vários anos, compreenderei que te afastes de mim.

─ Nunca o faria.

─ Talvez o digas agora. Mas, não sei se aguentarias o desgaste desse apoio. ─ lembrou Sandrine. ─ Aquilo que te prometo, é que conversaremos acerca disso, nessa altura.
 

A cada minuto tornava-se mais dificil combater a ansiedade das crianças, desejosas de abrir os presentes de Natal. Não as fariam estar acordadas até à meia-noite para os abrir, nem as fariam ir para a cama com essa ansiedade. Por isso, cerca das 22h00, lá apareceu o Pai Natal com as prendas.

─ Oh! Oh! Oh! ─ fez-se ouvir o homem de fato vermelho, carregando alguns dos pacotes e dirigindo-se à Árvore de Natal. ─ Feliz Natal!

Se dissessem a Mário, nessa manhã, que ele estaria a fazer aquela figura, ele teria desancado o infeliz.

Perto da árvore, as voluntárias haviam arrumado todos os embrulhos, deixando alguns para o interior do saco do Pai Natal. Mário tinha alguma dificuldade em ver com a peruca branca e as barbas longas a incomodá-lo, mas esforçáva-se por desempenhar o papel o melhor possivel.

Duas colegas de Joana ajudavam Mário na distribuição dos embrulhos personalizados. Mário pegava num pacote e entregava-o a uma delas para que lessem o nome e chamassem o destinatário. Era gratificante ver os sorrisos das crianças a abrir as prendas.

Joana ficara com as restantes colegas ao fundo da sala. O seu olhar denunciava todo o deliciamento, olhando para Mário.

Uma por uma, todas as crianças receberam o seu presente.

Após abrirem as prendas, elas deixaram as crianças desfrutar algum tempo dos presentes. Mário abandonou a sala e seguiu para outra divisão com a finalidade de mudar de roupa. Sentia-se estranho, pois fora parte integrante de uma coisa que não gostava, o Natal. Será que não gostaria mesmo? Ou seria a sua defesa às recordações dos Natais da sua juventude, onde quase nunca havia presentes. Foram tempos dificeis, esses, onde mal havia dinheiro para ter o que comer.

Quando vestiu o casaco do seu fato, levou a mão ao bolso e pegou no telemóvel. Tinha umas cinco chamadas não atendidas, tudo clientes americanos que o contactavam muitas vezes para consultadoria.

─ Que se lixe! ─ exclamou para si. ─ Afinal, é Natal.

Ouviu-se um toque ligeiro na porta, alguém que pedia permissão para entrar.

─ Entre! ─ concedeu ele.

A porta abriu e por ela entrou Joana.

─ Vejo que já voltou ao normal. ─ disse ela, olhando para o seu ar aprumado.

─ Não sei. Não sei se voltarei ao que era, depois do dia de hoje.

─ Como assim? ─ interrogou Joana, curiosa.

─ Aconteceram muitas coisas, hoje. Foi um dia marcante.

Joana aproximou-se dele, tomando a liberdade de lhe compôr a gravata que ficara torta quando Mário vestira o casaco.

─ Foi muito simpático da sua parte, fazer de Pai Natal. ─ lembrou Joana.

─ Não foi nada de mais. ─ desvalorizou ele. ─ Simpático foi o seu convite para jantar. Aliás, deixe-me dizer-lhe que o jantar estava delicioso.

Inconscientemente, as mãos de Joana já compunham o colarinho de Mário, deixando o seu rosto muito perto do dele. Ela estava fascinada com aquele homem bonito que conhecera de forma tão singular, nessa manhã. Parecera-lhe um despota da pior espécie, mas veio a revelar-se um óptimo ser humano. Ela também não era indiferente a Mário e os seus rostos aproximaram-se intensionalmente na procura da boca um do outro.

Nesse instante, o telemóvel voltou a tocar.

─ Peço desculpa! ─ pediu Mário, pegando no telemóvel para atender a chamada.

Joana sorriu-lhe e abandonou aquela pequena sala. Quase cedera à tentação. E como se arrependeria disso... ou talvez não. Ainda ouviu Mário dizer:

─ Yes? Hello Mr. White Gray!

As suas colegas voluntárias aguardavam o seu regresso. E todas juntas, começaram a chamar as crianças e a conduzi-las para as suas camas no hospital, pois já estavamos muito perto da meia-noite.

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