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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

CAPÍTULO VII

Não é que aquilo fosse a sua vontade, mas acabara por aceder à sugestão de almoçar num restaurante, em vez de fazer uma refeição apressada na cantina do hospital. Mário convidara-a com tanta simpatia e cavalheirismo que Joana se dispôs a enfrentar o temporal, no conforto do Audi A3, no trajecto até ao restaurante mais próximo. O que ela não esperava era que Mário a fosse levar a um luxuoso restaurante.

O restaurante localizava-se na zona das Avenidas Novas, afastado dos grandes focos comerciais de compras de Natal, o que o tornava ideal para aquela tarde. Mário era um cliente habitual do estabelecimento, fazendo questão em o referir a Joana e chamando a atenção para o interior requintado do local.

Joana não se sentia nada à vontade naquele sítio. Vinha de meios humildes e sempre vira aqueles locais pelo lado de fora. Mário também vinha de familia humilde, mas logo que começou a ter dinheiro, a ostentação passou a fazer parte das suas caracteristicas.

O interior era composto por várias mesas em carvalho, tal como as cadeiras, tapadas com toalhas de linho bordado. Estavam todas decoradas com copos de cristal, talheres de prata e louças de fina porcelana, prontas a receber os clientes. As paredes eram cremes e tinham diversos apliques de luz espalhados estrategicamente. O tecto era branco e trabalhado com relevos artisticos, tendo dois enormes candeeiros com várias lâmpadas.

Os empregados trajavam todos com fardas elegantes e caminhavam com uma postura altiva, mas adoptando um ar serviçal, sempre que se dirigiam aos clientes. Um deles acercou-se de Mário e Joana, conduzindo-os a uma das mesas.

O salão estava praticamente vazio, pois a “hora de ponta” dos almoços já tinha ficado para trás. Mário optou por uma das mesas centrais, afastando-se janelas. Não que o ruido exterior chegasse lá dentro. Não havia um pormenor que tivesse escapado ao dono do espaço.

─ A lagosta é óptima! ─ sugeriu Mário, segurando o cardápio.

─ Não aprecio. ─ retorquiu Joana.

Mário olhou para ela e constatou:

─ Não me parece muito à vontade.

─ Não é o meu género de restaurante. ─ explicou Joana. ─ Talvez seja ideal para pessoas do seu estrato social, nascidas em familias ricas...

Mário soltou uma risada.

─ Disse algum disparate? ─ perguntou Joana com estranheza.

─ Não. Achei graça a “familias ricas”. ─ disse Mário. ─ Calculo que se espantaria se lhe dissesse que sou filho de pescadores.

Joana franziu o rosto e confessou:

─ Não digo que não acredite. Contudo, custa-me a crer.

─ E a Joana? ─ interrogou Mário. ─ Quais são as suas origens?

Um empregado aproximou-se da mesa e o assunto foi interrompido para que se fizesse o pedido dos pratos escolhidos. Mário avançou para a lagosta, tendo Joana optado por uma bela pescada cozida.

─ A minha familia é toda de Ponte da Barca, não sei se conhece...

─ Em Viana do Castelo, não é? Nunca lá fui, mas já ouvi falar.

─ A minha mãe ainda lá vive. ─ informou Joana. ─ Tenho pena de não poder ir lá passar o Natal. E os seus pais?

─ O meu pai morreu no mar e a minha mãe abandonou-me. ─ disse Mário com frieza e distanciamento, tornando o facto irrelevante como forma de defesa.

─ Lamento! ─ exclamou Joana, arrependida de falar no assunto. ─ Desculpe, não sabia...

─ Não tem importância. ─ contrapôs Mário, lançando uma sorriso afável. ─ Fui criado pelos meus avós.

─ Ainda são vivos?

─ São. ─ confirmou. ─ E ainda vivem na casa onde me criaram, em Sesimbra.

─ Não estão muito longe. ─ constatou Joana. ─ Vai poder ir passar o Natal com eles.

Mário encolheu os ombros, desvalorizando isso, mas não querendo dizer abertamente que não tinha intensões de o fazer.

O empregado voltou e trazia o almoço sobre um pequeno carrinho metálico com rodas, o qual estacionou junto da mesa e começou a servir a refeição.

─ Costuma vir cá muitas vezes? ─ indagou Joana, notando o à vontade de Mário.

─ Algumas. ─ respondeu ele. ─ Trabalho aqui perto, por isso, venho cá quando tenho almoços com clientes.

─ O que é que faz?

─ Sou corrector da Bolsa! Lido com investimentos mobiliários, fundos...

─ Já percebi. ─ atalhou Joana. Seguidamente saboreou um pouco do peixe. ─ Trabalha naquele edificio de onde saiu disparado, hoje de manhã?

─ Exactamente. ─ Olhou-a com desconfiança. ─ Não me diga que ainda está chateada com o que aconteceu?!

─ Não. ─ negou ela. ─ Não me costumo prender a essas coisas. Até porque ninguém se magoou.

─ Mesmo assim, peço-lhe desculpa pelo sucedido.

Foi a vez de Joana olhar com desconfiança. Onde quereria ele chegar com aquela postura afável e simpática? Aquele pedido de desculpa não combinava nada com o homem que se lhe deparara nessa manhã. Aquele homem mais preocupado com a chapa do seu carro que com o estado de saúde de Joana. Que quereria ele? Possivelmente, o que todos queriam.

─ E a Joana? O que é que faz?

─ Trabalho numa agência de publicidade.

─ É publicitária?

─ Não. Sou telefonista.

A chuva não parava de cair lá fora, vendo-se algumas pessoas a correr na rua para se escaparem ao temporal. Contudo, a intensidade da chuva diminuira temporariamente.

Findo o prato principal, Mário sugeriu uma sobremesa.

─ Não, obrigado. ─ recusou Joana. ─ Só quero um café. Tenho de voltar para o hospital.

Mário não insistiu e sinalizou ao empregado que trouxesse dois cafés.

─ É um trabalho temporário ou sempre quis ser telefonista?

─ É um emprego para pagar a renda da casa e as restantes despesas mensais. ─ explicou Joana. ─ Espero vir a conseguir formar-me em Medicina.

─ Está a estudar?

─ Sim. ─ confirmou. ─ Estudo à noite! Agora estou de férias, graças a Deus.

─ Isso tudo deve ocupar-lhe o tempo todo?! ─ interrogou-se Mário.

─ Isto e o voluntariado em Santa Maria.

O empregado colocou os dois cafés sobre a mesa, em frente a cada um deles.

─ E o seu namorado? Tem tempo para ele, não? ─ indagou Mário.

─ Não tenho namorado. ─ redarguiu Joana, sem disposição para o assunto. ─ Nem sou casada. Aliás, tenho todas as pessoas que me são importantes longe. Por isso, não tenho esse problema de tempo.

Mário deu um golo no café.

─ Até custa a acreditar que uma mulher tão bonita como a Joana, seja uma pessoa assim tão sozinha.

Joana pousou a chávena e levantou ligeiramente a mão, em sinal de paragem.

─ Poupe-me essas frases de D. Juan da Buraca! ─ exigiu.

─ Peço desculpa, Joana! Não o disse com qualquer má intensão.

─ Seja como for, poupe-se a esse tipo de comentários!

Mário levantou o braço e chamou o empregado para que este trouxesse a conta. O indivíduo percebeu os intentos do cliente e dirigiu-se ao balcão, donde recebeu um talão, o qual entregou a Mário.

Sem que Joana tivesse manifestado qualquer intensão nesse sentido, Mário disse:

─ Deixe estar que eu pago.

Depositou o cartão de crédito Gold sobre o pires com o talão e deixou que o empregado o levasse para saldar a despesa.

─ A Joana parece-me uma pessoa magoada com a vida.

─ Não com a vida, mas com as pessoas. ─ emendou ela. ─ Com algumas pessoas. Confesso que sou uma pessoa desconfiada em tudo.

─ Espero não ser alvo da sua desconfiança.

─ Pelo contrário. O Mário tem tido um comportamento bastante desconfiável.

─ Como assim?

─ Desde que apareceu no hospital que a sua postura não coincide em nada com aquela que apresentou, hoje de manhã, quando me ia passando a ferro com o seu carro.

Mário largou um sorriso e levantou as mãos em sinal de rendição.

─ Peço desculpa! Lamento que a minha reacção ao acidente lhe tenha provocado uma imagem errada de mim.

─ Talvez...

O empregado acercou-se novamente da mesa e entregou a Mário o cartão de crédito e a factura do almoço.
 

Joana não conseguia perceber toda aquela atenciosidade de Mário para consigo, insistindo em a trazer de volta ao hospital. Para ele, tratava-se de mero fascinio pela pessoa dela. E como não tinha nada que fazer o resto dia, não lhe custava nada acompanhá-la.

Ao estacionar o carro no parque frontal ao complexo hospitalar, pois os seguranças não lhe permitiriam nova entrada, Mário ofereceu-se para ir com ela até à maternidade.

─ Não é necessário. ─ recusou Joana.

─ Está a chover imenso e a Joana não tem chapéu. ─ lembrou Mário. ─ Tenho ali o meu. Não me custa nada levá-la até lá.

Joana olhou para o exterior pelo vidro frontal. Continuava a chover intensamente e a neblusidade escurecia a tarde, parecendo anoitecer, mal haviam passado as 16h00. Não lhe apetecia muito voltar a encharcar-se, por isso, aceitou a oferta de Mário.

Como um verdadeiro cavalheiro, enfrentou a chuva para ir buscar o guarda-chuva e contornar o carro até à porta de Joana. Abriu-a e esforçou-se por cobrir a sua companhia. Caminharam juntos sob a cobertura do guarda-chuva até ao edificio da maternidade, congratulando-se por o vento não estar tão forte como de manhã.

No entanto, perto da porta, uma enorme rajada de vento revirou o guarda-chuva e deixou-os à mercê da enxorrada de água, encharcando-os e obrigando-os a correr para o edificio.

─ Ficou todo molhado! ─ exclamou Joana, olhando para Mário.

─ Também a Joana. ─ constatou ele.

─ Bem lhe disse que não havia necessidade de vir até cá.

─ Não faz mal.

Preocupada como se tivesse sido a responsável por aquilo, Joana disse:

─ Agora, não pode voltar para a rua, assim, tão molhado.

─ Deixe estar. ─ disse ele, desvalorizando.

─ Não, não. ─ contrapôs Joana. ─ Tem de ir para um sitio quente ou ainda apanha uma pneumonia.

─ Também não é grave. ─ argumentou em jeito de brincadeira. ─ Já estou no hospital.

Antes de dizer mais qualquer coisa, Joana reparou em Alfredo que se mantinha junto à entrada da sala de espera. Deu umas passadas rápidas até ele e indagou:

─ Já há novidades?

Alfredo abanou negativamente a cabeça e disse:

─ Eles também não me dizem nada.

─ Espere aí! Eu vou ver se consigo saber alguma coisa.

Enquanto Joana se dirigiu à recepção, Mário deslocou-se até à sala de espera, passando por Alfredo.

─ Então? ─ interrogou Alfredo. ─ Não me diga que perdeu o dinheiro e já tem maneiras e respeito?

Mário olhou-o com desdém, dizendo:

─ Não estou a perceber.

─ Não me disse que eu ter maneiras e respeito me faziam estar ali à chuva, enquanto...

─ Sim, sim. ─ lembrou-se Mário. ─ És capaz de ter razão. ─ atalhou sem paciência para dialogar com o mendigo.

Joana regressou da recepção, mas não trazia novidades. Continuava tudo na mesma como desde a última vez em que tentara saber noticias.

─ Venha comigo! ─ exclamou Joana a Mário, quase fazendo-o parecer uma ordem.

Mário seguiu-a até ao piso da pediatria, onde ela lhe arranjou um canto para ele se libertar das roupas molhadas e se aquecer junto de um aquecimento eléctrico.

Enquanto isso, Joana aproveitou para mudar de roupa na casa-de-banho das senhoras, pois tinha sempre uma muda de roupa no hospital para o que desse e viesse.
 

A hora do jantar chegara com o abrandamento da chuva, já a noite se abatera completamente sobre o exterior, havia muito tempo. A densidade de pessoas nas ruas também havia diminuido, estando estas mais preocupadas em recolher às suas casas, onde a grande maioria teria jantares familiares onde comparecer.

Carregando alguns sacos com comida, frangos de churrasco e batatas-fritas comprados numa qualquer churrasqueira, Jacinto entrou na esquadra onde Sandrine permanecia encarcerada. Deu de caras com o agente Hélder, o qual concluiu de imediato o porquê da presença do outro.

─ Então? ─ perguntou Jacinto, abeirando-se do agente.

─ Vejo que vem preparado. ─ disse o policia, sorrindo e olhando para os sacos.

─ Espero não ter sido em vão. ─ receou Jacinto, perante a possibilidade de não poder ver Sandrine.

─ Está com sorte. ─ informou o agente Hélder. ─ Só cá estou eu e um colega amigo.

Jacinto pegou num dos sacos e apontou-o ao agente, dizendo:

─ Tome! Trouxe para vocês também.

─ Não. Deixe estar. ─ recusou o policia. ─ Não é preciso isso.

─ Eu insisto, senhor guarda! ─ exclamou ele. ─ Sei que também não é fácil para vocês ficarem de serviço na noite de Natal. Vá! É um gesto de cortesia meu, não um pagamento.

O agente Hélder acabou por aceitar, até porque o cheirinho do interior do saco era tentador. Logo que entregou o saco ao colega, Hélder encaminhou Jacinto pelo corredor até aos calabouços da esquadra, onde Sandrine estava.

Deixando-se conduzir, Jacinto constatou que o prisioneiro mal encarado da outra cela já lá não estava, tendo possivelmente sido transferido para outro local ou libertado.

─ Não tinham cá outro hóspede?

O agente encolheu os ombros. Tornara-se rotineiro prender bandidos para os verem em liberdade logo de seguida, soltos por falhas do sistema judicial e por advogados sem escrúpulos. Duas celas antes da de Sandrine, Hélder disse:

─ Já sabe o caminho! Pode cá ficar enquanto cá estou, depois...

─ Agradeço-lhe, senhor guarda!

Jacinto prosseguiu o caminho até à cela de Sandrine e constatou o seu olhar alegremente surpreso por o voltar a ver.

─ Que fazes aqui? ─ perguntou ela. ─ Não te esperava, antes da próxima semana.

─ Eu disse que vinha ou dava noticias. ─ lembrou.

─ Tens alguma novidade?

─ Tenho uma boa e uma má noticia. ─ disse ele. ─ Qual queres primeiro?

─ A má. ─ escolheu, parando junto das grades.

─ Não consegui convencer o Mário a desistir da queixa! ─ comunicou com tristeza. ─ A boa é que vou poder passar a noite contigo, aqui.

O rosto de Sandrine não se alegrou muito, o que decepcionou Jacinto.

─ Que foi? Não queres que fique aqui contigo?

─ Não é isso. ─ negou ela. ─ Só acho que não devias abandonar a tua familia para ficar aqui comigo.

─ Que familia? ─ interrogou ele. ─ Eu vivo sozinho.

─ Que cheiro é este? ─ questionou ela.

─ Frango! Espero que gostes. Foi o que trouxe para jantarmos.

Sandrine soltou um sorriso timido, engraçando com a atitude dele, apesar da mágoa por se ver ali presa. Observou a forma cuidada como ele dispôs o jantar sobre uma toalha que estendera no chão. Ela ajoelhou-se no chão empedrado, sentando-se com as pernas juntas e dobradas para o lado, precavendo-se contra alguma subida exagerada da saia.

Jorge sentou-se no chão, do lado de fora das grades, cruzando as pernas e colocando um prato de papel entre elas. Colocou frango e batatas noutro e entregou-o a Sandrine.

─ Desculpa, mas não trouxe talheres. ─ disse ele.

─ Não faz mal.

Durante a refeição, não houve grande diálogo, pois ninguém sabia muito bem o que dizer, por isso, refugiavam-se no saboreamento do frango e das batatas fritas. Contudo, após terminarem a ingestão, surgiu um clima de indecisão acerca do que fazer a seguir.

─ Não precisas de ficar cá toda a noite. ─ lembrou Sandrine, desejando que ele se mantivesse ali.

─ Eu sei. Mas, eu gosto de estar aqui contigo.

─ Mentiroso! ─ exclamou em jeito de brincadeira. ─ Qual é o prazer de estar sentado no chão de um prisão?

─ É o prazer de estar contigo. ─ soltou sem pensar.

─ Que queres dizer com isso? ─ inquiriu Sandrine com um ar mais sério.

─ Nada. ─ atalhou Jacinto arrependido.

─ Porque é que gostas de estar comigo, Jacinto? Mal me conheces. Sabes lá se não sou essa homicida louca que o teu amigo Mário pinta?!

─ Não creio.

─ Como? ─ insistiu Sandrine, não abrindo mão daquele diálogo.

Jacinto não queria expôr os seus sentimentos, nem revelar que se sentia atraido por Sandrine, talvez desde que a conhecera. Ela era bonita, inteligente e ele adorava aquela sua postura sensual cheia de altivez. Claro que ela perdera essa postura, desde que fora sujeita aquela prisão.

─ Eu assisti à cena. ─ recordou Jacinto. ─ Não me pareceu que fosses até ao fim com a ameaça da faca. Não te estou a ver a espetares o Mário com aquilo.

─ Não sei... ─ suspirou ela. ─ Estava tão desesperada.

─ Mesmo assim. ─ acentuou ele. ─ Não és pessoa para isso. E não tenho problema em o dizer a quem quer que seja.

─ Estás a dizer que testemunharias a meu favor, em tribunal?

─ Claro! ─ afirmou com firmeza. ─ Aliás, eu devo ser uma das pessoas a ser chamado a prestar declarações, já que presenciei quase tudo.

─ Não sei se conseguirás falar a meu favor. ─ duvidou ela. ─ Se o Mário te ameaçar com despedimento...

─ Eu faço-o à mesma! ─ completou Jacinto.

─ És bom homem, Jacinto! ─ exclamou Sandrine. ─ Tenho pena de não te ter conhecido melhor, antes.

─ Ainda vamos a tempo.

─ Receio que não. ─ lamentou ela. ─ Estou em risco de enfrentar alguns anos de prisão por tentativa de homicidio.

─ Vais ver que isto se resolve.

Sandrine abanou a cabeça, descrente de outro cenário que não a condenação.

─ Se te serve de consolo, eu continuarei contigo no que precisares.

Ela voltou a encarar-lhe o olhar. Segurou as grades com ambas as mãos e perguntou:

─ Porquê, Jacinto? Porque hás-de te prender a uma condenada que mal conheces?

─ Simpatizo contigo. ─ justificou. ─ Quero ser teu amigo! Vês algum problema nisso?

─ Só queres ser amigo? ─ inquiriu ela. ─ Não estarás à procura de um meio para ser mais que isso?

─ Já te disse que não o faço com intensão de te levar para a cama.

─ Será? ─ continuou a interrogar. ─ Só estamos os dois aqui e não me parece que os policias aqui venham nas próximas horas. Se me oferecer a ti, aqui, agora! Continuarás a ter essa solidariedade?

Jacinto abanou a cabeça, descrente da capacidade de a convencer das suas boas intensões.

─ Ouve, Jacinto! ─ prosseguiu. ─ Não tenho nada a perder. És um tipo porreiro! Não me importo de ser a tua prenda de Natal, esta noite. ─ Agarrou-lhe a camisola e puxou-o para si até o encostar às grades. ─ Anda! Estou aqui para o que quiseres. Beija-me!

Jacinto soltou-se das suas mãos e afastou-se, dizendo:

─ Lamento que penses assim!

─ Estou errada?

Jacinto compôs a camisola amarrotada pelo puxão dela e disse:

─ Vou ser sincero contigo. Gosto de ti! Tu atrais-me! És uma mulher muito bonita! Mas, isso não faz com que queira ter alguma coisa contigo a qualquer preço. Estou aqui porque te quero ajudar. E, se não estou enganado, parece-me que sou a única ajuda que terás.

─ Desculpa... ─ pediu ela num soluço, afastando-se para o fundo da cela.

─ Estás transtornada. ─ concluiu. ─ Compreendo que faças essas avaliações erradas da minha pessoa. Não és obrigada a aceitar nada de ninguém. E isso inclui a minha ajuda. Por isso, se quiseres, eu vou-me embora e não te aborreço mais.

─ Não! ─ exclamou ela, desesperada. ─ Não vás! ─ avançou rapidamente para as grades. ─ Perdoa-me! Tu tens sido o meu unico amigo, este tempo todo que aqui estou. Fica, por favor!

Jacinto recebeu a mão que ela lhe estendeu e ali ficou junto dela.

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