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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

CAPÍTULO VI

Nem a chuva a cair abafou a sirene da ambulância do INEM que passava os portões do Hospital de Santa Maria. Para as pessoas que por ali andavam e trabalhavam, o som era tão habitual que já nem reparavam.

Os seguranças, na entrada, mandaram afastar os veiculos que ali aguardavam autorização para entrar. Ninguém solicitaria a sua paragem na entrada, pois eram mais que conhecidas as razões que levavam a ambulância para o seu destino. E esta avançou na direcção do edificio da maternidade. Virando ligeiramente à direita, subiu a estrada inclinada para no cimo tornar a descer alguns metros. Curvou à esquerda e voltou a subir até chegar ao largo frontal ao edificio da maternidade. Este era apenas um dos muitos edificios do complexo hospitalar.

Ludmila acompanhou os colegas da Emergência Médica que conduziam a maca para o interior. Ainda se pensou em arranjar protecção para que a chuva não atingisse Marisa, mas temiam todo o tempo perdido, o que obrigou a que a levassem o mais rapidamente possivel.

Joana e Alfredo viram a rapariga grávida desaparecer para lá das portas com acesso reservado. Pensaram segui-la, mas Ludmila travou-os.

─ Vão ter que aguardar aqui! ─ disse ela, apontando-lhes a sala de espera. ─ Eu vou lá cima e já vos dou noticias.

Joana afastou-se um pouco, rumo à sala. Contudo, Alfredo ficou a olhar para as portas por onde Ludmila regressara. Vendo-o ali especado, debaixo dos olhares de suspeição de algumas pessoas, Joana aproximou-se dele e disse:

─ Venha! Não vale de nada ficar aí.

─ Estou preoucupado...

─ Eu também. ─ atalhou ela. ─ Não se preocupe, eles cuidam dela. Venha para aqui.

Alfredo lá acedeu a seguir Joana até uma das cadeiras da sala.

A sala de espera da maternidade estava cheia, repleta de gente à espera de notícias, gente com os filhos para consultas nas urgências da pediatria e gente que não se sabia muito bem o que faziam ali. Junto à entrada, perto da recepção, pessoas barafustavam com as demoras e insurgiam-se pela falta de auxílio aos filhos. Em grande parte, algumas daquelas crianças nem precisavam de estar ali. Porém, o português é o tipico indivíduo que corre para as urgências por qualquer coisinha.

A equipa do hospital que tomou Marisa a seu cargo conduziu-a para o piso dos partos, estacionando-a numa das camas de uma das poucas salas de dilatação. Ouviam-se gemidos e gritos de dor, pouco favoráveis a quem procurava relaxar e encontrar o melhor caminho para se debater com as suas próprias dores.

Ludimila inteirou-se do seu estado e falou com os colegas do hospital que lhe fizeram um relatório rápido da sua situação.

─ Ela está bem! ─ afirmou Ludmila a Joana e Alfredo, quando os reencontrou na sala de espera. ─ Está num quarto a fazer dilatação. Os meus colegas dizem que ainda deve demorar um pouco. Parecia que o parto estaria mais breve do que está.

─ Agora que ela está em boas mãos, vou à minha vida. ─ informou Joana. ─ Obrigado por tudo.

─ Ora essa. ─ contrapôs Ludmila. ─ Vocês é que foram a sua verdadeira ajuda.

Joana despediu-se de ambos e seguiu para a ala de pediatria, onde fazia o seu voluntariado, junto das crianças ali internadas.

─ Como é que se chama? ─ perguntou Ludmila ao mendigo.

─ Alfredo!

─ Venha daí, Alfredo. ─ convidou. ─ Vamos arranjar-lhe algo quente para beber e comer.

Ludmila levou-o até à cantina do hospital e comprou-lhe umas sandes e leite quente. Ofereceu-lhe mais, mas ele não quis. Viu-se obrigada a deixá-lo, quando lhe sugiu nova emergência para acorrer.
 

Mário barafustava sozinho, dentro do carro, amaldiçoando aquela famigerada véspera de Natal que só lhe trouxera problemas. Enfrentava a chuva abundante e um trânsito terrivel, só para devolver a porcaria da mala a Joana. Maldita hora em que ela se atravessara no seu caminho, repetia a si mesmo.

Só muito perto da Av. Prof. Egas Moniz é que Mário se viu livre do trânsito, farto de quase uma hora em pára-arranca. Conduziu acelerado pela avenida frontal ao Hospital de Santa Maria e virou para a entrada, atravessando-se em frente a um carro que quase o abalrroou. O outro atirou-lhe uma bozinadela forte, mas Mário ignorou-o.

Os seguranças fizeram sinal para que parasse, apesar da pouca vontade de deixarem a protecção do toldo da pequena guarita para o interpelarem. Mário abriu a janela e logo sentiu o vento forte e a água da chuva.

─ Procuro a maternidade! ─ gritou para o individuo.

Com o forte temporal e o ruido da chuva embrulhado com o vento, o outro não percebeu muito mais para além de “maternidade”. Por isso, vendo-o tão apressado e ansioso, tomou-o por um futuro pai e mandou-o seguir, apontando-lhe a mesma estrada que a ambulância fizera.

Pisando forte no acelerador, Mário avançou estrada acima. Não havia um único lugar para estacionar, por isso parou no largo. Nesse instante, constatou que não sabia por onde havia de começar a procurar Joana. O edificio da maternidade era tão grande... Decidiu-se a pegar na mala dela e começar a vasculhar por alguma pista, quando...

─ TOU!!!! ─ berrou irritadissimo, ao atender o telemóvel que lhe interrompera os intentos. ─ Sorry, Mr. Grant! I´ll expect another person.

A chamada era de um americano, cliente de Mário, o qual o procurava para algumas indicações bolsistas. Segurando o pequeno aparelho junto ao ouvido, Mário atirou a mala para o banco de trás e concentrou a sua atenção no computador. A conversa entre ambos prolongou-se por um bom bocado, tendo Mário de suportar as indecisões, as muitas perguntas, as mesmas perguntas... até o homem optar por não arriscar o capital e esperar pela passagem do Natal.

─ Mas que merda! ─ vociferou ele, após desligar. ─ Será que as pessoas não sabem fazer nada sem pensar no Natal? Palhaço!

O homem que tomava conta da porta da maternidade fez sinal a Mário, acenando que ele não podia estar ali.

─ Vai falando... ─ disse ele, ignorando-o.

Contudo, atrás deste surgiu o polícia de plantão no local.

─ Ok. Ganhaste! ─ exclamou Mário. ─ Não estou para ter problemas com a polícia.

Para sua sorte, saiu um carro do estacionamento. Mário arrancou com o Audi A3 e enfiou-o no espaço vago.
 

Na pediatria, Joana e mais algumas voluntárias organizavam o jantar de Natal. Nada se poderia comparar ao conforto da casa e da familia, mas elas esforçavam-se por fazer com que as crianças passassem um Natal minimamente feliz. Para essa noite, reservaram um pequeno salão para o encher de enfeites de Natal. Não era muito grande, mas era suficiente para os internados. Tinham tudo planeado e haviam conseguido uma pequena colecta para comprar presentes para as crianças. Também estariam presentes alguns pais. Porém, Joana sabia que algumas crianças não teriam lá ninguém de familia e sabia como era importante não as largar e fazê-las sentirem-se queridas.

A sala já tinha um aspecto bastante natalicio, repleta de bolas coloridas, luzes a acender e a apagar, desenhos de Natal e uma grande árvore enfeitada num dos cantos. As voluntárias ocupavam-se a arquitectar a posição das mesas, de forma a fazer um enorme mesão onde todos se sentariam. Algumas das crianças, aquelas que não estavam tão doentes, queriam ajudar. E as voluntárias davam-lhes tarefas simples para elas se sentirem uteis.

As voluntárias eram na sua maioria jovens. Havia-as desde os dezasseis, dezassete anos até aos vinte e muitos, exceptuando três que tinham trinta e oito, quarenta e três e sessenta e um respectivamente. Davam-se todas maravilhosamente bem, extremamente organizadas e eficientes, apesar de não serem chefiadas por ninguém.

Enquanto trabalhavam afincadamente, ouviam o ruido tenebroso da água a embater violentamente nos vidros.
 

Sozinho e algo perdido, Alfredo retornou ao local onde vira Marisa pela última vez. Sempre debaixo de olhares suspiciosos, caminhou pelo percurso inverso que fizera com Ludmila. Alfredo já nem ligava aos olhares, habituado que estava a ser sempre visto como algo a manter bem longe, sendo sempre temido como se fosse um ladrão ou um virus com pernas.

Chegado à recepção, Alfredo parou junto do balcão à entrada, olhando para o homem do outro lado.

─ O senhor, desculpe... ─ chamou.

O outro olhou para ele surpreso, franzindo o rosto e não gostando do que via.

─ Gostava de saber se uma rapariga que...

─ Vai-te embora! ─ exclamou o outro, desinteressado no que ele pretendia. ─ Vai-te embora, mendigo! Isto é um hospital, não é a Santa Casa da Misericórdia.

─ Mas, eu sou quero saber...

─ Tu não queres nada! Põe-te a andar, antes que chame a policia. ─ ordenou com ameaça, elevando o tom de voz para que o policia, ali perto, ouvisse.

As pessoas olhavam para a cena e comentavam, sentindo-se desconfortáveis com a presença do mendigo ali.

─ Peço-lhe! ─ insistiu Alfredo. ─ Só quero saber como está uma rapariga chamada Marisa. Ela entrou...

─ Ei! Tu aí! ─ ouviu-se a voz do policia chamar.

O indivíduo antipático da recepção fizera sinal ao guarda. Não se pode dizer que ele angariasse muita simpatia daquelas pessoas, pois tratava com arrogância todas as que o interpelavam. No entanto, naquele instante, todas se congratularam com a sua atitude para com o mendigo.

Alfredo olhou para trás e viu o policia dirigir-se-lhe. Este caminhou até ele com um semblante agressivo e ordenou:

─ Sai daqui! Vai-te embora, antes que arranjes problemas.

─ Mas...

─ Cala-te, pá! Aqui não há nada para roubares. Queres que te mande para a prisão? Vá! Cava daqui para fora.

Perante tanta hostilidade, Alfredo viu-se obrigado a sair do edificio, enfrentando o temporal que se sentia na rua. Não sabia muito bem o que fazer, mas de uma coisa não abdicava, tinha de saber notícias da rapariga. Por isso, mantêve-se perto da entrada, à chuva, aguardando uma oportunidade para saber algo. Desejava reencontrar Joana ou Ludmila, mas não sabia onde estava a primeira, nem para onde fôra a segunda.
 

Qualquer pessoa diria que era uma loucura, conduzir àquela velocidade pelas ruas de Lisboa, debaixo de um temporal tão grande como aquele. Porém, era a vida dos socorristas do INEM, onde um segundo pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Ludmila e a sua equipa foram chamadas a prestar auxílio a uma idosa que se queixava com falta de ar, em sua casa. Fôra uma vizinha que a encontrara e que os chamara.

Quando encontraram a morada comunicada, pararam junto a um prédio muito velho da zona antiga da cidade. Ludmila e os seus assistentes sairam do carro e entraram no prédio, sendo recebidos pela vizinha.

─ Onde é? ─ perguntou apressada Ludmila.

A vizinha, também não muito nova, mostrou-se muito antipática e conduziu-os vagarosamente pelas escadas, mais enfadada com o incómodo da situação que preocupada com o estado de saúde da outra senhora.

Ludmila encontrou uma senhora de oitenta anos, magrinha, vestida de negro e com o cabelo branco todo despenteado. Estava sentada na cama e com as mãos no peito.

─ De que se queixa, minha senhora? ─ perguntou Ludmila com calma, sentando-se a seu lado e abrindo a mala com os socorros.

─ Sinto falta de ar. ─ disse a senhora com uma voz fraca e ofegante.

─ Tenha calma! ─ aconselhou Ludmila. ─ Nós estamos aqui para cuidar de si. Como se chama?

─ Maria da Glória. ─ informou a senhora.

─ D. Maria da Glória! Vou examiná-la. Respire fundo!

Ludmila pegou no estectoescópio e encostou-o ao peito da idosa.

─ Inspire! Expire! ─ repetia a médica, mudando a posição do aparelho.

Após analisar a sua respiração, Ludmila constatou que a senhora não tinha nada.

─ D. Maria da Glória! A senhora está a respirar bem. ─ disse Ludmila. ─ Que se passa consigo? Porque diz que não consegue respirar?

─ A velha está é maluca! ─ exclamou a vizinha. ─ Apareceu-me à porta e pedir ajuda. Interrompe-me a conversa com as minhas amigas. É doida.

─ Minha senhora! ─ chamou a médica. ─ Obrigado pelo seu auxilio.

A senhora não percebeu que Ludmila a mandara embora e continuou:

─ Não foi nada demais, mas a velha só pode ser doida.

─ Muito obrigado. ─ acentuou Ludmila. ─ Não precisamos de mais nada. Pode voltar para casa.

A outra franziu o rosto e argumentou:

─ Não me parece que seja sensato deixá-la aqui sozinha convosco.

─ Minha senhora! ─ O tom de Ludmila tornou-se mais impaciente. ─ Somos médicos, não somos assaltantes. Viemos para ajudar a senhora, não foi para lhe fazer mal. A senhora já revelou o seu incómodo, por isso, regresse a sua casa. Nós fechamos a porta, quando sairmos.

Um dos assistentes de Ludmila conduziu a senhora à porta e fechou-lha na cara.

─ Diga-me, D. Maria da Glória! A senhora está bem?

─ Não sei bem. Talvez fosse melhor levarem-me para o hospital. ─ sugeriu.

A larga experiência de Ludmila fazia-a compreender perfeitamente o que se passava com a senhora idosa. Estava perante mais um caso de solidão.

─ A senhora não está doente, D. Maria da Glória! Não há necessidade de a levar para o hospital.

A idosa não se conteve e começou a chorar.

─ Por favor! Eu sinto-me tão sozinha! ─ balbuciou.

─ Tenha calma. ─ aconselhou Ludmila. ─ Conte-me o que se passou.

Perante um mar de lágrimas, as quais eram limpas com um pequeno lencinho amarrotado que a senhora de oitenta anos guardava num bolso do casaco, ela contou à médica que o seu marido falecera, meses antes, deixando-a sozinha naquela casa.

─ E não tem filhos, D. Maria da Glória?

Ela encolheu os ombros como se não interessasse, pois eles não queriam saber dela para nada.

Ludmila não conseguiu ficar indiferente ao pranto da senhora. Apertou-lhe o ombro para a reconfortar e disse:

─ Tenha calma. Não podemos levá-la para o hospital. Mas, prometo-lhe que assim que puder, volto cá para ver como a senhora está.
 

Mário já estava tão farto da chuva, quanto daquele dia e do significado dele. Abriu a porta do carro e abriu o guarda-chuva, não evitando o embate de algumas gotas que lhe molharam os sapatos e as calças. Não parava de resmungar para consigo, ainda para mais, depois de ver as horas e como a hora de almoço ficara para trás.

Perto da porta, reparou num mendigo à chuva. Também já andavam a pedir esmolas às portas das maternidades, pensou. Tentou desviar-se para que este não o interpelasse com o pedido de “moedinhas”. Não que lhe custasse correr com ele, mas estava com demasiada pressa para perder tempo com isso. No entanto, reparou que o mendigo não lhe era estranho, recordando-se que era ele que estava com a rapariga drogada que Joana auxiliara.

Mário era um homem preconceituoso. De nada valia ter visto que a rapariga estava grávida. Para ele, era mais uma drogada caida num banco de uma paragem de autocarro.

─ Ó preto! ─ chamou com superioridade, como se ainda vivessemos na época da escravatura. ─ Sim, preto. Estou a falar contigo.

Alfredo olhou para ele, cansado da forma arrogante como as pessoas o tratavam. Que quereria aquele ricaço empertigado? Não tinha paciência para aturar gente assim. Só queria que o deixassem estar descansado, a aguardar notícias de Marisa. Já chegava o incómodo da chuva que o encharcava até aos ossos.

─ Não te lembras de mim, preto? ─ perguntou Mário.

─ Não, branco! ─ respondeu Alfredo com sarcásmo. ─ Vocês são todos iguais.

─ Que gracinha. ─ ripostou Mário com sorriso amarelo. ─ Temos aqui o novo macaco Adriano.

─ Olhe, ó branco! ─ irritou-se Alfredo. ─ Eu não o ofendi, por isso, exijo respeito.

─ Ó rapaz, quando pessoas como tu tiverem direito a alguma coisa, é sinal que o mundo vai muito mal. ─ redarguiu Mário.

─ Você devia ter mais atenção ás suas acções! ─ alertou Alfredo. Seguidamente, apontou para o céu. ─ Ele, lá em cima, não dorme.

─ Eu tenho atenção às acções, preto! ─ disse com um sorriso irónico. ─ Estou sempre com um olho nas cotações da bolsa.

─ Vá gozando...

─ Olha, preto! ─ continuou Mário. ─ Viste aquela senhora que ajudou a drogada?

─ Pode parar de me chamar preto?

─ Porquê? ─ questionou Mário. ─ Não és preto?

─ Mas tenho nome. ─ retorquiu. ─ Chamo-me Alfredo.

─ Ok, preto Alfredo. Sabes dela?

─ Quem?

Mário soprou para o ar, olhando para o interior do guarda-chuva, impaciente.

─ Porra, pá! Serás estupido? A senhora que saiu do carro para ajudar a gaja na paragem de autocarro.

Com calma, Alfredo disse:

─ Está à espera que o ajude, a falar dessa forma?

─ Estou, preto... Alfredo. ─ O semblante de Mário alterou-se como se tivesse constatado algo. ─ Já sei. Queres dinheiro, não é?

Alfredo abanou a cabeça negativamente.

─ Deve estar a confundir-me com algum branco.

─ Só se fôr um branco sujo. ─ contrapôs Mário com uma gargalhada.

─ Você não tem maneiras, nem respeito.

─ Mas tenho dinheiro. ─ argumentou Mário. ─ E se tu tens maneiras e respeito, preto Alfredo, só te servem para estares aí à chuva. Enquanto eu tenho dinheiro para estar onde quiser com o que quiser. ─ Adoptou uma postura mais rispida. ─ Então? Sabes ou não sabes onde ela está?

─ Ouvi qualquer coisa sobre a pediatria.

Agastado por demorar tanto tempo pela informação, Mário levou a mão ao bolso e retirou uma moeda.

─ Tanto tempo para uma coisa tão simples. ─ concluiu Mário. ─ Toma lá dez cêntimos, preto Alfredo. Compra um amendoim! É isso que vocês comem não é?

E entrou pela porta da maternidade, não dando tempo de resposta ao outro.

A moeda caiu ao chão e Alfredo pontapeou-a para longe, dizendo para si:

─ Antes morrer de fome que aceitar dinheiro de um animal destes.

Caminhando com um ar altivo, Mário entrou na maternidade e caminhou até à recepção. O recepcionista, vendo a pose de Mário e enquadrando-o naquele lote de pessoas que devem ser bajuladas, abriu o seu maior sorriso e perguntou:

─ Em que posso ajudá-lo?

─ Procuro uma rapariga chamada Joana! Penso que trabalha na pediatria. ─ disse Mário.

─ Joana quê? ─ inquiriu o homem.

─ Sei lá. ─ respondeu Mário enfadado. ─ Têm cá muitas?

─ Algumas...

─ Onde é a pediatria? ─ inquiriu Mário.

─ É lá em cima, mas não posso deixá-lo entrar. ─ comunicou o homem.

Antes que Mário desabasse toda a sua irritação sobre o homem, uma enfermeira interferiu no assunto e dirigiu-se a Mário:

─ Está à procura da Joana, a moça que faz voluntariado na pediatria?

─ Penso que sim. Não faço a minima ideia do que ela faz ou deixa de fazer.

A enfermeira fez-lhe uma descrição dela, a qual coincidia com a que Mário conhecia de Joana.

─ Exactamente. ─ confirmou Mário.

A enfermeira bastante simpática, ofereceu-se para o acompanhar até ao local onde Joana estava. Entraram as portas, a seguir à sala de espera, e seguiram para o elevador.

─ A Joana é voluntária, aqui na pediatria. ─ relatou a senhora sem que Mário se mostrasse interessado em saber. ─ Trabalha com as crianças que aqui estão internadas. É uma moça muita bondosa. Parece-me que estuda medicina...

─ É muito longe? ─ interrompeu Mário. ─ Estou cheio de pressa e ainda não almocei.

Ao sairem do elevador, uma outra enfermeira chamou a primeira e comunicou-lhe da necessidade de esta se dirigir ao piso inferior para uma tarefa urgente. Mantendo a simpatia, a senhora apontou o corredor a Mário e disse-lhe:

─ Siga por aqui! Lá ao fundo é a pediatria. Assim que chegar, deve ver logo a Joana.

Mário nem perdeu tempo a agradecer e caminhou apressadamente pelo corredor. Continuava a resmungar, entre dentes, amaldiçoando aquele dia e recriminando-se pela sua má-sorte. Ele era um homem prático com a máxima que tempo é dinheiro. Aquele principio de tarde só lhe estava a render aborrecimentos e tempo perdido. Olhou para o relógio e constatou que já poderia ter almoçado. Mário vangloriava-se da sua capacidade de estar sempre pronto para qualquer eventualidade e sempre com resposta para tudo. Contudo, estava longe de imaginar como aquele dia influenciaria o resto da sua vida.

Ao fundo do corredor existia uma porta larga, metade madeira, metade vidro. Aproximando-se, ouviu o aumentar do barulho que as crianças faziam a brincar. Indignou-se mais, pois não suportava crianças aos berros. Chegado ao vidro da porta, espreitou e viu Joana ajoelhada no chão, rodeada por várias crianças. Algumas tinham marcas visiveis das razões do seu internamento, enquanto outras não revelavam doenças aparentes. Infelizmente, por vezes, essas eram as mais doentes.

Por mais que tentasse, não conseguiu explicar para si o que lhe acontecera, ao ver aquela cena. Algo despertou nele, enternecido com o carinho que Joana devotava às crianças. Ficou a olhá-la sem reagir, capaz de ficar ali uma eternidade, caso ela não tivesse olhado para ele, apercebendo-se da sua presença.

O rosto de Joana revelava todo o espanto pela presença de Mário ali. Levantou-se do chão, pediu a uma colega que tomasse conta das crianças e caminhou até ele.

─ Que faz aqui? ─ foi a pergunta que lhe fez, mal abriu a porta e o olhou nos olhos.

Mário abriu a sua mala e retirou a de Joana.

─ Esqueceu-se disto no meu carro.

Joana nem se apercebera da sua falta. Contudo, antes de lhe pegar, ouviu-se uma voz chamar:

─ Joana!

A proveniência da voz vinha de outra sala, uma colega que a chamava com alguma urgência.

─ Peço desculpa! ─ disse Joana. ─ Espere um pouco, eu não demoro.

Subitamente, Mário pareceu já não estar tão impaciente e dispôs-se a aguardar o tempo que fosse necessário. Viu Joana dar uma pequena corrida até ao local e desaparecer para lá da porta. Não sabia muito bem o que fazer durante a espera, optando por se encostar à parede.

─ Olá! ─ ouviu uma voz fininha dizer.

Mário olhou para o lado, junto à porta, e viu uma menina pequenina de cabelos claros a olhar para ele com um sorriso angelical. Não deveria ter mais de cinco anos. Reparou que um dos seus bracinhos estava engessado e ao peito, sustentado por uma tira de pano.

─ És o namorado da Joana? ─ perguntou-lhe a menina.

Mário dispensava bem aquela presença ali perto de si. Ou, pelo menos, o Mário habitual dispensaria. Em vez disso, sem saber muito bem porquê, Mário ajoelhou-se no chão, para ficar à altura da menina, e respondeu:

─ Não.

─ Quem és, então? ─ indagou ela com o seu rostinho ingénuo franzido.

─ Sou um conhecido.

─ O que é um conhecido?

Mário nem se reconheceria, se se pudesse olhar de longe e assistir àquela cena. Com toda a paciência, explicou:

─ É alguém que se conhece, mas não o suficiente para se dizer que é amigo.

─ Não és amigo dela? ─ interrogou-se a menina. ─ Então não gostas dela. Porque estás aqui, se não gostas dela?

─ Não disse que não gostava.

A menina olhava-o com um olhar arregalado, curiosa e estranha.

─ Estou a ficar confusa. ─ disse ela.

Nesse instante, apareceu um rapazinho de doze ou treze anos, deslocando-se com a ajuda de uma cadeira-de-rodas.

─ Pára de incomodar o senhor, Jessica! ─ ordenou-lhe com um tom de irmão mais velho, apesar de não o ser. ─ Que mania que tu tens de chatear os adultos com as tuas perguntas.

─ Não tem importância. ─ apaziguou Mário.

Joana regressou do interior da sala e dirigiu-se a Mário, olhando para as crianças e dizendo:

─ Vão lá para dentro, meninos! Já vos disse para não virem para o corredor por causa da corrente de ar.

De facto, notava-se ali um ventinho incómodo, quase imperceptivel, mas que não fazia bem nenhum. E para as crianças, entretidas a brincar naquela sala aquecida, o efeito poderia ser pior.

─ Desculpe fazê-lo esperar! ─ pediu Joana a Mário, logo que fechou a porta, após a passagem das crianças. ─ Lamento que as crianças...

─ Não lamente! ─ exclamou ele. ─ Foi uma conversa agradável. Estão cá internados?

─ Infelizmente, como todos eles. ─ Joana lançou um olhar para o conjunto de crianças, sentindo um aperto no coração. ─ O rapaz foi vitima de um acidente de automóvel. Os pais ainda cá estão internados. A menina partiu um braço ao cair de bicicleta... É melhor parar, antes que lhe faça um relatório clinico de todos eles.

─ Não faz mal. ─ contrapôs Mário. ─ Tenho muito gosto em ouvi-la.

─ Não foi certamente para isso que cá veio, pois não?

Mário voltou a retirar a mala de Joana da sua mala de homem de negócios e entregou-lha, respondendo:

─ Vim trazer-lhe isto que esqueceu no meu carro.

─ Obrigado! ─ agradeceu Joana. ─ Está entregue.

Uma colega de Joana passou por ela e lembrou:

─ Vai almoçar, Joana. Aproveita que isto está mais calmo.

─ Ainda não almoçou? ─ indagou ele. ─ Eu também não almocei, com esta história toda.

─ Lamento ter-lhe causado esse transtorno.

─ Não foi transtorno nenhum. Mas, se quiser, pode recompensar-me com a sua companhia para almoçar.

─ Não me parece. ─ recusou Joana.

─ Eu insisto. Acho que se ninguém a levar a comer qualquer coisa, não se lembrará de o fazer. ─ Olhou em volta como se procurasse alguém. ─ Como não vejo aqui ninguém para o fazer, tomo essa responsabilidade a meu cargo.

─ Não percebo onde quer chegar, senhor...

─ ...doutor Mário Ferreira!

─ “Doutor” Mário Ferreira! ─ repetiu ela. ─ Se é por se sentir responsável pelo acidente...

─ Não, não. ─ negou Mário prontamente. ─ Esqueça isso.

Aquela postura não coincidia com a do homem que conhecera cerca de duas horas antes. Pelo menos, mudara para melhor. No entanto, aos olhos de Joana, aquilo não passava de uma encenação para algum fim. Contudo, não acreditava que ele lhe fosse fazer algum mal. E se a queria levar a almoçar... Tudo bem, já sentia o estômago a apertar e saberia bem comer uma boa refeição sem ter que a pagar.

─ Vamos lá então. ─ acabou por dizer Joana.

Os dois desceram pelo elevador, rumo ao piso térreo para abandonarem o edificio. Antes de sair, Joana parou na recepção e pediu ao homem que ali estava, informações sobre Marisa. Este não lhe soube dizer nada, nem conseguiu contactar o piso onde se efectuavam os partos.

─ Vou lá acima. ─ decidiu Joana. Seguidamente, olhou para Mário. ─ Se não se importar, aguarde aqui. Vou ver como está a rapariga.

Mário assentiu com a cabeça.

Porém, antes que fizesse qualquer movimento para ir para lá, reparou em Alfredo na rua, debaixo do temporal. Indiferente ao clima, Joana caminhou para a porta e chamou o mendigo.

─ Que faz aí fora? ─ perguntou-lhe em voz bem alta para que fosse audivel, por entre a chuva.

Alfredo aproximou-se da porta e respondeu:

─ Não me deixam estar lá dentro.

─ O quê? ─ indignou-se Joana. Quem é que o mandou para aqui?

Ele apontou para o homem da recepção e para o polícia.

Joana mandou-o entrar novamente no edificio e disse-lhe para ir sentar-se na sala de espera.

─ Minha senhora! ─ chamou o recepcionista. ─ Esse tipo...

─ Você cale-se! ─ ripostou Joana. ─ Onde já se viu expulsar um homem para aquela chuva? Você não tem coração!

─ Foi uma medida de segurança. ─ justificou o policia.

Mário e Alfredo olhavam para a discussão, sem dizer nada.

─ Medida de segurança? ─ questionou Joana. ─ Tinham medo de quê?

─ Ele poderia tentar roubar alguma coisa. ─ argumentou o policia.

─ Temos de zelar pelo bem estar das pessoas. ─ adicionou o recepcionista.

Fulminando-os com o olhar, Joana avisou:

─ Se não o deixam ficar cá dentro, vou levá-lo às televisões e contar o que vocês fizeram. E testemunhas não faltam. ─ Apontou para a sala de espera. ─ Da forma como hoje em dia, todos gostam de aparecer na televisão, tenho a certeza que estavam lá todos caidinhos a contar esta afronta.

─ Mas...

─ Seria óptimo para vocês, perante os vossos superiores, quando estes tivessem que vir justificar a vossa atitude.

Não desejando ver-se envolvidos em tamanhos problemas, tanto o recepcionista como o polícia aceitaram a presença de Alfredo ali. Este ficara muito agradecido, enquanto Mário se fascinava com a personalidade de Joana. E ela... deixou-os todos para trás e subiu pelo elevador, em busca de novidades sobre Marisa.

Mário caminhou até à sala de espera e sentou-se numa das poucas cadeiras vagas. Não conseguia deixar de pensar em todas aquelas crianças, ali, longe da familia. Ao longo da descida, Joana contara-lhe mais alguns casos, crianças maltratadas e abandonadas nas urgências de pediatria, crianças com alta que não tinham ninguém para tomar conta delas, crianças com doenças graves, crianças com pouca esperança... E todas elas sorriam, quando Mário as viu naquela sala, com a presença de Joana e das outra voluntárias que coloriam aqueles momentos com ternura e carinho.

─ Desculpe, não tem um cigarro? ─ pediu Alfredo a Mário, arriscando-se a que o outro o corresse a pontapé.

─ Não. ─ respondeu Mário num tom calmo. ─ Além disso, é proibido fumar aqui dentro.

─ Ah... Não tinha reparado. ─ constatou Alfredo, espantado com a postura sóbria de Mário. ─ Que se passa consigo, branco? ─ interrogou o mendigo. ─ Disse duas frases sem me chamar “preto”.

Mário não sabia muito bem o que dizer, um tanto ao quanto alucinado com tudo o que se passava à sua volta. Mesmo antes que encontrasse alguma palavra, o seu telemóvel tocou. Ele atendeu e nem reparou que Alfredo se sentara na cadeira vaga, a seu lado. Assim que desligou, ouviu o outro dizer:

─ Você é corrector da Bolsa?

A chamada fôra de mais um cliente de Mário. E pela indicações que dera ao individuo, Alfredo percebera a sua profissão. Sem grande paciência para conversar, Mário confirmou:

─ Sou.

─ Boa profissão, quando se tem sorte.

─ Que quer dizer com isso? ─ interrogou Mário.

Alfredo soltou um sorriso lacónico e respondeu:

─ Considere-me um exemplo de quando não se tem sorte.

─ Se você trabalhasse como as pessoas normais?!

Alfredo abanou a cabeça, olhando para o tecto e fazendo um rosto de quem considerava o outro um ignorante.

─ O que eu quero dizer é que também já fui corrector! ─ afirmou.

─ Você? ─ questionou Mário, incrédulo com desdém. ─ Você nem deve saber ler.

─ Já sei. ─ atalhou Alfredo. ─ Os macacos não sabem ler. Ou os pretos só comem amendoins e saltam nas árvores...

─ Não é nada disso. ─ retorquiu Mário. ─ Tem que concordar que, olhando para si, é um pouco dificil de acreditar.

─ Tal como é dificil que eu acredite que você, depois do que me disse lá fora, não ache de facto isso.

─ Como queira...

Por alguns segundos, Alfredo manteve-se em silêncio, olhando para o vazio até começar a contar:

─ Os meus pais eram cabo-verdianos! Emigraram para a Africa do Sul, durante a guerra do Ultramar. Procuraram melhores condições de vida e conseguiram que eu fosse estudar para Inglaterra. Foi lá que me formei. Vim com uns amigos para Portugal e pensámos abrir uma correctora. ─ abanou a cabeça com a lembrança. ─ Achavamos que sabiamos tudo. Arriscámos o que tinhamos e o que não tinhamos. Perdemos tudo e ainda ficámos a dever. Do dia para noite, vi-me sem um cêntimo com a roupa do corpo e a estender a mão à caridade.

Mário olhou para ele. Fingira que não dera atenção, mas ouvira cada palavra que Alfredo dissera. Nesse instante, Joana surgiu pela porta da sala de espera e informou:

─ A Marisa ainda está em fase de dilatação. Parece que ainda demora.

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