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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

CAPÍTULO V

Não deveriam ter passado mais de quinze minutos até àquele instante, observando as escovas a debater-se com as gotas a cair no pára-brisas, quando Mário se apercebeu que o seu telemóvel ficara com Joana.

No meio das longas filas de trânsito em direcção ao Campo Pequeno, deveria estar a uns setenta ou oitenta metros dela, demasiado longe para que pudesse sair e ir pedir-lhe a devolução do objecto.

Procurando um lugar onde estacionar o carro temporariamente, Mário barafustou consigo próprio e lamentou o momento em que a conhecera. No estreito passeio entre as faixas exteriores e as interiores, perto de uma árvore, Mário encontrou um lugar onde parar o carro. Tomou as devidas precauções para mudar de faixa e subiu o passeio, deixando as rodas direitas sobre ele e as esquerdas no alcatrão.

Chovia como se o mundo fosse desaparecer sob tanta água. As valetas engoliam quantidades absurdas vindas dos caudais formados ao longo da fronteira entre o alcatrão e o passeio. Mário retirou o guarda-chuva que trazia no porta-bagagens, trancou o carro e caminhou na direcção das paragens de autocarro.
 

No centro de operações do INEM, o dia estava a ser complicado e atarefado como sempre. Porém, atravessava-se uma época, o Natal, em que as solicitações de auxílio aumentavam ainda mais. E como o número de operacionais havia sido reduzido, o serviço estava a um passo do caos.

Ludmila era uma mulher na casa dos trinta, fiel ao seu serviço de médica do INEM havia quase dez anos. Tinha um ar corpulento e robusto, autoritária e convicta das decisões que tinha de tomar, muitas com escassos segundos para decidir. Usava um cabelo curto, género maria-rapaz, não com o intuito de ser bonito, mas de ser funcional.

Naquele princípio de tarde, quando juntamente com a sua equipa regressou à central, já lá iam nove horas de constante resposta a pedidos de auxilio. Chegava ao edificio com o cansaço e o desejo de ser substituida e ir para casa tomar um banho e repousar.

No momento em que retiravam o material do Golf branco, um dos coordenadores aproximou-se da equipa e chamou Ludmila.

─ Preciso de si, doutora! ─ informou. ─ O seu colega teve uma urgência na Estefânia e não pode vir rendê-la. E eu tenho uma chamada urgente de socorro a uma jovem grávida...

Ludmila encolheu os ombros e acatou:

─ Tudo bem. Dê-me os pormenores, nós vamos lá.

O indivíduo entregou-lhe os dados, ao mesmo tempo que o condutor do Golf ligava os “pirilampos” azuis. Ludmila entrou para o veículo e estes arrancaram em direcção ao local.
 

Vociferando para consigo, Mário caminhava pelo passeio, sentindo os pés chapinhar nas poças de água que se multiplicavam pelo empedrado. Chegado à paragem, encontrou a rapariga a gemer de dores com um mendigo negro a segurar-lhe a mão e com uma mulher a partilhar a sua atenção entre a jovem e o trânsito, aguardando a chegada do auxílio médico.

Quando Joana viu Mário, o seu rosto denunciou toda a estranheza que lhe ia em mente. Que faria ali aquele emproado que a atropelara?

─ Voltou? ─ interrogou Joana com desconfiança.

Irritado por se sentir molhado com a chuva, Mário disse:

─ Você ficou com o meu telemóvel.

Inconscientemente, Joana foi aproximando-se dele até ficar protegida pelo seu guarda-chuva. Colocou a mão no bolso da camisola e retirou o aparelho.

Mário viu como ela estava encharcada. E ela estava tão perto de si que conseguia sentir o perfume que dela emanava. Constatou a beleza do seu rosto, em especial do seu olhar. Estava tão junto a si que teve vontade de a abraçar... Que loucura, pensou. Conhecera-a uma hora antes, mas não conseguia deixar de sentir aquela atracção por ela.

─ Não pense que lhe quis roubar o telemóvel. ─ esclareceu ela.

─ Sei que não. ─ respondeu secamente, mas sentindo o fascinio da sua beleza.

─ Já chamei o 112. ─ relatou. ─ Obrigado. Não preciso mais dele. ─ e entregou-lhe o telemóvel.

─ O meu carro não está muito longe. Quer que a leve... ─ ofereceu ele.

Joana sorriu com simpatia à oferta, mas disse, apontando para a jovem:

─ Não, obrigado. Quero certificar-me que ela fica bem. Estou a aguardar a ambulância.

Mário percebeu o jeito de despedida do seu tom. Tentando prolongar o momento, olhou-a nos olhos e perguntou:

─ Podemos ver-nos novamente?

Em lugar da resposta, surgiu o ecoar das sirenes do veiculo do INEM, furando pelo trânsito em direcção a eles. Joana virou toda a sua atenção para eles e ignorou, sem intensão, Mário. Indiferente à chuva, correu para lá.

Segurando o guarda-chuva, impávido, Mário ficou a observar a chegada da equipa médica, chefiada por uma mulher forte de cabelo curto. O condutor imobilizara o veículo com manobras ferozes, parecendo saido de um qualquer filme hollywoodesco de policias e ladrões. O carro ficara parado de qualquer maneira, em frente à paragem, enquanto eles procuravam fazer um diagnóstico fiel ao estado da jovem. Mário sabia que Joana já não lhe prestaria atenção. Talvez fosse melhor assim. Por momentos, quase deixara cair aquele seu porte altivo de quem vê todos de cima para baixo. Virou costas ao aparato da situação e encetou nova caminhada pela chuva, rumo ao seu carro, sem se despedir de ninguém. E sem que dessem pelo seu afastamento.

Ludmila pedira a Alfredo e a Joana que se afastassem. Ajoelhou-se no chão, indiferente à água que lhe molhou as calças, e rapidamente constatou que a rapariga estava em trabalho de parto.

Dois minutos depois, uma ambulância parou junto ao Golf, a qual havia sido igualmente destacada para o local, perante os factos relatados na chamada.

─ É melhor levá-la para o hospital! ─ decidiu Ludmila, fazendo sinal aos individuos da ambulância para que trouxessem uma maca.

─ Como é que ela está? ─ perguntou Alfredo.

Ludmila não conseguiu evitar a estranheza, ao ver aquele mendigo ali, junto da jovem.

─ Você é...?

─ Encontrei-a aqui, assim. ─ explicou Alfredo. ─ Tentei pedir ajuda...

─ Eu vi-o a acenar por ajuda, aos carros. ─ completou Joana.

─ Você é familiar? ─ inquiriu Ludmila a Alfredo, enquanto dois enfermeiros ajudavam Marisa a deitar-se na maca.

As pessoas que seguiam nos carros e aguardavam no pára-arranca, não desviavam o olhar ao que se estava a passar junto àquela paragem. Os autocarros tiveram de manobrar, contornando os veiculos médicos, quando deixavam ali alguns passageiros. Já estes, deitavam uma olhadela ao que se passava, mas rapidamente corriam à procura de cobertura à chuva que caía impiedosa.

─ Sou apenas alguém que a encontrou. ─ respondeu Alfredo.

─ Ok. Vamos levá-la. ─ ordenou Ludmila à equipa.

─ Posso ir com ela? ─ pediu Joana.

Ludmila assentiu com a cabeça. Seguidamente, reparou no ar apreensivo de Alfredo e sugeriu-lhe:

─ Não quer ir também?

─ Ah... Eu...

─ Vá lá! ─ insistiu. ─ Entre na ambulância. Sempre se livra da chuva e eu arranjo-lhe qualquer coisa quente para comer, lá no hospital.

Alfredo sorriu-lhe em jeito de agradecimento. Sabia como eram raros os gestos de generosidade para pessoas como ele.
 

A chuva abrandara tão ligeiramente que quase não se notara. Mário regressava ao seu carro, visualizando a realidade à sua volta. Havia luzes de Natal por todo o lado a piscar, fosse nas lojas, em apartamentos ou escritórios. Dificilmente se esqueceria da quadra que se comemorava.

Contudo, Mário odiava o Natal e tudo o que se relacionasse com ele. Praguejando com os seus botões, Mário caminhava pela chuva, soltando maldições a todos os que gostavam daquela época.

Os seus pensamentos foram interrompidos a escassos metros do seu carro, quando observou dois individuos de impermiável verde à volta do veículo. Um colocava uma fita amarela a circundar o Audi A3, enquanto outro colocava um bloqueador de rodas no pneu direito da frente.

Mário acelerou a passada e acercou-se deles.

─ Hei? Que estão a fazer? ─ perguntou ele, indignado.

Os dois homens olharam para ele, mas mantiveram as suas funções.

Um deles prendeu a fita e disse-lhe:

─ O senhor deixou o carro parado em local proibido.

─ Foram dez minutos, nem tanto. ─ reclamou Mário, segurando o guarda-chuva.

─ Ainda se tivesse pago o bilhete... ─ sugeriu o outro.

─ Ah! Se pagasse, deixava de ser proibido? ─ interrogou, incrédulo.

─ Não! ─ ripostou o primeiro. ─ Mas, talvez tivessemos “fechado os olhos”.

Mário olhou para cima, encontrando o forro do guarda-chuva, e indignou-se com aquelas palavras. Teve vontade de lhes dizer quanto dinheiro tinha e que podia quase comprar a porcaria da empresa onde trabalhavam. Que tinha na carteira o suficiente para o ordenado de ambos... Enfim. Tudo seria infrutifero. Pensou em perguntar quanto era o valor da multa e consequente desbloqueio da roda. Porém, Mário era astuto e não conseguira chegar onde chegou na vida a libertar-se assim tão facilmente do dinheiro.

─ Bolas! É Natal, por amor de Deus. ─ disse. ─ Ser multado e logo no Natal. ─ Os homens de verde encolheram os ombros. ─ Vocês não têm coração? Onde está o vosso espirito natalicio. Numa época em que as pessoas devem dar, em vez de receber. ─ Nesta altura, os funcionários já olhavam um para o outro. ─ O Natal é uma quadra de amor. Ainda hoje mandei pagar um ordenado extra aos meus funcionários (para além do subsidio, claro), só para que pudessem ter um Natal mais feliz.

─ O senhor devia ser nosso patrão. ─ disse um deles.

─ Não conseguiria. ─ lamentou-se com um falso semblante de repudio. ─ Não conseguiria chefiar pessoas que vivem com tanta falta de compaixão, agarrados ao dinheiro e à procura de multa atrás de multa...

─ Ó amigo! ─ interrompeu um deles.

─ É mentira? ─ interrogou Mário de olhos arregalados. ─ Fazem outro serviço para além de bloquear rodas e passar multas? E logo no Natal...

Um dos homens fez sinal ao outro para que retirasse o bloqueador e, olhando para Mário, disse:

─ Ok. Desta vez passa.

Mário sorriu-lhes e agradeceu-lhes, enquanto eles retiravam a fita amarela do veículo. Desejou-lhes um Feliz Natal e Próspero Ano Novo, entrando seguidamente no Audi A3. Lá dentro, ligou a ignição e exclamou:

─ Otários!
 

A alguns quarteirões dali, Jacinto deixava o pequeno restaurante, onde fora almoçar, e caminhava pela chuva. A refeição não lhe soubera a nada, pois não conseguira deixar de pensar em Sandrine e de como se estaria a sentir na esquadra.

A chuva acalmara, mas o vento soprava com mais força, quase tentando os transeuntes a largar os guarda-chuvas em vez de lutar com eles contra o vento. Jacinto avançou pelas ruas, rumo à esquadra para onde haviam levado Sandrine. Sentiu os pés húmidos com a água que vencera a cobertura dos seus sapatos.

Cerca de vinte a vinte e cinco minutos a pé e lá estava a entrar na esquadra.

No interior, tudo parecia aparentemente calmo. Dirigiu-se a um pequeno balcão semelhante a uma recepção e encontrou um polícia de meia-idade, anafado.

─ Boa tarde, senhor guarda! ─ cumprimentou.

─ Boa tarde!

─ Podia informar-me se está cá detida uma jovem chamada Sandrine? ─ pediu Jacinto.

O polícia franziu o sobrolho e inquiriu:

─ Quem deseja saber? É o advogado?

Jacinto sorriu, tentando disfarçar o nervosismo e disse:

─ Não! Sou um amigo. Gostava de falar com ela, saber se está bem...

─ Não são permitidas visitas. ─ atalhou o policia. ─ Só o advogado.

─ Compreendo, senhor guarda. ─ acatou Jacinto. ─ Mas, eu só queria dar-lhe uma palavrinha, saber se precisa de alguma coisa.

─ Já lhe disse...

─ Claro! Claro! Compreendo. Compreenderá também a minha parte, a minha preocupação...

O policia baixou o olhar, afastou alguns papeis que tinha à sua frente e levantou-se da cadeira. Nesse intante, um outro guarda entrou no edificio.

─ Hélder! ─ chamou o policia anafado.

O polícia que vinha a entrar olhou para ele e aproximou-se do balcão.

─ Faz-me um favor, Hélder! ─ pediu o primeiro. ─ Está detida cá na esquadra uma tal Sandrine. Este senhor veio falar com ela. Podes levá-lo lá? Sem grande alarido.

─ Tudo bem. ─ concordou o outro.

O agente Hélder tinha um aspecto jovem, falava sempre em tom afável e conduziu com grande simpatia Jacinto até às celas da esquadra. Para espanto de Jacinto, só duas tinham “hóspedes”. Numa ficara um indivíduo mal-encarado com aspecto de marginal, deitado num banco comprido à espera que o tempo passasse. Noutra, Sandrine sentada de cabiz baixo.

─ Cinco minutos! ─ avisou o agente Hélder.

─ Obrigado.

Jacinto aproximou-se das grades e chamou Sandrine.

A jovem não escondeu a surpresa por vê-lo. Tentava manter um aspecto arranjado, mas o rosto estava esborratado pelas lágrimas que já deveria ter chorado, ali sozinha.

─ Jacinto?

─ Olá, Sandrine! Como estás?

Sandrine encolheu os ombros.

─ Pergunta estupida. ─ constatou Jacinto. ─ Não posso estar aqui. Ali o agente Hélder foi simpatico e deu-me cinco minutos.

Sandrine aproximou-se das grades e ficou a olhá-lo.

─ Que posso fazer por ti? ─ perguntou ele. ─ Tens advogado? Queres que te arranje um? Tenho um amigo...

─ Não, deixa estar. ─ recusou ela com a voz trémula. ─ Não quero que te prejudiques.

─ Não me prejudicas.

─ Se esse filho da puta do Mário sabe...

─ Não penses nisso. ─ cortou Jacinto. ─ Esse é o teu menor problema, neste momento. Ele fez queixa contra ti. Tenho tentado demovê-lo, mas ele é... Tu sabes. Temos que nos preparar para o caso de isto avançar.

─ “Temos”? ─ questionou Sandrine. ─ Não te envolvas neste assunto, Jacinto. Por favor!

─ Achas que te deixaria sozinha numa altura destas?

O rosto de Sandrine revelava toda a estranheza que lhe ia na alma.

─ Porquê essa preocupação, Jacinto? Nunca fomos muito próximos? Falávamos na empresa, mas pouco mais que isso. Não somos amigos e mal nos conhecemos. Porquê Jacinto?

─ Acho uma injustiça o que o Mário te está a fazer.

─ Já passei a idade de acreditar na boa vontade das pessoas, Jacinto! ─ contrapôs Sandrine. ─ Não sou parva. Tenho olhos na cara e vejo-me ao espelho. Sei o que os homens pensam e o que desejam quando olham para mim. O que é que a tua ajuda me vai custar?

─ Ofendes-me, insinuando que te estou a ajudar para te levar para a cama. ─ avisou, desiludido. ─ Tens razão ao dizer que mal nos conhecemos. E por isso, perdoo-te essa grande falha de avaliação do meu caracter. No entanto, se é essa a ideia que fazes de mim, então é melhor ir-me embora.

─ Não! Espera! ─ pediu Sandrine, segurando-lhe o braço através das grades. ─ Desculpa!

A porta do corredor das celas abriu-se e, por ela, apareceu o agente Hélder.

─ Cinco minutos! ─ lembrou.

Jacinto assentiu com a cabeça. Olhou para Sandrine e disse:

─ Tenho de ir. Vou tentar falar novamente com o Mário. Não tenho grandes esperanças, mas vou tentar. Assim que puder, voltarei ou darei noticias.

Sandrine agradeceu-lhe sorrindo-lhe e apertando-lhe o braço.

Jacinto afastou-se na direcção do agente. Acenou-lhe por duas vezes e não sentia a minima vontade de sair dali. Só o fechar da porta dos calabouços da esquadra puseram fim ao seu constante olhar para trás.

─ O agente Hélder foi muito gentil. ─ tornou a agradecer Jacinto.

─ Deixe lá.

Jacinto parou a caminhada até à saida e, olhando para o agente, pediu:

─ Desculpe, senhor guarda! Não quero que ache abusador, mas... Seria possivel voltar, outra vez, hoje? Passar a Consoada com ela.

─ Isto é uma esquadra, senhor! ─ lembrou o policia. ─ Não é um restaurante ou um hotel.

─ Eu sei. ─ concordou Jacinto. ─ Mas, compreenda! Ela não fez mal a ninguém. A queixa é uma tolice do meu colega Mário...

─ O juiz o decidirá!

─ Exactamente. Porém, só na próxima Segunda-Feira. ─ constatou Jacinto. ─ Não será demasiado cruel sujeitá-la a passar a Consoada sozinha numa cela fria? Não lhe peço que a solte, obviamente. Só que me deixe ficar ali com ela.

O polícia aproximou-se dele e murmurou-lhe:

─ Passe por cá, mais ao fim da tarde! Não lhe prometo nada, mas verei o que posso fazer.

Jacinto agradeceu-lhe e abandonou o edificio, atirando-se ao temporal exterior.

Enquanto caminhava pela chuva, agarrando vigorosamente o guarda-chuva, Jacinto pegou no seu telemóvel e fez uma chamada.
 

A chuva parecia ter como missão só parar quando tudo estivesse inundado.

Mário aguardava pacientemente no trânsito, ora acelerando para andar mais dois metros, ora parando e aguardando novo avanço do carro da frente. Entediado, lembrou-se do seu computador portátil que ficara no banco de trás. Sugeriu a si mesmo esticar o braço para trás e puxá-lo para o banco da frente, de forma a ligá-lo e poder acompanhar as cotações da Bolsa de Nova Iorque, enquanto ali estava.

O carro da frente avançou. E Mário copiou o seu movimento e distância.

Novamente parado, Mário esticou o braço e procurou o objecto. Não o conseguiu localizar. Fez um esforço para olhar para lá e encontrou-o mesmo atrás de si. Contudo, os seus olhos nem queriam acreditar no que viam, pois no canto oposto ficara a mala de Joana.

Mário deu um berro solitário. Teve vontade de abrir o vidro e atirar aquela porcaria pela janela. Entre o pensamento e a concretização, o soar estridente do seu telemóvel.

─ TOU! ─ atendeu berrante.

─ Porra! ─ retribuiu Jacinto. ─ Rica maneira de atender um telefone.

─ Desculpa lá, Jacinto! Mas, desde que saí do escritório que... Bom, não interessa.

─ Mário!

─ Olha, ainda bem que telefonaste. ─ disse Mário, olhando novamente para a mala. ─ Estou com um dilema.

─ Diz lá. ─ acatou Jacinto, percebendo que o outro nem ligara ao que dissera.

Segurando o telemóvel, Mário avançou mais um pouco com o automóvel.

─ Dei boleia a uma gaja. E ela esqueceu-se da merda da mala no carro. ─ relatou Mário. ─ Estava a pensar em deitar isto pela janela fora.

─ Tu a dares boleia? ─ interrogou Jacinto.

─ Foi porque eu... Não interessa. ─ interrompeu-se Mário. ─ Vou deitar isto fora!

─ Não faças isso. A rapariga pode ter os documentos aí. Fazem-lhe falta, certamente.

─ E que queres que faça? Não lhe devem fazer muita falta, se se esqueceu deles.

Jacinto suspirou do outro lado da linha e disse:

─ Faz o que quiseres. Estou a dar-te a minha opinião.

─ Ok, desculpa. ─ pediu Mário. ─ E se a levar à policia?

─ Podem pensar que a roubaste. ─ alertou Jacinto.

─ Porra! Porra! Maldita hora...

─ Mário! Eu telefonei-te por causa da Sandrine.

Mário deu um soco no volante e barafustou:

─ Outra vez? Não me vais pedir que desista da queixa, quando essa cabra me tentou matar?!

─ Mas, Mário...

─ Nem mas, nem meio-mas! Não o faço! Adeus!

E atirou com o telefone para o banco de trás, irritado por ter ali a mala de Joana e não saber o que fazer com ela. Mais uns metros com o carro. Pensou em abrir a carteira e procurar uma morada. No entanto, antes de o fazer, lembrou-se que Joana ia para o Hospital de Santa Maria e decidiu que, assim que se visse livre do trânsito, seguiria para lá. Não sabia bem como, mas haveria de a encontrar, entregar-lhe a mala em mão e possivelmente fazer-lhe ver o transtorno que lhe causara com o seu esquecimento.

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