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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

CAPÍTULO III

O gabinete do presidente da Administração parecia um museu, onde cada peça de decoração fora escolhida criteriozamente pela riqueza e luxo. Sentia-se o ambiente ameno provocado pelo ar condicionado. E nem se ouvia o temporal, lá fora, graças aos vidros duplos das janelas grandes e luminosas.

Lider da cadeia hierárquica da empresa, um senhor perto dos setenta anos, lia calmamente os relatórios ao som de Strauss.

A melodia da valsa foi interrompida pelo soar do intercomunicador, surgindo seguidamente o aviso da sua secretária, informando do desejo do Dr. Mário Ferreira falar com ele, urgentemente.

─ Mande entrar!

Duas pancadas secas ecoaram pela sala.

─ Entre!

A porta abriu-se e por ela entrou Mário.

─ Bom dia, Bragstad!

─ Bom dia, Mário! ─ retribuiu o presidente. ─ Que se passa? Que urgência é essa na véspera de Natal? ─ inquiriu, desligando a musica com um comando à distância.

Mário sentou-se na cadeira em frente à mesa do patrão. Reparou que este lia os últimos relatórios da empresa.

─ Vejo que está a ler os últimos relatórios. ─ constatou Mário. ─ Penso que já reparou no negócio que fiz, a semana passada, com a comercialização daquela empresa de componentes electrónicos?! Reparou no lucro?

─ Fenomenal, meu caro Mário. ─ concordou o outro. ─ De facto, devo reconhecer que você tem jeito para isto.

Adoptando uma postura séria e aborrecida, Mário prosseguiu:

─ Temo que não possa continuar a colaborar convosco.

Os olhos do presidente Bragstad arregalaram-se, assolados de preocupação, perante a hipótese de perder uma das mais-valias da empresa.

─ Que se passa, Mário? Já sei. Tem uma oferta milionária de outra empresa? Quanto, Mário? Nós cobrimos.

Mário abanou a cabeça e disse:

─ Nada disso. O problema está aqui na empresa.

─ Como assim?

─ Numa funcionária chamada Sandrine. ─ explicou.

Bragstad deu uma gargalhada e expeculou:

─ Negócios de saias. Você levou a rapariga para a cama e, agora, quer vê-la longe...

─ Não, Bragstad.

A interrupção séria e o olhar pouco humorístico fizeram o presidente perceber que era mais sério que isso. Mário relatou:

─ Essa funcionária roubou-me o negócio com os tailandeses!

O septagenário levantou-se da cadeira e olhou para janela, dizendo:

─ O Mário sabe como esta área é competitiva. Por certo...

─ Desculpe, Bragstad! Mas isso, pura e simplesmente, não me interessa. Não cheguei onde cheguei a arranjar desculpas para o comportamento dos outros. Eu exigo a demissão da Sandrine! Ou eu próprio deixarei esta empresa.

Bragstad abanou a cabeça, conformado.

─ Tudo bem. ─ concordou. ─ Segunda-Feira, tratarei...

─ Hoje! ─ exclamou perentório. ─ Quero-a fora daqui, hoje!

Consciênte que não poderia correr o risco de perder alguém como Mário, Bragstad concordou em tomar providências imediatas para o despedimento de Sandrine.
 

Ainda nessa manhã, Sandrine foi chamada ao gabinete do director de recursos humanos, o qual a informou do seu despedimento com justa causa, justificado por comportamento impróprio à conduta desejável de um funcionário da empresa.

Sandrine protestou, mas não lhe foram dadas hipóteses de defesa, sendo aconselhada a recolher as suas coisas do gabinete que lhe havia sido entregue e a restituir o veiculo de serviço que a empresa lhe concedera, na altura da inclusão nos quadros da empresa.

Os seus clientes seriam distribuidos pelos colegas. E os tailandeses entregues a... Mário.

No regresso ao gabinete, Sandrine não escondia as lágrimas. Em poucos minutos, perdera o emprego, o carro e, futuramente perante o desemprego, a própria casa. O pouco tempo ali, ainda não lhe tinha permitido arrecadar algum pé-de-meia.

Desesperada, passou pelo seu gabinete e seguiu rumo ao de Mário.

Mário falava ao telefone com um correspondente em Hong-Kong e controlava as cotações pelo computador, quando viu Sandrine entrar-lhe pelo gabinete.

O seu olhar era de raiva e encontrou no de Mário resposta à altura.

─ Satisfeito? ─ perguntou num tom misturado de raiva e desespero.

Mário despediu-se do individuo ao telefone. Olhou para Sandrine com o semblente de quem se sentia dono do Mundo e lembrou:

─ Eu avisei que tu não sabias onde te estavas a meter.

Sandrine caminhou até à secretária dele.

─ Filho da puta! És um grande filho da puta.

─ É bom que te vás embora, antes que faça com que te expulsem daqui. ─ ameaçou.

─ Isto não fica assim.

Mário sorriu sarcástico e disse com ironia:

─ Estou cheio de medo.

Irada, Sandrine reparou numa faquinha de abrir envelopes, sobre a mesa. Num ápice, deitou-lhe a mão e apontou-a a Mário.

─ Podes ter destruido a minha vida. Mas, não te vais ficar a rir, cabrão.

Mário percebeu pelo seu olhar enlouquecido que ela não hesitaria em o espetar com o objecto.

Nesse instante, Jacinto entrou no gabinete e logo se apercebeu da cena.

Antes que ela pudesse fazer qualquer movimento, Jacinto atirou-se para ela, abraçando-a por trás e privando-a de desferir o golpe fatal. E Mário aproveitou para lhe tirar a faquinha.

Sandrine barafustou:

─ Larga-me! Larga-me!

Empunhando a faquinha, Mário olhou para a mulher e exclamou:

─ Devia furar-te toda com isto, sua cabra!

─ Pára com isso, Mário! ─ pediu Jacinto. ─ Não provoques mais a situação.

─ Se calhar a culpa é minha, não?

Jacinto respondeu com a expressão facial de quem não o isentava de responsabilidades.

─ Leva-me essa vaca daqui.

─ Pulha de merda! ─ vociferava enraivecida, Sandrine.

─ Cala-te, Sandrine! Não piores as coisas. ─ aconselhou Jacinto.

─ Chamem a policia! ─ exigiu Mário. ─ Essa cabra tentou matar-me.

Jacinto olhou para Mário e pediu:

─ Não há necessidade disso. Foi um acto desesperado.

E segurando Sandrine, abandonou o gabinete de Mário.

Contudo, Mário não se deu por satisfeito. Mal ambos passaram a porta, ele pegou no telefone e ligou para a policia, fazendo queixa de uma tentativa de homicidio e exigindo a presença das autoridades para a deterem.

Jacinto conseguiu acalmar Sandrine, levando-a para o gabinete desta e conversando com ela. Porém, após se sentar na sua cadeira, Sandrine desabou num mar de lágrimas.

Sem saber bem o que fazer, Jacinto colocou as mãos nos seus ombros e apertou-os, tentando que ela relaxasse e acalmasse.

─ Que vou eu fazer agora? ─ lamentava-se. ─ Sem emprego, sem dinheiro...

─ Calma! Tudo se há-de compôr.

Sandrine abanava a cabeça, desesperada.

─ Que rico Natal... ─ continuava. ─ Como vou arranjar dinheiro para a renda? Estou sem carro...

Jacinto continuava a massajar-lhe os ombro.

─ Eu tenho alguns conhecimentos. ─ partilhou Jacinto. ─ Segunda, vejo o que te consigo. Entretanto, vai para casa e descansa.

Ouviu-se um toque na porta.

Jacinto afastou-se da colega. E Sandrine limpou as lágrimas, arranjou um pouco a postura e exclamou:

─ Entre!

Um colega abriu a porta e, sem saber bem como, informou:

─ Sandrine! Estão aqui dois policias para falar consigo.

Sandrine ficou em pânico. Afinal, Mário chamara mesmo a policia.

Jacinto caminhou até à porta e recebeu os dois agentes da autoridade.

─ Procuramos uma senhora chamada Sandrine. ─ comunicou o policia.

Sandrine levantou-se da cadeira, adoptou um porte altivo e orgulhoso, seguindo depois até eles.

─ Sou eu.

O policia leu uma folha de papel e explicou:

─ Temos uma queixa de tentativa de homicidio, perpretada por si, contra o Dr. Mário Ferreira.

O segundo policia colocou-se atrás de Sandrine, retirando as algemas para lhas colocar.

─ Será necessário tudo isso? ─ perguntou Jacinto ao primeiro. ─ Podiam evitar esta vergonha. Ela nem ofereceu resistência.

O outro policia continuou a acção, puxando os pulsos de Sandrine e prendendo-os com as pulseiras acorrentadas, atrás das costas.

─ São os procedimentos a tomar. ─ contrapôs friamente.

Sandrine não proferiu uma palavra e deixou-se conduzir pelos policias. Os seus ex-colegas olhavam espantados para o aparato da situação. Jacinto seguiu com eles, questionando os homens sobre o local para onde a levariam e comprometendo-se com Sandrine a tomar providências para a ajudar.

No exterior, Sandrine foi colocada no interior da viatura policial, perante os olhares anónimos curiosos com o carro da policia ali parado.

Após a partida do carro, Jacinto regressou ao edificio e dirigiu-se ao gabinete de Mário.
 

─ Nem penses! ─ afirmou firme, Mário, perante o pedido de Jacinto para que retirasse a queixa contra Sandrine. ─ Aquela louca tentou matar-me.

Jacinto olhou para ele com ar paternal e lembrou:

─ Ela não fez qualquer movimento para te ferir.

─ Isso, só porque tu o evitaste a tempo. ─ referiu Mário sem tirar os olhos do ecrã do computador.

─ Sabes bem que não foi assim. Ela ter-te-ia ferido, se quisesse. Bolas, Mário! Tu fizeste com que a rapariga fosse despedida. Ela ficou desesperada...

─ Limitei-me a pagar a afronta que ela me fez.

─ Que afronta, Mário? Ter ficado com o negócio de uns miseros tailandeses? Esse negócio para ti era mais milhão, menos milhão. Para ela era muito importante um cliente assim em carteira.

Mário desviou o olhar para ele e reagiu às suas palavras:

─ Mas, afinal, de que lado estás tu?

─ Da razão, Mário. Não me parece justo...

─ Justo? Que te pareceria justo, Jacinto? Que ela me tivesse espetado aquela faca?

─ Ela nunca...

─ Como sabes Jacinto? Não a agarraste imediatamente, temendo que ela o fizesse? Que te leva a crer agora que ela não o faria?

─ Falei com ela e...

Mário levantou os braços ao ar e sugestionou:

─ Então é isso. Ela convenceu-te. Ou melhor, seduziu-te. E tu estás a cair como um patinho. Que te prometeu? Qua a podes levar para a cama? Ou ter-te-ás contentado com a promessa de um simples broche no intervalo do café, quando ela voltasse?

Jacinto irritou-se:

─ Quem pensas tu que és? Tu tens um feitio terrivel, mas não te julgava tão ignóbil.

─ Ó Jacinto, deixa-me trabalhar! ─ ordenou Mário. ─ Aproveita e leva-lhe flores à prisão que é onde ela irá ficar muito tempo, se depender de mim.

─ Que necessidade tens de a fazer passar o Natal na prisão? ─ questionou Jacinto, tentado usar todos os argumentos para o demover.

─ Possivelmente, nenhuma. ─ ripostou. ─ Só quero que as pessoas saibam que não se podem meter comigo. A vida é um jogo. E na minha, sou eu que dito as regras.

Jacinto encolheu os ombros e pediu mais uma vez:

─ Por favor, Mário! Não há necessidade de fazeres isso à rapariga. Peço-te! Se não o queres fazer por ela, fá-lo por mim.

─ Adeus, Jacinto! ─ disse Mário com frieza, mandando Jacinto embora.

─ Mário...

─ Deixa-me trabalhar, pá! ─ o tom de voz tornou-se mais agressivo. ─ Já te disse que não volto atrás e ponto final.

Derrotado nos seus intentos, Jacinto abandonou a sala.

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