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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

CAPÍTULO II

Na hora prevista, o despertador disparou ruidosamente pelo quarto.

Embriegado pelo sono, Mário abriu os olhos e calou o aparelho com uma pacada no botão.

Habituando aos poucos o olhar à claridade, reparou na mulher que partilhava a cama com ele. Uma loura de formas apelativas que dormia enrolada na roupa da cama, indiferente ao estardalhaço do despertador.

Mário tomou consciência da noite anterior. Sim, já se lembrava quem ela era, uma prostituta de luxo que “encomendara” para mais uma noite de sexo. Esta era nova, nem se lembrava do nome dela. Não gostava quando elas passavam lá a noite, pois nas manhãs seguintes tinha que se levantar cedo e ir para o escritório. E perdia sempre tempo a acordá-las para as mandar embora.

No entanto, o sexo na noite anterior fora bom e desgastante. Ele requesitara-a para a noite toda. Não gostava de ter o tempo contado. Era caro, mas valia cada euro. Não tivera ideias de a ter como companhia no sono, mas ela adormecera e ele deixara-a ficar.

Mário levantou-se da cama e acendeu um cigarro. Atirou o isqueiro para cima da mesa-de-cabeceira e caminhou até à janela do seu apartamento, numa das torres nas Amoreiras, onde observou o temporal que fustigava a cidade.

Regressou perto da cama e abanou a mulher para a acordar. Esta soltou um ruido e permaneceu no seu lugar.

─ Acorda!

O berro despertou-a.

─ Olha, ó... Como é que te chamas?

─ Isabel...

Mário deu uma bafurada no cigarro e ordenou:

─ Veste-te e põe-te andar.

Com o rosto revelador das poucas horas dormidas, perguntou:

─ Que horas são?

Mário olhou para o relógio e disse:

─ Oito e meia.

Nesse instante, o seu telemóvel tocou.

Enquanto atendia, a mulher levantou-se da cama, apanhou a roupa do chão e esgueirou-se para a casa-de-banho.

─ Olá avó! ─ atendeu enfadado. ─ Que se passa?... Sim, eu sei que é véspera de Natal... Não, não posso ir jantar aí, avó!... Não, não vou para Sesimbra logo à noite. Passo por aí no fim-de-semana ou no próximo...

Mário era um individuo já na casa dos trinta que trabalhava como gestor de investimentos numa empresa ligada ao ramo de bens mobiliários. Para além de gerir os investimentos de uma dúzia de multimilionários, usava igualmente os seus conhecimentos de mercado para negócios na Bolsa.

Crescera numa familia humilde, criado pelos seus avós, habitantes de Sesimbra. O pai fora pescador, mas morrera no mar, quando Mário ainda era bebé. A mãe abandonou-o e ele ficou a cargo dos avós.

Formou-se em Economia e cedo começou a trabalhar no ramo, deixando para trás os avós e vindo para Lisboa em busca de uma vida melhor. Tinha a preocupação de que não faltasse nada aqueles que o criaram, mas raramente lhes dava o que eles mais queriam, a sua presença.

Desligou o telemóvel, impedindo mais argumentos da avó para que comparecesse na Consoada.

A mulher loura regressou da casa-de-banho, completamente arranjada e pronta para sair, resguardada no longo sobretudo de pelo. Parou junto dele e estendeu-lhe a mão. Mário puxou da carteira, retirou algumas notas de cinquenta euros e depositou-as na palma da mão dela. Ela guardou-as na mala e desejou:

─ Feliz Natal!

─ Natal? O Natal só serve para os tolos gastarem dinheiro.

─ Não gostas do Natal?

Ele fez-lhe sinal para que se fosse embora e ela desapareceu para lá da porta do apartamento.

Mário era um individuo bem constituido, musculado pelas visitas semanais ao ginásio para descomprimir. Era completamente dependente do computador portátil, do telemóvel e das cotações da Bolsa. Inteligente, bonito, investidor aventureiro, sortudo e rico. Resumindo, o homem ideal para muitas mulheres.

Ligou o computador e foi tomar um duche.

Quinze minutos mais tarde, estava à porta do apartamento, vestido de fato escuro muito elegante com um longo sobretudo preto pelas costas. Carregava o pequeno computador na mão esquerda e as chaves na direita.

Fechou a porta, acendeu mais um cigarro e apanhou o elevador rumo ao piso -1, onde o seu carro estava estacionado. Aí, aguardava-o o seu Audi A3 prateado, novinho, comprado com o lucro de meia hora de compra e venda de acções.
 

Seguia a 110 Km/h pela Avenida Fontes Pereira de Melo, por entre a tromba-de-água que se despenhava do céu, quando o seu telemóvel tocou. Deitou uma olhadela ao kit mãos-livres, onde encaixara o aparelho, e tocou na tecla de alta-voz.

─ Mário?

─ Diz, Jacinto.

─ Bom dia!

─ Só se for para ti. ─ repeliu Mário. ─ Basta ser esta treta de quadra natalicia para já não ser bom dia.

─ Lá estás tu com essa raiva ao Natal.

─ Ao Natal e a todos os feriados. ─ resmungou. ─ Só de pensar que a Bolsa amanhã está fechada. Tenho um negócio de milhares de euros para fechar. E hoje já não consigo porque já está tudo a pensar no amanhã e nas prendinhas...

─ Pronto, Mário! Deixa lá isso.

─ Que queres?

─ Já cá estão os tailandeses por causa daqueles fundos.

─ Sim, já sei. Que esperem! Tenho outro assunto para tratar, antes.

Jacinto deu uma risada e constatou:

─ Hoje, estás mesmo com um feitio de cão.

Jacinto era colega de Mário na corretora, mas ocupando um cargo de administrativo e não comercial como o outro. Parecia um rato de biblioteca, magrinho com óculos, fato e gravata, sempre mergulhado em papeladas.

O Audi A3 entrou no parque subterrâneo, junto à Avenida Duque d’Ávila. Estacionou num dos lugares marcados no chão e encaminhou-se a passos largos para a escadaria que o levaria à rua. Perto da porta, abriu o guarda-chuva, segurou-o com força e protegeu-se a si e à maleta que continha o computador e alguns papeis importantes.

O seu destino não ficava muito longe dali. Atravessou a avenida com uma pequena corrida e entrou num edificio de construção recente, perto da Avenida 5 de Outubro.

No edificio, seguiu para o elevador, pressionando depois o botão oito e aguardando a subida.

A porta da firma estava aberta. Tratava-se de uma empresa de ar condicionado, já no mercado havia algumas décadas, que Mário comprara na semana anterior.

Ao vê-lo à entrada, um funcionário perguntou-lhe em que poderia ser útil.

─ Sou o Dr. Mário Ferreira! ─ exclamou com arrogância. ─ Vim falar com o Dr. Tomé.

O homem, revelando desconhecimento total acerca de Mário, pediu-lhe que aguardasse e comunicou ao patrão, a chegada do individuo. Regressou com a indicação de o encaminhar até ao gabinete.

Caminhando com ar altivo, Mário seguiu atrás daquela figura humilde.

─ Como vai, Dr. Ferreira? ─ cumprimentou o Dr. Tomé, dirigindo-se a ele e apertando-lhe a mão.

Mário olhou com desdém para o individuo de sessenta e cinco anos, baixo e careca que lhe lançou o cumprimento.

─ Recebeu a minha ordem de trabalho? ─ perguntou Mário, fazendo a pergunta soar como uma certeza que não admitiria ser contrariada.

Tomé regressou ao seu lugar e respondeu:

─ Sim. Já era para lhe ter telefonado para conversarmos sobre isso.

─ Não há nada a conversar! ─ exclamou Mário. ─ As directrizes que lhe enviei são simples e para execução imediata.

─ Mas eu...

─ O senhor é o sócio minoritário desta empresa. ─ lembrou. ─ E eu o maioritário. Isso faz de mim senhor de todas as decisões sem necessitar do seu consentimento.

Tomé esbuçou um argumento, mas Mário não permitiu:

─ As minhas ordens são para cumprir e o seu papel é fazê-las cumprir. Fui claro?

Tomé abanou a cabeça e disse:

─ O senhor doutor não me pode pedir que despeça cinquenta pessoas na véspera de Natal.

─ Tem razão. ─ respondeu Mário. ─ Não lhe estou a pedir. Estou a ordenar! Quero todos na rua até final do ano. Só cá ficam meia dúzia até eu completar o processo de falência.

─ Foi para isso que comprou as acções?

─ Caro Dr. Tomé. ─ O tom era sarcástico. ─ O senhor não sabe que vive num país em que um processo de falência dá mais dinheiro que tentar recuperar a empresa?

─ Esta empresa tem quarenta e dois anos, doutor. Fui um dos fundadores...

─ O que o senhor foi não me interessa! ─ interrompeu abruptamente. ─ Para mim, tudo se resume a uma única coisa: Dinheiro. E o senhor com essas tretas faz-me perder tempo, dinheiro e paciência. Cumpra as minhas ordens!

─ Peço-lhe por tudo. ─ implorou Tomé. ─ É Natal, por amor de Deus.

─ Não me lixe o juizo com o Natal, Dr. Tomé. ─ ripostou irado. ─ O Natal é só um feriado. E os feriados só servem para os que não trabalham ainda fazerem menos.

E saiu do gabinete batendo com a porta.
 

A meio da manhã, Mário entrava no escritório, saindo do elevador do edificio de dez andares na Avenida da Liberdade. Vinha da cave, local onde estacionara o carro, e dirigia-se ao seu gabinete.

Entrou na divisão de vinte metros quadrados, colocou o computador em cima da secretária, despiu o casaco e ligou o aparelho. Ficou a ver o sistema inicializar, tirando simultâneamente o telemóvel do casaco e colocando-o igualmente na mesa.

Ouviu-se duas pancadas leves na porta.

─ Entre!

A porta abriu e Jacinto entrou.

─ Ainda bem que vieste. ─ disse Mário. ─ Ia agora ligar-te. Onde estão os tailandeses?

─ Antes de te dizer, peço-te que tenhas calma.

Mário fulminou-o com o olhar e interrogou:

─ Que se passa, Jacinto?

─ Como demoraste, a Sandrine...

─ Fod... ─ vociferou Mário, dando um murro no tampo da mesa e fazendo o computador saltar.

─ Calma, Mário! ─ pediu Jacinto. ─ Ela ofereceu-se para lhes fazer companhia e convidou-os para um café no gabinete dela.

─ Essa puta não sabe no que se está a meter. ─ alertou, dirigindo-se para a porta com a intensão de interromper a reunião.

Jacinto impediu-o:

─ Não faças isso. Que imagem iam eles ter de nós? Deixa-os ir embora. E depois falas com ela.

Mário concordou. Porém, notava-se o olhar flamejante de raiva, desejoso de a descarregar em Sandrine.

─ Quando eles sairem, avisa-me Jacinto!

─ Tudo bem. ─ comprometeu-se. ─ Mas tem calma com ela.

Passados alguns minutos, o telefone tocou. Os tailandeses tinham terminado a reunião com Sandrine e estavam a abandonar o edificio, comunicava Jacinto a Mário.

Mário levantou-se da cadeira e saiu do gabinete. A sua passagem no corredor parecia um vendaval, fazendo levantar papeis. Parecia alucinado. Abriu a porta do gabinete da jovem sem bater e atirou com a madeira contra a parede.

Sandrine era uma mulher de vinte e nove anos, estatura média, esguia, com cabelo preto apanhado na nuca. Vestia sempre um fato saia-casaco e sapatos de salto alto a condizer. Filha de emigrantes, estudara em França e viera trabalhar para Portugal, numa filial de uma empresa francesa. Após alguns anos nessa empresa, decidira mudar de ares e foi trabalhar para ali, onde exercia funções desde Agosto.

─ Não sabe bater à porta, colega? ─ perguntou-lhe, ao vê-lo.

Mário aproximou-se da mesa dela e inquiriu:

─ A Sandrine não sabia que os tailandeses vinham falar comigo?

─ Os tailandeses vinham fazer negócio com a nossa empresa. ─ emendou ela.

─ Fui eu quem os contactou e você não tinha nada que se meter nisso.

Com uma postura calma, Sandrine justificou:

─ Como o colega não estava, achei que seria do interesse da empresa que alguém os atendesse, ao invês de os deixar a secar.

─ Este negócio era meu! ─ exclamou Mário. ─ E você não tinha que se meter.

O tom de Mário era cada vez mais enraivecido e agressivo. Porém, Sandrine mantinha-se calma.

─ Se era, deixou de ser. ─ disse com um sorriso que ainda enervou mais Mário. ─ Conhece aquela do “quem vai ao ar, perde o lugar”?

Mário esticou o braço por cima da mesa e agarrou-a pelos colarinhos, apertando-os de tal maneira que ela não conseguia falar.

─ Sua putéfia de merda! ─ chamou, sentindo vontade de a estrangular pelos milhares de euros que o fizera perder. ─ Isto não fica assim. ─ E atirou-a para a cadeira, fazendo-a cair desamparada.

─ Você é um animal. ─ protestou Sandrine. ─ Eu devia fazer queixa de si.

Sandrine voltou a levantar-se e compôs a roupa, dizendo:

─ Você roubou-me um cliente há duas semanas. Cá se fazem, cá se pagam!

O seu tom tentava responder ao dele.

Mário soltou uma gargalhada de escarnio e constatou:

─ Pobrezinha! Queres frases de circunstância? Ouve esta: Quando se compra uma guerra, é bom que tenha com que se pagar. Terás noticias minhas, puta de merda.

─ Vai falando... ─ suspirou, depois de ele bater violentamente com a porta, ao sair.

O barulho e tom alto das vozes fizeram alguns funcionários sairem dos seus gabinetes, procurando a proveniência do ruido.

Quando Mário se dirigiu pelo corredor a toda a velocidade, Jacinto interpelou-o:

─ Então?

─ Aquela cabra não sabe com quem se mete. ─ disse, sem intensões de parar para mais conversa.

Jacinto segurou-o pelo braço e questionou:

─ Que vais fazer?

─ Vou à Administração fazer com que ponham essa puta no olho da rua.

Jacinto ainda tentou demovê-lo, mas Mário ia possesso.

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