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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

DEZ ANOS DEPOIS

CAPÍTULO XIII

Haviam passado mais de dez anos, desde a morte de Mário. É certo que ainda tivera tempo para emendar alguns dos seus erros. Porém, algumas coisas não tiveram solução. Sandrine não voltou a ser readmitida na empresa, pois ele nunca chegara a falar com Bragstad. De nada valeram os pedidos de Jacinto, pois não beneficiava da mesma influência que Mário tinha nele. Valeu a Sandrine o apoio daquele homem maravilhoso, de nome Jacinto, que nunca a abandonou e com quem viria a casar.

O Dr. Tomé também não conseguiu salvar a sua empresa. Após a morte de Mário, não havendo ainda a formalização da compra das acções, o negócio gorou-se, tendo o pobre Dr. Tomé que as vender a alguém pior que Mário, o qual executou o primeiro plano de falência.

Os avós de Mário herdaram toda a sua fortuna, mas nada poderia substituir a presença do neto.

E Joana...
 

O Sol radiante inundava a capital com calor, naquele mês de Agosto. Em frente ao complexo hospitalar de Santa Maria, continuava o parque de estacionamento pago, o qual deveria servir os utentes do Hospital de Santa Maria e da Cidade Universitária.

Matos Fernandes era um advogado prestigiado em Lisboa, com uma carreira de mais de vinte anos, conceituado e eficaz. Caminhava para a saida do parque, logo após ter estacionado lá o seu carro. Tinha como destino Santa Maria, mas não perdera tempo em tentar entrar lá com ele, pois o local estava pejado de seguranças que tinham como objectivo evitar estadias não autorizadas dos automóveis que lá entrassem. Era incrivel, pois não havia médicos suficientes, não havia enfermeiros suficientes, não havia segurança no interior dos edificios, mas... havia gente para evitar que os utentes deixassem lá os carros. Será que esta medida estava relacionada com aquele mesmo parque, o qual era propriedade do estado, tal como o hospital? Quem sabe?

Nem com a alta temperatura, o Dr. Matos Fernandes despiu o casaco, caminhando sob o Sol quente com o cabelo grisalho suado. Segurava a maleta de trabalho na mão direita e dava passadas apressadas pelo passeio. Passou pelos portões da entrada do hospital e dirigiu-se a um segurança.

─ Onde é a Pediatria? ─ perguntou ao homem de semblante antipático.

─ Lá em cima. ─ apontou o outro. ─ No edificio da maternidade.

O advogado olhou para o edificio, observando seguidamente o trajecto que teria de percorrer. Sem perder tempo, prosseguiu o seu percurso, atravessando as zonas de alcatrão, dentro do complexo, e iniciando a subida pela elevação até ao edificio da maternidade.

Existia uma primeira porta pelo lado por onde ele se aproximou, mas não era essa que deveria utilizar. Cortara caminho pela relva e por entre os carros estacionados, chegando ao local e sentindo o suor a escorrer pelas costas. Aproveitando a saida de uma enfermeira, interpelou-a, indagando:

─ A Pediatria é aqui?

─ Não. ─ respondeu a senhora, usando uma expressão neutra. ─ Tem de contornar o edificio e entrar pela outra porta.

Ainda mal chegara e já estava farto daquele local. Considerando as indicações da senhora, o advogado voltou a atravessar o estacionamento. Deparou-se com mais relva e desceu por um declive em terra batida, tendo alcançado um passeio, o qual subiu até ao topo, local onde ficava a segunda porta, a entrada da Maternidade.

Já não era novo e sabia-o bem. Parou uns instantes à sombra da entrada, procurando recuperar o fôlego e compondo a roupa, meio desalinhada com o andamento apressado. Respirou fundo e entrou, só parando junto ao balcão de atendimento.

─ Bom dia! ─ cumprimentou.

─ Diga! ─ respondeu um homem antipático.

─ Onde fica a Pediatria?

─ Que deseja? Tem consulta marcada?

─ Não! Sou advogado e...

─ Então tem de marcar consulta! ─ exclamou num repelão o individuo.

─ Eu sou advogado! ─ repetiu Matos Fernandes.

─ Até pode ser o Papa! ─ desdenhou o outro. ─ Consultas, só com marcação.

─ Mas quem lhe disse que eu quero uma consulta? ─ interrogou irritado. ─ Deixe-me acabar de falar, se faz favor.

O funcionário ficou a olhá-lo, aguçando a antipatia, mas deixando-o prosseguir.

─ Venho falar com uma médica da Pediatria. ─ explicou o Dr. Matos Fernandes. ─ Não é nenhuma consulta. São assuntos pessoais.

─ Quarto piso. ─ informou-o secamente.

─ Obrigado. ─ agradeceu o advogado com azedez.

Caminhando de forma mais calma, o Dr. Matos Fernandes procurou o elevador, o qual não foi dificil de encontrar. Carregou na seta para subir e as portas abriram-se. Entrou e pressionou o botão com o número quatro. Sentiu o elevador começar a subir vagarosamente, vendo a numeração crescer sobre a porta. Quando o “4” acendeu, o elevador parou e as portas abriram-se. Matos Fernandes deu duas passadas e saiu do interior, olhando expectante em redor com toda a confusão no olhar de quem não conhecia o sitio onde estava.

À esquerda, as portas davam passagem para as escadas. Em frente, o desconhecido. Avançou pela segunda hipotese e encontrou uma porta aberta e uma enfermeira.

─ Por favor, minha senhora! ─ chamou ele.

A enfermeira sorriu-lhe e disse:

─ Si.

Matos Fernandes percebera-lhe o sotaque espanhol, era uma das muitas enfermeiras e enfermeiros espanhois que ao longo do tempo foram povoando o Sistema Nacional de Saúde.

─ Procuro a Dr. Joana...

─ A Dr. Joana? Si. Segunda puerta a la ezquerda.

─ Obrigado.

Mais uma etapa rumo ao seu objectivo. Encontrou uma porta castanha grande e fechada, tal como todas as outras naquele corredor escuro. Não lhe passou despercebido o brilho que se escapava por baixo da porta. Deu duas pacadas leves e secas na madeira.

─ Sim. ─ disse uma voz feminina.

O Dr. Matos Fernandes abriu a porta e franziu o rosto, defendendo-se da diferença de claridade entre os dois locais, responsabilidade das enormes vidraças.

O advogado vinha numa demanda de vários anos. Procurara Joana a pedido dos seus clientes, desesperando muitas vezes com a falta de resultados, mas nunca desistindo. Pouca coisa sabia dela. Contudo, não conseguiu evitar o espanto ao vê-la pela primeira vez. Sabia que iria encontrar uma mulher de trinta e dois anos, segundo as informações que tinha, que se formara em Medicina na especialidade de Pediatria. A sua surpresa fora consequência do aspecto agastado que se revelava no rosto da médica, a quem não daria menos de quarenta e tal anos, se não soubesse a idade.

─ Dr. Joana? ─ perguntou, julgando ter-se enganado.

─ Sim. ─ confirmou ela. ─ E o senhor, quem é?

O advogado entrou no gabinete, aproximou-se da secretária da médica e apresentou-se:

─ Dr. Matos Fernandes, advogado!

─ Advogado? ─ interrogou Joana.

─ Sim. Sou advogado da familia Ferreira.

A confusão de Joana aumentou ainda mais. “Familia Ferreira”? Quem eram? Não fazia a minima ideia. Pensou tratar-se de algum processo por negligência médica. Mas, no seu caso, só poderia ser engano, pois era reconhecido o seu mérito profissional e tinha uma folha de serviço sem um minimo erro ou advertência.

─ Peço desculpa, doutor! Mas, não conheço nenhuma familia Ferreira. ─ informou Joana, num tom de quase despedida.

─ Conheceu, certamente, um senhor que se chamava Mário Ferreira.

Joana sentiu uma pontada aguda no coração. Havia mais de dez anos que não ouvia aquele nome e proibira-se a si mesma de o repetir. Mesmo com todos os anos passados, a dor continuava lá, sempre à espera de uma recordação para a fazer desabar num pranto desesperado de infelicidade. Contudo, Joana segurou as emoções, mas sem ser capaz de esconder o reconhecimento do nome.

─ Sei que a doutora conheceu o Dr. Mário Ferreira. ─ prosseguiu o advogado. Joana abanou a cabeça afirmativamente, mantendo-se muito tensa, como se segurasse todos os músculos do corpo para que nenhum a traisse. ─ Deve saber o que lhe aconteceu?!

─ Sei que... ─ engasgou-se com os nervos, soluçando ligeiramente. ─ Sei que morreu.

─ Morreu no dia em que a conheceu. ─ completou o advogado.

─ Não. No dia seguinte. ─ emendou a médica.

─ Sabe como? ─ interrogou Matos Ferreira.

Joana encolheu os ombros, baixou o olhar e abanou a cabeça negativamente.

─ Salvou uma criança que caira num precipicio, perto de Sesimbra. ─ relatou. ─ Infelizmente, no regresso, quis o destino que escorregasse e fosse atirado para uma queda fatal de mais de cinquenta metros.

O reconhecimento do facto pareceu ainda magoar mais Joana, pois acabava por ser uma confirmação da mudança de atitude de Mário. Até isso ele tivera em comum com ela, aquele desejo de ajudar as crianças em perigo. Aliás, fora o amor pelas crianças que a levara ser voluntária naquela mesma pediatria, enquanto estudava e trabalhava, e que a levou a especializar-se em Pediatria, quando terminara o curso de Medicina.

─ Chegou a saber que ele tinha familia? ─ indagou o advogado.

─ Se bem me lembro, apenas os avós que o criaram.

─ Exactamente. Eram os únicos familiares vivos que tinha e que foram os herdeiros da sua fortuna. ─ contou ele. ─ O que não sabe (nem podia saber) é que o Dr. Mário Ferreira, durante o trajecto para Sesimbra, ia a falar ao telefone com a avó. E contou-lhe tudo o que se havia passado entre vocês. ─ Fez uma pausa, procurando as palavras adquadas. ─ Ele dissera-lhe que conhecera uma pessoa muito especial que o mudara e que estava muito apaixonado por ela. Ou seja, estava muito apaixonado pela doutora.

Joana não conteve um novo soluço e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pela face. Porém, manteve-se impávida, ouvindo o visitante.

─ Lamento, trazer-lhe à memória estas recordações. ─ disse ele. ─ Peço-lhe alguns minutos e já compreenderá a razão da minha vinda aqui.

Assentindo com a cabeça, Joana deixou-o prosseguir.

─ Foi uma noticia arrasadora para o senhor António e a D. Aldina, os avós do Dr. Mário Ferreira. Penso mesmo que nunca conseguiram recuperar totalmente da noticia da morte dele. No entanto, ficara sempre presente na sua memória a imagem abstrata de uma certa jovem que conquistara o coração frio do neto. Desejavam conhecê-la, doutora! Contudo, nunca tiveram coragem de empreender uma busca pela sua pessoa. Há cerca de cinco anos, o avô do Dr. Mário Ferreira faleceu. E pouco meses depois, foi a vez da D. Aldina nos deixar. Já eram ambos pessoas com mais de noventa anos, mas tinham uma lucidez impressionante. Como responsável pelas questões legais da familia, delegaram em mim a sua última vontade, expressa em testamento. Essa vontade foi que ficasse tutor da fortuna da familia até encontrar a doutora. E nesse dia, passar tudo para a sua posse.

Materialista como todos os advogados, Matos Fernandes esperava uma reacção eufórica de Joana. Se calhar, esperara que ela desse pulos de alegria de quem de um segundo para o outro ficara multimilionário. No entanto, Joana mantêve-se distante, olhando-o com atenção e firme com os dedos das mãos entrelaçados uns nos outros, sobre o tampo da mesa.

─ Talvez não me tenha feito entender... ─ disse ele.

─ Entendi-o perfeitamente. ─ atalhou Joana, denotando a tristeza na voz. ─ Podia ficar aqui o resto do dia e, mesmo assim, eu não conseguiria descrever-lhe tudo o que senti naqueles dias. Recordo-me perfeitamente de todos os pormenores. Lembro-me como antipatizei com ele, quando o conheci, quase tanto como o amei horas mais tarde. Não sei a que ponto ele revelou o que aconteceu entre nós, mas não tenho problemas em lhe dizer que nos envolvemos sexualmente. Sei que as pessoas podem encarar estas “situações” como relações esporádicas. Só que o que aconteceu naquela noite foi mágico. E na manhã seguinte, estávamos ambos apaixonados.

─ Nunca julguei outra coisa. ─ apressou-se a dizer o Dr. Matos Fernandes. ─ E penso que a ideia com que os avós dele ficaram foi exactamente a verdadeira.

─ Não é isso que está em causa. ─ contrapôs Joana. ─ Sei apenas que é assim que as pessoas vêem as coisas. Partilhei isso com algumas e sei como me olhavam e desvalorizavam o assunto. ─ Fez uma pausa, olhando para o tecto, procurando segurar as lágrimas silenciosas que teimavam em reaparecer. ─ Esperei por ele o dia todo até à noite. Calculei que se tivesse demorado mais que o planeado, o que era compreensivel para quem não estava com os avós havia tanto tempo. Só que, estando em casa dele, não me senti à vontade. Já à noite, tentei telefonar-lhe várias vezes. Tocava, tocava, tocava e ia sempre para o voicemail. Continuei a esperá-lo ao longo da noite até adormecer. ─ Fez nova pausa, limpando as lágrimas com os dedos. ─ Acabei por adormecer, a meio da madrugada.

O Dr. Matos Fernandes ouvia-a atentamente. Para alguém que conhecia metade da história, tornou-se interessante conhecer o outro lado.

─ Na manhã seguinte, acordei com a esperança que ele já tivesse voltado. Nem o facto de não o encontrar na cama, a meu lado, me fez perdê-la. Procurei pela casa, ansiando por o encontrar na casa-de-banho, na cozinha, na sala... em qualquer lado, mas encontrá-lo. Como continuava sem aparecer e sem dar noticias, optei por deixar o apartamento. ─ Parou novamente de falar, respirando um pouco e engolindo em seco, recuperando a voz que se embargara com as memórias. ─ Senti-me traída nos meus sentimentos. Julguei que se tivesse arrependido da noite que passáramos juntos e não tivesse coragem de me enfrentar. Ou então que eu tivesse sido apenas mais uma e a sua paixão não fosse mais que meras palavras atiradas da boca para fora. Na minha cabeça, calculei que me esquecera e que aguardava que eu tivesse o bom-senso de me pôr a andar dali, antes de ele regressar.

─ Mas, não foi isso que...

─ Eu sei, doutor! ─ disse ela, cortando as palavras dele. ─ Eu voltei lá, dois dias mais tarde. Fiquei com aquela cena a moer-me o juizo e tinha de o confrontar. Tinha que o ouvir dizer-me na cara que tudo não passara de uma... o senhor sabe.

Matos Fernandes abanou a cabeça, afirmativamente, aguardando a restante história.

─ Aproveitei, quando saí do emprego... Eu trabalhava na Avenida da Liberdade. Apanhei o autocarro que passa perto das Amoreiras e fui lá. Também sabia onde ele trabalhava, mas o assunto não era para ter espectadores. Confesso-lhe que ia cheia de medo e muito nervosa. Sentia-me enganada e sentia que ele tinha brincado com os meus sentimentos.

─ Voltou a encontrar o apartamento vazio. ─ tentou adivinhar o advogado.

─ Não foi assim. ─ corrigiu Joana. ─ Eu nem tinha chave do apartamento. Quando saí de lá, limitei-me a fechar a porta. ─ O relato suspendeu-se, pois Joana perdera-se momentâneamente na história. ─ Dizia eu que...

─ Tinha ido lá para falar com ele.

─ Exacto. Quando cheguei ao prédio, toquei à campainha, mas ninguém atendeu. Devo ter insistido tantas vezes que só parei ao ver um individuo fardado a vir na minha direcção. Era o segurança do edificio. Perguntei-lhe pelo Mário e o homem respondeu-me que ele morrera, usando de uma fireza de sentimentos absoluta. Apanhei um choque incrivel. De tal forma que nem me recordo bem o que aconteceu em seguida. O tipo falou de um acidente qualquer, sem saber ao certo o que aconteceu. Reparei que falava com indiferença e se limitava a transmitir uma versão que lhe haviam transmitido.

─ Imagino como a doutora se deve ter sentido.

─ Não imagina não. ─ contrapõs ela. ─ Só se tivesse passado pelo mesmo. ─ Tornou a desviar o olhar, como se observasse as recordações. ─ Fiquei apática. Sei que as pernas andaram, mas a mente estava muito longe dali. Toda a raiva que sentia por ele, dera lugar à recordação do amor e à constatação dolorida que o perdera para sempre. Estivemos juntos uns... Nem chegou a dois dias completos. Porém, marcou-me profundamente. E vai marcar-me para o resto da vida. Acredita que não me voltei a envolver com mais ninguém? Tenho medo de voltar a perder...

─ É compreensivel.

─ Para quem é médico, acaba por ser bom. ─ redarguiu numa mistura de alegria e desalento. ─ Passo a minha vida aqui. Os meus colegas dizem que vivo para a Pediatria. Talvez...

─ Agora pode pensar noutra coisas para fazer. ─ sugeriu com enorme sorriso nos lábios. ─ Até se pode reformar. Vai ficar com tanto dinheiro...

─ Não o quero! ─ afirmou perentória com uma firmeza que deixou o Dr. Matos Fernandes estarrecido.

Perplexo com o sacrilégio que era para si a recusa de dinheiro, ele perguntou:

─ Porquê?

Joana olhou para ele com o olhar ferido pelas lembranças que tentava esquecer. Limpou outra lágrima do rosto e, com uma serenidade de quem nada podia fazer para inverter os acontecimentos da vida, respondeu:

─ Aquilo que me falta, o dinheiro não compra!


 

FIM

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