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O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

CAPÍTULO XII

─ Que foi que fizeste? ─ interrogou Sandrine a Jacinto, logo que o viu e depois de o abraçar. ─ Como o convenceste a retirar a queixa?

─ Não fiz nada, Sandrine. ─ confessou Jacinto, abraçando-a e sentindo o previlégio de ter aquela mulher linda nos braços. ─ Sei tanto como tu.

Sandrine revelou pouca vontade de permanecer ali, por isso, sugeriu a Jacinto que continuassem a conversar fora da esquadra. Abraçou o braço dele e deixou-se levar para a rua.

─ Cruzei-me com o Mário, quando cheguei. ─ contou ele. ─ Nem parou e desejou-me um “feliz Natal”. Acho que foi a primeira vez na vida que o ouvi proferir semelhante frase.

─ Que lhe terá acontecido?

─ Não sei. ─ disse, encolhendo os ombros. ─ Mas, fosse o que fosse, ainda bem que aconteceu. Estou muito feliz por estares livre.

─ Eu também. ─ afirmou ela. ─ E também estou feliz por estares aqui comigo.

Por instantes, olharam-se nos olhos como se fosse acontecer algo mais. No entanto, não passaram do olhar. Sandrine interrompeu o momento, dizendo:

─ Preciso de um banho! Sinto-me imunda.

─ Queres que te leve a casa?

─ Tu não vives mais perto? ─ interrogou ela.

─ Vivo, mas tu...

─ Importaste que tome banho em tua casa?

─ Não. ─ negou ele, meio confuso.

Perto do carro dele, Sandrine sugeriu:

─ Estava a pensar em passar o Natal contigo. Que achas de um banho quente comigo? Podes lavar-me as costas ou... ─ sorriu-lhe trocista. ─ ...onde quiseres.

Jacinto abriu-lhe a porta do carro, engasgando-se com a sugestão do que poderiam fazer. Teve receio que ela interpretasse mal o que sentia por si. Estava atraido por ela, mas não a queria para sexo ocasional, queria-a para algo mais profundo, mais apaixonado. Ganhou coragem, respirou fundo e disse-lho.

Sandrine olhou-o nos olhos e envolveu-o com os seus braços, entregando-lhe um beijo apaixonado.

─ Este é o primeiro dia do resto da nossa vida! ─ disse-lhe. ─ Da nossa vida, juntos!
 

O dia continuava radiante, cheio de Sol e com um frio menos intenso que na véspera. Mário conduzia animado, já bem perto de Sesimbra, indiferente ao clima exterior, pois o seu ar condicionado protegia-o.

─ Não imaginas como fico feliz com o que me contas! ─ exclamou a sua avó, por entre o ruido da estática.

─ Ela é muito especial, avó.

─ Como é que se chama?

─ Joana.

Ao longo de toda a viagem, Mário viera a relatar as últimas vinte e quatro horas com todos os pormenores, desde que conhecera Joana. Notava-se no seu tom de voz e na forma como relatava os factos, como estava feliz.

─ Vou desligar, avó! Já estou perto.

─ Ficamos à tua espera.

Mário carregou no botão do telemóvel para terminar a ligação e continuou a conduzir pela estrada sinuosa. Não faltariam muitos quilómetros até entrar em Sesimbra.

No entanto, antes de chegar à localidade, Mário viu uma mulher pouco mais nova que ele, junto à estrada, acenando aos automobilistas. Os dois carros que seguiam à sua frente não lhe ligaram. A situação fê-lo recordar os acenos de Alfredo no dia anterior. Estava numa época de boas acções, pensou para si, quando tomou a decisão de parar perto dela.

Mal abriu a porta do carro, Mário sentiu a diferença de temperatura. Saiu do Audi A3 e fechou a porta, trancando-o. O vento soprava forte, muito mais forte que em Lisboa, o que não era estranho, estando ele no alto de um penhasco árido.

A mulher estava desesperada e o seu semblente revelava toda a apreensão e pânico que sentia.

─ O meu filho! O meu filho! ─ repetia-lhe, puxando-lhe o braço. ─ Ajude-me, por favor! O meu filho caiu ali.

Mário olhou para a direcção que ela apontara, um precipicio terrivel, bem perto do mar, com uma altura de mais de cinquenta metros. Mário conhecia bem o local, pois ia para lá, na sua juventude, olhar para o mar e para o horizonte longinquo.

─ O seu filho caiu? ─ perguntou Mário, vendo a confirmação da mulher e calculando que deveria estar morto. Já ia para dizer isso mesmo, quando a visão junto à berma do penhasco o surpreendeu. Os seus olhos nem queriam acreditar na sorte do miudo de cinco anos que se despenhara do topo da ravina, mas tivera a felicidade de aterrar numa pequena saliência da encosta, uns cinco metros mais abaixo do ponto onde eles estavam.

─ Por favor, senhor! Salve-o!

─ Tenha calma. ─ pediu Mário. ─ Já chamou os bombeiros?

─ Não! Não trouxe telemóvel. E ninguém parou até o senhor chegar.

Mário foi ao carro e retirou o telemóvel do suporte na consola entre os bancos da frente do carro. Regressou ao exterior e voltou a trancar o carro, lutando com as rajadas fortes de vento. Olhou para o aparelho e marcou o 112. Teve de esperar algum tempo até que alguém o atendesse e ele pudesse comunicar o que se passava. Tomaram nota da ocorrência e o individuo no centro de atendimento de chamadas informou Mário que iria seguir uma viatura para o local.

Ao desligar, Mário olhou para a mulher. Sem ter tido essa intensão, reparou que não era particularmente bonita e recriminou-a mentalmente por não ter tomado as devidas precauções, quando para ali levou a criança. Agarrada à cabeça com os cabelos a esvoaçar desordenadamente, ela mantinha-se à beirinha da ravina, olhando lá para baixo. Mário aproximou-se dela e foi observar o rapaz. Este permanecia em choque, encostado à parede da ravida com os pés bem apoiados na superficie da saliência. Mário pensou em chamá-lo e acalmá-lo, mas teve receio de o assustar e fazer cair.

O maior receio de Mário era o vento, demasiado forte para a estrutura fisica de uma criança presa numa saliência de um penhasco como aquele. Temia que as rajadas o fizessem desiquilibrar e o atirassem para uma queda fatal de cinquenta metros em direcção às rochas, junto à costa.

─ Que raio de ideia, trazer uma criança para aqui. ─ suspirou Mário, sem que a mulher lhe prestasse atenção.

Mário começou a analisar a ravina. Esta não era completamente ingreme, fazendo um ângulo de setenta ou oitenta graus até à saliência, cinco metros mais abaixo. Havia muita gravilha e pedras minusculas bastante traiçoeiras. Contudo, não lhe pareceram obstáculo a quem tentasse descer com precaução.

Não passara muito tempo, mas a impaciência pela chegada dos socorros triplicava a noção temporal. Mário não tirava os olhos da criança que abanava com cada rajada forte do vento que fustigava a encosta. Temendo um desfecho trágico, Mário tomou uma decisão.

─ Eu vou lá buscá-lo! ─ decidiu com firmeza.

A mulher olhou para ele, considerando uma loucura, aquilo que aquele desconhecido se propunha fazer. Ainda pensou em contrariá-lo, mas como talvez fosse a única hipotese de salvar o seu filho, ela calou-se e deixou-o ir.

Mário iniciou a descida, pateando ligeiramente cada pedaço de pedragulhos onde colocasse os pés. O vento parecia mais forte, ali. Talvez fosse só impressão ou maior sensibilidade devido ao medo. Evitava olhar para baixo, limitando a espreitadela ao local de aterragem da criança. As ondas roncavam fortes, embatendo na costa, o que o irritava mais, pois quebrava-lhe a concentração. Desceu o mais devagarinho que a prudência obrigou e tão rapidamente quanto o receio lhe permitiu. Ao fim de alguns minutos, alcançou a saliência e o miudo.

─ Estás bem? ─ perguntou-lhe.

A criança em choque não disse nada, mas abanou a cabeça afirmativamente. Mário reparou que ele não tinha lesões graves, revelando apenas alguns arranhões e escuriações.

─ Ele está bem! ─ gritou para a mulher que o olhava aterrorizada. ─ Vou levá-lo para cima.

─ Tenha cuidado! ─ exigiu ela, antes de desviar o olhar para a estrada.

Mário percebeu que mais alguém chegara. Por momentos, calculou ter sido algum carro dos bombeiros. Porém, não ouvira as sirenes e o homem que apareceu lá em cima, junto à berma, confirmou isso mesmo.

O homem demonstrou-me muito prestativo, dizendo logo:

─ Em que posso ajudar?

─ Tem alguma corda consigo? ─ perguntou Mário.

─ Não.

─ É melhor esperar pelos bombeiros. ─ sugeriu a mãe da criança.

─ Eu consigo levá-lo para cima. ─ argumentou Mário.

─ A senhora tem razão. ─ disse o homem. ─ É melhor aguardar pelos bombeiros. Eles têm material indicado para vos retirar daí em segurança.

─ Está muito vento, aqui. ─ ripostou Mário. ─ Tenho medo que possamos ser atirados lá para baixo, com a força do vento.

O homem olhou em frente, como se estivesse a observar o vento, e acabou por assentir com a cabeça, concordando com os receios de Mário.

─ Vamos subir! ─ avisou Mário. ─ Vou levá-lo à frente. Assim que estiver ao seu alcance, puxe-o!

O homem voltou a abanar a cabeça e inclinou-se ligeiramente, aguardando a escalada.

─ Anda, rapaz! ─ ordenou ele ao miudo. ─ Eu apoio-te e tu vais subindo devagarinho.

O rapaz hesitava várias vezes, antes de cada passo que dava, tremendo de medo e em pânico. Mário ia dando-lhe indicações de onde colocar os pés e onde se segurar. Apesar de nova, a criança acatava todas elas, consciênte de que o minimo deslize poderia custar-lhe a vida.

Aos poucos, foram subindo. Mário olhou para cima, apoiando a escalada da criança, e viu que o homem se deitara no chão para que os seus braços tivessem um alcance maior. Reparou também nas lágrimas desesperadas da mãe da criança, roendo as unhas frenéticamente.

Mal o miudo ficou ao alcance do outro homem, este agarrou-lhe a mão e puxou-o para cima, encaminhando-o para a salvação. Mário estava a meio caminho e alegrou-se por ter contribuido para o resgate bem sucedido. Nesse instante, começou a ouvir-se as sirenes de um veiculo de socorro dos Bombeiros Voluntários de Sesimbra. A criança correu para a mãe e o homem voltou a deitar-se no chão para ajudar Mário.

─ Venha! ─ exclamou ele. ─ Dê-me a sua mão.

Dissera-o de uma forma que parecia recear que Mário ficasse ali acampado. Contudo, Mário ficara relaxado com a constatação de que salvara a criança e enebriara-se com a chegada dos bombeiros que se aproximavam a toda a velocidade. Já se imaginava no meio de saudações heroicas e pensava na melhor forma de proferir frases como “não foi nada” ou “qualquer um teria feito o mesmo” ou ainda “não fiz mais que a minha obrigação”. Tudo numa falsa modéstia de quem esperava ser saudado vezes sem conta.

─ Venha! ─ gritou-lhe novamente o homem.

Ainda vou ser conhecido como o salva-vidas, pensou para si. Sorriu para si mesmo e congratulou-se por mais uma boa acção. Como sabia bem fazer coisas boas aos outros. Como poderia nunca ter percebido isso em tanto tempo.

O carro dos bombeiros parou atrás de um carro preto que estacionara atrás do Audi A3 de Mário. Após esse instante, Mário desviou o olhar daí para a mão do homem. Estendeu a sua e quase a agarrou, não fosse o seu pé ter escorregado na gravilha. Mário sentiu um arrepiu de pânico na espinha. Rapidamente percebeu o que estava a acontecer, sentindo o outro pé resvalar com o desiquilibrio do corpo. Mário caiu desamparado contra a encosta e sentiu o rosto ferir-se com as lascas afiadas das rochas. As suas mãos procuravam, desesperadamente, algo em que se agarrar, enquanto o corpo escorregava trágicamente pela encosta. Mário calculou que iria passar na saliência de onde viera e preparou-se para conseguir travar ali. No entanto, a saliência era demasiado pequena para travar a queda desamparada de um adulto. Mário sentiu a pancada forte nas costas, quando embateu na saliência. O impacto fê-lo saltar e continuar a cair. Ouviu os gritos da mulher. Começou a cair de pernas para baixo e viu lá no alto, a mulher, o homem e os bombeiros a ficarem mais pequenos. O impacto afastara-o da encosta, mas o ângulo de inclinação da falésia fazia-o aproximar-se das rochas novamente. Novo impacto, sentiu ossos a quebrarem-se e dores horriveis. Viu a vida a passar-lhe em frente aos olhos e a sua mente só via a imagem de Joana. Lamentava as coisas que fizera mal e a falta de tempo para as emendar. Sabia o seu destino e sabia que apenas a distância do fundo da encosta o separava da morte. Novo choque com as rochas. O corpo caia desamparado e o peso da cabeça fê-lo ficar de pernas para o ar. Os seus olhos viram a aproximação do solo rochoso, a grande velocidade. Porém, o ângulo de queda atirou-o novamente contra as rochas do declive. O último impacto fora brutal e fizera-o perder a consciência, pois a sua cabeça embatera na escarpa rochosa. Viu o aproximar de pedras afiadas e numa fracção de segundo tudo ficou negro, como se estivesse a ver um filme e tivesse faltado a luz, deixando uma realidade negra. Mário não sentiu mais nada.

As pessoas que testemunharam o acidente, no instante daquele último impacto, ouviram um som semelhante a um melão que é atirado ao chão, rebentando. Não era preciso ser um especialista no assunto para perceber que o embate fora fatal, pois o corpo já não se debatia nos últimos metros da queda, estatelando-se entre duas rochas enormes. Incrédulos, todos ficaram a olhar lá para baixo, para o corpo sem vida, fustigado pelas ondas do mar que investiam pelas rochas.

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